domingo, 13 de setembro de 2026


no jardim da política
[ou: na terra de noel]


«se o néscio persistisse em sua nescidade, ele se tornaria sábio.»

william blake

.

não vou tirar meu chapéu
p'ra qualquer vagabundo
nasci na terra de noel
sou cidadão do mundo

josias sobrinho

no final do post de ontem, eu disse que, mesmo sem dinheiro e perdendo a razão, ainda me restava o direito de ser consciente da situação. que situação? a situação de impasse. que impasse? o impasse da frente ampla  — impasse, aliás, apontado por andré singer:

«diante desta etapa regressiva, torna‑se obrigatório construir a frente mais ampla possível para preservar e aprofundar o regime democrático. dadas as contradições de classe envolvidas na coalizão resultante, todavia, o artefato frentista se paralisa, impedindo o salto de qualidade necessário para formar uma maioria sólida em torno do objetivo almejado.»

dito isso, vamos ao que viemos

há dez mil anos atrás, numa postagem minha no facebook, na qual falava sobre a foto de lula abrazado a sarney, uma companheira amiga minha, contemporânea do lad (livres atuadores pela democracia), fez o seguinte comentário:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo candidato pra derrotar o bolsonaro, glauber braga se lançou pelo psol. quem sabe combateremos o nazifascismo em rodas de ciranda, néh 😉»
ao que eu respondi:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo argumento para nos abrazarmos a sarney e cia: o nazifascismo. aliás, o nazifascismo, para petistas e lulistas, muda de cara a cada quatro anos. em 2002, a cara era uma; em 2006, outra; em 2010, outra; e, em 2014, outra. e o final deste filme, sabemos qual é. mas que importância isso tem? nenhuma. o que importa é que a gente vença e passe mais 10, 12, 14, 16 anos no governo. depois, se nos tirarem de novo, a gente vê o que faz. mas não te preocupa, companheira, minha opinião não tem valor algum. ainda tô no jardim da infância da política, de onde, por sinal, não tenho o menor interesse de sair. 😉»

de farsa em farsa, a «nova república» morreu
a expressão «nova república» foi cunhada há 31 anos, quando josé sarney assumia a presidência do país, na qualidade de vice de um agonizante tancredo neves, eleito indiretamente pelo colégio eleitoral inventado pela ditadura. em seu discurso de posse, escrito por tancredo, o imortal autor de marimbondos de fogo anunciava: «brasileiros, começamos hoje a viver a nova república». a expressão pretendia anunciar o advento da democracia. a farsa não poderia ser mais perversa e descarada: ignorando a vontade de milhões que expressaram nas ruas a exigência por eleições diretas, o poder era entregue a um líder da arena – principal partido de sustentação dos generais –, sem que qualquer instituição do antigo regime fosse desmantelada, ou os seus responsáveis julgados e muito menos punidos.
josé arbex jr.
abril de 2016

«há quem diga que essa história de desobediência civil e revolução, não tá com nada. isto é, já era. «não tá com nada» pode ser que sim, «já era» penso que não. por quê? porque aqui no brasil, salvo uma ou outra exceção — vide a balaiada no maranhão — isso jamais aconteceu. portanto, não se pode dizer «já era» para uma coisa que nunca foi.»

ontem, aqui no blog, reproduzi o trecho acima. hoje, ao entrar no whats, havia a seguinte mensagem para mim: «ah, fala sério que tu ainda acredita em desobediência civil e revolução...»

uma fábula de natal

por fausto wolff
a minha mais bela noite de natal aconteceu numa (sei do cacófato) manhã. eu não era a criança que recebia os presentes, mas sim o papai noel que os dava. não aconteceu no brasil, mas em copenhague e nevava, como nos filmes de natal que os americanos mandavam para nós em programas duplos dominicais e que nós crianças pobres assistíamos, não acreditando que pudesse existir um país onde todos eram tão bons e se amavam tanto. antes, porém, de lhes contar minha performance como papai noel, devo lhes contar minha performance como vinícius de moraes.

tudo começou alguns anos atrás, vários graus abaixo de zero, fora e dentro do copo. uma dessas noites em que a angústia encontra-se com a solidão numa esquina do inconsciente, quando sentimos os nossos demônios dançando dentro de nós, informando-nos da nossa fragilidade e ignorância. numa dessas noites em que os pais de família apressam-se em ir para casa e ao pé da lareira tomarem chocolate quente e contarem histórias de hans christian andersen para os filhos. em se tratando de um país estranho, então, a solidão aumenta consideravelmente e a angústia parece esmagar a psique como quem aperta uma borboleta na mão fechada. a solução, principalmente para quem não é uma pessoa séria e respeitável como é o meu caso, é unir-se com outros sócios do mesmo sindicato e ir armar uma zoeira até que, como diz drummond, venha a manhã trazer leite, jornal e calma.

entrei numa boatezinha de badstuestraede, se não me engano, e lá estavam outras moças e rapazes que se divertiam em torno de um piano, abraçando-se, beijando-se e tentando tirar sambas de tom e vinícius do teclado que negava-se a cooperar com dedos tão inábeis. uma jovem morena de pele muito branca chegou a cantar «felicidade» num portunhol de indisfarçável origem escandinava. terminei meu quinto uísque e dirigi-me com o sexto na mão até onde estava o grupo e mandei ver, falando em inglês para ninguém em particular:

– vocês não sabem o quanto eu estou emocionado. não sabia que gostavam tanto das minhas músicas por aqui, meu nome é vinícius de moraes.

vocês bem podem imaginar o que aconteceu: abrações, beijos, pedidos de canções, etc. auxiliado pelo pianista cantei «felicidade», «minha namorada», «eu não existo sem você», «chega de saudade», e todas as que eu sabia de cor e as que eu improvisava, pois afinal, no grupo ninguém sabia português e obviamente ninguém vira o bom vinícius nem mesmo por fotografia. a boate não estava cheia, de modo que nos adonamos do lugar mas no melhor da festa entrou um rapaz com aquele jeito de ser brasileiro no exterior que já entrou para o folclore da crônica nacional. ouvi quando o maître lhe disse que vinícius estava cantando e antes que ele pudesse responder eu já estava lhe dando um grande abraço, talvez até mesmo um pouco apertado demais, enquanto lhe sussurrava ao ouvido:

– vê se não estraga a minha festa, meu chapinha. olhe quantas moças bonitas ao redor do piano. se você souber tocar eu posso até lhe apresentar como o tom jobim. quando ele se desprendeu do abraço, disse aos berros para quem quisesse ouvir em forte sotaque nordestino: «vinícius de moraes seu cabra da peste, que bom te ver por aqui.»

tratava-se de um jovem cearense que estudava algo que não me lembro mais em malmo, na suécia e viera passar o natal com os pais da noiva que era dinamarquesa. mas não topou ser tom jobim, pois sua noiva iria encontrá-lo mais tarde no night-club, o que efetivamente se deu, quando o cearense, peito inflamado de orgulho, apresentou o grande poeta e compositor vinícius de moraes à sua bem amada.

quando o ex-futuro tom jobim retirou-se com a sua namorada já eram quatro da matina e eu estava traduzindo para o inglês para a pálida jovem de cabelos pretos que me olhava como se eu fosse um deus um dos meus poemas:

«...but inside the frame of a bed no other woman has been so beautiful...» («...mas dentro da estrutura de uma cama, nenhuma outra mulher foi tão bela...»)

era a época em que as comunidades estavam em moda na escandinávia e moças e rapazes moravam juntos em grandes e velhas casas que chamavam de colectivs e dividiam as despesas. lá fui eu para a colectiv e «no quiero dicir por hombre las cosas que yo y la morena hicimos pues que la luz del intendimiento me hace ser muy comedido».

por volta das 11 horas da manhã do dia seguinte encontrei quatro moças e cinco rapazes tomando café na grande mesa da sala, todos vestidos de papais noéis com longas barbas e bigodes brancos. um deles, entregando-me uma roupa de papai noel, disse-me:

– vinícius, veste isto aí que vamos a uma festa de caridade.

e lá fomos nós vestidos de papais noéis dentro da bela e fria manhã de 24 de dezembro pelas ruas de copenhague. repentinamente, vi-me dentro de uma grande magazin, uma espécie de «sears» ou «mesbla» local que se não me engano chamava-se «magazin du nord» ou «illum». a loja com departamentos em vários andares estava apinhada de gente. a um certo momento, a morena, que chamaremos de karen, ao meu lado, apanhou um brinquedo e deu para um menino:

– tome, isto é para você. presente de papai noel.

os demais papais noéis faziam a mesma coisa. apanhavam o que lhes caísse nas mãos e entregavam ao público que – acreditem – aceitava tudo com muita satisfação, pois que de natal se tratava. apesar dos protestos dos funcionários, centenas de pessoas foram presenteadas antes que a polícia chegasse. nós papais noéis, protegidos pelo público, fugimos nas mais diversas direções. havia tantos papais noéis pela rua principal que era impossível distinguir os legítimos, ou seja nós, dos falsos, ou seja, os que anunciavam produtos comerciais. ao longe vi um papai noel que gritava para mim:

– good-bye, vinícius, see you around! (– adeus, vinícius, até mais!)

entrei no toillete de um botequim e tirei a roupa do bom velhinho e saí com a minha que mantive por baixo, sentindo-me um misto de papai noel, super-homem e dom quixote. não mais solitário, não mais angustiado. o milagre de natal que eu tanto esperava desde o meu tempo de menino pobre acontecera.

se a história que contei é verdade ou não, é um problema que deixo com os leitores. a verdade que eu gostaria que, realmente, acontecesse neste natal de 1978 é a seguinte: gostaria que todos os leitores quando reunidos com suas famílias para festejar o aniversário de jesus cristo, tivessem um pensamento para com todos os presos políticos e mesmo os não políticos, os pobres ladrões de galinha, vítimas de um sistema penitenciário cruel e desumano, para que eles saibam que estamos com eles. e um pensamento especial para uma menina chamada flávia shilling, uma brasileirinha que há seis anos padece nos cárceres uruguaios. quem sabe, assim, conseguiremos anular as palavras de são tomás de aquino: «os olhos foram feitos mais para chorar do que para ver, pois cegos choram e não vêem.» nós que vemos, não sejamos cegos neste natal.
dezembro/1978

«vou tratar [os 60 anos do golpe de 1964] da forma mais tranquila possível. estou mais preocupado com o golpe de janeiro de 2023 do que com o de 64. isso já fez parte da história, já causou sofrimento, o povo já reconquistou o direito democrático. os militares, hoje no poder, eram crianças naquele tempo. alguns nem eram nascidos»
luiz inácio lula da silva

