quinta-feira, 29 de outubro de 2026

 

folhas de relva
(bom dia graminha)

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«quase todo mundo nasce gênio e é enterrado imbecil.»

bukowski

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«eu cruzei com uma menina, muito nova, devia ter uns dois anos, não mais que dois anos, que vinha brincando no sentido contrário e ela vinha cumprimentando a graminha, as plantinhas, dizia: bom dia graminha!
nessa idade somos todos pagãos, somos todos poetas, depois o mundo se ocupa de apequenar nossa alma e é isso que chamamos de crescimento, desenvolvimento.»
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eduardo galeano (sangue latino)
(legendado em português)

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livro aberto

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ato primeiro: ver
walt whitman assim descreveu suas primeiras experiências na escola: «ao começar meus estudos me agradou tanto o passo inicial, a simples conscientização dos fatos, as formas, o poder de movimento, o mais pequeno inseto ou animal, os sentidos, o dom de ver, o amor - o passo inicial, torno a dizer, me assustou tanto, e me agradou tanto, que não foi fácil para mim passar e não foi fácil seguir adiante, pois eu teria querido ficar ali flanando o tempo todo, cantando aquilo em cânticos extasiados...».
(rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 136)

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ato segundo: professores medíocres
«de repente senti uma gratidão inesperada pelos meus professores medíocres. os bons professores, eu os acompanhava encantado. surfava nas suas ideias. mas os professores medíocres me irritavam tanto que eu me vi forçado a pensar minhas próprias ideias.»
(rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 132)

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ato terceiro: desejo e inteligência
«as crianças gostam de aprender. o que não quer dizer que elas gostem das ideias. as escolas são, frequentemente, lugares onde elas são obrigadas a aprender, sob pena de punições, aquilo que elas não querem aprender. e aquilo que as escolas tentam ensinar contra a nossa vontade é rapidamente esquecido. sabedoria de um velho ditado caipira: «é fácil levar a égua até o meio do ribeirão. o difícil é obrigar a égua a beber a água...». aprendemos o que desejamos aprender. é o desejo que desperta em nós a inteligência. o filósofo aristóteles disse: «todos os homens têm, naturally, o desejo de aprender». ele estava errado. vou corrigi-lo: «todos os homens, enquanto crianças, têm naturalmente o desejo de aprender. o que dá às crianças desejo de aprender? primeiro, é a curiosidade. as crianças acham as coisas do mundo muito interessantes e querem saber por que elas são do jeito como são. pra que serve isso? pra nada. apenas pelo prazer: matar a curiosidade.»
(rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 129)

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minha vida não é um filme, é um livro aberto

«rapaz, você precisa estudar para ser alguém na vida!».
quem não estuda não é alguém?
se não é alguém, é quem? ninguém?
eu não me sentia um ninguém
eu só não sabia, ainda, que trazia em mim
multidões
(de marias, josés e joões).
enfim
quando eu era mais jovem ouvi muito essa frase
e hoje ouço os antigamente jovens, hoje velhos,
dizendo-a para os mais jovens
que amanhã serão mais velhos
e a dirão para os mais jovens
e assim gira a roda
em torno de si
apontando pra lá
mas sem sair daqui

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como nossos pais
eu nunca vou saber o que é ser pai e os da minha geração e os da geração dos meus pais, via de regra, esquecem que já foram filhos. por mim, tá tudo bem. nunca quis ser pai. todavia confesso, talvez tivesse gostado de ser avô.
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a vida não é filme?
um dos filmes mais bonitos e comoventes que eu vi, em toda minha vida, foi cinema paradiso. quase todas as pessoas que conheço choraram em algumas partes do filme. eu chorei em quase todas. a cena que provocou lágrimas no maior número de espectadores é aquela na qual o velho, que é o pai espiritual e sentimental do rapaz, que lhe ensinou quase tudo o que sabia da vida até então, diz a ele que se prepare para partir do vilarejo rumo à cidade grande: «vá e não olhe para trás; não volte nem mesmo se eu te chamar». o pai manda embora o filho adorado e «ordena» a ele que vá em busca do seu caminho, do seu destino, dos seus ideais...
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no direction home

ando contra o vento
e de peito aberto
minha vida não é um filme
é um livro aberto

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o mundo é dos espertos
(e continuará sendo)
na minha estadia por alguns dias em são luís do maranhão, minha mãe (82 anos) me disse que, minha descrença (em tudo e em todos) é coisa de «velho». minha resposta foi uma pergunta: nossos filhos, hoje em dia, em sua grande maioria, são educados para serem pragmáticos, espertos e vencedores ou idealistas, sonhadores e perdedores? fez-se silêncio. então, pensando em dom quixote e nos jovens que virão, escrevi:
o novo nasce velho
o velho morre novo

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o mundo é um moinho

à primeira vista, pode parecer estranho, mas este é um texto igual aos outros: trata da dor da impossibilidade de reação ou como a sociedade capitalista espreme-nos em agoniante apatia.

