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quarta-feira, 30 de setembro de 2026


educação da tristeza

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

maria elizabeth gastal fassa
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«a literatura acontece em todos os sentidos e não se inibe perante verdades ou mentiras. usa tudo, como alarve sem limites senão os da sua própria imaginação, a vontade de se instalar como substututa absoluta da vida. por vezes, a literatura tange a vida como se até nós nos confundíssemos, baralhados entre o que é verdade e o que parece verdade, seguindo por vias paralelas, permitindo viver numa fantasia cujo aparato nos apetece ou mais conforta.»
valter hugo mãe 

♦ 

«a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»

manoel de barros

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por que cresceste, curuminha
assim depressa, e estabanada
saíste maquilada
dentro do meu vestido
se fosse permitido
eu revertia o tempo
pra reviver a tempo
de poder

te ver, as pernas bambas, curuminha
batendo com a moleira
te emporcalhando inteira
e eu te negar meu colo
recuperar as noites, curuminha
que atravessei em claro
ignorar teu choro
e só cuidar de mim

deixar-te arder em febre, curuminha
cinquenta graus, tossir, bater o queixo
vestir-te com desleixo
tratar uma ama-seca
quebrar tua boneca, curuminha
raspar os teus cabelos
e ir te exibindo pelos
botequins

tornar azeite o leite
do peito que mirraste
no chão que engatinhaste, salpicar
mil cacos de vidro
pelo cordão perdido
te recolher pra sempre
à escuridão do ventre, curuminha
de onde não deverias
nunca ter saído

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(chico buarque, 1979)
mônica salmaso e chico 
(ao vivo)

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eduacação da tristeza
novos anos e, afinal ainda não há colônias na lua, não se fala com extraterrestres, não temos casas que mudam de posição conforme o sol, não somos nada teletransportados.

tudo quanto nos prometeram para o já distante ano 2000 foi mentira. ao invés disso, arranjaram a internet para imitar a realidade e convidar a uma cidadania de fantasia. na fantasia final, podemos elaborar sobre a felicidade, o bem-estar, o amor correspondido.
estamos cada vez mais entregues a essa dimensão sucedânea que nos mente uma compensação que não procede. os anos parecem só ser novos nessa transferência cada vez mais intensa e trágica que fazemos do que é verdade em prol daquilo que é mentira.

aceitamos a mentira, preferimo-la, vamos concebendo sua dignidade e sua necessidade. Por causa da poesia, do que ainda há de arte, de uns poucos amigos e da possibilidade de chegarem a mais primaveras e verões, estarei invariavelmente do lado da esperança, mas convicto de que espero assuzinhado, porque me parece que menos pessoas esperam algo que não seja apenas pior, menos bom, mais difícil.»
valter hugo mãe

♦

ao vento

no meio do caminho tinha uma «cadeira»
tinha uma «cadeira» no meio do caminho
tinha uma «cadeira»
no meio do caminho tinha uma «cadeira»

grill

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en el borde del camino hay una silla,
(na beira do caminho há uma cadeira,)
la rapiña merodea aquel lugar.
as aves de rapina sobrevoam aquele lugar.
la casaca del amigo está tendida,
(o casaco do amigo está estendido,)
el amigo no se sienta a descansar.
(o amigo não se senta a descansar.)
sus zapatos, de gastados, son espejos
(seus sapatos, de tão gastos, são espelhos)
que le queman la garganta con el sol.
que lhe queimam a garganta com o sol.
y a través de su cansancio pasa un viejo
(e, em meio ao seu cansaço, passa um velho)
que le seca, con la sombra, el sudor.
(que lhe seca, com a sombra, o suor.)

en la punta del amor viaja el amigo,
(na ponta do amor viaja o amigo,)
en la punta más aguda que hay que ver.
(no ponto mais agudo que se pode ve.)
esa punta que lo mismo cava en tierra,
(esse ponto que tanto escava na terra
que en las ruinas, que en un rastro de mujer.
(quanto nas ruínas, quanto em um rastro de mulher.)
es por eso que es soldado y es amante,
(é por isso que é soldadado e e é amante,)
es por eso que es madera y es metal.
(é por isso que é madeira e é metal.)
es por eso que lo mismo siembra rosas,
(é por isso que tanto semeia rosas
que razones de banderas y arsenal.
quanto razões de bandeia e arsenal.)

el que tenga una canción tendrá tormenta,
(quem tiver uma canção terá tempestade,)
el que tenga compañía, soledad.
(quem tiver companhia, solidão.)
el que siga buen camino tendrá sillas
(quem seguir o caminho certo encontrará cadeiras)
peligrosas que lo inviten a parar.
(perigosas que o convidem a parar.)
pero vale la canción buena tormenta,
(mas a boa canção vale a tempestade)
y la compañía vale soledad.
(e a companhia vale a solidão.)
siempre vale la agonía de la prisa,
(sempre vale a agonia da pressa,)
aunque se llene de sillas la verdad.
(mesmo que se encha de cadeiras a verdade.)

