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não representam nenhuma novidade para a psicologia a construção clássica e o modus operandi dos personagens-coringa público-privados, na privada das lendas palacianas deste velho mundo podre, tais como daniel vorcaro e seu colega ianque jeffrey epstein, pirilampos célebres nos ambientes do poder, misturando corrupção financeira com degradação moral, em meandros da mais requintada cafetinagem, envolvendo proxenetismo com jogos de influência e chantagem... as autoridades misturadas com personalidades da fama, manipulando obscenos bilhões e pessoas-de-programa, fascinando e aprisionando em sua gosma pegajosa os rompantes aliciadores e bacantes aliciados num grande trelelê de escândalos e alcovas proibidas, a clássica manipulação de fotos e falas comprometedoras, uma galeria de espelhos de vaidades, relicários gongóricos de ostentações e múltiplas falácias fálicas...são ilhas inatingíveis à ignara plebe das pessoas comuns, festas proibidas e proibitivas de poderosos em jantares nababescos regados a libações de néctares estratosféricos e divinais, onde a exclusividade conferida pelas senhas do poder é a iguaria suprema saboreada pela sanha insaciável da auto-indulgência de deuses acima de qualquer noção de razoabilidade, decência ou vergonha-na-cara.a volúpia dos deuses não contempla tais firulas, e nem filigramas de requinte moral, é desprovida de auto-questionamento, de pruridos morais.a volúpia dos deuses goza de prerrogativa de função no universo.até serem pegos com a boca-na-botija.muitos «são suicidados».e os que mandam mesmo, providencialmente esquecidos na paz da amnésia da conveniência.a história é pródiga de histórias assim.
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nota: lançado em 2010, délibáb é o nono álbum do cantor e compositor vitor ramil, composto inteiramente por milongas baseadas em poemas de jorge luis borges (em espanhol) e joão da cunha vargas (em português).
«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »
ihu on-line – qual o papel dos escritos de thoreau na américa de trump?kelly dean jolley – há uma ideia, da qual me convenci já faz um tempo, a saber, de que quanto mais consciência moral nós temos, mais nos apercebemos. walden é escrito para a consciência moral individual (não há consciência moral não individual, a consciência moral sempre possui proprietário individual). ao presidente trump, até onde posso dizer, não apenas lhe falta uma consciência moral, mas ele possui uma aversão à consciência moral. (quem é trump para dizer a trump o que ele pode ou não pode fazer?) uma importante razão para isso é que ele próprio não parece querer ser mais consciente, e ele por certo não quer que outros sejam mais conscientes. ele aprisionaria a todos nós em um dúbio crepúsculo – um crepúsculo no qual nos reconciliaríamos com nossas limitações de consciência moral e apercepção por meio do flerte com coisas: telefones celulares, televisões de tela plana, roupas e carros. a saciedade substitui a clareza. thoreau nos forçaria a abandonar este dúbio crepúsculo, saindo para a clara luz do sol. ele nos redirecionaria das nossas relações com as coisas para nossa relação com nós mesmos. eu não sei se thoreau pensaria que as linhas mais cruciais de resistência a trump seriam traçadas entre os grupos nas ruas de washington ou de... qualquer outro lugar da américa. eu não sei se ele pensaria que as linhas de resistência seriam traçadas entre qualquer «nós» e «eles». a linha mais crucial de resistência deve dividir o nosso próprio coração: eu devo ver meu rosto contra o trump em mim mesmo, contra a gélida preguiça autoindulgente que ameaça eventualmente me consumir. se finjo que não tenho um trump em mim mesmo, fortaleço tanto este trump quanto aquele na casa branca. meu palpite sobre o conselho de thoreau para nós na américa de trump (até mesmo, me atrevo a dizer, no mundo de trump) – desobedeça a si mesmo! não, obviamente, no sentido de uma consciência moral desleixada, mas no sentido de adquirir um autocomando efetivo, com força e temperança suficiente para realmente fazer aquilo que a justiça revela ser o correto. se não podemos dizer não para nós mesmos, como podemos dizer não para trump?
