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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

milonga de andar longe

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adote um banqueirinho!

no ano de 2008, a bolsa de nova york foi a pique.

dias histéricos, dias históricos: os banqueiros, que são os mais perigosos assaltantes de bancos, haviam despojado suas empresas, embora jamais tenham sido filmados pelas câmaras de vigilância e nenhum alarme tenha disparado. e não houve maneira de evitar a derrocada geral. o mundo inteiro desmoronou, e até a lua teve medo de perder o emprego e se ver forçada a procurar outro céu.

os magos de wall street, especialistas em vender castelos no ar, roubaram milhões de casas e de empregos, mas um único banqueiro foi preso. e quando imploraram aos berros uma ajudinha pelo amor de deus, receberam, pelo mérito de seu labor, a maior recompensa jamais concedida na história humana. essa dinheirama teria bastado para alimentar todos os famintos do mundo, com sobremesa e tudo, daqui até a eternidade. ninguém pensou nisso.

eduardo galeano | os filhos dos dias (um calendário histórico sobre a humanidade), página 295


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[de: os dias de galeano]
canal encuentro 

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«muito faz o dinheiro, muito se há de amar;
do tolo faz discreto, homem de respeitar,
faz o coxo correr e ao mudo faz falar;
e o que não tem mãos bem o quer pegar.

também ao homem tolo e rude lavrador
dinheiros o convertem em fidalgo doutor;
quanto mais rico alguém é, maior é seu valor,
e quem não tem dinheiro não é de si senhor.

e se tens o dinheiro terás consolação,
prazeres e alegrias e do papa a concessão,
comprarás o paraíso, terás a salvação:
onde há muito dinheiro reina a «bendição».

em resumo o digo, para que entendas melhor:
o dinheiro é do mundo o grande motor,
faz do servo senhor e e servo do senhor
e tudo quanto existe se faz por seu amor.»

acipreste de hita
[de: o livro do bom amor,
também conhecido como livro de arcipreste ou livro dos cantares
primeira metade do século xiv]

•••••••••••••• paco ibáñez musicou este fragmento do livro do bom amor

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canta: paco ibánez
[con letra]

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«e tudo quanto existe se faz por seu amor.»
tudo não digo
tem duas coisa na vida
que não têm preço
uma, o amor
(o amor de verdade)
a outra é a solidariedade

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no final de 2008, depois de um ano em são luís, voltei para pelotas. quando cheguei, não tinha onde morar. com poucos dias na cidade, tive a sorte de cruzar com roger peres, um velho amigo da rádiocom. foi num domingo pela manhã. lembro como se fosse hoje.
  
 – bah, cara, quanto tempo... por onde tu anda? o que tu anda fazendo?
 – tô de volta... andei por são luís e tô atrás de uma casa pra morar.
 – tenho uma casa a meia quadra da avenida... o glenio tá morando nela, mas quer sair... preciso de alguém para ocupar o espaço.

(um pequeno grande parêntese:
na época, eu estava desempregado.
sempre tive ajuda da família, mas meu histórico recente não me ajudava muito.
todos achavam que minha volta era mais uma aventura, um devaneio...
e a casa — pra ser habitada por um casal cheio de planos e de sonhos — necessitava, digamos assim, de algumas pequenas reformas.
foi então que bati na porta do cfc senna e pedi mais uma chance.
a vida é engraçada: leva-se dez anos para construir uma imagem e menos de um para destruí-la.
meus últimos meses no cfc senna foram vergonhosos e deprimentes.
portanto, quando bati na porta, tinha tudo pra ouvir um não.
mas ouvi um sim.)

poucos meses depois.

– e aí, grill? o que tu anda fazendo?
– voltei a trabalhar no cfc.
– cara, esse ano o sindicato tá completando 80 anos...

foi assim que criamos — junto com a maria bonita comunicação — o documentário dos 80 anos do sindicato dos bancários de pelotas.

de tudo que já fiz, foi uma das coisas que mais me deu orgulho de realizar.

