terça-feira, 11 de agosto de 2026


traumas

••••••••••••••

janela da alma

janela da alma é um documentário dos diretores brasileiros joão jardim e walter carvalho. a ideia surgiu da vivência do diretor joão jardim, que achava que o fato ter uma miopia muito grande teria influenciado em sua personalidade e até mesmo em sua vida.

entre os entrevistados estão josé saramago, manoel de barros, eugene bavcar, agnès varda e wim wenders (dentre tantos outros).

curioso observar aqui que a «cegueira» vai para muito além da oftalmológica.

e eis que os mitos milenares (alegoria da caverna - a república - platão) deixam de ser mitos, para tornarem-se realidade, ainda que em um mundo de ilusões.

👇

josé saramago e wim wenders - caverna de platão e as ilusões
[«janela da alma» (doc 2001) - fragmento (5:50)]

••••••••••••••

traumas

traumas, de roberto carlos, é uma canção profundamente autobiográfica e dolorosa, lançada no icônico álbum de 1971. na obra, o compositor quebra o silêncio e usa a arte como desabafo para enfrentar o maior tabu de sua vida: o gravíssimo acidente de trem sofrido na infância, aos seis anos de idade, que resultou na amputação de parte de sua perna direita.

através de versos melancólicos, a letra descreve «anjos que eu conheci no delírio da febre que ardia», uma referência sutil às memórias de hospital, ao sofrimento físico e à perda precoce da inocência. a composição também expõe o contraste sensível entre a tentativa dos pais de «enfeitar" a realidade com fantasias e o peso real dos calos que a vida adulta impõe».

••••••••••••••

meu pai um dia me falou
pra que eu nunca mentisse
mas ele também se esqueceu
de me dizer a verdade


••••••••••••••

a verdade dividida

a porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
e sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
e os meios perfis não coincidiam.

arrebentaram a porta. derrubaram a porta.
chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
nenhuma das duas era perfeitamente bela.
era preciso optar. cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

carlos drummond de andrade

••••••••••••••

ilusão
ilusão
veja as coisas como elas são
a fortuna
a roda
o raio
a imensidão

👇

as cartas | chico buarque (1984)

••••••••••••••

além do horizonte

por oliver harden

«há algo de profundamente enigmático na união silenciosa entre o mar e o crepúsculo, como se duas entidades cósmicas, há milênios separadas, reencontrassem-se a cada fim de dia para renovar um pacto secreto. o mar, com sua respiração líquida e seu murmúrio ancestral, guarda em si a memória dos abismos e dos nascimentos, o rumor das marés que conheceram o surgimento da vida e a dissolução de impérios. o crepúsculo, por sua vez, é o instante em que o tempo se inclina, como um ponteiro fatigado, e os contornos do mundo se desfazem em tonalidades que nenhum pincel ousaria inventar.

quando ambos se encontram, dá-se um rito que não pertence nem à terra nem ao céu, mas a uma zona liminar onde a luz se curva diante da água e a água se entrega ao abraço da luz. é nesse instante que o horizonte deixa de ser mera linha e torna-se uma ferida aberta entre dois infinitos, por onde o olhar se perde e o espírito se dilata.»

••••••••••••••

além do horizonte deve ter
algum lugar bonito pra viver em paz
onde eu possa encontrar a natureza
alegria e felicidade com certeza

👇

por jota quest
(vídeo oficial)

••••••••••••••

de uns tempos para cá, dei para escancarar algo que a vida inteira procurei esconder e disfarçar. refiro-me ao meu estrabismo. na infância até que não. na infância o problema eram os óculos, ou melhor, o bullying que eu sofria por causa deles. na adolescência é que tudo mudou. não queria usar óculos e não queria parecer estrábico. impossível. ou uma coisa ou outra. ou eu usava óculos e não parecia estrábico ou eu (a)parecia estrábico e não usava óculos. quando completei 18 anos, busquei resolver o dilema fazendo cirurgia. foi esforço em vão. passados alguns dias do procedimento, o olho direito voltou a desviar. meu caso, porém, parece não ser algo que preocupe os médicos. conhecida como o tipo de estrabismo divergente, a exotropia intermitente é um desvio ocular que não se manifesta a todo instante. com o passar dos anos, entretanto, esse estrabismo pode descompensar e o paciente manter os olhos desviados a todo momento --- o que, cá entre nós, se eu ainda sei me olhar, é o que eu acho que está acontecendo comigo. «nada demais», dirá você que me lê. sim, eu sei, o dilema é meu (meu comigo mesmo). mas não é porque o fardo é só meu que ele deixa de existir. o poeta que o diga:

«a nós nos bastem nossos próprios ais,
que a ninguém sua cruz é pequenina.
por pior que seja a situação da china,
os nossos calos doem muito mais...».

doem mesmo. lembro de um colega do cfc que adorava contar a história de quando fazíamos o trajeto de rio grande para pelotas. para fazer o curso de instrutor no senac, eu ia de ônibus, mas costumava voltar de carona com ele. numa dessas voltas, o para-brisa do fusca estourou na estrada e, quando chegamos, eu estava com os cabelos em pé e os olhos arregalados. ao falar dos meus olhos, ele dava um sorriso irônico. ninguém dizia uma palavra. nem precisava.

doía?
doía.
e tu fazia o quê?
eu levantava e continuava... vou fazer o quê?

na sequência, como instrutor de trânsito, uma das provações mais difíceis que vivi foi encarar os alunos em sala de aula. foram dez anos seguidos, nos três turnos – manhã, tarde e noite –, enfrentando a média de 20 a 30 alunos por turma, todos com os olhares voltados para mim --- para mim e para o meu estrabismo.

lembro-me de uma vez em que respondi a uma pergunta de um aluno olhando para outro. o aluno, para quem eu olhava, esperou eu terminar de responder e falou:

— professor, eu não perguntei nada.

entre piadas, sorrisos constrangidos e sonoras gargalhadas, engoli em seco e segui dando minha aula... vou fazer o quê?

no final daquele curso, foi a primeira vez que fui aplaudido de pé. desde então, reforcei a convicção de que a adversidade me é positiva. isto é, que navego melhor contra a maré.

••••••••••••••

dito isto
vamos ao que importa
minha terapia é escrever
não em linha reta
mas com a corda esticada
que é por onde ando
rumo à casa do poeta
que é sem porta
se ainda posso ver
está escrito em minhas mãos
se ainda sei ler
as linhas são infinitas e tortas

••••••••••••••

«queria falar-te de tudo
contudo,
tudo o que posso falar-te
não é tudo...
é apenas uma parte»

martim césar

••••••••••••••

«o óbvio não guarda segredos. o texto tá atrás do texto»

marcos magah

••••••••••••••
«claras palavras não cabem às claras.»

nelson coelho de castro

••••••••••••••

– e agora, o que faremos?
– poesia, esses canalhas não suportam poesia.

rafael corrêa

••••••••••••••

«o silêncio é tudo
o resto é nada»

autor desconhecido

••••••••••••••

repecho, 2019
[escrito no face]

domingo, oito da manhã, fui à venda aqui perto buscar café. quando cheguei, vi duas carroças e três bicicletas estacionadas. de fora dava para ouvir o alarido; a conversa estava animada. de repente, do nada, fez-se silêncio. olhei para o balcão, o bar lotado, e pensei: com um frio desses tem que ter coragem... procurei ver se tinha algum conhecido, mas, pelo contrário, todos os que estavam ali exibiam cara de poucos amigos, a popular «cara de bunda». no pasa nada. dei bom dia a todos e fui pegar o café.

antes de ir embora, porém, um dos caras que estava no balcão se aproximou de mim e, com cara de quem sabe tudo, me deu uma intimada:

— e aí, tu que é um cara estudado, que entende de tudo, quero ver tu explicar o aquecimento global hoje...

lembrei do campo branco coberto de geada, olhei para ele, pensei em dizer alguma coisa, mas achei melhor não dizer nada. qualquer explicação que eu desse, naquele momento, não ia adiantar nada.

ademais, ia reforçar a ideia dele de que eu sou um cara estudado e que entendo de tudo — o que absolutamente não é verdade.

portanto, fiz silêncio. achei que era o melhor que eu tinha a fazer.

já os que estão me lendo agora, neste exato instante (não digo todos, mas alguns), ou muito estou enganado, ou estão pensando que isso tudo é invenção minha, e que eu fechei a boca pois fiquei com medo do cara e não sabia o que responder.

fazer o quê? assim caminha a humanidade... todo mundo pensa que sabe tudo e ninguém sabe nada.

••••••••••••••

há quem diga que eu dormi de touca
que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
que eu caí do galho e que não vi saída
que eu morri de medo quando o pau quebrou

há quem diga que eu não sei de nada
que eu não sou de nada e não peço desculpas
que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
e que durango kid quase me pegou

eu quero é botar meu bloco na rua
brincar, botar pra gemer
eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender

eu, por mim, queria isso e aquilo
um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
é disso que eu preciso ou não é nada disso
eu quero é todo mundo nesse carnaval


••••••••••••••

trocando em miúdos

não roubamos dinheiro, dinheiro não vale nada,
roubamos sonhos, sonho é tudo.

quantos talentos a humanidade já perdeu?

quantos outros «eniltons grills» pelo mundo,
com mais potencial e qualidades do que nós,
mas sem essa perseverança cega,
por falta de apoio e por desmerecimento alheio,
acabaram ficando pelo meio do caminho?

••••••••••••••

e a canção do silêncio?

••••••••••••••

o silêncio não é uma palavra
escrita sobre uma parede
é uma canção solitária pelo vento
que não se detém no meio de um inferno
é uma canção solitária pelo vento
que não se detém no meio de um inferno


••••••••••••••

foto: león gieco e eu
autor: antonio soler
cantamérica
porto alegre
1996

••••••••••••••

#américas

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

 


mais uma pra estrada

••••••••••••••

«ele não tem onde pôr a cabeça, mas consegue se sentir em casa em qualquer lugar.»

bob dylan

.

«nada é mais útil ao homem do que o próprio homem; os homens não podem desejar nada de melhor, para conservar o seu ser, do que concordarem todos em tudo, de modo que as mentes e os corpos de todos formem como que uma só mente e um só corpo.»

baruch espinosa

.

«se essa seca durar mais um mês
vou-me embora para o paraguai
vou de muda para o maranhão»

nei lisboa

••••••••••••••

no início dos anos 80, quando meu pai nos levou para o maranhão, passei uns meses em são luís e logo fui para turiaçu, quase fronteira com o pará. levei na mochila livros e erva para o chimarrão. passei não lembro exatamente quanto tempo lá, mas foi o suficiente pra aprender muita coisa do que hoje eu sei. manejo de tratores, por exemplo, não sabia nada. o pouco que sei aprendi lá. acho até que me saí bem. afinal, quando chovia e na fronteira do maranhão com o pará chove bem , havia trechos na estrada onde ninguém passava que só eu passei. turiaçu fogueira grande em tupi-guarani era quase uma terra sem lei. eu estava onde queria e fazia o que queria. muito mais que dinheiro, buscava farra e forria. um belo dia, no entanto, cansei. e viajar, viajei.

não quis ser o melhor
sossego trago de longe
não sou louco, poeta
nem sou profeta ou monge
mas viajar, viajei
viajar, viajei...

em 1995, com 30 anos, fui para a estrada pedir carona para assistir a uma cantoria de almir sater, em porto alegre. na época, o américas recém começava, e eu ainda não sabia até onde aquele programa de rádio me levaria. hoje eu sei: ele me trouxe até aqui e ainda pode me levar além.

cantei ao velho peão
fiz versos pra burguesia
e de quando em quando
o dono das terras falava
fique, violeiro
pois tem dinheiro e pousada
e eu viajar, viajei
viajar, viajei...

👇


••••••••••••••

ontem, dia dos pais, convidado por uma irmã de alma, saí da casa dos aedos e fui comer um assado e me encontrar com amigos. cheguei, cumprimentei a todos, me oitavei no balcão e por ali fiquei. tava tudo uma maravilha: a carne, a maionese, as charlas, as gentes, o ambiente. enfim, fui muito bem recebido, como sempre.

mas, como eu ia dizendo, me oitavei no balcão, pedi uma água mineral com gás e ali fiquei, mais ouvindo do que falando. lá pelas tantas, como o assunto se proporcionou, comecei a contar uma história minha — que tinha a ver com dois dos três participantes da roda na qual eu me encontrava. comecei, mas não terminei, pois quando estava na metade da minha, um deles se lembrou de uma história dele que era melhor que a minha, e o outro se lembrou de outra e de mais outra; e eu fiquei ouvindo, esperando a minha vez para voltar a contar a minha. normal. afinal, eles estavam no chopp e eu na água mineral. não demorou muito, a vez chegou: um deles olhou pra mim e se lembrou de um hippie; o outro, de espinosa. e eu pensei, cá comigo, nada como ter amigos.

afinal, a história que eu comecei a contar lá e não terminei, eu já a havia contado aqui. e a história que estou contando aqui agora tem a ver com as histórias que ouvi lá.