a escuridão sem a lua, as sombras dos talheres de prata, a lâmina feita a mão, o balão da criança, eclipses do sol e da lua. é dificil compreender o que você entendeu cedo demais: que não há sentido em tentar.gritos e amaeças já nascem mortas. observações suicidas são precipitadas como as dentaduras feitas com ouro dos tolos. a corneta sopra palavras ao vento, pois quem não se ocupa em nascer, está ocupado em morrer.a tentação voa. você vai atrás. se vê em guerra. assiste as cataratas rugindo. quer lamentar. mas só antes de descobrir, que vai ser só mais um a chorarentão não tema, se ouvir um som estranho ao seu ouvido.está tudo bem, mãe, eu só estou suspirando.enquanto uns anunciam a vitória, outros anunciam a derrota. razões pessoais importantes ou insignificantes podem ser vistas nos olhos daqueles que dizem que tudo o que rasteja deve ser destruído. e outros dizem: não tenha ódio a absolutamente nada, exceto ao próprio ódio.palavras desiludidas pipocam como balas enquantos deuses humanos miram em seus alvos. eles fizeram tudo, desde armas de brinquedo que faíscam, a cristos coloridos que brilham no escuro. é fácil ver sem olhar muito longe que quase nada é realmente sagrado.enquanto os pregadores pregam sobre destinos malignos, os professores ensinam que o conhecimento está à espera. pode gerar pratos de centenas de dólares. a bondade se esconde atrás de seus portões. mas até mesmo o presidente dos estados unidos às vezes precisa ficar nu.e embora as regras da estrada estejam estabelecidas,são apenas os jogos das pessoas que você precisa evitare está tudo bem, mãe, eu consigoanúncios publicitários lhe convencem de que você é o único. que pode fazer o que nunca foi feito. que pode ganhar o que nunca foi ganho. enquanto isso, a vida lá fora continua ao seu redor.e repente você descobre que não tem nada a temer. sozinho você permanece sem ninguém por perto quando uma voz trêmula e distante surpreende seus ouvidos adormecidos. aí você pensa que eles realmente lhe encontraram.algo incita seus nervos, porém você sabe que não há nenhuma resposta apropriada, então assegure-se que você não vai desistir e não esqueça de que você não pertence a ele ou a ela ou a isto ou àquilo.os mestres fazem as regras para os sábios e ignorantes.eu não tenho nada a provar, mãe.alguns obedecem às autoridades, outros não respeitam nada de forma alguma, alguns desprezam os seus empregos e seus destinos, falam com inveja dos que são livres e cultivam suas flores para serem nada mais do que algo em que investiram.enquanto alguns batizados são plataformas para comícios, cofres são disfarçados em clubes sociais à luz do dia. intrusos podem entrar livremente e só dirigem a palavra a quem eles idolatram. e depois dizem «deus o abençoe».enquanto um canta com sua língua em fogo, outro gargareja no côro das ratazanas esforçando-se para adaptar-se aos ditames da sociedade. não se incomode em subir mais alto, pois antes que você caia num buraco, ele vai estar lá. mas, enfim, eu não tenho intenção de prejudicar nem de culpar ninguém que viva num sepulcro.mas tudo bem, mãe, se eu não conseguir agradá-los.velhas juízas observam os casais. elas são frustradas sexuais. se atrevem a impor a falsa moral, insultar e censurar. enquanto o dinheiro não aparece, elas falam obscenidades, mas quem realmente se importa? tudo é falso como uma propaganda. elas defendem o que não podem enxergar. a consciência sopra amargamente nas mentes daqueles que pensam que a morte não cairá sobre eles naturalmente. às vezes a vida pode ser muito solitária. meus olhos batem de frente com cemitérios lotados de deuses falsos, eu me arrasto algemado e caminho de cabeça baixa. eu chuto minhas pernas para romper com tudo. eu digo: «basta! eu já tive o bastante. o que mais você pode me mostrar?". e se os meus sonhos pudessem ser vistos, eles provavelmente colocariam minha cabeça numa guilhotina.mas está tudo bem, mãe, é a vida e nada mais.