(o registro desse trabalho tá no link abaixo)

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roteiro, texto, trilha sonora e voz: enilton grill
imagens, entrevistas, concepção e direção: maria bonita comunicação
realização: ima / sindicato dos bancários

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segundo ouvi falar
o sindicato seguiu por outro caminho
não sei..
eu sigo no meu

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que longe está minha terra
e, no entanto, que perto
ou será que existe um território
onde os sangues se misturam

tanta distância e caminho
tão diferentes bandeiras
e a pobreza é a mesma
os mesmos homens esperam

eu quero romper meu mapa
formar o mapa de todos
mestiços, negros e brancos
traçá-lo ombro com ombro

os rios são como veias
de um corpo inteiro estendido
e é a cor da terra
o sangue dos caídos

não somos os estrangeiros
os estrangeiros são outros
são eles os mercadores
e os escravos nós outros 

eu quero romper a vida
como quisera mudá-la
ajude-me  companheiro
ajude-me não demore
que uma gota sendo pouco
com outra faz aguaceiro

👇

preguntas al azar (1) / milonga de andar lejos
daniel viglietti · mario benedetti
a dos voces

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«a bola que lancei quando brincava no parque ainda não tocou o chão.»

dylan thomas

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água de torneira

um dia, quando ainda era pequeno e brincava no chão de casa, a minha mãe se agachou na minha frente, colocou a sua mão em meu rosto e disse:

«meu filho, você vai passar por muitas coisas nessa vida, vai passar por momentos de tristeza e de desespero, mas vai sobreviver a todos eles, você vai ter momentos de muita alegria também e vai saber apreciá-los.

você vai carregar consigo algumas coisas que vai amar como poucas outras coisas, e, acredite, isso poderá ajudar algumas pessoas, até mesmo salvá-las de alguma forma.

mas sabe o que me preocupa?

meu receio é que não consiga salvar a si mesmo.

você vai viver no seu mundo, e, às vezes, ele vai pesar muito.»

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o diabo foi ao mar
escrever a história do mundo
mas não havia água
deus a tinha bebido

juan comodoro
buscando água, encontrou petróleo
mas morreu de sede

eu não sei quem vai mais longe
a montanha ou o caranguejo

pobrezinho meu patrão
pensa que o pobre sou eu

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[letra na descrição do vídeo]

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em março de 2020, passamos por circunstâncias complicadas no repecho, a seca castigou o rio grande do sul e a dificuldade para conseguir água foi imensa. o maior problema nem foi conseguir água potável, pois trazíamos do supermercado. o maior problema foi conseguir água para manter o aviário, um aviário com cerca de 100 galinhas, que recém tínhamos levantado. no início, eu subia o repecho e trazia água do poço. até que o poço secou. a solução, então, foi atravessar a estrada e trazer água do arroio. as galinhas começaram a morrer. a água era contaminada. quase perdemos tudo. ficamos com medo. mas agimos rápido e salvamos o aviário. diria o «filósofo»: «coragem não é ausência de medo; coragem é a capacidade de enfrentar o medo». 

em outras palavras: na beira do caminho sempre haverá cadeiras que nos convidem a parar. parar é fácil, difícil é continuar. 

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eu sou apenas um rapaz latino-americano
sem dinheiro no banco sem parentes importantes
e vindo do interior

mas trago de cabeça uma canção do rádio
em que um antigo compositor baiano me dizia
tudo é divino tudo é maravilhoso 

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[do álbum alucinação]
vídeo original

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em junho de 2026, com cinco cachorros. duas gatas e uma hérnia de disco, separado da vivi, voltei a morar na cidade. depois de procurar por parentes importantes, encontrei no amigo de longa data a solução para um problema que já há muito me acompanhava e que, em vez de diminuir, só aumentava. 

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quem tiver uma canção terá tempestade
quem tiver companhia, solidão
quem seguir o bom caminho terá cadeiras
perigosas que o convidam a parar
mas vale a canção a tempestade
e a companhia vale a solidão
vale sempre a agonia da pressa
mesmo que de cadeiras se encha a verdade

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[letra na descrição do vídeo]

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e as fotos e os cartazes?

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ainda em 2009, entrei em contato com daniel viglietti e realizamos, na bibliotheca pública pelotense, um tributo a mario benedetti. o lendário poeta uruguaio recém havia falecido. vivi trabalhava de secretária em um consultório médico, e eu andava pelas ruas de satolep, divulgando o evento. naquela época, já havia internet e redes sociais, mas eu, burro velho, ainda não havia me rendido aos seus encantos. a divulgação, portanto, foi feita através de jornais, rádio e pequenos panfletos distribuídos de mão em mão. panfletar, aliás, foi coisa que muito fiz na vida. o panfleto, pra quem não sabe, já foi uma das principais armas dos políticos. neste caso, porém, era para chamar atenção para um recital de música e poesia. nada melhor, então, que o pequeno papel contivesse um poema. e o poema foi escolhido a dedo. o trabalho de divulgação durou mais ou menos duas semanas. até que chegou o grande dia. depois de passar o dia divulgando o recital, fui buscar vivi no trabalho. o pôr do sol estava lindo aquele dia. quando cheguei, dei de cara com o patrão dela, dono da clínica e aproveitei para convidá-lo para o recital. eu já sabia que ele ia dizer não. mesmo assim, na tentativa de despertar nele algum interesse por poesia, recitei o poema que estava impresso no panfleto. com cara de quem não entendeu nada, ele olha pra mim e pergunta: -- de onde tu tira essas coisas, tchê?

