Mostrando postagens com marcador Enilton Grill. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Enilton Grill. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de setembro de 2026


(re)nascer leva tempo

♦

o grande encontro
vitor ramil / leonard cohen
quem pela água / quem pelo fogo

♦

neste fim de tarde ao sul
quem virá?

neste fim de tarde sem fim
quem irá
me encontrar
me encontrar
me encontrar

👇

(hermenegildo, de vitor ramil)
direção e produção: luis rubira

♦

quem pelo fogo, quem pela água
quem à luz do sol, quem à noite
quem por alta provação, quem por sofrimento comum
quem em seu feliz feliz mês de maio
quem por decadência muito lenta
e quem eu devo dizer que está chamando?

quem nestes reinos do amor, quem por algo contundente
e quem pela avalanche, quem pela pólvora
quem por sua ambição, quem por sua fome
e quem eu devo dizer que está chamando?

e quem por bravo consentimento, quem por acidente
quem em solidão, quem neste espelho
quem por ordem da mulher, quem por sua própria mão
quem em correntes mortais, quem em poder
e quem eu devo dizer que está chamando?

(leonard cohen, 1974)
[live in london]

♦

(re)nascer leva tempo
voltei de são luís no final de 2008. alguns meses depois, no início de 2009, eu entrava no estúdio da rádiocom, para fazer aquele que eu pensava seria o último américas. o que me motivou a voltar (pelotas) e a voltar a fazê-lo (américas) foi a vivi. vivi ouvia falar do américas, mas nunca o havia escutado. sabedor de sua admiração pela obra de vitor ramil, fiz, na época, um américas que tinha vitor como centro. além de vivi e de mim, quase ninguém sabe desse américas. não fiz questão de divulgá-lo. a ideia era fazer um américas «que eu não possa ler, nem desejar / que eu não possa imaginar»...
♦

oh, vento que vem
pode passar
inventa fora de mim
outro lugar

fora de mim
outro lugar

vento
que vem das esquinas
e ruas vazias
de um céu interior

(vitor ramil, 2007)
[clipe oficial]

♦

corre o vento, o rio passa...
e o américas volta ao berço

produção e apresentação: enilton grill
rádiocom - pelotas - rs
27 setembro 2024

♦

#américas
#radiocom
#vitorramil
#leonardcohen
#luisrubira

domingo, 27 de setembro de 2026


mora na filosofia 
(para matheus valente)

♦

«a felicidade mora ao lado
e quem não é tolo pode ver»

o sal da terra

♦

ao vento

meses atrás, no café, vivi me contou sobre uma colega que lê todos os dias passagens da bíblia, numa versão moderna, com linguagem atual, na qual a autora sempre termina o trecho com a frase: «quero ser luz e sal da terra».

— não sei por que ela escreve «sal da terra» se é «sol da terra» — diz a colega para a vivi.

— tu nunca ouviste esse termo «sal da terra»? — pergunta vivi.

vivi, então, explica para ela o significado de «sal da terra».

— que lindo! — diz ela.

vivi saiu para a cidade, foi trabalhar, e eu fiquei aqui com mais uma história para contar.

♦

anda, quero te dizer nenhum segredo
falo nesse chão da nossa casa
vem que tá na hora de arrumar
tempo, quero viver mais duzentos anos
quero não ferir meu semelhante
nem por isso quero me ferir
vamos precisar de todo mundo
pra banir do mundo a opressão
para construir a vida nova
vamos precisar de muito amor
a felicidade mora ao lado
e quem não é tolo pode ver

👇

(contos da lua vaga, 1981)

♦

«caminhante, não há caminho
faz-se caminho andando»

cantares

♦

um rio que não para de cantar 

♦

lindo cerro colorado,
cerro de piedras pintadas.
alguna vez volveré
por tus senderos de cabras.

la guitarra bajo el poncho
y una tonada sencilla.
siempre juntos, como viven
la piedra y la doradilla.

👇

 alemania occidental por swf badén- badén + macondo film 
gmbh + alfredo troncoso west deutscher fresen kóln 
dirección: josé montes baquer 
música: atahualpa yupanqui 
año: 1985
(parte 1 de 4 )

♦

corre o vento, o rio, velho músico, segue andando, andando...

