sábado, 19 de setembro de 2026


casa de poeta não tem porta 2

«um gato tem honestidade emocional absoluta: os seres humanos, por uma razão ou outra, podem esconder os seus sentimentos, mas um gato jamais o faz.»

ernest hemingway
«às vezes eu ansiava por alguém que, como eu, não estava ajustado perfeitamente com sua idade, e essa pessoa era difícil de encontrar, mas logo descobri gatos, em que eu poderia imaginar uma condição como a minha.»
julio cortázar


o processo
diante da lei está um porteiro. um homem do campo chega e pede para entrar, mas o porteiro diz que agora não pode permitir. o homem pergunta se não pode entrar mais tarde. «é possível» – diz o porteiro – «mas agora não».

o homem decide aguardar. o porteiro dá-lhe um banquinho ao lado da porta. ali fica sentado dias e anos. ele faz muitas tentativas para ser admitido e emprega tudo para subornar o porteiro. este aceita tudo, mas dizendo: «eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa».

durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. esquece os outros porteiros. quando envelhece, sua vista enfraquece, mas reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei.

já não tem mais muito tempo de vida. antes de morrer, faz um aceno para que o porteiro se aproxime: «todos aspiram à lei. como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?»

o porteiro percebe que o homem já está no fim e berra: «aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. agora eu vou embora e fecho-a».

kafka. 2016, pp. 146 e 147


siempre había oído mentar
que ante la ley era yo,
igual a todo mortal.
pero hay su dificultad
en cuanto a su ejecución.

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(alfredo zitarrosa, 1971)


«mais de uma vez me jogaram na rua
mas a culpa é minha
contém ironia
é bom lembrar»

autor desconhecido 

silvio rodríguez, o incompreendido

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(aos patrulheiros de plantão)

epaminondas: o gato explicador

por clóvis de barros filho
esses últimos, os humanos, com exceções, também adoram viajar, conhecer outros lugares, outras gentes e seus modos peculiares de viver. tomam-se por arejados, abertos e até mais cultos por conta desse hábito. talvez por isso usem – para julgar nossas vidas felinas – o critério da extensão territorial ocupada por nossos corpos. e acabam convencidos de que passar o dia todo confinado não pode valer a pena. vê-se logo que ainda não aprenderam nada de relevante. e nunca aprenderão. por mais que alguns deles – os poucos sábios da história humana na terra – tenham generosamente se sacrificado para explicar, todos os demais da espécie sempre se recusaram a aceitar o óbvio: que o mais precioso da vida já se encontra em cada um deles. e que o sucesso dessa busca requer preparo. exercício rigoroso de pensamento. e recato. fica fácil de entender por que não saem da rua. passeiam, viajam e se divertem. na verdade, permanecem em fuga. não suportam a verdade que grita em suas almas. preferem chafurdar no pântano da ignorância – entretida pelas sombras da falsidade e das mentiras – a resistir, em resiliência, aos percalços e obstáculos que todo caminho de luz costuma impor a quem sempre viveu na sombra.

os homens e suas certezas
por que os gatos dormem tanto? quantas igrejas tem o céu? foi onde que a mim me perderam, que logrei enfim me encontrar? há quem diga que a pergunta mais difícil da filosofia seja: podemos ter certeza de alguma coisa? não sei se é. se for, não sei a resposta. quem sou eu para saber o que ninguém sabe. pra dizer a verdade, não sei se ninguém sabe. talvez você saiba e eu não saiba que você sabe. pode ser, né? quem sabe... não sei. só sei que, enquanto eu compartilho minhas dúvidas, outros compartilham suas certezas. que bom para eles que não tenham dúvidas. mas não tenho certeza, ou seja, fico em dúvida se quem os lê e escuta acredita no que eles dizem e escrevem. eu, por exemplo, não acredito. ademais, não tenho certeza se quem demonstra ter tanta certeza a respeito de tudo e de todos tem realmente certeza de alguma coisa ou do que quer que seja. se todos os rios são doces, de onde tira sal o mar? não achas que vive a morte, dentro do sol de uma cereja? como se mede a espuma, que resvala da cerveja? pra cada voz da dúvida, tem outra voz que fala e viceja; pra cada voz da certeza, tem outra voz que cala e boceja.

ou seja:

«sinta mais, pense menos.»

bukowski


«que sabe a aranha a respeito de mozart? nada; entretanto, ouve com prazer uma sonata do mestre. o gato, que nunca leu kant, é talvez um animal metafísico.»

machado de assis


os cavalos não correm
para vencer.
correm para correr,
pois para isso
foram desenhados.
também não vivo
para vencer.
vivo para viver,
pois para isso me desenhei.

fausto wolff


ao vento

há dez mil anos atrás
quando ainda rolava de bar em bar
me caiu nas mãos
uma resenha do livro
«a arte cavalheiresca do arqueiro zen»
desde então
pensava em lê-lo
pesquisa daqui
pesquisa dali
encontrei-o
entre borges e kant
na minha pequena
mas
modéstia à parte
rica bibliotheca
folheia daqui, folheia dali
percebo um trecho sublinhado
como quem diz
lê isso aqui:
«o homem é definido como um ser pensante, mas suas grandes obras se realizam quando não pensa e não calcula. devemos reconquistar a ingenuidade infantil. nesse estágio, o homem pensa sem pensar. ele pensa como a chuva que cai do céu, como as ondas que se alteiam sobre os oceanos, como as estrelas que iluminam o céu noturno, como a verde folhagem que brota na paz do frescor primaveril. na verdade, ele é as ondas, o oceano, as estrelas, as folhas.»
bárbaro
mas fiquei com a impressão de que já o tinha lido
parece que tudo que ali está
eu já sabia
de pura intuição
mas não é verdade
terminei o livro
com mais dúvidas
do que quando comecei
daí fico pensando
se bukowski
fausto wolff
e yupanqui
o teriam lido
ou se
sem pensar
eles escreviam
sobre aquilo que pensavam que não sabiam

«"pelo que vejo, o senhor já é um mestre. peço-lhe que me diga a que escola pertence, antes que entremos na relação mestre-discípulo". o guarda observou que se envergonhava de dizer, mas jamais tinha aprendido a arte da esgrima. "o senhor está zombando de mim? sou o mestre do venerável xógum e sei que meus olhos jamais se enganam." o guarda insistiu: "lamento ofender a sua honra, mas a verdade é que jamais tive qualquer conhecimento desta arte". frente a tão segura negativa, o mestre vacilou um momento, ao final do qual disse: "como o senhor afirma, não vou desmenti-lo, mas seguramente o senhor é mestre em alguma outra disciplina, embora eu não saiba qual seja". respondeu-lhe o guarda: "pois bem, como o senhor insiste, devo dizer-lhe que existe uma coisa na qual me considero mestre. quando eu era criança, ocorreu-me a ideia de que um samurai não tem o direito de temer a morte em qualquer circunstância, e desde então lutei continuamente com a ideia da morte, até que ela deixou de preocupar-me. talvez seja a isso que o senhor se refere". mal ouvira tais palavras, tajima-no-kami exclamou: "exatamente! alegro-me que não tenha me enganado, pois o último segredo da arte da espada é atingir a libertação da ideia da morte. tenho mostrado essa meta a centenas de alunos, mas até agora nenhum alcançou o grau supremo na arte da espada. o senhor não precisa de qualquer treinamento, porque já é um mestre".
eugen herrigel | a arte cavalheiresca do arqueiro zen, p. 89.


a partícula cósmica que navega em meu sangue
é um mundo infinito de forças siderais.
veio a mim através de um longo caminho de milênios
quando, talvez, fui areia para os pés de vento.

logo, fui madeira, raiz desesperada
fundida no silêncio de um deserto sem água.
logo, fui caracol quem sabe onde.
e os mares me deram a primeira palavra.

depois, a forma humana despejou sobre o mundo
a universal bandeira do músculo e da lágrima.
e brotou a blasfêmia sobre a velha terra
e o açafrão, e o trigo. a árvore e as pradarias.

então vim à américa para nascer um homem
e a mim se juntou o pampa, a selva e a montanha.
se um velho da planície galopou até minha origem
outro me disse histórias em sua flauta de cana.

eu não estudo as coisas nem pretendo entendê-las
as reconheço, é certo, pois antes vivi nelas
converso com as rochas em meio aos montes
e me dão sua mensagem as raízes secretas.

e assim vou pelo mundo, sem idade nem destino
ao amparo de um cosmos que caminha comigo.
amo a luz e o rio e o caminho, e a estrela.
e floresço em guitarras porque fui a madeira.

clique no título para ver e ouvir

poema: atahualpa yupanqui
musica: campo abierto (atahualpa yupanqui)
voz y audio: alejo gómez davolio
edición: santiago cremerius

de volta ao começo dia 4 de outubro diga não a bolsonaro vote lula e depois fique bem na sua sem questionar sem reclamar nem criticar até porque quando a grande mídia o agronegócio e a faria lima caírem de pau se lula não resistir e cair a culpa vai ser toda sua 

agradezco la participación de todos
los que colaboraron con esta melodía.
se debe subrayar la importante tarea
de los perseguidores de cualquier nacimiento.

si alguien que me escucha se viera retratado,
sépase que se hace con ese destino.
cualquier reclamación, que sea sin membrete.
buenas noches, amigos y enemigos.

clique no título para ouvir

(silvio rodríguez, 1970)


foto: 
ernestito che guevara 
(in memmoriam)
repecho, 2020


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

 
as pontes de madison


«e de repente
o resumo de tudo é uma chave.
a chave de uma porta que não abre
para o interior desabitado
no solo que inexiste,
mas a chave existe.»

drummond


já tive mais certezas, a propósito dessa cena.
refiro-me à cena de francesca e robert em as pontes de madison.

[clique no título para ver]

[et à la fin... sur la route de madison]
tcm cinéma

 hoje, após comprovar que o encanto que algumas mulheres sentem por homens de espírito livre é proporcionalmente inverso à insegurança que têm de conviver com os mesmos, tenho mais dúvidas do que certezas.

francesca foi covarde… ou foi a mais madura dos dois?

em «as pontes de madison», francesca teve apenas quatro dias para conhecer robert kincaid e reencontrar algo que talvez há anos não sentia: paixão, liberdade, emoção… e a sensação de voltar a ser ela mesma.

quando robert pediu que ela partisse com ele, o amor parecia uma escolha ao alcance das mãos.

no entanto, ela escolheu ficar.

muitos dizem que foi medo. eu, por exemplo. que faltou coragem para abandonar uma vida que já não a fazia feliz. que ela deixou escapar o grande amor de sua vida.

hoje já não tenho tanta certeza.

francesca não estava escolhendo entre um homem maravilhoso e um casamento terrível. estava escolhendo entre uma paixão intensa de quatro dias e uma história de vida construída ao longo de anos com sua família.

e há algo mais que agora me faz refletir:

será que realmente sabemos como teria sido a vida ao lado de robert?

conhecemos o robert daqueles quatro dias. sabíamos o que ela sentia quando estava com ele. mas não sabemos como seria dividir a rotina com um homem cuja identidade se moldava na estrada, na liberdade e em uma existência nada convencional.

talvez francesca tenha compreendido algo que nós, espectadores, esquecemos no anseio por um grande romance de cinema:

um caso de amor pode ser perfeito justamente porque não precisa enfrentar a usura do dia a dia.

e ficar também não significou deixar de amar robert. significou reconhecer que amar alguém nem sempre exige escolhê-lo para dividir a vida.

talvez não tenha sido covardia.

talvez tenha sido maturidade.

talvez, sacrifício.

talvez, medo.

ou talvez uma mistura inseparável dos três.

se você estivesse no lugar de francesca, teria aberto aquela porta para partir com robert… ou teria permanecido com sua família?

e uma pergunta ainda mais difícil: você acha que, se tivesse partido, ela teria se arrependido? 

♦ 

todos os dias passamos por esta provação. mas se desde cedo nos acostumarmos com a presença de nossas outras personalidades, sem tentar mascará-las, as escolhas serão feitas com menos trauma.

chama-se a isso amadurecimento...  
eu acho.

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#casadosaedos
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quinta-feira, 17 de setembro de 2026


utopia e barbárie
(orgasmos da história)
[em memória de soledad barret]


(trailer)


(memorial da democracia)
trecho: 1968
1:42


ontem
na fisioterapia
mauricio e eu falávamos
sobre a situação pela qual o país passa
que há uma normalização da tragédia e da desgraça
que nada mais nos surpreende e que tudo mais perdeu a graça


olha que coisa mais linda, mais cheia de graça.
é ela, menina, que vem e que passa.
num doce balanço a caminho do mar.

moça do corpo dourado, do sol de ipanema
o seu balançado é mais que um poema
é a coisa mais linda que eu já vi passar

(canal 100)


regressarei os meus sapatos por copacabana
na mão direita o sangue de uma história italiana
escorregar um tango numa casca de banana
quando cair só vou lembrar da tua risada sacana

(vitor ramil, 1987)


todos são iguais perante a lei
sem distinção de qualquer natureza
garantindo-se ao brasileiros e estrangeiros residentes no país
a inviolabilidade do direito
à vida
à liberdade
à igualdade
à segurança e à propriedade

mas, você se quiser
pode cagar nesse artigo
e, se tiver poder
pode cagar nessa constituição
que dá nada

leo aprato/ian ramil, 2015
[a partir do "caput" do artigo 5º da constituição federal do brasil de 1988]


os filhos dos dias
soledad, a neta de rafael barrett, costumava recordar uma frase do avô:
– se o bem não existe, é preciso inventá-lo.
rafael, paraguaio por escolha própria, revolucionário por vocação, passou mais tempo na cadeia que em casa, e morreu no exílio.
a neta foi crivada a balas no brasil, no dia de hoje de 1973.
o cabo anselmo, marinheiro insurgente, chefe revolucionário, foi quem a entregou.
cansado de ser perdedor, arrependido de tudo o que acreditava e gostava, ele delatou um por um de seus companheiros de luta contra a ditadura militar brasileira, e os despachou para o suplício ou o matadouro.
soledad, que era sua mulher, ele deixou para o fim.
o cabo anselmo apontou o lugar onde ela se escondia e foi-se embora.
já estava no aeroporto quando ouviram-se os primeiros tiros.
eduardo galeano, pg 21


con un grafo (picho)
ela escreve nas paredes «resistir»,
cachecol rubro-negro pelas costas,
minifalda (minissaia),
anaclara.

(daniel viglietti, 1978)


la muchacha de mirada clara,
cabello corto,
la que salió en los diarios;
no sé su nombre, no sé su nombre.
pero la nombro: primavera.
pero la veo: compañera.
pero yo digo: mujer entera.
pero yo grito: guerrillera.

(daniel viglietti, 1971)

.

noção de pátria

quando resido neste país que não sonha
quando vivo nesta cidade sem pálpebras
onde no entanto minha mulher me entende
e onde ficou minha infância e envelhecem meus pais
e reconheço meus amigos de calçada em calçada
e posso ver as árvores da minha janela
esquecidas e torpes às três da tarde
sinto que algo me cerca e me oprime
como se uma sombra espessa e decisiva
descesse sobre mim e sobre nós.

quando retorno a esta cidade sem lágrimas,
que se tornou egoísta depois de ter sido tão generosa,
que perdeu o ânimo sem tê-lo esgotado,
penso que finalmente chegou o momento
de dizer adeus a algumas presunções,
de me afastar, talvez, e falar outras línguas,
onde a indiferença seja uma palavra obscena.

mario benedetti

.

ao vento

esposa não há
meu pai já não está
miha mãe envelhece
mas em outro lugar
a juventude vi escorrer
na corrente de um açude
caminho hoje pelas ruas de satolep 
como um ilustre desconhecido
escrevo, escrevo, escrevo
quanto mais escrevo, 
menos sou lido 
em meio a todos
sou ninguém
o que não é nada mal
só me faz bem

grill 

.

– seu pai falava muito de você.
– é?
– dizia que você não tinha ambição.
– tinha razão.
– é mesmo?
– minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
– você é estranho.

bukowski

.

autoepitáfio

alguns dizem que morri de pena
na verdade não me lembro
sei que havia uma nuvem branquíssima no céu
e uma ave errante que deixava pegadas
e me parece que eram de alegria

outros sustentam que morri de gozo
eu também não me lembro
sei que havia um pintassilgo encantado com seu canto
e un salgueiro que avaliava com a chuva
seu confronto de lágrimas prolixas

sim lembro-me que havia conhecidos
gente expansiva orgulhosa como poucas
falavam do mercado de ações
de arte culinária / de informática
de futebol / de tabernas / de anistias

de repente chegou um sopro de silêncio
tudo ficou em um coro de calados
olharam-se perplexos porque no meio
daquela vanglória do nada
una muchacha pronunciou meu nome.

mario benedetti

.

uma coisa aprendi junto a soledad: que o choro há que empunhá-lo, transformá-lo em canto.

janeiro quente, recife, silêncio cego
as cordas até esqueceram o guarani
aquele que pronunciavas em teus caminhos
de muchacha andante
semeando justiça
onde não há
onde não há

outra coisa aprendi com soledad: que a pátria não é um único lugar. como o libertário avô do paraguai, cresceu buscando a trilha, e o uruguai guarda a doce pegada dos seus passos quando busca o norte, o norte do brasil, para lutar, para lutar. uma terceira coisa nos ensinou: o que um não consegue, dois conseguirão. em algum lugar do vento ou da verdade está a solidão com todo o seu sonho. ela não quer palavras longas nem aniversários; seu dia é aquele em que todos digam, armas na mão: «pátria, rojaijú». rojaijú: eu te amo (em guarani)

(daniel viglietti, 1972)


eu só peço a deus
que a injustiça não me seja indiferente
pois não posso dar a outra face
se já fui machucado brutalmente

(león gieco, 1978)



antes do fim

em 8 de janeiro de 1973, anselmo — que entrou para a história brasileira como uma das figuras mais execráveis do período — delatou vários companheiros à ditadura. entre eles estava a sua própria companheira, soledad, grávida de quatro meses de um filho dele.

em depoimento à comissão especial sobre mortos e desaparecidos políticos, a advogada mércia de albuquerque relatou que o corpo de soledad foi encontrado em um barril, com quatro tiros na cabeça e o feto de seu filho no fundo. apesar de identificada, a militante foi sepultada como indigente em recife, deixando seu último poema à mãe.

mãe, me entristece te ver assim o olhar quebrado dos teus olhos azul céu
em silêncio implorando que eu não parta. mãe, não sofras se não volto. me encontrarás em cada moça do povo deste povo, daquele, daquele outro do mais próximo, do mais longínquo talvez cruze os mares, as montanhas os cárceres, os céus mas, mãe, eu te asseguro, que, sim, me encontrarás! no olhar de uma criança feliz de um jovem que estuda de um camponês em sua terra de um operário em sua fábrica do traidor, na força do guerrilheiro em seu posto, sempre, sempre me encontrarás! mãe, não fiques triste, tua filha te ama.


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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

 

ostra feliz não faz pérola
[para luciano oxley]

«não há razão nenhuma para sorrir para o ciclope, esse monstro de um só olho que é a câmera fotográfica. e, no entanto, nunca estamos tão desarmados quanto diante de uma lente. no início, achamos que podemos enganá-la, ou porque fechamos o semblante e endurecemos o olhar, ou porque simulamos a expressão que a memória do espelho nos garantiu ser a mais favorável. é aí que começa o combate entre a paciência do fotógrafo e a resistência de quem lhe faz frente. a paciência do fotógrafo é infinita, enquanto a resistência de quem está sendo fotografado acaba sempre por desmoronar. cada clique do obturador atinge um ponto vital das defesas, a muralha vai abaixo aos poucos, até que as verdades escondidas lá atrás começam a emergir. não todas as verdades, claro, mas alguns fragmentos delas, junto com o medo do fotografado de que o processo continue até o seu próprio esgotamento. por sorte, quase nunca se chega tão longe. piedoso, o fotógrafo para no último segundo, segura o fotografado quando ele já está prestes a cair no abismo, e tudo mais ou menos se ajeita. mais ou menos. mal refeito do susto, o fotografado suspira, julgando-se livre, enquanto o fotógrafo se afasta, pensando nos "bocadinhos de alma" que carrega dentro da caixa, como o pescador de linha que vai contando os peixes que roubou do cardume.»
josé saramago

«é curioso, e cômico até, quando topamos na rua com um ‘personagem’ que filmamos. como o processo de montagem é muito longo, durando às vezes mais de um ano, conhecemos de cor seus gestos, seus olhos, suas palavras. assim, ao encontrá-lo por acaso na rua, não demoramos a reconhecê-lo que, surpreso, já quase não se recorda de nós».
patrício guzmán

«domingo, sete horas da manhã. ainda não abri os jornais. vejo um dirigente do pt afirmar que «apoiar alexandre de moraes foi um erro». ele prossegue pedindo apoio às investigações. o dirigente, mais uma vez, segue o que dizem as pesquisas de opinião: o apoio a moraes, agora, tira voto. opt elevou o cinismo ao estado da arte. tudo é negociável. tudo é esperteza. tudo é cálculo. não há princípios a defender. dos bolsonaro, não preciso falar. são bandidos perigosos. imprensado no meio disso está o brasil.»
cesar benjamim

terça-feira, 15 de setembro às 20:37

o trabalho me impediu de ver o que aconteceu hoje no st. não tenho lado político-eleitoral nessa questão. defendo a ética e a lei, com a preservação da instituição.

na minha contagem pessoal, acho que o placar está 6 para os “bandidos” e 4 para os “mocinhos”. ninguém precisa concordar comigo.

dias toffoli: foi sócio de daniel vorcaro na propriedade do resort tayayá, usando dois irmãos como laranjas; há fortes indícios de que enviou para o paraíso fiscal das ilhas virgens, ilegalmente, cerca de r$ 35 milhões resultantes desse negócio.

alexandre de moraes: por intermédio de sua esposa viviane de moraes, beneficiou-se de um contrato de cerca de r$ 130 milhões com daniel vorcaro. cerca de r$ 80 milhões foram pagos até hoje em prestações mensais. atuava como conselheiro informal do banqueiro.

luiz fux: recebia, por intermédio do filho, mesada de r$ 500 mil do banco master.

kassio nunes marques: também recebia mesada de r$ 500 mil do banco master por intermédio do filho. deixou uma conta de r$ 10 mil para vorcaro pagar por uma noite com uma garota de programa.

andré mendonça: encontrou vorcaro em 2025, fora das dependências do stf, quando o banco master já era investigado por fraudes. criou o iter, instituto que firmou 68 contratos sem licitação com órgãos públicos, obtendo uma receita de r$ 11,5 milhões. usou a relatoria do caso master para fazer uma divulgação seletiva de informações, de modo a interferir no processo eleitoral.

gilmar mendes: não há acusações contra ele no caso master, mas é considerado o principal articulador de contatos empresariais e relações espúrias na corte. no último fim de semana, em plena crise, descocou-se para a itália para participar da festa de casamento da filha de marcos molina, controlador da marfrig, gigante brasileira do ramo de carnes. é relator da are 1605630, que envolve benefícios tributários à mesma marfrig.

até onde sei, edson facchin, carmen lúcia, flávio dino e cristiano zanin não são acusados de nada. ricardo lewandowski, que se vendeu barato (só r$ 250 mil por mês), já saiu do tribunal.

ou seja, 6 x 4.

do ponto de vista moral, não há mais quórum no stf. em qualquer país sério, por muito menos já estariam todos fora da suprema corte há muito tempo.

eu posso ter perdido alguma informação, e novas revelações podem surgir. mas isso aí está de bom tamanho para avaliarmos o buraco em que nos metemos. em tese, esses são os nossos grandes juristas.

chamem o ladrão.
(idem)


há 7 horas
mariana schreiber
da bbc news brasil no stf em brasília
stf não decide e prolonga a crise: uma visão de dentro do plenário

a crise inédita do supremo tribunal federal persiste, sem qualquer sinal de solução à vista, a menos de três semanas das eleições nacionais.

a sessão histórica realizada nesta terça-feira (15/9) para deliberar sobre a possível abertura de uma investigação sobre a relação do ministro alexandre de moraes e do banqueiro daniel vorcaro foi suspensa por pedido de vista (mais tempo para analisar o caso) do ministro flávio dino, sem que a corte começasse a analisar a questão principal.

os debates foram marcados por bate-bocas entre os ministros e a falta de definições.

na visão do criminalista joão pedro pádua (uff), a suspensão do julgamento deixou a corte em situação ainda mais frágil.

«ficar sem decisão me parece, institucionalmente, o pior dos mundos», disse.

professora de direito constitucional da puc-sp, gabriela zancaner diz que o desfecho da sessão foi altamente prejudicial para o stf e para a nação.

pra não dizer que eu não disse nada sobre o herói da «esquerda» e da «democracia» brasileira


«a massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa.»

george orweel


«de repente senti uma gratidão inesperada pelos meus professores medíocres. os bons professores, eu os acompanhava encantado. surfava nas suas ideias. mas os professores medíocres me irritavam tanto que eu me vi forçado a pensar minhas próprias ideias.»

rubem alves


mamãe, não quero ser prefeito
pode ser que eu seja eleito
e alguém pode querer me assassinar

eu não preciso ler jornais
mentir sozinho eu sou capaz
não quero ir de encontro ao azar

papai, não quero provar nada
eu já servi à pátria amada
e todo mundo cobra a minha luz

oh, coitado, foi tão cedo
deus me livre, eu tenho medo
morrer dependurado numa cruz

eu não sou besta pra tirar onda de herói
sou vacinado, eu sou cowboy
cowboy fora da lei

(raul seixas, 1987)


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terça-feira, 15 de setembro de 2026


viver é prazer
(prazer é escrever)


«a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida»

vinicius de moraes


«a vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. a vida serve para você se criar»

bob dylan


o faze(dor)
ao outro, a borges, é que sucedem as coisas. pouco a pouco vou cedendo-lhe tudo, embora conheça seu perverso costume de falsear e magnificar. spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar em seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra e o tigre um tigre. eu permanecerei em borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros ou do que no laborioso rasqueado de uma guitarra. há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de borges e terei que imaginar outras coisas. assim minha vida é uma fuga e tudo eu perco e tudo é do esquecimento, ou do outro. não sei qual dos dois escreve esta página.
jorge luis borges


autopsicografia

o poeta é um fingidor
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

e os que lêem o que escreve,
a dor lida sentem bem,
não as duas que ele teve,
as só a que eles não têm.

e assim nas calhas de roda
gira, a entreter a razão,
esse comboio de corda
que se chama coração.

fernando pessoa


«sinta mais, pense menos»

bukowski


sentir, penso, logo sinto
sorrir, apesar de tudo, ir fundo
pois o mundo é o mundo
é o mundo, é o mundo

(bicho de 7 cabeças, 1993)


a ilusão do espelho
quem lê um poema de dor acha que o poeta chora enquanto escreve. quem lê um poema de amor jura que ele está apaixonado. mas a verdade é que a poesia é emancipação: o poeta consegue cantar o sol estando na mais profunda tempestade, ou escrever sobre o abismo enquanto toma um café tranquilo em uma tarde de sol. a palavra vira poesia; a vida segue seu próprio rumo.
grill


todo dia eu saio por aí tentando descobrir
o que ninguém já houvesse descoberto algum dia
thomas edson já descobriu a luz
beethoven a nona sinfonia
jesus cristo descobriu a cruz
os poetas descobriram a poesia, desista
pedro álvares cabral já descobriu o brasil
pelé já fez de gols pra lá de mil, desista
os blacks descobriram o blues
os palhaços descobriram a alegria
casanova descobriu como seduz
tem gente bem na frente
já faz tempo já faz dias, desista
até você meu bem foi descoberta
mas vou cobri-la para que não sintas frio
nua debaixo dessa coberta
porque quem descobriu já descobriu

(bicho de sete cabeças, 1993)


ao vento

viver é prazer
se viver é esforço
e esforço é sofrer
eu quero morrer

grill


sei que vou morrer, não sei o dia
levarei saudades da maria
sei que vou morrer não sei a hora
levarei saudades da aurora

quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba
quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba
quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba

(ataulfo alves por itamar assumpção - pra sempre agora, 1996)


antes do fim


«o dom você o tem. nunca se esqueça.»

johnny cash

1. escrever me faz bem, me mantém sóbrio, me mantém vivo.

2. o que determina meu estado de espírito não é o conteúdo do que escrevo e sim a frequência com que escrevo.

3. quanto mais escrevo, melhor eu me sinto.

repetindo: não importa o que escrevo, o que importa é estar escrevendo. não importa o que digo, o que importa é estar dizendo.
quando digo escrever
digo viver
o corpo envelhece,
o cabelo embranquece
mas a palavra permanece.

o que o poeta escreve é alquimia,
não biografia.

agora volto ao meu ser:

dentro de mim há um mundo nascendo, fora de mim há um mundo morrendo.

como resolvo essa contradição?

escrevendo.


viver é prazer
prazer é escrever
e agradecer


fui dotado com uma voz de ouro,
e os meus amigos se foram, meu cabelo já embranqueceu,
eu me dou mal no negócio em que os outros se dão bem,
mas estou entregue ao amor e pago o aluguel todo dia
na torre da canção.

(leonard cohen, 1988)


«o eu não é senhor na sua própria morada.»

sigmund freud | uma dificuldade no caminho da psicanálise, p. 171.


casa de poeta não tem porta

pagar aluguel significa ser inquilino do próprio dom.
o dom cobra aparição e produção;
exige exposição.
a poesia não pertence ao poeta — pertence ao dom.
o poeta é a casa por onde a poesia passa,
o vento entra,
a vida passa,
o poeta é só vidraça:
o mistério bate e racha.

grill


há uma rachadura, uma fenda em tudo
é assim que a luz entra

(the future, 1992)


tela: bob dylan


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas