domingo, 11 de outubro de 2026


o néscio 

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«vivemos em fascismos restritos e não em democracias liberais»

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«não, não se perde uma democracia, porque você não pode perder o que nunca teve».

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«há uma racionalidade por trás [do fascismo]. são pessoas que estão acreditando no seguinte: não tem mais sociedade para todo mundo».

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vladimir safatle
15 de abril de 2026

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o filósofo, que está lançando o livro «a ameaça interna – psicanálise dos novos fascismos globais», defende que o campo progressista precisa dar uma guinada à esquerda e pensar em novas propostas para combater bolsonaro, trump e milei.
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intercept brasil – você escreve que o fascismo é uma resposta realista às diversas crises do mundo: econômica, social, política, ecológica, psíquica, demográfica e por aí vai. como o capitalismo neoliberal, supostamente democrático, preparou o campo para que a resposta fascista fosse aceitável e realista?

safatle – primeiro, o capitalismo nunca foi democrático. acho que a gente tem um problema na nossa teoria do estado, que é não saber lidar com recortes geográficos, territoriais e de classe. é possível que um regime como o estado brasileiro seja um estado democrático de direito para alguns grupos e regiões, mas com certeza não o é para outros.

onde eu moro tem estado democrático de direito, a 10 quilômetros de distância não tem mais, porque não há garantia de integridade pessoal ou de que quem vai bater na sua porta às 5 horas da manhã é o leiteiro e não a polícia sem mandado [de busca e apreensão], que pode fazer você desaparecer.

a gente tem a ideia de que o liberalismo naturalmente funciona, na sua versão normal, com democracia representativa e livre iniciativa. ele funciona, na verdade, com colonialismo e fascismo em sua versão normal. ele sempre foi colonialista, e esse colonialismo prepara o fascismo.

você tem zonas das nossas sociedades onde impera o direito do massacre administrativo. foi o que vimos no ano passado, 117 pessoas mortas [122 no total, com cinco policiais mortos] na última batida policial no complexo do alemão [e da penha], pessoas que foram amontoadas como se fossem corpos quaisquer, no meio da rua. você não sabe a história dessas pessoas, a história das famílias. ninguém foi responsabilizado por nada. isso é democracia onde? por qual critério a gente pode chamar isso de democracia? não tem nenhum.

isso é o que prepara o fascismo: o fato de que a gente não vive em democracias liberais, a gente vive em fascismos restritos. em situações de crise, esses fascismos restritos se generalizam para toda a sociedade, e é o que a gente está vendo agora. então, não tem muito aquela ideia de «vamos tentar entender como é que se perde uma democracia». não, não se perde uma democracia, porque você não pode perder o que nunca teve.
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ponto. mesma linha.

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safatle já está acostumado a polemizar – a desassossegar. em 2024, por exemplo, escreveu um artigo no qual decretava a morte da esquerda por falta de radicalismo e conexão popular. qual a reação? viu-se uma corrida às redes sociais e às páginas da grande mídia para fazer articulação institucional e disputar a narrativa. ou seja, trocou-se o «ir para as ruas» pela autojustificação. isto é, optou-se por preservar uma boa imagem institucional sem enfrentar a mudança que se exige. 
alguns, como se sabe, acharam por bem responder ao artigo de vladimir safatle. a eles, o sociólogo respondeu: «em uma época em que até armínio fraga se diz de esquerda, o melhor a fazer é dizer que ela morreu, para poder salvá-la.» 
mas quem confunde indignação e provocação com prostração e niilismo jamais vai entender que é preciso morrer para crescer e dar fruto.
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«digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. mas se morrer, dará muito fruto».

joão 12:24
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uma coisa só mais: «essa luta contra as "ideias abstratas" era, na verdade, um tema conservador. lembrem, por exemplo, de edmund burke a discursar contra as «ideias abstratas» de igualdade vindas da cabeça de filósofos ociosos que acabaram por criar caos revolucionário no mundo do final do século xviii e começo do xix. ou seja, a história demonstra, e isto os conservadores sabem muito bem, que «abstrações» tem muito mais força do que alguns estão dispostos a acreditar. seria melhor que os setores progressistas da sociedade brasileira parassem de mimetizar o anti-intelectualismo dos conservadores.

mas isso quem diz é vladimir safatle

eu apenas assino embaixo
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bem, saiamos das abstrações, falemos de eleições.

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intercept brasil - entre 2019 e 2022, com jair bolsonaro no poder, o brasil ficou mais perto do fascismo generalizado, e isso ficou especialmente claro na pandemia, com o descaso de bolsonaro e a aproximação dessas características estruturais do fascismo que você menciona, a indiferença e a dessensibilização. nessas eleições, não é jair quem é o candidato, mas seu filho flávio. dá para dizer que ele segue a mesma cartilha, que também é um candidato fascista?

safatle – claro, com certeza. o fascismo é um processo que paulatinamente vai degradando as instituições. você acorda numa situação onde ações que imaginava impensáveis são cotidianas. a pandemia demonstrou muito claramente essa lógica: a indiferença é o elemento desagregador fundamental. é você olhar uma família inteira morrendo do seu lado e pensar: “isso é normal”. o que tem que acontecer com a sociedade para que um processo como esse seja naturalizado?

esse é um projeto que vai se impor no brasil durante muito tempo, porque existem forças econômicas muito dependentes dessa brutalização social. por outro lado, há uma racionalidade por trás disso. são pessoas que estão acreditando no seguinte: não tem mais sociedade para todo mundo. as crises que estão aí vieram para ficar: crise ecológica, econômica, social, política.

nessas circunstâncias, não faz sentido esperar um corpo social solidário e totalmente includente. é mais racional você falar: «olha, não tem espaço para todo mundo. a questão é quem vai ser preservado e quem não vai ser, e eu quero estar no primeiro grupo, não no segundo. se tiver que empurrar outras pessoas para que sobre espaço para mim, eu vou».

não é necessário nenhum argumento psicológico para entender essa lógica. sou contrário a essa psicologização do campo político de maneira tão selvagem. acho que é importante entender o cálculo racional por trás. ele é dramático, mas é racional. então, ele pede um outro tipo de resposta, não uma patologização geral dos comportamentos políticos.
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saiamos das eleições, voltemos à esquerda.

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para a esquerda, morrer é só o começo

por vladimir safatle

primeiro, alguns creem ser sintoma de melancolia e «desabafo» falar em morte da esquerda nacional. até mesmo ironias a respeito do fato de eu ter anteriormente insistido no esgotamento de outros processos históricos, como a nova república e os acordos imanentes à democracia liberal foram levantados como marcas de uma fixação necrofílica.

lembraria que clinicamente «melancolia» é exatamente a incapacidade de se liberar da fixação a objetos perdidos, não a decisão de se recusar a carregar o que está morto. por mais que alguns se comprazem com as máscaras da euforia, há mais melancolia neste entusiasmo do que poderia aparentar. é, na verdade, sintoma de melancolia não encarar as derrotas quando elas ocorrem, não querer ir até o fundo das derrotas a fim de compreender sua real extensão. contra essa leitura, há de se lembrar que, em uma vida, morre-se várias vezes. um dos piores erros é acreditar que só se morre no fim. morre-se várias vezes e esta é, muitas vezes, a condição de realmente continuar e se transformar.

nesse sentido, afirmar que a esquerda nacional morreu não é expressão alguma de prazer infantil de contenda. antes, é fruto da compreensão de que a sobrevivência da esquerda nacional depende do reconhecimento de sua morte. dizer claramente «nós morremos» é a primeira condição para nos livrarmos do que nos matou. quem se recusa a pensar dialeticamente nessas circunstâncias desconhece a dinâmica de processos históricos. e nossa morte não foi apenas um acidente externo, ela tem causas internas. o jogo do «estamos sendo atacados por fascistas, agora não é hora de assumir nossa auto-crítica» é suicida, é o verdadeiro suicídio. se o fascismo nacional voltou, se ele teve força para voltar, foi porque ele foi o primeiro a sentir o cheiro de nossa morte. de toda forma, em uma época em que até armínio fraga se diz de esquerda, o melhor a fazer é dizer que ela morreu, para poder salvá-la.
el país, 27 de fevereiro de 2020.

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esqueçamos a esquerda, salvemos a democracia.

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«quando digo que o estado é uma entidade criminosa contra sua população, que as instituições "democráticas" são uma farsa, uma fraude, uma simulação dominada por interesses econômico-financeiros que passa longe de ser uma democracia - onde o próprio estado viola sua "lei máxima", a constituição, o que se pode comprovar com a fome, o desabrigo, o analfabetismo, a ignorância, a desinformação, entre tantos outros exemplos de ilegalidades constitucionais cometidas pelas instituições - vem logo a pergunta "então qual é a solução? qual a saída?" eu respondo: sei lá. o que não dá é pra seguir acreditando em mentiras só porque não vejo verdades. perceber as mentiras não depende de saber as verdades. e não saber as verdades não é motivo pra me agarrar nas mentiras, nem inibidor pra percebê-las. que cobrança idiota.»
eduardo coutinho

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falando em idiota, lembrei de néscios.

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néscio

1. que ou aquele que é falho de instrução, de conhecimento ou de inteligência; demente, estúpido, ignorante.

2. que ou aquele que não possui competência; incapaz, inepto.

3. que ou o que é falto de sentido; absurdo.

4. que ou aquele que é imprudente.

5. que ou o que se recusa a pensar antes de agir.
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se eu não sei que não sei
penso que sei.
se eu não sei que sei
penso que não sei.

r. d. laing

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pensar eu penso
quem não pensa
digo isso pois pode alguém pensar
que eu penso que alguém pensa
que eu não penso
pensar eu penso
quem não pensa
tem quem pensa
que é inteligente
eu penso que
sou burro

grill

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revista bicicleta chile, 1994
— suas canções relataram muitas mudanças mas a nescedade longe de ser um defeito desprezível, norteou seu pensamento. quanto mudou silvio rodríguez, o homem, desde que escreveu «el necio»?

— um mundo em que aparentemente tudo tem preço (inclusive certa gente), entendo que se possa ver como «defeito desprezível» não tê-lo. precisamente nisso consiste a «nescedade» da minha canção.

— ainda continua sendo «néscio»?

— ainda desejo seguir jugando a lo perdido (insistindo em causas que o mundo considera fracassadas ou utópicas) e rezar a fundo um filho nosso.
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dicen que me arrastrarán por sobre rocas
cuando la revolución se venga abajo,
que machacarán mis manos y mi boca,
que me arrancarán los ojos y el badajo.
será que la necedad parió conmigo,
la necedad de lo que hoy resulta necio:
la necedad de asumir al enemigo,
la necedad de vivir sin tener precio.