o poema dizia

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e o céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos en la gente
e porque venceremos a derrota

grill

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cómo me cuesta afinar la guitarra,
organizar las seis cuerdas unidas
y de la lucha de sones contrarios
abrir camino cantando a la vida.

y tanto y tanto que hemos cantado,
y sin embargo poco, poco,
si se piensa el silencio que nos acecha.

bajo las cuerdas mi cuerpo desnudo,
vestido apenas de amor y preguntas.
no es el sonoro cantor de protestas,
es cuerpo en partes que nunca se juntan.

y tanto y tanto que hemos llorado,
y sin embargo poco, poco,
si se piensa en los muertos que nos dan vida.

contra el dolor, el olvido y el miedo
nuestra certeza porfiando en el alma;
quienes compartan la loca esperanza,
brújula o flecha de nuevo hacen falta.

y tanto y tanto que hemos luchado,
y sin embargo poco, poco,
si se miran los cuerpos que trae el río.

cuánto me cuesta esta nueva canción,
de la derrota crear primavera
en estas noches de ojos sin sueño,
en estos sueños de noches sin ojos
en que los buitres enormes abusan
de las parciales heridas del pueblo.

vamos haciendo la nueva canción,
de la derrota crear primavera.

y tanto y tanto que hemos perdido,
y sin embargo poco, poco,
y sin embargo mucho, mucho,
si se miran los ojos de un hombre digno.

vamos haciendo la nueva canción,
de la derrota crear primavera.
vamos haciendo la nueva canción,
crear primavera.

👇

daniel viglietti · mario benedetti
a dos voces
℗ 2000 ediciones tacuabe srl

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quinta-feira, 30 de julho de 2026


mestre jonas
[para flávia e jonas (in memoriam)]

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«prefiro falar de coisas impossíveis, porque do que é possível já se sabe demais»

silvio rodríguez

.

«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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«porque é exatamente isso
pra produzir um mundo novo
é preciso correr um risco muito grande
e ir não naquilo que é real
e não naquilo que é possível
a questão do pensamento é produzir o impossível
é produzir o impensável
ir além de todos os limites que nos foram dados
transgredirémuitomaisquetransgrediréproduzironovo
produzir a impossibilidade
uma força de ESTRANHAMENTO»

por claudio ulpiana

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ao vento

[escrito em 10 de março]

hoje no café, vivi me contava sobre uma colega que lê todos os dias passagens da bíblia, numa versão moderna, com linguagem atual, na qual a autora sempre termina o trecho com a frase: «quero ser luz e o sal da terra».

— não sei por que ela escreve «sal da terra» se é «sol da terra» — diz a colega para a vivi.

— tu nunca ouviu esse termo «sal da terra»? — pergunta vivi.

vivi, então, explicou para ela o significado de «sal da terra».

— que lindo! — disse a colega.

vivi saiu para a cidade, foi trabalhar e eu fiquei aqui com mais uma história para contar.

grill

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para meus alunos de tão poucos dias

foram cursos diferentes, identificados pelo mesmo espírito: o da invenção e o da criação. falei-lhes de amantes que só oferecem às suas amadas, o amor; o amor do corpo expressivo. falei-lhes de orquídeas, enamoradas de vespas e de pássaros que cantam para o crepúsculo. mostrei-lhes as trevas barrocas e os clarões. como um inconsciente livre das formas do hábito. os nossos cursos foram musicais, desde que a música seja aquilo capaz de tornar belo seja o que for. enfim. o nosso encontro ̶ encontro de corpos ̶ pertenceu ao reino do encantamento, mostrando que a filosofia é uma linha melódica tão poderosa, que produziu em nós um acorde, digo ou melhor, repito ̶ um acordo: o dos amantes do corpo expressivo, que só oferecem um ao outro, o amor.

a filosofia é uma tarefa criativa; uma festa de delírio lógico ̶ um excesso de entendimento. ensinei-lhes filosofia, a minha festa privada. quebramos os relógios, e tornamos as horas intensas; fizemos do tempo uma mistura de palavras lindas; fizemos do tempo um vazio, e o percorremos como se fôssemos cavalheiros do pensamento: mais exatamente, como se fôssemos exploradores das tempestades dos mundos possíveis. compreendemos a diferença entre forma e matéria-prima. construímos barreiras contra a tolice, tornando o nosso agenciamento algo gentil e inesquecível.

