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domingo, 13 de setembro de 2026


no jardim da política
[ou: na terra de noel]


«se o néscio persistisse em sua nescidade, ele se tornaria sábio.»

william blake

.

não vou tirar meu chapéu
p'ra qualquer vagabundo
nasci na terra de noel
sou cidadão do mundo

josias sobrinho

no final do post de ontem, eu disse que, mesmo sem dinheiro e perdendo a razão, ainda me restava o direito de ser consciente da situação. que situação? a situação de impasse. que impasse? o impasse da frente ampla  — impasse, aliás, apontado por andré singer:

«diante desta etapa regressiva, torna‑se obrigatório construir a frente mais ampla possível para preservar e aprofundar o regime democrático. dadas as contradições de classe envolvidas na coalizão resultante, todavia, o artefato frentista se paralisa, impedindo o salto de qualidade necessário para formar uma maioria sólida em torno do objetivo almejado.»

dito isso, vamos ao que viemos

há dez mil anos atrás, numa postagem minha no facebook, na qual falava sobre a foto de lula abrazado a sarney, uma companheira amiga minha, contemporânea do lad (livres atuadores pela democracia), fez o seguinte comentário:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo candidato pra derrotar o bolsonaro, glauber braga se lançou pelo psol. quem sabe combateremos o nazifascismo em rodas de ciranda, néh 😉»
ao que eu respondi:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo argumento para nos abrazarmos a sarney e cia: o nazifascismo. aliás, o nazifascismo, para petistas e lulistas, muda de cara a cada quatro anos. em 2002, a cara era uma; em 2006, outra; em 2010, outra; e, em 2014, outra. e o final deste filme, sabemos qual é. mas que importância isso tem? nenhuma. o que importa é que a gente vença e passe mais 10, 12, 14, 16 anos no governo. depois, se nos tirarem de novo, a gente vê o que faz. mas não te preocupa, companheira, minha opinião não tem valor algum. ainda tô no jardim da infância da política, de onde, por sinal, não tenho o menor interesse de sair. 😉»

de farsa em farsa, a «nova república» morreu
a expressão «nova república» foi cunhada há 31 anos, quando josé sarney assumia a presidência do país, na qualidade de vice de um agonizante tancredo neves, eleito indiretamente pelo colégio eleitoral inventado pela ditadura. em seu discurso de posse, escrito por tancredo, o imortal autor de marimbondos de fogo anunciava: «brasileiros, começamos hoje a viver a nova república». a expressão pretendia anunciar o advento da democracia. a farsa não poderia ser mais perversa e descarada: ignorando a vontade de milhões que expressaram nas ruas a exigência por eleições diretas, o poder era entregue a um líder da arena – principal partido de sustentação dos generais –, sem que qualquer instituição do antigo regime fosse desmantelada, ou os seus responsáveis julgados e muito menos punidos.
josé arbex jr.
abril de 2016

«há quem diga que essa história de desobediência civil e revolução, não tá com nada. isto é, já era. «não tá com nada» pode ser que sim, «já era» penso que não. por quê? porque aqui no brasil, salvo uma ou outra exceção — vide a balaiada no maranhão — isso jamais aconteceu. portanto, não se pode dizer «já era» para uma coisa que nunca foi.»

ontem, aqui no blog, reproduzi o trecho acima. hoje, ao entrar no whats, havia a seguinte mensagem para mim: «ah, fala sério que tu ainda acredita em desobediência civil e revolução...»

uma fábula de natal

por fausto wolff
a minha mais bela noite de natal aconteceu numa (sei do cacófato) manhã. eu não era a criança que recebia os presentes, mas sim o papai noel que os dava. não aconteceu no brasil, mas em copenhague e nevava, como nos filmes de natal que os americanos mandavam para nós em programas duplos dominicais e que nós crianças pobres assistíamos, não acreditando que pudesse existir um país onde todos eram tão bons e se amavam tanto. antes, porém, de lhes contar minha performance como papai noel, devo lhes contar minha performance como vinícius de moraes.

tudo começou alguns anos atrás, vários graus abaixo de zero, fora e dentro do copo. uma dessas noites em que a angústia encontra-se com a solidão numa esquina do inconsciente, quando sentimos os nossos demônios dançando dentro de nós, informando-nos da nossa fragilidade e ignorância. numa dessas noites em que os pais de família apressam-se em ir para casa e ao pé da lareira tomarem chocolate quente e contarem histórias de hans christian andersen para os filhos. em se tratando de um país estranho, então, a solidão aumenta consideravelmente e a angústia parece esmagar a psique como quem aperta uma borboleta na mão fechada. a solução, principalmente para quem não é uma pessoa séria e respeitável como é o meu caso, é unir-se com outros sócios do mesmo sindicato e ir armar uma zoeira até que, como diz drummond, venha a manhã trazer leite, jornal e calma.

