quinta-feira, 2 de julho de 2026


quando nietzsche chorou

(ao pé do rádio)

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«aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.»

friedrich nietzsche. além do bem e do mal. aforismo 146 p. 69.

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corre o vento, o rio passa...

em 2007, quando cheguei a são luís, recém-saído de mais uma recaída, minha mãe e meu pai moravam num apartamento pequeno, no condomínio barra-mar. por isso, pedi para ficar na casa de minha irmã e do atual marido dela, josé lino. minha sobrinha, maria eduarda, era recém-nascida. o técnico da seleção brasileira era o dunga — dunga de ijuí — lembra, magrão? pois então... mas não é de dunga que vim lembrar. vim lembrar meu pai.

logo nos primeiros dias, fui visitar meus pais no barra-mar. havia anos que não os via. fui para charlar e lembrar como é saborosa a comida que a minha mãe faz. onze horas da manhã. bato à campainha, minha mãe atende com um sorriso e os braços abertos. eu fecho os olhos para receber aquele abraço que, mais que meu pai, só minha mãe sabe dar. ao abri-los, dou de cara com meu pai, sentado no sofá, vendo televisão. custei a reconhecer naquele homem à minha frente a figura altiva e confiante que eu guardava na memória; ver meu pai assim, estático diante da tela de uma tv, era um cenário totalmente inusitado para mim. era como se o tempo tivesse corrido rápido demais para ele.

corre o vento, o rio passa e, se alguém vier me visitar às onze da manhã ou às seis da tarde, só não me verá de pijama e assistindo à tv, pois não os tenho. nem quero.

diferente de ontem
hoje
se eu olhar para o precipício
caio e não levanto mais
os sinos que tocavam
não tocam mais
os anjos
que me habitavam
não me habitam mais
não é que perdi a esperança
perdi a velha autoconfiança
isso é ruim?
não
no momento
isso é bom pra mim
isso é tudo?
que nada
ainda ouço um chiado de rádio
no fim da estrada

grill

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corre o vento, o rio passa.
correm nuvens, nuvens correm
pela estrada que leva à minha casa.

minha casa, meu refúgio,
todos partem, eu fico
sem companheiro nem amigo.

fico contemplando
as chamas das casinhas
pelas quais vivo suspirando.

a noite chega..., o dia acaba,
os sinos tocam ao longe
o toque da «ave maria».

eles tocam para que eu reze;
rezo apenas com soluços,
afogando-me, ao que parece,
como se eles estivessem rezando por mim.

sinos de bastabales,
quando os ouço tocar,
morro de solidão.

corre o vento, o río pasa | rosalía de castro-amancio prada 1997
amancio prada · maria del mar bonet
real filharmonía de galicia

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#américas
#casadesatolep

quarta-feira, 1 de julho de 2026

 


ainda — e hasta siempre — bielsa

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«eu como técnico sou uma merda total, como marcelo bielsa, sou o homem ideal».

livre paráfrase inspirada no abraço poético de raul seixas

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«bielsa, bielsa, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele... anda pelo mundo em verdade viva... esse teu andar pela vida despido de hipocrisia... orgulha a quem sempre te admirou, pois... não é futebol, é vida mesmo...»

livre paráfrase inspirada no abraço poético de maria elizabeth gastal fassa

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*frases originais no final do post

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autocrítica e o peso da derrota

«sinto que decepcionamos os torcedores; é uma frustração enorme. minha responsabilidade é muito clara; não posso justificar a posição em que terminamos. minha gestão dos recursos não foi suficiente. claro, fizemos o nosso melhor, eu, meus colegas e os jogadores, mas não foi o bastante. estou convencido de que, se tivesse escolhido um caminho diferente, não acho que essa opção teria revertido os resultados que obtivemos.»

«este final é muito doloroso por causa das esperanças que eu tinha quando comecei este projeto e de como ele terminou mal; por causa do esforço que arrastou tantas pessoas para dentro, especialmente os jogadores, que têm uma grande capacidade de trabalho árduo. não tenho desculpa para explicar por que a equipe só conseguiu dois pontos de nove possíveis e não se classificou para a segunda fase. venho aqui e respondo, sabendo que quanto mais eu falar, pior será. a dor de uma derrota que fere o orgulho de todos, e daqueles que decepcionei, não pode ser resolvida com palavras. nem posso demonstrar o quanto estou sofrendo; essas coisas não têm solução. no entanto, tento explicar algumas das coisas que me perguntam porque a única obrigação que sinto é não dizer nada que não seja verdade. não minto nem tento esconder nada. não me acomodo no «mais mínimo». não me conformo com o «mínimo possível».

a relação com o elenco e as concessões táticas

«minha reputação é julgada exclusivamente pela minha relação com os jogadores. eles não fizeram nada para me impedir de liderá-los ou de lhes fornecer os argumentos disponíveis para que pudéssemos alcançar o resultado que merecíamos. portanto, em relação à manipulação de informações e tudo mais: nunca falei com nenhum jornalista, de qualquer nacionalidade, exceto em coletivas de imprensa. também não recorri a nenhum dirigente para intervir ou transmitir minhas necessidades aos jogadores. apenas conversei com eles, os ouvi e disse o que achei apropriado.»

«em relação aos rumores de mudança de estratégia, a resposta é não. isso não aconteceu. se tivesse acontecido, não seria bom para os jogadores. o jogo contra a espanha mostra que jogamos de acordo com as minhas ideias, que sempre foram as mesmas.»

«quanto às reuniões, sim, elas aconteceram. foram muitas, ao longo de um longo período. depois dos estados unidos, tivemos cinco charlas com os jogadores, e os pontos de descontentamento se resumiam a dois: excesso de informação e treinos separados. os jogadores sugeriram que não treinássemos em dois grupos. eu prefiro assim porque reduz o tempo de treino pela metade e me permite ver todos se expressarem, mas quando expressaram o desejo de treinar todos juntos, pareceu-me absurdo insistir numa posição que não compartilhavam. entendi que tinha que aceitar um pedido dessa natureza, pois eles queriam se sentir mais próximos, já que sempre estiveram unidos. aceitei prontamente porque o argumento deles fez sentido para mim.»

«também houve um pedido relacionado à redução das palestras. eu tenho um jeito de explicar as coisas, e eles preferiam que esse tempo fosse reduzido. analisei como resolver isso e reduzi a quantidade de informações a serem transmitidas. as palestras passaram a ser divididas em partes e nunca ultrapassaram os 10 minutos. antes da espanha, também me disseram que preferiam um intervalo porque algo os sobrecarregava mentalmente, e eu não posso ir contra isso. as concessões que fiz foram porque, se eu tivesse agido sem aceitar certos pedidos, teria sido pior. se alguém prefere o convívio e o companheirismo em vez da qualidade ou das necessidades do treinamento, é preciso aceitar o pedido. se a mensagem sobrecarrega em vez de ajudar, ela se torna um obstáculo. eu não fui arbitrário e/ou vaidoso.»

«hoje, o assessor de imprensa da auf me enviou um comentário de um ex-jogador da seleção uruguaia dizendo que era evidente em campo que o grupo e o técnico estavam divididos. eu digo que aconteceu exatamente o contrário. estávamos unidos o suficiente para correr 20% mais que a arábia saudita, 30% mais que cabo verde e 25% mais que a espanha. o comprometimento dos jogadores é evidente na dedicação deles. contra a espanha e a arábia saudita, o uruguai correu mais nos segundos tempos. tivemos uma preparação muito séria, organizada e focada.»

a refutação às críticas de desunião e os méritos

«se falarmos de méritos, eu poderia explicar por que deveríamos ter passado da fase de grupos com sete pontos. não há nenhum aspecto de uma análise séria, ponderada e bem pensada que não nos coloque vencendo a arábia e cabo verde, e empatando com a espanha. criamos cinco vezes mais perigo do que a arábia, 50% a mais do que cabo verde e a mesma quantidade que a espanha. isso não são apenas números, é uma interpretação da realidade. mas não gosto de dizer isso, porque o torcedor ouve e diz: "continue falando, tudo o que você diz é inútil, porque você não conquistou o que deveria." essa tristeza sentida por todos os torcedores de futebol é o peso, é o fardo que tenho que carregar. e vale muito mais do que vocês podem imaginar.»

o caso muslera e sua relação com valverde

«vou contar algo que diz muito sobre a grandeza de muslera. na véspera da partida, ele teve febre de 38,1 graus. eu sabia disso. no dia do jogo, ele não tinha febre, nenhum sintoma, nenhum problema físico e estava absolutamente pronto para jogar. nunca tive um jogador que pedisse para ser substituído por causa do impacto emocional de erros passados. muslera me disse — algo que talvez eu esteja mencionando de forma imprudente, mas que vale a pena dizer porque diz muito sobre ele — que estava tão afetado pelo erro que havia cometido, sem dúvida ligado a situações anteriores, que preferiu pedir para sair porque as chances da equipe ainda estavam intactas e ele não estava em sua melhor forma. considero isso um ato de extraordinária grandeza.»

«de forma alguma acredito que expus valverde ao substituí-lo contra a espanha. nunca tive nenhum problema com ele. é um jogador que disputa um número incrível de partidas por ano e nunca fiz tantas concessões a um jogador quanto a ele; acredito que ele merece tudo isso. no início das eliminatórias, disse a ele que talvez precisasse que jogasse como lateral, ponta ou meio-campista central, sua posição natural. sua resposta foi de enorme generosidade: «na posição que você precisar». depois, ele teve oportunidades em posições que não são as ideais, mas sempre demonstrei enorme respeito por ele. se existe algum conflito, desconheço a origem. eu sonhava em treinar bentancur, valverde, darwin e araujo, e depois conheci outro grupo de jogadores que valorizei muito. de qualquer forma, considero insuficiente a forma como lidei com os jogadores que recebi para a copa do mundo».

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antes do fim

«eu não sou louco, o mundo que não entende minha lucidez.»

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clique nos links abaixo



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ah! mas que sujeito chato sou eu
que não acha nada engraçado
macaco, praia, carro, jornal, tobogã
eu acho tudo isso um saco

ouro de tolo | raul seixas (1973)
(ilustrado e legendado)

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frases originais (epígrafe)


«eu como marido sou uma merda total, como raul seixas, sou o homem ideal».

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

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#américas

terça-feira, 30 de junho de 2026

 


canção de mim mesmo

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«se um homem marcha com um passo diferente do dos seus
companheiros, é porque ouve outro tambor.»

henry david thoreau

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«quem não se encaixa no mundo
está mais perto de encontrar a si mesmo.»

herman hesse

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«o que aconteceu com kafka é o mesmo que aconteceu comigo: ele se isolou profundamente na solidão e sabia — ou devia saber — que ninguém retorna de lá.»

alejandra pizarnik

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«há uma falha, uma falha em tudo
é assim que a luz entra.»

leonard cohen

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like a rolling stone

em 1989, saí de são luís rumo a brasília para participar do 2º flaac (festival latino-americano de arte e cultura). a ideia era voltar de onde havia saído. mas tudo muda. em vez de subir de volta, resolvi seguir em frente. quando vi, estava em satolep, batendo na campainha do apartamento da minha avó.

a intenção era passar uma, duas semanas no máximo. mas tudo muda. o que era para durar duas semanas já soma quase quatro décadas. também pudera... logo nos primeiros dias, fui apresentado por minha prima a uma amiga dela. foi amor à primeira vista, daqueles de santos que não batem. eu dizia preto, ela, branco; eu, sal, ela, doce. eu queria uma coisa; ela, outra. rio e mar, tal para qual. a nossa história seguiu o único rumo possível: fomos morar juntos, em uma trajetória marcada por uma intensa relação de altos e baixos --- de altos não tão altos e baixos muito baixos.

um deles, em 1992, me levou a uma internação numa clínica para desintoxicação. lembro como se fosse hoje: foram trinta dias, que pareceram trinta séculos. não deu outra: logo que saí, recaí.

como uma pedra a rolar, sem ter mais para onde ir, fui pedir abrigo no apartamento da minha irmã. na época ela estava casada com o bruno e grávida da natalia (nati grill), de quem sou padrinho. um padrinho ausente, é verdade, mas padrinho.

«a rosa também se muda
do campo para o deserto
de longe também se ama
quem não pode amar de perto»

o passo seguinte estava escrito: trabalhar com o bruno na canal de propaganda. comecei a frequentar o aa, me recuperei e me mudei do apartamento da minha irmã para a sede da empresa. tinha, na época, as mesmas coisas que tenho hoje: livros, discos e uma história para contar e ser contada. isso é tudo? que nada. ainda há luz no fim da estrada.

grill

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o amigo enilton

por adriano barboza


novo ensaio de A NOZ [mundo]

«o amigo enilton» é um ensaio que entrelaça memória, amizade e cultura latino-americana para homenagear enilton grill júnior, refletindo sobre o sentido da comunicação, da criação e dos vínculos que permanecem vivos através do tempo. a publicação apresenta ainda um texto de uma publicação recente no qual o autor convidado amplia o diálogo entre diferentes formas de pensar, escrever e habitar a américa latina.

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caçador de mim

algumas canções soam como confissões que tentam atravessar o silêncio interior. caçador de mim é uma delas --- é a jornada de autoconhecimento, a tentativa de se encontrar em meio a incertezas e ao fluxo da vida.

a canção é um reflexo da busca incessante pelo eu, da consciência de que a vida muitas vezes nos empurra por caminhos tortuosos, e que a identidade se constrói na luta constante com nossos próprios medos, anseios e memórias.

em caçador de mim, cada acorde e cada nota vocal é uma jornada pelo próprio coração: a música nos lembra que a busca por nós mesmos é inevitável, que a solidão pode ser tanto revelação quanto companhia, e que, no meio do silêncio interior, podemos ouvir a verdade de quem realmente somos.

berg vasconcelos

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por tanto amor, por tanta emoção,
a vida me fez assim.
doce ou atroz, manso ou feroz,
eu, caçador de mim.

preso a canções,
entregue a paixões
que nunca tiveram fim.
vou me encontrar
longe do meu lugar,
eu, caçador de mim.

nada a temer senão o correr da luta.
nada a fazer senão esquecer o medo, medo!
abrir o peito à força, numa procura,
fugir às armadilhas da mata escura.

longe se vai, sonhando demais...
mas onde se chega assim?
vou descobrir o que me faz sentir
eu, caçador de mim.

caçador de mim | sérgio magrão / luiz carlos sá (1981)
(tambores de minas)
milton nascimento com fabiano medeiros e fábio tavares.