em qualquer momento da minha vida, sem questão, serei assolado, tocado pelas divinas cativas, as pequeninas almas que a presença de vocês deixou para mim, como meu cortejo.

agora que nos despedimos, retomo: a criança é uma matéria-prima; é uma potência; múltiplas forças em movimento. o que com ela, a criança, temos que fazer é entendê-la. aprender com ela, a criança, que ensinar é fazer uma viagem.

sinceramente,
claudio ulpiano

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a estrada

hoje estou no oregon, deixando portland para trás e viajando rumo ao sudoeste, atravessando verdes escuros e cinzas suaves e nevoentos no meu agradável casulo de ruídos de ônibus, na direção dos morros e vales amplos e suaves do norte da califórnia. sei exatamente onde estou, claro. neste país, são as árvores que te contam.

minha mente divaga, se detém num problema que estou tendo com a banda; depois volto a refletir sobre a história da minha vida. penso em pete barnbill, um amigo que fiz quando tinha uns treze anos. ele tinha um um violão. também tinha o que chamávamos de paralisia infantil, conhecida depois como poliomelite, que aleijou sua perna direita e encolheu o braço direito, o qual tinha quase a metade do tamanho do esquerdo. ele se adaptou bem. escrevi sobre ele no encarte do «american recordings»:

«com sua mão esquerda, ele fazia os acordes, enquanto tocava um ritmo perfeito com sua minúscula mão direita. pensei que, se pudesse tocar violão daquele jeito, algum dia cantaria no rádio.»

pete era uma inspiração em vários aspectos. eu nunca havia sido próximo de alguém que tocasse violão, com exceção da minha mãe, quando era muito pequeno. eu achava que ele era o melhor violonista do mundo. para mim ele era maravilhoso, e o som que fazia era puramente celestial.

um dia eu lhe disse: «sabe, pete, você tem paralisia infantil mas sabe tocar violão de verdade».

sua resposta me impressionu muito: «às vezes, quando você perde um dom, ganha outro».

daquele momento em diante, não pensei mais nele como um deficiente; pensava nele como alguém que tinha um dom. eu me entristecia quando os outros garotos riam de pete. eles o viam ir mancando pelos três ou quatro quilômetros que separavam sua casa da cidade e o imitavam. eu também o imitava, mas não daquele jeito: meu jeito de tocar violão vem dele, tocando a base e solando ao mesmo tempo.

pete, como eu, era louco por música --- foi a primeira pessoa que eu soube que também era assim ---, e nós dois éramos loucos pelo rádio. o rádio significava o mundo para nós, literalmente.

lembro-me claramente do dia em que compramos o nosso, encomendado pelo correio e adquirido com o dinheiro do empréstimo que papai tomou do governo no ano em que ele e roy começaram a limpar nossa terra. lembro da primeira canção que escutei, «hobo bill's last ride», de jimmy rodgers, e como a imagem de um homem morrendo sozinho num vagão congelante me pareceu tão real, tão familiar. lembro de meu pai indo para a cama todas as noites às 20h05, depois do noticiário, e gritar para mim e para jack: «ok, garotos, hora de ir para a cama! apaguem a luz! desliguem o rádio!» jack diminuía a intensidade de sua lâmpada a óleo e se debruçava sobre a bíblia. eu baixava o volume e encostava minha orelha direita no rádio. a música que ouvia se tornou a melhor coisa da minha vida.

mas meu pai não gostava nada disso. dizia: «você está perdendo seu tempo ouvindo esses discos no rádio. isso não é de verdade, sabe? essas pessoas não estão lá. é só um cara sentado tocando uns discos. porque você ouve essas coisas de mentirinha?».

eu respondia: «mas é tão real quanto foi no momento em que eles cantaram e gravaram o disco. é a mesma coisa».

«mas não é de verdade, é só um disco.»
«não importa. o som é bom. eu gosto.»
«bem, você está sendo enganado por essas pessoas, isso não vai te dar um sustento. você não vai fazer nada de bom enquanto tiver essa música na cabeça.»

eu odiava ouvir isso, mas talvez tenha servido a um propósito. queria muito provar que ele estava errado. e que minha mãe estava certa. ela percebia que a música estava em mim, assim como estava nela e tinha estado em seu pai, que lhe ensinou a harmonia a quatro vozes e era o cantor principal do coral da igreja. dizem que era um ótimo cantor.

lembro dele como um homem amável. ele e minha avó rivers eram almas boas, o sal da terra, muito estimados e respeitados pela comunidade.

