voltei de são luís no final de 2008. alguns meses depois, no início de 2009, eu entrava no estúdio da rádiocom, para fazer aquele que eu pensava seria o último américas. o que me motivou a voltar (pelotas) e a voltar a fazê-lo (américas) foi a vivi. vivi ouvia falar do américas, mas nunca o havia escutado. sabedor de sua admiração pela obra de vitor ramil, fiz, na época, um américas que tinha vitor como centro. além de vivi e de mim, quase ninguém sabe desse américas. não fiz questão de divulgá-lo. a ideia era fazer um américas «que eu não possa ler, nem desejar / que eu não possa imaginar»...
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
domingo, 27 de setembro de 2026
meses atrás, no café, vivi me contou sobre uma colega que lê todos os dias passagens da bíblia, numa versão moderna, com linguagem atual, na qual a autora sempre termina o trecho com a frase: «quero ser luz e sal da terra».
— não sei por que ela escreve «sal da terra» se é «sol da terra» — diz a colega para a vivi.
— tu nunca ouviste esse termo «sal da terra»? — pergunta vivi.
vivi, então, explica para ela o significado de «sal da terra».
— que lindo! — diz ela.
vivi saiu para a cidade, foi trabalhar, e eu fiquei aqui com mais uma história para contar.
no fio dos cumes, caiu a tarde. as sombras vão devorando os detalhes, mas sobre a linha dos cerros distantes desenham-se ainda as claridades.os jovens as olham e tecem desejos e quimeras; os velhos averiguam nelas o tempo que fará amanhã.pouco a pouco o campo vai se povoando de estremecimentos. insinua-se a sinfonia do ocaso, com um adágio a cargo dos violinos invisíveis do pajonal; em seguida, a melodia se firma na flauta dos grilos que dialogam com o rumor dos matos.os algarrobos querem fazer seu canto na viração, e as nuvens se detêm por um momento a escutar.o rio, velho músico, segue andando, andando...
cerro bayo, novela de atahualpa yupanqui, p. 9
hoje estou no oregon, deixando portland para trás e viajando rumo ao sudoeste, atravessando verdes escuros e cinzas suaves e nevoentos no meu agradável casulo de ruídos de ônibus, na direção dos morros e vales amplos e suaves do norte da califórnia. sei exatamente onde estou, claro. neste país, são as árvores que te contam.minha mente divaga, se detém num problema que estou tendo com a banda na performance de «rusty cage», a canção do soundgarden que gravei para o álbum «unchained»; depois volto a refletir sobre a história da minha vida. penso em pete barnhill, um amigo que fiz quando tinha uns treze anos. ele tinha um violão. também tinha o que chamávamos de paralisia infantil, conhecida depois como poliomielite, que aleijou sua perna direita e encolheu o braço direito, o qual tinha quase a metade do tamanho do esquerdo. ele se adaptou bem. escrevi sobre ele no encarte do «american recordings»:«com sua mão esquerda, ele fazia os acordes, enquanto tocava um ritmo perfeito com sua minúscula mão direita. pensei que, se pudesse tocar violão daquele jeito, algum dia cantaria no rádio.»pete era uma inspiração em vários aspectos. eu nunca havia sido próximo de alguém que tocasse violão, com exceção da minha mãe, quando era muito pequeno. eu achava que ele era o melhor violonista do mundo. para mim ele era maravilhoso, e o som que fazia era puramente celestial.um dia eu lhe disse: «sabe, pete, você tem paralisia infantil mas sabe tocar violão de verdade».sua resposta me impressionou muito: «às vezes, quando você perde um dom, ganha outro».daquele momento em diante, não pensei mais nele como um deficiente; pensava nele como alguém que tinha um dom. eu me entristecia quando os outros garotos riam de pete. eles o viam ir mancando pelos três ou quatro quilômetros que separavam sua casa da cidade e o imitavam. eu também o imitava, mas não daquele jeito: meu jeito de tocar violão vem dele, tocando a base e solando ao mesmo tempo.pete, como eu, era louco por música — foi a primeira pessoa que eu soube que também era assim —, e nós dois