«vocês sabem que estamos vivendo o fim dos tempos... as escrituras dizem: "nos últimos dias, tempos perigosos estarão próximos... dê uma olhada no oriente médio. estamos caminhando para uma guerra... eu disse a vocês “the times they are a-changin” e eles mudaram. eu disse que a resposta era "blowin’ in the wind" e foi. estou lhe dizendo agora que jesus está voltando, e ele está! e não há outro caminho de salvação... jesus voltará para estabelecer o seu reino em jerusalém por mil anos.»
«se cristo voltasse, nós o crucificaríamos novamente. mas desta vez, na televisão. por uma temporada, nós o transformaríamos em um astro, o maior fenômeno de massa já visto, e então o jogaríamos fora como um lenço de papel usado.».«se cristo voltasse, apareceria um judas que o trairia, um pedro que o negaria três vezes, um tomé que colocaria os dedos em sua ferida após sua morte, um pilatos que lavaria as mãos e um barrabás que, sem nenhum mérito, seria preferido a ele pela chusma que todos nós somos. uma chusma veleta , que mais uma vez gritaria para que ele fosse crucificado.»
nietzsche usa o eterno retorno para que você se torne o dono absoluto da sua história; borges usa o eterno retorno para mostrar que a história é um livro infinito onde nós somos apenas personagens passageiros.
foi na venerável budapeste - no terraço do buda penta hotel - que bob dylan, de roupa preta e botas de cowboy (que ele jamais parece trocar), deu sua primeira entrevista com mais de três minutos nos últimos cinco anos.caderno 2 - o início deste seu world tour/91 foi um pouco tenso. a iugoslávia, primeiro pais do leste europeu no qual você se apresenta em 30 anos de carreira, também passa por um momento de tensão. como vê o que está acontecendo no leste nesses últimos dois anos?bob dylan - você está dizendo que acha que a turnê começou tensa?caderno 2 - bom, um pouco, não é?bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por quase um minuto )caderno 2 - bem, de qualquer maneira, como vê a situação do leste europeu, agora que está aqui pela primeira vez?bob dylan - já estive aqui antes, em 78 ou 79. de férias... ( pausa por quase um minuto)... você conhece a história da europa central e do leste europeu?caderno 2 - um pouco.bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por quase um minuto ) então deve saber que esses países não são realmente países com unidade nacional significativa, muito menos unidade étnica. foram criados, fabricados. não são orgânicos - foram, são uma espécie de joguete no tabuleiro das grandes potências.caderno 2 - você é a favor dos movimentos separatistas, então?bob dylan - realmente não me interesso muito por governos e por estados.caderno 2 - o melhor governo é aquele que não governa.bob dylan - sim, thoreau sempre esteve certo. hum...( pausa por uns 30 segundos ) é sobre isso que você quer falar? você já leu thoreau? o que você sabe de thoreau? você conhece a obra de thoreau?caderno 2 - bem, um pouco.bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por uns 15 segundos ) acho que já falamos mais do que o suficiente, não acha?
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henry david thoreau
em julho de 1845, desgostoso com o crescente comercialismo e industrialismo da sociedade americana, henry david thoreau (1817 - 1862) deixou concord, massachussetts, sua cidade natal, para instalar-se à beira do lago walden. publicado primeiramente em 1854 com o título «walden ou a vida nos bosques», este é o relato dos dois anos, dois meses e dois dias em que o autor viveu apartado da sociedade dos homens, suprindo as próprias necessidades, estudando, contemplando a natureza e conhecendo-se a si mesmo.«fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido.»
antes disso, em 1849, thoreau escreveu em seu livro «desbediência civil» sobre a diferença entre legal e justo:«não é desejável cultivar o respeito pela lei no mesmo nível do respeito pelo direito. ã única obrigação que tenho o direito de assumir é fazer a qualquer momento o que considero certo.»noutras palavras: obedecer a lei não é neutro — se a lei é injusta, obedecer é escolher um lado.