cash - a autobiografia de johnny cash, p. 53, 54 e 55

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«deixa nascer, o amor
deixa fluir, o amor
deixa crescer, o amor
deixa viver, o amor
o sal da terra»

ronaldo bastos

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uma criança

há livros que se lê uma vez e depois joga-se fora. lidos, esgotaram o que tinham pra dizer. parecem-se com as piadas só fazem rir na primeira vez que são contadas. outros livros, entretanto, são como fontes. a fonte é a mesma. mas a água que dela brota é sempre fresca, sempre nova, sempre outra água. retornamos sempre às fontes. cada retorno é uma felicidade nova. na minha infância havia uma fonte, um buraco simples em forma de bacia, que me dava grande alegria visitar. não que eu estivesse com sede. apenas para me encantar. daquela fonte nem meu pai nem minha mãe ficaram sabendo. vocês são os primeiros a quem estou contando. que felicidade encontrei na minha infância, solto por espaços vazios de olhos adultos! os adultos estragam o mundo das crianças com os seus olhos. diante da fonte, minha amiga, eu estava sozinho, absolutamente sozinho. guimarães rosa, falando de sua infância, disse que ela foi muito gostosa. a única coisa que atrapalhava eram os olhos dos adultos que se intrometiam em tudo. livrou-se disso quando arranjou uma chave para o seu quarto. trancado, podia gozar livremente os seus devaneios. esses livros-fonte não são de diversão. são livros de encantamento. a sua leitura é como beber água da fonte, sempre. por isso sempre voltamos a eles.

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 108.

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— seu pai falava muito de você.
— é?
— dizia que você não tinha ambição.
— tinha razão.
— é mesmo?
— minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
— você é estranho.

bukowski

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ao vento

cada um se vê como quer
uns se veem brad pitt
eu me vejo johnny cash

grill

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«e por que não, enilton grill?»

martim césar

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eu tenho uma balada
para johnny cash...
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
e também um grande amigo
que ao ouvir tua canção
me diz que ser feliz
é dar moeda ao coração
e que atahualpa e bob dylan
estão comigo, meu irmão
pois tive um norte aí no sul
e tenho o sul no maranhão

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breve ensaio sobre a cegueira

[por enilton grill]

qual o pior tipo de cegueira? a de quem não vê porque não pode? a de quem não vê porque não sabe? ou a de quem não vê porque não quer?

há quem afirme que todas as pessoas que enxergam são cegas, pois vivem em um mundo que perdeu a visão, no sentido em que a televisão, ou qualquer outro meio de incomunicação, é quem propõe as imagens — imagens prontas — tirando-nos a possibilidade de vê-las com o olhar interior.

seja como for, a verdade é que vivemos hoje a caverna de platão, onde as sombras projetadas são tomadas como verdade, o que faz de nós cegos de nós mesmos, pois verdade é como sombra, cada um tem a sua.

a minha é a minha, a sua é a sua.

você não vê a minha, eu não vejo a sua.

na maioria das vezes, somos um pouco como avestruzes, quer dizer, não vemos porque não queremos ver.

mas, se puderes olhar, vê; se puderes ver, repara:
1 + 1 é sempre mais que 2.

a felicidade mora ao lado,
quem não é tolo pode ver.

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mestre jonas

um dia, jonas, lá com seus 17 ou 18 anos, me disse: conheci um bar com caçachas e cervejas artesanais...vamos lá?
falei: vamos.
estacionamos o carro e fomos camihando até o bar.
no caminho, me falou como era difícil ser diferente, q até gostaria de ir na boate como alguns colegas de escola, mas prefiria a companhia dos amigos do clube de leitura e que não podia ser diferente do que era.
então, falei pra ele q eu tb não tinha interesse nas boates, prefiria a roda de viola no laranjal...
jonas: é...chamam a gente de esquisito né mãe? mas chamar de esquisito é elogio!

flávia maurício

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e ele diz que se chama jonas
e ele diz que é um santo homem
e ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria
e ele diz que está comprometido
e ele diz que assinou papel
que vai mantê-lo preso na baleia
até o fim da vida
até o fim da vida
até subir pro céu


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canção de mim mesmo

o jonas de flávia é, em essência, o mestre jonas em sua juventude: alguém que já entendeu, bem cedo, a beleza de morar dentro de sua própria baleia.

o avestruz se esconde para negar a verdade.
a baleia é o refúgio consciente de quem enxerga a realidade.

grill

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pergunta que não quer calar:

há espaço para o sentido artístico no mundo pragmático atual? ainda podemos ser sujeitos autônomos e de criação num tempo de consumismo fugaz?

resposta: para quem está submerso no cotidiano, essas questões fazem pouco sentido. todavia, para espíritos inquietos, serão o ponto de partida na busca do "tornar-se aquilo que se é".»

