Mostrando postagens com marcador Elomar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Elomar. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 25 de agosto de 2026


levantado do chão

••••••••••••••

terras raras

[por cesar benjamim] 

há pouco tempo, lula e trump encontraram-se pessoalmente durante três horas, acompanhados apenas pelo intérprete. lula disse que trataram de tarifas.

era mentira.

agora, falaram por telefone durante uma hora e meia. lula voltou a dizer que trataram de tarifas.

é mentira.

dado o volume e a composição do comércio bilateral entre brasil e estados unidos, não há tanto a tratar desse assunto por dois presidentes. é algo menor. as equipes técnicas existem para isso.

outro assunto é decisivo: o destino das terras raras brasileiras.

os estados unidos dependem da china para obter esses minerais estratégicos, sem os quais não se fabricam equipamentos eletrônicos de uso civil e militar. o brasil detém as segundas reservas do mundo, praticamente inexploradas.

lula quer nos fazer crer que os dois presidentes se encontram e se falam e não tratam disso.

está nos chamando de trouxas, parece que com razão. no século xxi, as terras raras têm a mesma importância que o petróleo teve no século xx.

* * *

flávio bolsonaro oferece aos estados unidos uma vassalagem total e explícita. se puder, transformará o brasil na 52a estrela da bandeira americana.

lula oferece uma vassalagem ambígua. tudo em lula é ambíguo, pois sempre há um abismo entre o que diz e o que faz.

o império prefere a primeira opção, mas pode se ajustar perfeitamente à segunda.

••••••••••••••

«diga ao seu patrão que estão aqui umas pessoas que vêm saber o que é que ele faz, já caíram as primeiras águas, é tempo de semear, e tendo a criada ido saber a resposta ficamos na porta, que a nós não nos mandam entrar e nisto volta a criada, e diz, o patrão manda dizer que não têm nada com isso, a terra é dele, e se voltarem aqui ele vai chamar a polícia»

josé saramago | levantado do chão, p. 234

••••••••••••••

chame o ladrão
chame o ladrão

👇

[do álbum: sinal fechado]

••••••••••••••

falando em brasil

••••••••••••••

antonio – o senhor mandou me chamar, doutor rocha?

dr. rocha – mandei, antonio. infelizmente, devido à crise do mercado, muito a contragosto, terei de demiti-lo.

antonio – doutor rocha, eu estou no meio de um trabalho. será que não poderíamos conversar sobre isso na hora do almoço?

dr. rocha – é claro que podemos, mas infelizmente nada do que você disser poderá modificar a situação.

(na hora do almoço, antonio estava novamente na frente do dr. rocha.)

antonio – doutor rocha, como trabalho aqui há mais de oito anos, tenho mais de 50...

dr. rocha – você não é o único, antonio, a situação está ruim para todos.

antonio – o senhor não entendeu, doutor rocha. quis dizer que pelos anos de dedicação à firma, achava que tinha direito a lhe fazer algumas perguntas.

dr. rocha – pois faça-as.

antonio – o senhor gosta de coisas singelas como flores, pássaros, o orvalho nas plantas, riso de crianças pequenas? 

(antes que o patrão pudesse responder, antonio continuou) 

gosta de fazer amor com uma bela mulher, de cavalos correndo no prado, de ver o nascer do sol, de olhar para as estrelas?

dr. rocha – claro que gosto, antonio, só não estou entendendo...

antonio – só mais uma pergunta.

dr. rocha – está bem, mas seja breve, pois tenho uma reunião de diretoria e ainda preciso examinar alguns papéis.

antonio – o senhor acredita em deus, doutor rocha?

dr. rocha – claro que acredito.

antonio – pois está na frente dele.

dr. rocha – você enlouqueceu, antonio?

antonio – não enlouqueci, não. até duas horas atrás eu não era deus. era apenas antonio pinto, contador, casado, mulher e quatro filhos, um deles autista, com dívidas para pagar e muito medo de perder o emprego, pois dificilmente encontraria outro depois dos 50 anos. aí, quando saí do seu escritório, fui até em casa, peguei este revólver e me transformei em deus. 

(neste momento, antonio tirou do bolso um smith&wesson calibre 38 e apontou-o para a testa do dr. rocha)

o senhor é um dos homens mais ricos de são paulo, tem mulher, amantes, viaja várias vezes ao ano à europa, uma vida muito boa. já a minha é triste e monótona. lembra-se daquela história de estrelas, nascer do sol, flores e pássaros? 