entrei numa boatezinha de badstuestraede, se não me engano, e lá estavam outras moças e rapazes que se divertiam em torno de um piano, abraçando-se, beijando-se e tentando tirar sambas de tom e vinícius do teclado que negava-se a cooperar com dedos tão inábeis. uma jovem morena de pele muito branca chegou a cantar «felicidade» num portunhol de indisfarçável origem escandinava. terminei meu quinto uísque e dirigi-me com o sexto na mão até onde estava o grupo e mandei ver, falando em inglês para ninguém em particular:

– vocês não sabem o quanto eu estou emocionado. não sabia que gostavam tanto das minhas músicas por aqui, meu nome é vinícius de moraes.

vocês bem podem imaginar o que aconteceu: abrações, beijos, pedidos de canções, etc. auxiliado pelo pianista cantei «felicidade», «minha namorada», «eu não existo sem você», «chega de saudade», e todas as que eu sabia de cor e as que eu improvisava, pois afinal, no grupo ninguém sabia português e obviamente ninguém vira o bom vinícius nem mesmo por fotografia. a boate não estava cheia, de modo que nos adonamos do lugar mas no melhor da festa entrou um rapaz com aquele jeito de ser brasileiro no exterior que já entrou para o folclore da crônica nacional. ouvi quando o maître lhe disse que vinícius estava cantando e antes que ele pudesse responder eu já estava lhe dando um grande abraço, talvez até mesmo um pouco apertado demais, enquanto lhe sussurrava ao ouvido:

– vê se não estraga a minha festa, meu chapinha. olhe quantas moças bonitas ao redor do piano. se você souber tocar eu posso até lhe apresentar como o tom jobim. quando ele se desprendeu do abraço, disse aos berros para quem quisesse ouvir em forte sotaque nordestino: «vinícius de moraes seu cabra da peste, que bom te ver por aqui.»

tratava-se de um jovem cearense que estudava algo que não me lembro mais em malmo, na suécia e viera passar o natal com os pais da noiva que era dinamarquesa. mas não topou ser tom jobim, pois sua noiva iria encontrá-lo mais tarde no night-club, o que efetivamente se deu, quando o cearense, peito inflamado de orgulho, apresentou o grande poeta e compositor vinícius de moraes à sua bem amada.

quando o ex-futuro tom jobim retirou-se com a sua namorada já eram quatro da matina e eu estava traduzindo para o inglês para a pálida jovem de cabelos pretos que me olhava como se eu fosse um deus um dos meus poemas:

«...but inside the frame of a bed no other woman has been so beautiful...» («...mas dentro da estrutura de uma cama, nenhuma outra mulher foi tão bela...»)

era a época em que as comunidades estavam em moda na escandinávia e moças e rapazes moravam juntos em grandes e velhas casas que chamavam de colectivs e dividiam as despesas. lá fui eu para a colectiv e «no quiero dicir por hombre las cosas que yo y la morena hicimos pues que la luz del intendimiento me hace ser muy comedido».

por volta das 11 horas da manhã do dia seguinte encontrei quatro moças e cinco rapazes tomando café na grande mesa da sala, todos vestidos de papais noéis com longas barbas e bigodes brancos. um deles, entregando-me uma roupa de papai noel, disse-me:

– vinícius, veste isto aí que vamos a uma festa de caridade.

e lá fomos nós vestidos de papais noéis dentro da bela e fria manhã de 24 de dezembro pelas ruas de copenhague. repentinamente, vi-me dentro de uma grande magazin, uma espécie de «sears» ou «mesbla» local que se não me engano chamava-se «magazin du nord» ou «illum». a loja com departamentos em vários andares estava apinhada de gente. a um certo momento, a morena, que chamaremos de karen, ao meu lado, apanhou um brinquedo e deu para um menino:

– tome, isto é para você. presente de papai noel.

os demais papais noéis faziam a mesma coisa. apanhavam o que lhes caísse nas mãos e entregavam ao público que – acreditem – aceitava tudo com muita satisfação, pois que de natal se tratava. apesar dos protestos dos funcionários, centenas de pessoas foram presenteadas antes que a polícia chegasse. nós papais noéis, protegidos pelo público, fugimos nas mais diversas direções. havia tantos papais noéis pela rua principal que era impossível distinguir os legítimos, ou seja nós, dos falsos, ou seja, os que anunciavam produtos comerciais. ao longe vi um papai noel que gritava para mim:

– good-bye, vinícius, see you around! (– adeus, vinícius, até mais!)

entrei no toillete de um botequim e tirei a roupa do bom velhinho e saí com a minha que mantive por baixo, sentindo-me um misto de papai noel, super-homem e dom quixote. não mais solitário, não mais angustiado. o milagre de natal que eu tanto esperava desde o meu tempo de menino pobre acontecera.