«o que eu não posso é não saber tocar a história para frente, ficar remoendo sempre, remoendo sempre, ou seja, é uma parte da história do brasil que a gente ainda não tem todas as informações, porque tem gente desaparecida ainda»
(idem)

todo poeta é um profeta
1980. vinicius já quase não saía. só recebia os amigos mais íntimos. havia, na época, uma jornalista que insistia com uma entrevista. vinicius resistia até que um dia cedeu.
a primeira pergunta foi fulminante: - poeta, o senhor tem medo da morte? vinicius olhou nos olhos da moça e respondeu: - não. eu não tenho medo da morte, o que eu tenho é saudade da vida.
começava a década de 1980 --- mais conhecida como a década perdida --- e essa foi a última entrevista que vinicius concedeu.
tom Jobim recebeu a notícia em casa e, literalmente, caiu da cama.
chico buarque ouviu a notícia, acidentalmente, no rádio do automóvel, mudou o trajeto e foi direto para o cemitério.
toquinho, de volta do cemitério, roda a maçaneta da porta de entrada da casa do poeta e é tomado pela imagem de vinicius esticado no sofá da sala. mas o sofá está vazio. não há mais o que fazer. toquinho chora sozinho:
«meu deus, vinicius morreu».

ao vento

ontem
pelas cinco da tarde
o céu ficou encarnado

não era vermelho de derrotado
era vermelho de envergonhado,
como se o dia tivesse medo
e não quisesse dizer de quê

ninguém falou nada
a cidade se fez de sonsa
e ficou calada 

no banheiro,
a toalha torcida dentro do balde 

o homem olhando aquilo
examinando o mapa
de um país derrotado

lá fora,
o sinal fechou

olá, como vai?
eu vou indo, e você, tudo bem?
tudo bem, eu vou indo correndo
pegar meu lugar no futuro, e você?

um rapaz enxugou a testa
uma velha segurou três sacolas
com o cuidado de quem carrega
três filhos no colo

um cachorro mijou no poste,
solene,
resolvendo um problema sério
igual presidente

o céu continuava vermelho

vermelho como a raiva
que a gente guarda
e finge que esqueceu

no fundo da gaveta,
no avesso do bolso,
na dobra da língua.

agora falando sério

hoje
segundo a previsão
começa a clarear cerca de 30 minutos antes
por volta das 6 horas 
já o pôr-do-sol ocorre às 18:18
se precisar da previsão do tempo completa é só falar!


de volta ao começo

minhas análises políticas não contribuem em absolutamente nada na luta contra jair bolsonaro e o nazifascismo. contribuiriam se eu fosse uma grande liderança e ou uma pessoa influente dentro da esquerda. o que nunca fui, nem nunca quis ser.
nem poeta eu sou
mesmo que fosse
de nada adiantaria
lembremos o que
a revolução russa
fez com maiakovski
maiakovski morreu
de incompreensão
o poeta tentou se enquadrar, fez poemas engajados-proletários, produziu cartazes revolucionários, mas sua criatividade, tida como excessiva e contagiante, chocava os comunistas retrógrados e, segundo dizem, não era entendida pelas massas.

esse é o ponto: o texto poético exige do leitor conexão.
assim sendo
às vezes eu me pergunto
qual a validade de fazer o que faço
aqui nesse espaço?
a resposta
meu amigo
está soprando
nos textos que faço
e que vou seguir fazendo
vai vendo

grill


se me levanto cedo,
limpo e curado, lúcido e feliz,
e te digo: «vou para a mata
pra me aliviar de ti»,
sabe que trago dentro um tesouro
que me chega até a raiz.

clique no título para ver e ouvir

(silvio rodríguez, 1974)


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

sábado, 12 de setembro de 2026


vamos mulher

«aprendi a não tentar convencer ninguém. o trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.»

josé saramago

porto alegre, 11 de setembro de 2026

em ato político realizado no largo glênio peres, em porto alegre, o presidente luiz inácio lula da silva reforçou seu apoio à chapa aliada no rio grande do sul, vinculando a disputa eleitoral ao investimento na educação, à defesa dos direitos sociais e ao combate à violência de gênero. mesmo sob chuva intensa no centro histórico, o evento deu centralidade ao protagonismo das mulheres, unindo pautas de representatividade, propostas legislativas e mobilização de base na reta final de campanha.
memória de brizola e inspiração materna
durante seu pronunciamento, o presidente evocou a figura histórica de leonel brizola para respaldar o nome de juliana brizola (pdt) na corrida ao palácio piratini, ao lado de edegar pretto (pt) na vice-presidência, além de defender as candidaturas de paulo pimenta (pt) e manuela d’ávila (psol) ao senado.