(o dr. rocha, mudo de terror, olha para o revólver)

será que vale a pena perder a sua vida para me desempregar? pense bem, se eu morrer, não perco nada. se o senhor morrer, perde tudo. e quem vai decidir isso sou eu, pois virei deus. 

(o doutor rocha ajoelha-se diante de antonio)

dr. rocha – não faça uma loucura dessas, seu antonio. diga o que o senhor quer que terei o maior prazer em atendê-lo, o que quiser. por favor, tenha piedade. diga o que quer!

antonio – gostaria de deixar de ser deus e voltar a ser o seu escravo. que tal? posso?

fausto wolff

(publicado no livro “a milésima segunda noite”, 2005)

••••••••••••••

como na peça de ionesco, tornamo-nos uma nação de rinocerontes exatamente porque não temos coragem de nos reconhecer como rinocerontes. no brasil encenam uma realidade para encobrir a verdade, e a verdade está na nossa bandeira. o verde representa os que vivem com menos de dez reais por mês; o amarelo, os que vivem com menos de cem; o azul, os que vivem com menos de mil. e os pontos brancos são os tiranos que, sendo tão poucos, nos esmagam com tanta facilidade. 

o país tem solução? tem e precisa ser drástica. se não quisermos que, pela dor da fome, o povo desça e o resto dance. 

(idem)

••••••••••••••

para todos e para ninguém

não ignoro bolsonaro e o «nazifascismo» — muito pelo contrário. lembro apenas que, para fiéis seguidores de lula, o nazifascismo muda de rosto a cada quatro anos. em 2002, por exemplo, era josé serra. naquele ano, lula fez um movimento semelhante ao da escolha de alckmin como vice: convidou para ser seu companheiro de chapa o megaempresário mineiro josé alencar (pl), que chegou a ser vaiado pela militância petista. a escolha do vice não foi o único movimento rumo ao centro político — ficou famosa a «carta ao povo brasileiro». em 2006, o «nazifascismo» atendia pelo nome de neoliberalismo, e o bolsonaro da vez era geraldo alckmin. em 2010, serra; e em 2014, aécio. e do final desse filme, tenho certeza de que todos nos lembramos. 

grill 

••••••••••••••

a certeza já me corrói
levo bronca do patrão
mas, sonhei e fiz a fé no avestruz
que vai me dar uma luz...

👇

[moleque gonzaguinha]

••••••••••••••

falando em avestruz

••••••••••••••

falam muito mal das avestruzes, injustamente. seus detratores, movidos por motivos inconfessáveis, declaram que aquelas aves são de estupidez sem paralelo. dizem que elas, ao se defrontar com um leão, enterram suas cabeças na areia. se assim elas se comportam, é porque devem ser adeptas de uma antiga filosofia que afirmava que «ser é perceber». raciocinam as avestruzes: se não percebo o perigo, o perigo não existe para mim. (traduzido popularmente: «aquilo que os olhos não veem o coração não sente».) continua o pensamento das avestruzes: «posso, assim, me comportar como se ele não existisse, desde que continue com a cabeça enterrada na areia». tudo estaria bem se o leão não fosse de verdade. e o resultado é que a avestruz acaba na barriga do leão... mas, como disse antes, eu não acredito que as avestruzes sejam assim tão estúpidas. estupidez igual somente encontrei em exemplares da espécie homo sapiens, a que pertencemos. acham que, não percebendo, a coisa não existe. o leão existe mesmo quando fechamos os olhos...

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 54

••••••••••••••

falando em fechar os olhos

••••••••••••••

quem não tem colírio
usa óculos escuros
a formiga só trabalha
porque não sabe cantar

👇

[com letra e ilustração]

•••••••••••••• 

lançada em 1974, «como vovó já dizia» foi a primeira canção de raul a incomodar a censura --- teve dois versos considerados subversivos substituídos: «quem não tem papel dá recado pelo muro» e «quem não tem presente se conforma com o futuro», trocados por «quem não tem filé come pão com osso duro» e «quem não tem visão bate a cara contra o muro».

••••••••••••••

falando em muro...

