quinta-feira, 30 de julho de 2026


mestre jonas
[para flávia e jonas (in memoriam)]

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«prefiro falar de coisas impossíveis, porque do que é possível já se sabe demais»

silvio rodríguez

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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«porque é exatamente isso
pra produzir um mundo novo
é preciso correr um risco muito grande
e ir não naquilo que é real
e não naquilo que é possível
a questão do pensamento é produzir o impossível
é produzir o impensável
ir além de todos os limites que nos foram dados
transgredirémuitomaisquetransgrediréproduzironovo
produzir a impossibilidade
uma força de ESTRANHAMENTO»

a loucura e a arte não param de ser perseguidas
por claudio ulpiana

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ao vento

[escrito em 10 de março]

hoje no café, vivi me contava sobre uma colega que lê todos os dias passagens da bíblia, numa versão moderna, com linguagem atual, na qual a autora sempre termina o trecho com a frase: «quero ser luz e o sal da terra».

— não sei por que ela escreve «sal da terra» se é «sol da terra» — diz a colega para a vivi.

— tu nunca ouviu esse termo «sal da terra»? — pergunta vivi.

vivi, então, explicou para ela o significado de «sal da terra».

— que lindo! — disse a colega.

vivi saiu para a cidade, foi trabalhar e eu fiquei aqui com mais uma história para contar.

grill

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para meus alunos de tão poucos dias

foram cursos diferentes, identificados pelo mesmo espírito: o da invenção e o da criação. falei-lhes de amantes que só oferecem às suas amadas, o amor; o amor do corpo expressivo. falei-lhes de orquídeas, enamoradas de vespas e de pássaros que cantam para o crepúsculo. mostrei-lhes as trevas barrocas e os clarões. como um inconsciente livre das formas do hábito. os nossos cursos foram musicais, desde que a música seja aquilo capaz de tornar belo seja o que for. enfim. o nosso encontro ̶ encontro de corpos ̶ pertenceu ao reino do encantamento, mostrando que a filosofia é uma linha melódica tão poderosa, que produziu em nós um acorde, digo ou melhor, repito ̶ um acordo: o dos amantes do corpo expressivo, que só oferecem um ao outro, o amor.

a filosofia é uma tarefa criativa; uma festa de delírio lógico ̶ um excesso de entendimento. ensinei-lhes filosofia, a minha festa privada. quebramos os relógios, e tornamos as horas intensas; fizemos do tempo uma mistura de palavras lindas; fizemos do tempo um vazio, e o percorremos como se fôssemos cavalheiros do pensamento: mais exatamente, como se fôssemos exploradores das tempestades dos mundos possíveis. compreendemos a diferença entre forma e matéria-prima. construímos barreiras contra a tolice, tornando o nosso agenciamento algo gentil e inesquecível.

em qualquer momento da minha vida, sem questão, serei assolado, tocado pelas divinas cativas, as pequeninas almas que a presença de vocês deixou para mim, como meu cortejo.

agora que nos despedimos, retomo: a criança é uma matéria-prima; é uma potência; múltiplas forças em movimento. o que com ela, a criança, temos que fazer é entendê-la. aprender com ela, a criança, que ensinar é fazer uma viagem.

sinceramente,
claudio ulpiano

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a estrada

hoje estou no oregon, deixando portland para trás e viajando rumo ao sudoeste, atravessando verdes escuros e cinzas suaves e nevoentos no meu agradável casulo de ruídos de ônibus, na direção dos morros e vales amplos e suaves do norte da califórnia. sei exatamente onde estou, claro. neste país, são as árvores que te contam.

minha mente divaga, se detém num problema que estou tendo com a banda; depois volto a refletir sobre a história da minha vida. penso em pete barnbill, um amigo que fiz quando tinha uns treze anos. ele tinha um um violão. também tinha o que chamávamos de paralisia infantil, conhecida depois como poliomelite, que aleijou sua perna direita e encolheu o braço direito, o qual tinha quase a metade do tamanho do esquerdo. ele se adaptou bem. escrevi sobre ele no encarte do «american recordings»:

«com sua mão esquerda, ele fazia os acordes, enquanto tocava um ritmo perfeito com sua minúscula mão direita. pensei que, se pudesse tocar violão daquele jeito, algum dia cantaria no rádio.»