(silvio rodríguez, 1991)
legendado

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bom domingo

sábado, 10 de outubro de 2026


a página do relâmpago elétrico

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o início, o fim e o meio
(parafraseando josé, joão, raul e vandré)

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entre o céu e o valão

por josé falero
a maior frustração de minha infância foi não conseguir desfrutar plenamente da maldita motoca de plástico. motoca que, diga-se de passagem, nem sequer era minha: pertencia a minha irmã. tanto quanto me lembro, jamais funcionou bem. primeiro, era uma das rodas traseiras que estava emperrada. tratei de arrancá-la para tentar corrigir o problema e fui incapaz de devolvê-la ao lugar. depois, passadas algumas semanas de angústia, um primo mais velho veio em meu auxílio e tornou a fixá-la, com alicate e arame. não demorou muito e o guidom quebrou. por fim, um tio deu jeito no guidom, mas aí foi a vez da roda da frente de ficar emperrada. sempre havia algum problema.

com o passar dos anos, a motoca foi perdendo espaço em meu horizonte concreto. senti meu desejo de vê-la consertada minguar até o desaparecimento completo e contentei-me em brincar com ela no estado em que estava, o que acelerou sua destruição e, mais do que isso, a destruição de seu encanto. logo os restos mortais do brinquedo jaziam esquecidos em algum canto do pátio onde morávamos.

aparentemente, porém, nada disso impediu a motoca de seguir ocupando, no insondável de mim, um espaço simbólico importante. pois foi mais ou menos por essa época que passei a ter um sonho recorrente com ela.

fossem outras as circunstâncias, não seria incorreto afirmar que morávamos em um bom pátio: terreno amplo, com um belo riacho passando nos fundos: quem não se encantaria? ocorre, entretanto, que as circunstâncias eram elas mesmas, e não outras. na falta de saneamento, aquilo que realmente devia ter sido um belo riacho algum dia há muito que fora transformado em uma enorme vala de esgoto a céu aberto, cujas águas transportavam variados tipos de fezes para quem quisesse ver, espalhando mau cheiro pelo ar. de amplo, nosso pátio não tinha nada, porque eram quatro barracos espremidos ali, compondo um pequeno cortiço; quatro famílias inteiras compartilhando dimensões que seriam adequadas para apenas uma; dezesseis pessoas convivendo, utilizando o único banheiro disponível, se esbarrando aqui e ali, sem qualquer espaço para a mais diminuta privacidade. e tais insuficiências, já evidentes por si mesmas, eram ainda realçadas pelo contraste com o terreno vizinho, aos fundos: para além do valão nojento estendia-se uma chácara lindíssima; um espaço, esse sim, amplo de verdade, repleto de árvores que davam frutas e coberto de grama bem tratada; uma propriedade centenas e centenas de vezes maior do que nosso pátio; um terreno deveras gigantesco, onde espantosamente havia uma única casa, habitada por uma única família; um lugar onde às vezes avistavam-se triciclos infantis motorizados, em vez de motocas de plástico estragadas.

no sonho que passei a ter de tempos em tempos, a motoca de minha irmã achava-se milagrosamente consertada, e eu, montado nela, vinha a toda a velocidade, pedalando freneticamente, e saltava glorioso por cima do valão. mas, em vez de cair na chácara, seguia subindo, subindo, subindo, até que, com um frio permanente se instalando em minhas entranhas, dava-me conta de estar voando. e a chácara rapidamente perdia toda a importância, porque, de lá do céu, olhando cá para baixo por entre as nuvens, eu podia ver o mundo inteiro, e a visão me enchia da mais profunda alegria. logo, porém, era o desespero que tomava conta de mim, porque de uma hora para a outra eu começava a cair, cair, cair, precipitando-me cada vez mais rápido em direção ao solo, e não adiantava pedalar com força redobrada ou bater os braços como se fossem asas ou implorar pela ajuda de deus ou fazer qualquer outra coisa: nada impedia ou suavizava minha queda. por fim, acordava assustado, um segundo antes de me esborrachar no chão.

foi só bastante tempo depois, em algum momento da adolescência, que parei de ter esse sonho à noite, enquanto dormia, embora tenha passado a sonhar acordado com algo que, no fundo, deve ter significado semelhante: dignidade. passei a sonhar com dignidade. passei a sonhar com uma vida em que tudo, inclusive os brinquedos, funciona bem. passei a sonhar com saneamento, passei a sonhar com privacidade, passei a sonhar com liberdade, passei a sonhar com a alegria profunda. e muita gente que lê os meus textos até diz: «o céu é o limite pra ti, falero!». mas, respeitosamente, discordo dessas pessoas. discordo porque sei que, se eu for ao céu, fatalmente hei de cair e me esborrachar no chão. discordo porque me recuso a voar sozinho. discordo porque as nuvens ganham aspectos obscenos quando nem todos podem alcançá-las. discordo porque meu sonho não é realmente só meu: meu sonho pertence a uma nação inteira. discordo, discordo, discordo! não é o céu que é meu limite. meu limite é muito antes.

meu limite é o maldito valão, enquanto ele ainda estiver lá, degradando a vida de alguém.
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vente

vento
que contraventa
venta

vente

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escrevi sem saber escrever
ensinei sem saber ensinar
falei sem saber falar

fui até onde minhas pernas puderam me levar

fiz o que queria fazer
vivi sem medo de morrer
morri sem medo de viver

só me faltou voar

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a vida passa
tudo passa
menos o valão

o valão continua lá

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lule

lula
que contralula
lula

lule

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parafraseando john keats

«aqui jaz alguém cujo nome foi escrito entre o céu e o valão»

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para luiz inácio lula da silva
(parafraseando vandré)

entre o céu e o valão
(entre lula e flávio)
na terra como no céu
(no valão como no mar)

não viemos por teu pranto
nem viemos pra chorar
viemos ao teu encontro
e estamos no teu altar
por seguir nosso caminho
que é também teu caminhar
na força do teu carinho
esperamos nos salvar
na terra como no céu
no valão como no mar

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«eu choro de cara suja
meu papagaio o vento carregou
e lá se foi pra nunca mais
linha nova que pai comprou

dança maria, maria
lança seu corpo jovem pelo ar
ela já vem, ela virá
solidária nos ajudar»

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(paráfrase segunda)

veja
não diga que a eleição está perdida
tenha fé em lula, tenha fé na vida
tente outra vez

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a casa estava escura
o vento forte, a chuva desabou
a luz não vem, eu aqui estou
a rezar na escuridão e só

venho do vento da noite
na luz do novo dia cantarei
brilha o sol, brilha o luar
brilha a vida de quem dançar

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(a página do relâmpado elétrico, 1977)

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#lulaurgente
#bolsonaronuncamais

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

 

fábulas do mar
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«con lo poco que yo sé
antes de llegar a brasil sé que me perderé»

piero

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hoy tengo nublada la sonrisa
país de cielo, país de tiza
piden las paredes libertades
la calle espera, la gente sabe

es que hay un juramento y hay silencio
y hay un hombre, amor, que resucita
somos territorio de violencia
mi pueblo habla, mi pueblo grita

somos territorio de violencia
mi pueblo habla, mi pueblo grita
¡basta de muerte, basta, basta!
¡basta de morir, morir, morir!

que se vayan ellos
que se vayan ellos
los que no dejaron
nacer y vivir

que se vayan ellos
que se vayan ellos
los que encarcelaron
los que torturaron
los que te mataron

que se vayan ellos
que se vayan ellos
los que te prohibieron
gritar ¡libertad!

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piero, 1973

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buenos aires, julho de 1976:
longa viagem sem nos movermos
ritmo de pulmões da cidade que dorme. fora, faz frio. 
de repente, um barulho atravessa a janela fechada. você aperta as unhas em meu braço. não respiro. escutamos um barulho de golpes e palavrões e o longo uivo de uma voz humana. depois, silêncio.
— não peso muito? 
nó marinheiro.
formosuras e dormidezas, mais poderosas que o medo. 
quando entra o sol, pestanejo e espreguiço com quatro braços. ninguém sabe quem é o dono deste joelho, nem de quem é este cotovelo ou este pé, esta voz que murmurou bom-dia.
então o animal de duas cabeças pensa ou diz ou queria:
— para gente que acorda assim, não pode acontecer nada ruim. 
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para el pueblo lo que es del pueblo
porque el pueblo se lo ganó.
para el pueblo lo que es del pueblo;
para el pueblo liberación.

comer bien era muy raro; comer poco era normal.
comer era subversivo para el señor militar.
eran actos de violencia, la alegría popular;
«el pueblo tiene paciencia» dijo un señor general.

estudiar era pecado; clandestino era saber,
porque cuando el pueblo sabe, no le engaña un brigadier.
prohibiremos la esperanza y prohibido está nacer.
«¿no será mucho, almirante?» «faltaba más, coronel.»

y al país lo remataron, y lo remataron mal.
lo partieron en pedazos, ahora hay que volverlo a armar.
y ahora el pueblo está en la calle a cuidar y a defender.
esta patria que ganamos liberada debe ser.

pra el pueblo lo que es del pueblo
porque el pueblo se lo ganó.
para el pueblo lo que es del pueblo;
para el pueblo liberación.

liberación, liberación, liberación.

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(piero, 1973)
microestadio de atlanta
en vivo
inédito

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buenos aires, julho de 1976:
quando as palavras não podem ser mais dignas que o silêncio, mais vale ficar calado

1
somos obrigados a entregar, na casa rosada, as provas das páginas da revista, vindas da gráfica.
— isto, não. nem isto — nos dizem.
a última reunião com os militares foi assim:
tínhamos ido vicente e eu. 
depois de discutir durante uma hora sobre o material da revista, falamos de haroldo conti. 
— ele é um redator de crisis — dissemos — e foi sequestrado. não se sabe nada. os senhores nos dizem que ele não está preso e que o governo não tem nada com este assunto. por que não nos deixam publicar a notícia? a proibição pode se prestar a interpretações torcidas. os senhores sabem que no exterior há pessoas que pensam mal, pessoas mal-intencionada que...
— vocês têm alguma queixa contra nós? — perguntou-nos o capitão. — foram tratados sempre com correção. recebemos vocês, os escutamos. para isso estamos aqui e esta é a nossa função no governo. mas lhes advertimos: este país está em guerra, e se nós nos encontrássemos em outro terreno, o tratamento seria bem diferente.
toquei o joelho em meu companheiro.
— vamos, vicente, está ficando tarde — disse.
caminhamos, devagar, pela plaza de mayo.
no meio da praça ficamos parados um longo tempo sem nos olharmos. havia um céu limpo e um ruído de gente e pombas. o sol arrancava brilhos nas cúpulas de cobre esverdeadas.
não falamos nada.
entramos em um café, para tomar alguma coisa, e nenhum dos dois se animava a dizer:
— isso significa que haroldo está morto, não é?
de medo que o outro dissesse:
— sim.
2
a revista não dá mais.
de manhã. reúno os companheiros e falo com eles. quero mostrar-me firme e dizer esperanças, mas a tristeza escapa por meus poros. explico que nem fico, nem vicente nem eu tomamos a decisão: que as circunstâncias decidem. não aceitamos a humilhação como epílogo da linda aventura que nos reuniu durante mais de três anos. crisis não seria agachada por ninguém: vamos enterrá-la em pé; como viveu.
3
esvazio as gvetas da escrivaninha, repletas de papéis e cartas. releio, ao azar, palavras de mulheres que amei e de homens que foram meus irmãos. acaricio com o dedoo telefone que me transmitiu vozes amigas e ameaças.
caiu a noite. os companheiros partiram há um par de hora e de meses. os escuto, os vejo; seus passos e suas vozes, a luz que cada um irradia e a fumacinha que deixa quando vai embora.
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eduardo galeano | dias e noites de amor e de guerra, p. 178 - 181