se a história que contei é verdade ou não, é um problema que deixo com os leitores. a verdade que eu gostaria que, realmente, acontecesse neste natal de 1978 é a seguinte: gostaria que todos os leitores quando reunidos com suas famílias para festejar o aniversário de jesus cristo, tivessem um pensamento para com todos os presos políticos e mesmo os não políticos, os pobres ladrões de galinha, vítimas de um sistema penitenciário cruel e desumano, para que eles saibam que estamos com eles. e um pensamento especial para uma menina chamada flávia shilling, uma brasileirinha que há seis anos padece nos cárceres uruguaios. quem sabe, assim, conseguiremos anular as palavras de são tomás de aquino: «os olhos foram feitos mais para chorar do que para ver, pois cegos choram e não vêem.» nós que vemos, não sejamos cegos neste natal.
dezembro/1978

«vou tratar [os 60 anos do golpe de 1964] da forma mais tranquila possível. estou mais preocupado com o golpe de janeiro de 2023 do que com o de 64. isso já fez parte da história, já causou sofrimento, o povo já reconquistou o direito democrático. os militares, hoje no poder, eram crianças naquele tempo. alguns nem eram nascidos»
luiz inácio lula da silva

«o que eu não posso é não saber tocar a história para frente, ficar remoendo sempre, remoendo sempre, ou seja, é uma parte da história do brasil que a gente ainda não tem todas as informações, porque tem gente desaparecida ainda»
(idem)

todo poeta é um profeta
1980. vinicius já quase não saía. só recebia os amigos mais íntimos. havia, na época, uma jornalista que insistia com uma entrevista. vinicius resistia até que um dia cedeu.
a primeira pergunta foi fulminante: - poeta, o senhor tem medo da morte? vinicius olhou nos olhos da moça e respondeu: - não. eu não tenho medo da morte, o que eu tenho é saudade da vida.
começava a década de 1980 --- mais conhecida como a década perdida --- e essa foi a última entrevista que vinicius concedeu.
tom Jobim recebeu a notícia em casa e, literalmente, caiu da cama.
chico buarque ouviu a notícia, acidentalmente, no rádio do automóvel, mudou o trajeto e foi direto para o cemitério.
toquinho, de volta do cemitério, roda a maçaneta da porta de entrada da casa do poeta e é tomado pela imagem de vinicius esticado no sofá da sala. mas o sofá está vazio. não há mais o que fazer. toquinho chora sozinho:
«meu deus, vinicius morreu».

ao vento

ontem
pelas cinco da tarde
o céu ficou encarnado

não era vermelho de derrotado
era vermelho de envergonhado,
como se o dia tivesse medo
e não quisesse dizer de quê

ninguém falou nada
a cidade se fez de sonsa
e ficou calada 

no banheiro,
a toalha torcida dentro do balde 

o homem olhando aquilo
examinando o mapa
de um país derrotado

lá fora,
o sinal fechou

olá, como vai?
eu vou indo, e você, tudo bem?
tudo bem, eu vou indo correndo
pegar meu lugar no futuro, e você?

um rapaz enxugou a testa
uma velha segurou três sacolas
com o cuidado de quem carrega
três filhos no colo

um cachorro mijou no poste,
solene,
resolvendo um problema sério
igual presidente

o céu continuava vermelho

vermelho como a raiva
que a gente guarda
e finge que esqueceu

no fundo da gaveta,
no avesso do bolso,
na dobra da língua.

agora falando sério

hoje
segundo a previsão
começa a clarear cerca de 30 minutos antes
por volta das 6 horas 
já o pôr-do-sol ocorre às 18:18
se precisar da previsão do tempo completa é só falar!


de volta ao começo

minhas análises políticas não contribuem em absolutamente nada na luta contra jair bolsonaro e o nazifascismo. contribuiriam se eu fosse uma grande liderança e ou uma pessoa influente dentro da esquerda. o que nunca fui, nem nunca quis ser.
nem poeta eu sou
mesmo que fosse
de nada adiantaria
lembremos o que
a revolução russa
fez com maiakovski
maiakovski morreu
de incompreensão
o poeta tentou se enquadrar, fez poemas engajados-proletários, produziu cartazes revolucionários, mas sua criatividade, tida como excessiva e contagiante, chocava os comunistas retrógrados e, segundo dizem, não era entendida pelas massas.

esse é o ponto: o texto poético exige do leitor conexão.
assim sendo
às vezes eu me pergunto
qual a validade de fazer o que faço
aqui nesse espaço?
a resposta
meu amigo
está soprando
...nos textos que faço
e que vou seguir fazendo
vai vendo

grill


se me levanto cedo,
limpo e curado, lúcido e feliz,
e te digo: «vou para a mata
pra me aliviar de ti»,
sabe que trago dentro um tesouro
que me chega até a raiz.

clique no título para ver e ouvir

(silvio rodríguez, 1974)


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