pete era uma inspiração em vários aspectos. eu nunca havia sido próximo de alguém que tocasse violão, com exceção da minha mãe, quando era muito pequeno. eu achava que ele era o melhor violonista do mundo. para mim ele era maravilhoso, e o som que fazia era puramente celestial.

um dia eu lhe disse: «sabe, pete, você tem paralisia infantil mas sabe tocar violão de verdade».

sua resposta me impressionu muito: «às vezes, quando você perde um dom, ganha outro».

daquele momento em diante, não pensei mais nele como um deficiente; pensava nele como alguém que tinha um dom. eu me entristecia quando os outros garotos riam de pete. eles o viam ir mancando pelos três ou quatro quilômetros que separavam sua casa da cidade e o imitavam. eu também o imitava, mas não daquele jeito: meu jeito de tocar violão vem dele, tocando a base e solando ao mesmo tempo.

pete, como eu, era louco por música --- foi a primeira pessoa que eu soube que também era assim ---, e nós dois éramos loucos pelo rádio. o rádio significava o mundo para nós, literalmente.

lembro-me claramente do dia em que compramos o nosso, encomendado pelo correio e adquirido com o dinheiro do empréstimo que papai tomou do governo no ano em que ele e roy começaram a limpar nossa terra. lembro da primeira canção que escutei, «hobo bill's last ride», de jimmy rodgers, e como a imagem de um homem morrendo sozinho num vagão congelante me pareceu tão real, tão familiar. lembro de meu pai indo para a cama todas as noites às 20h05, depois do noticiário, e gritar para mim e para jack: «ok, garotos, hora de ir para a cama! apaguem a luz! desliguem o rádio!» jack diminuía a intensidade de sua lâmpada a óleo e se debruçava sobre a bíblia. eu baixava o volume e encostava minha orelha direita no rádio. a música que ouvia se tornou a melhor coisa da minha vida.

mas meu pai não gostava nada disso. dizia: «você está perdendo seu tempo ouvindo esses discos no rádio. isso não é de verdade, sabe? essas pessoas não estão lá. é só um cara sentado tocando uns discos. porque você ouve essas coisas de mentirinha?».

eu respondia: «mas é tão real quanto foi no momento em que eles cantaram e gravaram o disco. é a mesma coisa».

«mas não é de verdade, é só um disco.»
«não importa. o som é bom. eu gosto.»
«bem, você está sendo enganado por essas pessoas, isso não vai te dar um sustento. você não vai fazer nada de bom enquanto tiver essa música na cabeça.»

eu odiava ouvir isso, mas talvez tenha servido a um propósito. queria muito provar que ele estava errado. e que minha mãe estava certa. ela percebia que a música estava em mim, assim como estava nela e tinha estado em seu pai, que lhe ensinou a harmonia a quatro vozes e era o cantor principal do coral da igreja. dizem que era um ótimo cantor.

lembro dele como um homem amável. ele e minha avó rivers eram almas boas, o sal da terra, muito estimados e respeitados pela comunidade.

cash - a autobiografia de johnny cash, p. 53, 54 e 55

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«deixa nascer, o amor
deixa fluir, o amor
deixa crescer, o amor
deixa viver, o amor
o sal da terra»

ronaldo bastos

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uma criança

há livros que se lê uma vez e depois joga-se fora. lidos, esgotaram o que tinham pra dizer. parecem-se com as piadas só fazem rir na primeira vez que são contadas. outros livros, entretanto, são como fontes. a fonte é a mesma. mas a água que dela brota é sempre fresca, sempre nova, sempre outra água. retornamos sempre às fontes. cada retorno é uma felicidade nova. na minha infância havia uma fonte, um buraco simples em forma de bacia, que me dava grande alegria visitar. não que eu estivesse com sede. apenas para me encantar. daquela fonte nem meu pai nem minha mãe ficaram sabendo. vocês são os primeiros a quem estou contando. que felicidade encontrei na minha infância, solto por espaços vazios de olhos adultos! os adultos estragam o mundo das crianças com os seus olhos. diante da fonte, minha amiga, eu estava sozinho, absolutamente sozinho. guimarães rosa, falando de sua infância, disse que ela foi muito gostosa. a única coisa que atrapalhava eram os olhos dos adultos que se intrometiam em tudo. livrou-se disso quando arranjou uma chave para o seu quarto. trancado, podia gozar livremente os seus devaneios. esses livros-fonte não são de diversão. são livros de encantamento. a sua leitura é como beber água da fonte, sempre. por isso sempre voltamos a eles.