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me estoy muriendo de frío.
tengo la bronca en la voz
porque a esta puerta del río
le apuñalaron el sol,
porque a esta puerta del río
le apuñalaron el sol.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

argentina tiene un nombre
desde el mar hasta la sierra.
cómo le cuento a mi gente
lo que pasa en esta tierra
pero cómo le cuento a mi gente
lo que pasa en esta tierra.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

no soy de muchas palabras.
hay muy poco que contar.
las cosas se cuentan solas.
sólo hay que saber mirar.
las cosas se cuentan solas.
sólo hay que saber mirar.

y después cuando yo canto
que me lo llaman protesta.
cómo contar lo que pasa
con mi gente y su pobreza.
pero cómo contar lo que pasa
con mi gente y su pobreza.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país de nubes,
lleno de humo y alcohol.
cómo le canto a mi gente
lo que yo pienso con vos,
pero cómo le canto a mi gente
lo que yo pienso de vos.

que a mi patria la fundaron
a golpes y cachetazos.
cuántas voces se callaron
a machete y a balazos.
pero cuántas voces se callaron
a machete y a balazos.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! hermanita perdida,
cómo te quiero abrazar.
pero sin guerra ni balas.
ni muertos para llorar.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

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(piero, 1972)
1982 b.a. rock 

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de volta ao começo

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«siempre habrá tiempo para volver
y cuántas naves, cuántas velas seguiré
por cada fábula de mar que aún no sé.»

piero

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em 3 de outubro de 2016, logo após o resultado das eleições municipais para a escolha de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, escrevi o texto abaixo, entre colchetes:

[que o anti-petismo, que a globo, que o tio sam, que a fiesp, que o mundo está contra nós... é verdade, está mesmo, sempre esteve e sempre estará. mesmo assim, conseguimos avançar: tiramos milhões de brasileiros da miséria, proporcionamos moradia e melhores condições de vida a outros tantos. e foi por isso, ou muito por isso, que nos deram um golpe e nos derrubaram.

tudo isso eu sei.

mas sei também que fracassamos em tantas e muitas outras coisas. cometemos alguns erros graves e outros (quase) imperdoáveis. abrimos a guarda e nos perdemos no caminho. com isso, deixamos o campo aberto e deu no que deu.

sinto muito, mas é assim que penso.

aliás, eu sou assim... quando penso em apontar o dedo para os outros, lembro sempre de apontá-lo antes para mim.

perdón, es mi manera de ser
si alguna gente no entiende qué le voy a hacer.]
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con lo poco que yo sé
antes de llegar a brasil sé que me perderé,
pero no importa, es mi manera de ser,
si alguna gente no entiende qué le voy a hacer.

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(piero, 1976)

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#nuncamais

quarta-feira, 7 de outubro de 2026


e se os idiotas formos nós

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«o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade»

umberto eco

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«a educação não transforma o mundo. a educação muda as pessoas. as pessoas transformam o mundo.»

paulo freire

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segundo márcia tiburi, há três tipos de idiotas

1 – ignorante orgulhoso: não se abre à experiência do conhecimento. repete clichês introduzidos no cotidiano. sua formação é «midiatizada». mas como o ignorante não sabe disso, ele se orgulha de ser o que é.

2 – «burro mesmo»: não há muito o que dizer. mesmo com informação por todos os lados, ele não consegue juntar os pontinhos. por exemplo: o «burro mesmo» faz uma manifestação «democrática» para defender a volta da ditadura.

3 – paranóico: o paranóico tem certezas, a falta de dúvida é o que o torna idiota. o idiota paranóico cria monstros que ele acredita combater a partir de suas certezas. o comunismo, o feminismo, os indígenas, os pobres, os negros, os homossexuais ...

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o vento leste do carcará

por ancelmo gois
o compositor pernambucano luís vieira conta que seu parceiro, o maranhense joão do vale, que era semianalfabeto, depois do sucesso de «carcará» achou que devia usar palavras difíceis nas letras. vieira discordou: «só escreva sobre o que você conhece!», ralhou.
até que joão surgiu com a letra da obra prima «na asa do vento»: «deu meia noite/a lua faz o claro/eu assubo nos aro/vou brincar no vento leste». vieira quis saber onde joão tinha encontrado aquele «vento leste». e o parceiro: «de noite, liguei o rádio na "hora do brasil" e ouvi: "aviso aos navegantes: vento leste soprando pra sudoeste"».

a história está em «mpbambas», de tarik de souza, e parece dar razão a um mestre da minha terra: «eu prefiro quem diz "nós vai" e vai, do que quem fala "nós vamos" e não vai».