♦

ismaco
no fio dos cumes, caiu a tarde. as sombras vão devorando os detalhes, mas sobre a linha dos cerros distantes desenham-se ainda as claridades.
os jovens as olham e tecem desejos e quimeras; os velhos averiguam nelas o tempo que fará amanhã.
pouco a pouco o campo vai se povoando de estremecimentos. insinua-se a sinfonia do ocaso, com um adágio a cargo dos violinos invisíveis do pajonal; em seguida, a melodia se firma na flauta dos grilos que dialogam com o rumor dos matos.
os algarrobos querem fazer seu canto na viração, e as nuvens se detêm por um momento a escutar.
o rio, velho músico, segue andando, andando...

cerro bayo, novela de atahualpa yupanqui, p. 9

♦

a estrada
hoje estou no oregon, deixando portland para trás e viajando rumo ao sudoeste, atravessando verdes escuros e cinzas suaves e nevoentos no meu agradável casulo de ruídos de ônibus, na direção dos morros e vales amplos e suaves do norte da califórnia. sei exatamente onde estou, claro. neste país, são as árvores que te contam.

minha mente divaga, se detém num problema que estou tendo com a banda na performance de «rusty cage», a canção do soundgarden que gravei para o álbum «unchained»; depois volto a refletir sobre a história da minha vida. penso em pete barnhill, um amigo que fiz quando tinha uns treze anos. ele tinha um violão. também tinha o que chamávamos de paralisia infantil, conhecida depois como poliomielite, que aleijou sua perna direita e encolheu o braço direito, o qual tinha quase a metade do tamanho do esquerdo. ele se adaptou bem. escrevi sobre ele no encarte do «american recordings»:

«com sua mão esquerda, ele fazia os acordes, enquanto tocava um ritmo perfeito com sua minúscula mão direita. pensei que, se pudesse tocar violão daquele jeito, algum dia cantaria no rádio.»

pete era uma inspiração em vários aspectos. eu nunca havia sido próximo de alguém que tocasse violão, com exceção da minha mãe, quando era muito pequeno. eu achava que ele era o melhor violonista do mundo. para mim ele era maravilhoso, e o som que fazia era puramente celestial.

um dia eu lhe disse: «sabe, pete, você tem paralisia infantil mas sabe tocar violão de verdade».

sua resposta me impressionou muito: «às vezes, quando você perde um dom, ganha outro».

daquele momento em diante, não pensei mais nele como um deficiente; pensava nele como alguém que tinha um dom. eu me entristecia quando os outros garotos riam de pete. eles o viam ir mancando pelos três ou quatro quilômetros que separavam sua casa da cidade e o imitavam. eu também o imitava, mas não daquele jeito: meu jeito de tocar violão vem dele, tocando a base e solando ao mesmo tempo.

pete, como eu, era louco por música — foi a primeira pessoa que eu soube que também era assim —, e nós dois éramos loucos pelo rádio. o rádio significava o mundo para nós, literalmente.

lembro-me claramente do dia em que compramos o nosso, um «sears roebuck» com uma grande bateria, encomendado pelo correio e adquirido com o dinheiro do empréstimo que papai tomou do governo no ano em que ele e roy começaram a limpar nossa terra. lembro da primeira canção que escutei, «hobo bill's last ride», de jimmie rodgers, e como a imagem de um homem morrendo sozinho num vagão congelante me pareceu tão real, tão familiar. lembro de meu pai indo para a cama todas as noites às 20h05, depois do noticiário, e gritar para mi e para jack: «ok, garotos, hora de ir para a cama! apaguem a luz! desliguem o rádio!» jack diminuía a intensidade de sua lâmpada a óleo e se debruçava sobre a bíblia. eu baixava o volume e encostava minha orelha direita no rádio. a música que ouvia se tornou a melhor coisa da minha vida.

mas meu pai não gostava nada disso. dizia: «você está perdendo seu tempo ouvindo esses discos no rádio. isso não é de verdade, sabe? essas pessoas não estão lá. é só um cara sentado tocando uns discos. por que você ouve essas coisas de mentirinha?».

eu respondia: «mas é tão real quanto foi no momento em que eles cantaram e gravaram o disco. é a mesma coisa».
«mas não é de verdade, é só um disco.»
«não importa. o som é bom. eu gosto.»
«bem, você está sendo enganado por essas pessoas», ele concluía. «isso não vai te dar um sustento. você não vai fazer nada de bom enquanto tiver essa música na cabeça.»

eu odiava ouvir isso, mas talvez tenha servido a um propósito. queria muito provar que ele estava errado. e que minha mãe estava certa. ela percebia que a música estava em mim, assim como estava nela e tinha estado em seu pai, john l. rivers, que lhe ensinou a harmonia a quatro vozes e era o cantor principal do coral da igreja. dizem que era um ótimo cantor.