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o espremedor de culhões
(por charles bukowski)
danforth pendurou os corpos no varal, um a um, depois de passarem pelo espremedor. bagley, sentado perto dos telefones, pergunta:

— quantos tem?
— 19. pelo jeito o dia vai ser bom.
— é, pô, tá com cara. quantos colocamos ontem?
— 14.
— legal, legal. continuando assim, vai ser bom mesmo. o meu grilo é que a coisa no vietnã é bem capaz de parar — disse bagley.
— deixa de ser bobo, tem muita gente lucrando e dependendo dessa guerra.
— mas a conferência de paz em paris...
— você hoje não está bom, bag. quem é que não sabe que eles passam o dia inteiro sentados, dando risada, recebendo grana pra não fazer nada e depois indo à noite a tudo quanto é boate? essa cambada tá com a vida ganha. a vontade que têm de terminar a conferência de paz é igual à nossa de liquidar com a guerra. tá todo mundo engordando, sem se arranhar. uma verdadeira beleza e se encontrarem uma forma de chegar por acaso a um acordo, sempre vão aparecer outras. a terra tá cheia de lugares prontos pra explodir.
— é, acho que vivo me preocupando à toa.

um dos três telefones da mesa tocou. bagley atende...
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– herman? – chama bagley.
– sim, chefe.
– o que é que está sentindo? ou melhor, como se sente?
– não sinto absolutamente nada, chefe.
– você gosta de tiras?
– tiras não, chefe – polícias. eles são vítimas da nossa maldade, embora às vezes nos protejam atirando, prendendo, espancando e multando a gente. não existe essa história de que não há tira que preste; aliás, polícia, desculpe. já imaginou se não houvesse polícia? a gente teria que impor a lei com as nossas próprias mãos.
– e aí, o que ia acontecer?
– nunca parei pra pensar, chefe.
– ótimo. acredita em deus?
– ah, claro que sim, chefe. em deus, pátria, família, tradição. e no trabalho honesto.
– puta que pariu!
– como disse, chefe?
– não. nada. agora, escuta aqui, você gosta de fazer serão?
– ah, claro que sim, chefe! gostaria de trabalhar 7 dias por semana, se possível. e de ter 2 empregos se pudesse.
– por quê?
– por causa do dinheiro, chefe. pra comprar tv a cores, carro novo, dar entrada pra casa própria, pijama de seda, 2 cachorros, barbeador elétrico, seguro de vida, assistência médica, ah, tudo quanto é tipo de seguro, educação escolar para os meus filhos, se eu tiver, porta automática na garagem, roupas finas, sapatos de 45 dólares, câmeras, relógio de pulso, anéis, lavadora automática, geladeira, poltronas e camas novas, forração de carpete em todas as peças, donativos pra igreja, aquecimento central e…
– tá legal. chega. agora, quando é que pretende usar todos esses troços?
– não estou entendendo, chefe.
– quero dizer, se você trabalhar dia e noite e ainda fizer serão, que tempo te sobra pra aproveitar todo esse luxo?
– ah, esse dia há de chegar, chefe, ele há de chegar!
– e não acha que teus filhos um dia hão de crescer e julgar que você foi um trouxa?
– depois de ter me esfolado vivo por causa deles, chefe? claro que não!
– maravilha. agora, só mais algumas perguntas.
– pois não, chefe.
– não acha que toda essa escravidão permanente é prejudicial pra saúde e pro espírito, pra alma, se quiser…?
– ah, pô, se eu não ficasse trabalhando o tempo todo, ia acabar sentado por aí, bebendo, pintando quadros a óleo, fodendo, indo ao circo ou no parque pra ver os patos. coisas desse gênero.
– não acha que ficar sentado no parque, olhando para os patos, pode ser muito agradável?
– mas desse jeito eu não ganho dinheiro, chefe.
– tá legal, vá se foder.
– o que, chefe?
– não, nada. já sei de tudo o que precisava. ok, dan, este aqui tá no ponto. parabéns. dá o contrato, pega a assinatura dele, a letra é tão miúda que nem vai conseguir ler. acha que somos gente boa. manda correndo lá no endereço. o pessoal vai ficar encantado. há meses que não arrumo melhor contador.