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a lua é clara, o sol tem rastro vermelho
é o lago um grande espelho onde os dois vão se mirar.

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(joão do vale, 1981)

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«meia noite é a hora mais escura. precisamente nesta hora a lua apresenta sua luminosidade. do confronto com a obscuridade interior, o inconsciente, surge a luz.

outro ponto interessante é o jogo de opostos. a escuridão da meia noite, o claro da lua. o jogo de opostos se faz presente durante toda a letra da canção.

a aranha tece puxando o fio da teia
a ciência da abeia, da aranha e a minha
muita gente desconhece

abelhas, aranhas, flor, sol, lua, vento, ar, cheiro se apresentam enquanto símbolos. eis a ciência do compositor que, valendo-se de imagens de coisas simples da natureza extrai novos e profundos significados. seu trabalho é brincar com as palavras e seus infinitos sentidos. tal habilidade poética também é o que se espera do analista. se não for poeta, que ao menos tenha seu olhar e sua escuta abertas ao simbólico.»

ijrs | instituto junguiano do rio grande do sul

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os menores carregam o mundo
são os menores que o suportam
com seus caminhos parcos
e seus olhos

como algumas flores breves
como as que não duram mais que um dia
e nesse tempo urgentemente sonham 

assim os menores sonham no mundo
e avançam com um lírio amarelo no pensamento
e se erguem contra a noite longa
dentro de sua vida que é um sopro

quando por cinco vezes a terra cedeu
a pesadelos de fogo e de água
(naquela que tem sido a história das grandes extinções)
foram os frágeis que se alastraram tão quietos ─
 porque não tinham nome nem rosto
esconderam-se sem que os percebessem

foram para o escuro fundo, em
mares inconsoláveis
foram por entre vales de ossos imensos e
protegeram-se na curvatura da sombra
foram morar na última fenda do
último tronco ─
como se tudo insistisse num
último coração —
dentro da sequoia

são os vencidos que têm carregado o mundo
são lobas que há dias emagrecem, regurgitando
em bocas de ninhadas ainda cegas
são pássaros de asa quebrada, que
estremecem nas mãos
são algum pulso
e alguma lua
são homens e mulheres sem lugar, recurvados sobre
si como pendendo
a uma pergunta sem pronúncia

os menores é que rompem ao meio
o medo
e suspendem a vida num fio claríssimo de seda em que
a morte não toca

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(mar becker,  de outubro de 2026)
por antónio josé cravo

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(brecht revisitado)

os filhotes do fascismo sempre querem cruzar de novo com a cadela

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(marx revisitado)

a primeira vez como tragédia, a segunda vez como tragédia maior

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na foto do futuro do brasil 
aqueles que não tinham para pagar o fotógrafo
não eram fotografados 
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todos os poemas são de mar becker 

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¡qué pena si este camino fuera de muchísimas leguas
y siempre se repitieran
los mismos pueblos, las mismas ventas
los mismos rebaños, las mismas recuas!
(que pena se esse caminho tivesse muitas léguas
e se repetissem sempre
as mesmas vilas, as mesmas vendas,
os mesmos rebanhos, as mesmas caravanas!)

¡qué pena si esta vida tuviera
esta vida nuestra
mil años de existencia!
¿quién la haría hasta el fin llevadera?
¿quién la soportaría toda sin protesta?
¿quién lee diez siglos en la historia y no la cierra
al ver las mismas cosas siempre con distinta fecha?
los mismos hombres, las mismas guerras
los mismos tiranos, las mismas cadenas
los mismos farsantes
¡y los mismos, los mismos poetas!
(que pena se esta vida tivesse
esta nossa vida
mil anos de existência!
quem a tornaria suportável até o fim?
quem a suportaria por inteiro sem reclamar?
quem lê dez séculos de história e não a cierra
ao ver sempre as mesmas coisas com datas diferentes?
os mesmos homens, as mesmas guerras,
os mesmos tiranos, as mesmas correntes,
os mesmos impostores
e os mesmos, os mesmos poetas!)

¡qué pena, que sea así todo siempre
siempre de la misma manera!
¡qué pena!
¡qué pena!
¡qué pena!
que pena que seja sempre assim,
sempre da mesma maneira!
que pena!
que pena!
que pena!

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(los olimareños, 1972)
poema: león felipe

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tenho pena

por nelson barros

a mulher que apoia o inominável, é a mulher que foi ensinada a não gostar de mulher. ela foi ensinada a entender que mulheres são rivais históricas. ela foi treinada nas sociedades patriarcais, a entender que mulheres estão no mundo para disputar um homem pra chamar de seu. ela aprendeu a olhar para as outras mulheres como inferiores, como se ela não fizesse parte desse universo. ela acha que será a escolhida para ser bem tratada por aquele que tratou mal todas as outras. ela quer punir a mulher que, no fundo, odeia ser.

o gay que apoia o inominável é a mesma coisa. ele aprendeu a não gostar de gay. ele acha que é melhor que os outros gays por que não parece ser gay. ele considera isso um elogio. ele critica «as afeminadas». ele acha que será escolhido para ser bem tratado por quem trata mal todos os outros gays. ele quer punir o gay que ele, no seu íntimo, odeia ser.

o negro que apoia o inominável aprendeu que «black is not beautiful», como dona maria, uma negra que não quis se casar, para não ter que casar com um negro. ela achava bacana quando alguém dizia que ela era uma negra de modos finos, como as brancas, e colecionava perucas. ela acha que será tratada de modo diferenciado, por quem nunca a tratou bem, não por ela ser do jeito que era, mas pelo jeito que ela imaginava que era vista: «uma negra de alma branca».

o trabalhador que apoia o inominável tem um delírio. ele vai apoiar alguém que não tem nenhuma noção do que seja trabalhar.

tenho pena de todos.
e de você e de mim.

