terça-feira, 6 de outubro de 2026

 

ogodô ano 2000

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grandes horizontes
na escola da ponte não há programas. isso não quer dizer que a aprendizagem aconteça ao sabor dos desejos das crianças. imagine um homem do campo, que só conheça as comidas mais simples: polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne. imagine que ele venha à cidade e seja levado por um amigo a um restaurante. «que é que o senhor deseja?», lhe perguntaria o garçom. ele certamente responderia falando de polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne, pois esse é o seu repertório de pratos. aí, o amigo lhe diria: «quero sugerir que você experimente uns pratos diferentes.» assim acontece na relação entre professores e alunos. os professores sabem mais. é por isso que são professores. e uma de suas tarefas é «seduzir» as crianças para coisas que elas ainda não experimentaram. eles lhes apontam coisas que nunca viram e as introduzem num mundo desconhecido de arte, literatura, música, natureza, lugares, história, costumes, ciências, matemática. «a primeira tarefa da educação é ensinar a ver», dizia o filósofo nietzsche. não é obrigatório que elas gostem do que vêem. mas é importante que seus horizontes se alarguem.
rubem alves

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eu já fui rebelde. mas eu aprendi. então, por favor, cresça!»
lula

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1992

o sistema é cruel, injusto e desumano
para que uns poucos se deem bem
a imensa maioria tem que se dar mal
quem vê de fora
não entende como isso se dá
talvez seja difícil de entender
mas é fácil de explicar
junte a ganância de uns
com a ignorância de outros
e misture bem
até crescer
quando a massa estiver
veja bem
com a aparência de uma manada pastando conformada
leve ao forno a uma temperatura tropical e deixe assando por 500 anos
no final
terá um país rico por fora
e pobre por dentro

grill

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eram só três caravelas e valeram mais que um mar quanto aos índios que mataram ah! ninguém pôde contar quando esses homens fizeram o mundo novo e bem maior por onde andavam nossos deuses com seus andes, seu condor?

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(belchior, 1993)

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«no crezca mi niño, no crezca jamás
los grandes al mundo le hacen mucho mal
el hombre ambiciona cada día más
y pierde el camino por querer volar»

facundo cabral

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anos 90

por eduardo galeano
a injustiça, motor de todas as rebeliões que ocorreram na história, não só não diminuiu no século 20, como multiplicou-se até extremos que nos pareceriam incríveis se não estivéssemos adestrados para aceitá-la como costume e obedecê-la como destino. mas o poder não ignora que a injustiça está se tornando cada vez mais injusta e que o perigo está se tornando cada vez mais perigoso.

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e então? vencemos o crime?
já ninguém mais nos oprime
pastores, pais, lei e algoz?
que bom voltar pra família!
viver a vidinha à pilha!
yuppies sabor baunilha
era uma vez todos nós! 

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(elogio da loucura, 1988)

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passaram-se os anos, o século vinte está morrendo. que mundo ele nos deixa? um mundo sem alma, desalmado, que pratica a superstição das máquinas e a idolatria das armas: um mundo ao avesso, com a esquerda à direita, o umbigo nas costas e a cabeça nos pés.

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nos anos da guerra fria, cada metade do mundo podia encontrar na outra metade as justificativas de seus crimes e de seus horrores cada um dizia ser melhor, porque a outra era pior. hoje (final dos 90), subitamente órfão do inimigo, o capitalismo celebra sua hegemonia e dela usa e abusa sem limites. mas certos sinais indicam que começa a se assustar de seus próprios atos. descobre, então, a dimensão social da economia, como um exorcismo contra os demônios da ira popular. o capitalismo tinha resolvido chamar-se economia de mercado, mas agora tornou mais abrangene o apelido e viaja aos países pobres com um passaporte onde figura seu novo nome completo: economia social de mercado.
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ôôô ogodô ogodô ogodô, ogodô ogodô ôôô ogodô ogodô ogodô ogodô ogodô ttalac-tac-tac-tac tamborim teleco-teco-teco-teco violão toloc-toc-toc-toc agogô tô-lôc-tô twenty 00, twenty 00 a ciência excitada fará o sinal da cruz e acenderemos fogueiras para apreciar a lâmpada elétrica. the science in her trance will make the sign of cross and we will light bonfires to appreciate the eletric bulb. talac-tac… ogodô…

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(the hips of tradition, 1992)

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o pirulito da ciência

por enilton grill
a  «economia social de mercado» à brasileira é uma obra de arte da conciliação: o mercado fica com o lucro, o social fica com a contaminação, e a ciência fica chupando o pirulito.

a receita é simples e foi votada no congresso nacional. o presidente lula (pt) até tentou colocar um verniz de bom comportamento com 14 vetos à flexibilização dos agrotóxicos. mas no teatro da governabilidade, a bancada ruralista deu o veredito e derrubou tudo. o «rei da soja» passou a coroa para o ministério da agricultura, que agora é quem manda no balanço das substâncias. anvisa e ibama, coitados, foram rebaixados a meros espectadores de bula.