«não pretendo escrever uma ode á melancolia, e sim trombetear vigorosamente como um galo ao amanhecer, no alto de seu poleiro, quando menos para despertar meus vizinhos.»
«thoreau foi uma espécie de júlio verne que, em vez de descrever as maravilhas do futuro, anteviu os desatinos de um modelo desenvolvimentista que nunca quis levar em conta a preservação da natureza. previu o advento de um consumismo viciante e vicioso; viu os tempos em que a privacidade deixaria de ser um recurso natural renovável para se tornar bem descartável; ouviu os gritos surdos da maioria silenciosa. e preferiu se retirar para trocar as penas.junto aos galos; longe dos lunáticos.»
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a oralidade
sempre modesto, ao contrário de dylan e peninha, mas sem deixar de aludir a modelos gloriosos - sócrates, pitágoras, cristo, buda - e a outros mais próximos, como macedonio fernández, borges (1899-1986) apresentava-se, na última etapa de sua vida, como um grande mestre da oralidade. a princípio tímido e reservado, a ponto de se ocultar em meio à plateia e pedir a um amigo para ler a conferência que redigira, com os anos e a progressiva cegueira, o escritor argentino tornou-se um narrador oral, como se quisesse dissolver-se na tradição épica dos narradores anônimos. a tradição daqueles cuja arte havia procurado imitar na prosa de seus relatos, em parte derivados dos livros que aprendera a amar desde menino na biblioteca do pai, mas muitas vezes também inspirados pelas histórias de valentões de arrabalde nos arredores de sua casa no velho bairro de palermo, numa buenos aires mítica do começo do século xx.
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corre o vento e o mississipi passa...
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nas primeiras páginas de «história universal da infâmia», obra de jorge luís borges, que ganhei de um poeta, « pássaro de mesma plumagem», está escrito:
o pai das águas, o mississipi, o rio mais extenso do mundo, foi o digno teatro desse incomparável canalha. (alvarez de pineda o descobriu e seu primeiro explorador foi o capitão hernando de soto, antigo conquistador do peru, que distraiu os meses de prisão do inca atahualpa ensinando-lhe o jogo de xadrez. morreu, e lhe deram como sepultura as suas águas.)
o mississipi é rio de peito largo; é um infinito e obscuro irmão do paraná, do uruguai, do amazonas e do orinoco. é um rio de águas mulatas; mais de quatrocentos milhões de toneladas de lama insultam anualmente o golfo do méxico, descarregadas por ele. tanto lixo venerável e antigo construiu um delta, onde os gigantescos ciprestes dos pântanos crescem sobre os despojos de um continente em perpétua dissolução, e onde labirintos de barro, de peixes mortos, de juncos, dilatam as fronteiras e a paz de seu fétido império. mais acima, na altura do arkansas e do ohio, também se alongam as terras baixas. habita-as uma estirpe amarelenta de homens esquálidos, propensos à febre, que olham com avidez as pedras e o ferro, porque entre eles não há outra coisa senão areia e madeira e água turva.
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recentemente, eu estava ouvindo o álbum «together through life» e me fez perceber novamente como a voz de bob dylan, com a idade, se aproxima cada vez mais dos blueseiros tradicionais. com o tempo, a voz do bardo ganhou aspereza e profundeza.
em «i feel a change comin' on», uma das músicas do álbum, há essas palavras impressionantes: «eu tenho o sangue da terra na minha voz». será que é a terra dos antepassados, da qual ele transmitiu a riqueza desde os seus primeiros dias? ou ele fala de uma terra rochosa e desgastada que carrega todas as desgraças do mundo, assim como todas as decepções, assim como todas as esperanças?mas esta terra pode simplesmente ser a que se encontra no mississippi, que se estende pelo sul dos estados unidos, desde o texas até a louisiana, sem esquecer o mississippi.