«o brizola pode ter morrido para alguns, mas o brizola tá no dna dessa mulher», declarou lula em referência a juliana. o presidente comparou o vínculo político da candidata com o avô à ligação que mantém com a memória de sua própria mãe, dona lindu: «todo santo dia eu converso com a minha mãe. quando eu estou em dificuldade, eu peço ajuda pra minha mãe, porque a minha mãe não morreu. a minha mãe tá no meu ar, no meu dna. eu sou a minha mãe em vida». 
compromissos e pautas do eleitorado feminino 

a agenda de proteção e direitos das mulheres pautou as intervenções do palanque. juliana brizola assumiu o compromisso de liderar diretamente o combate aos crimes de gênero na esfera estadual: «eu não vou terceirizar para ninguém. eu vou resolver a proteção das nossas mulheres e das nossas crianças».

no âmbito federal, o ato destacou os esforços do pacto nacional contra o feminicídio e ações institucionais do governo para o enfrentamento da violência doméstica. a candidata ao senado manuela d’ávila ressaltou que a eleição é fundamental para fortalecer a bancada em brasília, defendendo pautas que afetam a rotina das trabalhadoras, como o combate à violência de gênero e o fim da jornada de trabalho na escala 6x1. 

convocação final e mobilização da militância 

o encerramento ficou marcado pelas orientações e apelos para a busca de votos. após o pedido de lula para que os eleitores consolidem o voto na chapa majoritária e nas candidaturas proporcionais, a primeira-dama rosângela da silva, a janja, assumiu o microfone para convocar a militância ao diálogo direto com eleitores indecisos ou desanimados.
«quem é aqui que vai conversar com seu vizinho, com a sua vizinha que está ainda indecisa, desanimada? quem é que vai fazer esse corpo a corpo?», perguntou a primeira-dama, enfatizando o papel do convencimento no dia a dia: «o voto também se constrói na conversa. aquela conversa olho no olho, na palavra que devolve a esperança para quem está desanimado»

vamos mujer,
partamos a la ciudad.
todo será distinto,
no hay que dudar.

clique no título para ver e ouvir

(quilapayún, 1969)


minha coluna de 15 de abril de 2019 na rádiocom
[100 dias de (anti)governo bolsonaro]

a culpa é minha
há quem diga que essa história de desobediência civil e revolução, não tá com nada. isto é, já era. «não tá com nada» pode ser que sim, «já era» penso que não. por quê? porque aqui no brasil, salvo uma ou outra exceção — vide a balaiada no maranhão, por exemplo — isso jamais aconteceu. portanto, não se pode dizer «já era» para uma coisa que nunca foi.

há quem defenda o diálogo olho no olho, para dissuadir antipetistas bolsonaristas de seu aparente estado de catatonismo. eu também. por isso, fui a campo — o que, aliás, já havia feito antes.
depois de 100 dias de (anti)governo bolsonaro, será que algum antipetista bolsonarista mudou de ideia e/ou mudou de opinião? quer dizer: será que os 100 dias de um idiota no poder foram suficientes para que antipetistas bolsonaristas chegassem à conclusão de que se era ruim com o pt, é pior sem o pt? não sei, mas acho que não.

aqui onde moro o que mais tem é antipetista bolsonarista. eles até concordam que o brasil vai de mal a pior. mas quando eu pergunto o porquê, todos, sem exceção, dizem que a culpa é do pt.

então eu insisto, procuro mostrar como as coisas eram e como elas estão, mas não adianta, não tem o que eu diga que faça com que eles mudem de opinião.

chego à conclusão, então, que a culpa é minha. ou seja: tenho muita vontade, mas me falta poder de persuasão.
enilton grill
repecho, abril de 2019

terra de noel 

quando entrei no whats
além dos familiares mais próximos 
adicionei alguns amigos 
que juntos somavam não mais que 15

hoje, ao todo, meus contatos somam 35

logo no início
quando comecei a escrever no blog
 e a compartilhar meus textos pelo whats
 eles chegavam a alcançar 70 visualizações

meus dois últimos — ou mais recentes — 
nos quais teço críticas a lula e ao pt 
juntos não somam 20 visualizações 

concomitante a isso
quase todos os dias recebo textos e matérias 
tentando me «convencer» da importância destas eleições para o futuro do brasil

não mudou nada
no facebook era a mesma coisa

diante disso venho a público esclarecer:

a eleição mais importante da minha vida foi a de 1989
foi, é e para sempre será

não me procurem aqui
ainda estou lá

lá onde?
lá na rede povo

clique no título para ver e ouvir

[campanha lula 1989]
vídeo completo
agência tarso
(6:34)


não vou tirar meu chapéu
p'ra qualquer vagabundo
nasci na terra de noel
sou cidadão do mundo

vai o feijão
vai o café
vai o amor
daquela mulher

mesmo não tendo dinheiro
mesmo perdendo a razão
me resta ainda o direito de ser
consciente da situação.

clique nos títulos para ver e ouvir

(josias sobrinho, 1986)


canta: rita beneditto


canta: zeca baleiro


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas 



sexta-feira, 11 de setembro de 2026


chile, 1973
(trailers)

[clique nos títulos para ver e ouvir]



(a insurreição da burguesia)

.

(o golpe de estado)

.

(o poder popular)

chile, 1964.

eduardo frei, candidato do partido democrata cristão, derrota salvador allende em uma eleição na qual a cia despejou quase meio milhão de dólares. naquela oportunidade 0,7% dos proprietários controlavam 61,6% das terras chilenas, o desemprego era alto e a inflação corroía os salários.

isabel parra cantava:

muito dinheiro em parques municipais
e a miséria é grande nos hospitais
no meio da alameda das delícias
chile limita al centro de la injusticia

[clique no título para ver e ouvir]

(isabel parra, 1968)

chile, 1970.
em uma eleição disputadíssima, salvador allende vence as eleições presidenciais. naquela oportunidade o povo tomava as ruas e festejava.
o inti-illimani cantava:

porque desta vez não se trata
de mudar um presidente
será el pueblo que construya
um chile bem diferente

[clique no título para ver e ouvir]