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– barney, quais são os teus ídolos?
– bom, deixa eu ver... cleaver, dillinger, che, malcolm x., gandhi, jersey joe walcott, “grandma” barker, fidel castro, van gogh, françois villon, hemingway.
danforth pega barney anderson, bate, torce e espreme, sem fazer caso dos gritos, 3 vezes no espremedor, e depois traz de volta.
– barney? – chama bagley.
– pronto, chefe!
– quais são os teus ídolos?
– george washington, bob hope e mae west. richard nixon, os ossos do clark gable e toda a gente que vi na disneylândia. joe louis, dinah shore, frank sinatra, babe ruth, os boinas verdes, porra, todo o exército e a marinha dos estados unidos e, principalmente, os fuzileiros navais, e até o tesouro nacional, a cia, o fbi, a united fruit, a patrulha rodoviária, o maldito departamento de polícia de los angeles em peso, e os tiras locais também. aliás, disse “tiras” por engano, quando queria dizer “polícias”. depois tem a marlene dietrich, com aquela abertura no lado do vestido até em cima na coxa, ela já deve andar perto dos 70, não é?, dançando lá em las vegas, fiquei de pau duro, que mulher maravilhosa. a boa vida que se leva aqui na américa e a estabilidade do dólar são capazes de manter eternamente a juventude da gente, entendeu?
– dan?
– que é, bag?
– este aqui tá mais que no ponto! mesmo pra um cara pouco sensível como eu, deu pra ficar com ânsia de vômito. faz ele assinar o contratinho dele e manda lá no endereço. eles vão adorar. santo deus, as coisas que a gente tem que fazer pra sobreviver! às vezes chego a odiar o próprio trabalho que faço. o que não convém, não é, dan?
(bukowski, crônica do amor louco, pp. 67-80)

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o espremedor de culhões era uma máquina onde uma pessoa entrava com suas convicções e saía como um alienado. um termo muito usado na contracultura para qualificar as pessoas que apoiavam a guerra do vietnã. o sujeito entra gritando justiça e sai filiado ao neoliberalismo. muitas pessoas que conhecem este conto falavam isto na década de 90 para sacanear os reaças que votaram em collor e fhc.
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talvez seja difícil de entender, mas bukowski pode nos explicar. vejamos a atividade empresarial da AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA: «executar a formatação necessária do indivíduo para sua funcionalização adequada ao sistema econômico». ou seja, cabe à AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA retirar, moer, dilacerar, destruir e corromper qualquer esperança, manifesto ou demonstração de vontade individual ou coletiva que atente contra os requisitos necessários ao mundo como ele é — isto é, ao mercado.

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falando em mercado, lembrei de um pássaro de mesma plumagem:
«a cultura dominante que os grandes meios de comunicação irradiam em escala universal nos convida a confundir o mundo com um supermercado ou uma pista de corrida, onde o próximo pode ser uma mercadoria ou um competidor, mas jamais um irmão.»
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depois de lermos o conto de bukowski na íntegra, chegaremos à conclusão de que a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA tem seus clientes já bem definidos. enquanto presos às cadeiras de madeira e o fedor de esterco lhes entope o nariz, o nobre funcionário lhe pergunta: «quais são seus heróis?». em caso de resposta como: lamarca, mariguella, che, fidel, malcolm x e quantos mais se podem citar... inicia-se o processo de «espremer os culhões». repete-se a pergunta... analisa-se os olhos, a expressão facial, a postura... enquanto se mantiver o peito estufado, martela-se mais um dedo! o brilho nos olhos é castigado com um bom afogamento em água suja! um sorriso — que deus lhe proteja — pode custar a fertilidade, quiçá a crença no amor ao próximo.
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em outras palavras, a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA preza pelos olhos esbranquiçados, postura curvada, andar trôpego, bom comportamento, obediência hierárquica e pouca ou nenhuma atitude na fala.
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não farei meias palavras, minha intenção aqui é deixar bem claro que a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA possui algumas filiais no mundo. aliás, deixe-me reformular. não se tratam de filiais, acredito que sejam as matrizes mesmo.
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aqueles que foram espremidos são os novos espremedores, as AGÊNCIAS SATISFAÇÃO GARANTIDA ganham filiais e matrizes, e continuam a espremer e espremer.
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em outras palavras, a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA preza pelos olhos esbranquiçados, postura curvada, andar trôpego, bom comportamento, obediência hierárquica e pouca ou nenhuma atitude na fala.
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não farei meias palavras. minha intenção aqui é deixar bem claro que a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA possui algumas filiais no mundo. aliás, deixe-me reformular. não se tratam de filiais; acredito que sejam as matrizes mesmo.
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aqueles que foram espremidos são os novos espremedores. as AGÊNCIAS SATISFAÇÃO GARANTIDA ganham filiais e matrizes, e continuam a espremer e espremer.
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quanto a mim, podem me espremer à vontade, que não mudo de opinião. os tempos mudaram, mas eu continuo o mesmo. meus sonhos não envelheceram. continuo querendo com 61, o que eu queria quando tinha 21.
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enquanto escrevo estas palavras alguém grita:
— chegou mais um!

da AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA alguém ouviu:
— manda para o espremedor!

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antes do fim
voltemos ao começo
do dia
quando após republicar o post de ontem
recebi a seguinte mensagem:
«bom dia enilton! nunca pare meu amigo. sigamos em frente. grande abraço e TMJ!»
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ensacado

moinhos não movem ventos
partidas não são só lenços
saudades não são soluços
nem solução pra espera
nem salvação dos pecados
tristezas não lavam pratos
resguardam restos, desejos
flores e frutos do mar
por isso muito cuidado
queime de febre e não dobre
não quebre nunca, não morra
não corra atrás do passado
nem tente o ponto final
aguente firme a picada
da abelha, daquela velha
melada melancolia
segure a barra, requente
o caldo da sopa fria
vá cultivando a semente
até que um dia arrebente o saco cheio de sol

(cátia de frança / sérgio natureza,1979)

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quarta-feira, 28 de outubro de 2026


os dinossauros

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o menino perdido na intempérie

parece que já não há lugar para as revoluções, a não ser nas vitrines do museu arqueológico, não há lugar para a esquerda, exceto para a esquerda arrependida que aceita sentar-se à direita dos banqueiros. estamos todos convidados ao enterro mundial do socialismo. o cortejo fúnebre abarca, segundo dizem, a humanidade inteira.

eu confesso que não creio nisso. estes funerais equivocaram-se de morto.

 eduardo galeano | nós dizemos não, p. 88 - maio de 1990.

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o «exército» de janones

por valter pomar
uma pessoa física reuniu, sob seu comando individual, sem controle coletivo algum, uma legião de 3 a 5 milhões de seguidores.

conseguiu isso, em grande medida, exatamente porque havia milhões de pessoas querendo contribuir com a campanha e ele, habilmente, ofereceu um canal para isso.

alguém que por sinal cometeu a estupidez de dizer que a campanha nas ruas não tinha a menor importância, para mais recentemente admitir de maneira torta (via a proposta de «panelaço») que é fundamental agir fora das redes.

para piorar a situação, muita gente acha que o tal «exército» está submetido a algum tipo de controle democrático. pensam que fulano validou, que sicrano controla, que o autoproclamado «general» é o porta-voz informal de decisões coletivas.

como a coordenação da campanha e a direção do partido pelo jeito preferiram lavar as mãos, o jeito é torcer para que dê certo ou, pelo menos, que não cause muito dano.
num mundo ideal, onde as instâncias coletivas funcionassem adequadamente, essas pessoas estariam engajadas numa iniciativa sob controle democrático delas mesmas. e não sob a direção de alguém que propõe explicitamente não pensar, obedecer, agir como robô.

mas a experiência pretérita com este tipo de iniciativa, sem nenhum tipo de controle coletivo, é que, se ainda não deu errado, é porque ainda não terminou.

santo leminski, orai por nós.
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«se bem que a patroa falava “esse cara não presta” “tem cara de ser mau marido, de não ter valor” se bem que a patroa falava “esse cara não presta” “tem cara de anjo, mas nunca que ele me enganou”»

gonzaguinha

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distraídos venceremos

por enilton grill
e se o general janones determinasse que cantassem hinos para pneus...
e se o general janones mandasse que se pendurassem no para-brisa de um caminhão...
e se o general janones ordenasse que se ajoelhassem e rezassem em frente a quartéis...
e se o general janones prescrevesse que ateassem fogo em si próprios...
e se...
quem, em meio à multidão, teria coragem de dizer não?
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até que ele era um rapaz muito bem educado
até que ele tinha um bom coração
até que ele era um rapaz muito bem comportado
até que ele era um poço de boa intenção

não creio que ele fosse complexado
meio calado, talvez esquisito, mas batalhador
eu creio que ele era muito inteligente
eficiente, honesto, honrado e trabalhador

por mais de dez anos foi meu excelente vizinho
subia comigo às vezes no elevador
por certo sabia direito do seu cantinho
do escuro, tranquilo, com jeito de sonhador

até que hoje à noite pegando e relendo o jornal
a foto no canto da esquerda me despertou
matou a mulher e as crianças a golpes de pau
sem um bilhete, sem explicações, se suicidou

se bem que a patroa falava «esse cara não presta»
«tem cara de ser mau marido, de não ter valor»
se bem que a patroa falava «esse cara não presta»
«tem cara de anjo, mas nunca que ele me enganou»

até que ele era um rapaz muito bem comportado
mas, não, eu nem sei o seu nome, ele nunca falou
um preto sereno com jeito de sonhador
mas, não, eu nem sei o seu nome, ele nunca falou

👇

(gonzaguinha, 1973)

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e a foto com a camiseta amarela?

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pois é. não falei do «exército» de janones durante a campanha, pois penso que o silêncio em determinados momentos é mais eficaz que as palavras, sobretudo aquelas que na maioria das vezes são mal-entendidas e mal-interpretadas. quanto à camiseta amarela, olhei, gostei e fiz. fiz porque quis. simples assim.  
outra coisa que fiz, e fiz porque quis, foi um américas na rádiocom. costurei depoimentos de companheiros e camaradas enaltecendo as qualidades de lula — um esforço solitário que me custou três dias e três noites de trabalho sem dormir, com a coluna reclamando, queimando, latejando. ontem fui informado de que o programa atingiu «inacreditáveis» vinte visualizações. vinte. provando que, infelizmente, apesar do meu sacrifício até físico, minha contribuição real para a vitória foi zero.

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eu poderia
e talvez devesse
parar no ponto acima
pois
«com frequência escuto elogiar a brevidade e eu mesmo fico feliz quando ouço repetir que o bom, se breve, é duas vezes bom»
mas já que a minha relevância digital atingiu «inacreditáveis» 20 visualizações 
vou me dar o direito de lembrá-los de um miniconto
menos de cinquenta letras
esse é o tamanho de um dos clássicos de augusto monterroso
que é também o microconto mais famoso do mundo:
«quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.»

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los amigos del barrio pueden desaparecer
los cantores de radio pueden desaparecer
los que están en los diarios pueden desaparecer
la persona que amas puede desaparecer.
los que están en el aire pueden desaparecer en el aire
los que están en la calle pueden desaparecer en la calle.
los amigos del barrio pueden desaparecer,
pero los dinosaurios van a desaparecer.

(charly garcía, 1983)
[con letra]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas 

terça-feira, 27 de outubro de 2026


das voltas que o mundo dá

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sem medo de ser feliz

mundo, ó mundo
quem teme o raso
jamais chegará ao fundo.

– tens medo?
– é tarde demais para ter medo.

grill

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em 1983, quando cheguei em são luís (ma), eu já era petista. por influência do velho, no entanto, ainda mantinha um pé no pdt de brizola. naquela época, minha irmã e meu irmão estudavam no colégio santa teresa, bem próximo ao centro histórico, na subida para a praça joão lisboa, e meu pai fazia hora no bar da zulmira esperando os dois saírem. foi nesse bar, por intermédio de meu pai, que conheci paulinho lopes, na época, paulinho pt. daí foi um passo pra fincar os dois pés definitivamente no partido.

foi também através de paulinho que conheci os poetas da akademia dos párias. éramos (e ainda somos) amigos, andávamos sempre juntos, frequentávamos os mesmos lugares, gostávamos das mesmas coisas, mas havia algo entre nós que não fechava, que não coincidia. enquanto paulinho e eu éramos declaradamente, escancaradamente partidários do pt, nossos amigos párias estavam mais para poetas anarquistas do que para militantes petistas ou soldados lulistas.

corre o vento, o rio passa e hoje tenho a impressão de que a ordem se inverteu: paulinho e eu estamos mais para anarquistas, enquanto nossos amigos poetas da akademia dos párias estão mais para militantes petistas e soldados lulistas.

foi pensando nessas voltas que o mundo dá, que hoje acordei, preparei o mate, sentei em frente ao pc e pensei numa pergunta vinda da europa pra mim: «e aí, petista? tá feliz?». aí me perguntei: será que ela sabe que hoje sou crítico do pt e tá fazendo graça, ou será que ainda pensa que sou aquele petista que vestia a camiseta e empunhava a bandeira à luz do dia em plena praça? enquanto pensava nisso, surgiu a entrevista de valter pomar no programa 20 minutos, de breno altman. depois de assistir à entrevista, lembrei da pergunta: «e aí, petista? tá feliz?». sim, estou feliz. nem tudo é conciliação; ainda há vida combativa no pt.

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20 minutos

nesta edição do 20 minutos, breno altman recebe o historiador e dirigente petista valter pomar para debater os caminhos da esquerda brasileira. independentemente do resultado imediato, discutimos as estratégias de reorganização popular, o enfrentamento à extrema-direita e o futuro do pt e dos movimentos sociais no novo cenário político que se desenha no país.

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 (os desafios do pt e da esquerda com o quarto governo lula) 

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antes mundo era pequeno
porque terra era grande
hoje mundo é muito grande
porque terra é pequena
do tamanho da antena parabolicamará
ê, volta do mundo, camará
ê, ê, mundo dá volta, camará

(gilberto gil, 1992)

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segunda-feira, 26 de outubro de 2026


podres poderes

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por essas ruas inclinadas
eu ando de cabeça erguida
quem não quiser olhar minha cara
que baixe a sua
sou poeta
e sei o que me espera

fernando abreu

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pedro pedreiro penseiro esperando o trem
manhã parece, carece de esperar também
para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
pedro pedreiro fica assim pensando

assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando pra trás
esperando, esperando, esperando
esperando o sol, esperando o trem
esperando o aumento desde o ano passado para o mês que vem

pedro pedreiro penseiro esperando o trem
manhã parece, carece de esperar também
para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
pedro pedreiro espera o carnaval