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rolling stone: você não se considera uma voz especialmente norte-americana pela maneira como suas músicas fazem referência à história?bob dylan: elas são históricas. mas também são biográficas e geográficas. elas representam um estado mental específico. um território específico. o que os outros pensam a meu respeito é totalmente irrelevante. deixe-me mostrar uma coisa... olhe só quem escreveu este livro [hell’s angel, de sonny barger]: keith zimmerman e kent zimmerman. esses nomes lhe parecem familiares? vou fazer uma referência a um lugar aqui. leia isto em voz alta:
«um dos primeiros presidentes dos berdoo hells angels foi bobby zimmerman. quando estávamos voltando para casa em 1964, bobby estava em sua posição de costume quando o escapamento caiu da moto dele. ao fazer um retorno rápido, jack egan o atingiu em alta velocidade e o matou no mesmo instante. nós arrastamos o corpo sem vida de bobby para o acostamento.»
bob dylan: sabe como isso se chama? chama-se transfiguração. bom, está olhando para alguém assim.
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de volta a borges
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em borges, a transfiguração quase nunca é um milagre físico ao modo mítico tradicional, mas sim epifânica e metafórica: é a noite em que um homem descobre seu verdadeiro rosto, o instante em que a memória humana toca o infinito, ou a magia da linguagem que converte a dor e o tempo escorrido em espelhos da eternidade.
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biografia de tadeo isidoro cruz
neste texto de el aleph, o sargento cruz (personagem do martín fierro) está caçando um desertor cercado. no meio da noite e do combate, ao ver a coragem do homem encurralado, cruz compreende subitamente quem ele realmente é. em uma noite de revelação, sua identidade transfigura-se: ele deixa de ser o perseguidor da lei para se juntar ao perseguido, selando seu destino em um único instante eufórico.
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«os fatos aconteceram assim:nos últimos dias de junho de 1870, cruz recebeu ordem de prender um desertor que devia duas mortes à justiça; o relatório acrescentava que procedia de laguna colorada. daí saiu o desconhecido que gerou cruz e que pereceu numa vala; cruz esquecera o nome do lugar, mas, com leve e inexplicável inquietude, reconheceu-o.
o criminoso, acossado, foi encurralado na noite de 12 de julho num palhegal. a treva era quase indecifrável; cruz e os seus avançaram. gritou uma chajá; tadeo isidoro cruz teve a impressão de já ter vivido esse momento.
o criminoso saiu do abrigo para combatê-los. cruz o entreviu, terrível; a crescida cabeleira e a barba cinzenta pareciam comer-lhe a face.
o desertor feriu gravemente ou matou vários dos homens de cruz. este, enquanto combatia na escuridão (enquanto seu corpo combatia na escuridão), começou a compreender. compreendeu que um destino não é melhor que outro, mas que todo homem deve acatar aquele que traz consigo. compreendeu que as divisas e
o uniforme já o estorvavam. compreendeu seu íntimo destino de lobo, não de cachorro greg ário; compreendeu que o outro era ele. amanhecia na imensa planície. cruz a
tirou por terra o quepe, gritou que não ia consentir no delito de que se matasse um valente e pôs-se a lutar contra os soldados, junto com o desertor martín fierro.»
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de volta ao mississippi
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«eu tenho um sonho que um dia, até mesmo o estado de mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.»
mississippi, 2 de julho de 1963
o student non-violent coordinating committee (sncc) organizava comícios no mississippi para registrar eleitores negros. theodore bikel sugeriu a albert grossman que dylan participasse: «acho que bob deveria ir... sentir como é o sul», e pagou a passagem. voaram juntos de nova york a jackson, com bob escrevendo letras nos versos de envelopes, e seguiram para greenwood. na manhã do evento, viajaram deitados no carro para evitar a polícia local: «se os tiras vissem um carro com negros e brancos misturados... o levariam para a cadeia. neste caso, só restaria torcer para que o pior não acontecesse...»
o comício reuniu cerca de trezentas pessoas, a maioria trabalhadores rurais afro-americanos, sob o olhar de policiais e grupos de brancos do outro lado da rodovia. lá, dylan reuniu-se a pete seeger e the freedom singers. «o que eu me lembro é do negro que discursou», diz seeger. «ele tinha um sorriso feroz, como se soubesse que estava ganhando e que a ku klux klan não sabia o que fazer com isso. ele sabia que alguns de nós seríamos mortos, mas eles não conseguiriam matar todos.» bob cantou «only a pawn in their game», sua música sobre o assassinato de medgar evers, morto a tiros um mês antes. dylan cantou que o assassino era um peão em um jogo de ignorância, preconceito e ódio. ele ficou inclinado para frente enquanto cantava, sem nunca sorrir para as câmeras que estavam a postos para registrar o evento para a televisão e os jornais. aquilo era sério e exigia uma postura séria. como diz seeger: «uma das coisas mais importantes de bob é o fato de ele se recusar a sorrir para as câmeras.»
a família de tyre nichols, um homem negro que morreu após ser agredido por policiais no estado do tennessee, nos estados unidos, o descreve como uma «alma linda», apaixonada por skate, pôr do sol e fotografia.«ninguém é perfeito, mas ele chegou perto», disse a mãe dele, rowvaughn wells, em uma coletiva de imprensa ao lado de familiares e apoiadores. nichols foi brutalmente agredido por policiais em 7 de janeiro, quando o carro dele foi parado pelos agentes. imagens gravadas pelas câmeras nos uniformes dos policiais mostram o jovem chorando e chamando pela mãe enquanto era socado e chutado múltiplas vezes.ele foi hospitalizado e morreu três dias depois, em 10 de janeiro. agora que as imagens vieram à tona, a morte do jovem tem causado grande revolta nos eua. os policiais inicialmente disseram que pararam o carro de nichols porque ele estaria dirigindo de maneira imprudente, mas a acusação não foi comprovada.wells, visivelmente triste, abriu um sorriso raro ao descrever seu filho, durante a entrevista coletiva à imprensa.
os homens
em princípios do século xix, as vastas plantações de algodão eram trabalhadas por negros, de sol a sol. dormiam em cabanas de madeira, não sabiam ler e sua voz cantava num inglês de vogais lentas. trabalhavam curvados sob o rebenque do capataz; se fugiam, cães de caça os rastreavam.a um sedimento de medos africanos haviam agregado as palavras da escritura, e o mississipi servia-lhes de magnífica imagem do sórdido jordão.os proprietários dessas levas de negros eram ociosos e ávidos senhores. um bom escravo não durava muito, e devia-se tirar dessas incertas criaturas o maior rendimento. a terra, fatigada por essa cultura impaciente, ficava exausta, e no deserto confuso e enlodaçado viviam os poor whites, a canalha branca, que mantinha em sua prostração um orgulho: o do sangue sem tisne, sem mescla. lazarus morell foi um deles.
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o homem
os daguerreótipos de morell não são autênticos; é verosímil supor que se negou à placa para não deixar rastos e alimentar o seu mistério. os anos conferiram-lhe essa peculiar majestade que têm os canalhas envelhecidos. era um cavalheiro antigo do sul que não desconhecia as escrituras e pregava com rara convicção. «eu vi lazarus morell no púlpito», anota o dono de uma casa de jogo, «e escutei as suas palavras edificantes. sabia que era um adúltero, um ladrão de negros e um assassino, mas também meus olhos choraram».
outro testemunho dessas efusões é o do próprio morell:
«abri a bíblia ao acaso e preguei uma hora e vinte minutos. tampouco desperdiçaram esse tempo crenshaw e os companheiros, porque levaram todos os cavalos dos que estavam a ouvir. vendemo-los no estado de arcansas, exceto um avermelhado, que reservei para meu uso particular.»
borges, em «história universal da infâmia» (1935), p. 15-17.
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– zé, você não segue nenhum tipo de religião – ao contrário, sua visão sobre elas é bastante crítica – mas sua música e poesia emanam uma grande religiosidade... vemos tanta intolerância na fé, no entanto a aspiração pelo divino é inerente ao ser humano...
zé ramalho da paraíba: as ideologias religiosas foram responsáveis por grandes morticínios ao longo da história. é a violência num caminho que deveria conduzir à paz. temos de encontrar o caminho dentro da nossa própria consciência.
creio que as religiões desaparecerão no futuro. elas promovem a divisão: «a minha verdade é sempre a melhor». quando ficamos em silêncio, refletimos sobre o além. isso aqui é só um estágio; para partirmos tranquilos, temos de estar de bem conosco, aqui e agora. quando eu morrer, gostaria que minhas cinzas fossem espalhadas onde nasci. a morte é só o encerramento de um ciclo, tenho certeza da continuidade.
se examinarmos a questão de forma crítica, veremos os horrores feitos «em nome de deus». o que chamamos de «história» é só uma interpretação conveniente aos detentores do poder; não recebemos fatos, mas pontos de vista parciais.
hoje a guerra virou videogame, movida por computadores e manipulada por forças obscuras. como diz bob dylan em «gotta serve somebody», do álbum «slow train coming», todo mundo tem de servir a alguém, a deus ou ao diabo. é dessa força sinistra que falo, algo que move pessoas desde o início da raça humana...
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e o homem da esquina rosada?
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borges tinha algumas obsessões: os tigres, os labirintos, o livro das mil e uma noites, o tempo, o mundo do tango. deste último tema surgem poemas (como o tango: «uma mitologia de punhais lentamente se anula no esquecimento») e este conto magnífico, homem da esquina rosada.
nele se conta uma história ambientada numa espécie de faroeste argentino, um mundo de compadritos que vivem se desafiando à ponta de faca, sem motivos aparentes, só pelo desafio mesmo — para provar quem é o homem mais valente.
homem da esquina rosada, a última das histórias de história universal da infâmia antes do capítulo final feito de fragmentos (etcétera), tem tudo aquilo que faz parte da imagem de marca de borges: um enigma insolúvel. trata-se de uma história de covardia e coragem onde é o próprio narrador que assinala a estocada final, despedindo-se do leitor e trazendo a infâmia descaradamente para o nosso mundo:
«parti tranquilamente para o meu rancho, que ficava a uns três quarteirões dali. ardia na janela uma luzinha, que em seguida se apagou. por certo que me apressei a chegar, quando tal vi. então, borges, voltei a tirar a navalha curta e afiada que eu sabia trazer aqui, no colet e, ao pé do sovaco esquerdo, e olhei-a lentamente, e estava como nova, inoc ente, e não guardava nem um fio de sangue.»
racismo. fascismo. xenofobismo. klan. trump. globo. aécio. temer. moro. ustra. bolsonaro. tortura. opressão torácica. dispneia. ânsia. medo. horror. desespero. você está cercado de canalhas, sofre um golpe, é enterrado vivo, vê cruzes em chamas, tenta gritar e não consegue. por fim, acorda com o coração disparado, com uma sensação de angústia, assustado, e então percebe que tudo não passou de um (terrível) pesadelo.
quem dera fosse só um pesadelo.
quem dera.
o mistério e a beleza caminham entre nós no palco da história, mas a gente continua sem aprender nada, encenando a negação com a mesma precisão cega de dois mil anos atrás.
grill