éramos loucos pelo rádio. o rádio significava o mundo para nós, literalmente.lembro-me claramente do dia em que compramos o nosso, um «sears roebuck» com uma grande bateria, encomendado pelo correio e adquirido com o dinheiro do empréstimo que papai tomou do governo no ano em que ele e roy começaram a limpar nossa terra. lembro da primeira canção que escutei, «hobo bill's last ride», de jimmie rodgers, e como a imagem de um homem morrendo sozinho num vagão congelante me pareceu tão real, tão familiar. lembro de meu pai indo para a cama todas as noites às 20h05, depois do noticiário, e gritar para mi e para jack: «ok, garotos, hora de ir para a cama! apaguem a luz! desliguem o rádio!» jack diminuía a intensidade de sua lâmpada a óleo e se debruçava sobre a bíblia. eu baixava o volume e encostava minha orelha direita no rádio. a música que ouvia se tornou a melhor coisa da minha vida.mas meu pai não gostava nada disso. dizia: «você está perdendo seu tempo ouvindo esses discos no rádio. isso não é de verdade, sabe? essas pessoas não estão lá. é só um cara sentado tocando uns discos. por que você ouve essas coisas de mentirinha?».eu respondia: «mas é tão real quanto foi no momento em que eles cantaram e gravaram o disco. é a mesma coisa».«mas não é de verdade, é só um disco.»«não importa. o som é bom. eu gosto.»«bem, você está sendo enganado por essas pessoas», ele concluía. «isso não vai te dar um sustento. você não vai fazer nada de bom enquanto tiver essa música na cabeça.»eu odiava ouvir isso, mas talvez tenha servido a um propósito. queria muito provar que ele estava errado. e que minha mãe estava certa. ela percebia que a música estava em mim, assim como estava nela e tinha estado em seu pai, john l. rivers, que lhe ensinou a harmonia a quatro vozes e era o cantor principal do coral da igreja. dizem que era um ótimo cantor.lembro dele como um homem amável. ele e minha avó rivers eram almas boas, o sal da terra, muito estimados e respeitados pela comunidade.
«vila do sossego» surgiu na casa de mesmo nome, que ficava no bairro de manaíra, em joão pessoa, próximo à praia. ela ficava em uma rua de terra batida - que hoje já está asfaltada, e mudou tanto que eu nem sequer consigo lembrar da casa, quando passo por lá. isso foi em 1974. a casa pertencia a uma tia minha, a tetê, que a liberou para que eu passasse uma temporada por lá. foi na época em que eu vim pela primeira vez ao rio, quando realizei, junto com o geraldinho azevedo, um show no teatro opinião, chamado "sopa de morcego na boca do rock". o show começava à meia-noite, e obviamente foi um fracasso total - quem viria à meia-noite ver dois caras completamente desconhecidos? de qualquer maneira, foi meu pontapé inicial aqui no rio... quando retornei a joão pessoa, já tinha um repertório montado. na época eu só tocava rock e blues. aí resolvemos montar o show por lá também. tínhamos o argumento de já tê-lo apresentado no rio... meu primeiro filho, o cristian, era recém-nascido. bem, com a casa na mão, nós nos instalamos. eu era totalmente crazy, hippie, desembestado. a vila do sossego foi muito importante para mim. logo que mudamos eu coloquei uma plaquinha de isopor na entrada, escrito «vila do sossego», que se tornou um point entre os malucos que faziam parte de minha turma. eram rapazes e moças que «puxavam» um fumo, universitários, artistas, pessoas que procuravam um papo mais inteligente, distante das conversas sobre novela e futebol. obviamente, o clima era meio «riponga»; a casa não tinha móveis, eram almofadas espalhadas pelo chão, ouvia-se música o dia inteiro, etc. ali foram realizadas muitas cantorias de violeiros. foi durante esse período que eu mergulhei na literatura. lia muito, sem parar, e dessas leituras é que surgiu a inspiração para compor a música. a letra de «vila do sossego» é quase toda ela baseada nos títulos e trechos de livros que eu estava lendo. por exemplo, havia acabado de ler papillon, e me referi a isso.