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eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada, cheia de dentes
esperando a morte chegar
porque longe das cercas embandeiradas
que separam quintais
no cume calmo do meu olho que vê
assenta a sombra sonora dum disco voador

(legendado)

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fotos

cris valente
pelotas, 2026

.

vivi valente
repecho, 2020

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#américas
#jonaspresente

sexta-feira, 24 de julho de 2026


vá e não olhe para trás

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«vá, se mande, pegue tudo que você puder levar
as pedras do caminho, deixe para trás
esqueça os mortos, que eles não levantam mais
o vagabundo esmola pela rua
vestindo a mesma roupa que foi sua
risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor»

bob zimmerman

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ando contra o vento
amo mais o longe que o perto
minha vida não é um filme
é um livro aberto

vida, minha vida
resolvi falar da minha
cansei de ouvir falar
da vida dos outros

grill

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canção da estrada aberta

jamais vou esquecer o dia que peguei a estrada com os beatniks e me deixei levar. foi o dia que chamei whitman e saí a procura de mim. foi assim que conheci a história de martí, bolívar e san martin... botando o pé na estrada.

andando pela estrada, li as veias abertas e o canto geral. li galeano e li neruda. depois adentrei por gabriel garcía márquez, aldyr garcia schlee, ernesto sábato, octávio paz, rulfo, borges, cortázar e outros mais. conheci o cinema do cubano gutierrez alea e o cinema do argentino fernando solanas. conheci o teatro el galpón e ouvi o tarancón. ouvi as vozes de violeta parra e de victor jara. ouvi as ramilongas de vitor ramil e as milongas de alfredo zitarrosa. ouvi o bandoneón de piazzolla e o silêncio de atahualpa.

nesse dia, não aguentei, e tive que falar.

fui amigo de daniel viglietti. passei uma tarde com caymmi, almocei com bráulio lopez e jantei com pepe guerra. entrevistei león gieco, conheci uma filha do che e o filho de yupanqui. jantei com la negra (como isso su-ce-deu, nem eu sei), entrevistei e abracei el negro rada e conversei de perto com o príncipe da caatinga, elomar figueira melo.

belo. tudo muito belo.
então pensei: nada, não preciso mais nada.
que nada, parece mentira, peguei de novo a estrada.

dormi na rua e senti frio. não há nada mais triste /que um homem morrendo de frio. o pior frio é a frieza do ser humano. me trataram que nem cão sarnento. teve um dia que na lateral do quartel da brigada fui acordado a pontapé e borrachada. não esqueço, não perdoo.

nesse dia, lembrei de ednardo, eles são muitos, mas não podem voar.

tive a sorte de ter uma amiga, uma irmã de alma, que abriu as portas de sua casa pra me ajudar. sempre vou agradecer e pra sempre vou lembrar.

mas ainda não era a hora de aterrissar.

eu precisava ver meu pai, minha mãe, minha irmã e meu irmão. e foi o que fiz. voei rumo a são luís. foi lá, na ilha do amor e da poesia, ao lado da família, que a poeira começou a baixar. só então, vi de novo a estrada e retomei a caminhada.

por fim, cheguei onde queria chegar -- estou onde queria estar -- no dia que saí à procura de mim e me deixei levar.

isso é tudo? que nada
isso é nada
ainda tem muita estrada.

grill

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«dorme, que a vida é nada!
dorme, que tudo é vão!
se alguém achou a estrada,
achou-a em confusão,
com a alma enganada.»

fernando pessoa

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durmo muito pouco
quem dorme muito
cria pouco

grill

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vida não é filme?

um dos filmes mais bonitos e comoventes que vi em toda a minha vida foi cinema paradiso. quase todas as pessoas que conheço choraram em algumas partes do filme. eu chorei em quase todas. a cena que provocou lágrimas no maior número de espectadores é aquela na qual o velho, pai espiritual e sentimental do rapaz, que lhe ensinou quase tudo o que sabia da vida até então, diz a ele que se prepare para partir do vilarejo rumo à cidade grande: «vá e não olhe para trás; não volte nem mesmo se eu te chamar». o pai manda embora o filho adorado e «ordena» que vá em busca do seu caminho, do seu destino, dos seus ideais...

.