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(silvio rodríguez, 1969)

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«a bola que lancei
quando brincava no parque
ainda não tocou o chão»

dylan thomas

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¡pero eso sí!
y en esto soy irreductible no les perdono,
bajo ningún pretexto,
que no sepan volar¡

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(sobre poemas de mario benedetti e outros)

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«penso que existo numa ideia antiga que pessoas calmíssimas terão deixado ao mundo. sou essa ideia dessas pessoas mortas e generosas. só tenho de esperar entender essa ideia. deixá-la intensa, não para saber que livro escrevo. mas para saber quem sou. e, então, escrevo.»
valter hugo mãe

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cores e valores
por josé falero

na linha pontilhada vou indo, indo, indo
na terra cujo herói matou um milhão de índios
pelas marginais os pretos agem como reis
gostar de nós, tanto faz, tanto fez
me degradar pra agradar vocês? nunca!

cores e valores, racionais mc’s

«e o recepcionista do hotel que achou que eu não era hóspede?»

recebi essa mensagem da dalva, minha namorada. não existe tom em texto. pelo escrito, eu não tinha como saber qual era o estado de espírito da dalva naquele momento. a Dalva, então, mandou mais mensagens:

«fui deixar uns livrinhos para uma leitora que vai vir buscar no hotel.»
«o recepcionista fez uma cara ruim e perguntou se a pessoa que viria pegar os livrinhos era hóspede.»
«eu disse que eu era a hóspede.»
«e ele: "ah, tu é hóspede?".»

dalva é escritora independente. e lá estava ela, num hotel em porto alegre.

recorri ao meu último lançamento em são paulo para responder à dalva. comentei que estive hospedado em um hotel tão pomposo quanto aquele e que também houve suspeitas quanto à minha condição de hóspede. três pessoas pensaram que eu estava lá para realizar algum tipo de trabalho braçal. tudo isso durante o tempo que levei para fumar um cigarro.

fui a um bar. queria ficar quieto um pouco, olhando para o nada e pensando na conversa que a gente tinha acabado de ter.

«ah, tu é hospede?»

conheço constrangimentos assim muito bem. já amarguei situações semelhantes muitas vezes desde que me tornei escritor e passei a circular por espaços que historicamente não foram reservados para pessoas como nós. em geral, porém, a verbalização involuntária do que pensam e sentem a nosso respeito não é, em si, o que mais me incomoda. tal verbalização não passa de uma pequeníssima cereja; o restante do bolo, que é tácito, me perturba muito mais. o recepcionista deixou escapulir por acidente aquilo que passou não só pela sua mente e pelo seu coração, mas pela mente e pelo coração de todos, absolutamente todos os que cruzaram com a dalva naquele hotel. todos. do funcionário ao hóspede. e esse é o problema real.

enquanto bebia a minha cerveja, lembrei de um episódio do chapolin colorado: a vendedora de flores. trata-se de uma paródia de my fair lady, que é uma adaptação da peça pigmalião, que se baseia no mito de pigmalião.

o sentido da história é a insinuação de que a expectativa que temos a respeito da realidade, antes mesmo de a realidade em si se manifestar, determina como a realidade vai se manifestar depois.

lembrei de finado neguin, do álbum cores e valores:
quem, quem permitiu?
deus dirigiu esse filme
dizem: crime é o rap
dizem: rap é o crime
dizem: rap é o crime
você diz, você decide
o resto só coincide
e aí temos tudo: como causa, a expectativa e, como efeito, a realidade. o classicismo e o racismo fazem com que o rap seja percebido antecipadamente como sinônimo de criminalidade; a mentalidade espera que a realidade coincida com a sua visão de mundo; e a realidade de fato costuma coincidir.

robert rrosenthal e lenore jacobson conduziram um estudo sobre como as expectativas afetam o desempenho e deram o nome de efeito pigmalião; já robert k. merton preferiu batizar o fenômeno de profecia auto-realizável, porque quem faz a profecia é, na verdade, quem a faz acontecer.

e no caso da dalva, também coincidiu. ciente de que não era avaliada como hóspede por ninguém naquele maldito hotel, ela não conseguiu comportar-se como tal. passou todos os dias da hospedagem encerrada no quarto. não queria ser vista por ninguém, não queria interagir com ninguém. não queria ser submetida ao constrangimento infalível que um lugar como aquele provoca em uma pessoa como ela.

mas pensar sobre essas coisas todas só me fez perceber o quanto dalva é mesmo uma figura incrível. ao longo de sua trajetória, nunca, em nenhum momento, dalva deixou de ter sobre si o peso do machismo, do racismo, do classicismo, tudo isso a esmagá-la. do que essa mulher não seria capaz em uma sociedade mais justa?