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que pena

por enilton grill

eu também. assim como nelson barros tenho pena. ao contrário de muitos de nós, eu não acho que os eleitores da extrema-direita terão, caso flávio bolsonaro seja eleito presidente desse país, o governo que merecem. eles não merecem. ninguém merece.

eles continuarão sendo vítimas de um sistema que ensinou, convenientemente, que ser mulher, ser gay, ser negro, ser pobre são moedas de menos valia.

só há uma forma de mudar isso: educação, educação e educação.

mas que educação? a educação que abre universidades, mas entrega diplomas que funcionam apenas como uma ilusão de ascensão social? não.

uma educação que foca no pragmatismo, em vez de ensinar a ler e transformar a realidade? não.

uma estrutura que trocou a formação da consciência política e a organização comunitária de base por comemorações estatísticas? não.

uma lógica que substitui o debate crítico e a filosofia por cursos rápidos voltados apenas para metas do mercado? não.

uma estrutura que financia a expansão do ensino privado com dinheiro público que deveria ir para os cieps e escolas de base? não.

um método que prepara o jovem para ser o trabalhador precarizado de aplicativo, em vez de ensiná-lo a combater a precarização? não.

precisamos da educação que liberta, não da que apenas qualifica para a exploração.

enquanto o pragmatismo institucional se contentar em governar para os índices e para os mercados, continuará pavimentando a estrada por onde passa a barbárie. se queremos um futuro diferente, precisamos de uma pedagogia que ensine a questionar o poder, e não apenas a obedecer a ele. só a consciência de classe e de direitos pode quebrar o feitiço que faz com que as vítimas escolham os seus próprios algozes.
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«enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto!»
belchior

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joão, o menino cantador
era uma vez um menino, um rio, um colégio, um campinho de terra e uma cidadezinha desse tamainho.
lá havia uma pedra grande, do tamanho de um prédio de seis andares, e por isso a cidade foi chamada de pedreiras.
um dia, o menino deixou de ir para a escola e passou a só vender os doces da mãe, a brincar no rio e a jogar bola.
ah, mas de cantar ele não cansava.
andréa oliveira

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seu moço quer saber, eu vou contar num baião
minha história pra o senhor, seu moço, preste atenção

eu vendia pirulito, arroz doce e mungunzá
enquanto eu ia vender doce, meus "colega" iam estudar
a minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar
a minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar

e quando era de noitinha, a meninada ia brincar
vixe, como eu tinha inveja, de ver o zezinho contar:
– o professor raiou comigo, porque eu não quis estudar
– o professor raiou comigo, porque eu não quis estudar

hoje todo são «doutô», eu continuo joão ninguém
mas quem nasce pra pataca, nunca pode ser vintém
ver meus amigos “doutô”, basta pra me sentir bem
ver meus amigos “doutô”, basta pra me sentir bem

mas todos eles quando ouvem, um baiãozinho que eu fiz,
ficam tudo satisfeito, batem palmas e pedem bis
e dizem: – joão foi meu colega, como eu me sinto feliz
e dizem: – joão foi meu colega, como eu me sinto feliz

mas o negócio não é bem eu, é mané, pedro e romão,
que também foram meus colegas, e continuam no sertão
não puderam estudar, e nem sabem fazer baião

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(o poeta do povo, 1965)

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#lula2026

terça-feira, 6 de outubro de 2026

 

ogodô ano 2000

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grandes horizontes
na escola da ponte não há programas. isso não quer dizer que a aprendizagem aconteça ao sabor dos desejos das crianças. imagine um homem do campo, que só conheça as comidas mais simples: polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne. imagine que ele venha à cidade e seja levado por um amigo a um restaurante. «que é que o senhor deseja?», lhe perguntaria o garçom. ele certamente responderia falando de polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne, pois esse é o seu repertório de pratos. aí, o amigo lhe diria: «quero sugerir que você experimente uns pratos diferentes.» assim acontece na relação entre professores e alunos. os professores sabem mais. é por isso que são professores. e uma de suas tarefas é «seduzir» as crianças para coisas que elas ainda não experimentaram. eles lhes apontam coisas que nunca viram e as introduzem num mundo desconhecido de arte, literatura, música, natureza, lugares, história, costumes, ciências, matemática. «a primeira tarefa da educação é ensinar a ver», dizia o filósofo nietzsche. não é obrigatório que elas gostem do que vêem. mas é importante que seus horizontes se alarguem.
rubem alves

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eu já fui rebelde. mas eu aprendi. então, por favor, cresça!»
lula

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1992

o sistema é cruel, injusto e desumano
para que uns poucos se deem bem
a imensa maioria tem que se dar mal
quem vê de fora
não entende como isso se dá
talvez seja difícil de entender
mas é fácil de explicar
junte a ganância de uns
com a ignorância de outros
e misture bem
até crescer
quando a massa estiver
veja bem
com a aparência de uma manada pastando conformada
leve ao forno a uma temperatura tropical e deixe assando por 500 anos
no final
terá um país rico por fora
e pobre por dentro

grill

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eram só três caravelas e valeram mais que um mar quanto aos índios que mataram ah! ninguém pôde contar quando esses homens fizeram o mundo novo e bem maior por onde andavam nossos deuses com seus andes, seu condor?

