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você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»
manoel de barros
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e chico?
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e chico?
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«não estou minimamente interessado em salvar quem quer que seja. ninguém precisa ser salvo. a única coisa que posso fazer é falar de quem sou e do que me sucedeu. eu não carrego pesos, não levo às costas os males do mundo [...] apenas gosto de partilhar a minha experiência, e essa partilha traz-me uma grande alegria.»
osho
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ao vento
grill
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para longe, prefiro navegar para longe
como um cisne que passa e já se foi
um homem que fica preso ao chão
ele dá ao mundo
sua canção mais triste
sua canção mais triste
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«o que é um artista? é alguém que tem antenas, que sabe se ligar às correntes que estão na atmosfera, no cosmos; ele apenas tem facilidade para fisgar, por assim dizer. quem é original? tudo que fazemos, tudo que pensamos, já existe, e somos apenas os intermediários que usamos o que está no ar, só isso.»
henry miller
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sobre o ouvir
o ato de ouvir exige humildade de quem ouve. saber, não com a cabeça mas com o coração, que é possível que o outro veja mundos que nós não vemos.
para sair do círculo fechado de nós mesmos, é preciso que nos coloquemos fora de nós mesmos. para se ouvir de verdade, é preciso colocar entre parênteses, ainda que provisoriamente, as nossas opiniões.
é norma de boa educação ficar em silêncio enquanto o outro fala. mas esse silêncio não é verdadeiro. é apenas um tempo de espera: estou esperando que ele termine de falar para que eu, então, diga a verdade.
rubem alves
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«descendo das montanhas onde passara dez anos de solidão, zaratustra se encontra com um eremita que vivia numa floresta. passara por ele dez anos antes, quando subia. o eremita se espanta: "sim, reconheço zaratustra", ele diz. "seus olhos
nietzsche
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charly garcía
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ao vento
autor desconhecido
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«será que a loucura pode ser provocada por excesso de lucidez?»
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ao vento
grill
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«yo sigo siendo tan inocente que, me sigue alumbrando la bendita esperanza de que un día, los poetas gobernarán el mundo.»
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león gieco
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o trem não é apenas o veículo que desloca corpos entre a cidade e o interior; é o vetor da própria travessia íntima, onde «chegar e partir são dois lados da mesma viagem» — a mesma dupla dimensão geográfica e subjetiva de subtesur e subtemí.
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subte
em «subte», vitor ramil utiliza o metrô de buenos aires como cenário para explorar temas de introspecção e isolamento. o «subte», mais do que um meio de transporte, simboliza um mergulho interior, onde a escuridão dos túneis representa momentos de reflexão e afastamento do cotidiano. o verso «yo dejo el sol detrás de mí / y bajo hondo en la ciudad» («deixo o sol para trás / e mergulho fundo na cidade») mostra esse afastamento da superfície iluminada para um espaço subterrâneo, silencioso e anônimo...
a lua, que «me viene a buscar», surge como uma metáfora para a esperança ou luz que persiste mesmo nos períodos mais escuros. o sentimento de deslocamento aparece no trecho «hay tanta gente en el vagón / todos me miran sin parar» («há tanta gente no vagão / todos ficam me olhando sem parar»), indicando solidão e estranhamento mesmo em meio à multidão.
as expressões «subtemoon» e «subtedream», que misturam inglês e espanhol, ampliam o caráter universal e onírico da experiência. já «yo viajo en el subtesur / yo viajo en el subtemí» («eu viajo no subtesur / eu viajo no subtemí») sugere que a viagem é tanto física (ao sul, em buenos aires) quanto subjetiva (um mergulho em si mesmo).
o tempo que «pasa y siempre queda allá» («passa e sempre fica lá») e a vida «inmóvil» («imóvel») no trem reforçam a ideia de suspensão e reflexão, transformando o «subte» em um espaço simbólico de autoconhecimento em meio à rotina urbana.
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«trem do centro» é uma das sínteses mais bonitas da música sobre a melancolia noturna dos trens urbanos. a canção transforma o vagão do metrô/trem da cidade em um ambiente onírico e solitário, no qual o narrador observa o desfile anônimo dos passageiros enquanto busca um sentido para o seu próprio desejo na escuridão da metrópole.
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noutras palavras: o «trem» de tom waits e o «subte» de vitor ramil são o mesmo reservatório de almas anônimas e luzes vacilantes — convulsões de trilho e metal que cortam a cidade na penumbra.
«"subte" é um poema de amor que vitor ramil dedica ao subterrâneo de buenos aires. ele é, como eu, um apaixonado por trens — especialmente os subterrâneos — e por toda a mística que eles carregam: essa atmosfera de lugar semioculto, meio labiríntico, profundamente borgiano. vitor vive um verdadeiro idílio com buenos aires e com a cultura rioplatense em geral. filho de pai uruguaio, cultor da milonga e do candombe, é um homem profundamente pampeano que teorizou com muita precisão sobre a irmandade cultural dos povos do rio da prata, incluindo o sul do brasil.»
pedro aznar
ao vento
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«o amor às palavras está completamente cravado no meu peito. é irreversível e sem ele não viveria. mas sou um disperso. meus olhos procuram milhares de fragmentos, alguns deles mundanos, banais, descartáveis. de tudo procuro tirar elementos... para a minha felicidade estética e emocional. às vezes descubro nesse mundaréu certos alguéns, livros, canções, poemas ou situações que acabam me somando importâncias e me ajudam a descobrir emoções, olhos e palavras.»