lembro dele como um homem amável. ele e minha avó rivers eram almas boas, o sal da terra, muito estimados e respeitados pela comunidade.
cash - a autobiografia de johnny cash, p. 53, 54 e 55

♦

exceções à parte
grande parte das coisas que a maioria dos mais velhos dizem ser boas
acredito do fundo da alma que são ruins
sendo assim
não vou por aí
só vou por aqui
por onde me levam meus próprios passos
caminante, no hay camino
se hace camino al andar
mas porém, contudo, todavia
alguns acreditam que todo o terreno da vida humana já foi trilhado
há quem diga
por exemplo
que o sábio salomão prescreveu regras até para a distância entre as árvores
que hipócrates deixou instruções sobre a maneira de cortar as unhas
mas as capacidades do homem jamais foram medidas
o que se tentou até hoje foi muito pouco
só 10% de nossa cabeça animal, cantou um louco
sendo assim
eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada, cheia de dentes
esperando a morte chegar
que as pessoas sonhem, fantasiem, imaginem
a mente humana está cheia de imaginação
tente outra vez

👇

(releitura: solo fértil)

mas
como eu ia dizendo
se eu fosse contar como queria passar a minha vida alguns anos atrás eu diria apenas que
a qualquer tempo, a qualquer hora do dia e da noite, eu ansiava em penetrar na cunha do tempo; colocar-me no cruzamento de duas eternidades, o passado e o futuro, que é exatamente o momento presente
o homem não é nada mais do que faz a si próprio
és livre
escolhe
inventa
que estás aqui
que existe vida e identidade
que a potente peça prossegue
e tu podes contribuir com um verso
não digo que todos venham a entender tudo isso
mas este é o caráter daquele amanhã que o o mero decorrer do tempo jamais fará alvorecer
a luz que extingue nossos olhos é escuridão para nós
só amanhece o dia para o qual estamos despertos
o dia não cessa de amanhecer
nasce a cada amanhecer uma semente e seus frutos
o sol é apenas uma estrela da manhã

♦

abra os olhos aos poucos
não deve se preocupar
veja a grandiosa energia
sinta o momento para acordar
ouvindo a voz da natureza
ter a certeza que o sol vem
e ele vai brilhar

👇

(viver de verdade, 2021)
solo fértil [participação: enilton grill]

♦ 

e a vila do sossego?

♦
«vila do sossego» surgiu na casa de mesmo nome, que ficava no bairro de manaíra, em joão pessoa, próximo à praia. ela ficava em uma rua de terra batida - que hoje já está asfaltada, e mudou tanto que eu nem sequer consigo lembrar da casa, quando passo por lá. isso foi em 1974. a casa pertencia a uma tia minha, a tetê, que a liberou para que eu passasse uma temporada por lá. foi na época em que eu vim pela primeira vez ao rio, quando realizei, junto com o geraldinho azevedo, um show no teatro opinião, chamado "sopa de morcego na boca do rock". o show começava à meia-noite, e obviamente foi um fracasso total - quem viria à meia-noite ver dois caras completamente desconhecidos? de qualquer maneira, foi meu pontapé inicial aqui no rio... quando retornei a joão pessoa, já tinha um repertório montado. na época eu só tocava rock e blues. aí resolvemos montar o show por lá também. tínhamos o argumento de já tê-lo apresentado no rio... meu primeiro filho, o cristian, era recém-nascido. bem, com a casa na mão, nós nos instalamos. eu era totalmente crazy, hippie, desembestado. a vila do sossego foi muito importante para mim. logo que mudamos eu coloquei uma plaquinha de isopor na entrada, escrito «vila do sossego», que se tornou um point entre os malucos que faziam parte de minha turma. eram rapazes e moças que «puxavam» um fumo, universitários, artistas, pessoas que procuravam um papo mais inteligente, distante das conversas sobre novela e futebol. obviamente, o clima era meio «riponga»; a casa não tinha móveis, eram almofadas espalhadas pelo chão, ouvia-se música o dia inteiro, etc. ali foram realizadas muitas cantorias de violeiros. foi durante esse período que eu mergulhei na literatura. lia muito, sem parar, e dessas leituras é que surgiu a inspiração para compor a música. a letra de «vila do sossego» é quase toda ela baseada nos títulos e trechos de livros que eu estava lendo. por exemplo, havia acabado de ler papillon, e me referi a isso.
zé ramalho, o poeta dos abismos, p. 177

♦

ó, eu não sei se eram os antigos que diziam
em seus papiros, papillon já me dizia
que nas torturas toda carne se trai
e normalmente, comumente, fatalmente, felizmente
displicentemente, o nervo se contrai
com precisão

👇

(zé ramalho, 1978)

♦

falando em papillon, o livro:
«je ne regrette rien. j'ai vécu des mois de liberté absolue... j'ai connu l'amour pur et l'amizade sincère.» (tradução livre: «não me arrependo de nada. vivi meses de liberdade absoluta... conheci o amor puro e a amizade sincera.»)
♦

falando em amizade sincera...
o que é um amigo?
um amigo...
«muitas vezes "um” não sabe quem é…»
de acordo com atahualpa yupanqui, é «um mesmo com outra pele»

👇


♦

falando em amigo
escreveu sobre mim
nos meus 50
um que hoje faz 32

♦

«já tive cabelo raspado
deixei crescer depois de conhecer um cabeludo que havia chegado
já fui colorado
acoampanhei os jogos com meu pai, minha irmã e meu cunhado
.
escutava de tudo sem entender quase nada
se hoje escuto chico, caetano, gil, león, dylan e atahualpa
escuto e compreendo por causa desse cara:
enilton grill, todos os américas juntos aqu no sul do brasil
.
50 anos de um jovem latino-americano
50 anos de sonhos sonhados, realizados
e continuemos sonhando
50 anos de meu cunhado hermano
.
"todos hablan de su pago
como si fuera el mejor.
mi querencia es el caamino
bajo la luna y el sol"

atahualpa
.
caminhando por esse brasil
pra lá e prá cá, histórias mil
até que chegou por aqui, se aquerenciou
e para minha irmã deu o sobrenome grill
.
"pa versiar, yo necesito
cancha libre y atención.
corro de un solo tirón
montao en mis sentimientos
lo que mme falta de aliento
me suebra de corazón"

atahualpa
.
coração caminante
coração gigante
corazón hecho de poesia
coração de pura essência e alegria
.
"la tierra es toda cantares
como pasto van brotando
tu te pones a escucharla
y ella te los va dictando"

atahualpa
.
escutando a terra, escutando a vida
aprendeu lições que não passaram despercebias
escutou com atenção, guardou tudo no coração
dos cantares de la tierra, ouvi uma cançãao
uma música que me trouxe um irmão
à terra e à vida eus sou grato
por ter me dado um irmão, um amigo, juntos
no meu cunhado

dale cunhado!»

matheus valente

♦

somos todos irmãos da lua
moramos na mesma rua
bebemos no mesmo copo
a mesma bebida crua
o caminho já não é novo
por ele é que passa o povo
farinha do mesmo saco
galinha do mesmo ovo
mas nada é melhor que a água
a terra é a mãe de todos
o ar é que toca o homem
e o homem maneja o fogo
e o homem possui a fala
e a fala edifica o canto
no canto repousa a alma
da alma depende a calma
e a calma é irmã do simples
e o simples resolve tudo
mas tudo na vida às vezes
consiste em não se ter nada

👇

(cantigas de abraçar, 1982)

♦

fotos: vivi valente

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

domingo, 23 de agosto de 2026

 

casa das putas 

••••••••••••••

stefanie

«era uma mulher muito bonita dedicada à prostituição — a profissão mais antiga do mundo, segundo dizem — porque queria voltar ao seu país para se casar. ela não tinha a menor ideia do que era a luta de classes, e era justamente ali que ganhava a vida. tampouco tinha noção da sociedade à qual pertencia — a mesma sociedade que a havia rejeitado e expulsado.

com essa mulher eu estive conversando uma noite, em uma boate de são paulo. por razões do seu ofício, ela gostaria de ter tido comigo um trato profissional. dessa conversa me ficou gravada uma afirmação sua ("não há dor mais atroz do que ser feliz"), que se tornou justamente o primeiro verso e o ponto de partida da canção.»

alfredo zitarrosa

••••••••••••••

eu cresci na 28, em meio às putas

por elaine tavares

meu avô abrigava nossa família em um bar/armazém que também servia de abrigo para os visitantes da famosa «casa das putas» vizinha. aos três ou quatro anos, eu picotava salaminho no longo balcão de pedra onde se debruçavam os que caçavam amores fortuitos.