(canto al programa, 1970)


e foi o que aconteceu

sob o governo socialista da unidade popular, o chile foi bem diferente. o presidente eleito cumpriu o programa pelo qual se elegeu: nacionalizou a mineração, estatizou o sistema financeiro e impôs normas de controle sobre os monopólios industriais e as empresas de telecomunicações — entre elas, a poderosa itt (international telephone & telegraph)
contudo, porém, todavia...
a vitória da unidade popular deitava por terra intensas e laboriosas negociações entre a itt e eduardo frei. a itt, então, deu uma guinada em seus princípios de atuação política: assumiu a liderança dos grupos estrangeiros e contatou a cia. os empresários fecharam as fábricas; os caminhoneiros paralisaram os transportes. assim, arlequins, polichinelos, monges falsos, palhaços a granel, terroristas de farda e militares degradados deram o golpe no chile e mataram o homem da paz.

mas, contudo, porém, todavia...

para matar o homem da paz,
tiveram que assassiná-lo muitas vezes
porque o homem da paz era uma fortaleza

para matar o homem da paz,
tiveram que imaginar que era uma tropa
uma armada uma legião uma brigada
tiveram que acreditar que era outro exército
mas o homem da paz era tão somente um povo
e tinha em suas mãos um fuzil e um mandato

para matar o homem que era um povo,
tiveram que ficar sem o povo

[clique no título para ver e ouvir]

(a dos voces, 1985)

de volta ao começo

no princípio, era o chile querendo nascer

mas, pela mala diplomática chegam as notas verdes que financiam greves e sabotagens e cataratas de mentiras. os empresários paralisam o chile, e lhe negam alimentos. não há outro mercado além do mercado negro. as pessoas fazem longas filas em busca de um maço de cigarro ou de um quilo de açúcar; conseguir carne ou azeite requer um milagre da virgem maria santíssima. a democracia cristã e o jornal el mercúrio dizem pestes do governo e exigem aos gritos um golpe redentor, pois já é hora de acabar com essa tirania vermelha; outros jornais, rádios e canais de televisão fazem eco. o governo custa a se mover: juízes e parlamentares põem-lhe paus nas rodas, enquanto conspiram nos quartéis os chefes militares que allende acredita leais.

nestes tempos difíceis, os trabalhadores estão descobrindo os segredos da economia. estão aprendendo que não é impossível produzir sem patrões, nem abastecer-se sem mercadores. mas a multidão marcha sem armas, vazias as mãos, por este caminho de sua liberdade.

do horizonte vêm uns quantos barcos de guerra dos estados unidos, e se exibem frente às costas chilenas. e o golpe militar, tão anunciado, ocorre.

mentira
traição
desinformação
conciliação
sabotagem
tutela militar

qualquer semelhança com o brasil de hoje
não é mera coincidência.
paciência.
américas que segue

allende
gosta da boa vida. várias vezes disse que não tem madeira de apóstolo nem condições para mártir. mas também disse que vale a pena morrer por tudo aquilo sem o qual não vale a pena viver.

os generais alçados exigem sua renúncia. oferecem a ele um avião para que abandone o chile. advertem que o palácio presidencial será bombardeado por terra e por ar.

junto a um punhado de homens, salvador allende escuta as notícias. os militares se apoderam do país inteiro. allende põe um capacete e prepara seu fuzil. soa o estrondo das primeiras bombas. o presidente fala pelo rádio pela primeira vez:

— eu não vou renunciar...

eduardo galeano | o século do vento, p. 252 e 253.

«por un fuego que no des a tiempo
puede no salir el sol.»

silvio rodríguez

ao vento

tudo passa
só o passado não passa
preparar, apontar, fogo!
sem fogo não há fumaça

grill

a ditadura pinochet ficou conhecida como uma das mais brutais na história latino-americana. apenas nos primeiros meses, mais de 80 mil pessoas foram presas por motivos políticos. a barbárie não poupou figuras renomadas internacionalmente como o cantor popular victor jara, que espancado em sessões de tortura, teve suas mãos quebradas e depois foi executado no estádio nacional do chile, onde presos políticos eram mantidos encarcerados e torturados à espera de fuzilamento.
[clique no título para ver e ouvir]

(adaptación creativa sin fines de lucro.
fundación victor jara)

ditadura pinochet

(em 4 atos)

1. o terror da dina (polícia secreta de pinochet): a dina era comandada por manuel contreras. com mais de 9 mil agentes e espiões, ela usava o terrorismo de estado para perseguir opositores.

2. crimes internacionais: pela «operação condor», o grupo assassinou figuras importantes longe do chile, como o general carlos prats na argentina e o ex-ministro orlando letelier nos estados unidos.

3. mudança de fachada: pressionado pelos eua, pinochet afastou contreras e mudou o nome da dina para cni. na prática, a perseguição continuou igual.
4. dinheiro para os militares: para garantir o apoio dos generais, pinochet gastava fortunas com as forças armadas. em 1980, o chile liderava os gastos militares na américa latina.

pátria, luz e bandeira
dos punhos erguidos,
voltarás a florescer,
voltarás a renascer.