••••••••••••••

paulo césar pinheiro, um dos maiores letristas da música popular brasileira — infelizmente, um ilustre desconhecido dos brasileiros em geral —, propôs a maurício tapajós que compusessem uma canção sem rodeios e metáforas. foi assim que nasceu «pesadelo». 

••••••••••••••

quando o muro separa, uma ponte une
se a vingança encara, o remorso pune
você vem me agarra, alguém vem me solta
você vai na marra, ela um dia volta

👇

do álbum: «o importante é que nossa emoção sobreviva nº 2»
márcia, eduardo gudim e paulo césar pinheiro
gravado ao vivo no teatro ginástico - rio de janeiro, em fevereiro de 1976

••••••••••••••

antes do fim

••••••••••••••

é preciso que a justiça e a igualdade
sejam mais que palavras de ocasião
é preciso um novo tempo
em que não seja só promessa repartir a terra e o pão

link

👇

poema: martim césar 
música: pedro munhoz
do cd 1º festival nacional da reforma agrária

••••••••••••••

enfim, há quem passe o dia na internet e faça dos blogs pessoais e das redes sociais trincheira contra tudo e contra todos, e por causa disso seja criticado, desvalorizado e menosprezado. não é o meu caso. eu, particularmente, não critico nada nem ninguém — muito pelo contrário: as armas são muitas e cada um escolhe e utiliza aquelas com as quais pensa obter melhores resultados. já participei de reuniões presenciais e de manifestações de rua; hoje em dia escrevo só para os raros, só para os loucos, e não vejo diferença nenhuma entre uma arma e outra... com qualquer delas me sinto desarmado e derrotado. 

trocando em miúdos: nosso discurso é velho e ultrapassado; nossa forma de atuar e de lutar não diz mais nada, nem a nós nem a ninguém. na minha opinião, é preciso passar o bastão — estamos desgastados e desacreditados. o problema é passá-lo para quem... não vejo nada nem ninguém. 

não nego
posso estar enganado
meu tempo passou
estou velho e superado
mas vou assim
até o fim
quanto mais velho
mais cego

••••••••••••••

é a ceguêra de dexá
um dia de sê pião
num dançá mais amarrado 
pru pescoço cum cordão

👇

canta: dércio marques
[«pinhão» é uma variante dialetal e regional para a palavra «peão»]

••••••••••••••

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

segunda-feira, 17 de agosto de 2026


 fantasia leiga para um rio seco 
[sobre amores e outras utopias]

••••••••••••••

«devemos fazer de nosso medo 
um ídolo e chamá-lo de deus?»

ingmar bergman 

••••••••••••••

falando em deus
lembrei de elomar 
como dizia vinicius
«a mim me parece um disparate
que em seu nome exista mar»
pois elomar é feito de terra
quem quiser compreendê-lo
elomar é uma espécie rara
vinda de outras eras
uma sábia mistura de bode com rainha da inglaterra
cavaleiro andante
trovador errante
elomar é uma quimera
se victor hugo fosse vivo
diria que é como se elomar fosse assim uma espécie de dante
elomar é gigante
e a mim me parece um disparate
que alguém ainda se espante
com o que o poeta diz
elomar é um profeta
um vate
sua poesia
tem a cor vermelha viva e rutilante
pendendo para a cor laranja
que é a cor do céu escarlate

grill

••••••••••••••

«e, por cima de sua cabeça estava o arco celeste, e o seu rosto era como o sol, e os seus pés como colunas de fogo.»

a bíblia sagrada. apocalipse, 10, 1.

••••••••••••••

são sete mil léguas
imendada de camin
prêsse mundão largo
sem portêra vem o fim
só vejo na terra a morte a rondá
peste mil infermidades
fome e guerra ai de mim
mil ventos da morte
estroncios letais
sete vacas magras
tragam as gordas nos currais
pelos sete cravos
das chagas do siô
lastimos meus êrros
de grande pecadô
geme a terra ao rebentá das covas
branca e lira
mia noiva é a lua nova
ao sol peço clemença
qui esse chão quêma meus pé
quatro cavaleiros
de olhares crueis
prontos pra peleja
já cavalgam seus corceis
de olhos para os ceus
só ispero cristo vim
eis qui chegam os maus
tempos do grande fim
treme a terra pela última veiz
ais lamentos
é vindo o rei dos reis
sol nunca seca meu pranto
qui é preu refrescá meus péis

link

👇

corban | cartas catingueiras |1983
[de «o mendigo e o cantador» – 7º canto]
.

notas:

1.c’a foice armada /do anjo da morte: a palavra foice (lat. falce) denomina instrumento curso para ceifar, segar. no sentido figurado, é símbolo do tempo. seguido da expressão anjo da morte, faz uma remissão ao apocalipse ( novo testamento ), livro das revelações divinas feitas a joão evangelista (séguier, 1964: s.v.). ali estaria traçado o destino dos homens e do mundo .