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 108.

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— seu pai falava muito de você.
— é?
— dizia que você não tinha ambição.
— tinha razão.
— é mesmo?
— minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
— você é estranho.

bukowski

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ao vento

cada um se vê como quer
uns se veem brad pitt
eu me vejo johnny cash

grill

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«e por que não, enilton grill?»

martim césar

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eu tenho uma balada
para johnny cash...
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
e também um grande amigo
que ao ouvir tua canção
me diz que ser feliz
é dar moeda ao coração
e que atahualpa e bob dylan
estão comigo, meu irmão
pois tive um norte aí no sul
e tenho o sul no maranhão

balada para johnny cash | martim césar/paulo timm (2014)

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breve ensaio sobre a cegueira

[por enilton grill]

qual o pior tipo de cegueira? a de quem não vê porque não pode? a de quem não vê porque não sabe? ou a de quem não vê porque não quer?

há quem afirme que todas as pessoas que enxergam são cegas, pois vivem em um mundo que perdeu a visão, no sentido em que a televisão, ou qualquer outro meio de incomunicação, é quem propõe as imagens — imagens prontas — tirando-nos a possibilidade de vê-las com o olhar interior.

seja como for, a verdade é que vivemos hoje a caverna de platão, onde as sombras projetadas são tomadas como verdade, o que faz de nós cegos de nós mesmos, pois verdade é como sombra, cada um tem a sua.

a minha é a minha, a sua é a sua.

você não vê a minha, eu não vejo a sua.

na maioria das vezes, somos um pouco como avestruzes, quer dizer, não vemos porque não queremos ver.

mas, se puderes olhar, vê; se puderes ver, repara:
1 + 1 é sempre mais que 2.

a felicidade mora ao lado,
quem não é tolo pode ver.

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mestre jonas

um dia, jonas, lá com seus 17 ou 18 anos, me disse: conheci um bar com caçachas e cervejas artesanais...vamos lá?
falei: vamos.
estacionamos o carro e fomos camihando até o bar.
no caminho, me falou como era difícil ser diferente, q até gostaria de ir na boate como alguns colegas de escola, mas prefiria a companhia dos amigos do clube de leitura e que não podia ser diferente do que era.
então, falei pra ele q eu tb não tinha interesse nas boates, prefiria a roda de viola no laranjal...
jonas: é...chamam a gente de esquisito né mãe? mas chamar de esquisito é elogio!

flávia maurício

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e ele diz que se chama jonas
e ele diz que é um santo homem
e ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria
e ele diz que está comprometido
e ele diz que assinou papel
que vai mantê-lo preso na baleia
até o fim da vida
até o fim da vida
até subir pro céu

mestre jonas | sá rodrix e guarabyra (1973)

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canção de mim mesmo

o jonas de flávia é, em essência, o mestre jonas em sua juventude:
alguém que já entendeu, bem cedo, a beleza de morar dentro de sua própria baleia.

o avestruz se esconde para negar a verdade.
a baleia é o refúgio consciente de quem enxerga a realidade.

grill

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pergunta que não quer calar:

é possível, em meio ao pragmatismo do mundo atual, haver espaço para configurarmos a vida através do sentido artístico? ainda é possível nos afirmarmos enquanto sujeitos autônomos e de criação num tempo dominado pela exigência da rápida formação e do consumismo fugaz?

ouso dizer que, para aqueles que estejam submersos nas preocupações do cotidiano, essas questões podem fazer pouquíssimo sentido. todavia, sob a perspectiva dos raros espíritos inquietos, servirão como ponto de partida para a dolorosa e solitária trilha em busca do "tornar-se aquilo que se é".»

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eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada, cheia de dentes
esperando a morte chegar
porque longe das cercas embandeiradas
que separam quintais
no cume calmo do meu olho que vê
assenta a sombra sonora dum disco voador

ouro de tolo | raul seixas (1973)
(legendado)

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fotos

cris valente
pelotas, 2026

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vivi valente
repecho, 2020

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#américas
#jonaspresente