lima barreto
♦
♦
celso borges
♦
revestres: você ainda acredita que a posição da poesia, como expressou em performance pelo brasil, é realmente a oposição?celso borgs: sim, cada vez mais. o sentido da oposição poética é muito mais amplo. para mim, a posição da poesia é de enfrentamento político, de luta como cidadão e criador, não apenas partidária. a estrutura não gosta da gente, às vezes finge que gosta ou nos tolera. na verdade, prefere «poetinhas civilizados», domados, acadêmicos, e eu procuro na contramão disso.
nesse dia é decretado o ato institucional nº 5 – o famoso e temido ai 5 – medida extrema do regime militar que lança o país numa longa e escura noite. vinicius de moraes está em lisboa para uma apresentação. os repórteres portugueses, embaralhando nomes e informações, conseguem lhe dizer o essencial. vinicius fica sem reação. o olhar é distante.à noite, mesmo abatido, cumpre seu papel no teatro. portugal ainda está sob o regime férreo de marcelo caetano. a rádio e televisão portuguesa manda uma equipe para o teatro para fazer uma gravação do show. vinicius não se intimida.no final, antes de dizer o último poema e cantar a última música, o poeta interrompe o show: «eu hoje gostaria de dizer a vocês umas palavras de muita tristeza. no meu país foi instaurado, hoje, o ato institucional nº 5. pessoas estão sendo perseguidas, assassinadas, torturadas. por isso, quero ler um poema.»o poeta abre um exemplar de sua antologia poética, guardado sob a garrafa de uísque e, enquanto baden powell começa a dedilhar o hino nacional brasileiro, vinicius lê: «a minha pátria é como se não fosse, é íntima/ doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo/ é minha pátria. por isso, no exílio/ assistindo dormir meu filho/ choro de saudades da minha pátria».trata-se do magnífico «pátria minha», um dos mais belos poemas escritos por vinicius de moraes. a plateia se extasia diante de versos como esses: «não te direi o nome, pátria minha/ teu nome é pátria amada, é patriazinha/ não rima com mãe gentil/ vives em mim como uma filha que és/ uma ilha de ternura: a ilha/ brasil, talvez».a leitura de «pátria minha» ficará na memória dos portugueses como uma das mais bem acabadas expressões que puderam conhecer do amor à liberdade.
naquela noite, em lisboa, à saída do show, vinicius tem que enfrentar uma pequena mas barulhenta manifestação de salazaristas indignados com seus discursos contra os horrores da ditadura. os manifestantes fecham a saída dos fundos do teatro. vinicius chega à porta e os encara. alguém lhe sussurra o óbvio: «vamos voltar e sair por um outro lado». o poeta responde em tom seco: «não».vinicius fica algum tempo em silêncio. depois, erguendo a voz e ainda encarando o pequeno grupo de direitistas, começa a recitar: «de manhã escureço/ de dia tardo/ de tarde anoiteço/ de noite ardo». são os versos de seu primoroso «poética 1», poema que escreveu no distante ano de 1950, em nova york.o poeta vai prosseguir, quando um sotaque brasileiro, escondido por detrás dos manifestantes, toma a palavra e prossegue: «a oeste a morte/ contra quem vivo/ do sul cativo/ o este é meu norte».aquele estudante brasileiro, solitário em sua revolta, o salva. os jovens salazaristas portugueses cedem à força da poesia. os manifestantes, agora, já não podem mais gritar. um ou outro tenta ainda emitir uma palavra de ordem sem sentido, mas a maioria silencia para ouvi-lo terminar: «os outros que contem/ passo por passo:/ eu morro ontem/ nasço amanhã». e, elevando a voz ao máximo, vinicius conclui: «ando onde há espaço:/ meu tempo é quando».um primeiro estudante, mais corajoso, tira o casaco e o estende no chão. outros fazem o mesmo. e então vinicius sai de cabeça erguida – e coração estraçalhado – sobre aquele tapete de casacos.
a poesia acabara de colocar cada um em seu devido e merecido lugar.
«há uma esquerda profundamente institucional e simultaneamente fanática», afirma a historiadora raquel varela na entrevista a seguir, concedida à «carta capital» durante uma rápida passagem por são paulo.
quem foi estudante na época da ditadura militar dificilmente escapou de participar dos desfiles de 7 de setembro como atividade escolar. é o meu caso. não que eu gostasse daquilo, longe disso, participava porque era OBRIGADO. na verdade, eu ODIAVA ter que participar daquela pantomima. a OBRIGAÇÃO de ter que PARTICIPAR de algo que eu não gostava e não ACREDITAVA criou, dentro de mim, uma verdadeira AVERSÃO a todo e qualquer tipo de IMPOSIÇÃO. eu sou um libertário. se quiser ir pra paris, vá! faça o que tu queres pois é tudo da lei. assim sendo, conforme fui crescendo, fui perdendo o medo de ser feliz. hoje sou um teo-poeta, só me dedico àquilo que realmente ACREDITO.
os teólogos constroem barreiras para estabelecer quem está dentro ou fora de suas comunidades por meio de confissões de fé. os teo-poetas também confessam a fé. dessa forma, seguem o conselho de mario quintana: «eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão».
verdade verdadeira, de lembrança, mesmo, do 7 de setembro, eu tenho de um desfile na cidade de pelotas, acho que em 76, em que desfilávamos com um catavento verde-amarelo na mão. o meu não voltou pra casa, foi devidamente amassado, rasgado e jogado no chão.