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#américas
#casadesatolep
#salacheguevara

domingo, 28 de junho de 2026

 


a democracia é uma ilusão

(chomsky que o diga)

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le monde diplomatique — toda vez que perguntamos a uma estrela do jornalismo ou a um apresentador de grande jornal da televisão se ele sofre pressões ou é censurado, a resposta é invariavelmente «não». o jornalista diz que é totalmente livre, que somente expressa suas próprias convicções. conhecemos bem os mecanismos de dominação ideológica das ditaduras. mas como funciona o controle do pensamento em uma sociedade democrática?

chomsky — quando os jornalistas são questionados, eles respondem de fato: «nenhuma pressão é feita sobre mim, escrevo o que quero». e isso é verdade. apenas deveríamos acrescentar que, se eles assumissem posições contrárias à norma dominante, não escreveriam mais seus editoriais. não se trata de uma regra absoluta, é claro. eu mesmo sou publicado pela mídia norte-americana. os estados unidos não são um país totalitário. mas ninguém que não satisfaça exigências mínimas terá chance de chegar à posição de comentarista respeitável. essa é, aliás, uma das grandes diferenças entre o sistema de propaganda de um estado totalitário e a maneira de agir das sociedades democráticas. com certo exagero, nos países totalitários, o estado decide a linha a ser seguida e todos devem se conformar. as sociedades democráticas funcionam de outra forma: a linha jamais é anunciada como tal; ela é subliminar. realizamos, de certa forma, uma «lavagem cerebral em liberdade». na grande mídia, mesmo os debates apaixonados se situam na esfera dos parâmetros implicitamente consentidos – o que mantém na marginalidade muitos pontos de vista contrários.

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de chomsky a althusser

«o caráter politicamente sombrio da teoria de althusser é evidente em sua própria concepção de como o sujeito emerge no ser. ser "sujeitificado" é ser "sujeitado": tornamo-nos sujeitos humanos "livres", "autônomos", justamente submetendo-nos obedientemente ao sujeito, ou lei. assim que "internalizamos" essa lei, começamos a agir espontânea e inquestionavelmente. vamos para o trabalho "por nossa conta", e é essa lamentável condição que reconhecemos erroneamente como liberdade.»

de althusser a espinosa

«nas palavras do filósofo que se encontra por trás de toda a obra de althusser – baruch espinosa – homens e mulheres "lutam por sua escravidão como se estivessem lutando por sua liberdade".»

de espinosa a freud

«o modelo por trás desse argumento é a sujeição do ego freudiano ao superego, fonte de toda a consciência e autoridade. a liberdade e a autonomia, então, parecem ser meras ilusões: significam simplesmente que a lei está tão profundamente inscrita em nós, tão intimamente de acordo com nosso desejo, que a consideramos erradamente como nossa própria livre iniciativa. mas esse é apenas um lado da narrativa freudiana. para freud, como veremos depois, o ego se rebelará contra seu senhor autoritário se suas exigências tornarem-se insuportáveis; e o equivalente político desse momento seria a insurreição ou a revolução. a liberdade, em resumo, pode transgredir a própria lei da qual é efeito.»

de volta a althusser

«mas althusser sustenta um silêncio sintomático a respeito desse corolário mais esperançoso de seu argumento. para ele, a própria subjetividade parece ser apenas uma forma de autoencarceramento, e a questão quanto à origem da resistência política deve, assim, permanecer obscura.»

eagleton, terry. ideologia: uma introdução: são paulo: boitempo, 2019, pp. 161-2

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resumindo: «ninguém é livre, até os pássaros estão presos ao céu.»

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você pode ser rei no país do futebol
pode ser viciado em bingo e nunca ver a luz do sol
você pode ser um mago e vender livros de montão
pode ser uma socialite, enriquecer vendendo pão

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

pode ser incendiário e fazer um índio arder
você pode ser o índio vendo a chama acender
pode ser um bom ladrão, pode ser um mau juiz
pode ter um passado limpo, pode ter uma cicatriz

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode estar na mídia sem saber porque
você pode ser dono de uma rede de tv
você pode dar o fora tendo tudo pra ficar
adotar um nome diferente, você pode mesmo se isolar

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode trabalhar na construção civil
pode estar desempregado, com a vida por um fio
você pode ter poder, fazer coisas que ninguém fizer
pode ter mulheres numa jaula, pode ter as drogas que quiser

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode desejar a cura com lacan
você pode procurar os serviços de um xamã
você pode ser um pregador, chutar os santos do altar
você pode ter um bom discurso, você pode nem saber falar

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode ser demente, pode ser doutor
você pode ser sincero, pode ter rancor
você pode ser um crente, você pode ser ateu
pode ser um leitor vaidoso ou uma miss que nunca leu

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode ser turco, pode ser nissei
pode estar ali na esquina, estar onde jamais pensei
você pode me adular, você pode me esquecer
você pode estar me ouvindo agora, você pode mesmo nem saber

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

gotta serve somebody | bob dylan, 1979

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versão vitor ramil [part: lenine]

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antes do fim

avançar em relação aos sistema atual,
colocar isso como perspectiva,
me parece ser condição fundamental
para o que quer que se faça
ou se imagine fazer

grill

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mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

one more cup of coffe (valley bellow) | bob dylan, 1975
[legendado em português]

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chove em satolep
bom domingo

sábado, 27 de junho de 2026

 


com «el loco»

(até o fim)

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«o que eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem eu devo ao futebol»

albert camus

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«aprendi que a bola nunca vem por onde esperamos que ela venha. isso me ajudou muito na vida»

(idem)

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– quem estará nas trincheiras ao teu lado?
– e isso importa?
– mais do que a própria guerra.

ernest hemingway

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bielsa e os justos

por enilton grill

a história trabalhou meticulosamente para «apequenar» a biografia futebolística de bielsa.

poucos títulos em uma longa carreira como treinador e três experiências decepcionantes em copas do mundo à frente de uma seleção.

em duas delas, foi eliminado em fases de grupos relativamente fáceis, mesmo comandando boas equipes. com o chile, conseguiu avançar, mas encontrou o algoz, o brasil.

em relação à atuação mais recente, muitas coisas podem ser ditas: por que muslera no time titular? mas pergunto: o reserva rochet é hoje um goleiro confiável?

outras coisas são certas, não questionáveis: o uruguai foi o protagonista e merecia mais em todas as três partidas (com exceção do primeiro tempo contra a arábia saudita e a espanha).

a pressão, no final das duas primeiras partidas, foi de tirar o fôlego, finalmente combinando a intensidade de bielsa com a garra charrua.

basta de acusadores! bielsa não precisa de difamadores, nem de detratores; ele se conhece bem: uma pessoa enigmática, que pode até ser «tóxica» para as equipes — ele mesmo disse isso recentemente — e que não é exatamente amigável com a «sagrada» e «invicta» imprensa esportiva.

mas aqueles que o acompanham — eu o acompanho há bastante tempo — também sabem que ele é capaz de extrair a essência de seus jogadores, que revolucionou vidas, clubes e torcedores para sempre.

se nós, que admiramos bielsa — eu o admiro muito —, precisássemos de troféus para perpetuar esse respeito, já estaríamos trilhando um caminho diferente.

é por isso que ainda estamos aqui, dando mais uma vez a cara a tapa, ao lado dos que estão sós, porque dizer a verdade em campo e diante dos microfones vale muito mais do que o mercado acredita nestes tempos inacreditáveis.

borges, em um poema sublime, diz que existem pessoas que, com pequenos gestos, tornam este mundo mais suportável, mais «habitável». marcelo bielsa, em seu «azedume», é uma delas.

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ainda bielsa

por esteban bekerman

outro problema com bielsa — e nenhum dos meus colegas menciona isso — é que ele sabe que muitos jornalistas (muitos mesmo) não têm o vocabulário dele, o que é extremamente grave quando se trata de profissionais da comunicação. portanto, é compreensível que ele tenda a generalizar, demonstrando desprezo por seus interlocutores e, muitas vezes, respondendo de forma "telegráfica" quando participa de uma coletiva de imprensa ou concede uma entrevista. da minha parte, eu jamais o criticaria por sua maneira de falar. pelo contrário, eu usaria sua verborragia característica a meu favor... e se ele me desse uma resposta ruim — só então — eu retrucaria. o problema é que hoje em dia os entrevistadores geralmente fazem perguntas apenas para agradar aos entrevistados, sem ouvir ou acompanhar as respostas impossibilitando assim uma conversa coerente. e dessa forma, você não pode esperar reciprocidade de alguém como bielsa. da minha parte, sempre houve essa reciprocidade quando ele era o técnico do vélez e eu era responsável pelos canais de mídia oficiais do clube. seria muita ingratidão da minha parte não dizer isso. a nobreza me obriga.

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quando nasci veio um anjo safado
o chato dum querubim
e decretou que eu tava predestinado
a ser errado assim
já de saída a minha estrada entortou
mas vou até o fim

até o fim | chico buarque (1978)
palavra-chave: craque
dvd futebol

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#vivaelloco
#américas

sexta-feira, 26 de junho de 2026

 


aos times pequenos

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges | pequenos poemas viúvos | p. 49.

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«ya no hay locos, ya no hay locos
ya no hay locos, amigos ya no hay locos.
todo el mundo está cuerdo
terrible, horriblemente cuerdo.»

león felipe

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«sou uma grande fonte de tensão. quando chego, o ambiente fica tenso. é por isso que não apareço com frequência. sou tóxico. estar perto de mim piora a pessoa ao meu redor. vejo isso como um karma, e esse comportamento é baseado no medo. você teme perder muito mais do que gosta de ganhar. então, essa obsessão está na busca por maneiras de evitar a derrota. gostaria de viver o completo oposto do que vivo, como menotti ou cruyff, grandes tipos "irresponsáveis". esses são os tipos de pessoas que merecem aplausos.»

marcelo bielsa

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«o homem está sempre pronto para distorcer o que dizem os seus sentidos»

dostoiévski

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quarta-feira

a náusea: essa evidência ofuscante?
existo – o mundo existe –, e sei que o mundo existe.
isso é tudo. mas tanto faz para mim.

é estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta.
gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência
de minha existência, de dormir.

mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim
por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca...

e subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi.
a náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a náusea sou eu.

jean-paul sartre | a náusea, p. 146, 147.

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de volta a marcelo bielsa
(comentários no face sobre sua reflexão)
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«não se vê um mínimo de resultado no trabalho dele. o time do uruguai é um amontoado sem padrão tático e joga um futebol em ritmo de 1950.»
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«sublime!! não para todos!!»
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«é capaz de virar presidente com esse discurso. aconteceu aqui.»
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«gosto que, depois de 25 anos, ele mesmo concorde comigo. ele é tóxico, incontrolável, repetitivo e obsessivo, e não aceita que um jogador questione seu pensamento.»
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«ó, vitimista! nesse caso, o karma acaba sendo dos outros, que têm de aturá-lo.»
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«nossa! que confissão; uma reflexão tão profunda. não é para o jogador de futebol comum.»
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«a questão é que bielsa acaba se tornando cansativo e exaustivo. porque ele é como ele mesmo se descreve: obsessivo ao ponto da exaustão. bielsa extrai o melhor de cada jogador e os faz acreditar em coisas que nem sabiam que podiam fazer ou alcançar. para mim, ele é um gênio e, como tal, incompreendido.»
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«eles o chamam de "o louco" por um motivo. só os loucos ousam falar a verdade, especialmente sobre sua profissão. poucos ousam admitir publicamente suas falhas.
ele é um homem transparente, tão transparente que até expõe suas próprias fraquezas.
ele vive 24 horas por dia, 7 dias por semana, mostrando a cara... a pessoa comum usa uma máscara para esconder seu verdadeiro eu.»
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«nada do que ele diz faz sentido, como sempre, ele é um charlatão.»
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«ele foi claro em suas declarações; de agora em diante, a bola está com os jogadores. se eles não o apoiarem amanhã (hoje), terão que dizer isso na cara dele, e pronto.»
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«um gênio... um louco... me faz pensar que ele pode estar sofrendo de burnout. eu ofereceria a ele um trago de uma boa marihuana.»
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- «acho que bielsa tem síndrome de asperger.»
- «asperger é só um rótulo.»
- «de jeito nenhum, revela uma condição que ele mesmo reconhece e da qual não consegue escapar.»
- «entendo o que você quer dizer. quero dizer que qualquer nome para qualquer "doença" é simplesmente uma nomenclatura ou um rótulo para um conjunto de sintomas. saudações.»
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«bielsa como filósofo é o melhor.
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«coitado! é infeliz!»
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«pobre homem! está condenado a perder!»
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«um chorão completo. ele quer bancar o culto e nem consegue falar direito. acho que ele tem algum problema mental.»
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«ficando cada dia mais louco... nem ele mesmo se entende... ele é um perdedor...»
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«mas ele deveria começar a fazer terapia para poder se divertir um pouco... ele transmite insegurança para o time... nada de positivo pode vir de um relacionamento assim, espero que ele resolva tudo isso.»
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«ele é realmente louco.»
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«coitado do uruguai com esse autista.»
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«ele é um cara extremamente inteligente. ele tem uma compreensão cristalina das coisas, tanto humanas quanto filosóficas. e também, OBVIAMENTE, em termos de futebol. mas aqui, 99,9% dos jornalistas e torcedores não o entendem... claro!! absolutamente!! o cara está muito acima de suas tristes e limitadas capacidades intelectuais.»
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«ele é um mestre! tem uma inteligência acima da média, o que obviamente contrasta com a maioria medíocre do mundo do futebol.»
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«hahaha. inteligente porque dá voltas e mais voltas e leva mais tempo que o necessário para explicar ou dizer algo simples. baita enrolão»
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«um cara que se expõe assim para os mercenários do futebol e fala sobre sua psicologia e seus erros é um exemplo na sociedade atual. para mim, ele é um mestre.»
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«mestre de quê... ele não ganhou absolutamente nada... para mim, ele é uma mentira...»
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«como sempre, fez um circo enorme com isso e falou de si mesmo...»
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«ele deveria ter sido poeta, porque como técnico ele é um ótimo contador de histórias.»
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«bielsa, abandone o cargo e vire escritor.»

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os torcedores dos times pequenos
eles partem em um caminhão
com a bandeira nos ombros
atados a um sonho
se a razão discorda deles
eles discutem com a razão
sempre enfrentando o vento
eles resistem à tempestade
um brinde, um brinde aos torcedores dos torcedores dos times pequenos
um brinde à torcida organizada do meu coração
um brinde à camisa mais bonita do mundo
um brinde, do ventre da minha mãe ao seu caixão
os torcedores mais veteranos
eles carregam uma almofada
eles vagam de estádio em estádio
com seu rádio de pilha
eles guardam um jornal antigo
daquele ano que subiram
e te dizem de memoria a gloriosa formação
salud, salud los hinchas de los hinchas de los cuadros chicos
salud la barra de mi corazon
salud, la camiseta mas hermosa de este mundo
salud, desde la panza de la vieja hasta el cajon
el gorrito de botija se apolilla en un rincon
lo deslumbran los colores que ven por television
los hinchas de cuadros chicos
se mueren del corazon
si algun dia por esas cosas
su cuadro sale campeon
salud, salud los hinchas de los hinchas de los cuadros chicos
salud la barra de mi corazon
salud, la camiseta mas hermosa de este mundo
salud, desde la panza de la vieja hasta el cajon

a los cuadros chicos | tabaré cardozo (2009)
canta: canario luna

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«se podes olhar, vê. se podes ver, repara»

saramago

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as fotos oficiais da delegação uruguaia para a copa do mundo de 2026 nos estados unidos, méxico e canadá revelaram um detalhe curioso sobre o técnico marcelo bielsa: sempre que posava para uma foto ou vídeo oficial da fifa — as típicas fotos e vídeos do media day usados ​​para apresentar as equipes, tanto no telão dos estádios quanto nas redes sociais —, o técnico do uruguai abaixava a cabeça ou desviava o olhar da câmera.

«não tenho que dar nenhuma explicação. tiraram a foto daquele jeito. eu não sou modelo. eu estava de frente para os fotógrafos, e essa é a foto que eles tiraram de mim. mas qual é a pergunta dela? eu não tenho resposta. devo também explicar por que eu não estava olhando para as pessoas com quem eu estava conversando naquele momento? não sei. não são explicações que eu preciso dar», disse o técnico uruguaio, incrédulo com a pergunta feita por uma jornalista americana na coletiva de imprensa pós-jogo.

bielsa ficou tão revoltado que insistiu imediatamente: «em relação à pergunta anterior, acho que deve haver um limite para o que precisa ser explicado. se alguém usa óculos, é porque usa óculos; se olha alguém nos olhos, é porque olha alguém nos olhos; se olha para cima ou para baixo... será que tantas coisas precisam de explicação? estamos simplesmente buscando explicações para situações que não precisam de explicação. não há nada de errado em usar óculos, em olhar para baixo; não somos obrigados a agir como modelos a serem seguidos ou a atender exigências que não têm fundamento algum.»

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#arribaceleste
#américas

domingo, 21 de junho de 2026


 pequeno mapa do tempo

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

maria elizabeth gastal fassa

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evangelho do jejum

a balança é tribunal.
ponho-me nua diante dela como ré que já confessou.
o ponteiro grita sentença...menos, menos, menos.
aplaudem os fantasmas do armário, cabides batem palmas.
visto roupas antigas e danço dentro delas, tango de viúva com defunto ausente.
tenho fome de gente e nojo de gente.
na feira, as frutas riem com cara de plástico.
o açougueiro me oferece conselho embrulhado em papel pardo.
pago com moedas de banha derretida, troco nenhum.
á noite, meu estômago recita baudelaire em grego.
as tripas, coristas roucas, desafinam a ária do vazio.
ligo o rádio... só chiado, sermão de estática.
desligo o rádio... o chiado continua dentro.
perdi peso, perdi esperança, perdi promessa.
do humano, guardo o fiapo que se usa pra amarrar presunto.
do divino, guardo a nota fiscal...
e durmo com a luz acesa,
porque o escuro engorda de medo.

simone bacelar

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«a beleza é uma forma de medo ou de inquietude».

jorge luis borges

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o eu escrito por ninguém

quem é borges? o homem que caminha por buenos aires? o nome que aparece nas listas e nos dicionários? o jovem que assobia junto ao ródano? o velho que morre em adrogué? o escritor que ainda não escreveu o livro que escreverá? o autor que detesta a sintaxe que é sua? as respostas não se excluem nem se somam: aproximam-se, desviam-se, corrigem-se, deixam sobras. e talvez esse resto seja o mais borgiano — mais do que o infinito, o labirinto, o tigre, o punhal ou o espelho tomados como emblemas fáceis: o resto que uma simetria imperfeita deixa atrás de si, impedindo o nome de coincidir com o homem, o jovem com o velho, o sonho com a vigília, a morte com o cenário, a sintaxe com quem a escreve. da falha não emerge uma identidade — resta apenas a forma impessoal de si mesmo.

rodrigo gurgel

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pequeno mapa do tempo

eu tenho medo e medo está por fora
o medo anda por dentro do teu coração
eu tenho medo de que chegue a hora
em que eu precise entrar no avião
eu tenho medo de abrir a porta
que dá pro sertão da minha solidão
apertar o botão, cidade morta
placa torta indicando a contramão

faca de ponta e meu punhal que corta
e o fantasma escondido no porão
faca de ponta e meu punhal que corta
e o fantasma escondido no porão

belchior

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livre no começo

se conseguirmos compreender a compulsão que se encontra por detrás do nosso desejo de dominar ou de sermos dominados, então talvez possamos libertarmo-nos dos efeitos debilitantes da autoridade. ansiamos por ter certezas, por estarmos certos, por termos sucesso, por sabermos; e este desejo de certeza, de permanência, constrói dentro de nós mesmos a autoridade da experiência pessoal, enquanto externamente cria a autoridade da sociedade, da família, da religião, e assim por diante. mas ignorar, simples mente, a autoridade, abalar os seus símbolos exteriores tem muito pouco significado.

libertarmo-nos de uma tradição para nos moldarmos a outra, abandonar este líder para começar a seguir aquele, é apenas uma atitude superficial. se estivermos conscientes de todo o processo da autoridade, se percebermos o quanto esse processo é interno, se compreendermos e conseguirmos transcender o nosso desejo de segurança, então teremos uma ampla compreensão e uma tomada de consciência profunda e instantânea, temos de estar livres não no final, mas no começo.

krishnamurti | a vida | editora presença | pág - 33

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a raiz da autoridade: o medo da incerteza

krishnamurti argumenta que a autoridade externa (a religião, o mestre, o político, a tradição familiar) só tem poder sobre nós porque nós, internamente, ansiamos por segurança.

a vida é incerta, caótica e, muitas vezes, assustadora. para lidar com isso, queremos um mapa. queremos garantias. queremos «estar seguros». quando entregamos essa necessidade a alguém ou a alguma doutrina, criamos a autoridade. o mestre ou a tradição não nos escravizam; nós nos escravizamos ao pedir que eles nos deem a segurança que, no fundo, sabemos que não existe.

portanto, se a sua mente continua funcionando baseada no mesmo desejo de segurança, no mesmo medo e na mesma necessidade de ser liderado, você não mudou nada. você mudou de lugar, mas o lugar não mudou você.

em suma: krishnamurti nos desafia a olhar para nós mesmos agora, sem o filtro de nenhuma tradição, mestre ou desejo de sucesso. se você precisa de um «caminho» para ser livre, você ainda está preso à necessidade de um guia. a liberdade, para krishnamurti, é o ato de olhar com total clareza, sem o desejo de que essa clareza lhe dê segurança.

trocando em miúdos: se você busca liberdade para se sentir seguro, você não está buscando liberdade, está buscando um «porto seguro».

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medo...
medo...
medo, medo, medo
medo...

eu tenho medo que belo horizonte
eu tenho medo de minas gerais
eu tenho medo que natal, vitória
eu tenho medo goiânia - goiás
eu tenho medo salvador - bahia
eu tenho medo belém, belém do pará
eu tenho medo pai, filho, espírito santo, são paulo
eu tenho medo eu tenho c eu digo a
eu tenho medo um rio, um porto alegre, um recife
eu tenho medo paraíba, medo paranapá
eu tenho medo estrela do norte, paixão, morte é certeza
medo fortaleza, medo ceará
eu tenho medo estrela do norte, paixão, morte é certeza
medo fortaleza, medo ceará

medo...
medo...
medo, medo, medo
medo...

eu tenho medo e já aconteceu
eu tenho medo e inda está por vir
morre o meu medo e isto não é segredo
eu mando buscar outro lá no piauí
medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
manda buscar outro, maninha no piauí
medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
manda buscar outro, maninha no piauí

pequeno mapa do tempo | belchior (1977)

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de volta a borges

«quem leu shakespeare, tolstói ou machado e não sentiu, em algum momento, uma pontada de medo, de insegurança, de desequilíbrio, então não leu, só passou os olhos. o que seria um soneto de camões sem a vertigem que ele provoca? de que serve uma beleza que não nos questiona, não nos abala, não nos incomoda? é por isso que borges recordava a súplica de seu mestre, rafael cansinos-asséns: "oh, senhor, que não haja tanta beleza". e a constatação de browning: "quando nos sentimos mais seguros acontece alguma coisa, um pôr do sol, o final de um coro de eurípides, e estamos de novo perdidos"»

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de volta a krishnamurti

«para krishnamurti, a verdadeira revolução interna acontece quando compreendemos por que ansiamos tanto por segurança. ao perceber esse mecanismo, a necessidade de se apoiar em autoridades (internas ou externas) desaparece naturalmente. a liberdade é o ponto de partida para observar o mundo com lucidez, e não uma meta futura.»

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(introdução)

«muito obrigado amigos. nós somos tão privilegiados por nos podermos reunir em momentos como estes, quando grande parte do mundo está mergulhado na escuridão e caos.»

os pássaros cantavam,
ao romper do dia,
«recomece», eu os ouvi dizer,
«não se prenda ao que
já passou,
nem ao que ainda está por vir...»

ah, as guerras,
elas serão travadas novamente.

a pomba sagrada,
ela será capturada novamente,
comprada e vendida,
e comprada de novo.
a pomba nunca é livre.

toque os sinos que ainda podem tocar.
esqueça sua oferta perfeita
há uma falha em tudo,
é assim que a luz entra.

pedimos sinais,
e os sinais foram enviados:
o nascimento traído,
o casamento desfeito.

sim, a viuvez,
de todos os governos,
sinais para todos verem

não posso mais fugir,
com essa multidão sem lei,
enquanto os assassinos em altos cargos
fazem suas orações em voz alta.

mas eles invocaram, eles evocaram,
uma nuvem de tempestade,
e eles vão ouvir falar de mim.

toque os sinos que ainda podem tocar,
esqueça sua oferta perfeita,
há uma rachadura em tudo,
é assim que a luz entra.

você pode somar as partes,
mas não terá o todo.
você pode começar a marcha, mas
não há tambor.

todo coração, todo coração,
virá ao amor,
mas como um refugiado

toquem os sinos que ainda podem tocar
esqueçam sua oferta perfeita
há uma falha, uma falha em tudo
é assim que a luz entra.

toque os sinos que ainda podem tocar,
esqueça sua oferta perfeita,
há uma falha, uma falha em tudo,
é assim que a luz entra,
é assim que a luz entra,
é assim que a luz entra.

anthem | leonard cohen (2008)

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carpe diem
bom domingo