e a sorte grande no bilhete pela federal todo mês
esperando, esperando, esperando, esperando o Sol
esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
esperando a festa, esperando a sorte
e a mulher de pedro tá esperando um filho pra esperar também

pedro pedreiro penseiro esperando o trem
manhã parece, carece de esperar também
para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém

pedro pedreiro tá esperando a morte
ou esperando o dia de voltar pro norte
pedro não sabe mas talvez no fundo
espere alguma coisa mais linda que o mundo

maior do que o mar, mas pra que sonhar se dá
o desespero de esperar demais
pedro pedreiro quer voltar atrás
quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar

esperando, esperando, esperando
esperando o sol, esperando o trem
esperando aumento para o mês que vem
esperando um filho pra esperar também

esperando a festa, esperando a sorte
esperando a morte, esperando o Norte
esperando o dia de esperar ninguém
esperando enfim, nada mais além
da esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem

pedro pedreiro pedreiro esperando
pedro pedreiro pedreiro esperando
pedro pedreiro pedreiro esperando o trem

que já vem
que já vem
que já vem
que já vem
que já vem
que já vem

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(chico buarque do brasil, 1965)

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coração selvagem

ontem, entre várias manifestações, a de um amigo, ex-colega de cfc, me fez ir para a cama pensando. o debate surgiu diante de minha já insistente e cansativa ladainha: se não mudarmos a nossa forma de fazer política e de conscientizar a base, caminhamos rumo ao precipício que nos aguarda logo ali. ele me respondeu assim:

«a esquerda luta contra todos, né?! contra a mídia... nunca tem um congresso a favor. o lula nunca governou tendo a maioria no congresso. nunca! sempre é difícil fazer as coisas. eu te entendo, eu sei que tem que mudar a política. mas quantos anos a direita teve no poder, cara?! esse processo recém está começando. são cento e tantos anos em que a direita e os barões são os que mandam no país. é um processo novo, cara. tu tá completamente correto, cara, mas é difícil, né? a pior elite do mundo é a elite brasileira. ela não aceita, não admite que o pobre melhore. e nisso o pt também erra. o pt deveria mostrar que se tu conseguiu a tua casa, o teu carro, a tua faculdade, foi graças ao teu esforço, mas também às políticas públicas. senão o cara fica achando que é só o esforço dele, e dá essa merda toda que vemos hoje com o crescimento da extrema-direita.»

ao refletir sobre essa resposta dele, percebi que ambos trazemos diagnósticos corretos sobre partes diferentes do mesmo problema. enquanto meu amigo pensa o brasil no agora, nas amarras do presente, eu penso a longo prazo, na construção do futuro. nossas visões não são excludentes, são complementares, eu acho.  

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agora vamos ao que viemos: à desobediência cívica. 

«a desobediência está lá no horizonte. me aproximo dois passos, ele se afasta dois passos. caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. para que serve a desobediência? serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.»

em outras palavras, a saída é desobedecer, seguir nas ruas, pressionar, incomodar, desassossegar...

mas desobediência civil é uma utopia...

óbvio que é. aqui no brasil, politicamente falando, ninguém desobedece nada. salvo as exceções, somos um povo cordato e obediente, nunca desobedecemos coisa alguma. diante desta realidade, parece então que não nos resta outra alternativa que não seja levantar as mãos para o céu e agradecer que lula existe.

sim, penso que sim. mesmo assim, mesmo reconhecendo que somos incapazes de fazer algo mais criativo, me reservo o direito de dizer que este caminho não nos leva a nada. com ele, andamos dois passos para a frente e dez para trás. tem sido assim, e assim sempre será. penso que, para ser diferente, tem que fazer diferente, e para fazer diferente tem que mudar tudo.

tá bem, se não der para mudar tudo, façamos ao menos as reformas, sobretudo a política e a tributária.

pois é, mas estivemos mais de uma década no governo e não fomos capazes de fazê-las. também pudera. com o sistema que aí está, e com as coisas como são, que me desculpem os realistas, mas as reformas política e tributária, no brasil, são uma utopia — uma utopia tão utópica quanto a utopia da desobediência civil.

e então?

então que utopia cada um tem a sua; eu tenho a minha, você tem a sua. sim, não se engane, ambos estamos falando de utopia.

«a minha história é, talvez, / é talvez igual a tua, jovem que desceu do norte / que no sul viveu na rua / e que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo / e que ficou desapontado, como é comum no seu tempo / e que ficou apaixonado e violento como, como você / eu sou como você. eu sou como você. eu sou como você que me ouve agora»

a diferença entre nós é que...

«não quero regra nem nada / tudo tá como o diabo gosta, tá / já tenho esse peso que me fere as costas, / e não vou eu mesmo atar minha mão / o que transforma o velho no novo / bendito fruto do povo será / e a única forma que pode ser norma / é nenhuma regra ter / é nunca fazer nada que o mestre mandar / sempre desobedecer, / nunca reverenciar.»

trocando em miúdos: a diferença entre nós, na esquerda, é que, enquanto alguns estão conformados com o que o sistema oferece, outros querem mais, muito mais.