a «casa das putas» ficava colada à casa do vô, e circulávamos entre as mulheres que tomavam sol, penteavam os cabelos ou raspavam as pernas, sem qualquer preconceito por parte da família. havia cheiro de rosas, de lavanda, de pó de arroz e elas gostavam de brincar com a gente.

eram as mulheres do bordel as responsáveis pelo passeio mais lindo: os passeios de carruagem, cenário de sonho que nunca se descolou das minhas retinas. elas me apareciam como fadas, princesas, rainhas, e até hoje a lembrança daqueles dias me provoca ternura.

a rua 28 segue viva em mim. e vez em quando, nas noites, escuto o toque da gaita, o cheiro da pinga com salame, as risadas e o tropel dos cavalos. e aquelas mulheres, cheias de universos conversam comigo ao pé do bebedouro. ainda somos irmãs.

••••••••••••••

canção de amor para francisca

por enilton grill

quase todos conhecemos «sólo le pido a dios», de león gieco. poucos de nós, no entanto, fomos apresentados a «canção de amor para francisca». proibida pela ditadura argentina nos anos 70, a faixa nasceu como uma homenagem de león a uma prostituta de sua cidade natal, de quem ele se lembrava dos tempos de menino.

••••••••••••••

«numa casa no bairro de san pedro, francisca mostra todo o seu corpo, guardando dinheiro entre os seios, bebendo vinho tinto e um pouco de gim. veste-se de verde, veste-se de rosa e despe-se muy silenciosa. francisca não trabalha às segundas; com uma cestinha de flores e sua filhinha, correm pela floresta, pelos caminhos e campos. ela diz que os beijos, pardais e flores têm mais perfume às segundas-feiras. pele de canela, olhos de relva, cabelos longos e hálito de trigal. num quarto nos fundos da casa, os homens passam, os homens passam; ninguém lhe oferece trabalho porque têm medo de perdê-la. francisca não trabalha às segundas; com uma cestinha de flores e sua filhinha, correm pela floresta, pelos caminhos e campos. ela diz que os beijos, pardais e flores têm mais perfume às segundas-feiras.»

••••••••••••••

«canção de amor para francisca» retrata a vida de uma profissional do sexo. a letra expõe a crueza de sua rotina diária e revela seu lado mais humano, terno e maternal durante seus dias de descanso, tornando-se um ato de empatia social e resistência contra a censura da ditadura militar.

cantar francisca ao vivo custou a león gieco detenções em comodoro rivadavia e córdoba.

por causa de sua temática realista, a canção acabou censurada e banida pelo regime vigente.

••••••••••••••

links

👇

léon gieco / joana gieco / alejo león
avô / filha / neto
8 out 2021



👇

clipe



👇

[león gieco ao vivo luna park 28 de julho de 1978]

••••••••••••••

lembro de uma casa das putas, em santa vitória do palmar. ficava perto do ctg e próxima ao cemitério. entrei só uma vez. olhei para uma moça: ela queria o que eu não tinha, eu queria o que ela tinha pra me dar. entrei, mas não me dei. não sabia nada da vida. não sabia e ainda não sei. ainda me apaixono como aquela vez me apaixonei.

••••••••••••••

ojalá por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos en todas las visiones
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones

link

👇

[ao vivo e com letra]

••••••••••••••

recuerdos da 28

lembro de uma outra vez na casa das putas, em santa vitória do palmar. se da primeira vez, eu me apaixonei, dessa vez, eu briguei. não sabia nada da vida. não sabia e ainda não sei. brigar, não brigo mais, mas ainda me apaixono como uma vez me apaixonei.


para quem não sabe, a paixão é o motor da arte. por isso, quando falta o amor real, o poeta inventa uma paixão de mentira para que a sua arte se mantenha viva. ou seja: na falta da verdade, apaixona-se de mentira.

mas há quem pense que a paixão é de verdade.

fazer o quê?!