«je ne regrette rien. j'ai vécu des mois de liberté absolue... j'ai connu l'amour pur et l'amizade sincère.» (tradução livre: «não me arrependo de nada. vivi meses de liberdade absoluta... conheci o amor puro e a amizade sincera.»)
moramos na mesma rua
bebemos no mesmo copo
a mesma bebida crua
o caminho já não é novo
por ele é que passa o povo
farinha do mesmo saco
galinha do mesmo ovo
mas nada é melhor que a água
a terra é a mãe de todos
o ar é que toca o homem
e o homem maneja o fogo
e o homem possui a fala
e a fala edifica o canto
no canto repousa a alma
da alma depende a calma
e a calma é irmã do simples
e o simples resolve tudo
mas tudo na vida às vezes
consiste em não se ter nada
domingo, 23 de agosto de 2026
casa das putas
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stefanie
«era uma mulher muito bonita dedicada à prostituição — a profissão mais antiga do mundo, segundo dizem — porque queria voltar ao seu país para se casar. ela não tinha a menor ideia do que era a luta de classes, e era justamente ali que ganhava a vida. tampouco tinha noção da sociedade à qual pertencia — a mesma sociedade que a havia rejeitado e expulsado.
com essa mulher eu estive conversando uma noite, em uma boate de são paulo. por razões do seu ofício, ela gostaria de ter tido comigo um trato profissional. dessa conversa me ficou gravada uma afirmação sua ("não há dor mais atroz do que ser feliz"), que se tornou justamente o primeiro verso e o ponto de partida da canção.»
por elaine tavares
lembro de uma casa das putas, em santa vitória do palmar. ficava perto do ctg e próxima ao cemitério. entrei só uma vez. olhei para uma moça: ela queria o que eu não tinha, eu queria o que ela tinha pra me dar. entrei, mas não me dei. não sabia nada da vida. não sabia e ainda não sei. ainda me apaixono como aquela vez me apaixonei.
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rabiscava uns versos pra enganar a dor
o tédio, o pranto, o tombo
e encantava mágoas milongueando sonhos
não é mais que uma canção
quem dera fosse uma declaração de amor
iolanda | pablo milanés | 1975
canta: chico
decías anoche: ouve me por favor, bésame aquí.
stefanie, sé que tu corazón, fala de mim,
y eso es dolor, stefanie
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
que em seu nome exista mar»
pois elomar é feito de terra
quem quiser compreendê-lo
elomar é uma espécie rara
vinda de outras eras
uma sábia mistura de bode com rainha da inglaterra
cavaleiro andante
trovador errante
elomar é uma quimera
se victor hugo fosse vivo
diria que é como se elomar fosse assim uma espécie de dante
elomar é gigante
e a mim me parece um disparate
que alguém ainda se espante
com o que o poeta diz
elomar é um profeta
um vate
sua poesia
tem a cor vermelha viva e rutilante
pendendo para a cor laranja
que é a cor do céu escarlate
grill
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«e, por cima de sua cabeça estava o arco celeste, e o seu rosto era como o sol, e os seus pés como colunas de fogo.»
a bíblia sagrada. apocalipse, 10, 1.
são sete mil léguas
imendada de camin
prêsse mundão largo
sem portêra vem o fim
só vejo na terra a morte a rondá
peste mil infermidades
fome e guerra ai de mim
mil ventos da morte
estroncios letais
sete vacas magras
tragam as gordas nos currais
pelos sete cravos
das chagas do siô
lastimos meus êrros
de grande pecadô
geme a terra ao rebentá das covas
branca e lira
mia noiva é a lua nova
ao sol peço clemença
qui esse chão quêma meus pé
quatro cavaleiros
de olhares crueis
prontos pra peleja
já cavalgam seus corceis
de olhos para os ceus
só ispero cristo vim
eis qui chegam os maus
tempos do grande fim
treme a terra pela última veiz
ais lamentos
é vindo o rei dos reis
sol nunca seca meu pranto
qui é preu refrescá meus péis
corban | cartas catingueiras |1983
.
notas:
1.c’a foice armada /do anjo da morte: a palavra foice (lat. falce) denomina instrumento curso para ceifar, segar. no sentido figurado, é símbolo do tempo. seguido da expressão anjo da morte, faz uma remissão ao apocalipse ( novo testamento ), livro das revelações divinas feitas a joão evangelista (séguier, 1964: s.v.). ali estaria traçado o destino dos homens e do mundo .
