sábado, 27 de junho de 2026

 


com «el loco»

(até o fim)

••••••••••••••

«o que eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem eu devo ao futebol»

albert camus

.

«aprendi que a bola nunca vem por onde esperamos que ela venha. isso me ajudou muito na vida»

(idem)

.

– quem estará nas trincheiras ao teu lado?
– e isso importa?
– mais do que a própria guerra.

ernest hemingway

••••••••••••••

bielsa e os justos

por enilton grill

a história trabalhou meticulosamente para «apequenar» a biografia futebolística de bielsa.

poucos títulos em uma longa carreira como treinador e três experiências decepcionantes em copas do mundo à frente de uma seleção.

em duas delas, foi eliminado em fases de grupos relativamente fáceis, mesmo comandando boas equipes. com o chile, conseguiu avançar, mas encontrou o algoz, o brasil.

em relação à atuação mais recente, muitas coisas podem ser ditas: por que muslera no time titular? mas pergunto: o reserva rochet é hoje um goleiro confiável?

outras coisas são certas, não questionáveis: o uruguai foi o protagonista e merecia mais em todas as três partidas (com exceção do primeiro tempo contra a arábia saudita e a espanha).

a pressão, no final das duas primeiras partidas, foi de tirar o fôlego, finalmente combinando a intensidade de bielsa com a garra charrua.

basta de acusadores! bielsa não precisa de difamadores, nem de detratores; ele se conhece bem: uma pessoa enigmática, que pode até ser «tóxica» para as equipes — ele mesmo disse isso recentemente — e que não é exatamente amigável com a «sagrada» e «invicta» imprensa esportiva.

mas aqueles que o acompanham — eu o acompanho há bastante tempo — também sabem que ele é capaz de extrair a essência de seus jogadores, que revolucionou vidas, clubes e torcedores para sempre.

se nós, que admiramos bielsa — eu o admiro muito —, precisássemos de troféus para perpetuar esse respeito, já estaríamos trilhando um caminho diferente.

é por isso que ainda estamos aqui, dando mais uma vez a cara a tapa, ao lado dos que estão sós, porque dizer a verdade em campo e diante dos microfones vale muito mais do que o mercado acredita nestes tempos inacreditáveis.

borges, em um poema sublime, diz que existem pessoas que, com pequenos gestos, tornam este mundo mais suportável, mais «habitável». marcelo bielsa, em seu «azedume», é uma delas.

••••••••••••••

ainda bielsa

por esteban bekerman

outro problema com bielsa — e nenhum dos meus colegas menciona isso — é que ele sabe que muitos jornalistas (muitos mesmo) não têm o vocabulário dele, o que é extremamente grave quando se trata de profissionais da comunicação. portanto, é compreensível que ele tenda a generalizar, demonstrando desprezo por seus interlocutores e, muitas vezes, respondendo de forma "telegráfica" quando participa de uma coletiva de imprensa ou concede uma entrevista. da minha parte, eu jamais o criticaria por sua maneira de falar. pelo contrário, eu usaria sua verborragia característica a meu favor... e se ele me desse uma resposta ruim — só então — eu retrucaria. o problema é que hoje em dia os entrevistadores geralmente fazem perguntas apenas para agradar aos entrevistados, sem ouvir ou acompanhar as respostas impossibilitando assim uma conversa coerente. e dessa forma, você não pode esperar reciprocidade de alguém como bielsa. da minha parte, sempre houve essa reciprocidade quando ele era o técnico do vélez e eu era responsável pelos canais de mídia oficiais do clube. seria muita ingratidão da minha parte não dizer isso. a nobreza me obriga.

••••••••••••••

quando nasci veio um anjo safado
o chato dum querubim
e decretou que eu tava predestinado
a ser errado assim
já de saída a minha estrada entortou
mas vou até o fim

até o fim | chico buarque (1978)
palavra-chave: craque
dvd futebol

••••••••••••••

#vivaelloco
#américas

sexta-feira, 26 de junho de 2026

 


aos times pequenos

••••••••••••••

«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges | pequenos poemas viúvos | p. 49.

••••••••••••••

«ya no hay locos, ya no hay locos
ya no hay locos, amigos ya no hay locos.
todo el mundo está cuerdo
terrible, horriblemente cuerdo.»

león felipe

••••••••••••••

«sou uma grande fonte de tensão. quando chego, o ambiente fica tenso. é por isso que não apareço com frequência. sou tóxico. estar perto de mim piora a pessoa ao meu redor. vejo isso como um karma, e esse comportamento é baseado no medo. você teme perder muito mais do que gosta de ganhar. então, essa obsessão está na busca por maneiras de evitar a derrota. gostaria de viver o completo oposto do que vivo, como menotti ou cruyff, grandes tipos "irresponsáveis". esses são os tipos de pessoas que merecem aplausos.»

marcelo bielsa

••••••••••••••

«o homem está sempre pronto para distorcer o que dizem os seus sentidos»

dostoiévski

••••••••••••••

quarta-feira

a náusea: essa evidência ofuscante?
existo – o mundo existe –, e sei que o mundo existe.
isso é tudo. mas tanto faz para mim.

é estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta.
gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência
de minha existência, de dormir.

mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim
por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca...

e subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi.
a náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a náusea sou eu.

jean-paul sartre | a náusea, p. 146, 147.

••••••••••••••

de volta a marcelo bielsa
(comentários no face sobre sua reflexão)
.
«não se vê um mínimo de resultado no trabalho dele. o time do uruguai é um amontoado sem padrão tático e joga um futebol em ritmo de 1950.»
.
«sublime!! não para todos!!»
.
«é capaz de virar presidente com esse discurso. aconteceu aqui.»
.
«gosto que, depois de 25 anos, ele mesmo concorde comigo. ele é tóxico, incontrolável, repetitivo e obsessivo, e não aceita que um jogador questione seu pensamento.»
.
«ó, vitimista! nesse caso, o karma acaba sendo dos outros, que têm de aturá-lo.»
.
«nossa! que confissão; uma reflexão tão profunda. não é para o jogador de futebol comum.»
.
«a questão é que bielsa acaba se tornando cansativo e exaustivo. porque ele é como ele mesmo se descreve: obsessivo ao ponto da exaustão. bielsa extrai o melhor de cada jogador e os faz acreditar em coisas que nem sabiam que podiam fazer ou alcançar. para mim, ele é um gênio e, como tal, incompreendido.»
.
«eles o chamam de "o louco" por um motivo. só os loucos ousam falar a verdade, especialmente sobre sua profissão. poucos ousam admitir publicamente suas falhas.
ele é um homem transparente, tão transparente que até expõe suas próprias fraquezas.
ele vive 24 horas por dia, 7 dias por semana, mostrando a cara... a pessoa comum usa uma máscara para esconder seu verdadeiro eu.»
.
«nada do que ele diz faz sentido, como sempre, ele é um charlatão.»
.
«ele foi claro em suas declarações; de agora em diante, a bola está com os jogadores. se eles não o apoiarem amanhã (hoje), terão que dizer isso na cara dele, e pronto.»
.
«um gênio... um louco... me faz pensar que ele pode estar sofrendo de burnout. eu ofereceria a ele um trago de uma boa marihuana.»
.
- «acho que bielsa tem síndrome de asperger.»
- «asperger é só um rótulo.»
- «de jeito nenhum, revela uma condição que ele mesmo reconhece e da qual não consegue escapar.»
- «entendo o que você quer dizer. quero dizer que qualquer nome para qualquer "doença" é simplesmente uma nomenclatura ou um rótulo para um conjunto de sintomas. saudações.»
.
«bielsa como filósofo é o melhor.
.
«coitado! é infeliz!»
.
«pobre homem! está condenado a perder!»
.
«um chorão completo. ele quer bancar o culto e nem consegue falar direito. acho que ele tem algum problema mental.»
.
«ficando cada dia mais louco... nem ele mesmo se entende... ele é um perdedor...»
.
«mas ele deveria começar a fazer terapia para poder se divertir um pouco... ele transmite insegurança para o time... nada de positivo pode vir de um relacionamento assim, espero que ele resolva tudo isso.»
.
«ele é realmente louco.»
.
«coitado do uruguai com esse autista.»
.
«ele é um cara extremamente inteligente. ele tem uma compreensão cristalina das coisas, tanto humanas quanto filosóficas. e também, OBVIAMENTE, em termos de futebol. mas aqui, 99,9% dos jornalistas e torcedores não o entendem... claro!! absolutamente!! o cara está muito acima de suas tristes e limitadas capacidades intelectuais.»
.
«ele é um mestre! tem uma inteligência acima da média, o que obviamente contrasta com a maioria medíocre do mundo do futebol.»
.
«hahaha. inteligente porque dá voltas e mais voltas e leva mais tempo que o necessário para explicar ou dizer algo simples. baita enrolão»
.
«um cara que se expõe assim para os mercenários do futebol e fala sobre sua psicologia e seus erros é um exemplo na sociedade atual. para mim, ele é um mestre.»
.
«mestre de quê... ele não ganhou absolutamente nada... para mim, ele é uma mentira...»
.
«como sempre, fez um circo enorme com isso e falou de si mesmo...»
.
«ele deveria ter sido poeta, porque como técnico ele é um ótimo contador de histórias.»
.
«bielsa, abandone o cargo e vire escritor.»