••••••••••••••

era inverno sim
eu perdido em mim
rabiscava uns versos pra enganar a dor
o tédio, o pranto, o tombo
e encantava mágoas milongueando sonhos

mauro moraes y comparsa elétrica 

••••••••••••••

o poeta é um fingidor finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. e os que lêem o que escreve, na dor lida sentem bem, não as duas que ele teve, mas só a que eles não têm. e assim nas calhas de roda gira, a entreter a razão, esse comboio de corda que se chama coração.

fernando pessoa

••••••••••••••

de vez em quando quando boto a mão nos cobre não existe china pobre, nem garçom de cara feia eu sou de longe, onde chove e não goteia não tenho medo de potro, nem macho que compadreia boleio a perna e vou direto pro retoço quanto mais quente o alvoroço, muito mais me sinto afoito e o chinaredo, que de muito me conhece sabe que pedindo desce, meu facão na «28» remancheio num boteco ali nos trilhos

link

👇

por juarez brasil e grupo os gaudérios
10ª califórnia da canção nativa do rs

••••••••••••••

verdade seja dita, salvo honrosas exceções, hoje não tenho quase nenhuma afinidade com a música nativista. não gosto dos temas, das letras, do ritmo, da entonação e, muito menos, da postura ideológica da maioria dos seus artistas. mas nem sempre foi assim. houve um tempo em que eu tomava mate ao fim da tarde, na calçada em frente de casa, milongueando paixões.

••••••••••••••

esta canção
não é mais que uma canção
quem dera fosse uma declaração de amor

link

👇

iolanda | pablo milanés | 1975
canta: chico

••••••••••••••

falando em paixões
voltemos à paixão de alfredo
por stefanie

••••••••••••••

exílio. buenos aires. stéphanie

por carlos bouzas (uruguay)

«em fevereiro de 1976, diante da intensificação da repressão ditatorial, tive que atravessar para a argentina.

a família de alfredo pediu-me para estabelecer rapidamente uma relação com o "flaco", uma vez que o seu estado de ânimo não era dos melhores. encontrei-o trancado num minúsculo quarto de hotel, no escuro, com um leve aroma de tabaco. conversamos bastante, preparei um mate e combinamos de tentar trabalhar juntos. seu relacionamento com o seu empresário não ia nada bem.

pouco depois, surgiu a oportunidade de um contrato para alfredo e três violonistas se apresentarem em são paulo. alfredo insistiu para que lutasse por mais uma passagem, para mim, como seu representante, e assim sair da argentina, voltar e ter novamente o visto de turista. não foi possível. apenas quatro passagens, estadia em um bom hotel, e acima de tudo, pagamento antecipado na chegada ao brasil. foi um dinheiro muito bom, para quatro apresentações. e a comissão permitir-me-ia melhorar um pouco a minha triste economia.

[...]

alfredo voltou feliz. naquela segunda-feira conversamos longamente em seu apartamento. ele resumiu a situação brasileira, em contraste com a do uruguai e da argentina, como muito mais aberta e menos repressiva. você pode fazer coisas artísticas e algumas políticas.

já terminando a conversa, me interessei pelo dinheiro, pela minha comissão.

«ah, carlitos, eu não trouxe peso nem dólar.»

«mas, "flaco», não te pagaram adiantado?», perguntei.

«sim, sim», ele respondeu meio hesitante. largou o mate, serviu-se de um uísque e começou: «no sábado, antes da segunda apresentação daquela noite, me senti muito, muito deprimido. no bar do hotel pedi uma bebida, depois outra, e de repente uma mulher de excepcional beleza aparece na minha frente. pago uma bebida para ela, conversamos, subimos para o meu quarto. e eu me apaixonei perdidamente. sugeri viajar para buenos aires. viver juntos. me casar. eles bateram na porta do meu quarto para fazer minha segunda apresentação. nada mais importava para mim. havia descoberto o amor novamente. e isso me demoliu, carlitos, me demoliu. ela me disse que não ia a lugar nenhum, que estava fazendo isso por dinheiro. mas carlitos, tenha paciência, seus dólares vão aparecer. tenho uma música na cabeça que vai dar muito certo, tenho certeza, e se chamará "stefanie".»

••••••••••••••

stefanie, no hay dolor más atroz que ser feliz.
decías anoche: ouve me por favor, bésame aquí.
stefanie, sé que tu corazón, fala de mim,
y eso es dolor, stefanie

link

👇

(legendado en español)

••••••••••••••

quatro horas da madrugada
é hora de ir embora

••••••••••••••

são quatro horas da madrugada os galo já está cantando eu tenho de ir-me embora morena, vou lhe dar a despedida

link

👇


••••••••••••••

alcei a perna no pingo e saí sem rumo certo olhei o pampa deserto e o céu fincado no chão troquei as rédeas de mão mudei o pala de braço e vi a lua no espaço clareando todo o rincão


••••••••••••••

«one more cup of coffee for the road
one more cup of coffee ’fore i go
to the valley below»

[legendado em português]

••••••••••••••

carpe diem
bom domingo

segunda-feira, 17 de agosto de 2026


 fantasia leiga para um rio seco 
[sobre amores e outras utopias]

