domingo, 27 de setembro de 2026


mora na filosofia 
(para matheus valente)

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«a felicidade mora ao lado
e quem não é tolo pode ver»

o sal da terra

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ao vento

meses atrás, no café, vivi me contou sobre uma colega que lê todos os dias passagens da bíblia, numa versão moderna, com linguagem atual, na qual a autora sempre termina o trecho com a frase: «quero ser luz e sal da terra».

— não sei por que ela escreve «sal da terra» se é «sol da terra» — diz a colega para a vivi.

— tu nunca ouviste esse termo «sal da terra»? — pergunta vivi.

vivi, então, explica para ela o significado de «sal da terra».

— que lindo! — diz ela.

vivi saiu para a cidade, foi trabalhar, e eu fiquei aqui com mais uma história para contar.

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anda, quero te dizer nenhum segredo
falo nesse chão da nossa casa
vem que tá na hora de arrumar
tempo, quero viver mais duzentos anos
quero não ferir meu semelhante
nem por isso quero me ferir
vamos precisar de todo mundo
pra banir do mundo a opressão
para construir a vida nova
vamos precisar de muito amor
a felicidade mora ao lado
e quem não é tolo pode ver

👇

(contos da lua vaga, 1981)

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«caminhante, não há caminho
faz-se caminho andando»

cantares

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um rio que não para de cantar 

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lindo cerro colorado,
cerro de piedras pintadas.
alguna vez volveré
por tus senderos de cabras.

la guitarra bajo el poncho
y una tonada sencilla.
siempre juntos, como viven
la piedra y la doradilla.

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 alemania occidental por swf badén- badén + macondo film 
gmbh + alfredo troncoso west deutscher fresen kóln 
dirección: josé montes baquer 
música: atahualpa yupanqui 
año: 1985
(parte 1 de 4 )

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corre o vento, o rio, velho músico, segue andando, andando...

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ismaco
no fio dos cumes, caiu a tarde. as sombras vão devorando os detalhes, mas sobre a linha dos cerros distantes desenham-se ainda as claridades.
os jovens as olham e tecem desejos e quimeras; os velhos averiguam nelas o tempo que fará amanhã.
pouco a pouco o campo vai se povoando de estremecimentos. insinua-se a sinfonia do ocaso, com um adágio a cargo dos violinos invisíveis do pajonal; em seguida, a melodia se firma na flauta dos grilos que dialogam com o rumor dos matos.
os algarrobos querem fazer seu canto na viração, e as nuvens se detêm por um momento a escutar.
o rio, velho músico, segue andando, andando...

cerro bayo, novela de atahualpa yupanqui, p. 9

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a estrada
hoje estou no oregon, deixando portland para trás e viajando rumo ao sudoeste, atravessando verdes escuros e cinzas suaves e nevoentos no meu agradável casulo de ruídos de ônibus, na direção dos morros e vales amplos e suaves do norte da califórnia. sei exatamente onde estou, claro. neste país, são as árvores que te contam.

minha mente divaga, se detém num problema que estou tendo com a banda na performance de «rusty cage», a canção do soundgarden que gravei para o álbum «unchained»; depois volto a refletir sobre a história da minha vida. penso em pete barnhill, um amigo que fiz quando tinha uns treze anos. ele tinha um violão. também tinha o que chamávamos de paralisia infantil, conhecida depois como poliomielite, que aleijou sua perna direita e encolheu o braço direito, o qual tinha quase a metade do tamanho do esquerdo. ele se adaptou bem. escrevi sobre ele no encarte do «american recordings»:

«com sua mão esquerda, ele fazia os acordes, enquanto tocava um ritmo perfeito com sua minúscula mão direita. pensei que, se pudesse tocar violão daquele jeito, algum dia cantaria no rádio.»

pete era uma inspiração em vários aspectos. eu nunca havia sido próximo de alguém que tocasse violão, com exceção da minha mãe, quando era muito pequeno. eu achava que ele era o melhor violonista do mundo. para mim ele era maravilhoso, e o som que fazia era puramente celestial.

um dia eu lhe disse: «sabe, pete, você tem paralisia infantil mas sabe tocar violão de verdade».

sua resposta me impressionou muito: «às vezes, quando você perde um dom, ganha outro».

daquele momento em diante, não pensei mais nele como um deficiente; pensava nele como alguém que tinha um dom. eu me entristecia quando os outros garotos riam de pete. eles o viam ir mancando pelos três ou quatro quilômetros que separavam sua casa da cidade e o imitavam. eu também o imitava, mas não daquele jeito: meu jeito de tocar violão vem dele, tocando a base e solando ao mesmo tempo.

pete, como eu, era louco por música — foi a primeira pessoa que eu soube que também era assim —, e nós dois éramos loucos pelo rádio. o rádio significava o mundo para nós, literalmente.