a grande sacada do episódio do chapolin colorado foi trabalhar a ideia da troca horizontal entre os participantes de um processo de transformação. no final, o homem que transformou a vendedora de flores agora fala gírias e veste-se de maneira desalinhada. por que prontamente imaginamos que, nessa troca, o homem foi prejudicado e ela beneficiada? essa é a lente do classicismo.

certa vez, dalva me disse que a minha camisa polo não tem o poder de me transformar no joão dória. a camisa depõe menos a favor da minha figura do que a minha figura contra a camisa. eu e a camisa estamos em relação, e nessa relação eu desfalco muito mais o valor simbólico da camisa do que a camisa consegue acrescentar valor simbólico a mim.

a marca da minha camisa polo depõe menos a meu favor do que eu contra ela; o hotel de luxo depõe menos a favor da dalva do que a dalva contra ele. na verdade, esse fenômeno ocorre até mesmo aqui, neste texto.

um texto escrito por mim jamais vai depor a meu favor tanto quanto eu deponho contra ele. um texto escrito por mim sempre parecerá menos bom do que realmente é, porque fui eu que o escrevi, porque o escrevi com a minha mão parda, porque o pensei com a minha cabeça mestiça, porque o construí com as minhas referências populares, porque o concebi com o ódio perpétuo dos oprimidos. sim, eu deponho contra o meu próprio texto. toda a literatura contemporânea parece menos valorosa porque uma pessoa como eu escreve e publica, porque uma pessoa como dalva escreve e publica. não acreditam que somos hóspedes? no fundo, também não podem acreditar que somos escritores.

embora, é claro, alguns saibam disfarçar melhor do que outros.
(texto escrito para a bienal do mercosul 2025)

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eu venho de um recanto escuro
o sol, luz perpendicular
do outro lado azul do muro
não vou saltar

eu chego às portas da cidade
e nada procuro fazer
espero, nem feliz nem gaia
acontecer

não salto, mas sou carregada
por asas que a gente não tem
a luz não me fulmina os olhos
nem vejo bem

em breve, só saio de noite
a lua não me rasga o peito
cool jazz me faz feliz e só
não tenho jeito

o álcool só me faz chorar
convidam-me a mudar o mundo
é fácil, nem tem que pensar
nem ver o fundo

o chão da prisão militar
meu coração, um fogareiro
foi só fazer pose e cantar
presa ao dinheiro

mas é sempre o recanto escuro
só deus sabe o duro que eu dei
mulher aos prazeres, futuro
eu me guardei

coisas sagradas permanecem
nem o demo as pode abalar
espírito é o que, enfim, resulta
de corpo, alma, feitos, cantar

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(gal, 2011)

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de volta a valter hugo mãe
(ao seu comovente livro)

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em 27 textos de não ficção, a maioria bem curtos, o autor traz reflexões íntimas e profundas sobre morte, luto, a passagem do tempo, como lidar com a presença e ausência das pessoas queridas que partem, além de filosofar sobre o sentido do amor e da vida. numa edição muito bem cuidada, em que os textos são ilustrados pelo próprio autor, na orelha do livro, os editores afirmam que «com rara autoconsciência, educação da tristeza é o cantinho escuro do quarto onde valter se sente livre para rir de si mesmo, brincar, chorar, sentir saudades e, acima de tudo, se abrir para mostrar seu lado mais humano, falível e belo justamente por ser assim».
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impossível não se comover com a profundidade das reflexões do escritor português. a morte motivou a criação deste livro, mas valter hugo procura refletir sobre como continuar a viver apesar da dor. e vê na perda da amiga e do sobrinho este ensinamento.

«estás na morte. digo que estás na morte porque sinto que é um lugar onde ainda vou chegar, quando descobrir o caminho, entender o mapa.
eu penso que a morte é um lugar por dentro de nós, um território mapeado no caminho interior que todos temos e tememos.»

«o eduardo passou mais de dois anos a ensinar a mais limpa e generosa arte de morrer. os gênios, como ele se tornou, educam até a morte, educam até deus.
o eduardo alcançou a sapiência. viu a grandeza da vida, entendeu o sentido. no tabuleiro da vida, onde se busca o sentido, ele não perdeu. ele entendeu.».
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apesar da radicalidade da perda que é a morte, as duas lições são extensíveis a tantos outros motivos de tristeza passíveis de serem erradamente interpretados com os filtros das distorções cognitivas: uma amiga que nos desilude; uma relação que termina; o retorno que (não) temos das coisas que fazemos, o qual nem sempre coincide com o tempo e o esforço que lhes dedicamos… podemos ter feito tudo o que está ao nosso alcance para evitar que estas coisas aconteçam, e mesmo assim elas acontecerem. isso não significa necessariamente, nem que tenhamos culpa, nem que só aconteça conosco, nem que nunca mais consigamos ser felizes. aceitar e reconfigurar não se trata de criar ficções a propósito das perdas e das desilusões, trata-se de não acrescentar um problema ao problema. mas o problema é que o problema insiste, persiste.
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o problema senhor
segue sendo semear amor

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(silvio rodríguez, 1991)

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vida que segue

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«não importa o que fizeram com você. o que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você»
jean-paul sartre

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cartas a théo
é verdade que ora ganhei meu pedaço de pão, ora ele me foi dado por bondade de um amigo; vivi como pude, nem bem nem mal, como dava; é verdade que perdi a confiança de muitos, é verdade que meus assuntos financeiros estão em um estado lastimável, é verdade que o futuro parece bastante sombrio, é verdade que eu poderia ter feito melhor, é verdade que eu perdi tempo quando se tratava de ganhar a vida, é verdade que meus estudos estão em um estado lamentável e desesperador, e que minhas necessidades são maiores, infinitamente maiores do que meus recursos. mas vocês chamam isso de cair, de não fazer nada?

eis como eu vejo a coisa: continuar, continuar, isso é que é necessário.
van gogh, julho de 1880

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ao vento 

a cor preferida de van gogh era o amarelo.
o que começou com pontinhos foi se tornando um grande sol.

«ponho o sol no ombro
e o mundo é amarelo».

grill

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y el señor dijo a abraham:
abandona tu tierra natal
y la casa de tu padre,
y ve al país que yo te indicaré.
haré de ti una gran nación,
te bendeciré
y por ti se bendecirán todos los pueblos de la tierra.
el señor dijo a abraham.
esa bella y sabia orden,
fue la que convenció a mi corazón
a decidir que el mundo fuese mi casa.
el mismo mundo que puso
al alcance de mi espíritu
la canción que me refleja
como ningún espejo.

no soy de aquí, ni soy de allá
no tengo edad, ni porvenir
y ser feliz es mi color de identidad.

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(facundo cabral, 1970)
introducción: poema «el caminante»

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quinta-feira, 17 de setembro de 2026


utopia e barbárie
(orgasmos da história)
[em memória de soledad barret]

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(trailer)

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(memorial da democracia)
trecho: 1968
1:42

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ontem
na fisioterapia
mauricio e eu falávamos
sobre a situação pela qual o país passa
que há uma normalização da tragédia e da desgraça
que nada mais nos surpreende e que tudo mais perdeu a graça

♦

olha que coisa mais linda, mais cheia de graça.
é ela, menina, que vem e que passa.
num doce balanço a caminho do mar.

moça do corpo dourado, do sol de ipanema
o seu balançado é mais que um poema
é a coisa mais linda que eu já vi passar

(canal 100)

♦

regressarei os meus sapatos por copacabana
na mão direita o sangue de uma história italiana
escorregar um tango numa casca de banana
quando cair só vou lembrar da tua risada sacana

(vitor ramil, 1987)

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todos são iguais perante a lei
sem distinção de qualquer natureza
garantindo-se ao brasileiros e estrangeiros residentes no país
a inviolabilidade do direito
à vida
à liberdade
à igualdade
à segurança e à propriedade

mas, você se quiser
pode cagar nesse artigo
e, se tiver poder
pode cagar nessa constituição
que dá nada

leo aprato/ian ramil, 2015
[a partir do "caput" do artigo 5º da constituição federal do brasil de 1988]

♦

os filhos dos dias
soledad, a neta de rafael barrett, costumava recordar uma frase do avô:
– se o bem não existe, é preciso inventá-lo.
rafael, paraguaio por escolha própria, revolucionário por vocação, passou mais tempo na cadeia que em casa, e morreu no exílio.
a neta foi crivada a balas no brasil, no dia de hoje de 1973.
o cabo anselmo, marinheiro insurgente, chefe revolucionário, foi quem a entregou.
cansado de ser perdedor, arrependido de tudo o que acreditava e gostava, ele delatou um por um de seus companheiros de luta contra a ditadura militar brasileira, e os despachou para o suplício ou o matadouro.
soledad, que era sua mulher, ele deixou para o fim.
o cabo anselmo apontou o lugar onde ela se escondia e foi-se embora.
já estava no aeroporto quando ouviram-se os primeiros tiros.
eduardo galeano, pg 21

♦

con un grafo (picho)
ela escreve nas paredes «resistir»,
cachecol rubro-negro pelas costas,
minifalda (minissaia),
anaclara.

(daniel viglietti, 1978)

♦

la muchacha de mirada clara,
cabello corto,
la que salió en los diarios;
no sé su nombre, no sé su nombre.
pero la nombro: primavera.
pero la veo: compañera.
pero yo digo: mujer entera.
pero yo grito: guerrillera.

(daniel viglietti, 1971)

.

noção de pátria

quando resido neste país que não sonha
quando vivo nesta cidade sem pálpebras
onde no entanto minha mulher me entende
e onde ficou minha infância e envelhecem meus pais
e reconheço meus amigos de calçada em calçada
e posso ver as árvores da minha janela
esquecidas e torpes às três da tarde
sinto que algo me cerca e me oprime
como se uma sombra espessa e decisiva
descesse sobre mim e sobre nós.

quando retorno a esta cidade sem lágrimas,
que se tornou egoísta depois de ter sido tão generosa,
que perdeu o ânimo sem tê-lo esgotado,
penso que finalmente chegou o momento
de dizer adeus a algumas presunções,
de me afastar, talvez, e falar outras línguas,
onde a indiferença seja uma palavra obscena.

mario benedetti

.

ao vento

esposa não há
meu pai já não está
miha mãe envelhece
mas em outro lugar
a juventude vi escorrer
na corrente de um açude
caminho hoje pelas ruas de satolep 
como um ilustre desconhecido
escrevo, escrevo, escrevo
quanto mais escrevo, 
menos sou lido 
em meio a todos
sou ninguém
o que não é nada mal
só me faz bem

grill 

.

– seu pai falava muito de você.
– é?
– dizia que você não tinha ambição.
– tinha razão.
– é mesmo?
– minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
– você é estranho.

bukowski

.

autoepitáfio

alguns dizem que morri de pena
na verdade não me lembro
sei que havia uma nuvem branquíssima no céu
e uma ave errante que deixava pegadas
e me parece que eram de alegria

outros sustentam que morri de gozo
eu também não me lembro
sei que havia um pintassilgo encantado com seu canto
e un salgueiro que avaliava com a chuva
seu confronto de lágrimas prolixas

sim lembro-me que havia conhecidos
gente expansiva orgulhosa como poucas
falavam do mercado de ações
de arte culinária / de informática
de futebol / de tabernas / de anistias

de repente chegou um sopro de silêncio
tudo ficou em um coro de calados
olharam-se perplexos porque no meio
daquela vanglória do nada
una muchacha pronunciou meu nome.

mario benedetti

.

uma coisa aprendi junto a soledad: que o choro há que empunhá-lo, transformá-lo em canto.

janeiro quente, recife, silêncio cego
as cordas até esqueceram o guarani
aquele que pronunciavas em teus caminhos
de muchacha andante
semeando justiça
onde não há
onde não há

outra coisa aprendi com soledad: que a pátria não é um único lugar. como o libertário avô do paraguai, cresceu buscando a trilha, e o uruguai guarda a doce pegada dos seus passos quando busca o norte, o norte do brasil, para lutar, para lutar. uma terceira coisa nos ensinou: o que um não consegue, dois conseguirão. em algum lugar do vento ou da verdade está a solidão com todo o seu sonho. ela não quer palavras longas nem aniversários; seu dia é aquele em que todos digam, armas na mão: «pátria, rojaijú». rojaijú: eu te amo (em guarani)

(daniel viglietti, 1972)

♦

eu só peço a deus
que a injustiça não me seja indiferente
pois não posso dar a outra face
se já fui machucado brutalmente

(león gieco, 1978)


♦

antes do fim

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em 8 de janeiro de 1973, anselmo — que entrou para a história brasileira como uma das figuras mais execráveis do período — delatou vários companheiros à ditadura. entre eles estava a sua própria companheira, soledad, grávida de quatro meses de um filho dele.

em depoimento à comissão especial sobre mortos e desaparecidos políticos, a advogada mércia de albuquerque relatou que o corpo de soledad foi encontrado em um barril, com quatro tiros na cabeça e o feto de seu filho no fundo. apesar de identificada, a militante foi sepultada como indigente em recife, deixando seu último poema à mãe.
♦

mãe, me entristece te ver assim o olhar quebrado dos teus olhos azul céu
em silêncio implorando que eu não parta. mãe, não sofras se não volto. me encontrarás em cada moça do povo deste povo, daquele, daquele outro do mais próximo, do mais longínquo talvez cruze os mares, as montanhas os cárceres, os céus mas, mãe, eu te asseguro, que, sim, me encontrarás! no olhar de uma criança feliz de um jovem que estuda de um camponês em sua terra de um operário em sua fábrica do traidor, na força do guerrilheiro em seu posto, sempre, sempre me encontrarás! mãe, não fiques triste, tua filha te ama.

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

sexta-feira, 11 de setembro de 2026


chile, 1973
(trailers)

[clique nos títulos para ver e ouvir]


♦

(a insurreição da burguesia)

.

(o golpe de estado)

.