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tabacaria

fiz de mim o que não soube,
e o que podia fazer de mim não o fiz.
o dominó que vesti era errado.
conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
quando quis tirar a máscara,
estava pegada à cara.
quando a tirei e me vi ao espelho,
já tinha envelhecido.
estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
joguei fora a máscara e dormi no vestiário
como um cão tolerado pela gerência
por ser inofensivo
e vou escrever esta história para provar que sou sublime.

fernando pessoa

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ao vento

escrevi sem saber escrever
ensinei sem saber ensinar
falei sem saber falar
fui até onde minhas pernas puderam me levar
quase cheguei lá
mas ainda estou aqui
ainda me falta voar

grill

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pavão misterioso, pássaro formoso
tudo é mistério nesse teu voar
ai, se eu corresse assim
tantos céus assim
muita história eu tinha pra contar


••••••••••••••

sem grandes chances.
completamente desprovido de propósito.
ele era um jovem andando de ônibus pela carolina do norte a caminho de algum lugar.
e começou a nevar.
e o ônibus parou em um pequeno café nas montanhas.

lido por tom waits
(legendado em português)

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mais uma xícara de café
para seguir caminho
mais uma xícara de café
antes de pegar a estrada

👉 one more cup of coffee [valley below]| bob dylan (1975)
(legendado em português)

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essa estrada vai passar
pela vila da boa esperança
vai cruzar o município dos homens de fé
vai fazer da certeza o seu arraial
na cidade dos homens sem medo
vai fazer o seu ponto final

👉 estradas | zé geraldo (1980)

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fotos:

minifúndio café
pelotas 2007
autor desconhecido

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casa da cris
pelotas 2026
por cris valente

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quadro gerado por inteligência artificial

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#américas


domingo, 12 de julho de 2026


causas e «azares»

(ainda estou aqui)

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »
maria elizabeth gastal fassa

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«vivências que constroem história... título: VIDA!»

cris valente

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«são muito poucos os que ainda qurem ser rebeldes»

celso borges

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cafés com história

no café el cairo, que não está no egito e sim na cidade argentina de rosário, roberto fontanarrosa, desenhista e escritor, tem sua mesa. ele morreu faz anos, mas jamais deixou de comparecer. e sempre acompanhado por seu cão mendieta e seu amigo inodoro pereyra, criados por ele.

no café tortoni, de buenos aires, foi fundado o primeiro grupo de artistas e escritores argentinos.

a academia brasileira de letras, presidida pelo romancista machado de assis, se reunia no café colombo, do rio de janeiro.

no café paraventi, na cidade de são paulo, olga benário e luiz carlos prestes imaginavam a revolução brasileira.

nos tempos do exílio, trotski e lênin discutiam a revolução russa no café central, em viena.

algumas obras primas do poeta português fernando pessoa foram escritas no café a brasileira, de lisboa.

enquanto nascia o século vinte, pablo picasso fez a exposição de suas obras no café els quatre gats, de barcelona.

em 1894, o escritor ferenc molnár jogou nas águas do danúbio, as chaves do café new york, de budapeste, para que ninguém trancasse a porta.

em 1921, foi inaugurado em chicago o sunset café, onde louis armstrong e benny goodman abriram as asas da sua música.

eduardo galeano | o caçador de histórias, p. 57 e 58.

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qual é a relação que as causas e os «azares» (acasos) têm para você? existe destino para você? existe casualidade?

silvio rodríguez: – a casualidade e a «causalidade», as duas coisas. eu acredito em ambas. em última análise, e em grande medida, são elas que movem a todos nós, não é? ou seja, um segundo que você demora para se barbear ou para pegar algo e olhar, é um segundo que passa, é uma chance que você usou ou desperdiçou. cada instante está cheio disso, cada instante da vida é um pouco isso, não é? é como a urdidura completa que faz todo o tecido da existência.

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*urdidura: fios longitudinais de um tear.

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«a casualidade não existe, o que nos é apresentado como acaso surge das fontes mais profundas»

friedrich schiller

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a causalidade é bem conhecida do pensamento cartesiano de causa e efeito.
entretanto alguns acontecimentos em nossas vidas escapam dessa lei.
são aqueles fenômenos que por vezes tomamos por simples coincidência, mas que escapam de qualquer explicação lógica.
a esses fenômenos carl jung vai chamá-los de sincoronicidade.