é o «capitalismo humanizado» em sua potência máxima: as exportações batem recordes na faria lima, o plano safra injeta bilhões no latifúndio, e o povo ganha o direito constitucional de consumir, em média, algumas gramas de glifosato por refeição. tudo estritamente regulado pelas forças da oferta e da demanda de oxigênio.

diante do absurdo de ver substâncias cancerígenas proibidas no exterior virarem tempero nacional, os pesquisadores da fiocruz — que ainda insistem na mania de estudar dados — soltaram a pergunta definitiva, aquela que deveria estar em um refrão de tom zé:

«a ciência está errada e o agro está certo?»
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falando em tom zé

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✍️ texto de guto ruocco

(via #repost @tomzeoficial)
tom zé mal começou o show e já estava saudando a saga do reitor edgar santos da universidade federal da bahia que deu ao alemão koellreutter plenos poderes para organizar a renomada escola de música da ufba, que o formou, além de toda uma geração de artistas contemporâneos da melhor música brasileira. depois citou paulo freire e a triste confusão do oprimido que conquista direitos e se torna opressor quando a educação não é transformadora antes de interpretar «esquerda, grana e direita».

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quando um trabalhador cresce na sociedade
e tem oportunidade de ser protagonista da história
ele pratica o método do opressor
porque foi o único método que aprendeu
então ele só sabe agir como o opressor

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(vira lata na via láctea, 2014)

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depois, emendou seus clássicos, alguns urrados por uma plateia ávida de canção inteligente e coragem artística. terminou o show saculejando o decadente teatro municipal «caindo aos pedaços» de mococa para forrozear ao som de xique-xique e com a plateia hipnotizada pelo amor e pela generosidade de tom zé. o artista de irará mostrou aos 82 anos que continua com vitalidade do menino tropicalista que mantém a sua mensagem política-libertária nos cascos. obrigado, te amo.

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 eu vi o cego dando nó cego na cobra
vi cego preso na gaiola da visão
pássaro preto voando pra muito longe
e a cabra cega enxergando a escuridão

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(com defeito de fabricação, 1998)

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#lula2026

segunda-feira, 5 de outubro de 2026


como nossos pais

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os filhos
pena
herdaram dos pais
o extintor de incêndio
e o medo do poema

grill

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«os jovens de todas as épocas e de todos os países sempre se entusiasmaram com as grandes idéias de transformação, eram revolucionários, mas se mantinham dentro do famoso esquema "todos nascemos incendiários e morremos bombeiros".»
umberto eco

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ocaso

o caso
se o caso é chorar
choremos com tom zé
(no jardim da política)

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rádio brasil de fato
1 de setembro de 2018
brasil de fato: como surgiu a ideia de fazer o álbum «no jardim da política», em 1984?

tom zé: foi um momento em que os militares tinham compreendido que era necessário sair do poder, porque o exército sempre teve um cuidado com a sua decência moral. eles perceberam que a corrupção estava em toda parte, roendo as expectativas e o próprio exército. «no jardim da política» surge nesse período. a música «classe operária» é um banho, um «reductio ad absurdum» (do latim, redução ao absurdo). vou dizer algo tão absurdo que você vai perceber que estou falando ao contrário. «sobe no palco o cantor engajado tom zé, que vai falar dos operários, tratar dos operários, mas não há nenhum operário no palco. mas tom zé e seus amigos sabem o que é bom para os operários». qualquer pessoa de raciocínio médio vai dizer «como esse cara é louco, como a gente é metido besta, pensando que vai resolver o problema dos operários sem consultá-lo». pois teve amigo meu engajado politicamente que virou a cara pra mim. e no jardim da política tem «marcha partido», «dólar» e «vá tomar»: «meta sua grandeza no banco da esquina/ vá tomar no verbo seu filho da letra/ meta sua moral, regras e regulamentos, escritórios e gravatas, sua sessão solene/ pegue junte tudo, passe vaselina, enfie só que meta, no tanque de gasolina». isso é fazer política ou não é? era o que nós podíamos falar porque a censura havia afrouxado um pouco.

brasil de fato: ainda que sem intencionalidade, esse álbum reflete o posicionamento esperado pelo público de um artista sobre determinado momento político?

tom zé: eu fiz várias canções sobre o cenário que se tinha durante a ditadura. tem aquela que diz assim: «todo compositor brasileiro é um complexado, porque então essa mania de falar tão sério, de sorrir tão sério, de trepar tão sério! ah, meu deus, vá ser sério assim no inferno». essa música está no álbum «todos os olhos», de 1973. me inspirei no general ernesto geisel e na fala dele sobre termos uma «democracia relativa», além de falar sobre a liberdade que buscávamos. «a liberdade é uma graça, todo dia se decifra, todo dia se disfarça…» era uma informação comprimida, uma bomba comprimida.