lembro-me claramente do dia em que compramos o nosso, um «sears roebuck» com uma grande bateria, encomendado pelo correio e adquirido com o dinheiro do empréstimo que papai tomou do governo no ano em que ele e roy começaram a limpar nossa terra. lembro da primeira canção que escutei, «hobo bill's last ride», de jimmie rodgers, e como a imagem de um homem morrendo sozinho num vagão congelante me pareceu tão real, tão familiar. lembro de meu pai indo para a cama todas as noites às 20h05, depois do noticiário, e gritar para mi e para jack: «ok, garotos, hora de ir para a cama! apaguem a luz! desliguem o rádio!» jack diminuía a intensidade de sua lâmpada a óleo e se debruçava sobre a bíblia. eu baixava o volume e encostava minha orelha direita no rádio. a música que ouvia se tornou a melhor coisa da minha vida.

mas meu pai não gostava nada disso. dizia: «você está perdendo seu tempo ouvindo esses discos no rádio. isso não é de verdade, sabe? essas pessoas não estão lá. é só um cara sentado tocando uns discos. por que você ouve essas coisas de mentirinha?».

eu respondia: «mas é tão real quanto foi no momento em que eles cantaram e gravaram o disco. é a mesma coisa».
«mas não é de verdade, é só um disco.»
«não importa. o som é bom. eu gosto.»
«bem, você está sendo enganado por essas pessoas», ele concluía. «isso não vai te dar um sustento. você não vai fazer nada de bom enquanto tiver essa música na cabeça.»

eu odiava ouvir isso, mas talvez tenha servido a um propósito. queria muito provar que ele estava errado. e que minha mãe estava certa. ela percebia que a música estava em mim, assim como estava nela e tinha estado em seu pai, john l. rivers, que lhe ensinou a harmonia a quatro vozes e era o cantor principal do coral da igreja. dizem que era um ótimo cantor.

lembro dele como um homem amável. ele e minha avó rivers eram almas boas, o sal da terra, muito estimados e respeitados pela comunidade.
cash - a autobiografia de johnny cash, p. 53, 54 e 55

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exceções à parte
grande parte das coisas que a maioria dos mais velhos dizem ser boas
acredito do fundo da alma que são ruins
sendo assim
não vou por aí
só vou por aqui
por onde me levam meus próprios passos
caminante, no hay camino
se hace camino al andar
mas porém, contudo, todavia
alguns acreditam que todo o terreno da vida humana já foi trilhado
há quem diga
por exemplo
que o sábio salomão prescreveu regras até para a distância entre as árvores
que hipócrates deixou instruções sobre a maneira de cortar as unhas
mas as capacidades do homem jamais foram medidas
o que se tentou até hoje foi muito pouco
só 10% de nossa cabeça animal, cantou um louco
sendo assim
eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada, cheia de dentes
esperando a morte chegar
que as pessoas sonhem, fantasiem, imaginem
a mente humana está cheia de imaginação
tente outra vez

👇

(releitura: solo fértil)

mas
como eu ia dizendo
se eu fosse contar como queria passar a minha vida alguns anos atrás eu diria apenas que
a qualquer tempo, a qualquer hora do dia e da noite, eu ansiava em penetrar na cunha do tempo; colocar-me no cruzamento de duas eternidades, o passado e o futuro, que é exatamente o momento presente
o homem não é nada mais do que faz a si próprio
és livre
escolhe
inventa
que estás aqui
que existe vida e identidade
que a potente peça prossegue
e tu podes contribuir com um verso
não digo que todos venham a entender tudo isso
mas este é o caráter daquele amanhã que o o mero decorrer do tempo jamais fará alvorecer
a luz que extingue nossos olhos é escuridão para nós
só amanhece o dia para o qual estamos despertos
o dia não cessa de amanhecer
nasce a cada amanhecer uma semente e seus frutos
o sol é apenas uma estrela da manhã

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abra os olhos aos poucos
não deve se preocupar
veja a grandiosa energia
sinta o momento para acordar
ouvindo a voz da natureza
ter a certeza que o sol vem
e ele vai brilhar

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(viver de verdade, 2021)
solo fértil [participação: enilton grill]

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e a vila do sossego?

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«vila do sossego» surgiu na casa de mesmo nome, que ficava no bairro de manaíra, em joão pessoa, próximo à praia. ela ficava em uma rua de terra batida - que hoje já está asfaltada, e mudou tanto que eu nem sequer consigo lembrar da casa, quando passo por lá. isso foi em 1974. a casa pertencia a uma tia minha, a tetê, que a liberou para que eu passasse uma temporada por lá. foi na época em que eu vim pela primeira vez ao rio, quando realizei, junto com o geraldinho azevedo, um show no teatro opinião, chamado "sopa de morcego na boca do rock". o show começava à meia-noite, e obviamente foi um fracasso total - quem viria à meia-noite ver dois caras completamente desconhecidos? de qualquer maneira, foi meu pontapé inicial aqui no rio... quando retornei a joão pessoa, já tinha um repertório montado. na época eu só tocava rock e blues. aí resolvemos montar o show por lá também. tínhamos o argumento de já tê-lo apresentado no rio... meu primeiro filho, o cristian, era recém-nascido. bem, com a casa na mão, nós nos instalamos. eu era totalmente crazy, hippie, desembestado. a vila do sossego foi muito importante para mim. logo que mudamos eu coloquei uma plaquinha de isopor na entrada, escrito «vila do sossego», que se tornou um point entre os malucos que faziam parte de minha turma. eram rapazes e moças que «puxavam» um fumo, universitários, artistas, pessoas que procuravam um papo mais inteligente, distante das conversas sobre novela e futebol. obviamente, o clima era meio «riponga»; a casa não tinha móveis, eram almofadas espalhadas pelo chão, ouvia-se música o dia inteiro, etc. ali foram realizadas muitas cantorias de violeiros. foi durante esse período que eu mergulhei na literatura. lia muito, sem parar, e dessas leituras é que surgiu a inspiração para compor a música. a letra de «vila do sossego» é quase toda ela baseada nos títulos e trechos de livros que eu estava lendo. por exemplo, havia acabado de ler papillon, e me referi a isso.
zé ramalho, o poeta dos abismos, p. 177

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ó, eu não sei se eram os antigos que diziam
em seus papiros, papillon já me dizia
que nas torturas toda carne se trai
e normalmente, comumente, fatalmente, felizmente
displicentemente, o nervo se contrai
com precisão

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(zé ramalho, 1978)

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falando em papillon, o livro:
«je ne regrette rien. j'ai vécu des mois de liberté absolue... j'ai connu l'amour pur et l'amizade sincère.» (tradução livre: «não me arrependo de nada. vivi meses de liberdade absoluta... conheci o amor puro e a amizade sincera.»)
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falando em amizade sincera...
o que é um amigo?
um amigo...
«muitas vezes "um” não sabe quem é…»
de acordo com atahualpa yupanqui, é «um mesmo com outra pele»

👇


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falando em amigo
escreveu sobre mim
nos meus 50
um que hoje faz 32

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«já tive cabelo raspado
deixei crescer depois de conhecer um cabeludo que havia chegado
já fui colorado
acoampanhei os jogos com meu pai, minha irmã e meu cunhado
.
escutava de tudo sem entender quase nada
se hoje escuto chico, caetano, gil, león, dylan e atahualpa
escuto e compreendo por causa desse cara:
enilton grill, todos os américas juntos aqu no sul do brasil
.
50 anos de um jovem latino-americano
50 anos de sonhos sonhados, realizados
e continuemos sonhando
50 anos de meu cunhado hermano
.
"todos hablan de su pago
como si fuera el mejor.
mi querencia es el caamino
bajo la luna y el sol"

atahualpa
.
caminhando por esse brasil
pra lá e prá cá, histórias mil
até que chegou por aqui, se aquerenciou
e para minha irmã deu o sobrenome grill
.
"pa versiar, yo necesito
cancha libre y atención.
corro de un solo tirón
montao en mis sentimientos
lo que mme falta de aliento
me suebra de corazón"

atahualpa
.
coração caminante
coração gigante
corazón hecho de poesia
coração de pura essência e alegria
.
"la tierra es toda cantares
como pasto van brotando
tu te pones a escucharla
y ella te los va dictando"

atahualpa
.
escutando a terra, escutando a vida
aprendeu lições que não passaram despercebias
escutou com atenção, guardou tudo no coração
dos cantares de la tierra, ouvi uma cançãao
uma música que me trouxe um irmão
à terra e à vida eus sou grato
por ter me dado um irmão, um amigo, juntos
no meu cunhado

dale cunhado!»

matheus valente

♦

somos todos irmãos da lua
moramos na mesma rua
bebemos no mesmo copo
a mesma bebida crua
o caminho já não é novo
por ele é que passa o povo
farinha do mesmo saco
galinha do mesmo ovo
mas nada é melhor que a água
a terra é a mãe de todos
o ar é que toca o homem
e o homem maneja o fogo
e o homem possui a fala
e a fala edifica o canto
no canto repousa a alma
da alma depende a calma
e a calma é irmã do simples
e o simples resolve tudo
mas tudo na vida às vezes
consiste em não se ter nada

👇

(cantigas de abraçar, 1982)

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fotos: vivi valente

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quinta-feira, 24 de setembro de 2026


paiol de pólvora

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«em momentos de extremo perigo é fácil potencializar os estímulos morais; para manter sua vigência, é necessário o desenvolvimento de uma consciência em que os valores adquiram categorias novas. a sociedade em seu conjunto deve se converter em uma gigantesca escola»
ernesto guevara de la serna

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«pelos meus cálculos, os que dizem que todo poder corrompe, não se manifestam com muita clareza. o conceito, tão antigo, e tantas vezes injustamente utilizado, merece alguns reparos.
imaginemos se, ao contrário do estabelecido, quanto mais alto fosse um cargo, menos regalias e menor fosse o soldo. mais responsabilidade se desse ao ocupante e, numa razão inversa, aumentassem os sacrifícios. quantos se candidatariam ao poder, nessas circunstâncias?
alguma coisa me diz que corrompemos o poder quando fizemos dele um prêmio, de tal forma disputado, que, comumente, chega a envergonhar a própria espécie humana.
tudo por causa de indivíduos que não se enxergam em seus tamanhos.»
deogar soares | voo livre, p. 80 e 81

♦

vote lula 2026

quando o cenário político eleitoral colocou frente a frente lula e brizola, eu escolhi lula. nunca votei em outro candidato para presidente que não fosse lula. não seria agora que o faria.

minha declaração de voto, no entanto, nesse momento é totalmente irrelevante. escrevo para uma bolha cada vez menor, conheço pessoalmente a maioria dos meus leitores e sei que a minha opinião sobre essas eleições não interfere de forma alguma no voto de quem quer que seja.

enfim, escrever para poucos me permite ser autêntico. aconteça o que acontecer, doa a quem doer, não mudo uma vírgula do que penso sobre democracia brasileira, eleições, lula e o pt.

sendo assim
em posição de enfrentamento aos padrões atuais
que impõem textos pequenos e sucintos
escrevi um textão
quem achar grande demais
e não quiser ler até o fim
fique à vontade
sei como é
na teoria
criticam-se os textos superficiais
mas
na prática
sujeita-se às regras do jogo
falando em jogo
jogo é o mesmo que eleição
falando em eleição
devo esclarecer que não sou candidato a nada
mas vamos à lógica petista e lulista de ser
segundo seus fiéis seguidores
tudo de bom que foi feito
entre 2002 e 2016
foi devido às grandes qualidades de lula, de dilma e do pt
e tudo o que não se pôde fazer
e o que de ruim se fez
foi por culpa da grande mídia e do sistema
bem
que me desculpem
os meus amigos petistas e lulistas
mas não penso assim
penso que quase tudo de bom
que o pt, lula e dilma fizeram
poderiam e deveriam ter feito melhor
e praticamente tudo de ruim que foi feito
na minha opinião
se explica mais pelos erros do pt
do que pelo sistema como ele é
não que o sistema não seja responsável pelas coisas como elas são
claro que é
mas
lembremos o velho ditado popular
diga-me com quem andas e te direi quem és
e o velho ditado romano
à mulher de césar não basta ser honesta precisa parecer honesta
noutras palavras
pompéia pode ou não ter traído césar mas os rumores precisam ser considerados
ou seja
parecer pode ser mais importante do que ser
a honestidade só é um valor se for publicamente reconhecida
quanto à corrupção
tema em questão nessa e em todas as eleições
gostaríamos
claro
que
nos governos do pt
a corrupção tivesse acabado
mas basta olhar para os lados
pra ver que ela não é uma questão de partido nem de estado
aliás
o «combate» à corrupção
por parte da mídia e das elites brasileiras
é mais forte em alguns períodos da história política brasileira
vide
vargas
jango
brizola
lula
dilma
talvez fosse interessante a esse monte de
paladinos da moral e dos bons costumes
se perguntarem assim
já me utilizei de benefícios sem merecê-los?
já pedi para o meu filho, menor de idade, comprar cerveja no bar da esquina?
já dirigi acima da velocidade permitida?
já bebi e dirigi?
já dirigi falando ao celular?
já ultrapassei em local proibido?
já entreguei a direção do meu carro ao meu filho menor de idade e/ou inabilitado?
já tentei enganar o imposto de renda?
já furei fila?
já isso e já aquilo?
já, claro que já
ah, vão se catar
a quem vocês pensam enganar?
pobres coitados
vocês às vezes me dão vontade de rir
outras de chorar
em suma
a corrupção
obviamente
não nasceu com o pt
ela não é culpa do pt
quem se lembra das promessas de fhc em 1994?
e da distribuição de concessões para rádios e tvs?
e de quanto custou rachar o pmdb?
delfim neto era feliz e não sabia?
quando?
nos tempos da ditadura?
quem se lembra do escândalo da mandioca?
e da coroa-brastel?
e de angra 1?
e de angra 2?
e dos poços do inocêncio (sic)?
todos sabemos sobre o aeroporto
mas nem todos sobre o mineirão
e menos ainda sobre a rádio arco-íris
e sobre o mensalão tucano
quem de nós sabe que aécio recebeu R$ 110 mil de marcos valério
e R$ 5,5 milhões da lista de furnas?
brasileiro é caipira?
aposentado é vagabundo?
brasileiro sabe votar?
ora, por favor, quem vai votar em dórias, moros e bolsonaros
vai votar literalmente em qualquer coisa
menos contra a corrupção
caros amigos e amigas
a corrupção é tão antiga quanto as sociedades humanas
lembram-se dos 30 dinheiros que judas iscariotes recebeu das autoridades romanas para revelar o paradeiro de jesus cristo? então, no renascimento, o grande foco de corrupção era o papado. alguém já ouviu falar da família bórgia? a família bórgia era a família do papa alexandre vi (1492-1503). pois não é que esta «santa criatura» transferiu dos cofres da santa sé para a sua família imensas fortunas. que pecado! teria ele caído em tentação ou cometido corrupção?
«não há santos vivos»
aliás
com relação a quem é santo
ou não
vou aproveitar para esclarecer uma questão
viva a revolução
mas não é porque fidel morreu
que vou considerá-lo santo
santo
pra mim
só tem dois
um é san ernesto
o outro é san deogar
por quê?
porque ambos disseram não a um sistema que funciona com base na corrupção
contudo
para que não recaiam dúvidas sobre o que estou dizendo
vou procurar ser mais claro
considero lula
dilma
olívio
tarso
marroni
ivan
e jurandir
---todos, junto com deogar, candidatos que ajudei a eleger com meu voto ---
pessoas da mais absoluta dignidade honradez e probidade
não me arrependo de nenhum dos meus votos
muito pelo contrário
tenho o máximo orgulho das escolhas que fiz
aliás
diga-se de passagem
sou bastante exigente na hora de dar meu voto
eu não voto em quem idolatra torturador
eu não voto em quem fala que o erro da ditadura foi ter matado pouco
eu não voto em quem diz que preferia ver o filho morto do que sendo gay
eu não voto em quem diz abertamente que é contra a democracia
eu não voto em golpista
eu não voto em arrependidos de plantão
eu não voto em traidor
eu não voto em quem fugiu pra paris
e mais uma lista de aberrações
que são tantas que não dá nem pra listar
é conveniente
nessas circunstâncias
que busquemos na etimologia
o significado das palavras
candidato
por exemplo
é uma palavra que
desgastada pelo uso
traz em si uma verdade que vale a pena recuperar
velas, candidatos, inocência
acendalha, acender, candeeiro, candeia, candelabro, candelária, candente, candial, candidato, candura, encandear, incandescente, incêndio, incenso, recender, sândalo
difícil imaginar uma relação entre assuntos tão díspares, não?
pois aqui está mais uma das surpresas da etimologia:
todos eles se combinam com o sentido de palavras pertencentes a um mesmo grupo
senão vejamos
o indo-europeu tinha uma palavra, kand-, «brilhar, emitir luz», ela viria a ser cand, em sânscrito, com o mesmo sentido.
em grego passaria a formar a palavra kandaros, «carvão», já que ele emite luz e calor quando aceso.
o latim usaria essa raiz no verbo candere, «ser brilhante, branco, queimar», que nos deu grande número de verbetes.
CANDEIA – pouco usado entre nós, é o mesmo que «vela» (a de acender, não a de barco).
em espanhol se usa candela, exatamente como se dizia em latim para «vela, tocha».
os gregos parece que não tinham palavra para isso, pois não usavam essa forma de iluminar. eles se ajeitavam muito bem usando lamparinas a óleo.
as velas eram já conhecidas dos etruscos e dos romanos, no entanto, eram uma forma de levar o óleo em forma sólida, sem derramar, isto era uma grande vantagem para o transporte comercial, pois se deixava de depender das ânforas, que podiam se quebrar. atualmente, candela é usada em nosso idioma como unidade técnica de medida de intensidade luminosa.
CANDELÁRIA – é uma festa católica com velas ou tochas, em honra à purificação da virgem maria. é nome de igrejas, bairros e cidades em nosso país. em inglês, a festa tem um nome com a mesma origem, candlemass, «a missa das velas».
CANDELABRO – do latim candelabrum, «candelabro», objeto onde são colocadas várias velas de uma vez. hoje são apenas elementos decorativos em nossas casas, mas houve época em que eles eram uma das poucas maneiras de se ter um mínimo de luz dentro de casa à noite.
CANDEEIRO – deriva de candela e designa uma lâmpada de óleo ou, modernamente, um artefato para iluminar, como lâmpadas de rua ou de interior de casas.
INCANDESCENTE – do latim incandescere, «estar em brasa, estar pegando fogo», seja descrevendo uma situação física, seja uma disposição sentimental. é melhor não chegar perto demais do que está incandescente, alguém pode se queimar, por dentro ou por fora.
CANDENTE – tem o mesmo significado da palavra acima, porém com um uso mais poético: «minh'alma candente por ti se abrasa, por teu sono vela», dirá um poeta apaixonado, merecendo a resposta «pare de escrever bobagens».
CANDURA – da noção visual de «branco, luminoso», por extensão se pensa na metáfora moral de «pureza, ausência de má intenção, inocência».
CANDIDATO – os romanos distinguiam entre dois tipos de branco:
o branco comum era chamado albus. em roma havia tábuas branqueadas com gesso colocadas em lugares públicos. nelas eram escritos os editos dos pretores, determinações do sumo pontífice e outras manifestações de interesse público.
na forma neutra, album, chegou até os nossos dias, designando um suporte físico para colocação de recortes, fotografias, etc.
com as fotos digitais, parece que os álbuns estão com os dias contados. eles passarão a fazer parte da memória dos computadores.
mas havia o candidus, o branco brilhante, o branco aquele de propaganda de sabão em pó. quando uma pessoa desejava assumir um cargo público, passava a vestir uma túnica branca. se o povo achasse que ela não tinha condições para tal cargo, encarregava-se de atirar sujeira nessas vestes, de modo a mostrar que o assim chamado candidatus era desagradável a um grande número de pessoas. uma lavanderia destinada a limpar togas brancas de candidatos faria um dinheirão em certos países, se essa instituição voltasse.
CANDIAL – esta sim é pouco conhecida. designa um tipo de trigo duro, trigo candeal em espanhol...
– mas o que diachos tem trigo a ver com o assunto?, – pensarão muitas pessoas.
– muito – dizemos nós. esse trigo dava uma farinha muito branca; em razão disso, recebeu um nome que lembra claridade. e há mais um fato inteligente: este tipo de trigo se chamava milium em latim, derivado de mille, «mil», por ter numerosos grãos na espiga. tal nome foi aplicado depois a outra planta, uma gramínea levada pelos conquistadores espanhóis para a europa, que viria a ter o nome científico de zea mays e que virou o atual milho.
o verbo candere, «queimar», formou, para efeitos de composição de palavras derivadas, o sufixo cendere.
entre estas, encontramos:
ACENDER – a mais óbvia, querendo dizer «colocar fogo, incendiar», de ad-, «junto», com candere. daí temos também o acendedor que nos ajuda a fazer a chama do gás em nossos fogões.
INCÊNDIO – do latim incendium, «fogo, calamidade, conflagração», formado por in-, «em», mais candere, ou seja, «colocar fogo em».
INCENSO – do latim incensum, «aquilo que queima». entre os povos antigos existia a noção de que os sacrifícios feitos aos deuses deviam ser queimados para que o cheiro da oferta chegasse às suas narinas, no olimpo ou onde quer que estivessem. este era um ato feito per fumum, «através do fumo, da fumaça», o que originou o nosso perfume.
RECENDER – falando em perfume… este verbo, que significa «espalhar um cheiro», vem de re-, intensificativo, mais candere, tudo o que é queimado lança algum tipo de cheiro no ar, resultado da volatilização de seus componentes.
SÂNDALO – pelo visto, está difícil sair do assunto dos perfumes. o nome desta madeira aromática passou pelo latim sandalum, pelo grego santalon, pelo persa sandal, desde o sânscrito candana-m, nome dado à árvore que produz esta madeira, significando «madeira para queimar e perfumar». este nome veio direto de candrah, «brilhante, luminoso», com a mesma origem de candere.
existe um antigo ditado pacifista que diz «sê como o sândalo, que perfuma o machado que o fere». bonito, para quem consegue. e mais bonito ainda para o machado…
ACENDALHA – outra palavra de pouco uso, pelo menos no brasil. refere-se ao material (folhas secas, gravetos, palha) de fácil combustão a ser usado para começar um fogo.
não custa lembrar que
folha seca
graveto
e palha
atrapalham o nascimento
e o crescimento de folhas verdes
resumindo
candidato vem do latim candidatus
isto é
vestido de branco
(candidus)
na antiguidade
aquele que disputava um cargo público e precisava angariar votos vestia-se de branco para simbolizar sua pureza
e aqui caímos num dilema
«não há santos vivos»
e se não há santos vivos
não há CANDIDATOS
só vejo uma saída
então
ressuscitar san ernesto e san deogar
mas
como não acredito em milagres
a única saída que vejo
é jogar tudo pelos ares

grill

♦

estamos trancados no paiol de pólvora
paralisados no paiol de pólvora
olhos vendados no paiol de pólvora
dentes cerrados no paiol de pólvora
só tem entrada no paiol de pólvora
ninguém diz nada no paiol de pólvora
ninguém se encara no paiol de pólvora
só se enche a cara no paiol de pólvora
mulher e homem no paiol de pólvora
ninguém tem nome no paiol de pólvora
o azar é sorte no paiol de pólvora
a vida é morte no paiol de pólvora
são tudo flores no paiol de pólvora
tv a cores no paiol de pólvora
tomem lugares no paiol de pólvora
vai pelos ares o paiol de pólvora

clique no título para ouvir

(vinicius & toquinho, 1973)

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quarta-feira, 23 de setembro de 2026


bruce 77
[na estrada do deserto de nevada] 

♦

meu pai
na minha cidade quando atravessávamos as portas de um bar, entrávamos no reino místico dos homens. nas raras noites em que minha mãe ia procurar meu pai na rua, percorríamos a cidade devagar até parar junto à única porta que ainda estava iluminada. ela apontava e me dizia: «vá lá dentro buscar seu pai.» da minha altura, via apenas o banco e, depois, o rosto, ligeiramente pálido e deformado pelo álcool, me observando em meio à fumaça do tabaco, ao me ouvir pronunciar aquelas palavras já tão conhecidas: «a mamãe quer que você vá para casa.» ele dizia apenas: «vá indo que eu já vou.» então eu saía do bar, ia em direção ao carro e me sentava no banco de trás, dizendo à minha mãe: «ele já vem.»

meu pai não gostava muito de mim. quando era criança, achava que os homens eram assim mesmo, distantes, incomunicáveis, sempre ocupados com o que acontecia no mundo dos adultos. se não falam conosco, é porque não merecemos que nos dediquem esse tempo. se não nos cumprimentam com amor e afeto, é porque não merecemos. se somos ignorados, é porque não existimos. controlar nosso comportamento é a única carta que temos na mão na esperança de modificar o deles. talvez tenhamos que ser mais duros, mais fortes, mais atléticos, mais espertos, melhores em qualquer coisa... quem sabe? certa vez, uma noite, meu pai quis me dar aula de boxe na sala de estar. eu me senti lisonjeado e animado com a atenção dele e queria muito aprender. tudo corria bem. até que ele me deu uns tapas no rosto, com a mão bem aberta e com mais força. doeu. não ficou marcado, mas um limite tinha sido ultrapassado. sabia que ele estava querendo me dizer alguma coisa. tínhamos escorregado para a obscura terra de ninguém entre pai e filho. senti o que ele queria me dizer: eu era um intruso, um desconhecido, um adversário dentro de nossa casa, uma decepção medonha. fiquei com o coração partido e caí sentado no chão. ele foi embora com nojo de mim.
bruce springsteen | born to run - autobiografia, p. 39.

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ontem à noite sonhei que era criança lá onde os pinheiros crescem bravos e altos
eu tentava voltar para casa através da floresta antes que a escuridão caísse 
ouvi o vento sussurrando pelas árvores e vozes fantasmas surgindo dos campos 
corri com o coração martelando por aquele caminho quebrado 
com o diabo mordendo meus calcanhares 
cruzei as árvores e ali na noite 
a casa do meu pai se erguia brilhando forte e clara 
os galhos e espinhos rasgaram minhas roupas e arranharam meus braços 
mas corri até cair tremendo nos braços dele 
acordei e imaginei que as coisas duras que nos separaram 
nunca mais senhor iriam nos arrancar do coração um do outro 
me vesti e fui até aquela casa 
lá da estrada eu podia ver suas janelas brilhando em luz 
subi os degraus e fiquei na varanda 
uma mulher que eu não reconheci veio e falou comigo por uma porta na corrente 
contei minha história e por quem eu tinha vindo 
ela disse sinto muito meu filho mas ninguém com esse nome mora mais aqui 
a casa do meu pai brilha forte e clara 
ela se ergue como um farol me chamando na noite 
chamando e chamando tão fria e sozinha 
brilhando através desta estrada escura onde nossos pecados jazem sem perdão

clique no título para ver e ouvir
[legendado em espanhol]

nebraska, 1982

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eu tinha uma idade dentro da idade,
uma claridade
que ignorava a escuridão nas coisas.

tudo chegava inteiro.
o céu sem dolo,
a tarde com os dedos sujos de luz,
as pessoas coincidentes com o que diziam.

era estúpida de um modo magnífico.

cria no gesto,
na palavra recém-nascida,
na mão estendida
sem prever o que uma mão faz
quando aprende a fechar.

depois veio a lucidez,
doença cara,
hóspede nos olhos.

passei a desconfiar da fruta antes do gosto,
da carícia antes da pele,
da alegria antes que manchasse o próprio nome.

tudo ganhou forro,
uma película escura sob o visível.

vi o mecanismo
onde antes só havia forma.

tenho saudade daquela idiota.

não da idade,
nem das fotografias,
mas da ignorância feroz
que deixava tocar
sem cobrar o preço depois.

luxo em não compreender.

não sabia das facas invisíveis nas mãos,
das palavras que já nascem com veneno,
da ternura com pontaria de armadilha.

não sabia.
por isso fui feliz sem notar.

agora conheço o avesso.

vejo a fissura antes da queda,
a podridão antes da polpa,
o cálculo no fundo do sorriso.

minha lucidez é ave de rapina,
circula,
desce sobre cada gesto
e arranca o que deveria ficar inteiro.

penso naquela garota
sem ternura,
com inveja.

ela ainda acreditava que céu era céu,
que uma palavra podia ser só uma palavra,
que tocar não era também ferir.

daria tudo para ter de volta
aquela ignorância.

tudo, menos o que precisei perder
para perdê-la.

o obsceno é que
aquela garota continua viva,
num lugar
onde minha lucidez não entra,
de mãos abertas
diante de um mundo que agora me dá nojo tocar.

simone bacelar

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conheci uma garota e fomos dar uma volta
eu tinha dezenove anos e ela dezesseis
nós passeamos pelas cidades de nebraska
e quando nossa viagem terminou, dez pessoas estavam mortas
pegue sua arma e venha comigo
vamos dar uma volta pelo estado de iowa
vou encostar o carro no acostamento
e ver as luzes da cidade brilhando no parabrisa
lá no lincoln county, eles fecharam a estrada
eles me cercaram com a sirene aberta
eles me tiraram do meu carro e me jogaram no chão
e me disseram que eu não iria a lugar nenhum
eles me perguntaram por que fiz o que fiz
disseram que meu trabalho não trouxe nada além de dor
mas acho que há apenas um vazio no meu peito
um vazio que nada consegue preencher
eles me levaram para para a cadeia e me amarraram na cadeira elétrica
puseram uma fita na minha boca e me colocaram para dormir
quando o xerife puxar a alavanca e minha alma for embora
você pode garantir que minha garota vá sentar no meu colo?
eles querem saber por que eu fiz o que fiz
eles querem saber por que matei aquelas pessoas
bem, senhor, acho que não sei o que dizer,
não sei como explicar
acho que há muita maldade neste mundo
acho que a maldade está no ar

clique no título para ouvir

nebraska, 1982

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foto: ansel adams
road, nevada desert, 1960

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#casadosaedos
#américas

terça-feira, 22 de setembro de 2026


sol de primavera

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o vento

espalha as sementes, conduz as nuvens, desafia os navegantes.
às vezes limpa o ar, e às vezes suja.
às vezes aproxima o que está distante, e às vezes afasta o que está perto.
é invisível e é intocável.
acaricia você, golpeia você.
dizem que ele diz:
— eu sopro onde quiser.
sua voz sussurra ou ruge, mas não se entende o que diz.
anuncia o que virá?
na china, os que preveem o tempo são chamados de espelhos do vento.

eduardo galeano | o caçador de histórias, p. 6

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o super el niño de 2026
as previsões sobre o «super el niño» que deve acontecer neste ano de 2026 são alarmantes. os impactos dessa anomalia são diversos, tanto para a natureza como para nós, seres humanos.

o «el niño» mais intenso registrado foi ocorreu entre 1877 e 1878, quando comparado com o «super el niño» de 2026 é possível destacar a intensidade do evento esperado ainda para este ano.
brasil
quando falamos de um país que tem porte de continente, os impactos são dos mais diversos e vão variar de acordo com a região. enquanto norte e nordeste apresentam queda na precipitação, intensificando períodos de seca, incêndios florestais e escassez de recursos hídricos, no sul e sudeste o volume de chuvas aumenta favorecendo enchentes, deslizamentos e transbordamentos de rios. aqui entram dois pontos em que o ser humano pode ser responsabilizado dentro desse contexto emergencial.

o primeiro é o estado de vulnerabilidade em que a amazônia se encontra para encarar esse fenômeno. as árvores da floresta amazônica são responsáveis por liberar quantidades massivas de umidade em formato de vapor, processo chamado de «rios voadores». por meio deste, são formadas as chuvas que irão cair em diferentes áreas do país, como no sudeste, onde enchem as represas que garantem luz na grande são paulo.

o segundo ponto fica muito claro quando pensamos na tragédia como a que ocorreu no estado do rio grande do sul no ano de 2024. a previsão desses eventos climáticos extremos chega com meses de antecedência, e ainda sim a política insiste em gastar mais para arrumar depois do impacto do que antes para prevenir este. despreparo é diferente de acidente, e os prejudicados são muitos.

em anos de «super el niño», ou seja, quando esse fenômeno chega com muita intensidade, os impactos tendem a ser ainda mais severos, especialmente somados aos efeitos da atividade humana, ampliando a vulnerabilidade de milhões de pessoas em todo o mundo. os efeitos devem chegar ao seu pico entre outubro e o início do próximo ano, mas vale destacar que o aquecimento pode perdurar por meses, influenciando o mundo inteiro.

clique no título para ler a matéria na íntegra 

o super el niño de 2026 

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temporal atinge pelotas

jornal do comércio, 22 de setembro de 2026

o balanço preliminar da defesa civil estadual registrou 336.151 pessoas afetadas em pelotas, o maior número registrado entre os municípios no período. o levantamento aponta ainda uma morte e dois estabelecimentos públicos afetados. os números são preliminares e podem ser atualizados conforme avançar o levantamento dos danos.

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vai chuva
hoje o céu está tão lindo (vai chuva)
hoje o céu está tão lindo (vai chuva, é primavera)
hoje o céu está tão lindo (vai chuva, é primavera)
hoje o céu está tão lindo (vai chuva, é primavera)
hoje o céu está tão lindo (vai chuva)

tim maia

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por gabi mazza

estamos todos exaustos. sem romantizar ou dramatizar. viver no rio grande do sul virou um enorme desafio. parece episódio de reality de sobrevivência.

por aqui a resiliência entrou na reserva. a paciência no modo avião. a esperança insiste em segurar na mão. e não é filme da pixar. retrato de uma realidade nada «divertidamente».

dia 6 de agosto vivemos um ciclone em pelotas. na madrugada de ontem, algo ainda inominável. não deu nem tempo de respirar. consertar os estragos de agosto.

o que foi aquilo?

vivemos longos minutos de terror. em menos de uma hora o caos. uma cidade virou do avesso. atingidos ou não, todos perdemos. um teto que desaba tem mil significados.

foram vários estragos. as ruas da nossa encantadora satolep sacudidas. e nessas horas a gente diz um pro outro: «que bom que ninguém se machucou». é uma verdade. mas também um consolo. Porque dói demais. pra onde se olhar, um estrago.

em algumas semanas os entulhos serão recolhidos. mas e depois? que horizonte é esse que se avizinha. será um novo normal? se vai ser assim daqui pra frente, a gente precisa conversar muito sobre isso. sobre essa angústia que virou sombra.

porque a mudança exige esforço coletivo. exatamente o que o mundo provou que não tem. universo de disputas egocêntricas. de homens minúsculos, com poderes maiusculos. negacionismo cruel.

eu não quero ser a pesada da vez. logo hoje. não é o esperado de quem escreve poeticamente. mas o recado aqui talvez seja pra gente se olhar. de perto e de longe. Nas nossas vulnerabilidades. e nas dos outros.

a primavera começa hoje, às 21h05. olhando essa terça-feira cinzenta, me ocorreu escrever. continuo sem luz. real e metaforicamente. como muitos ao redor. mesmo que não digam.

por isso lembrei de sugerir. quando tu andar por aí, não economiza. naquela palavra boa ou no possível abraço. estamos todos exaustos. sim. mas estamos de pé. e amanhã já é primavera.
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já choramos muito
muitos se perderam no caminho
mesmo assim, não custa inventar
uma nova canção que venha trazer

sol de primavera
abre as janelas do meu peito
a lição sabemos de cor
só nos resta aprender

clique no título para ouvir

(beto guedes, 1979)

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