••••••••••••••

os torcedores dos times pequenos
eles partem em um caminhão
com a bandeira nos ombros
atados a um sonho
se a razão discorda deles
eles discutem com a razão
sempre enfrentando o vento
eles resistem à tempestade
um brinde, um brinde aos torcedores dos torcedores dos times pequenos
um brinde à torcida organizada do meu coração
um brinde à camisa mais bonita do mundo
um brinde, do ventre da minha mãe ao seu caixão
os torcedores mais veteranos
eles carregam uma almofada
eles vagam de estádio em estádio
com seu rádio de pilha
eles guardam um jornal antigo
daquele ano que subiram
e te dizem de memoria a gloriosa formação
salud, salud los hinchas de los hinchas de los cuadros chicos
salud la barra de mi corazon
salud, la camiseta mas hermosa de este mundo
salud, desde la panza de la vieja hasta el cajon
el gorrito de botija se apolilla en un rincon
lo deslumbran los colores que ven por television
los hinchas de cuadros chicos
se mueren del corazon
si algun dia por esas cosas
su cuadro sale campeon
salud, salud los hinchas de los hinchas de los cuadros chicos
salud la barra de mi corazon
salud, la camiseta mas hermosa de este mundo
salud, desde la panza de la vieja hasta el cajon

a los cuadros chicos | tabaré cardozo (2009)
canta: canario luna

••••••••••••••

«se podes olhar, vê. se podes ver, repara»

saramago

••••••••••••••

as fotos oficiais da delegação uruguaia para a copa do mundo de 2026 nos estados unidos, méxico e canadá revelaram um detalhe curioso sobre o técnico marcelo bielsa: sempre que posava para uma foto ou vídeo oficial da fifa — as típicas fotos e vídeos do media day usados ​​para apresentar as equipes, tanto no telão dos estádios quanto nas redes sociais —, o técnico do uruguai abaixava a cabeça ou desviava o olhar da câmera.

«não tenho que dar nenhuma explicação. tiraram a foto daquele jeito. eu não sou modelo. eu estava de frente para os fotógrafos, e essa é a foto que eles tiraram de mim. mas qual é a pergunta dela? eu não tenho resposta. devo também explicar por que eu não estava olhando para as pessoas com quem eu estava conversando naquele momento? não sei. não são explicações que eu preciso dar», disse o técnico uruguaio, incrédulo com a pergunta feita por uma jornalista americana na coletiva de imprensa pós-jogo.

bielsa ficou tão revoltado que insistiu imediatamente: «em relação à pergunta anterior, acho que deve haver um limite para o que precisa ser explicado. se alguém usa óculos, é porque usa óculos; se olha alguém nos olhos, é porque olha alguém nos olhos; se olha para cima ou para baixo... será que tantas coisas precisam de explicação? estamos simplesmente buscando explicações para situações que não precisam de explicação. não há nada de errado em usar óculos, em olhar para baixo; não somos obrigados a agir como modelos a serem seguidos ou a atender exigências que não têm fundamento algum.»

••••••••••••••

#arribaceleste
#américas

domingo, 21 de junho de 2026


 pequeno mapa do tempo

••••••••••••••

«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

maria elizabeth gastal fassa

••••••••••••••

evangelho do jejum

a balança é tribunal.
ponho-me nua diante dela como ré que já confessou.
o ponteiro grita sentença...menos, menos, menos.
aplaudem os fantasmas do armário, cabides batem palmas.
visto roupas antigas e danço dentro delas, tango de viúva com defunto ausente.
tenho fome de gente e nojo de gente.
na feira, as frutas riem com cara de plástico.
o açougueiro me oferece conselho embrulhado em papel pardo.
pago com moedas de banha derretida, troco nenhum.
á noite, meu estômago recita baudelaire em grego.
as tripas, coristas roucas, desafinam a ária do vazio.
ligo o rádio... só chiado, sermão de estática.
desligo o rádio... o chiado continua dentro.
perdi peso, perdi esperança, perdi promessa.
do humano, guardo o fiapo que se usa pra amarrar presunto.
do divino, guardo a nota fiscal...
e durmo com a luz acesa,
porque o escuro engorda de medo.

simone bacelar

••••••••••••••

«a beleza é uma forma de medo ou de inquietude».

jorge luis borges

••••••••••••••

o eu escrito por ninguém

quem é borges? o homem que caminha por buenos aires? o nome que aparece nas listas e nos dicionários? o jovem que assobia junto ao ródano? o velho que morre em adrogué? o escritor que ainda não escreveu o livro que escreverá? o autor que detesta a sintaxe que é sua? as respostas não se excluem nem se somam: aproximam-se, desviam-se, corrigem-se, deixam sobras. e talvez esse resto seja o mais borgiano — mais do que o infinito, o labirinto, o tigre, o punhal ou o espelho tomados como emblemas fáceis: o resto que uma simetria imperfeita deixa atrás de si, impedindo o nome de coincidir com o homem, o jovem com o velho, o sonho com a vigília, a morte com o cenário, a sintaxe com quem a escreve. da falha não emerge uma identidade — resta apenas a forma impessoal de si mesmo.

rodrigo gurgel

••••••••••••••

pequeno mapa do tempo

eu tenho medo e medo está por fora
o medo anda por dentro do teu coração
eu tenho medo de que chegue a hora
em que eu precise entrar no avião
eu tenho medo de abrir a porta
que dá pro sertão da minha solidão
apertar o botão, cidade morta
placa torta indicando a contramão

faca de ponta e meu punhal que corta
e o fantasma escondido no porão
faca de ponta e meu punhal que corta
e o fantasma escondido no porão

belchior

••••••••••••••

livre no começo

se conseguirmos compreender a compulsão que se encontra por detrás do nosso desejo de dominar ou de sermos dominados, então talvez possamos libertarmo-nos dos efeitos debilitantes da autoridade. ansiamos por ter certezas, por estarmos certos, por termos sucesso, por sabermos; e este desejo de certeza, de permanência, constrói dentro de nós mesmos a autoridade da experiência pessoal, enquanto externamente cria a autoridade da sociedade, da família, da religião, e assim por diante. mas ignorar, simples mente, a autoridade, abalar os seus símbolos exteriores tem muito pouco significado.

libertarmo-nos de uma tradição para nos moldarmos a outra, abandonar este líder para começar a seguir aquele, é apenas uma atitude superficial. se estivermos conscientes de todo o processo da autoridade, se percebermos o quanto esse processo é interno, se compreendermos e conseguirmos transcender o nosso desejo de segurança, então teremos uma ampla compreensão e uma tomada de consciência profunda e instantânea, temos de estar livres não no final, mas no começo.

krishnamurti | a vida | editora presença | pág - 33

••••••••••••••

a raiz da autoridade: o medo da incerteza

krishnamurti argumenta que a autoridade externa (a religião, o mestre, o político, a tradição familiar) só tem poder sobre nós porque nós, internamente, ansiamos por segurança.

a vida é incerta, caótica e, muitas vezes, assustadora. para lidar com isso, queremos um mapa. queremos garantias. queremos «estar seguros». quando entregamos essa necessidade a alguém ou a alguma doutrina, criamos a autoridade. o mestre ou a tradição não nos escravizam; nós nos escravizamos ao pedir que eles nos deem a segurança que, no fundo, sabemos que não existe.

portanto, se a sua mente continua funcionando baseada no mesmo desejo de segurança, no mesmo medo e na mesma necessidade de ser liderado, você não mudou nada. você mudou de lugar, mas o lugar não mudou você.

em suma: krishnamurti nos desafia a olhar para nós mesmos agora, sem o filtro de nenhuma tradição, mestre ou desejo de sucesso. se você precisa de um «caminho» para ser livre, você ainda está preso à necessidade de um guia. a liberdade, para krishnamurti, é o ato de olhar com total clareza, sem o desejo de que essa clareza lhe dê segurança.

trocando em miúdos: se você busca liberdade para se sentir seguro, você não está buscando liberdade, está buscando um «porto seguro».

••••••••••••••

medo...
medo...
medo, medo, medo
medo...

eu tenho medo que belo horizonte
eu tenho medo de minas gerais
eu tenho medo que natal, vitória
eu tenho medo goiânia - goiás
eu tenho medo salvador - bahia
eu tenho medo belém, belém do pará
eu tenho medo pai, filho, espírito santo, são paulo
eu tenho medo eu tenho c eu digo a
eu tenho medo um rio, um porto alegre, um recife
eu tenho medo paraíba, medo paranapá
eu tenho medo estrela do norte, paixão, morte é certeza
medo fortaleza, medo ceará
eu tenho medo estrela do norte, paixão, morte é certeza
medo fortaleza, medo ceará

medo...
medo...
medo, medo, medo
medo...

eu tenho medo e já aconteceu
eu tenho medo e inda está por vir
morre o meu medo e isto não é segredo
eu mando buscar outro lá no piauí
medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
manda buscar outro, maninha no piauí
medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
manda buscar outro, maninha no piauí

pequeno mapa do tempo | belchior (1977)

••••••••••••••

de volta a borges

«quem leu shakespeare, tolstói ou machado e não sentiu, em algum momento, uma pontada de medo, de insegurança, de desequilíbrio, então não leu, só passou os olhos. o que seria um soneto de camões sem a vertigem que ele provoca? de que serve uma beleza que não nos questiona, não nos abala, não nos incomoda? é por isso que borges recordava a súplica de seu mestre, rafael cansinos-asséns: "oh, senhor, que não haja tanta beleza". e a constatação de browning: "quando nos sentimos mais seguros acontece alguma coisa, um pôr do sol, o final de um coro de eurípides, e estamos de novo perdidos"»

••••••••••••••

de volta a krishnamurti

«para krishnamurti, a verdadeira revolução interna acontece quando compreendemos por que ansiamos tanto por segurança. ao perceber esse mecanismo, a necessidade de se apoiar em autoridades (internas ou externas) desaparece naturalmente. a liberdade é o ponto de partida para observar o mundo com lucidez, e não uma meta futura.»

••••••••••••••

(introdução)

«muito obrigado amigos. nós somos tão privilegiados por nos podermos reunir em momentos como estes, quando grande parte do mundo está mergulhado na escuridão e caos.»

os pássaros cantavam,
ao romper do dia,
«recomece», eu os ouvi dizer,
«não se prenda ao que
já passou,
nem ao que ainda está por vir...»

ah, as guerras,
elas serão travadas novamente.

a pomba sagrada,
ela será capturada novamente,
comprada e vendida,
e comprada de novo.
a pomba nunca é livre.

toque os sinos que ainda podem tocar.
esqueça sua oferta perfeita
há uma falha em tudo,
é assim que a luz entra.

pedimos sinais,
e os sinais foram enviados:
o nascimento traído,
o casamento desfeito.

sim, a viuvez,
de todos os governos,
sinais para todos verem

não posso mais fugir,
com essa multidão sem lei,
enquanto os assassinos em altos cargos
fazem suas orações em voz alta.

mas eles invocaram, eles evocaram,
uma nuvem de tempestade,
e eles vão ouvir falar de mim.

toque os sinos que ainda podem tocar,
esqueça sua oferta perfeita,
há uma rachadura em tudo,
é assim que a luz entra.

você pode somar as partes,
mas não terá o todo.
você pode começar a marcha, mas
não há tambor.

todo coração, todo coração,
virá ao amor,
mas como um refugiado

toquem os sinos que ainda podem tocar
esqueçam sua oferta perfeita
há uma falha, uma falha em tudo
é assim que a luz entra.

toque os sinos que ainda podem tocar,
esqueça sua oferta perfeita,
há uma falha, uma falha em tudo,
é assim que a luz entra,
é assim que a luz entra,
é assim que a luz entra.

anthem | leonard cohen (2008)

••••••••••••••

carpe diem
bom domingo

sexta-feira, 19 de junho de 2026

 


passagem das horas

••••••••••••••

«há um outro mundo, mas ele está neste.»

paul éluard

.

«dá-me o teu braço, que eu sinto-me só no meio do vento.»

álvaro de campos (heterônimo de fernando pessoa)

.

«e, se alguém prevalecer contra um, os dois lhe resistirão;
e o cordão de três dobras não se quebra tão depressa.»

eclesiastes 4:12

••••••••••••••

ao vento

numa família
solta no ar
minha irmã veio
para me ancorar

minha vida gira
em turbulência
mas ela guia
minha existência

não deve ser fácil
segurar
por isso veio meu irmão
pra ajudar

e como se não bastasse
o que seria de mim
nessa hora
se nem com a minha mãe eu contasse

grill

••••••••••••••

falta pouco tempo eu sei
mas quando a gente é pequeno
o tempo custa pra passar
também a gente pode crescer

armadilha | nelson coelho de castro (1981)

••••••••••••••

#américas

terça-feira, 16 de junho de 2026


como dizia o poeta...

••••••••••••••

das coisas que eu costumava dizer — com as minhas próprias palavras — quando o repecho era uma comuna: «nos divorciamos pelos mesmos motivos que nos casamos, romantismo não sustenta relação»

••••••••••••••

ivan capelatto, em um trecho da sua participação do «café filosófico», fala sobre as angustias e dificuldades de se manter as relações. confira abaixo a transcrição do trecho.

«nós fazemos escolhas. a angústia nos obriga, a cada dia, a fazermos escolhas. o escritor gabriel garcía márquez disse que todo dia temos que nascer. isso porque todo dia há uma angústia do passado que não foi resolvida, assim como há uma angústia nova (novos problemas) que sabemos que não iremos resolver. um analista nos faz aprendermos a suportar as angústias e não a as resolver.

se as coisas fossem invertidas em nossa cultura, falaríamos sobre isto nas escolas: o encanto do casamento é quebrado quando o narcisismo e a onipotência acabam. por exemplo, uma esposa não consegue fazer o marido parar de beber, porém, quem bebia não era seu marido, e, sim, seu namorado. mas a escolha de se casar com ele, estando inclusos em seu pacote fumar, beber, jogar etc., foi dela. durante o namoro, ela achava esses atos legais, no entanto, no casamento, ela já não os aguenta mais.

entre o narcisismo e o real, as coisas precisam ser ditas com sinceridade. os escritores românticos foram sujeitos extremamente solitários que usaram o romance "sublimatóriamente". nenhum deles escreveu um romance com a esposa ao lado; se isso tivesse acontecido, ela, provavelmente, teria interrompido seu processo de escrita para que ele fosse ficar com os filhos, por exemplo. os românticos, então, não podem ter filhos, esposa nem vínculo com ninguém.