brasil de fato: sobre a atualidade, como você tem visto o cenário político do brasil?

tom zé: o brasil é comandado por grupos que têm interesses particulares. é por isso que não se pode eleger ninguém que está na câmara dos deputados ou no senado. temos que eleger outras pessoas e tentar algo diferente. nós estamos com o país atravancado por interesses pessoais, então é preciso eleger um governo completamente novo. temos um presidente da república que, para se manter no poder, distribuiu uma fortuna a deputados para não ser processado. hoje estou com 81 anos, mas um dia tive 17, e tive que procurar esperança na música, no livro, na escola. os meninos de hoje podem procurar esperança em algum lugar?
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e diante desta contradição ideológica
te ofereço a rosa comemorativa
desta tua democracia relativa.

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se continuarem assim,
todos os operários vão ser demitidos,
talvez até presos,
porque ficam atrapalhando
tom zé e o seu público, que estão cuidando
do paraíso da classe operária.

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(tom zé, 1984)

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«música de protesto é um método jesuítico, como o que (o educador) paulo freire chama de "hospedar o opressor". eu faço "classe operária" como se fosse o opressor hospedado no cantor»
tom zé

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falando em paulo freire

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✍️ texto de guto ruocco
(via #repost @tomzeoficial)
tom zé mal começou o show e já estava saudando a saga do reitor edgar santos da universidade federal da bahia que deu ao alemão koellreutter plenos poderes para organizar a renomada escola de música da ufba, que o formou, além de toda uma geração de artistas contemporâneos da melhor música brasileira. depois citou paulo freire e a triste confusão do oprimido que conquista direitos e se torna opressor quando a educação não é transformadora antes de interpretar «esquerda, grana e direita».

depois, emendou seus clássicos, alguns urrados por uma plateia ávida de canção inteligente e coragem artística. terminou o show saculejando o decadente teatro municipal «caindo aos pedaços» de mococa para forrozear ao som de xique-xique e com a plateia hipnotizada pelo amor e pela generosidade de tom zé. o artista de irará mostrou aos 82 anos que continua com vitalidade do menino tropicalista que mantém a sua mensagem política-libertária nos cascos. obrigado, te amo.
#reposttomzé
#repostgutoruocco

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de volta ao ocaso

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se o caso é chorar
te faço chorar
se o caso é sofrer
eu posso morrer de amor.

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tom zé, 1972

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#alutacontinua
#nãopassarão
#venceremos

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#lula2026

domingo, 4 de outubro de 2026


semiótica

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«seja eu amanhã. porque eu já fui você ontem. eu já fui rebelde. mas eu aprendi. então, por favor, cresça!»
lula, flow podcast, quinta-feira, 1º de outubro de 2026

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já chorei sentido
de desilusão
hoje estou crescido
já não choro não

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(chico buarque do brasil, 1971)

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meu refrão
foi ouvindo chico buarque que aprendi «gente humilde» foi ouvindo chico buarque que aprendi a ser cidadão foi ouvindo chico buarque que aprendi o «meu refrão» foi ouvindo chico buarque que aprendi a ser sem patrão
grill

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o refrão que eu faço
é pra você saber
que eu não vou dar braço
pra ninguém torcer
deixa de feitiço
que eu não mudo não
pois eu sou sem compromisso
sem relógio e sem patrão

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(chico, 1965)

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#lula2026

sexta-feira, 2 de outubro de 2026


domingo no parque

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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lula ontem no flow sobre a juventude:
«eu tenho 5 filhos. eu sei que a juventude é muito rebelde. tem o cara com 16 anos, 17 anos... não acredita em nada, xinga todo mundo, todo mundo é ladrão, ninguém presta. é por isso que o bolsonaro cresceu. porque a ignorância leva a gente à fazer coisas erradas. o país não tem saída se a gente não investir em educação, e não tem saída se você não acreditar nisso. eu já fui você ontem, eu já fui rebelde.» 
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clique no link abaixo
para ver e ouvir trecho na íntegra

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(pt do piauí 13)

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segundo entendi
para lula
que tem cinco filhos
que diz já ter sido rebelde
que traz como exemplo de rebelde
jovens que não acreditam em nada
que xingam todo mundo
que chamam todo mundo de ladrão
ser rebelde é ser ignorante

pra mim
tá tudo explicado
não precisava dizer mais nada

mas vou dizer
como um rebelde que sempre gostou de ler, estudar, debater e conversar sobre política, o atual momento me deixa particularmente mais rebelde. não há nada nem ninguém que se salve. é só estupidez como arma e ignorância como orgulho. eu continuo na luta, esperneando não sei por quê. o rebelde que lula diz ter sido devo ser eu.
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sobre a ignorância
a ignorância se refere à falta de conhecimento. a palavra ignorante descreve o estado de consciência de quem desconhece fatos importantes — ou de quem, deliberadamente, os ignora ou desconsidera.

a ignorância manifesta-se em três tipos: factual (ausência de conhecimento de algum fato), objetual (desconhecimento de algum objeto) e técnica (ausência do conhecimento de como fazer alguma coisa).

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três exemplos 

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golpe
no 8 de janeiro, diante do caos em brasília, lula esteve prestes a aceitar a sugestão de decretar a garantia da lei e da ordem (glo), cedendo a uma medida que entregaria a segurança federal ao comando militar — exatamente o objetivo dos golpistas.

o erro só foi evitado pela intervenção direta e enfática da primeira-dama, janja. com preparatório técnico na escola superior de guerra e participação nas equipes de transição, ela alertou imediatamente: «glo não, glo é golpe». a análise fundamentada de janja sobre segurança nacional foi decisiva para que lula recuasse, rejeitasse a tutela militar e optasse pela intervenção civil no distrito federal.
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bets
no flow podcast, igor perguntou por que lula tomou a decisão de restringir as bets faltando poucos dias para as eleições. lula respondeu que não tinha noção da gravidade do problema e que, ao conversar com as pessoas, percebeu que era urgente agir.
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feminicídio
no mesmo podcast, lula agradeceu publicamente à primeira-dama por alertá-lo com insistência sobre a gravidade da violência contra a mulher no país. ele afirmou que, se não fosse pelo aviso dela, poderia ter se limitado a emitir apenas uma nota de solidariedade institucional em vez de articular ações governamentais concretas.
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antes do fim eu queria deixar um recado para o presidente lula

meu caro presidente lula

apesar dos pesares eu espero que a maioria do povo brasileiro faça como eu e vote em você

porque ao contrário de você eu continuo rebelde

um rebelde que não precisa que ninguém lhe diga que ninguém lhe lembre que ninguém lhe alerte de que o que está em jogo nestas eleições é o pouco que ainda nos resta de democracia e soberania

e de que mesmo que você ganhe — tomara que ganhe — se depender de você do congresso e do povo brasileiro (que você, em anos de governo, só fez despolitizar) não sei quanto tempo essa democracia ainda vai durar

e para ela durar não esqueçamos de votar

ponto
nova linha

tava assistindo ontem o flow
quando no final
lula faz essa declaração
«o político honesto que você quer, está dentro de você, cara. ao invés de você ficar protestando, entra na política. seja candidato a alguma coisa. participe de um partido político. participe da comunidade do seu bairro. não fique paralisado, não fique achando que ninguém presta. SEJA EU AMANHÃ. PORQUE EU JÁ FUI VOCÊ ONTEM.»

nesse momento
não pude não lembrar de deogar
«o velho» era um homem honesto
dos mais honestos que conheci
era um homem de partido
seu partido era o pt
«o velho» era um animal político
se candidatou a vereador
se elegeu
foi um excelente vereador
mas
por alguma razão
disse não à reeleição

segundo li por aí
o jornalista e radialista deogar soares decidiu não concorrer à reeleição para o cargo de vereador em pelotas (pleito de 2000, após o mandato conquistado em 1996) devido a uma profunda desilusão com o ambiente político. 
deogar, conhecido por sua atuação marcante na comunicação local e em programas tradicionais como o treze horas, entrou para a política institucional com um forte idealismo romântico e transformador. no entanto, conforme recordam amigos próximos e cronistas da política pelotense, ele se deparou com as barreiras e a rigidez do sistema político tradicional. 
essa experiência gerou o que seus pares descreveram como uma frustração, o que o levou a cumprir apenas um único mandato e a se afastar voluntariamente das urnas para retornar integralmente à crônica e ao jornalismo.
«o velho»
pra mim
era um mestre
«uma grande figura humana que foi também um dos maiores e melhores comunicadores que pelotas gerou. além de jornalista e radialista, deogar foi também um talentoso fotógrafo. as fotos, em preto e branco, traduziam seu mundo, de poética e rara inspiração. "o velho" – como era chamado entre amigos marcou com o seu programa na rádio alfa-fm "vôo livre". em pequenas crônicas, lidas por ele mesmo, cuja voz era sonora e bem timbrada, deogar a todos emocionava com sua verdade, ironia e transcendência. seus textos eram carnações nervosas e poéticas, traduzindo o seu e o nosso cotidiano. no fim da vida, o velho tinha no olhar emanações tristes, talvez por ter tido o impulso de mudar coisas que são imutáveis, e ele soube disso tardiamente.»
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domingo no parque

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5055 deputado federal: jurandir silva
50999 deputada estadual: fernanda miranda
500 senadora: manuela d'ávila
131 senador: paulo pimenta
12: governadora: juliana brizola
13 presidente: lula

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foto 1: deogar
nauro júnior

foto 2: enilton
vivi valente

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quinta-feira, 1 de outubro de 2026


queen jane approximately

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lula, eu te amo!

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eu te amo porque te amo.
não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
eu te amo porque te amo.
amor é estado de graça
e com amor não se paga.

carlos drumond de andrade

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a musa e o poeta

para o poeta, não importa se a musa existe ou não. o que importa é a necessidade do poeta de ter um álibi para sentir e escrever.

a musa (seja a vizinha da esquina ou um ser inventado) raramente é sobre a mulher em si; ela é um reflexo do próprio poeta, de suas dores, desejos e vazios.

para o poeta, não importa se a musa existe ou não. o que importa é a necessidade do poeta de ter um álibi para sentir e escrever.

noutras palavras, o poeta escolhe o que eternizar e o que omitir. 
ele pega a imagem de uma pessoa real e constrói sobre ela uma personalidade, uma obsessão ou uma pureza que só existem na mente dele.

exemplo clássico: dante alighieri e beatriz (ele a viu pouquíssimas vezes e quase não conversou com ela, mas a transformou no guia divino da divina comédia).

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falando em divina comédia

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ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso
eu vos direi no entanto
enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não
eu canto

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(belchior, 1978)

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ao vento

hoje em dia
toda vez que empunho a bandeira
e vou pra rua com a camiseta do lula
é no lula de 1989 que eu penso
é aqui que entra a musa inventada.
mesmo quando é de carne e osso
a musa do poeta é sempre uma reconstrução
da memória ou do desejo
amo a invenção
a verdade da origem
mas o que era
não é mais
o lula que existiu
não existe mais

grill

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e a rainha jane?

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sempre solícito, dylan disse a nora ephron (diretora de cinema, produtora, roteirista e escritora estadunidense), que «queen jane é um homem». é uma boa explicação, mesmo que a supeita óbvia, joan baez, persista.
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agora que todos os bandidos a quem você ofereceu a outra face
todos largam sua mão e reclamam
e você quer alguém com quem não precise conversar
por que não vem me ver, rainha jane?
por que não vem me ver, rainha jane?

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(bob dylan, 1965)

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«mais uma xícara de café para a estrada
mais uma xícara de café
antes de partir
para o vale profundo»

zimmerman

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#lula2026
#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quarta-feira, 30 de setembro de 2026


educação da tristeza

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

maria elizabeth gastal fassa
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«a literatura acontece em todos os sentidos e não se inibe perante verdades ou mentiras. usa tudo, como alarve sem limites senão os da sua própria imaginação, a vontade de se instalar como substututa absoluta da vida. por vezes, a literatura tange a vida como se até nós nos confundíssemos, baralhados entre o que é verdade e o que parece verdade, seguindo por vias paralelas, permitindo viver numa fantasia cujo aparato nos apetece ou mais conforta.»
valter hugo mãe 

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«a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»

manoel de barros

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por que cresceste, curuminha
assim depressa, e estabanada
saíste maquilada
dentro do meu vestido
se fosse permitido
eu revertia o tempo
pra reviver a tempo
de poder

te ver, as pernas bambas, curuminha
batendo com a moleira
te emporcalhando inteira
e eu te negar meu colo
recuperar as noites, curuminha
que atravessei em claro
ignorar teu choro
e só cuidar de mim

deixar-te arder em febre, curuminha
cinquenta graus, tossir, bater o queixo
vestir-te com desleixo
tratar uma ama-seca
quebrar tua boneca, curuminha
raspar os teus cabelos
e ir te exibindo pelos
botequins

tornar azeite o leite
do peito que mirraste
no chão que engatinhaste, salpicar
mil cacos de vidro
pelo cordão perdido
te recolher pra sempre
à escuridão do ventre, curuminha
de onde não deverias
nunca ter saído

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(chico buarque, 1979)
mônica salmaso e chico 
(ao vivo)

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eduacação da tristeza
novos anos e, afinal ainda não há colônias na lua, não se fala com extraterrestres, não temos casas que mudam de posição conforme o sol, não somos nada teletransportados.

tudo quanto nos prometeram para o já distante ano 2000 foi mentira. ao invés disso, arranjaram a internet para imitar a realidade e convidar a uma cidadania de fantasia. na fantasia final, podemos elaborar sobre a felicidade, o bem-estar, o amor correspondido.
estamos cada vez mais entregues a essa dimensão sucedânea que nos mente uma compensação que não procede. os anos parecem só ser novos nessa transferência cada vez mais intensa e trágica que fazemos do que é verdade em prol daquilo que é mentira.

aceitamos a mentira, preferimo-la, vamos concebendo sua dignidade e sua necessidade. Por causa da poesia, do que ainda há de arte, de uns poucos amigos e da possibilidade de chegarem a mais primaveras e verões, estarei invariavelmente do lado da esperança, mas convicto de que espero assuzinhado, porque me parece que menos pessoas esperam algo que não seja apenas pior, menos bom, mais difícil.»
valter hugo mãe

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ao vento

no meio do caminho tinha uma «cadeira»
tinha uma «cadeira» no meio do caminho
tinha uma «cadeira»
no meio do caminho tinha uma «cadeira»

grill

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en el borde del camino hay una silla,
(na beira do caminho há uma cadeira,)
la rapiña merodea aquel lugar.
as aves de rapina sobrevoam aquele lugar.
la casaca del amigo está tendida,
(o casaco do amigo está estendido,)
el amigo no se sienta a descansar.
(o amigo não se senta a descansar.)
sus zapatos, de gastados, son espejos
(seus sapatos, de tão gastos, são espelhos)
que le queman la garganta con el sol.
que lhe queimam a garganta com o sol.
y a través de su cansancio pasa un viejo
(e, em meio ao seu cansaço, passa um velho)
que le seca, con la sombra, el sudor.
(que lhe seca, com a sombra, o suor.)

en la punta del amor viaja el amigo,
(na ponta do amor viaja o amigo,)
en la punta más aguda que hay que ver.
(no ponto mais agudo que se pode ve.)
esa punta que lo mismo cava en tierra,
(esse ponto que tanto escava na terra
que en las ruinas, que en un rastro de mujer.
(quanto nas ruínas, quanto em um rastro de mulher.)
es por eso que es soldado y es amante,
(é por isso que é soldadado e e é amante,)
es por eso que es madera y es metal.
(é por isso que é madeira e é metal.)
es por eso que lo mismo siembra rosas,
(é por isso que tanto semeia rosas
que razones de banderas y arsenal.
quanto razões de bandeia e arsenal.)

el que tenga una canción tendrá tormenta,
(quem tiver uma canção terá tempestade,)
el que tenga compañía, soledad.
(quem tiver companhia, solidão.)
el que siga buen camino tendrá sillas
(quem seguir o caminho certo encontrará cadeiras)
peligrosas que lo inviten a parar.
(perigosas que o convidem a parar.)
pero vale la canción buena tormenta,
(mas a boa canção vale a tempestade)
y la compañía vale soledad.
(e a companhia vale a solidão.)
siempre vale la agonía de la prisa,
(sempre vale a agonia da pressa,)
aunque se llene de sillas la verdad.
(mesmo que se encha de cadeiras a verdade.)

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(silvio rodríguez, 1969)

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«a bola que lancei
quando brincava no parque
ainda não tocou o chão»

dylan thomas

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¡pero eso sí!
y en esto soy irreductible no les perdono,
bajo ningún pretexto,
que no sepan volar¡

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(sobre poemas de mario benedetti e outros)

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«penso que existo numa ideia antiga que pessoas calmíssimas terão deixado ao mundo. sou essa ideia dessas pessoas mortas e generosas. só tenho de esperar entender essa ideia. deixá-la intensa, não para saber que livro escrevo. mas para saber quem sou. e, então, escrevo.»
valter hugo mãe

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cores e valores
por josé falero

na linha pontilhada vou indo, indo, indo
na terra cujo herói matou um milhão de índios
pelas marginais os pretos agem como reis
gostar de nós, tanto faz, tanto fez
me degradar pra agradar vocês? nunca!

cores e valores, racionais mc’s

«e o recepcionista do hotel que achou que eu não era hóspede?»

recebi essa mensagem da dalva, minha namorada. não existe tom em texto. pelo escrito, eu não tinha como saber qual era o estado de espírito da dalva naquele momento. a Dalva, então, mandou mais mensagens:

«fui deixar uns livrinhos para uma leitora que vai vir buscar no hotel.»
«o recepcionista fez uma cara ruim e perguntou se a pessoa que viria pegar os livrinhos era hóspede.»
«eu disse que eu era a hóspede.»
«e ele: "ah, tu é hóspede?".»

dalva é escritora independente. e lá estava ela, num hotel em porto alegre.

recorri ao meu último lançamento em são paulo para responder à dalva. comentei que estive hospedado em um hotel tão pomposo quanto aquele e que também houve suspeitas quanto à minha condição de hóspede. três pessoas pensaram que eu estava lá para realizar algum tipo de trabalho braçal. tudo isso durante o tempo que levei para fumar um cigarro.

fui a um bar. queria ficar quieto um pouco, olhando para o nada e pensando na conversa que a gente tinha acabado de ter.