2. a fome a peste a morte e a dô: alusão aos quatro cavaleiros do apocalipse : a guerra, a fome, a peste e a morte.

3. o rei da guerra / o rei da glora: expressões que designam o senhor deus todo-poderoso.

4. muitos mili anjo in grande preparação / nos alto céus / vêm vino sobre essa terra / pra julgá os homes maus / qui ofendêro a deus: trecho que alude ao capítulo d’os anjos e os sete trovões.

5. oço o toco dos rubin trombetêro / atraiz dos véus: rubin é uma forma aferesada de querubim que, na hierarquia celeste (pseo, 206-207), pertence à ordem superior dos anjos e sentam-se imediatamente abaixo dos serafins.

seguindo a temática bíblica, o poeta alude então ao episódio da abertura do sétimo selo. os sete anjos e as sete trombetas. «vi outro anjo forte, que descia do céu, vestido de uma nuvem; e, por cima de sua cabeça estava o arco celeste, e o seu rosto era como o sol, e os seus pés como colunas de fogo.» (a bíblia sagrada. apocalipse, 10, 1)

a expressão «atraiz dos véus» evoca «vestido em uma nuvem» que aparece no versículo transcrito em diálogo com o item anterior.

*é interessante observar que o contato com a religião e suas práticas é a única forma de aquisição do padrão formal da língua, uma vez que o homem caipira dificilmente tem acesso à escola. por isso, as formas mais distanciadas da fala regional são aquelas que representam a fala da igreja, adquirida nas missas e cultos.

.

corban

trata-se literalmente do apocalipse, em que sob o texto bíblico a morte penetra na vida do sertão estendendo-se a todo o resto do planeta (cartas catingueiras, 1983). em hebraico korban, o culto sacrificial o período bíblico, que envolvia oferendas. aqui esta oferenda se faz diferente: como em outros textos de elomar, a obsessão da travessia, da vida como caminho, o percurso perigoso. aqui se oferece o apocalipse, sob o texto bíblico, a morte faz o seu caminho no sertão.

(ferreira, 2001: 170)

••••••••••••••

o sétimo selo
 
a partida de xadrez com a morte
o vício de viver no limite 
e sobreviver a si mesmo
o silêncio de deus
o ceticismo devoto
a falta de respostas 
o refúgio na paixão 
e na arte
a dança da morte
a atmosfera boêmia 
a noite escura 
o baile de máscaras 

grill

••••••••••••••

o xadrez de bergman

a foice e a ampulheta...(da morte
que espreita atrás de cada esquina)
são punhais ceifando a vida. um corte
e o caminho – breve ato! – se termina

se um cavaleiro, rei, peão?... o porte
pouco importa! pois de todos é a sina
bergman frente a deus, a finda sorte
será humana ou, afinal, será divina?

dois contendores e, entre ambos, o xadrez
a morte joga: tem o tempo em sua mão
depois o homem. chegou, enfim, a sua vez!

movendo a peça, dissimula a emoção...
o que virá agora que a sua chama se desfez? 
existe um deus? ou tudo... tudo... foi em vão? 

martim césar 

••••••••••••••

palavras ao léu
[de quando o bardo cruzou com o menestrel]

ó céu
ó céu
onde há fumaça
há fogaréu

ó céu
ó céu
a estrada é infinita
o horizonte é um véu

ó céu
ó céu
cego de tudo e de todos
eu vi remundo batendo nas porta do céu

grill

••••••••••••••

naquela hora na porta do rancho
ela tamém viu a lua pur trais dos garrancho e no céu
pertô o caçulo contra o peito seu
o coração deu um pulo os peito istremeceu
soltô um gemido fundo as vista iscureceu
valei-me sinhô deus meu apois eu vi remundo
nas porta do céu, ai sôdade

[do álbum: na quadrada das águas perdidas]

••••••••••••••

mãe, guarde minhas armas
minha camisa e meu chapéu
aquela enorme nuvem negra está descendo
acho que estou batendo na porta do céu

link

👇

knochin' on heaven's door | bob dylan | 1973
[from the hard to handle concert film.
bob dylan, backed by tom petty and the heartbreakers during their australian tour in 1986.]