podemos ser românticos. contudo, o romântico é um sujeito que tem que ficar fazendo escolhas o tempo todo e livrar-se delas rapidamente. o psicanalista freud chamava de instinto de morte não permanecer com uma escolha. por exemplo, quando alguém consegue algo que escolheu, no auge de seu ganho, o dispensa para que não haja desprazer nem angústia. isto é uma doença grave: as neuroses de angústia.

nos casamentos, é proferido «até que a morte os separe». que morte é essa? a morte do narcisismo. é possível haver sobrevivência no casamento? sim. e a mágica para que isso ocorra é ter consciência de que o outro é só um sujeito humano que vive pendurado na angústia, angústia essa que se manifesta pelo medo da morte do filho, de ladrões, da fome, da pobreza etc. no entanto, na pessoa narcísica não há nada disso, pois esta não sente nem fome, por exemplo, quando está apaixonada. então, adaptemos a frase transcrita acima para "até que a morte do narcisismo os separe e vocês não sejam capazes de se transportarem para a realidade".»

transcrição feita e adaptada pelo «provocações filosóficas» do trecho da palestra: café filosófico – o casamento como fato afetivo com ivan capelatto

••••••••••••••

a rosa e o espinho

o mundo como ele é não é meu forte
por isso criei pra mim o meu próprio mundo
um mundo que se amparou em duas muletas
a muleta do álcool e a do casamento
troquei a primeira pela segunda
e a segunda por uma terceira
isto é
daqui em diante
é eu comigo mesmo
tentando me equilibrar
no mundo como ele é

grill

••••••••••••••

eu bato o portão sem fazer alarde
eu levo a carteira de identidade
uma saideira, muita saudade
e a leve impressão de que já vou tarde

trocando em miúdos | chico buarque (1978)
[do dvd: romance]

••••••••••••••

fotos: são luís (ma) e alto paraíso (go), 2008

••••••••••••••

#américas

sexta-feira, 13 de março de 2026

um completo desconhecido 
(como tu)

.

https://www.youtube.com/watch?v=p2vlcxrXx5I
a complete unknown (2024) | bob dylan & johnny cash letters

.

de johnny cash para bob dylan
(e vice-versa)


eu estava muito interessado na música folk no início dos anos 1960, tanto em canções autênticas de diversos períodos e aspectos da vida norte-americana quanto nas novas canções do revival folk da época, e então prestei atenção em bob dylan assim que o disco «bob dylan» apareceu, no início de 1962, e ouvi sem parar «the freewheelin' bob dylan» em 1963, eu tinha um gravador portátil que levava para a estrada e colocava o freewheelin' para tocar no backstage. depois, saía para fazer o show e o ouvia de novo quando voltava do palco. após um tempo fazendo isso, escrevi uma carta a bob dizendo que era um grande fã seu. ele respondeu em seguida, contando que acompanhava minha carreira desde «i walk the line» (1), e iniciamos uma troca de correspondência.

não foi uma correspondência muito extensa. paramos de nos escrever depois de nos conhecermos, quando fui tocar no festival folk de newport em julho de 1964. não me lembro muito desse festival, mas me lembro de june e mim e de bob e joan baez em nosso quarto de hotel, tão felizes de nos encontrarmos que pulávamos em cima da cama feito crianças.

mais tarde, é claro, bob e eu cantamos juntos em seu disco nashvile skyline (2), e ele foi meu convidado no programa de tv (3). nos encontramos em algumas ocasiões e uma dessas foi gravada por d. a. pennebaker em seu documentário don't look back, que registrou a turnê europeia de bob em 1965.

cash - a autobiografia de johnny cash
são paulo: leyla, 2013. página 170

.

https://www.youtube.com/watch?v=UYKS0jZpARI&list=RDUYKS0jZpARI&start_radio=1
no direction home, documentário dirigido por martin scorsese e que conta a trajetória de bob dylan nos anos 1960. dylan permitiu que scorsese tivesse acesso a horas de filmagens que nunca antes tinham sido tornadas públicas, incluindo o encontro entre ele e johnny cash, citado por este último em sua autobiografia.

.

«quando me pediram para falar sobre a morte de johnny cash, eu pensei: cash é o rei, já que eu sempre achei que era assim. ele era a estrela do norte – você poderia conduzir um navio com a luz dele. foi o maior entre os maiores, antes e hoje. eu o conheci em 1962 ou 63 e o vi muito durante os anos seguintes. nos encontramos muito ultimamente, mas de certa forma ele esteve mais presente dentro de mim do que as pessoas que eu encontro no dia a dia.»

bob dylan, depoimento para a revista rolling stone
12 de setembro de 2013

.

https://www.youtube.com/watch?v=PqADZ9TNURI
bob dylan on johnny cash. ndh outtake
bob dylan talks about his friend johnny cash


.

https://www.youtube.com/watch?v=LVdlF3Eih28&list=RDLVdlF3Eih28&start_radio=1
bob dylan & johnny cash - one too many mornings (rare)

.