♦

enquanto os homens exercem seus podres poderes
motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
e perdem os verdes
somos uns boçais

queria querer gritar setecentas mil vezes
como são lindos, como são lindos os burgueses
e os japoneses
mas tudo é muito mais

enquanto os homens exercem seus podres poderes
índios e padres e bichas, negros e mulheres
e adolescentes fazem o carnaval

queria querer cantar afinado com eles
silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
ser indecente
mas tudo é muito mau

será que apenas os hermetismos pascoais
os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais
nos salvam, nos salvarão dessas trevas
e nada mais?

👇

(caetano veloso, 1984)
[com letra]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas


domingo, 25 de outubro de 2026


 a poesia é uma arma carregada de futuro

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«eu sou um soldado comum
na fila da frente, sou um»

zé geraldo

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«poesia para o pobre, poesia necessária
como o pão de cada dia,
como o ar que respiramos 13 vezes por minuto,
para ser e, enquanto somos, dizer um «sim» que glorifica.»

gabriel celaya

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américas

vejo a multidão, o mar vermelho
e zitarrosa me vem à mente.
«hago falta»
sim, «sou necessário»
o horizonte é logo ali
há lugar para todos
vote lula! vote 13!
amanhã será outro dia.

grill

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américas | para o povo o que é do povo

o programa traz os depoimentos de (por ordem de entrada):

• simone bacelar | poeta e jornalista (salvador, ba)
• omar dib | médico oftalmologista e professor (são paulo, sp)
• renato della vechia | professor de ciência política e militante do instituto mário alves (cruz alta, rs)
• roger peres | jornalista e colaborador da radiocom (pelotas, rs)
• paulinho lopes | poeta, compositor e produtor cultural (são luís, ma)
• aleksander aguilar-antunes | jornalista, escritor e professor-pesquisador (brasil/el salvador)
• matheus valente | percussionista e motorista de bitrem
• joão carlos gastal júnior | humanista e antifascista (brasília, df)
• martim césar | poeta, escritor e compositor (jaguarão, rs)
• henrique mascarenhas | servidor público, sindicalista e militante do pt
• fernando abreu (fabreu) | poeta e jornalista (são luís, ma)
• antônio cruz (maneca) | professor de economia e militante da economia solidária e do ecossocialismo
• pedro moacyr perez da silveira | professor aposentado de filosofia geral e jurídica da fadir/ufpel (pelotas, rs)

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(para o povo o que é do povo)
rádicom 104.5 fm

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#boralula
#vote13

quinta-feira, 22 de outubro de 2026


sonho com serpentes

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«cresça!»

luiz inácio lula da silva

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«um homem completo, no entanto, sabe que mesmo seu mais feroz inimigo, não um só, mas um bom número deles, não chega aos pés daquele terrível adversário, ou seja, aquele "outro" que "habita em seu seio".»
c. g. jung, em psicologia do inconsciente

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dr. jekyll & mr. hyde
quando jung conheceu o maior hyde da história, ele não descreveu um homem. ele descreveu uma coisa. 
anota o que jung disse, com a boca dele, quando viu hitler: 
«hitler causou a impressão de uma espécie de andaime de madeira revestido de tela, um autômato com máscara, como um robô, ou uma máscara de robô. era como se estivesse de mau humor, um sujeito emburrado. não deu mostras de qualquer sinal humano, por mínimo que fosse. faz-nos sentir que nunca seremos capazes de falar com ele; porque não há com quem se falar. ele não é um homem; é um ser coletivo.» (entrevistas e encontros) 
leia de novo. 
não é um homem. é um ser coletivo.
jung não viu um ser humano ali. viu um boneco oco.
um andaime. madeira por dentro, pano por fora. sem gesto humano. sem calor humano. sem alma.
porque hitler não era hitler. ele era o microfone da sombra de um povo inteiro.
todo o ódio que o alemão bom não tinha coragem de dizer em casa, aquele boneco dizia no palanque. toda a inveja, todo o racismo, toda a vontade de culpar o outro, de fuzilar...
o povo não seguiu um homem. o povo se ouviu gritando através de um robô.
e se sentiu forte. pela primeira vez, pôde ser mau em público e ser aplaudido por isso.
é isso que acontece quando o hyde governa. 
agora olhe para o espelho.
não precisa de nome. você sabe.
quando você vê alguém que simula metralhadora para fuzilar o próprio povo e você ri.
quando você vê alguém que pesa gente preta em arroba e você aplaude.
quando você vê alguém que diz que ter filho gay é falta de porrada e você concorda.
quando você vê alguém que chama o pobre de burro que só serve para votar e você vota nele.
quando você vê alguém que ri de quem está sem ar e você acha engraçado.
pergunte:
quem ali está falando? um homem? ou um andaime oco revestido de tela, repetindo exatamente o que você tem de pior e nunca teve coragem de falar sozinho?
jung avisa: quando você apoia um homem sem sinal humano mínimo, sem capacidade de ter uma conversa humana, você não está apoiando um homem.
você está emprestando sua alma para um robô usar como máscara.
e esse robô não tem alma para te devolver.
ele é um ser coletivo. ele é feito dos pedaços da sua sombra que você não teve coragem de encarar.
por isso você o ama. porque ele te dá permissão para ser mau sem culpa.
mas jung também avisa o final dessa história:
o andaime de madeira sempre cai. sempre.
e quando cai, não sobra um homem para julgar. 
sobra um país inteiro que vai ter que olhar no espelho e responder:
o que eu fiz quando o hyde falou com a minha voz?
quem ainda tem uma lanterna acesa por dentro, desliga o microfone do robô agora.
quem já virou andaime, continua aplaudindo.
quem já virou andaime, continua aplaudindo o substituto.
c. g. jung, «entrevistas e encontros».
do perfil «sou além + jung» (facebook).

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epílogo

uma coisa dessas quase chegou a governar o mundo!
os povos conseguiram dominá-la, mas ainda
é muito cedo para sair cantando vitória:
o ventre que gerou a coisa imunda continua fértil!

bertolt brecht

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«não cresça, meu filho, não cresça jamais
os grandes fazem ao mundo muito mal»

facundo cabral

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quando por cinco vezes a terra cedeu
a pesadelos de fogo e de água
(naquela que tem sido a história das grandes extinções)
foram os frágeis que se alastraram tão quietos ─
porque não tinham nome nem rosto
esconderam-se sem que os percebessem

foram para o escuro fundo, em
mares inconsoláveis
foram por entre vales de ossos imensos e
protegeram-se na curvatura da sombra
foram morar na última fenda do
último tronco ─
como se tudo insistisse num
último coração —
dentro da sequoia

são os vencidos que têm carregado o mundo
são lobas que há dias emagrecem, regurgitando
em bocas de ninhadas ainda cegas
são pássaros de asa quebrada, que
estremecem nas mãos
são algum pulso
e alguma lua
são homens e mulheres sem lugar, recurvados sobre
si como pendendo
a uma pergunta sem pronúncia

os menores é que rompem ao meio
o medo
e suspendem a vida num fio claríssimo de seda em que
a morte não toca

mar becker

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sonho com serpentes, com serpentes do mar
com certo mar, oh, de serpentes sonho eu
grandes, transparentes e em suas barrigas carregam
o que pode acabar com o amor

oh, eu a mato e surge uma maior.
oh, com muito mais inferno em digestão.

não caibo em sua boca. ela tenta me engolir.
mas se engasga com minha alma.
acho que está louca: dou a ela para mastigar
uma pomba da paz, e a enveneno com meu coração.

oh, eu a mato e surge uma maior.
oh, com muito mais inferno em digestão.

esta enfim me engole, e entro por seu esôfago,
vou passando, pensando no que acontecerá
mas ela se destrói quando chego ao seu estômago
e planto com um verso uma verdade.

oh, eu a mato e surge uma maior.
oh, com muito mais inferno em digestão.

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(silvio rodríguez, 1974)

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ao vento

a virada tá acontecendo
isso é fato
as pesquisas mostram
e as ruas provam
mas o que vai acontecer
daí pra frente
ainda é uma incógnita
nessas horas
é sempre bom lembrar
que é quando tá acuado
que o bicho mostra os dentes
por outro lado
não custa avisar
que a incógnita do dia seguinte
não é o destino do bicho
é o tamanho do espelho
que o homem vai ter que encarar

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coração tranquilo
há quem passe a vida procurando o caminho do meio e, apoiado na razão, machuque o coração. não é o meu caso. ando pelos extremos. coabito tanto na superfície quanto submerso. escrevo às vezes em prosa e outras em verso. a palavra é o meu universo. verso e reverso. nunca tergiverso. rio e mar. às vezes dou risada e outras tenho vontade de chorar. mas não sou bipolar. o bipolar tem dificuldade para dormir e acordar. eu durmo bem e acordo melhor ainda. tenho a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. não me vendo nem me alquilo.
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si vas hacia el centro
de este verde lugar
encontrarás mi pueblo
donde nací
pregunta por mi padre
y te sabrán decir
que es un campesino
amigo del sol

busca a mi padre y dile que estoy bien
que mi conciencia sigue libre
y que siguen muy mansos mis pensamientos

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(león gieco, 1974)

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imagens:
registros de um carreteiro que fiz para o meu pai
são luís, maranhão — outubro de 2008

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américas - para o povo o que é do povo
em breve, na rádiocom 104.5 fm

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#salacheguevara
#casadosaedos
#lula13