2. a fome a peste a morte e a dô: alusão aos quatro cavaleiros do apocalipse : a guerra, a fome, a peste e a morte.
3. o rei da guerra / o rei da glora: expressões que designam o senhor deus todo-poderoso.
4. muitos mili anjo in grande preparação / nos alto céus / vêm vino sobre essa terra / pra julgá os homes maus / qui ofendêro a deus: trecho que alude ao capítulo d’os anjos e os sete trovões.
5. oço o toco dos rubin trombetêro / atraiz dos véus: rubin é uma forma aferesada de querubim que, na hierarquia celeste (pseo, 206-207), pertence à ordem superior dos anjos e sentam-se imediatamente abaixo dos serafins.
seguindo a temática bíblica, o poeta alude então ao episódio da abertura do sétimo selo. os sete anjos e as sete trombetas. «vi outro anjo forte, que descia do céu, vestido de uma nuvem; e, por cima de sua cabeça estava o arco celeste, e o seu rosto era como o sol, e os seus pés como colunas de fogo.» (a bíblia sagrada. apocalipse, 10, 1)
a expressão «atraiz dos véus» evoca «vestido em uma nuvem» que aparece no versículo transcrito em diálogo com o item anterior.
*é interessante observar que o contato com a religião e suas práticas é a única forma de aquisição do padrão formal da língua, uma vez que o homem caipira dificilmente tem acesso à escola. por isso, as formas mais distanciadas da fala regional são aquelas que representam a fala da igreja, adquirida nas missas e cultos.
.
trata-se literalmente do apocalipse, em que sob o texto bíblico a morte penetra na vida do sertão estendendo-se a todo o resto do planeta (cartas catingueiras, 1983). em hebraico korban, o culto sacrificial o período bíblico, que envolvia oferendas. aqui esta oferenda se faz diferente: como em outros textos de elomar, a obsessão da travessia, da vida como caminho, o percurso perigoso. aqui se oferece o apocalipse, sob o texto bíblico, a morte faz o seu caminho no sertão.
[de quando o bardo cruzou com o menestrel]
ó céu
ó céu
onde há fumaça
há fogaréu
ó céu
ó céu
a estrada é infinita
o horizonte é um véu
ó céu
ó céu
cego de tudo e de todos
eu vi remundo batendo nas porta do céu
grill
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naquela hora na porta do rancho
ela tamém viu a lua pur trais dos garrancho e no céu
pertô o caçulo contra o peito seu
o coração deu um pulo os peito istremeceu
soltô um gemido fundo as vista iscureceu
valei-me sinhô deus meu apois eu vi remundo
nas porta do céu, ai sôdade
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mãe, guarde minhas armas
minha camisa e meu chapéu
aquela enorme nuvem negra está descendo
acho que estou batendo na porta do céu
knochin' on heaven's door | bob dylan | 1973
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coplas do fim do mundo
ó mundo
ó mundo
quem teme o raso
jamais chegará ao fundo.
ó mundo
ó mundo
quanto mais eu cavo
mais o buraco fica fundo.
ó mundo
ó mundo
se as pessoas não compreendem o que é óbvio
o que dirá o que é profundo.
grill
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boaventura de sousa santos
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gracias, mestre
pensei que estava ficando cego.
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«sinta mais, pense menos»
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amou daquela vez como se fosse a última
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xadrez
espalho coisas
sobre um chão de giz
en una mañana al este del edén
james dean tiraba piedras
a una casablanca, entonces, te besé
que me compreende
você fala que não