••••••••••••••

«devemos fazer de nosso medo 
um ídolo e chamá-lo de deus?»

ingmar bergman 

••••••••••••••

falando em deus
lembrei de elomar 
como dizia vinicius
«a mim me parece um disparate
que em seu nome exista mar»
pois elomar é feito de terra
quem quiser compreendê-lo
elomar é uma espécie rara
vinda de outras eras
uma sábia mistura de bode com rainha da inglaterra
cavaleiro andante
trovador errante
elomar é uma quimera
se victor hugo fosse vivo
diria que é como se elomar fosse assim uma espécie de dante
elomar é gigante
e a mim me parece um disparate
que alguém ainda se espante
com o que o poeta diz
elomar é um profeta
um vate
sua poesia
tem a cor vermelha viva e rutilante
pendendo para a cor laranja
que é a cor do céu escarlate

grill

••••••••••••••

«e, por cima de sua cabeça estava o arco celeste, e o seu rosto era como o sol, e os seus pés como colunas de fogo.»

a bíblia sagrada. apocalipse, 10, 1.

••••••••••••••

são sete mil léguas
imendada de camin
prêsse mundão largo
sem portêra vem o fim
só vejo na terra a morte a rondá
peste mil infermidades
fome e guerra ai de mim
mil ventos da morte
estroncios letais
sete vacas magras
tragam as gordas nos currais
pelos sete cravos
das chagas do siô
lastimos meus êrros
de grande pecadô
geme a terra ao rebentá das covas
branca e lira
mia noiva é a lua nova
ao sol peço clemença
qui esse chão quêma meus pé
quatro cavaleiros
de olhares crueis
prontos pra peleja
já cavalgam seus corceis
de olhos para os ceus
só ispero cristo vim
eis qui chegam os maus
tempos do grande fim
treme a terra pela última veiz
ais lamentos
é vindo o rei dos reis
sol nunca seca meu pranto
qui é preu refrescá meus péis

link

👇

corban | cartas catingueiras |1983
[de «o mendigo e o cantador» – 7º canto]
.

notas:

1.c’a foice armada /do anjo da morte: a palavra foice (lat. falce) denomina instrumento curso para ceifar, segar. no sentido figurado, é símbolo do tempo. seguido da expressão anjo da morte, faz uma remissão ao apocalipse ( novo testamento ), livro das revelações divinas feitas a joão evangelista (séguier, 1964: s.v.). ali estaria traçado o destino dos homens e do mundo .

2. a fome a peste a morte e a dô: alusão aos quatro cavaleiros do apocalipse : a guerra, a fome, a peste e a morte.

3. o rei da guerra / o rei da glora: expressões que designam o senhor deus todo-poderoso.

4. muitos mili anjo in grande preparação / nos alto céus / vêm vino sobre essa terra / pra julgá os homes maus / qui ofendêro a deus: trecho que alude ao capítulo d’os anjos e os sete trovões.

5. oço o toco dos rubin trombetêro / atraiz dos véus: rubin é uma forma aferesada de querubim que, na hierarquia celeste (pseo, 206-207), pertence à ordem superior dos anjos e sentam-se imediatamente abaixo dos serafins.

seguindo a temática bíblica, o poeta alude então ao episódio da abertura do sétimo selo. os sete anjos e as sete trombetas. «vi outro anjo forte, que descia do céu, vestido de uma nuvem; e, por cima de sua cabeça estava o arco celeste, e o seu rosto era como o sol, e os seus pés como colunas de fogo.» (a bíblia sagrada. apocalipse, 10, 1)

a expressão «atraiz dos véus» evoca «vestido em uma nuvem» que aparece no versículo transcrito em diálogo com o item anterior.

*é interessante observar que o contato com a religião e suas práticas é a única forma de aquisição do padrão formal da língua, uma vez que o homem caipira dificilmente tem acesso à escola. por isso, as formas mais distanciadas da fala regional são aquelas que representam a fala da igreja, adquirida nas missas e cultos.

.

corban

trata-se literalmente do apocalipse, em que sob o texto bíblico a morte penetra na vida do sertão estendendo-se a todo o resto do planeta (cartas catingueiras, 1983). em hebraico korban, o culto sacrificial o período bíblico, que envolvia oferendas. aqui esta oferenda se faz diferente: como em outros textos de elomar, a obsessão da travessia, da vida como caminho, o percurso perigoso. aqui se oferece o apocalipse, sob o texto bíblico, a morte faz o seu caminho no sertão.

(ferreira, 2001: 170)

••••••••••••••

o sétimo selo
 
a partida de xadrez com a morte
o vício de viver no limite 
e sobreviver a si mesmo
o silêncio de deus
o ceticismo devoto
a falta de respostas 
o refúgio na paixão 
e na arte
a dança da morte
a atmosfera boêmia 
a noite escura 
o baile de máscaras 

grill

••••••••••••••

o xadrez de bergman

a foice e a ampulheta...(da morte
que espreita atrás de cada esquina)
são punhais ceifando a vida. um corte
e o caminho – breve ato! – se termina

se um cavaleiro, rei, peão?... o porte
pouco importa! pois de todos é a sina
bergman frente a deus, a finda sorte
será humana ou, afinal, será divina?

dois contendores e, entre ambos, o xadrez
a morte joga: tem o tempo em sua mão
depois o homem. chegou, enfim, a sua vez!

movendo a peça, dissimula a emoção...
o que virá agora que a sua chama se desfez? 
existe um deus? ou tudo... tudo... foi em vão? 

martim césar 

••••••••••••••

palavras ao léu
[de quando o bardo cruzou com o menestrel]

ó céu
ó céu
onde há fumaça
há fogaréu

ó céu
ó céu
a estrada é infinita
o horizonte é um véu

ó céu
ó céu
cego de tudo e de todos
eu vi remundo batendo nas porta do céu

grill

••••••••••••••

naquela hora na porta do rancho
ela tamém viu a lua pur trais dos garrancho e no céu
pertô o caçulo contra o peito seu
o coração deu um pulo os peito istremeceu
soltô um gemido fundo as vista iscureceu
valei-me sinhô deus meu apois eu vi remundo
nas porta do céu, ai sôdade

[do álbum: na quadrada das águas perdidas]

••••••••••••••

mãe, guarde minhas armas
minha camisa e meu chapéu
aquela enorme nuvem negra está descendo
acho que estou batendo na porta do céu

link

👇

knochin' on heaven's door | bob dylan | 1973
[from the hard to handle concert film.
bob dylan, backed by tom petty and the heartbreakers during their australian tour in 1986.]

••••••••••••••

coplas do fim do mundo

ó mundo
ó mundo
quem teme o raso
jamais chegará ao fundo.

ó mundo
ó mundo
quanto mais eu cavo
mais o buraco fica fundo.

ó mundo
ó mundo
se as pessoas não compreendem o que é óbvio
o que dirá o que é profundo.

grill

••••••••••••••

«só os míopes desprezam a utopia»

boaventura de sousa santos

••••••••••••••

gracias, mestre
pensei que estava ficando cego.

••••••••••••••

«sinta mais, pense menos»

bukowski

••••••••••••••

amou daquela vez como se fosse a última
beijou sua mulher como se fosse a última
e cada filho seu como se fosse o único
e atravessou a rua com seu passo tímido
subiu a construção como se fosse máquina
ergueu no patamar quatro paredes sólidas
tijolo com tijolo num desenho mágico
seus olhos embotados de cimento e lágrima
sentou pra descansar como se fosse sábado
comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
dançou e gargalhou como se ouvisse música
e tropeçou no céu como se fosse um bêbado
e flutuou no ar como se fosse um pássaro
e se acabou no chão feito um pacote flácido
agonizou no meio do passeio público
morreu na contramão atrapalhando o tráfego

link

👇

[vídeo oficial]

••••••••••••••

xadrez 

o vento 
no ar
o fio
esticado 
o lance
no vazio
a queda
do céu
o chão 
de giz
o beijo 
no asfalto 

grill

••••••••••••••

eu desço dessa solidão
espalho coisas
sobre um chão de giz

link

👇

[clipe oficial]

••••••••••••••

cinema 

a cortina 
que abre
a carta
que não veio
o chão
que abriu
o beijo
que não dei 

grill

••••••••••••••

fue en ese cine, ¿te acuerdas?
en una mañana al este del edén
james dean tiraba piedras
a una casablanca, entonces, te besé

link

👇

[do álbum: auterretratos] 

••••••••••••••

the end

o beijo 
no chão
a alma 
no ar 
o giz 
que não veio 
o amor 
que não dei 
e não vai ter 
happy  
no fim 

grill

••••••••••••••

você fala que sim
que me compreende
você fala que não

link

👇


••••••••••••••

#salacheguevara 
#casadosaedos
#américas