••••••••••••••

coplas do fim do mundo

ó mundo
ó mundo
quem teme o raso
jamais chegará ao fundo.

ó mundo
ó mundo
quanto mais eu cavo
mais o buraco fica fundo.

ó mundo
ó mundo
se as pessoas não compreendem o que é óbvio
o que dirá o que é profundo.

grill

••••••••••••••

«só os míopes desprezam a utopia»

boaventura de sousa santos

••••••••••••••

gracias, mestre
pensei que estava ficando cego.

••••••••••••••

«sinta mais, pense menos»

bukowski

••••••••••••••

amou daquela vez como se fosse a última
beijou sua mulher como se fosse a última
e cada filho seu como se fosse o único
e atravessou a rua com seu passo tímido
subiu a construção como se fosse máquina
ergueu no patamar quatro paredes sólidas
tijolo com tijolo num desenho mágico
seus olhos embotados de cimento e lágrima
sentou pra descansar como se fosse sábado
comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
dançou e gargalhou como se ouvisse música
e tropeçou no céu como se fosse um bêbado
e flutuou no ar como se fosse um pássaro
e se acabou no chão feito um pacote flácido
agonizou no meio do passeio público
morreu na contramão atrapalhando o tráfego

link

👇

[vídeo oficial]

••••••••••••••

xadrez 

o vento 
no ar
o fio
esticado 
o lance
no vazio
a queda
do céu
o chão 
de giz
o beijo 
no asfalto 

grill

••••••••••••••

eu desço dessa solidão
espalho coisas
sobre um chão de giz

link

👇

[clipe oficial]

••••••••••••••

cinema 

a cortina 
que abre
a carta
que não veio
o chão
que abriu
o beijo
que não dei 

grill

••••••••••••••

fue en ese cine, ¿te acuerdas?
en una mañana al este del edén
james dean tiraba piedras
a una casablanca, entonces, te besé

link

👇

[do álbum: auterretratos] 

••••••••••••••

the end

o beijo 
no chão
a alma 
no ar 
o giz 
que não veio 
o amor 
que não dei 
e não vai ter 
happy  
no fim 

grill

••••••••••••••

você fala que sim
que me compreende
você fala que não

link

👇


••••••••••••••

#salacheguevara 
#casadosaedos
#américas 

segunda-feira, 2 de julho de 2012


INTÉ AS PORTEIRA DO CÉU, MENESTREL

Mais cadê meus cumpanhêro, cadê
Qui cantava aqui mais eu, cadê
Na calçada no terrêro, cadê
Cadê os cumpanhêro meus cadê
Cairo na lapa do mundo, cadê
Lapa do mundão de Deus, cadê
                           CHULA NO TERREIRO
                                              ELOMAR
                               DÉRCIO MARQUES
                          CANTO FORTE, 1979

LEITO DO GAVIÃO/CHULA NO TERREIRO
FAIXA 10
CANTO FORTE
DÉRCIO MARQUES

sábado, 30 de junho de 2012



INTÉ AS PORTEIRA DO CÉU, MENESTREL

Vô corrê trecho
Vô percurá u'a terra
preu pudê trabaiá
prá vê se dêxo
essa minha pobre terra
véia discansá

Me ispera, assunta bem
inté a bôca das água qui vem
num chora conforma mulé
eu volto se assim Deus quisé
                                   CURVAS DO RIO
                                             ELOMAR
                               DÉRCIO MARQUES
      TERRA, VENTO, CAMINHO, 1977

CURVAS DO RIO
FAIXA 06
TERRA, VENTO, CAMINHO
DÉRCIO MARQUES

sexta-feira, 29 de junho de 2012



DÉRCIO POR ELOMAR


O recluso compositor baiano Elomar Figueira Melo dividiu o palco com Dércio Marques em alguns concertos e o convidou para gravar o antológico álbum “Auto da Catingueira” (1984), que contava ainda com o violeiro Xangai, o maestro Jacques Morelembaum e outros músicos de peso como Marcelo Bernardes, Andrea Daltro, Sônia Penido.