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«sincronicidade é a união de eventos internos e externos de uma maneira que não pode ser explicada por causa e efeito e que seja significativa para o observador.»

carl jung

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«enilton, irmão lindo da alma!

tu és um desses rebeldes, e como!

são oportunidades que vêm por períodos e momentos — quiçá, às vezes, predestinados ou seriam sincronicidades? essas de te encontrar vez ou outra por aqui e sempre me inspirares e me remeteres a reflexões.

caminho pouco por aqui. a juliana diz que não sei me divertir no facebook (e cumprir a função a que ele se destina). é que, quando entro, tropeço em tantas estupidezes que sempre decido sair... mas fico. acho que é também para te encontrar, ver e ler...

tchê, como diz um poeta alemão, tu és um cara realmente imprescindível e necessário para todos nós que lutamos por «um outro mundo possível».

obrigado por me inspirares a ter fé na eterna rebeldia.»

ubirajara cunha

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ao vento

não sei nada de campo e cidade
sei de prantos e reciprocidades
sei de santos e sincronicidades

grill

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quando acabar este verso que canto
eu não sei ― yo no sé, madre mía ―
se me espera a paz ou o espanto,
se o agora ou se o ainda.
pois as causas estão me cercando
cotidianas, invisíveis.
e o acaso vem se enredando em mim
poderoso, invencível.

causas y azares | silvio rodríguez (1986)

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«nada é coincidência...
ninguém cruza o seu caminho por acaso.
alguns chegam como espelhos.
outros como remédio.
outros como mensageiros que você só reconhecerá quando a lição finalmente se revelar.
cada encontro transforma alguma coisa: uma crença, um limite, uma versão de você que precisava morrer para que outra pudesse renascer.
o momento nunca é aleatório.
a alma orquestra aquilo que a mente não consegue explicar.
por isso, preste atenção em quem aparece quando você acha que já terminou de crescer.
essa pessoa pode ser o lembrete, o gatilho ou a chave que abrirá a próxima porta.»

scarlet seixas

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«quantas vezes a gente, em busca da ventura,
procede tal e qual o avozinho infeliz:
em vão, por toda parte, os óculos procura,
tendo-os na ponta do nariz!»

mario quintana

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«nada posso lhe oferecer que não exista em você mesmo. não posso abrir-lhe outro mundo além daquele que há em sua própria alma. nada posso lhe dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave.»

hermann hesse

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«e de repente
o resumo de tudo é uma chave.
a chave de uma porta que não abre
para o interior desabitado
no solo que inexiste,
mas a chave existe.»

carlos drummond de andrade

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«eu sinto como que se tudo que eu tivesse feito na vida
foi pra encontrar um caminho
pra chegar até aqui
e te conhecer.»

de clint eastwood para meryll streep | em «as pontes de madison»

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dói na alma
por isso choramos,
mesmo depois de termos visto essa cena (link abaixo) infinitas vezes.

a gente sempre espera que dessa vez a chave funcione
que a maçaneta gire na caminhonete sob a chuva forte,
que francesca finalmente abra a porta e mude o destino.

et à la fin... sur la route de madison │ tcm cinéma
(clique no link acima)

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caminhos de si

«a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida», dizia o poeta. por isso, é preciso que estejamos receptivos e atentos ao mundo ao nosso redor, pois «a todo instante rola um movimento, que muda o rumo dos ventos». de repente, do nada, o amor bate à porta. e descobrimos que ele é a chave. a chave mestra? a chave para si mesmo.

no entanto, contudo, todavia...

«é preciso viver para ver
como soube crescer
tanto mistério na flor

é preciso viver para ver
como é difícil saber
que signo carrega o amor»

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jungianas

dos sinais:
guias.

dos símbolos:
definições.

da vida:
estrada aberta.

da morte:
verdade absoluta.

grill

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há uma canção que se vai quando chego
suspeito que seja um tema total
uma chave-mestra de todos os jogos
um pássaro eterno e um sol colossal

há uma canção que me esconde seu fogo
há uma canção que será meu final

que signo lleva el amor | silvio rodríguez (1984)

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fotos:

casa edmundo berchon
pelotas, janeiro de 2009

minifúndio café
pelotas, novembro de 2007

condomínio caravelas
são luís, novembro de 2008

ubirajara cunha e eu
minifúndio café
novembro de 2007

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sua respiração é doce
seus olhos são como duas jóias no céu
sua postura é ereta, seu cabelo é macio
no travesseiro onde você repousa
mas eu não sinto afeição
nem gratidão nem amor
sua lealdade não é por mim
mas para as estrelas do céu

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

seu pai é um foragido e um traficante
ele te ensinou como selecionar e escolher e atravessar uma faca
ele supervsiona seu reino e assimnenhum estranho se intromete
sua voz treme e ele reclama por mais um prato de comida

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

sua irmã prevê o futuro assim como você e sua mãe
você não sabe ler nem escrever
não há livros na sua estante
e seu prazer não conhece limites
e sua voz soa como a de uma cotovia
mas seu coração é como um oceano
misterioso e sombrio

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

one more cup of coffee | bob dylan (1975)

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#carpe diem
#bom domingo