[clique no título para ver e ouvir]

(quilapayún, 1976)

o exílio
(você me pergunta o que é o exílio)

«é proibida a entrada no território nacional de pessoas nacionais ou estrangeiras que... na opinião do governo constituam um perigo para o estado... no caso dos chilenos, o ministério do interior emitirá um decreto supremo proibindo sua entrada no país e «a autoridade administrativa correspondente ordenará o cancelamento do passaporte, se for o caso».
decreto lei nº 604, de 10 de agosto de 1974.

dias e noites de amor e guerra

a mãe não estava, aquela tarde, e eu esperava na porta o ônibus que trazia florência do jardim de infância. chegou muito triste. no elevador fez beicinho. depois deixou que o leite esfriasse na xícara. olhava o chão. sentei-a em meus joelhos e pedi que me contasse. ela negou com a cabeça. acariciei-a, beijei sua testa. deixou escapar uma lágrima. com o lenço sequei sua cara e assoei seu nariz. então, pedi outra vez:

– vamos, conta.

contou-me que sua melhor amiga tinha dito: «eu não gosto mais de você». 
choramos juntos, não sei quanto tempo, abraçados os dois, ali na cadeira. eu sentia as mágoas que florência ia sofrer pelos anos afora e quisera que deus existisse e não fosse surdo, para poder rogar que me desse toda a dor que tinha reservado para ela.


eduardo galeano , p. 133, 134.

«a bagagem do desterro é minha mala de humo,
mas sabemos bem que, sem o fogo, não há fumaça.»


você me pergunta como foi o cerco que sofri.
mete a língua na minha cabeça, no meu pensar, na minha alma.
pois bem: deixo você supor que abandonei meu povo,
que fugi rompendo o duro limiar como um bicho acuado.
mas eu te garanto que não me roubaram nada,
pois dessa terra jamais poderão me afastar.

pois como vão roubar meu vulcão com sua vulcana?
desviar de minha alma a foz do rio com sua ria?
lacerar na paisagem a árvore com seu arvoredo?
matar em minha têmpora o rude piolho com sua piolha?
queimar com um fósforo comum meu livro e sua livraria?
juntar o punhal ao meu dolor com sua dolora?
naufragar no temporal meu bote com sua bota?
bater em retirada meu conjuro e sua conjura?

vibrar a corda do meu solfejo 
com seu solfejar.

você me pergunta como foi o cerco que sofri.
põe o olho a folhear a estação da minha memória.

pois bem: concedo que ao final ganharam a batalha,
mas falta conhecer o resultado da guerra.
pois confesso que não perdi um só grão de pólen,
já que dessa terra jamais poderão me afastar.

pois como vão extenuar meu caso com sua caça?
esvaziar minha sacola com seu saque?
prender meu canto universal de grilo ao seu grilhão?
esvaziar de conteúdo meu araucano e sua araucária?
cavar com fúnebre prazer meu tombo com sua tumba?
frear a turbulência da minha gesta com seu gesto?
o choque dos meus esperantes com sua espera?
a bagagem do desterro é minha mala de fumaça,
mas sabemos bem que, sem o fogo, fumaça não haverá.

[clique no título para ver e ouvir]

(inti-illimanni, 1982)

em 1º de setembro de 1988 , através do decreto 203 do ministério do interior, o exílio terminou:

[...] todos os decretos supremos isentos e os decretos que, emitidos por força das competências que lhe conferem o artigo 41.º n.º 4 da constituição política da república, prevejam a proibição de entrada no território nacional das pessoas que neles se encontrem mencionadas...

com cinzas, com rasgos e fraturas,
com esta altiva impaciência,
com uma honesta consciência,
com indignação, com suspeita,
com ativa certeza
ponho o pé em meu país.

ponho o pé em meu país
e em lugar de soluçar,
de moer minha pena ao vento,
abro o olho e seu olhar
e contenho o descontento.

volto belo, volto terno,
volto com minha esperadura,
volto com minhas armaduras,
com minha espada, meu desvelo,
meu cortante desconsolo,
meu presságio, minha doçura,
volto com meu amor espesso,
volto em alma
e volto em osso
a encontrar a pátria pura
ao pé do último beijo.

volto, enfim, sem humilhar-me,
sem pedir perdão nem olvido:
o homem nunca está vencido,
sua derrota é sempre breve.
um estímulo que move
a vocação de sua guerra,
pois a pátria que o desterra
e a pátria que o recebe
lhe dirão, por fim, que ele vive
as dores de toda a terra.

[clique no título para ver e ouvir]

(inti-illimanni, 1978)

falando em dor...
miguel não morreu.
miguel enriquez ainda está aqui


«aquí nadie muere compañero
aquí nadie deja de luchar
aquí nada termina compañero
aquí cada día es continuar»


yo pisaré las calles nuevamente
de lo que fue santiago ensangrentada,
y en una hermosa plaza liberada
me detendré a llorar por los ausentes.

(pablo milanés, 1976)


«basta ya de conciliar,
es la hora de luchar!»

[clique no título para ver e ouvir]

teatro caupolicán
17 de Julho de 1973
legendado (pt - br)

«eso no está muerto,
no me lo mataron
ni con la distancia
ni con el vil soldado.»

silvio rodríguez


ali amei uma mulher terrível,
chorando pela fumaça sempre eterna
daquela cidade encurralada
por símbolos de inverno.

ali aprendi a tirar com a pele o frio
e a jogar depois meu corpo à garoa,
nas mãos da névoa dura e branca,
nas ruas do enigma.

isso não está morto,
não me o mataram,
nem com a distância,
nem com o vil soldado.

ali entre os morros eu tive amigos
que entre bombas de fumaça eram irmãos.
ali eu tive mais de quatro coisas
que sempre desejei.

ali nossa canção se fez pequena
em meio à multidão desesperada:
um poderoso canto da terra
era quem mais cantava.

até ali me seguiu como uma sombra
o rosto daquele que já não se via,
e no ouvido me sussurrou a morte
que já apareceria.

ali eu tive um ódio, uma vergonha,
meninos mendigos da madrugada,
e o desejo de trocar cada corda
por um saco de balas.

[clique no título para ver e ouvir]

(días y flores, 1975)

antes do fim

«precisamos de mais unidade dentro da unidade popular.
precisamos de mais unidade para que uma linguagem mais revolucionária seja compreendida.
é preciso chamar as forças revolucionárias que não estão na unidade popular para que se juntem a nós com a responsabilidade histórica rumo à revolução socialista, camaradas.
temos que fortalecer o poder popular, os comandos comunais, é preciso fortalecer os comandos industriais, e não como forças paralelas ao governo, mas como forças populares junto com todo o governo.»

salvador allende

ainda que destruam todos os caminhos,
força nenhuma deterá meu povo.
ainda que nos prendam grilhões e correntes,
não seremos de ninguém escravos.
e seguiremos renascendo nas batalhas,
e seguiremos crescendo e combatendo,
e no solo traído da pátria,
o vermelho, gota a gota, irá nascendo.

chile territorio ensangrentado
chile seguirá por siempre unido
chile luchará contra el tirano
chile no será jamás vencido.

ainda que disparem contra os operários,
bala nenhuma matará meu povo.
ainda que fuzilem os meus companheiros,
ferida nenhuma nos trará a morte.
e seguiremos levantando as bandeiras,
e seguiremos lutando e avançando,
e no solo traído da pátria,
o vermelho, gota a gota, irá nascendo.

chile territorio ensangrentado
chile seguirá por siempre unido
chile luchará contra el tirano
chile no será jamás vencido.

[clique no título para ver e ouvir]

(quilapayún, 1975)

1. nacionalização de riquezas básicas e estatização de parte dos meios de produção

2. nacionalização dos bancos

3. reforma agrária

4. organização de um sistema de participação dos trabalhadores

5. estabelecimento de uma nova ordem institucional – poder popular.

.

«trabalhadores da minha pátria: tenho fé no chile e em seu destino. outros homens superarão este momento cinzento e amargo onde a traição pretende se impor. sigam vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, de novo irão se abrir as grandes alamedas por onde passe o homem livre para construir uma sociedade melhor. viva o chile, viva o povo, viva os trabalhadores! estas são minhas últimas palavras. tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão.»

salvador allende

não passarão
a luta continua
venceremos


venceremos, venceremos,
mil cadenas habrá que romper,
venceremos, venceremos,
la miseria (al fascismo) sabremos vencer.

[clique no título para ver e ouvir]

 (czechoslovakia, 1975)


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas  

quinta-feira, 10 de setembro de 2026


de serra, de terra  e de mar
(sem medo de ser feliz) 


eu sempre quis ser contente
eu sempre quis só cantar 
trazendo pra toda gente
vontade de se abraçar

eu tinha no sol mais quente
a terra pra me alegrar
e a serra florando em frente
lavava os seus pés no mar

mas um dia tudo mudou
a vida se transformou
e a nossa canção também

geraldo vandré


«diante do avanço do bolsonarismo, lula abraça destruidores da amazônia em busca da reeleição»

«alianças do pt no norte incluem uma intervenção em rondônia, que tentou sacrificar a candidatura da ativista neidinha suruí, e o apoio a candidatos que colaboraram para arruinar o licenciamento ambiental»

rafael moro martins
córrego do urubu, cerrado, brasília
27 de agosto de 2026

a força do bolsonarismo e a debilidade do partido dos trabalhadores na amazônia levam a campanha de reeleição do presidente luiz inácio lula da silva a abraçar candidatos e alianças com uma pauta inimiga da floresta. no caso mais extremo, em rondônia, a pressão por uma aliança com o pt fez o comando nacional do partido socialista brasileiro, o psb, intervir no diretório estadual e tentar ceifar a candidatura ao senado da ativista neidinha suruí, doutora em geografia que há mais de 40 anos atua na defesa dos povos originários amazônidas.

na quinta-feira, 13 de agosto, três dias antes do prazo final para o registro de candidaturas, um email chegou à noite ao diretório de rondônia. miguel só foi abri-lo na manhã seguinte. ele trazia anexada uma resolução, assinada por joão campos, «informando a dissolução do diretório, a anulação parcial da convenção, dizendo que a gente não lançaria nenhuma candidatura [para a eleição] majoritária [que escolhe governador e senadores], e determinando que a gente coligaria com o pt», relata o presidente afastado da legenda. «a gente foi pego de surpresa», reforça neidinha suruí. 


para ler a íntegra 
clique no título

eleições 26
[direto do centro do mundo]


ao vento

tudo passa
só o passado não passa
preparar apontar fogo
sem fogo não há fumaça

grill


o trem

em 2005, eu trabalhava no cfc. lembro-me bem...memória que vai, memória que vem... vem daí a metáfora do trem. naquela época, sem as limitações da idade, eu caminhava pelas ruas da cidade e a ladainha era uma só: mensalão, mensalão, mensalão. como eu sempre fui muito identificado com o pt, as pessoas esfregavam o jornal na minha cara: «explica aí, o que tu me diz disso aqui?».

digo aqui 
o que disse lá:

o importante era chegar.
chegar, chegar ou chegar
e quando o trem chega,
chega sem trem.


falando em trem

o trem percorria um pedaço daquela província fria desde temuco até carahue. atravessava extensões imensas e desabitadas, sem cultivo, atravessava os bosques virgens, soava como um terremoto por túneis e pontes. as estações estavam ilhadas no meio do campo, entre acácias e madeiras floridas. os índios araucanos, com seus trajes rituais e sua majestade ancestral, esperavam nas estações para vender aos passageiros carneiros, galinhas, ovos e tecidos. meu pai sempre comprava algo com interminável regateio. com sua barbicha loura, erguia uma galinha em frente a uma araucana impenetrável que não baixava nem meio centavo o preço de sua mercadoria.

cada estação tinha um nome mais bonito, quase todos herdados das antigas possessões araucanas. essa foi a região dos combates mais encarniçados entre os invasores espanhóis e os chilenos nativos, filhos profundos daquela terra.

os araucanos, na guerra pela sua pátria, inventaram a tática da terra arrasada. não deixaram pedra sobre pedra de imperial, cidade descrita pelo poeta dom alonso de ercilla como bela e soberba.

pablo neruda | confesso que vivi, p. 14

já ressoam as votações,
são ouvidas sem parar,
mas o gemido do índio,
por que não se escutará?

legendas + ilustração

[clique no título para ver e ouvir]

(violeta parra, 1961)

da contracapa de canto geral
(disco de geraldo vandré)

«desses tempos em que falar de árvores é quase um crime, pois implica em silenciar sobre tantos erros — aos que virão depois de mim.»

bertolt brecht

.

construindo casas ou pontes, igrejas ou hospitais, pintando, curando doentes, voando ou varrendo as ruas, fazendo política ou amor, morrendo e, porque não, matando, a vida importa somente pela doação que se faz dela, pelo sentido e pela direção. às vezes penso que cantando mereço um pouco a vida. saldo em parte os meus compromissos e tenho então, cada vez mais forte, a impressão da liberdade. por isso aprendo a cantar e canto.

neste disco a palavra geral tem de mim somente uma vontade muito grande de colocar-me sem pudores com o instrumento da comunicação de tudo que aprendi a ver, ouvir, pensar e sentir a respeito do meu tempo, do meu lugar e da gente que vive neles.

o sentido da palavra geral depende, afinal, do acerto no trabalho. das notícias e das emoções que ele possa trazer a cada um de nós e principalmente do uso que faremos delas.

é possível que este disco tenha custado a mim mesmo e a outras pessoas mais do que esperávamos, do que gostaríamos ou do que seria justo que custasse. mas eu tenho uma boa explicação: os critérios de justiça do mundo em que vivemos ainda estão muito longe de poder dar-nos uma certeza e uma garantia mínima do que seja verdadeiramente justo ou injusto.
geraldo vandré – março de 1968.

.

ps: «– vós que vireis na crista da onda em que nos afogamos, quando falardes de nossas fraquezas pensai também no tempo sombrio a que haveis escapado.»

bertolt brecht


meio e mensagem

quem me acompanha aqui pelo américas, deve ter percebido que, em cem por cento dos casos, meus posts vêm acompanhados de texto, imagem e música. obviamente que os três elementos estão intrinsecamente ligados, ou seja, um explica e complementa o outro.

é o caso deste post

na capa original do disco «canto geral», gravado pela emi-odeon em 1968 há duas imagens divididas por uma faixa onde consta o título do lp, em vermelho, e o nome de vandré, em preto. na parte superior, verde, há uma boiada sendo conduzida por um boiadeiro, o gado de cabeça baixa, segue a mesma direção. na parte inferior, amarelo, há um grupo de pessoas reunidas, de cabeça erguida, que olham para alguém ou para alguma coisa, o que é, não sei, mas é algo ou alguém que parece estar longe....

outro significado por trás deste lp, é o seu próprio nome. «canto geral» é o nome de um livro de poemas de pablo neruda lançado em 1950. comparado em importância à «divina comédia», de dante alighieri, ao «popol vuh» e à «folhas de relva», de walt whitman, «canto geral é «a grande canção da américa» — testemunha um grande amor ao chile e ao seu povo, e por extensão, a todos os povos latino-americanos, frequentes vítimas do despotismo.
«canto geral» conta uma história marginal da américa. é um livro de combate e de ternura. foi elaborado em circunstâncias adversas, quando neruda, perseguido, foi obrigado a transpor os andes e refugiar-se no estrangeiro.

é do próprio autor esta declaração: «naquele ano de perigo e clandestinidade terminei meu livro mais importante, o "canto geral"».

e assim nasceu essa magnífica obra: com a indelével marca do sofrimento.

falando em sofrimento


após a promulgação do ato institucional nº5, geraldo vandré teve que deixar o país, dando início ao seu exílio. ele permaneceu um tempo hospedado na casa de dona aracy, esposa de guimarães rosa e depois deu início a sua fuga para o chile, saindo pelo sul do brasil e passando depois pelo uruguai.

sua saída do país lhe causou enorme sofrimento...

e no vai e vem dos ventos
é assim que as coisas são
no mundo como ele é
nosso maior inimigo
somos nós mesmos


quem vai me escutar?
quem vai me entender?
ninguém pode mais sofrer

(geraldo vandré, 1964)


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas