sexta-feira, 14 de agosto de 2026


PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO REI
[eu que tanto tenho compartilhado canções suas]

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recado

anos atrás, envolvi-me — isto é, deixei-me envolver — em uma discussão no facebook por causa de caetano. o cidadão com quem travei um extenso e acalorado debate, cujo nome não vou revelar (mas adianto que é um nome americanizado), pensa ser o mais revolucionário dos revolucionários da esquerda brasileira. segundo ele, caetano é um alienado, um desbundado, um entreguista. mas o pior para esse cidadão — e para grande parte da inteligente e engajada esquerda nacional — é a admiração de caetano pelo rei. para os que pensam como ele, caetano já mandou seus recados há muito tempo. ou melhor, os avisos foram dados na mesma velocidade com que a sábia e hegemônica esquerda brasileira parou no tempo.

grill

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👉 recado1



👉 recado 2


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«entre o que penso, o que quero dizer, o que eu digo e o que você ouve, o que você quer ouvir e o que você acha que entendeu, há um enorme abismo.»

alejandro jodorowsky

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tente outra vez

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verdade tropical

no livro verdade tropical, caetano veloso conta que em 1969, recém-exilado em londres com gilberto gil, ele entrou em depressão. um dia, a mulher de gil disse a ele que roberto carlos estava na cidade e iria visitá-los! a presença do rei (expressão usada por ele) trouxe a lembrança de um brasil que eles queriam lembrar.

em 1966, em plena guerra entre a mpb dos violões e a jovem guarda das guitarras, bethânia recomendou a caetano ver o programa de roberto que, segundo ela, tinha a vitalidade perdida na mpb engajada, pós-bossa-nova.

caetano levou com gal as guitarras para a tropicália e abriu para o rei o respeito de um grupo de ouvintes — entre eles, eu —, que simplesmente o ignoravam por preconceito.

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de volta ao encontro

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com violão à mão, caetano mostrou ao rei, a música london london.

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estou vagando sem rumo, sem ter para onde ir me sinto sozinho em london, londres é tão linda assim atravesso as ruas sem medo todo mundo abre caminho eu sei, eu sei que não há ninguém aqui para me cumprimentar eu sei que todos abrem caminho me sinto sozinho em londres, sem medo estou vagando sem rumo por aqui, sem ter para onde ir enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu ah, domingo, segunda-feira, o outono passa por mim e as pessoas correm tão tranquilamente um grupo se aproxima de um policial ele parece tão feliz em atendê-los pelo menos é bom viver, e eu concordo ele parece tão satisfeito, pelo menos e é tão bom viver em paz e domingo, segunda-feira, anos, e eu concordo enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu não escolho nenhum rosto para olhar, não escolho nenhum caminho acontece que estou aqui, e tudo bem grama verde, olhos azuis, céu cinza deus abençoe a dor silenciosa e a felicidade vim até aqui para dizer sim, e eu digo grama verde, olhos azuis, céu cinza deus abençoe a dor silenciosa e a felicidade vim até aqui para dizer sim, e eu digo

mas meus olhos procuram discos voadores no céu sim, meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu ah, meus olhos procuram discos voadores no céu sim, meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu ah, meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu sim, meus olhos procuram discos voadores no céu

👇

[áudio oficial]

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impressionado, o amigo pediu para caetano escrever algo pra ele. por sua vez, o rei tocou algumas músicas que sairiam em seu disco no final do ano. caetano achou linda a música, sua estupidez. disse que ficaria bem na voz de gal costa.

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meu bem, meu bem use a inteligência uma vez só quantos idiotas vivem só sem ter amor
e você vai ficar também sozinha e eu sei porque sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo

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[gal costa e som imaginário - programa ensaio 1970]
precedida por depoimento de tom zé, uma explosiva declaração de amor

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quando o rei cantou as curvas da estrada de santos, caetano entrou em pranto. amparado por gil e todos que estavam presentes, ficava claro o desconforto e sofrimento que ele estava passando em não poder voltar pra casa.

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se você pretende saber quem eu sou eu posso lhe dizer entre no meu carro na estrada de santos e você vai me conhecer

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[áudio oficial]

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o encontro acabou algum tempo depois. a música pedida por roberto apareceu no disco do cantor que saiu em dezembro de 1971. apesar de linda, como dois e dois era uma das músicas com a letra mais pesada que ele já havia gravado.

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quando você
me ouvir cantar
venha não creia
eu não corro perigo
digo, não digo, não ligo
deixo no ar
eu sigo apenas
porque eu gosto de cantar

tudo vai mal, tudo
tudo é igual
quando eu canto
e sou mudo
mas eu não minto, não minto
estou longe e perto
sinto alegrias
tristezas e brinco

meu amor!
tudo em volta está deserto, tudo certo
tudo certo como dois e dois são cinco

quando você
me ouvir chorar
tente não cante
não conte comigo
falo, não calo, não falo
deixo sangrar
algumas lágrimas bastam pra consolar

tudo vai mal
tudo, tudo, tudo, tudo
tudo mudou
não me iludo e contudo
a mesma porta sem trinco
mesmo teto, mesmo teto
e a mesma lua a furar nosso zinco

meu amor!
tudo em volta está deserto, tudo certo
tudo certo como dois e dois são cinco

meu amor! meu amor! meu amor!
tudo em volta está deserto tudo certo
tudo certo como dois e dois são cinco
são cinco, são cinco

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[caetano & roberto]

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e os caracóis do cabelos:
o que havia debaixo deles?

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não sei se o povo brasileiro — que a inteligente e engajada esquerda nacional adora tratar como um eterno e ignorante analfabeto — entendeu o recado. o fato é que debaixo dos caracóis dos seus cabelos foi a segunda música mais executada do disco ao longo de 1972, ficando atrás apenas de «detalhes». terna e doce, a canção dizia...

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um dia a areia branca
teus pés irão tocar
e vai molhar seus cabelos
a água azul do mar
janelas e portas vão se abrir
pra ver você chegar
e ao se sentir em casa
sorrindo vai chorar

debaixo dos caracóis dos seus cabelos
uma história pra contar
de um mundo tão distante
debaixo dos caracóis dos seus cabelos
um soluço e a vontade
de ficar mais um instante

as luzes e o colorido
que você vê agora
nas ruas por onde anda
na casa onde mora
você olha tudo e nada
lhe faz ficar contente
você só deseja agora
voltar pra sua gente

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[caetano veloso ao vivo]

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alegria alegria

caetano e gil seriam autorizados a retornar em 1972. chico anysio negociou veladamente o retorno com as autoridades da época.
o resultado musical daquele encontro em londres entre gil, caetano e o rei, apesar de doído, foi musicalmente sensacional. coisas daquela época mágica em que músicas maravilhosas brotavam de sentimentos tanto de tristezas como de alegrias.

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caminhando contra o vento
sem lenço e sem documento
no sol de quase dezembro
eu vou

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[do documentário: uma noite em 67]

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ao vento

quem me acompanha
pelos meus textos
desde o facebook
sabe perfeitamente o que penso da esquerda brasileira
mas não custa repetir
a esquerda brasileira
sobretudo a hegemônica
é velha, burra e acomodada
por quê?
porque segue com o mesmo discurso
e a mesma prática do século passado
acreditando que
via institucional
isto é
através de eleições
num sistema de democracia representativa
é possível mudar o cenário caótico em que vivemos

não é de hoje que digo
que essa forma de fazer política
é velha e ultrapassada
que é preciso criar algo novo
que nos encante
que nos entusiasme
que nos apaixone
todavia
na esquerda brasileira
não são muitos os que comungam com essa forma de pensar
pelo contrário
a maioria faz pouco caso
como se eu vivesse num mundo de fantasia
e estivesse flanando
devaneando
fazer o quê?!

grill

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— e agora, o que faremos?
— poesia, esses canalhas não suportam poesia

rafael corrêa

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maiakóvski, o poeta da revolução

poeta hiperbólico, político e lírico ao mesmo tempo, foi defensor fervoroso da revolução, mas também acusado de ser incompreensível para as massas e excessivamente pessoal. maiakóvski era um escritor em guerra contra a vida cotidiana, cuja imaginação era tão larga que poderia redefinir a família como composta por um pai, «no mínimo o mundo», e uma mãe que fosse «no mínimo a terra».

larissa drigo agostinho, mestre e doutora em literatura pela universidade de paris iv-sorbonne.

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«amor é tudo o que move»

gilberto gil

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o amor

um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
vosso trigésimo século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
ressuscita-me!
quero viver até o fim o que me cabe!
para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
e que, ao primeiro apelo:
— camaradas!
atenta se volte a terra inteira.
para viver
livre dos nichos das casas.
para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o universo;
a mãe,
pelo menos a terra.

vladimir maiakóvski (1893 - 1930)

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em agosto de 1971, um ano antes de retornar definitivamente de seu exílio para o brasil, caetano veloso visitou o país para um encontro histórico. ao lado de gal costa e joão gilberto — uma de suas maiores influências musicais —, o artista participou de um especial realizado pela extinta tv tupi.

dez anos mais tarde, em 1981, essa parceria com o mestre se repetiu no álbum brasil, de joão gilberto. o disco foi lançado pela gravadora wea e contou também com as participações de gilberto gil e maria bethânia.

paralelamente ao lançamento do álbum, estreava a peça o percevejo, do poeta russo vladimir maiakóvski. o espetáculo trazia dedé veloso no elenco como atriz e contava com poemas traduzidos e adaptados pelo próprio caetano. um deles, a canção «o amor», tornou-se um grande sucesso na voz de gal costa.

[áudio oficial]

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de volta a caetano

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se podes olhar, vê; se podes ver, repara: caetano voltou ao brasil, há 54 anos, em 10 de janeiro de 1972, e até hoje a inteligente e engajada esquerda brasileira ainda não o entendeu.

lembrei de tom zé...