Por meio de sua assessoria de imprensa, Elomar Figueira Melo lamenta a morte do “último grande menestrel”: “O mundo perdeu o último-grande/Menestrel porque a Europa não tem, Asia, África, Oceania, nem em todo o resto do continente americano, um que se iguale a ele. A não ser que exista sem que saibamos”, escreveu o compositor.

Violeiro de dois endereços, Dércio Marques passava temporadas em Uberaba, no Triângulo Mineiro, e em Salvador. Ele deixou companheira e quatro filhos.

sábado, 12 de novembro de 2011



 ELOMAR


Fragmento de matéria sobre
apresentação de Elomar
em São Paulo


Por Pedro Alexandre Sanches
Folha de São Paulo
2000


O cantador baiano (de Vitória da Conquista) Elomar, 62, manifesta-se como um homem do sertão. Visitando São Paulo após dois anos de ausência -para um show único que acontece nesta quarta (01), no Sesc Ipiranga-, chegou à cidade portando o que chama de "aflição subconsciente".

Apareceu para a entrevista, num hotel paulistano, vindo diretamente do hospital:. "Cheguei com o coração estuporado, tive de ir ver o que era. Fiz eletrocardiograma, e não era nada, só ansiedade", afirma.

O nexo? "Moro na beira do rio Gavião, crio cabras, durmo com as janelas abertas, tenho a comida mais excelente do mundo, como carne de bode, tomo leite de cabra, um sossego daqueles... Dá para entender o porquê da preocupação? Saí do paraíso para passar alguns dias no purgatório."



CANTO DO GUERREIRO MONGOIÓ

“Adeus vô imbora pra sombra
Do vale do Ri Gavião
No peito levarei teu nome
Tua imagem nesta canção
Por fim já farto de tuas manhas
Teus filtros tua ingratidão
Te deixo entregue a mãos estranhas
Meus filhos não vão te amar não"
                                               Elomar

sexta-feira, 11 de novembro de 2011



 AS CIDADES


Fragmento de entrevista de Elomar
a Carlos Roque
1984:

“Eu acho que as cidades são um erro terrível. O progresso técnico é o grande mal da humanidade e não representa luxo nem conforto e sim um remédio com efeitos colaterais nefastos.”
Elomar Figueira Mello



Fragmento de entrevista de Atahualpa Yupanqui
a Revista Expreso Imaginário
1980

"Yo le he preguntado a los chicos de aquí (Buenos Aires): "¿Cómo se llama este árbol que está en la puerta de tu casa?". "No se. Creo que papá sabe". No hablé de ir al bosque de Palermo, hablé del árbol de la puerta de su casa, de los árboles de la manzana. Yo sabía que era una acacia blanca, pero le pregunté para ver. Y no sabía. Y uno se pone a pensar: "este se sabe de memoria todas las canciones en inglés pero no conoce el árbol que tiene adelante...".
Atahualpa Yupanqui 




LAS CIUDADES


Y entonces fue que dijimos:
Señor, enséñanos
a levantar ciudades
que sean iguales a los árboles
que llegan a estar maduros
antes de quedarse secos
(Génesis, versículo primero,
capítulo 1972, del futuro testamento)


Ciudades, fundadas para odiar.
Ciudades, tan altas, ¿para qué?
Ciudades, cadáveres de pie.
Ciudades, al polvo volverán.

Si aquí la estrella no se ve jamás,
de aquí la tierra, el ser y el sol se irán,
y reinará la soledad total,
que escrita fue la destrucción final.

Ciudades, fundadas para odiar.
Ciudades, tan altas, ¿para qué?
Ciudades, cadáveres de pie.
Ciudades, al polvo volverán.

Qué lindo será reconstruir.
Querida, te beso hasta engendrar
un hijo con vuelo de albañil en paz.

Qué lindo, te nace una ciudad,
qué calles te sangran por los pies,
qué torre será tu corazón con fe.

Y en cada charco habrá un pequeño mar
y en cada fragua un inventor de sol
y en cada puerta la inscripción astral
y en cada triste un aprendiz de Dios.

Ciudades, ciudades que serán.
Ciudades, sentí su anunciación.
Ciudades, las vengo a construir.
Ciudades, del polvo volverán.
                                             Astor Piazzolla / Horacio Ferrer

 LAS CIUDADES