(o poder popular)

♦

chile, 1964.

eduardo frei, candidato do partido democrata cristão, derrota salvador allende em uma eleição na qual a cia despejou quase meio milhão de dólares. naquela oportunidade 0,7% dos proprietários controlavam 61,6% das terras chilenas, o desemprego era alto e a inflação corroía os salários.

isabel parra cantava:

muito dinheiro em parques municipais
e a miséria é grande nos hospitais
no meio da alameda das delícias
chile limita al centro de la injusticia

[clique no título para ver e ouvir]

(isabel parra, 1968)

♦

chile, 1970.
em uma eleição disputadíssima, salvador allende vence as eleições presidenciais. naquela oportunidade o povo tomava as ruas e festejava.
o inti-illimani cantava:

porque desta vez não se trata
de mudar um presidente
será el pueblo que construya
um chile bem diferente

[clique no título para ver e ouvir]

(canto al programa, 1970)

♦

e foi o que aconteceu

sob o governo socialista da unidade popular, o chile foi bem diferente. o presidente eleito cumpriu o programa pelo qual se elegeu: nacionalizou a mineração, estatizou o sistema financeiro e impôs normas de controle sobre os monopólios industriais e as empresas de telecomunicações — entre elas, a poderosa itt (international telephone & telegraph)
contudo, porém, todavia...
a vitória da unidade popular deitava por terra intensas e laboriosas negociações entre a itt e eduardo frei. a itt, então, deu uma guinada em seus princípios de atuação política: assumiu a liderança dos grupos estrangeiros e contatou a cia. os empresários fecharam as fábricas; os caminhoneiros paralisaram os transportes. assim, arlequins, polichinelos, monges falsos, palhaços a granel, terroristas de farda e militares degradados deram o golpe no chile e mataram o homem da paz.

mas, contudo, porém, todavia...

para matar o homem da paz,
tiveram que assassiná-lo muitas vezes
porque o homem da paz era uma fortaleza

para matar o homem da paz,
tiveram que imaginar que era uma tropa
uma armada uma legião uma brigada
tiveram que acreditar que era outro exército
mas o homem da paz era tão somente um povo
e tinha em suas mãos um fuzil e um mandato

para matar o homem que era um povo,
tiveram que ficar sem o povo

[clique no título para ver e ouvir]

(a dos voces, 1985)

♦

de volta ao começo

♦

no princípio, era o chile querendo nascer

mas, pela mala diplomática chegam as notas verdes que financiam greves e sabotagens e cataratas de mentiras. os empresários paralisam o chile, e lhe negam alimentos. não há outro mercado além do mercado negro. as pessoas fazem longas filas em busca de um maço de cigarro ou de um quilo de açúcar; conseguir carne ou azeite requer um milagre da virgem maria santíssima. a democracia cristã e o jornal el mercúrio dizem pestes do governo e exigem aos gritos um golpe redentor, pois já é hora de acabar com essa tirania vermelha; outros jornais, rádios e canais de televisão fazem eco. o governo custa a se mover: juízes e parlamentares põem-lhe paus nas rodas, enquanto conspiram nos quartéis os chefes militares que allende acredita leais.

nestes tempos difíceis, os trabalhadores estão descobrindo os segredos da economia. estão aprendendo que não é impossível produzir sem patrões, nem abastecer-se sem mercadores. mas a multidão marcha sem armas, vazias as mãos, por este caminho de sua liberdade.

do horizonte vêm uns quantos barcos de guerra dos estados unidos, e se exibem frente às costas chilenas. e o golpe militar, tão anunciado, ocorre.

♦

mentira
traição
desinformação
conciliação
sabotagem
tutela militar

qualquer semelhança com o brasil de hoje
não é mera coincidência.
paciência.
américas que segue

♦

allende
gosta da boa vida. várias vezes disse que não tem madeira de apóstolo nem condições para mártir. mas também disse que vale a pena morrer por tudo aquilo sem o qual não vale a pena viver.

os generais alçados exigem sua renúncia. oferecem a ele um avião para que abandone o chile. advertem que o palácio presidencial será bombardeado por terra e por ar.

junto a um punhado de homens, salvador allende escuta as notícias. os militares se apoderam do país inteiro. allende põe um capacete e prepara seu fuzil. soa o estrondo das primeiras bombas. o presidente fala pelo rádio pela primeira vez:

— eu não vou renunciar...

eduardo galeano | o século do vento, p. 252 e 253.

♦

«por un fuego que no des a tiempo
puede no salir el sol.»

silvio rodríguez

♦

ao vento

tudo passa
só o passado não passa
preparar, apontar, fogo!
sem fogo não há fumaça

grill

♦
a ditadura pinochet ficou conhecida como uma das mais brutais na história latino-americana. apenas nos primeiros meses, mais de 80 mil pessoas foram presas por motivos políticos. a barbárie não poupou figuras renomadas internacionalmente como o cantor popular victor jara, que espancado em sessões de tortura, teve suas mãos quebradas e depois foi executado no estádio nacional do chile, onde presos políticos eram mantidos encarcerados e torturados à espera de fuzilamento.
[clique no título para ver e ouvir]

(adaptación creativa sin fines de lucro.
fundación victor jara)

♦

ditadura pinochet

(em 4 atos)

1. o terror da dina (polícia secreta de pinochet): a dina era comandada por manuel contreras. com mais de 9 mil agentes e espiões, ela usava o terrorismo de estado para perseguir opositores.