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veja que beleza
em diversas cores
veja que beleza
em vários sabores
a burrice está na mesa

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[com defeito de fabricação]

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📷 eu | minifúndio café | pelotas, 2007

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#américas


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

 

ato de fé — cuba agoniza mas não morre

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«condene-me, não importa, a história me absolverá.»

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«uma revolução não é um leito de rosas. uma revolução é uma luta até a morte entre o futuro e o passado.»

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«se queremos falar como queremos que sejam nossos combatentes revolucionários, nossos militantes, nossos homens, devemos dizer sem hesitação de nenhuma espécie: que sejam como o che!»

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«o que não nos perdoam os imperialistas é que tenhamos feito uma revolução socialista nas próprias barbas dos estados unidos.»

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«minha barba significa muitas coisas para o meu país. quando tivermos cumprido nossa promessa de um bom governo, farei a barba»

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«comecei a revolução com 82 homens. se tivesse que fazê-lo de novo, faria com 10 ou 15 e fé absoluta. não importa quão pequeno seja, se tiver fé e plano de ação.»

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todas as frases são de fidel

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creio em ti,
como creio quando cresce
quanto se sente e se sofre
ao olhar ao redor.

creio em ti ,
e fico feliz que o amanhã,
visto pela minha janela,
nunca seja igual a hoje.

creio em ti,
porque mesmo dando-me desgostos
o queriéndome mucho,
siempre vuelvo a ti.

creio em ti,
cheio de contradições,
pronto para soluções,
sempre creio em ti.

creio em ti,
porque nada é mais humano
do que prenderse de tu mano
e caminhar acreditando em ti.

creio em ti,
assim como creio em deus,
que és tu, que sou eu,
em ti, revolução.

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pablo milanés ao vivo no brasil
[com chico buarque de havana]
canecão rio de janeiro
novembro de 1983

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repecho, dezembro de 2016

havia pouco que eu tinha entrado no facebook quando meu camarada, eduardo menezes, me mandou uma mensagem. perguntou se eu podia escrever um artigo para o jornal o troco, do sindicato dos bancários, sobre os 90 anos de fidel. não precisei nem pensar. agradeci a lembrança e escrevi o texto de uma só vez.

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fidel não é deus
[deus não existe]

por enilton grill
jornal o troco
dezembro de 2016

há quem diga que, para nós da esquerda, fidel é deus.
há quem diga que, para nós da esquerda, cuba é um paraíso.
nós dizemos que nada disso é verdade.
fidel não é deus porque deus não existe;
e cuba não é um paraíso porque no paraíso não há guerra.

fidel não é deus, mas sobreviveu a 637 atentados; cuba não é um paraíso, mas tem o melhor sistema de educação e de saúde pública da américa latina e do caribe, e um dos melhores do mundo.

tudo isso, no entanto, não foi de graça: «não precisamos que o império nos dê nenhum presente», disse fidel após a visita de obama a cuba.

de 1959 até hoje, foram mais de 50 anos de bloqueio e de guerra — de guerra contra um império. durante esses anos todos, cuba sobreviveu a dez presidentes dos estados unidos. e isso não foi obra de deus. fidel não é deus. deus não existe.

poderia passar o resto dos meus anos escrevendo sobre os ataques dos estados unidos a cuba e de como fidel e os cubanos os enfrentaram e os derrotaram. mas não é o caso. não é hora e não há espaço.

não posso deixar de dizer, porém, que em cuba os ianques não só organizaram bandos mercenários, como também introduziram armas e explosivos, treinaram homens, fizeram sabotagens, impulsionaram a contrarrevolução por todos os meios, realizaram ataques piratas contra os portos e contra os barcos; durante anos, organizaram expedições mercenárias e levaram a cabo invasões e bombardeios.

mas fidel resistiu; e, em meio ao fogo cruzado, ainda encontrou tempo para mostrar ao mundo talvez sua faceta mais bonita: a solidariedade.

o que teria sido de angola sem os 50 mil cubanos que a defenderam contra os racistas da áfrica do sul a troco de nada? o que teria sido da nicarágua sem os médicos, os professores e os técnicos que, a troco de nada, foram de cuba para lá? «em quantos países os cubanos foram os primeiros a chegar, a troco de nada, na hora de enfrentar uma peste, um furacão ou um terremoto?», pergunta galeano.

e o que seria do mais médicos, aqui no brasil, não fosse o apoio dos médicos cubanos?, pergunto eu.

a verdade é que todos nós devemos muito do que somos a fidel.

fidel foi aquele que apontou o caminho e mostrou como se faz para chegar. e isto não é pouco; pelo contrário, é muito.