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(belchior, 1993)

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«no crezca mi niño, no crezca jamás
los grandes al mundo le hacen mucho mal
el hombre ambiciona cada día más
y pierde el camino por querer volar»

facundo cabral

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anos 90

por eduardo galeano
a injustiça, motor de todas as rebeliões que ocorreram na história, não só não diminuiu no século 20, como multiplicou-se até extremos que nos pareceriam incríveis se não estivéssemos adestrados para aceitá-la como costume e obedecê-la como destino. mas o poder não ignora que a injustiça está se tornando cada vez mais injusta e que o perigo está se tornando cada vez mais perigoso.

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e então? vencemos o crime?
já ninguém mais nos oprime
pastores, pais, lei e algoz?
que bom voltar pra família!
viver a vidinha à pilha!
yuppies sabor baunilha
era uma vez todos nós! 

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(elogio da loucura, 1988)

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passaram-se os anos, o século vinte está morrendo. que mundo ele nos deixa? um mundo sem alma, desalmado, que pratica a superstição das máquinas e a idolatria das armas: um mundo ao avesso, com a esquerda à direita, o umbigo nas costas e a cabeça nos pés.

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nos anos da guerra fria, cada metade do mundo podia encontrar na outra metade as justificativas de seus crimes e de seus horrores cada um dizia ser melhor, porque a outra era pior. hoje (final dos 90), subitamente órfão do inimigo, o capitalismo celebra sua hegemonia e dela usa e abusa sem limites. mas certos sinais indicam que começa a se assustar de seus próprios atos. descobre, então, a dimensão social da economia, como um exorcismo contra os demônios da ira popular. o capitalismo tinha resolvido chamar-se economia de mercado, mas agora tornou mais abrangene o apelido e viaja aos países pobres com um passaporte onde figura seu novo nome completo: economia social de mercado.
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ôôô ogodô ogodô ogodô, ogodô ogodô ôôô ogodô ogodô ogodô ogodô ogodô ttalac-tac-tac-tac tamborim teleco-teco-teco-teco violão toloc-toc-toc-toc agogô tô-lôc-tô twenty 00, twenty 00 a ciência excitada fará o sinal da cruz e acenderemos fogueiras para apreciar a lâmpada elétrica. the science in her trance will make the sign of cross and we will light bonfires to appreciate the eletric bulb. talac-tac… ogodô…

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(the hips of tradition, 1992)

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o pirulito da ciência

por enilton grill
a  «economia social de mercado» à brasileira é uma obra de arte da conciliação: o mercado fica com o lucro, o social fica com a contaminação, e a ciência fica chupando o pirulito.

a receita é simples e foi votada no congresso nacional. o presidente lula (pt) até tentou colocar um verniz de bom comportamento com 14 vetos à flexibilização dos agrotóxicos. mas no teatro da governabilidade, a bancada ruralista deu o veredito e derrubou tudo. o «rei da soja» passou a coroa para o ministério da agricultura, que agora é quem manda no balanço das substâncias. anvisa e ibama, coitados, foram rebaixados a meros espectadores de bula.

é o «capitalismo humanizado» em sua potência máxima: as exportações batem recordes na faria lima, o plano safra injeta bilhões no latifúndio, e o povo ganha o direito constitucional de consumir, em média, algumas gramas de glifosato por refeição. tudo estritamente regulado pelas forças da oferta e da demanda de oxigênio.

diante do absurdo de ver substâncias cancerígenas proibidas no exterior virarem tempero nacional, os pesquisadores da fiocruz — que ainda insistem na mania de estudar dados — soltaram a pergunta definitiva, aquela que deveria estar em um refrão de tom zé:

«a ciência está errada e o agro está certo?»
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falando em tom zé

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✍️ texto de guto ruocco

(via #repost @tomzeoficial)
tom zé mal começou o show e já estava saudando a saga do reitor edgar santos da universidade federal da bahia que deu ao alemão koellreutter plenos poderes para organizar a renomada escola de música da ufba, que o formou, além de toda uma geração de artistas contemporâneos da melhor música brasileira. depois citou paulo freire e a triste confusão do oprimido que conquista direitos e se torna opressor quando a educação não é transformadora antes de interpretar «esquerda, grana e direita».

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quando um trabalhador cresce na sociedade
e tem oportunidade de ser protagonista da história
ele pratica o método do opressor
porque foi o único método que aprendeu
então ele só sabe agir como o opressor

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(vira lata na via láctea, 2014)

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depois, emendou seus clássicos, alguns urrados por uma plateia ávida de canção inteligente e coragem artística. terminou o show saculejando o decadente teatro municipal «caindo aos pedaços» de mococa para forrozear ao som de xique-xique e com a plateia hipnotizada pelo amor e pela generosidade de tom zé. o artista de irará mostrou aos 82 anos que continua com vitalidade do menino tropicalista que mantém a sua mensagem política-libertária nos cascos. obrigado, te amo.

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 eu vi o cego dando nó cego na cobra
vi cego preso na gaiola da visão
pássaro preto voando pra muito longe
e a cabra cega enxergando a escuridão

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(com defeito de fabricação, 1998)

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#lula2026