2. crimes internacionais: pela «operação condor», o grupo assassinou figuras importantes longe do chile, como o general carlos prats na argentina e o ex-ministro orlando letelier nos estados unidos.

3. mudança de fachada: pressionado pelos eua, pinochet afastou contreras e mudou o nome da dina para cni. na prática, a perseguição continuou igual.
4. dinheiro para os militares: para garantir o apoio dos generais, pinochet gastava fortunas com as forças armadas. em 1980, o chile liderava os gastos militares na américa latina.

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pátria, luz e bandeira
dos punhos erguidos,
voltarás a florescer,
voltarás a renascer.

[clique no título para ver e ouvir]

(quilapayún, 1976)

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o exílio
(você me pergunta o que é o exílio)

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«é proibida a entrada no território nacional de pessoas nacionais ou estrangeiras que... na opinião do governo constituam um perigo para o estado... no caso dos chilenos, o ministério do interior emitirá um decreto supremo proibindo sua entrada no país e «a autoridade administrativa correspondente ordenará o cancelamento do passaporte, se for o caso».
decreto lei nº 604, de 10 de agosto de 1974.

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dias e noites de amor e guerra

a mãe não estava, aquela tarde, e eu esperava na porta o ônibus que trazia florência do jardim de infância. chegou muito triste. no elevador fez beicinho. depois deixou que o leite esfriasse na xícara. olhava o chão. sentei-a em meus joelhos e pedi que me contasse. ela negou com a cabeça. acariciei-a, beijei sua testa. deixou escapar uma lágrima. com o lenço sequei sua cara e assoei seu nariz. então, pedi outra vez:

– vamos, conta.

contou-me que sua melhor amiga tinha dito: «eu não gosto mais de você». 
choramos juntos, não sei quanto tempo, abraçados os dois, ali na cadeira. eu sentia as mágoas que florência ia sofrer pelos anos afora e quisera que deus existisse e não fosse surdo, para poder rogar que me desse toda a dor que tinha reservado para ela.


eduardo galeano , p. 133, 134.

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«a bagagem do desterro é minha mala de humo,
mas sabemos bem que, sem o fogo, não há fumaça.»

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você me pergunta como foi o cerco que sofri.
mete a língua na minha cabeça, no meu pensar, na minha alma.
pois bem: deixo você supor que abandonei meu povo,
que fugi rompendo o duro limiar como um bicho acuado.
mas eu te garanto que não me roubaram nada,
pois dessa terra jamais poderão me afastar.

pois como vão roubar meu vulcão com sua vulcana?
desviar de minha alma a foz do rio com sua ria?
lacerar na paisagem a árvore com seu arvoredo?
matar em minha têmpora o rude piolho com sua piolha?
queimar com um fósforo comum meu livro e sua livraria?
juntar o punhal ao meu dolor com sua dolora?
naufragar no temporal meu bote com sua bota?
bater em retirada meu conjuro e sua conjura?

vibrar a corda do meu solfejo 
com seu solfejar.

você me pergunta como foi o cerco que sofri.
põe o olho a folhear a estação da minha memória.

pois bem: concedo que ao final ganharam a batalha,
mas falta conhecer o resultado da guerra.
pois confesso que não perdi um só grão de pólen,
já que dessa terra jamais poderão me afastar.

pois como vão extenuar meu caso com sua caça?
esvaziar minha sacola com seu saque?
prender meu canto universal de grilo ao seu grilhão?
esvaziar de conteúdo meu araucano e sua araucária?
cavar com fúnebre prazer meu tombo com sua tumba?
frear a turbulência da minha gesta com seu gesto?
o choque dos meus esperantes com sua espera?
a bagagem do desterro é minha mala de fumaça,
mas sabemos bem que, sem o fogo, fumaça não haverá.

[clique no título para ver e ouvir]

(inti-illimanni, 1982)

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em 1º de setembro de 1988 , através do decreto 203 do ministério do interior, o exílio terminou:

[...] todos os decretos supremos isentos e os decretos que, emitidos por força das competências que lhe conferem o artigo 41.º n.º 4 da constituição política da república, prevejam a proibição de entrada no território nacional das pessoas que neles se encontrem mencionadas...
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com cinzas, com rasgos e fraturas,
com esta altiva impaciência,
com uma honesta consciência,
com indignação, com suspeita,
com ativa certeza
ponho o pé em meu país.

ponho o pé em meu país
e em lugar de soluçar,
de moer minha pena ao vento,
abro o olho e seu olhar
e contenho o descontento.

volto belo, volto terno,
volto com minha esperadura,
volto com minhas armaduras,
com minha espada, meu desvelo,
meu cortante desconsolo,
meu presságio, minha doçura,
volto com meu amor espesso,
volto em alma
e volto em osso
a encontrar a pátria pura
ao pé do último beijo.

volto, enfim, sem humilhar-me,
sem pedir perdão nem olvido:
o homem nunca está vencido,
sua derrota é sempre breve.
um estímulo que move
a vocação de sua guerra,
pois a pátria que o desterra
e a pátria que o recebe
lhe dirão, por fim, que ele vive
as dores de toda a terra.

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(inti-illimanni, 1978)

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falando em dor...
miguel não morreu.
miguel enriquez ainda está aqui

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«aquí nadie muere compañero
aquí nadie deja de luchar
aquí nada termina compañero
aquí cada día es continuar»

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yo pisaré las calles nuevamente
de lo que fue santiago ensangrentada,
y en una hermosa plaza liberada
me detendré a llorar por los ausentes.

(pablo milanés, 1976)

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«basta ya de conciliar,
es la hora de luchar!»

[clique no título para ver e ouvir]

teatro caupolicán
17 de Julho de 1973
legendado (pt - br)

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«eso no está muerto,
no me lo mataron
ni con la distancia
ni con el vil soldado.»

silvio rodríguez

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ali amei uma mulher terrível,
chorando pela fumaça sempre eterna
daquela cidade encurralada
por símbolos de inverno.

ali aprendi a tirar com a pele o frio
e a jogar depois meu corpo à garoa,
nas mãos da névoa dura e branca,
nas ruas do enigma.

isso não está morto,
não me o mataram,
nem com a distância,
nem com o vil soldado.

ali entre os morros eu tive amigos
que entre bombas de fumaça eram irmãos.
ali eu tive mais de quatro coisas
que sempre desejei.

ali nossa canção se fez pequena
em meio à multidão desesperada:
um poderoso canto da terra
era quem mais cantava.

até ali me seguiu como uma sombra
o rosto daquele que já não se via,
e no ouvido me sussurrou a morte
que já apareceria.

ali eu tive um ódio, uma vergonha,
meninos mendigos da madrugada,
e o desejo de trocar cada corda
por um saco de balas.

[clique no título para ver e ouvir]

(días y flores, 1975)

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antes do fim

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«precisamos de mais unidade dentro da unidade popular.
precisamos de mais unidade para que uma linguagem mais revolucionária seja compreendida.
é preciso chamar as forças revolucionárias que não estão na unidade popular para que se juntem a nós com a responsabilidade histórica rumo à revolução socialista, camaradas.
temos que fortalecer o poder popular, os comandos comunais, é preciso fortalecer os comandos industriais, e não como forças paralelas ao governo, mas como forças populares junto com todo o governo.»

salvador allende

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ainda que destruam todos os caminhos,
força nenhuma deterá meu povo.
ainda que nos prendam grilhões e correntes,
não seremos de ninguém escravos.
e seguiremos renascendo nas batalhas,
e seguiremos crescendo e combatendo,
e no solo traído da pátria,
o vermelho, gota a gota, irá nascendo.

chile territorio ensangrentado
chile seguirá por siempre unido
chile luchará contra el tirano
chile no será jamás vencido.

ainda que disparem contra os operários,
bala nenhuma matará meu povo.
ainda que fuzilem os meus companheiros,
ferida nenhuma nos trará a morte.
e seguiremos levantando as bandeiras,
e seguiremos lutando e avançando,
e no solo traído da pátria,
o vermelho, gota a gota, irá nascendo.

chile territorio ensangrentado
chile seguirá por siempre unido
chile luchará contra el tirano
chile no será jamás vencido.

[clique no título para ver e ouvir]

(quilapayún, 1975)

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1. nacionalização de riquezas básicas e estatização de parte dos meios de produção

2. nacionalização dos bancos

3. reforma agrária

4. organização de um sistema de participação dos trabalhadores

5. estabelecimento de uma nova ordem institucional – poder popular.

♦.

«trabalhadores da minha pátria: tenho fé no chile e em seu destino. outros homens superarão este momento cinzento e amargo onde a traição pretende se impor. sigam vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, de novo irão se abrir as grandes alamedas por onde passe o homem livre para construir uma sociedade melhor. viva o chile, viva o povo, viva os trabalhadores! estas são minhas últimas palavras. tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão.»

salvador allende

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não passarão
a luta continua
venceremos

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venceremos, venceremos,
mil cadenas habrá que romper,
venceremos, venceremos,
la miseria (al fascismo) sabremos vencer.

[clique no título para ver e ouvir]

 (czechoslovakia, 1975)

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