é muito, mas não é tudo.

a revolução de fidel não foi a revolução das liberdades. quem sabe um dia façamos nós aquilo que fidel não fez. quem se habilita?

no entanto, é bom lembrar: com um gigante a acossá-lo, fidel fez o que podia fazer. e tem mais: se não fizesse como fez, não faria tudo o que fez.

em cuba não existe nenhum descalço, nenhum analfabeto, nenhum faminto. cuba é hoje o que é: uma nação solidária, com o melhor sistema de saúde pública, com a melhor educação do continente, sem uma criança sequer dormindo na rua porque fidel foi o que foi, e fidel foi o que tinha de ser. «o homem é o homem e sua circunstância», diria ortega y gasset.

fidel não é deus, deus não existe. fidel é fidel:
para os cubanos, mel; para os ianques, fel.

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falando em deus
lembrei do deus de espinosa

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einstein, quando perguntado se acreditava em deus, respondeu:
— acredito no deus de spinoza que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no deus que se interessa em premiar ou castigar os homens.

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pra não dizer que não falei de flores

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tudo que aqui ele deixou
não passou e vai sempre existir
flores nos lugares que pisou
e o caminho certo pra seguir

(teria sido psicografada por chico xavier)
com letra e imagens

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pergunta que não quer calar:
e se cristo voltasse?

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«se cristo voltasse, nós o crucificaríamos novamente. mas desta vez, na televisão. por uma temporada, nós o transformaríamos em um astro, o maior fenômeno de massa já visto, e então o jogaríamos fora como um lenço de papel usado.»

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«se cristo voltasse, apareceria um judas que o trairia, um pedro que o negaria três vezes, um tomé que colocaria os dedos em sua ferida após sua morte, um pilatos que lavaria as mãos e um barrabás que, sem nenhum mérito, seria preferido a ele pela chusma (1) que todos nós somos. uma chusma veleta (2), que mais uma vez gritaria para que ele fosse crucificado.»

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JESÚS QUINTERO: SE CRISTO VOLTASSE
(legendado en español)
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1. conjunto o multitud de gente grosera o vulgar. la chusma.
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2. peça de metal, geralmente em forma de seta, que é colocada no topo de um edifício, de modo que possa girar em torno de um eixo vertical impulsionada pelo vento, e que serve para indicar a direção do mesmo.

© real academia española, 2024.

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canção de mim mesmo

o passado e o presente definham .... já os enchi e esvaziei,
passo a encher minha própria dobra do futuro.

vocês que me escutam aí em cima! você aí ....
algum segredo para me contar?
me encare enquanto assopro o discreto poente,
seja sincero, ninguém está te ouvindo,
só vou ficar mais um minuto.

eu me contradigo?
tudo bem, então .... me contradigo;
sou vasto .... contenho multidões.

me concentro nos que estão perto .... espero na porta.

quem terminou o batente e vai jantar mais cedo?
quem quer passear comigo?

você vai falar antes que eu vá embora?
ou virá quando já for tarde demais?

o falcão pintado dá uma rasante sobre mim e me acusa ....
reclama de minha conversa fiada, minha preguiça.

também não sou facilmente amestrado ....
também não sou facilmente traduzível,
solto meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo.

a última nuvem do dia se demora por mim.

lança minha semelhança após o resto,
fiel como todas nos ermos sombrios,
me incita para o vapor e para o crepúsculo.

vou-me feito vento .... agito meus cabelos brancos
contra o sol fugitivo,
esparramo minha carne em redemoinhos
e a deixo flutuar em retalhos rendados.

me entrego à terra pra crescer da relva que amo,
se me quiser de novo me procure sob a sola de suas botas.

vai ser difícil você saber quem sou
ou o que estou querendo dizer,
mas mesmo assim vou dar saúde,
vou filtrar e dar fibra a seu sangue.

se não me encontrarem logo, paciência,
se eu não estiver num lugar, procurem-me outro,
em algum lugar, estarei à espera.

walt whitman

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señor, señor, vamos desconectar estes cabos,
derrubar estas mesas.
este lugar já não tem nenhum sentido pra mim.
pode me dizer o que estamos esperando, señor?

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SEÑOR | BOB DYLAN | 1978
(letra ing / esp)

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não ao bloqueio
viva cuba
viva o povo cubano
viva fidel
viva a revolução

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#américas

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 

casa de poeta não tem porta 

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«deem-me um poema! um só!
e eu já moverei o mundo!»

martim césar

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o contador de histórias

a história que comecei a contar outro dia e não terminei, tem a ver com a história que conto hoje aqui. 

senão vejamos: o que espinosa e os hippies tinham em comum? ambos sabiam — cada um a seu modo e no seu tempo — que a vida acontece na mesma substância: a natureza, o afeto, a alegria de estar junto. ambos recusaram o dogma para abraçar o livre existir.

foi esse mesmo espírito que levou bob dylan, em 1975, a passar uma temporada na frança, encontrar um festival itinerante que cruzava por les saintes-maries-de-la-mer e comemorar seu aniversário de 34 anos em uma tenda cigana. hoje não sei por onde ele anda, tanto pode estar numa choupana quanto numa mesquita muçulmana, em meio a uma caravana ou participando de uma cerimônia palaciana. o lugar não importa. casa de poeta não tem porta. é isso que uma tarde com amigos oferta — para homens com estrela a porta está sempre aberta.

grill

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«lendo os textos extremamente poéticos do amigo grill, profundos, provocadores, sensíveis, sem represas, sem amarras, vi a frase que inspirou este poema (habitantes de passárgada). não consegui me libertar dela, creio que ela não quis que eu me libertasse até que se fizesse poesia... é como se a casa se materializasse só pelo tempo necessário para engendrar o poema. gracias, hermano»

martim césar

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habitantes de passárgada

casa de poeta não tem portas
pois palavras não são paredes!...
são rios que sempre têm sede
e extravasam as comportas

não detêm sua correnteza
nem as muralhas mais fortes
nem mesmo quando as represas
dividem a vida e a morte

casa de poeta não tem portas
senão para que serviria?
só para abrigar em linhas tortas
a passagem reta dos dias?

nessa construção sem janelas
sem trancas, sem fechaduras
mora o sol das noites belas
o luar das noites escuras

mas só o amor cruza os limites
dessas estranhas moradas
sem licença e sem convite
sem deixar hora marcada

e não importa qual amor
se a um alguém ou à natureza
se é de esperança ou de dor
se é de alegria ou tristeza

então as frases certeiras
com asas de sentimento
bordam o colar das estrelas
colhem a rosa dos ventos
é quando o coração verte vinho
preso de uma estranha magia...
e as palavras encontram seu ninho
para transformar-se em poesia...

martim césar

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«minha vida é uma vida feita de todas as vidas: as vidas do poeta.»

pablo neruda

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minha vida, minha vida, o mundo e a cor.
minha vida, minha vida, silêncios e canção.

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o rei chorou

um rei — disfarçado, é claro — costumava dar uma volta em sua cidade todas as noites. ele estava muito intrigado com um homem, com aparência de mendigo, que estava sempre sentado, todas as noites, sob uma mesma árvore à margem de uma rua. finalmente, a curiosidade venceu, e o rei parou seu cavalo diante do homem:
— por que você não vai dormir?
— as pessoas vão dormir porque não têm nada para guardar, e eu tenho tantos tesouros que não posso dormir. tenho de guardá-los.
— estranho, não vejo nenhum tesouro aqui.
— os tesouros estão dentro de mim. o senhor não pode vê-los.
o rei partiu, mas voltava todas as noites, porque o homem o intrigava e aquilo que havia dito fizera o rei pensar durante horas. o rei tornou-se tão ligado e interessado no homem que começou a achar que ele era realmente um santo, porque a consciência, o amor, a paz, o silêncio e a iluminação eram os tesouros que ele estava guardando. ele não conseguia dormir, não podia se dar esse luxo. apenas os mendigos podem.
pouco a pouco, o rei começou a respeitar e honrar o homem quase como um guia espiritual. um dia, disse-lhe:
— sei que você não irá comigo ao palácio, mas penso em você todos os dias. você me vem à mente muitas vezes. gostaria que pudesse ir ao meu palácio.
o rei achava que o homem não iria concordar, conforme a velha ideia de que os santos renunciam ao mundo, mas o homem disse:
— se o senhor sente tanto a minha falta, por que não me chamou antes? traga outro cavalo e eu irei com o senhor.
o rei ficou desconfiado: «que tipo de santo é esse, que se mostraria tão acessível?». mas agora era tarde demais, ele já tinha convidado. deu-lhe seu melhor quarto no palácio, reservado apenas para convidados especiais e outros reis, pensando que o homem iria recusar, dizendo: «sou um santo e não posso viver nesse luxo». mas o homem não disse nada desse tipo. ele disse: «muito bom.»
o rei não conseguiu dormir, achando que fora enganado e que o homem não era um santo. duas ou três vezes, ele foi olhá-lo pela janela, e o santo estava dormindo. mas, antes, ele nunca dormia! ficava sempre sentado debaixo da árvore guardando seu tesouro. o rei pensou: «fui enganado. este homem é um charlatão.»
no segundo dia, comeu com o rei todos os alimentos deliciosos, sem comedimento, e adorou a comida. o rei ofereceu-lhe novas roupas, dignas de um imperador, e ele amou as roupas. o rei já pensava em como se livrar do charlatão que o enganara. no sétimo dia, o rei disse àquele estranho homem:
— quero lhe fazer uma pergunta.
— sei qual será a sua pergunta. o senhor quis formulá-la há sete dias, mas, por cortesia e boas maneiras, manteve-a reprimida. eu o estava observando. mas não vou respondê-la aqui. o senhor pode me fazer a pergunta e então sairemos para uma longa caminhada. escolherei o lugar certo para respondê-la.
— muito bem. minha pergunta é: qual é a diferença entre você e eu? você está vivendo como um rei, mas costumava ser um santo. agora não é mais um santo.
— mande preparar os cavalos!
eles saíram. e o rei lembrou-o muitas vezes da pergunta que fizera. finalmente, chegaram ao rio que marcava o limite do seu reino.
— chegamos ao fim dos meus domínios. o outro lado do rio pertence a outro reino. este é um bom lugar para me responder.
— sim, eu já vou embora. o senhor pode levar os dois cavalos de volta ou, se quiser, pode vir comigo.
— aonde você vai?
— meu tesouro está comigo. aonde eu for, meu tesouro ainda estará comigo. o senhor virá comigo ou não?
— como posso ir com você? meu reino, meu palácio, o trabalho da minha vida toda estão atrás de mim.
o estranho riu e disse:
— agora o senhor vê a diferença? eu posso ficar nu debaixo de uma árvore ou posso viver em um palácio como um rei porque meu tesouro está dentro de mim. se estou sob uma árvore ou no interior de um palácio não faz diferença. então, o senhor pode voltar, mas eu vou para o outro reino. não vale mais a pena permanecer em seu reino.
o rei se sentiu arrependido.
— perdoe-me. pensei coisas erradas sobre você. você é realmente um grande santo. não vá, não me deixe assim; do contrário, esta ferida vai doer durante toda a vida.
— isso não é difícil para mim. posso voltar com o senhor. mas no momento em que chegarmos ao palácio essa pergunta vai surgir de novo em sua mente. então é melhor me deixar ir. eu posso lhe dar um tempo para pensar. eu posso voltar. para mim, isso não faz diferença. mas para o senhor é melhor que eu saia do reino. pelo menos o senhor vai pensar em mim como um santo. se eu voltar ao palácio, o senhor vai voltar a suspeitar que sou um charlatão. mas, se insiste, estou pronto. posso partir daqui a sete dias, quando a pergunta novamente se tornar pesada demais para o senhor.

osho (bhagwan shree rajneesh)

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lembro-me de uma vez,
em um país antigo,
um rei falou com um camponês.
ele disse: «ofereço-te luxos e prazeres
se você me ensinar a viver feliz».
o humilde homem
respondeu: «não posso,
não posso te ensinar a viver feliz.
você, com seu dinheiro, luxos e prazeres,
jamais poderá viver feliz».
o rei chorou
e contou-lhe sua dor.

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canta: león gieco

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falando em dor
lembrei de frida

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«pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade.»

«agora, vivo num planeta dolorido, transparente como o gelo. é como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.»

«no fim das contas, podemos aguentar muito mais do que imaginamos.»

frida kahlo

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balada de abraçar

abraço você, meu irmão
meu irmão de vida
meu irmão de frida

grill

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falando em frida
lembrei de quixote

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«nisto, descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento e disse dom quixote: — não vês ali, amigo sancho, desaforados gigantes? — não são gigantes, mas moinhos de vento — respondeu sancho. — são gigantes, e se tens medo fica de lado — disse quixote, que investiu contra o primeiro, partiu a lança e foi rolando pelo chão. — não lhe disse eu que eram moinhos? — disse sancho. — cala-te, que as coisas da guerra mudam, e o mágico tornou os gigantes em moinhos, para me roubar a glória de vencê-los — respondeu quixote.»

cervantes

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balada de abraçar

abraço você, meu irmão
meu irmão de morte
meu irmão quixote

grill

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enfim, termina o sonho, voltaste a ser quijano
e a morte que te ronda é a de todo ser humano
e a sorte que te espera é a de todos os mortais

enfim, tudo se acaba e assim também a aventura
daquele heroico cavaleiro nem recordas a figura
aqueles dias memoráveis não regressarão jamais

e, no entanto, o que importa tua tardia lucidez
se o mundo sempre vai lembrar a altiva insensatez
de um louco que sonhou ser um sonho a realidade

teu nome dom alonso será apagado pelo vento
mas dom quixote viverá muito além do esquecimento
além de ti, além de mim, enquanto houver humanidade

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DON QUIJOTE DE LA MANCHA | CAMINHOS DE SI
jaguarão, 27 de maio de 2011
adaptação da obra de cervantes para o teatro feita por jorge passos e martim césar com a montagem do grupo alas de cervantes em 2001.

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e assim andamos...

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gente de minha rua
como eu andei distante
quando eu desapareci
ela arranjou um amante
minha normalista linda
ainda sou estudante
da vida que eu quero dar


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se podes olhar, vê; se podes ver, repara:
«ela», [a utopia]

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«o verbo dar é o melhor verbo do mundo.»

atahualpa yupanqui

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em cali, colômbia (1964) um jornalista finaliza a entrevista com esta pergunta: - se estivesse ameaçado por um ataque de amnésia, afonia e paralisia; e além do mais um incêndio ameaçasse destruir toda sua obra escrita e gravada e só lhe fosse concedido salvar uma canção para a posteridade, qual de suas obras salvaria? responde atahualpa:
nesse terrível caso não salvaria nada meu. só um verso que sendo de todos, é meu também:

moeda que está na mão,
quiçá se deva guardar.
moeda que está na alma,
se perde se não se dá.


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e pelo(s)
e para o(s)
habitantes de passárgadas

uma só palavra gasta,
porém reluzente como uma velha moeda:
obrigado!

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#casadosaedos
#américas

terça-feira, 11 de agosto de 2026


traumas

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janela da alma

janela da alma é um documentário dos diretores brasileiros joão jardim e walter carvalho. a ideia surgiu da vivência do diretor joão jardim, que achava que o fato ter uma miopia muito grande teria influenciado em sua personalidade e até mesmo em sua vida.

entre os entrevistados estão josé saramago, manoel de barros, eugene bavcar, agnès varda e wim wenders (dentre tantos outros).

curioso observar aqui que a «cegueira» vai para muito além da oftalmológica.

e eis que os mitos milenares (alegoria da caverna - a república - platão) deixam de ser mitos, para tornarem-se realidade, ainda que em um mundo de ilusões.

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josé saramago e wim wenders - caverna de platão e as ilusões
[«janela da alma» (doc 2001) - fragmento (5:50)]

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traumas

traumas, de roberto carlos, é uma canção profundamente autobiográfica e dolorosa, lançada no icônico álbum de 1971. na obra, o compositor quebra o silêncio e usa a arte como desabafo para enfrentar o maior tabu de sua vida: o gravíssimo acidente de trem sofrido na infância, aos seis anos de idade, que resultou na amputação de parte de sua perna direita.

através de versos melancólicos, a letra descreve «anjos que eu conheci no delírio da febre que ardia», uma referência sutil às memórias de hospital, ao sofrimento físico e à perda precoce da inocência. a composição também expõe o contraste sensível entre a tentativa dos pais de «enfeitar" a realidade com fantasias e o peso real dos calos que a vida adulta impõe».

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meu pai um dia me falou
pra que eu nunca mentisse
mas ele também se esqueceu
de me dizer a verdade


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a verdade dividida

a porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
e sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
e os meios perfis não coincidiam.

arrebentaram a porta. derrubaram a porta.
chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
nenhuma das duas era perfeitamente bela.
era preciso optar. cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

carlos drummond de andrade

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ilusão
ilusão
veja as coisas como elas são
a fortuna
a roda
o raio
a imensidão

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as cartas | chico buarque (1984)

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além do horizonte

por oliver harden

«há algo de profundamente enigmático na união silenciosa entre o mar e o crepúsculo, como se duas entidades cósmicas, há milênios separadas, reencontrassem-se a cada fim de dia para renovar um pacto secreto. o mar, com sua respiração líquida e seu murmúrio ancestral, guarda em si a memória dos abismos e dos nascimentos, o rumor das marés que conheceram o surgimento da vida e a dissolução de impérios. o crepúsculo, por sua vez, é o instante em que o tempo se inclina, como um ponteiro fatigado, e os contornos do mundo se desfazem em tonalidades que nenhum pincel ousaria inventar.

quando ambos se encontram, dá-se um rito que não pertence nem à terra nem ao céu, mas a uma zona liminar onde a luz se curva diante da água e a água se entrega ao abraço da luz. é nesse instante que o horizonte deixa de ser mera linha e torna-se uma ferida aberta entre dois infinitos, por onde o olhar se perde e o espírito se dilata.»

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além do horizonte deve ter
algum lugar bonito pra viver em paz
onde eu possa encontrar a natureza
alegria e felicidade com certeza

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por jota quest
(vídeo oficial)

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de uns tempos para cá, dei para escancarar algo que a vida inteira procurei esconder e disfarçar. refiro-me ao meu estrabismo. na infância até que não. na infância o problema eram os óculos, ou melhor, o bullying que eu sofria por causa deles. na adolescência é que tudo mudou. não queria usar óculos e não queria parecer estrábico. impossível. ou uma coisa ou outra. ou eu usava óculos e não parecia estrábico ou eu (a)parecia estrábico e não usava óculos. quando completei 18 anos, busquei resolver o dilema fazendo cirurgia. foi esforço em vão. passados alguns dias do procedimento, o olho direito voltou a desviar. meu caso, porém, parece não ser algo que preocupe os médicos. conhecida como o tipo de estrabismo divergente, a exotropia intermitente é um desvio ocular que não se manifesta a todo instante. com o passar dos anos, entretanto, esse estrabismo pode descompensar e o paciente manter os olhos desviados a todo momento --- o que, cá entre nós, se eu ainda sei me olhar, é o que eu acho que está acontecendo comigo. «nada demais», dirá você que me lê. sim, eu sei, o dilema é meu (meu comigo mesmo). mas não é porque o fardo é só meu que ele deixa de existir. o poeta que o diga:

«a nós nos bastem nossos próprios ais,
que a ninguém sua cruz é pequenina.
por pior que seja a situação da china,
os nossos calos doem muito mais...».

doem mesmo. lembro de um colega do cfc que adorava contar a história de quando fazíamos o trajeto de rio grande para pelotas. para fazer o curso de instrutor no senac, eu ia de ônibus, mas costumava voltar de carona com ele. numa dessas voltas, o para-brisa do fusca estourou na estrada e, quando chegamos, eu estava com os cabelos em pé e os olhos arregalados. ao falar dos meus olhos, ele dava um sorriso irônico. ninguém dizia uma palavra. nem precisava.

doía?
doía.
e tu fazia o quê?
eu levantava e continuava... vou fazer o quê?

na sequência, como instrutor de trânsito, uma das provações mais difíceis que vivi foi encarar os alunos em sala de aula. foram dez anos seguidos, nos três turnos – manhã, tarde e noite –, enfrentando a média de 20 a 30 alunos por turma, todos com os olhares voltados para mim --- para mim e para o meu estrabismo.

lembro-me de uma vez em que respondi a uma pergunta de um aluno olhando para outro. o aluno, para quem eu olhava, esperou eu terminar de responder e falou:

— professor, eu não perguntei nada.

entre piadas, sorrisos constrangidos e sonoras gargalhadas, engoli em seco e segui dando minha aula... fazer o quê?

no final daquele curso, foi a primeira vez que fui aplaudido de pé. desde então, reforcei a convicção de que a adversidade me é positiva. isto é, que navego melhor contra a maré.

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dito isto
vamos ao que importa
minha terapia é escrever
não em linha reta
mas com a corda esticada
que é por onde ando
rumo à casa do poeta
que é sem porta
se ainda posso ver
está escrito em minhas mãos
se ainda sei ler
as linhas são infinitas e tortas

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«queria falar-te de tudo
contudo,
tudo o que posso falar-te
não é tudo...
é apenas uma parte»

martim césar

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«o óbvio não guarda segredos. o texto tá atrás do texto»

marcos magah

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«claras palavras não cabem às claras.»

nelson coelho de castro

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– e agora, o que faremos?
– poesia, esses canalhas não suportam poesia.

rafael corrêa

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«o silêncio é tudo
o resto é uma parte»

autor desconhecido

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repecho, 2019
[escrito no face]

domingo, oito da manhã, fui à venda aqui perto buscar café. quando cheguei, vi duas carroças e três bicicletas estacionadas. de fora dava para ouvir o alarido; a conversa estava animada. de repente, do nada, fez-se silêncio. olhei para o balcão, o bar lotado, e pensei: com um frio desses tem que ter coragem... procurei ver se tinha algum conhecido, mas, pelo contrário, todos os que estavam ali exibiam cara de poucos amigos, a popular «cara de bunda». no pasa nada. dei bom dia a todos e fui pegar o café.

antes de ir embora, porém, um dos caras que estava no balcão se aproximou de mim e, com cara de quem sabe tudo, me deu uma intimada:

— e aí, tu que é um cara estudado, que entende de tudo, quero ver tu explicar o aquecimento global hoje...

lembrei do campo branco coberto de geada, olhei para ele, pensei em dizer alguma coisa, mas achei melhor não dizer nada. qualquer explicação que eu desse, naquele momento, não ia adiantar nada.

ademais, ia reforçar a ideia dele de que eu sou um cara estudado e que entendo de tudo — o que absolutamente não é verdade.

portanto, fiz silêncio. achei que era o melhor que eu tinha a fazer.

já os que estão me lendo agora, neste exato instante (não digo todos, mas alguns), ou muito estou enganado, ou estão pensando que isso tudo é invenção minha, e que eu fechei a boca pois fiquei com medo do cara e não sabia o que responder.

fazer o quê? assim caminha a humanidade... todo mundo pensa que sabe tudo e ninguém sabe nada.

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há quem diga que eu dormi de touca
que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
que eu caí do galho e que não vi saída
que eu morri de medo quando o pau quebrou

há quem diga que eu não sei de nada
que eu não sou de nada e não peço desculpas
que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
e que durango kid quase me pegou

eu quero é botar meu bloco na rua
brincar, botar pra gemer
eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender

eu, por mim, queria isso e aquilo
um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
é disso que eu preciso ou não é nada disso
eu quero é todo mundo nesse carnaval


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trocando em miúdos

não roubamos dinheiro, dinheiro não vale nada,
roubamos sonhos, sonho é tudo.

quantos talentos a humanidade já perdeu?

quantos outros «eniltons grills» pelo mundo,
com mais potencial e qualidades do que nós,
mas sem essa perseverança cega,
por falta de apoio e por desmerecimento alheio,
acabaram ficando pelo meio do caminho?

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e a canção do silêncio?

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o silêncio não é uma palavra
escrita sobre uma parede
é uma canção solitária pelo vento
que não se detém no meio de um inferno
é uma canção solitária pelo vento
que não se detém no meio de um inferno


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foto: león gieco e eu
autor: antonio soler
cantamérica
porto alegre
1996

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#américas