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«aprendi a cantar atrás dos tambores»
rubén rada
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rubén rada: é porque o candombe, como todos os ritmos do mundo, como o samba, o frevo, tudo, não tem música, é um ritmo. e nós, os músicos, roubamos o ritmo para fazer música. mas o ritmo na rua não precisa de música. você pode cantar o que quiser. eu aprendi a cantar atrás dos tambores. ali eu aprendi a entender o ritmo e a gostar disso. quando eu era muito pequeninho, tinha a banda policial, a banda da marinha, e eu ia atrás, sem sapatos, nada. descalço, atrás da banda.
noize: mas as pessoas entenderam quando surgiu o chamado «candombe-beat»?
rada: não, eles não entendiam, especialmente os negros. a gente sabe que, no mundo inteiro, as raças, ainda que sejam a mesma, todas pensam diferente. então a maioria dos negros não gostava. mas outros, que eram mais modernos, entendiam e gostavam dessa música. mas tem muito mais brancos no uruguai. nós éramos, na época, nos anos 1950 ou 1960, uns 10% da população. e depois os militares [na ditadura de 1973-1985] derrubaram os cortiços, que eram como se fosse o harlem, onde moravam todos os negros, e todo mundo fazia a sua música. em uma festa de negros, você entra e já tem festa. em uma festa de brancos, ninguém fala, até que comece o álcool ou o baseado, e as pessoas comecem a ficar à vontade. em uma festa de negros, chega um negro com uma roupa toda azul e com uma boina verde, por exemplo, e todo mundo: «olha, parece um passarinho», e aí começa a festa.
noize: hoje não há dúvidas de que você é uma das pessoas mais importantes para a cultura afro-uruguaia, se não a mais importante.
rada: sim. eu trabalhei muito para isso. sofri muito também.
noize: que tipo de sofrimento?
rada: de racismo. todo mundo critica todo mundo. e nós, negros, criticamos também. quando eu tive uma namorada branca, minha mãe disse: «não, ela vai rir de você. deixa isso. quando tiverem um filho, ele vai ser diferente na escola». todos somos racistas, o negro também. se você for à áfrica, e for uma mulher branca, a família do negro prefere que você se case com uma mulher negra. e isso é uma coisa que eu não tinha a consciência que agora eu tenho.
noize: essa questão vem avançando no uruguai?
rada: sim, mudou no mundo. eu me lembro do primeiro casamento do sammy davis jr., que se casou com uma mulher branca e judia. a minha esposa é branca e judia. mas naquele momento foi uma coisa que as pessoas não conseguiam entender, que nem quando o john lennon se apaixonou pela yoko. o pobre inglês odiava aquela mulher, e fizeram muito mal a ela somente porque era japonesa. o mundo foi muito cruel e é muito cruel agora também. então, o importante é o que minha mãe falou pra mim: «você não está mal, não está doente, os doentes são eles». então aprendi isso, se tem uma pessoa que não gosta de mim porque eu sou negro, bom, que siga seu caminho. eu sigo o meu. devo isso à minha mãe. como falava malcolm x, eu não posso esperar que o branco entenda que o preto é igual a ele. era isso o que propunha o martin luther king: paciência com o branco. e o malcolm x dizia: «eu tenho uma vida só, não tenho tempo de vida pra ter paciência e esperar que o branco me entenda, eu quero viver agora».
noize: e além do racismo, você teve também que enfrentar a ditadura no uruguai.
rada: sim! mas era tão ignorante a polícia do uruguai. eu havia gravado uma canção que dizia: «si te gusta comer manzanas/ son más frescas por la mañana» [«se você gosta de comer maçãs/ são mais frescas pela manhã»]. então eu era muito conhecido como um homem divertido. e aí nós vínhamos em um táxi, cinco pessoas, e os militares nos pararam. e eu havia gravado com totem: «dedos son dedos, días son días/ madres son madres, hijos son crías/los pensamientos son todos míos/ pero mi lengua ya no es tan mía» [«dedos são dedos, dias são dias/ mães são mães, filhos são crias/ os pensamentos são todos meus/ mas minha língua já não é tão minha»]. porque você não podia falar. mas eles não entendiam essa letra, eles pensavam que o rada era um negrinho que cantava «las manzanas». «ah, vocês estão com o negro rada! canta pra mim!», e nos deixaram passar. mas eu era de esquerda, estava contra eles. apesar de que eles mataram muita gente de esquerda, eu pensava que os comunistas eram inteligentes, por isso que [os militares] iam e queimavam os livros, os quadros e tudo da gente. eles não eram bobos, sabiam que havia gente capaz. e bom, assim foi sempre. foi duro chegar aos 80 anos. e agora todo mundo me quer, todo mundo me respeita. mas politicamente sempre estou do lado do povo. sempre.
noize: e como você vê a ascensão da extrema direita no uruguai e aqui no brasil?
rada: bom, eu não gosto, mas não posso falar mais nada. porque, quando você fala fora do país, eu jamais falo «eles, os uruguaios». não, eu falo «nós, os uruguaios». eu sou culpado de tudo o que acontece no meu país, de mau e de bom. então, eu não gosto, mas tampouco saio apontando dedos, nada disso [«antes de apontar o dedo para alguém, lembre-se de que três dedos apontam para você»]. eu luto com a cultura.
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