(1) https://www.youtube.com/watch?v=jh169rVMveA&list=RDjh169rVMveA&start_radio=1

(2) https://www.youtube.com/watch?v=Je4Eg77YSSA&list=RDJe4Eg77YSSA&start_radio=1

(3) https://www.youtube.com/watch?v=93NnaKMDUSo&list=RD93NnaKMDUSo&start_radio=1

.

«a vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. a vida serve para você se criar. e criar coisas»

bob dylan

.

https://www.youtube.com/watch?v=KMp-u9lWi0I
rolling thunder revue: a bob dylan story by martin scorsese | trailer | netflix
[legendado em português de portugal]


.

«se souberem onde olhar, é possível saber tudo sobre mim através das minhas canções.»

bob dylan, 1990

.

procura-se
procura-se na califórnia, procura-se em buffalo
procura-se homem em kansas city, procura-se homem em ohio
procura-se no mississippi, procura-se no velho cheyenne
onde quer que você olhe hoje à noite, você pode me encontrar
eu posso estar no colorado ou na geórgia, à beira-mar
trabalhando para um homem que talvez nem saiba quem eu sou
se você me vir vindo, fique na sua, não diga pra ninguém
que estou fugindo e que você sabe quem eu sou
procurado por lucy watson, procurado por jeannie brown
procurado por nellie johnson, procurado na próxima cidade
mas eu tinha tudo o que queria com tudo que tinha
e muito mais do que precisava de algumas coisas que acabaram mal
fui desviado em el paso, parei para pegar um mapa
fui no caminho errado em juarez com juanita no meu colo
depois fui dormir em shreveport, acordei em abilene
me perguntando por que diabos sou procurado nas cidades por onde passo
procurado em albuquerque, procurado em siracusa
procurado em tallahassee, procurado em baton rouge
tem sempre alguém atrás de mim nos lugares por onde vou
e para onde quer que você olhe hoje à noite, você pode me enxergar
procurado na califórnia, procurado em buffalo
procurado em kansas city, procurado em ohio
procurado no mississippi, procurado no velho cheyenne
onde quer que você me procure hoje à noite, você pode me encontrar

https://www.youtube.com/watch?v=iiRMfb3Z9hg&list=RDiiRMfb3Z9hg&start_radio=1
bob dylan © 1969 by big sky music
bob dylan / johnny cash - wanted man (take 1)


.

sem lenço, sem documento

por enilton grill

23 de julho de 2009, long branch, nova jersey.

dylan, então com 68 anos, estava em aberdeen, em turnê com willie nelson e john mellencamp. em um dia de folga, decidiu sair para caminhar sozinho, vestindo roupas largas, um casaco com capuz (para se proteger da chuva) e calças de agasalho, o que lhe conferia uma aparência desleixada.

uma moradora local ligou para a polícia relatando ter visto um homem «suspeito» e «maltrapilho» andando pela vizinhança e olhando para dentro de uma casa que estava à venda. suspeita-se que a propriedade pertencia a bruce springsteen.

uma policial jovem (24 anos), kristie bouble, abordou dylan. ela não o reconheceu e, ao perguntar seu nome, ele respondeu: «bob dylan». a policial afirmou mais tarde que não acreditou nele, achando que era um delirante, um farsante ou um ilusionista.

como dylan não portava identificação, a policial o colocou no banco de trás da viatura e o levou até o hotel onde sua equipe de turnê estava hospedada para verificar sua identidade. ao chegarem, a equipe confirmou a identidade do músico. a policial, surpresa, pediu desculpas e o liberou.

nessa noite, entre as canções do bis em aberdeen, estava a previsível «like a rolling stone». ele a interpretou com algo menos que a sua tradicional bravata; cantou com uma humildade séria, sorrindo largamente nas referências ao «mystery tramp» («vagabundo misterioso»), «napoleon in rags» («napoleão em andrajos») e à imagem de ser invisível e não ter segredos.

«como você se sente? / sem ter para onde ir / como uma completa desconhecida / como uma pedra que rola?»

essa canção famosa começa com um golpe na bateria e as palavras «once upon a time» («era uma vez»), como qualquer conto de fadas, marcando o início da balada e da jornada da vida de dylan.

.

eu tenho uma balada
para johnny cash…
e já sei que é muito tarde
porque a vida é como um flash
mas, johnny, tu bem sabes
que o tempo pouco importa...
e ninguém sabe o que haverá
nos esperando além da porta

https://americasgrill.blogspot.com/2013/05/balada-para-johnny-cash-por-martim.html

.

https://soundcloud.com/grill-4/uma-balada-para-johny-cash
balada para johnny cash | martim césar/paulo timm (2008, 2014)
(caminhos de si: recital poético-musical)

.

«eu só fui admitir que eu não era como a maioria dos meus amigos quando eu vi eles voltarem para suas casas e eu já não tinha mais para onde voltar.»

autor desconhecido

.

«o que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.»

mario quintana

.

«é estranho que uma época que começou como só tendo futuro tenha terminado como só tendo passado.»

boaventura de sousa santos

.

budapeste, 1991

foi na venerável budapeste - no terraço do buda penta hotel - que bob dylan, de roupa preta e botas de cowboy ( que ele jamais parece trocar ), deu sua primeira entrevista com mais de três minutos nos últimos cinco anos.

caderno 2 - o início deste seu world tour/91 foi um pouco tenso. a iugoslávia, primeiro pais do leste europeu no qual você se apresenta em 30 anos de carreira, também passa por um momento de tensão. como vê o que está acontecendo no leste nesses últimos dois anos?
bob dylan - você está dizendo que acha que a turnê começou tensa?
caderno 2 - bom, um pouco, não é?
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por quase um minuto )
caderno 2 - bem, de qualquer maneira, como vê a situação do leste europeu, agora que está aqui pela primeira vez?
bob dylan - já estive aqui antes, em 78 ou 79. de férias... ( pausa por quase um minuto)... você conhece a história da europa central e do leste europeu?
caderno 2 - um pouco.
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por quase um minuto ) então deve saber que esses países não são realmente países com unidade nacional significativa, muito menos unidade étnica. foram criados, fabricados. não são orgânicos - foram, são uma espécie de joguete no tabuleiro das grandes potências.
caderno 2 - você é a favor dos movimentos separatistas, então?
bob dylan - realmente não me interesso muito por governos e por estados.
caderno 2 - o melhor governo é aquele que não governa.
bob dylan - sim, thoreau sempre esteve certo. hum...( pausa por uns 30 segundos ) é sobre isso que você quer falar? você já leu thoreau? o que você sabe de thoreau? você conhece a obra de thoreau?
caderno 2 - bem, um pouco.
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por uns 15 segundos ) acho que já falamos mais do que o suficiente, não acha?

.

«em estado de selvageria está a preservação do mundo.»

henry david thoreau

.

o problema da vida selvagem

em seu ensaio de 1996, «the trouble with wilderness» (o problema com a natureza selvagem) , o historiador ambiental william cronon escreve que «chegou a hora de repensar a natureza selvagem».

cronon argumenta que a noção de «selvageria» de thoreau é frequentemente tomada como sinônimo de «deserto geográfico» e «solidão humana».

mas para thoreau, a natureza selvagem não é um lugar isento de influência humana. é uma relação de responsabilidade e cuidado onde nos compreendemos não como seres externos à natureza, mas, como ele coloca, «como habitantes, ou parte integrante da natureza». dessa forma, cronon argumenta que cultivar a natureza selvagem em nossas relações com o mundo significa «aprender a lembrar e reconhecer a autonomia do outro».

.

«suje o tapete deles de lama»
foi o que johnny cash disse a bob dylan pouco antes de ele subir ao palco do newport festival, o templo sagrado do folk, em 1965. naquele momento, bob não segurava o violão folk, e sim uma guitarra elétrica. uma fender stratocaster sunburst.

.

como se sente
como um completo desconhecido
sem um lar para voltar
como uma pedra a rolar?

https://www.youtube.com/watch?v=a6Kv0vF41Bc&list=RDa6Kv0vF41Bc&start_radio=1
like a rolling stone | bob dylan (1965)
[live newport folk festival, 1965]

.

ao vento

sinto-me como uma pedra que rola
pedras que rolam não criam limo
entenda isso como quiser

grill

.

assim é a minha vida, pedra, como tu.
como tu, pedra pequena;
como tu, pedra ligeira;
como tu, canto que rodas pelas calçadas e pelas veredas;
como tu, guijarro humilde de las carreteras;
como tu, que em dias de tormenta te afundas no lodo da terra
e logo centelhas debaixo dos cascos e debaixo das rodas.
como tu, que não serves para ser pedra de uma lonja, nem pedra de um palácio, nem pedra de uma igreja
como tu, pedra aventureira
como tu, que talvez tenhas sido feita só para uma funda
pedra pequena e ligeira
como tu

https://www.youtube.com/watch?v=ACvIYsCqMQ0&list=RDACvIYsCqMQ0&start_radio=1
como tú | león felipe - paco ibáñez (1969)
[festival les suds, à arles, 2011]

.

pedra
substantivo feminino
1. matéria mineral sólida, dura, da natureza das rochas.

do «amansa-burro»

.

#casadelasaméricas
#américas #repecho