senão vejamos: o que espinosa e os hippies tinham em comum? ambos sabiam — cada um a seu modo e no seu tempo — que a vida acontece na mesma substância: a natureza, o afeto, a alegria de estar junto. ambos recusaram o dogma para abraçar o livre existir.

foi esse mesmo espírito que levou bob dylan, em 1975, a passar uma temporada na frança, encontrar um festival itinerante que cruzava por les saintes-maries-de-la-mer e comemorar seu aniversário de 34 anos em uma tenda cigana. hoje não sei por onde ele anda, tanto pode estar numa choupana quanto numa mesquita muçulmana, em meio a uma caravana ou participando de uma cerimônia palaciana. o lugar não importa. lar de poeta não tem porta. é isso que uma tarde com amigos oferta — para homens com estrela a porta está sempre aberta.


••••••••••••••

mais um café para a estrada,
mais um café antes de partir,
para o vale profundo.

👇


••••••••••••••

#américas

domingo, 9 de agosto de 2026

 

aos que virão depois de nós

••••••••••••••

«tenho uma teoria: quanto mais próximo da morte, mais vivo você se sente, mais vivo você é»

james hunt

••••••••••••••

coração tranquilo

há quem passe a vida procurando o caminho do meio e, apoiado na razão, machuque o coração. não é o meu caso. ando pelos extremos. coabito tanto na superfície quanto submerso. escrevo às vezes em prosa e outras em verso. a palavra é o meu universo. verso e reverso. nunca tergiverso. rio e mar. às vezes dou risada e outras tenho vontade de chorar. mas não sou bipolar. o bipolar tem dificuldade para dormir e acordar. eu durmo bem e acordo melhor ainda. tenho a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. não me vendo nem me alquilo.

••••••••••••••

hoje é dia dos pais
mas não é por isso
que lembrei do meu

ah, pai
como e quanto te devo
por teus hábitos de dormir tarde e acordar cedo
por tuas histórias de homens apaixonados e sem medo

uma vez
aqui em satolep
meu pai, ailton e eu
saímos do bar da luz (foto)
e fomos ver um jogo do xavante
grêmio esportivo brasil
brasil de pelotas
em são borja
meu pai tinha um chevrolet opala
eu tinha uns 17 anos
ainda não tinha carteira de motorista
meu pai foi dirigindo
o ponteiro não baixava de 150
lembrei do rei
«eu vou, vou voando pela vida
sem querer chegar»
chegamos cedo
procuramos um bar
tínhamos que fazer tempo
até a hora do jogo
quando nos levantamos
pra ir pro estádio
a partida já havia começado
não me lembro se o xavante ganhou ou perdeu
só me lembro de meu pai me perguntar
se eu me animava a voltar dirigindo
viajamos a noite inteira
não vou mentir que foi a minha primeira vez na estrada
pois não foi
a primeira foi com 15
pelotas - santa vitória
santa vitória - pelotas
os tempos eram outros
eu sei
hoje é tudo muito chato
todo mundo é juiz de todo mundo
ninguém se atreve a marchar fora do compasso
marcha soldado
cabeça de papel
quem não marchar direito
vai preso pro quartel
é isso
ninguém arrisca nada
estamos de joelhos
rezamos pelas cartilhas
do grande capital
e do politicamente correto
não me admira
portanto
que estejamos onde estamos
isto é
dentro das nossas casas
de onde só saímos
pra passear na praça
enquanto seu lobo não vem
e ainda assim
cheio de recomendações
não faça isso não faça aquilo
por mim tudo bem
afinal
meu quarto de hora já passou
já tive meus 15 minutos de fama
e estou ótimo assim
lembro porém de brecht
e fico pensando em como será o amanhã
pensando bem
basta olhar para a juventude de hoje
para saber o que será
há exceção?
sim
sempre houve e sempre haverá
«um brinde aos loucos. aos desajustados. aos rebeldes. aos criadores de caso. os pinos redondos nos buracos quadrados. aqueles que veem as coisas de forma diferente. eles não curtem regras. e não respeitam o status quo. você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los.»
pensando melhor
não tenho nada com isso
não sou pai
sou filho
vivo em paz e durmo tranquilo
llevo un cartel en la frente:
¡no me vendo, ni me alquilo¡

••••••••••••••

o rei morreu! viva o rei!

••••••••••••••

eu vou voando pela vida sem querer chegar
nada vai mudar meu rumo nem me fazer voltar
vivo, fugindo, sem destino algum
sigo caminhos que me levam a lugar nenhum

👇

[áudio oficial de de roberto carlos.]

••••••••••••••

lembrei do rei porque, cinco anos atrás, no almoço de 27 anos do matheus, irmão da vivi, meu eterno «cunhado», comentei sobre um documentário que tinha acabado de assistir sobre schumacher. a conversa foi passando por senna, piquet, lauda, barrichello, até chegar em james hunt — meu ídolo máximo na fórmula 1. campeão mundial de 1976, o britânico morreu jovem, aos 45 anos, vítima de um infarto fulminante. um desfecho quase inevitável para quem viveu uma vida acelerada e cheia de excessos, mas em que nunca faltaram nem coragem nem talento.

••••••••••••••

vida que segue

em 1976, james hunt venceu dez corridas e levou a melhor num épico duelo com o austríaco niki lauda. a rivalidade entre os dois pilotos, de personalidades tão diferentes, foi marcante a ponto de virar filme de hollywood.

assista ao trailer de «rush, no limite da emoção»

👇


[o doc é situado na era dourada da fórmula 1, e conta a emocionante história de dois dos maiores rivais que o mundo já viu — james hunt e niki lauda. acompanhando a vida deles dentro e fora das pistas, rush observa os dois pilotos enquanto eles se esforçam para atingir a máxima resistência física e psicológica, onde não há atalho para a vitória, nem margem para erros. se cometer um erro, você morre.]

••••••••••••••

trocando em miúdos

james hunt, assim como vinicius de moraes e outros mais, não teriam espaço nos dias politicamente corretos de hoje. aliás, vinicius, hunt, guevara, lamarca, sepé, zumbi ... e por aí vai... a lista é grande... começa com meu pai...

••••••••••••••

falando no meu pai
se alguém o vir
diga-lhe que estou bem
que hoje ando a 10
para chegar aos 100

••••••••••••••

busca a mi padre y dile que estoy bien
que mi conciencia sigue libre
y que siguen muy mansos mis pensamientos

[com fotos e letra]

••••••••••••••

antes do fim

trabalhei dez anos como instrutor de direção defensiva num cfc que tem como nome senna. há quem diga que desempenhei bem o papel. não duvido. herdei de meu pai, além do nome, o gosto pelo perigo. ando por um fio. o que me move é o desafio. faço o caminho ao contrário. se o vento sopra pra lá, eu ando para cá. se o vento sopra para o norte, eu caminho para o sul. ou seria o contrário? caminhar rumo ao sul é o meu norte.

••••••••••••••

foto: eu com meu pai | são luís, 2008

••••••••••••••

e a foto do bar? a foto do bar encontrei no perfil de diego gonçalves, filho do aílton, dono do bar. aílton é o de bigode que aparece abraçado a dois homens. nenhum deles é o meu pai. meu pai (grill) aparece na parede, na propaganda eleitoral, junto com meu avô (gastal).

••••••••••••••

e o bar? o bar era frequentado por algumas lendas:

zé becker (fabricante dos «únicos» grandes times de botão de acrílico).
zé pereira (pianista da igreja da luz).
maneca da frigideira (da escola de samba general osorio, funcionário do clube brilhante).
sidnei birolho (da baixada do pepino, ponta-direita do xavante. fundador da escola de samba ramiro barcelos).
maico (também fundador da ramiro barcelos).
joãozinho do garbo magazine (fundador da bandalha).
jorginho (estofador, conhecido como «perninha» ou «roberto carlos»)

entre outras lendas,
das quais a principal para mim era o meu pai.

••••••••••••••

e diego? diego gonçalves foi candidato a vereador pelo pt em 2024. trabalhou como secretário de governo e assuntos estratégicos na prefeitura de pelotas e, desde abril de 2026, é assessor de relações institucionais do gabinete do prefeito fernando marroni.

diego é alcoólatra. alcoólatra em recuperação. assim como eu. sim, o alcoolismo é uma doença incurável. o alcoólatra que diz ou pensa estar curado, ou quer enganar ou está enganado. em ambos os casos, é possível imaginar o resultado.

explico: não importa o tempo que você está limpo, seja por 1 dia, 1 ano, 10 anos ou 50 anos. o alcoólatra está sempre em recuperação. o alcoolismo é igual a uma vela: quando você para de beber, você apaga a vela. quando você volta a beber, a vela volta a acender no exato ponto em que apagou. ou seja, a vela nos diz quanto tempo nos resta. o que queimou tá queimado... não volta mais. não importa quanto tempo passou.

••••••••••••••

falando em tempo...

o tempo passa, vai passar, já passou. os sonhos não envelhecem, nós é que envelhecemos. um outro mundo possível jamais se dará através de nós. never! pode esquecer: o nosso tempo já passou.

as águas estão subindo, estamos atolados da cabeça aos pés. ou nos refundamos ou afundamos. deu pra tudo que limita, que divide, que exclui, que julga, que pré-julga.

saudade de quando éramos potros chucros. hoje somos bois mansos. o tempo passa, vai passar, já passou. já passou da hora de passar o bastão. mas pra quem? pois então, essa é a questão.

«já não há loucos». «são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes».

••••••••••••••

falando em rebelde
me lembrei de cb
lembrando de cb
me lembrei de guevara
lembrando de guevara
me lembrei de whitman

••••••••••••••

«aos que falharam, grandes na aspiração,
aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate,
aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos,
aos super ardorosos viajantes,
a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento
– eu gostaria de erguer um momento coberto de louros
alto, bem alto, acima dos demais:
a todos os truncados antes do tempo,
arrebatados por algum estranho espírito de fogo,
tocados por morte prematura.»

••••••••••••••

lembrando de whitman
me lembrei de darcy ribeiro

••••••••••••••

«fracassei em tudo o que tentei na vida.
tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
tentei salvar os índios, não consegui.
tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
tentei fazer o brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
mas os fracassos são minhas vitórias.
eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.»

••••••••••••••

lembrando de darcy ribeiro
me lembrei de glauber rocha

👇

[trecho do doc "glauber, labirinto do brasil", de sílvio tendler. ao final, maria lucia godoy homenageia glauber cantando a bachiana nº 5 de villa lobos.]

••••••••••••••

e por aí vai
mas por hoje deu
fico por aqui

••••••••••••••

feliz dia dos pais

••••••••••••••

carpe diem
bom domingo

sábado, 8 de agosto de 2026


pra viajar no cosmos não precisa gasolina

••••••••••••••

«somos um bando
um bando
um bando
e muitos outros»

bebeto alves

••••••••••••••

legislativo

no ano de 1983, mal tinha completado 18 anos de idade e fui morar em são luís do maranhão. neste ano, nelson coelho de castro lançou seu segundo elepê, um disco homônimo, com o selo da rge. em 1979 lançou seu primeiro compacto, «faz a cabeça» e, entre 1980 e 1981, produziu e lançou o primeiro disco independente produzido no rio grande do sul, - juntos - um marco na música gaúcha e que influenciou outros compositores neste segmento alternativo.

quando cheguei em são luís, já tinha ouvido falar de nelson coelho de castro, mas daí a dizer que conhecia sua obra a distância é grande.

coisas da vida: vim a ouvir seus discos, faixa por faixa, quando já estava em são luís. tinha recém-chegado à ilha e minha irmã de alma, carla gastal, a pedido meu, me enviou, através de minha avó, algumas das «novidades» da música popular gaúcha. entre elas, nei lisboa, bebeto alves e nelson coelho de castro.

todos foram impactantes e marcantes na minha vida. mas nelson é nelson, sempre foi e sempre será.

grill

••••••••••••••

eu não posso me esquecer
de nada do que está acontecendo agora, nesse momento...
nesta cidade, neste estado, neste país, neste planeta -
do que estamos fazendo
e o que estamos fazendo para a narrativa da história
eu quero ver se consigo trazer tudo isto
sempre acordado dentro de mim:
este êxtase, esta fotografia
esta música, este cinema
este agora, recém-parido
porque é saber isto tudo agora
e será saber isto tudo, em outro agora
a minha única e verdadeira arma
isto me excita

👇


••••••••••••••

conto isso, pois, naquele longínquo 1983, ninguém em são luís (que eu conhecesse) conhecia nelson coelho de castro. hoje ele é conhecido de muitos maranhenses amigos meus, que apresentaram sua música a amigos seus, até que ela chegou aos ouvidos de zeca baleiro e blá blá blá, blá blá blá blábláblá. sim, essa história vocês já estão cansados de ouvir e eu de contar.

o que eu ainda não contei
e vou contar agora
é que
em 1987
minha avó foi nos visitar
e trazia um elepê junto com ela
cujo nome é tango
de vitor ramil
que traz
entre umas & outras
loucos de cara
e joquim
não digo que ninguém
na ilha
além de mim
conhecia vitor
seria muita pretensão
de minha parte
até porque
é bom lembrar
o sobrenome ramil
já era conhecido em todo o brasil
mas
em relação aos amigos mais próximos
jovens poetas
reunidos em torno da akademia dos párias
«loucos em suma
uns por pouca coisa
outros por coisa alguma»
de que o disco os impactou
eu não tenho dúvida nenhuma
a verdade é que cruzei com nelson coelho de castro uma vez só
numa apresentação sua aqui em pelotas
já com zeca baleiro, celso borges, fernando abreu e vitor ramil
nos cruzamos muitas vezes e em vários lugares
hoje todos são amigos
--- cb já não está mas continua ---
se admiram mutuamente
e quando os vejo
em americana
cantando bob dylan
e lembrando woody guthrie
sinto que o tempo passou
e a gente continua
uns & outros
como diz o poeta
«por essas ruas inclinadas
e de cabeça erguida
quem não quiser olhar a nossa cara
que baixe a sua»

grill

••••••••••••••

um trem me atravessa lentamente
carregado de ferrugem e neblina
seguindo as estrelas da noite americana

sobre os ombros das planícies do norte
comboios noturnos plenos de chumbo e fumaça
atravessam estradas desoladas, futuros condomínios ali
na fronteira onde os ventos não têm piedade

nuvens passam apressadas
chuvas que não param
sonhos congelados pelo inverno que não chega

alguém me colocou aqui, alguém me disse sim
escrevi algo em minha alma:
não serei jovem eternamente
quem sabe nasci tarde demais

há falta de beijos nos bailes
há brados surdos nos becos
botas batendo no bico das sarjetas
lua no céu de estrela nenhuma

dividido, desesperados
mirando o sol escuro das tempestades
aqui estamos
alvo certeiro
pasto de aluguel

a chacina abre suas cortinas

preparar, apontar, fogo!

rosa negra rosa negra rosa esquálida
buquê de cinzas bétula de guerra
e o céu vermelho aberto sobre o deserto americano

👇

vozes: zeca baleiro, vitor ramil, fernando abreu e celso borges.

••••••••••••••

«lá vai o trem com o menino
lá vai a vida a rodar»

ferreira gullar

••••••••••••••

em meados dos anos 80, quando andava pelas ruas, becos e praias de são luís, encontrei e me encontrei em uma multidão de gente, gente rica, gente pobre, gente simples, funcionários públicos, poetas, músicos, escritores, anônimos e celebridades. alguns «anônimos» viraram «celebridades» e algumas celebridades não sei... nunca mais ouvi falar...

nunca mais ouvi falar até falar com meu irmão
que me contou da morte de cunha santos
jornalista, poeta e escritor
autor de diversos livros
entre outros
«meu calendário em pedaços» (1978)
«a madrugada dos alcoólatras» (s/d)
«pesadelo» (1993)
«paquito, o anjo doido» (s/d)
«vozes do hospício» (2008)
bom
pelos títulos dos livros
já sabemos
ou pensamos saber
quem era
o que era o cara
que
óbvio
não era só isso
cunha santos era mais
muito mais
quanto a nós
eu e ele
não éramos amigos
desses de frequentar a casa
éramos amigos de bar
uma palavra fora do lugar
e o bar incendiava
mesas e cadeiras voavam
não sobrava ninguém pra contar a história
então
ao contrário de meu irmão
que tem uma memória de elefante
eu tenho a memória fraca
sim
é sabido
o álcool afeta a memória
no meu caso
de uma estranha forma
pois eu me lembro de tudo
sou um contador de histórias
mas não me lembro de nenhuma história do cara pra contar
podia me esforçar um pouco mais
puxar pela memória
mas não ia adiantar
vou então contar
que meu irmão esteve com cunha santos
poucos dias antes dele morrer
e não falaram de outra coisa
a não ser de nós
eu e ele
e as nossas histórias de bar
enfim
faz mais de trinta anos
quase 40
que voltei de são luís
desde então
nunca mais nos vimos
nos perdemos pelo mundo
não voltamos a nos encontrar
sinceramente
quando meu irmão me contou
me deu vontade de chorar
nunca imaginei que ele ia se lembrar

grill

••••••••••••••

as lágrimas de seu nelson

seu nelson chorava todas as manhãs
não porque estivesse velho ou triste
não porque lhe deprimisse estar no mundo
seu nelson chorava todas as tardes
não porque sentisse dor ou soubesse de saudades
não porque lhe deprimisse não ter muito aonde ir
seu nelson chorava todas as noites
não porque fosse criança ou tivesse medo do escuro
não porque lhe restasse na vida um único e antigo amor
seu nelson chorava todas as manhãs
porque tinha certeza de que jamais
haveria outra manhã igual àquela
seu nelson chorava todas as tardes
porque cedo ou tarde todas as tardes acabam
seu nelson chorava todas as noites
porque sabia que as estrelas
se repetiriam em outras noites
naquela noite nunca mais
e que sua madrugada só duraria
até a hora de chorar mais uma vez

cunha santos

••••••••••••••

joquim

«os assassinos fugiram num carro que, como eles, nunca se encontrou. joquim cambaleou ferido, alguns instantes, e acabou caído no meio-fio. ao amigo que veio ajudá-lo, falou: «me dê apenas mais um tiro, por favor. olha pra mim, não há nada mais triste que um homem morrendo de frio»

vitor ramil

••••••••••••••

joquim

[por mauro ferreira]

intitulada joquim (assim mesmo, joquim, sem o presumível «a») e baseada na vida de joaquim fonseca, a versão de dylan por vitor ramil em «tango» flagrou o artista gaúcho mergulhado no mar de ideias do bardo, a bordo da «nau da loucura» citada poeticamente no refrão dessa saga guerrilheira ambientada por ramil nas fronteiras imaginárias de satolep.

joquim, a faixa, totalizou oito minutos e meio e se afinou, no universo do disco, com «loucos de cara», obra-prima da safra autoral apresentada pelo artista no álbum «tango». parceria de vitor com o irmão kleiton ramil, «loucos de cara» sugeriu liberdade, em sintonia com a melodia e a letra sem amarras.

••••••••••••••

vem, anda comigo pelo planeta
vamos sumir!
vem, nada nos prende, ombro no ombro
vamos sumir!

👇


••••••••••••••

em 1989, dois anos depois do lançamento de tango, embarquei num ônibus, que partiu da biblioteca pública de são luís, rumo à brasília, para o ii flaac (festival latino-americano de arte e cultura). de brasília fui para satolep, de onde nunca mais voltei.

••••••••••••••

sinto hoje em satolep
o que há muito não sentia
o limiar da verdade
roçando na face nua
as coisas não têm segredo
no corredor dessa nossa casa
onde eu fico só com minha voz

👇


••••••••••••••

e pra viajar no cosmos?

••••••••••••••

apenas apanhei, na beira-mar
um táxi pra estação lunar

👇


••••••••••••••

táxi lunar

viajar ouvindo música
qualquer um viaja
mas viajar ouvindo geraldinho
é surreal
a estação nunca é a mesma
é sempre outra

grill

••••••••••••••

de volta a nelson coelho de castro

••••••••••••••

faz tempo que admiro a obra de nelson coelho de castro. na minha opinião, é um dos maiores compositores da música popular brasileira. sigo seus passos, versos e notas, desde quando surgiu na cena musical do rio grande do sul. levei-o comigo quando fui para são luís do maranhão. andava com ele, pra cima e pra baixo, pra frente e pra trás, a pé, de carro, de ônibus, onde quer que eu fosse, levava-o debaixo do braço, colado ao peito, como se fosse um amuleto. e era isso que nelson era pra mim: um amuleto. um amuleto da sorte. poderia, por exemplo, passar o resto dos meus anos falando de situações pelas quais passei e das quais vou me lembrar pro resto da vida que tiveram como trilha sonora a sua música e a sua poesia. mas não é o caso. vim aqui hoje pra dizer que o conheci de perto num show na fábrica cultural em pelotas em 2011 (acho) e naquela noite realizei um sonho, disse a ele de minhas andanças com seus discos embaixo do braço pelas ruelas e becos de são luís e da repercussão de sua música na ilha do amor e da poesia. ele olhou pra mim e sorriu. mas não era um sorriso qualquer, pelo contrário, era um sorriso aberto, como quem diz, «mesmo longe estamos perto». nelson estava certo.

grill

••••••••••••••

não resta mais nada
que duvide
da real felicidade

👇


••••••••••••••

foto: vivi valente
praia da pinheira (sc)
fevereiro de 2016

••••••••••••••

#américas