«ah, tu é hospede?»

conheço constrangimentos assim muito bem. já amarguei situações semelhantes muitas vezes desde que me tornei escritor e passei a circular por espaços que historicamente não foram reservados para pessoas como nós. em geral, porém, a verbalização involuntária do que pensam e sentem a nosso respeito não é, em si, o que mais me incomoda. tal verbalização não passa de uma pequeníssima cereja; o restante do bolo, que é tácito, me perturba muito mais. o recepcionista deixou escapulir por acidente aquilo que passou não só pela sua mente e pelo seu coração, mas pela mente e pelo coração de todos, absolutamente todos os que cruzaram com a dalva naquele hotel. todos. do funcionário ao hóspede. e esse é o problema real.

enquanto bebia a minha cerveja, lembrei de um episódio do chapolin colorado: a vendedora de flores. trata-se de uma paródia de my fair lady, que é uma adaptação da peça pigmalião, que se baseia no mito de pigmalião.

o sentido da história é a insinuação de que a expectativa que temos a respeito da realidade, antes mesmo de a realidade em si se manifestar, determina como a realidade vai se manifestar depois.

lembrei de finado neguin, do álbum cores e valores:
quem, quem permitiu?
deus dirigiu esse filme
dizem: crime é o rap
dizem: rap é o crime
dizem: rap é o crime
você diz, você decide
o resto só coincide
e aí temos tudo: como causa, a expectativa e, como efeito, a realidade. o classicismo e o racismo fazem com que o rap seja percebido antecipadamente como sinônimo de criminalidade; a mentalidade espera que a realidade coincida com a sua visão de mundo; e a realidade de fato costuma coincidir.

robert rrosenthal e lenore jacobson conduziram um estudo sobre como as expectativas afetam o desempenho e deram o nome de efeito pigmalião; já robert k. merton preferiu batizar o fenômeno de profecia auto-realizável, porque quem faz a profecia é, na verdade, quem a faz acontecer.

e no caso da dalva, também coincidiu. ciente de que não era avaliada como hóspede por ninguém naquele maldito hotel, ela não conseguiu comportar-se como tal. passou todos os dias da hospedagem encerrada no quarto. não queria ser vista por ninguém, não queria interagir com ninguém. não queria ser submetida ao constrangimento infalível que um lugar como aquele provoca em uma pessoa como ela.

mas pensar sobre essas coisas todas só me fez perceber o quanto dalva é mesmo uma figura incrível. ao longo de sua trajetória, nunca, em nenhum momento, dalva deixou de ter sobre si o peso do machismo, do racismo, do classicismo, tudo isso a esmagá-la. do que essa mulher não seria capaz em uma sociedade mais justa?

a grande sacada do episódio do chapolin colorado foi trabalhar a ideia da troca horizontal entre os participantes de um processo de transformação. no final, o homem que transformou a vendedora de flores agora fala gírias e veste-se de maneira desalinhada. por que prontamente imaginamos que, nessa troca, o homem foi prejudicado e ela beneficiada? essa é a lente do classicismo.

certa vez, dalva me disse que a minha camisa polo não tem o poder de me transformar no joão dória. a camisa depõe menos a favor da minha figura do que a minha figura contra a camisa. eu e a camisa estamos em relação, e nessa relação eu desfalco muito mais o valor simbólico da camisa do que a camisa consegue acrescentar valor simbólico a mim.

a marca da minha camisa polo depõe menos a meu favor do que eu contra ela; o hotel de luxo depõe menos a favor da dalva do que a dalva contra ele. na verdade, esse fenômeno ocorre até mesmo aqui, neste texto.

um texto escrito por mim jamais vai depor a meu favor tanto quanto eu deponho contra ele. um texto escrito por mim sempre parecerá menos bom do que realmente é, porque fui eu que o escrevi, porque o escrevi com a minha mão parda, porque o pensei com a minha cabeça mestiça, porque o construí com as minhas referências populares, porque o concebi com o ódio perpétuo dos oprimidos. sim, eu deponho contra o meu próprio texto. toda a literatura contemporânea parece menos valorosa porque uma pessoa como eu escreve e publica, porque uma pessoa como dalva escreve e publica. não acreditam que somos hóspedes? no fundo, também não podem acreditar que somos escritores.

embora, é claro, alguns saibam disfarçar melhor do que outros.
(texto escrito para a bienal do mercosul 2025)

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eu venho de um recanto escuro
o sol, luz perpendicular
do outro lado azul do muro
não vou saltar

eu chego às portas da cidade
e nada procuro fazer
espero, nem feliz nem gaia
acontecer

não salto, mas sou carregada
por asas que a gente não tem
a luz não me fulmina os olhos
nem vejo bem

em breve, só saio de noite
a lua não me rasga o peito
cool jazz me faz feliz e só
não tenho jeito

o álcool só me faz chorar
convidam-me a mudar o mundo
é fácil, nem tem que pensar
nem ver o fundo

o chão da prisão militar
meu coração, um fogareiro
foi só fazer pose e cantar
presa ao dinheiro

mas é sempre o recanto escuro
só deus sabe o duro que eu dei
mulher aos prazeres, futuro
eu me guardei

coisas sagradas permanecem
nem o demo as pode abalar
espírito é o que, enfim, resulta
de corpo, alma, feitos, cantar

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(gal, 2011)

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de volta a valter hugo mãe
(ao seu comovente livro)

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em 27 textos de não ficção, a maioria bem curtos, o autor traz reflexões íntimas e profundas sobre morte, luto, a passagem do tempo, como lidar com a presença e ausência das pessoas queridas que partem, além de filosofar sobre o sentido do amor e da vida. numa edição muito bem cuidada, em que os textos são ilustrados pelo próprio autor, na orelha do livro, os editores afirmam que «com rara autoconsciência, educação da tristeza é o cantinho escuro do quarto onde valter se sente livre para rir de si mesmo, brincar, chorar, sentir saudades e, acima de tudo, se abrir para mostrar seu lado mais humano, falível e belo justamente por ser assim».
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impossível não se comover com a profundidade das reflexões do escritor português. a morte motivou a criação deste livro, mas valter hugo procura refletir sobre como continuar a viver apesar da dor. e vê na perda da amiga e do sobrinho este ensinamento.

«estás na morte. digo que estás na morte porque sinto que é um lugar onde ainda vou chegar, quando descobrir o caminho, entender o mapa.
eu penso que a morte é um lugar por dentro de nós, um território mapeado no caminho interior que todos temos e tememos.»

«o eduardo passou mais de dois anos a ensinar a mais limpa e generosa arte de morrer. os gênios, como ele se tornou, educam até a morte, educam até deus.
o eduardo alcançou a sapiência. viu a grandeza da vida, entendeu o sentido. no tabuleiro da vida, onde se busca o sentido, ele não perdeu. ele entendeu.».
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apesar da radicalidade da perda que é a morte, as duas lições são extensíveis a tantos outros motivos de tristeza passíveis de serem erradamente interpretados com os filtros das distorções cognitivas: uma amiga que nos desilude; uma relação que termina; o retorno que (não) temos das coisas que fazemos, o qual nem sempre coincide com o tempo e o esforço que lhes dedicamos… podemos ter feito tudo o que está ao nosso alcance para evitar que estas coisas aconteçam, e mesmo assim elas acontecerem. isso não significa necessariamente, nem que tenhamos culpa, nem que só aconteça conosco, nem que nunca mais consigamos ser felizes. aceitar e reconfigurar não se trata de criar ficções a propósito das perdas e das desilusões, trata-se de não acrescentar um problema ao problema. mas o problema é que o problema insiste, persiste.
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o problema senhor
segue sendo semear amor

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(silvio rodríguez, 1991)

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vida que segue

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«não importa o que fizeram com você. o que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você»
jean-paul sartre

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cartas a théo
é verdade que ora ganhei meu pedaço de pão, ora ele me foi dado por bondade de um amigo; vivi como pude, nem bem nem mal, como dava; é verdade que perdi a confiança de muitos, é verdade que meus assuntos financeiros estão em um estado lastimável, é verdade que o futuro parece bastante sombrio, é verdade que eu poderia ter feito melhor, é verdade que eu perdi tempo quando se tratava de ganhar a vida, é verdade que meus estudos estão em um estado lamentável e desesperador, e que minhas necessidades são maiores, infinitamente maiores do que meus recursos. mas vocês chamam isso de cair, de não fazer nada?

eis como eu vejo a coisa: continuar, continuar, isso é que é necessário.
van gogh, julho de 1880

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ao vento 

a cor preferida de van gogh era o amarelo.
o que começou com pontinhos foi se tornando um grande sol.

«ponho o sol no ombro
e o mundo é amarelo».

grill

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y el señor dijo a abraham:
abandona tu tierra natal
y la casa de tu padre,
y ve al país que yo te indicaré.
haré de ti una gran nación,
te bendeciré
y por ti se bendecirán todos los pueblos de la tierra.
el señor dijo a abraham.
esa bella y sabia orden,
fue la que convenció a mi corazón
a decidir que el mundo fuese mi casa.
el mismo mundo que puso
al alcance de mi espíritu
la canción que me refleja
como ningún espejo.

no soy de aquí, ni soy de allá
no tengo edad, ni porvenir
y ser feliz es mi color de identidad.

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(facundo cabral, 1970)
introducción: poema «el caminante»

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas