quinta-feira, 30 de julho de 2026


mestre jonas
[para flávia e jonas (in memoriam)]

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«prefiro falar de coisas impossíveis, porque do que é possível já se sabe demais»

silvio rodríguez

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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«porque é exatamente isso
pra produzir um mundo novo
é preciso correr um risco muito grande
e ir não naquilo que é real
e não naquilo que é possível
a questão do pensamento é produzir o impossível
é produzir o impensável
ir além de todos os limites que nos foram dados
transgredirémuitomaisquetransgrediréproduzironovo
produzir a impossibilidade
uma força de ESTRANHAMENTO»

a loucura e a arte não param de ser perseguidas
por claudio ulpiana

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ao vento

[escrito em 10 de março]

hoje no café, vivi me contava sobre uma colega que lê todos os dias passagens da bíblia, numa versão moderna, com linguagem atual, na qual a autora sempre termina o trecho com a frase: «quero ser luz e o sal da terra».

— não sei por que ela escreve «sal da terra» se é «sol da terra» — diz a colega para a vivi.

— tu nunca ouviu esse termo «sal da terra»? — pergunta vivi.

vivi, então, explicou para ela o significado de «sal da terra».

— que lindo! — disse a colega.

vivi saiu para a cidade, foi trabalhar e eu fiquei aqui com mais uma história para contar.

grill

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para meus alunos de tão poucos dias

foram cursos diferentes, identificados pelo mesmo espírito: o da invenção e o da criação. falei-lhes de amantes que só oferecem às suas amadas, o amor; o amor do corpo expressivo. falei-lhes de orquídeas, enamoradas de vespas e de pássaros que cantam para o crepúsculo. mostrei-lhes as trevas barrocas e os clarões. como um inconsciente livre das formas do hábito. os nossos cursos foram musicais, desde que a música seja aquilo capaz de tornar belo seja o que for. enfim. o nosso encontro ̶ encontro de corpos ̶ pertenceu ao reino do encantamento, mostrando que a filosofia é uma linha melódica tão poderosa, que produziu em nós um acorde, digo ou melhor, repito ̶ um acordo: o dos amantes do corpo expressivo, que só oferecem um ao outro, o amor.

a filosofia é uma tarefa criativa; uma festa de delírio lógico ̶ um excesso de entendimento. ensinei-lhes filosofia, a minha festa privada. quebramos os relógios, e tornamos as horas intensas; fizemos do tempo uma mistura de palavras lindas; fizemos do tempo um vazio, e o percorremos como se fôssemos cavalheiros do pensamento: mais exatamente, como se fôssemos exploradores das tempestades dos mundos possíveis. compreendemos a diferença entre forma e matéria-prima. construímos barreiras contra a tolice, tornando o nosso agenciamento algo gentil e inesquecível.

em qualquer momento da minha vida, sem questão, serei assolado, tocado pelas divinas cativas, as pequeninas almas que a presença de vocês deixou para mim, como meu cortejo.

agora que nos despedimos, retomo: a criança é uma matéria-prima; é uma potência; múltiplas forças em movimento. o que com ela, a criança, temos que fazer é entendê-la. aprender com ela, a criança, que ensinar é fazer uma viagem.

sinceramente,
claudio ulpiano

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a estrada

hoje estou no oregon, deixando portland para trás e viajando rumo ao sudoeste, atravessando verdes escuros e cinzas suaves e nevoentos no meu agradável casulo de ruídos de ônibus, na direção dos morros e vales amplos e suaves do norte da califórnia. sei exatamente onde estou, claro. neste país, são as árvores que te contam.

minha mente divaga, se detém num problema que estou tendo com a banda; depois volto a refletir sobre a história da minha vida. penso em pete barnbill, um amigo que fiz quando tinha uns treze anos. ele tinha um um violão. também tinha o que chamávamos de paralisia infantil, conhecida depois como poliomelite, que aleijou sua perna direita e encolheu o braço direito, o qual tinha quase a metade do tamanho do esquerdo. ele se adaptou bem. escrevi sobre ele no encarte do «american recordings»:

«com sua mão esquerda, ele fazia os acordes, enquanto tocava um ritmo perfeito com sua minúscula mão direita. pensei que, se pudesse tocar violão daquele jeito, algum dia cantaria no rádio.»

pete era uma inspiração em vários aspectos. eu nunca havia sido próximo de alguém que tocasse violão, com exceção da minha mãe, quando era muito pequeno. eu achava que ele era o melhor violonista do mundo. para mim ele era maravilhoso, e o som que fazia era puramente celestial.

um dia eu lhe disse: «sabe, pete, você tem paralisia infantil mas sabe tocar violão de verdade».

sua resposta me impressionu muito: «às vezes, quando você perde um dom, ganha outro».

daquele momento em diante, não pensei mais nele como um deficiente; pensava nele como alguém que tinha um dom. eu me entristecia quando os outros garotos riam de pete. eles o viam ir mancando pelos três ou quatro quilômetros que separavam sua casa da cidade e o imitavam. eu também o imitava, mas não daquele jeito: meu jeito de tocar violão vem dele, tocando a base e solando ao mesmo tempo.

pete, como eu, era louco por música --- foi a primeira pessoa que eu soube que também era assim ---, e nós dois éramos loucos pelo rádio. o rádio significava o mundo para nós, literalmente.

lembro-me claramente do dia em que compramos o nosso, encomendado pelo correio e adquirido com o dinheiro do empréstimo que papai tomou do governo no ano em que ele e roy começaram a limpar nossa terra. lembro da primeira canção que escutei, «hobo bill's last ride», de jimmy rodgers, e como a imagem de um homem morrendo sozinho num vagão congelante me pareceu tão real, tão familiar. lembro de meu pai indo para a cama todas as noites às 20h05, depois do noticiário, e gritar para mim e para jack: «ok, garotos, hora de ir para a cama! apaguem a luz! desliguem o rádio!» jack diminuía a intensidade de sua lâmpada a óleo e se debruçava sobre a bíblia. eu baixava o volume e encostava minha orelha direita no rádio. a música que ouvia se tornou a melhor coisa da minha vida.

mas meu pai não gostava nada disso. dizia: «você está perdendo seu tempo ouvindo esses discos no rádio. isso não é de verdade, sabe? essas pessoas não estão lá. é só um cara sentado tocando uns discos. porque você ouve essas coisas de mentirinha?».

eu respondia: «mas é tão real quanto foi no momento em que eles cantaram e gravaram o disco. é a mesma coisa».

«mas não é de verdade, é só um disco.»
«não importa. o som é bom. eu gosto.»
«bem, você está sendo enganado por essas pessoas, isso não vai te dar um sustento. você não vai fazer nada de bom enquanto tiver essa música na cabeça.»

eu odiava ouvir isso, mas talvez tenha servido a um propósito. queria muito provar que ele estava errado. e que minha mãe estava certa. ela percebia que a música estava em mim, assim como estava nela e tinha estado em seu pai, que lhe ensinou a harmonia a quatro vozes e era o cantor principal do coral da igreja. dizem que era um ótimo cantor.

lembro dele como um homem amável. ele e minha avó rivers eram almas boas, o sal da terra, muito estimados e respeitados pela comunidade.

cash - a autobiografia de johnny cash, p. 53, 54 e 55

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«deixa nascer, o amor
deixa fluir, o amor
deixa crescer, o amor
deixa viver, o amor
o sal da terra»

ronaldo bastos

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uma criança

há livros que se lê uma vez e depois joga-se fora. lidos, esgotaram o que tinham pra dizer. parecem-se com as piadas só fazem rir na primeira vez que são contadas. outros livros, entretanto, são como fontes. a fonte é a mesma. mas a água que dela brota é sempre fresca, sempre nova, sempre outra água. retornamos sempre às fontes. cada retorno é uma felicidade nova. na minha infância havia uma fonte, um buraco simples em forma de bacia, que me dava grande alegria visitar. não que eu estivesse com sede. apenas para me encantar. daquela fonte nem meu pai nem minha mãe ficaram sabendo. vocês são os primeiros a quem estou contando. que felicidade encontrei na minha infância, solto por espaços vazios de olhos adultos! os adultos estragam o mundo das crianças com os seus olhos. diante da fonte, minha amiga, eu estava sozinho, absolutamente sozinho. guimarães rosa, falando de sua infância, disse que ela foi muito gostosa. a única coisa que atrapalhava eram os olhos dos adultos que se intrometiam em tudo. livrou-se disso quando arranjou uma chave para o seu quarto. trancado, podia gozar livremente os seus devaneios. esses livros-fonte não são de diversão. são livros de encantamento. a sua leitura é como beber água da fonte, sempre. por isso sempre voltamos a eles.

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 108.

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— seu pai falava muito de você.
— é?
— dizia que você não tinha ambição.
— tinha razão.
— é mesmo?
— minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
— você é estranho.

bukowski

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ao vento

cada um se vê como quer
uns se veem brad pitt
eu me vejo johnny cash

grill

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«e por que não, enilton grill?»

martim césar

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eu tenho uma balada
para johnny cash...
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
e também um grande amigo
que ao ouvir tua canção
me diz que ser feliz
é dar moeda ao coração
e que atahualpa e bob dylan
estão comigo, meu irmão
pois tive um norte aí no sul
e tenho o sul no maranhão

balada para johnny cash | martim césar/paulo timm (2014)

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breve ensaio sobre a cegueira

[por enilton grill]

qual o pior tipo de cegueira? a de quem não vê porque não pode? a de quem não vê porque não sabe? ou a de quem não vê porque não quer?

há quem afirme que todas as pessoas que enxergam são cegas, pois vivem em um mundo que perdeu a visão, no sentido em que a televisão, ou qualquer outro meio de incomunicação, é quem propõe as imagens — imagens prontas — tirando-nos a possibilidade de vê-las com o olhar interior.

seja como for, a verdade é que vivemos hoje a caverna de platão, onde as sombras projetadas são tomadas como verdade, o que faz de nós cegos de nós mesmos, pois verdade é como sombra, cada um tem a sua.

a minha é a minha, a sua é a sua.

você não vê a minha, eu não vejo a sua.

na maioria das vezes, somos um pouco como avestruzes, quer dizer, não vemos porque não queremos ver.

mas, se puderes olhar, vê; se puderes ver, repara:
1 + 1 é sempre mais que 2.

a felicidade mora ao lado,
quem não é tolo pode ver.

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mestre jonas

um dia, jonas, lá com seus 17 ou 18 anos, me disse: conheci um bar com caçachas e cervejas artesanais...vamos lá?
falei: vamos.
estacionamos o carro e fomos camihando até o bar.
no caminho, me falou como era difícil ser diferente, q até gostaria de ir na boate como alguns colegas de escola, mas prefiria a companhia dos amigos do clube de leitura e que não podia ser diferente do que era.
então, falei pra ele q eu tb não tinha interesse nas boates, prefiria a roda de viola no laranjal...
jonas: é...chamam a gente de esquisito né mãe? mas chamar de esquisito é elogio!

flávia maurício

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e ele diz que se chama jonas
e ele diz que é um santo homem
e ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria
e ele diz que está comprometido
e ele diz que assinou papel
que vai mantê-lo preso na baleia
até o fim da vida
até o fim da vida
até subir pro céu

mestre jonas | sá rodrix e guarabyra (1973)

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canção de mim mesmo

o jonas de flávia é, em essência, o mestre jonas em sua juventude: alguém que já entendeu, bem cedo, a beleza de morar dentro de sua própria baleia.

o avestruz se esconde para negar a verdade.
a baleia é o refúgio consciente de quem enxerga a realidade.

grill

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pergunta que não quer calar:

há espaço para o sentido artístico no mundo pragmático atual? ainda podemos ser sujeitos autônomos e de criação num tempo de consumismo fugaz?

resposta: para quem está submerso no cotidiano, essas questões fazem pouco sentido. todavia, para espíritos inquietos, serão o ponto de partida na busca do "tornar-se aquilo que se é".»

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eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada, cheia de dentes
esperando a morte chegar
porque longe das cercas embandeiradas
que separam quintais
no cume calmo do meu olho que vê
assenta a sombra sonora dum disco voador

ouro de tolo | raul seixas (1973)
(legendado)

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fotos

cris valente
pelotas, 2026

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vivi valente
repecho, 2020

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#américas
#jonaspresente

quarta-feira, 29 de julho de 2026


não sou daqui, nem sou de lá
[para maria eduarda grill]

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o mendigo e o sapateiro

deus assumiu a forma de um mendigo e desceu à cidade.
procurou a casa do sapateiro e disse-lhe:
— irmão, sou muito pobre, não tenho nem uma moeda no bolso e estas são minhas únicas sandálias, que estão rasgadas. você poderia me fazer um favor?
o sapateiro respondeu:
— estou cansado de que todos venham pedir e ninguém venha dar.
o senhor disse-lhe:
— eu posso te dar o que você precisa.
e o sapateiro, desconfiado ao ver um mendigo, perguntou:
— você poderia me dar o milhão de dólares de que preciso para ser feliz?
o senhor disse-lhe:
— eu posso te dar dez vezes mais do que isso, mas em troca de algo.
— em troca de quê? — perguntou o sapateiro.
— em troca das suas pernas.
o sapateiro perguntou:
— para que eu quero dez milhões de dólares se não vou poder andar?
então o senhor disse-lhe:
— posso te dar cem milhões de dólares em troca dos seus braços.
o sapateiro perguntou:
— para que eu quero cem milhões de dólares se nem consigo comer sozinho?
então o senhor disse a ele:
— posso te dar mil milhões de dólares em troca dos seus olhos.
o sapateiro pensou um pouco e perguntou:
— para que eu iria querer mil milhões de dólares se não vou poder ver minha esposa, meus filhos, meus amigos?
então o senhor disse a ele:
— ah, irmão, irmão! que sorte tens e não percebes.

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pois é...

outro dia, lendo a coluna de paulo santana, deparei-me com o tema da felicidade — um de seus prediletos. santana contava que certa vez passou por uma sinagoga e entrou. estava lotada de judeus e de curiosos. falava um rabino. e o rabino discorria sobre os sonhos do homem, que são três: ser rico, ser forte e ser sábio.

de acordo com o rabino:

1. o homem quer ser forte, mas pensa que ser forte é dominar os outros. engana-se: ser forte é dominar-se a si próprio.

2. o homem quer ser sábio, mas imagina que ser sábio é abeberar-se da cultura dos livros, dos ensinamentos que os sábios nos legaram pela escrita. quando, na verdade, ser sábio é outra coisa: ser sábio é aprender com cada pessoa que se encontra na vida.

3. o homem quer ser rico, mas não sabe que ser rico não é amealhar toda a riqueza, ganhar e juntar todo o dinheiro que se possa. ser rico, acrescentou o rabino, é contentar-se com o que se tem.

das reflexões e ensinamentos do rabino, paulo santana concluiu: «esta é a sabedoria, este é o jeito de ser feliz: mostrar-se satisfeito com o que se possui. e não querer se tornar feliz desejando aquilo que não se conseguiu ou não se pode conseguir. venham por mim», convidou paulo.

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o trecho acima é o início de um texto que escrevi e enviei para o e-mail de paulo santana. o texto, na íntegra, está logo abaixo. nele, faço uma analogia entre o que disse o rabino e o que dizia facundo cabral. esperei uma semana, um mês, dois meses, três meses... e nenhuma resposta de paulo. um dia estou escutando o sala de redação e um dos participantes diz: «muito bonito aquilo do facundo cabral na tua coluna de hoje, santana...» fui correndo à banca mais próxima e na coluna do santana havia uma série de frases de facundo cabral e uma pequena citação dizendo haver recebido um e-mail meu (se mostrando surpreso por nunca ter ouvido falar em facundo cabral). procurei esta primeira coluna para compartilhar aqui, mas, infelizmente, não encontrei. na sequência, paulo escreveu, pelo menos, mais duas colunas citando facundo cabral — ipsis litteris — do texto enviado por mim a ele (sem dar os créditos, é claro...). não fiquei triste, nem revoltado. fiquei feliz. afinal de contas, o que eu queria, enviando meu texto para paulo, era popularizar o nome de facundo cabral, não o meu — e isso eu consegui.

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antes do texto, vejamos o que diz a inteligência artificial sobre a relação de paulo sant'ana com facundo cabral.

«o cronista gaúcho paulo sant'ana admirava profundamente o cantor e compositor argentino facundo cabral, citando-o frequentemente em suas colunas em zero hora como uma referência de sabedoria popular, liberdade existencial e profunda sensibilidade poética sobre a vida e o tempo.

ambos compartilhavam de um olhar lírico, melancólico e intensamente filosófico acerca do cotidiano e da mortalidade.

sant'ana usava pensamentos e trechos de apresentações de cabral para ilustrar reflexões profundas sobre a solidão humana, a alegria simples e a grandeza de existir.»

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facundo cabral

[por enilton grill]

admirador de diógenes e são francisco de assis, da poesia de whitman e da genialidade de borges, facundo cabral foi um crente fervoroso e um anarquista convicto. através de suas canções, histórias e pensamentos, ele transformou a busca incessante pela felicidade em uma profunda reflexão sobre a vida e a humanidade — sempre guiado pelos valores inabaláveis da liberdade, da igualdade e da solidariedade.

tal qual um trovador da idade média, o compositor argentino transformava cada um de seus recitais e entrevistas numa oportunidade para narrar histórias e transmitir suas ideias e pensamentos.

pela sinceridade de suas palavras, facundo cabral parecia um discípulo direto de diógenes. aliás, o compositor e escritor argentino costumava citar o filósofo grego em seus recitais: diógenes, sempre que passava pelo mercado, ria porque dizia que achava muito engraçado e, ao mesmo tempo, ficava muito feliz ao ver quantas coisas havia no mercado das quais ele não precisava. ou seja, rico não é quem tem mais, mas quem precisa de menos, dizia facundo cabral.

uma das frases mais célebres do trovador argentino é: foge dos que compram o que não necessitam, com dinheiro que não têm, para agradar quem não vale a pena. nela, o misto de poeta, compositor, escritor e profeta resumiu várias de suas críticas à escravidão do homem em relação à sociedade de consumo.

inumeráveis declarações, sentenças e versos expressam o pensamento filosófico e ajudam a entender melhor o ideário de facundo cabral. por exemplo: no soy de aquí, ni soy de allá / no tengo edad, ni porvenir / y ser feliz es mi color / de identidad. verso este, aliás, que o aproximava mais ainda de diógenes, que, muito antes de facundo, já dizia: não sou nem ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo.

sobre essa sociedade que insiste em reduzir as relações humanas ao jogo sinistro do consumo e da competição, diz facundo cabral: o conquistador, por cuidar de sua conquista, se converte em escravo do que conquistou. diz mais: quem não está disposto a perder tudo, não está preparado para ganhar nada.

essa civilização, que confunde quantidade com qualidade — dize-me quanto consomes e te direi quanto vales —, propaga, em quase todos nós, o medo, a desconfiança e a competitividade desenfreada. dou a cara ao inimigo, as costas ao bom comentário, porque aquele que aceita um afago começa a ser dominado; o homem acaricia o cavalo para montá-lo..., ensina facundo cabral.

mas suas palavras podiam ser luminosas também: cada manhã é uma boa notícia, cada criança que nasce é uma boa notícia, cada homem justo é uma boa notícia, cada cantor é uma boa notícia, porque cada cantor é um soldado a menos... outra: fui analfabeto até os 14 anos, por isso quando me dizem «NÃO POSSO», eu digo «NÃO FODE».

não entendeu? o mestre explica: sempre, com o que se tem, se pode, se deve começar de novo; o dever do homem é ser feliz.

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e sobre o plágio? fala mais sobre o plágio...
pois é, sobre o plágio a pergunta que não quer calar é:
e se fosse o contrário, isto é, se o plagiador fosse eu e o plagiado, paulo?
não sei, ninguém sabe.
o que eu sei é que, como o plagiado fui eu, não aconteceu nada
- por quê?
- porque eu não quis

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companheiro que passas pela estrada,
seguindo pelo rumo do sertão
quando vires a cruz abandonada,
deixe-a em paz dormir na solidão.

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já ia embora
mas resolvi voltar
me lembrei de julio iglesias
e de sua passagem por porto alegre

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https://www.youtube.com/watch?v=YwUhurFvX7Q
julio iglesias e paulo santana - teatro do sesi - 2008
[recuerdos de yapacaraí]

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a propósito de julio igliesias...
com a palavra, facundo cabral

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«estávamos em nova york um dia e, quando saíamos do teatro do lincoln center, um jornalista se aproximou de mim e disse: "sr. cabral concordo com tudo o que o senhor disse esta noite, exceto que deus é sempre justo. se deus fosse sempre justo, o senhor teria tanta visibilidade e tanto sucesso quanto julio iglesias. ao que respondi: "claro que deus é sempre justo. julio iglesias tem mais exposição e mais sucesso do que eu, pois ele precisa de dinheiro muito mais do que eu para viver. eu, que preciso de mais liberdade que julio para viver, deus me fez mais livre.»

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«minha avó gostava muito de julio iglesias, por isso toda vez que o via na televisão me dizia:
- você deveria fazer um dueto com esse homem. seria uma dupla extraordinária.
- por que avó?
- imagine, ele as excita e você as faz pensar.»

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de volta ao começo

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facundo veio ao mundo nas ruas de la plata. na véspera de seu nascimento, seu pai abandonou a família. sem um lar, sara e seus oito filhos iniciaram uma longa migração em direção à terra do fogo, no extremo sul da argentina.

conta facundo:

«vagamos sete anos de cidade em cidade atravessando campos. um dia, queixou-se um irmão e disse: "todo mundo tem uma casa, menos nós". e minha mãe disse a ele: "eles são pobres porque só têm uma casa. nós somos ricos porque temos un mundo para andar, segue andando".»

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«e o senhor disse a abraão: sai-te da tua terra e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.»

gênesis 12.1

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y el señor dijo a abraham:
abandona tu tierra natal
y la casa de tu padre,
y ve al país que yo te indicaré.
haré de ti una gran nación,
te bendeciré
y por ti se bendecirán todos los pueblos de la tierra.
el señor dijo a abraham.
esa bella y sabia orden,
fue la que convenció a mi corazón
a decidir que el mundo fuese mi casa.
el mismo mundo que puso
al alcance de mi espíritu
la canción que me refleja
como ningún espejo.

no soy de aquí, ni soy de allá
no tengo edad, ni porvenir
y ser feliz es mi color de identidad.

https://www.youtube.com/watch?v=KeoIZ523q38&list=RDKeoIZ523q38&start_radio=1
no soy de aquí, ni soy de allá | facundo cabral, 1970
introducción: poema «el caminante»

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#américas

terça-feira, 28 de julho de 2026


só tem amor quem tem amor pra dar
(direto da sala che guevara da casa dos aedos)

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«aedos eram poetas, cantores e músicos da grécia antiga que compunham e recitavam poemas épicos.

acreditavam receber inspiração direta das musas e da deusa memória para criar suas canções.

surgiram antes mesmo da escrita e do alfabeto, guardando e transmitindo o saber mitológico e histórico de cabeça.»

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tarso de castro, presente
[por júlio cargnin filho]

polêmico, brigão e subversivo, tarso era daqueles «malditos» que fechava bares, alugava carros e aprontava em hotéis de luxo, ao melhor estilo «gonzo jornalismo». comprou brigas homéricas pelas redações que passou – com diretores e editores – mas nem mesmo os amigos mais próximos escapavam de seu temperamento tempestuoso.

um «enigma» sempre foi uma pulga atrás das orelhas de seus camaradas: o charme do maldito. mesmo desajeitado, feio, desleixado, descuidado consigo e sem onde ter para cair morto, teve relacionamentos com belas mulheres. de uma dessas aventuras, uma história bem ao «estilo tarso»: seu namoro com a atriz estadunidense candice bergen.

o jornalista adorava exibir à atriz uma fotografia pessoal ao lado do revolucionário argentino che guevara. já a atriz, se vangloriava de ter namorado um «guerrilheiro que participou da revolução cubana».

após 30 anos ininterruptos de consumo de álcool e sua oitava hemorragia interna, tarso foi tomar seu scotch em outro universo. o dia: 20 de maio de 1991. uma morte que não surpreendeu os mais próximos, pois ele mesmo pregava que «após os 40 anos a vida não teria mais graça». viveu nove a mais do que o limite que queria.

nas palavras de otto lara resende: «tarso tinha defeitos visíveis e qualidades nem sempre visíveis, sobretudo para quem o via de longe, ou o sofria de perto».

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a casa dos aedos 

nessas condições, se nos perguntassem qual o benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz. só os pensamentos e as experiências sancionam os valores humanos. ao devaneio pertencem valores que marcam o homem em sua profundidade. o devaneio tem mesmo um privilégio de autovalorização. ele usufrui diretamente de seu ser. toda pessoa deveria, portanto, falar de suas estradas e encruzilhadas, de seus sucessos e fracassos.

gaston bachelard, em a terra e os devaneios do repouso

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tarso de castro
[por tom cardoso]

tarso de castro, recém-chegado a salvador, liga para o amigo de copo joão ubaldo ribeiro:

- o que manda, tarso?
- tô aqui, vem cá me ver!
- onde você está?
- no hotel meridien.
- porra, então vem você pra cá, é perto.
- não posso. estou aqui com a (falando baixinho)...candice bergen.
- com quem? não ouvi.
- estou aqui com a (sussurando).. candice bergen.
- tarso, vou abaixar o som e você me diz com quem você está.
- vai logo.
- pronto, diga.
- estou aqui com a can-di-ce ber-gen.

joão ubaldo conta: «eu resolvi ir, com a certeza de que o tarso estava aprontando alguma escrotidão. mas eu adorava ele, peguei o meu fusca e fui até o meridien. quando eu cheguei lá a candice estava sentada, com as pernas esticadas, despojada, sem maquiagem, mas bonita como sempre foi, uma mulher enorme. me lembro que ela tinha um pezão imenso, porque foi a primeira coisa que eu vi: ela relaxada, com o pé pra cima de uma cadeira e o tarso atrás, radiante, andando de um lado para o outro, com os braços abertos, em transe absoluto»

descobertos pelos colunistas sociais de salvador, tarso e candice deixaram de ir à praia e passaram o resto da «lua-de-mel» trancados no meridien.
jantaram lagosta e camarão todos os dias, acabaram com o estoque de vinho, uísque e champagne do hotel.
no dia de encerrarem a conta, candice chamou joão ubaldo, que estava lá para levá-los ao aeroporto, e fez um pedido ao escritor:

- ubaldo, eu sei que o tarso gosta muito de você e tenho certeza que ele vai te ouvir.
- me diga, candice, o que houve?
- eu sei que o tarso é duro. e sei também que ele não vai me deixar pagar a conta do hotel. é muito orgulhoso. quero que você o convença de que isso tudo é bobagem, que eu sou rica e pago tudo sem problema nenhum. faz isso por mim?
ubaldo foi falar com tarso, já caminhando em direção ao guichê do hotel.
- tarso, a moça faz questão de pagar a conta...
- nada disso. eu pago essa merda!!!

a conta era um absurdo, algo equivalente a um mês de bebedeira no antonio’s.
tarso não perdeu a pose. puxou a carteira do bolso e, quando estava preparando para assinar mais um cheque sem fundo para a sua coleção, foi interrompido pelo gerente do hotel:

- senhor. em nome do hotel meridien queria agradecer a presença do senhor e da senhorita candice bergen. ficamos gratos pela preferência. as despesas são por nossa conta.
tarso, para desespero de joão ubaldo, ainda fez charme:
- não senhor. eu faço questão de pagar tudo. fomos muito bem tratados aqui.
- meu senhor, aceite a nossa gentileza em nome da boa hospitalidade baiana.
- se o senhor faz questão...

a atriz, completamente apaixonada, bancou todas as viagens de tarso a nova york.
o jornalista, porém, se queixara aos amigos que, por mais que tentasse, não conseguia dedicar-se apenas a uma grande paixão.
candice cansou de ser esnobada e casou anos depois com o cineasta francês louis malle, baixinho, porém atencioso.
tom jobim tentou consolar tarso:
«não fique assim, meu caro, dos malles, o menor!».

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há várias versões sobre a noite em que tarso conquistou candice na varanda do antonio's. alguns juram ter visto o jornalista entrar correndo no restaurante, ajoelhar-se aos pés da atriz e beijá-la dos pés à cabeça sem a menor cerimônia. outros dizem que a abordagem foi um pouco mais sutil: com um buquê na mão esquerda e um urso de pelúcia na direita (doado na última hora pela mãe da promoter ana maria tornagui), o jornalista disse meia dúzia de palavras em inglês e conquistou a moça.
uma terceira versão é sustentada por amigos mais próximos a tarso. candice interessou-se por ele no antonio's mas só se apaixonou de verdade depois que viu o seu retrato ao lado de che guevara, tirado durante a cobertura da conferência econômica e social da oea, em punta del este, em 1961. rápido no gatilho, o jornalista teria dito à atriz que lutara ao lado de guevara e fidel castro durante a revolução cubana --- contou (provavelmente fazendo gestos) os apuros que ele e os dois líderes comunistas passaram juntos nas montanhas de sierra maestra, semanas antes de entrarem triunfantes para tomar havana do ditador fulgêncio batista. candice teria ouvido a história com lágrimas nos olhos e se apaixonado perdidamente.

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- e o teu pai?
- meu pai era um aedo. um homem sem medo.
herdei dele, além do nome, o gosto pelas viagens.

nas viagens que fazíamos - e fizemos muitas juntos - meu pai, um brizolista de quatro costados, sempre contava da vez que foi a punta del este para ver e ouvir o che. eu adorava.

às vezes ele esquecia
mas eu sempre lembrava
e pedia

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papá cuéntame otra vez esa historia tan bonita
de aquel guerrillero loco que mataron en bolivia

papá cuéntame otra vez | daniel serrano / ismael serrano, 1997

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acho que já contei essa história. mas vou contar de novo. não custa nada --- pelo contrário, é uma forma de recordar. do latim re-cordis: voltar a passar pelo coração.

passei a vida ouvindo meu pai contar da vez que esteve com o che em punta del este, junto com brizola e flávio tavares, durante a conferência pan-americana promovida no uruguai, em 1961.

é uma pena que eu não seja bom o suficiente com as palavras para descrever o brilho nos olhos do meu pai cada vez que me contava a mesma história. o brilho era tanto que eu pensava que aquilo era verdade, não podia ser mentira.

até que um dia resolvi comentar com minha mãe sobre o encontro do meu pai com o che. minha mãe ficou surpresa, disse que não sabia de nada. falou com os familiares e ninguém se lembrava de nenhuma viagem.

no dia seguinte, no café da manhã, minha mãe perguntou:

- enilton, que história é essa da tua viagem ao uruguai pra encontrar o che guevara? falei com todo mundo e ninguém sabe nada dessa tal viagem...

meu pai respondeu:

- ninguém sabe de nada porque não era pra saber mesmo. foi uma viagem clandestina...

meu pai faz falta, muita falta. e não só para mim, mas para o mundo. as pessoas, hoje em dia, ou estão agarradas às suas verdades ou entregues às suas mentiras.

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aquí se queda la clara
la entrañable transparencia
de tu querida presencia
comandante che guevara

hasta siempre | carlos puebla (1965)
canta: nathalie cardone
[con letra e imagens]

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poema-carta de ernesto che guevara a sua esposa aleida march

amor: chegou o momento de te enviar um adeus com aroma a campo santo (a hojarasca, a algo distante e não utilizado). queria fazê-lo com estas folhas que caem e são frequentemente chamadas de poesia, mas fracassei; eu tenho tantas coisas íntimas para teu ouvido mas a palavra torna-se carcereira e a poesia não é o meu forte. eu não sou poeta. eu não sirvo para o nobre ofício de escrever poemas. não que eu não tenha coisas doces. se você soubesse das que se agitam dentro de mim. mas é tão longo, cheio de voltas e estreito o caracol que as contêm, que saem cansadas da viagem, mal humoradas, esquivas, e as mais doces são tão frágeis! saem despedaçadas no caminho, vibrações dispersas, nada mais. careço de condução, teria de desintegrar-me para te dizer de uma só vez. usemos as palavras com um sentido cotidiano e fotografemos o momento.

acabaram-se os cantos das sereias e os embates interiores; se ergue a fita para minha última corrida. a velocidade será tanta que escapará todo grito. o passado acabou; eu sou um futuro a caminho. não me chame, não te escutaria; só posso ruminar-te (no sentido de pensar profundamente em alguém) em dias de sol sob a renovada carícia de balas […] lançarei um olhar em espiral, como a volta que o cão dá para descansar, e lhes tocarei com meu olhar, um a um e todos juntos. se um dia você sentir a imposição de um forte olhar, não se vire, não quebres o encanto, continue coando meu café e deixe-me viver para sempre no momento perene.

não obstante,
no labirinto mais fundo do caracol taciturno
se unem e repelem os pólos do meu espírito:
tu e todos.

os todos me exigem a entrega total,
que a minha solitária sombra escureça o caminho!
mas, sem burlar as normas do amor sublimado,
te guardo escondida no meu alforge de viagem.

(te levo no meu alforge de viajante insaciável
como o pão nosso de todos os dias.)

saio para edificar as primaveras de sangue e argamassa
e deixo, no vão da minha ausência,
este beijo sem domicílio conhecido.
mas não me anunciaram o lugar reservado
no desfile triunfal da vitória
e a vereda que conduz ao meu caminho
está cercada de sombras agourentas.

se me destinam ao escuro lugar dos cimentos,
guarda-o no arquivo nebuloso da lembrança;
usa-o em noites de lágrimas e sonhos...

adeus , minha única,
não temas ante a fome dos lobos
nem no frio estepario da ausência;
do lado do coração te levo
e juntos seguiremos até que o caminho se desvaneça.

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já ia embora, mas me lembrei de mais uma

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quando eu ainda era jovem, meu pai me imaginava hermano henning --- hermano henning, o correspondente internacional da globo ---, sim, estamos nos anos 80. naquela época, eu não me imaginava escritor, eu me imaginava jornalista. ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são: gosto de escrever mas não sou jornalista --- comecei a faculdade mas não terminei.

em cada esquina tinha um bar,
tinha um bar em cada esquina

mas nem tudo se perde, alguma coisa sempre fica. livros, por exemplo. quem tem um livro é como se tivesse sempre um mestre ao alcance de sua mão. o mestre em questão chama-se «comunicação, memória & resistência», de pedro g. gomes / linda bulik / c. piva (orgs.). foi com ele que aprendi, por exemplo, o significado da sigla «aida»:

a (atenção),
i (interesse),
d (desejo),
a (adquirir).

a sigla por si só já diz tudo,
mas amor é tudo o que move
e o que me move é ir além...

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hoje existe tanta gente que quer nos modificar
não quer ver nosso cabelo assanhado com jeito
nem quer ver a nossa calça desbotada, o que é que há?
se o amigo está nessa ouça bem, não tá com nada!

só tem amor quem tem amor pra dar | sá, rodrix & guarabyra (1973)

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o processo da publicidade, sintetizado pela sigla «aida», implica em:

captar a atenção (a)
despertar o interesse (i)
provocar o desejo (d)
vontade de adquirir (a)

no brasil há um aparelho de tv por habitante.

mais de 90% das redes de tv no brasil são controladas por consórcios de publicidade.

a publicidade não busca apenas convencer, ela busca - e invariavelmente consegue - distorcer a realidade do mundo em que se vive.

ou seja, ela cria pseudopersonalidades, e o homem as assume usando as máscaras simbólicas que são os produtos:

a casa, o automóvel, a roupa, o alimento, a bebida, o shampoo

tudo o que lhe é imposto e que dá ao indivíduo uma imagem de si mesmo de acordo com o que ele desejaria ser
ou o que os outros gostariam que ele fosse
ou o que a sociedade exige que ele seja
mas que ele não é e nem pode ser
e é por essas e outras
que tem muita poeira que vira ouro
e muito ouro que vira pó

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o pó da estrada gruda no meu rosto,
como a distância, matando as palavras,
na minha boca sempre o mesmo assunto,
o pó da estrada.

https://www.youtube.com/watch?v=mggILxtBBzQ&list=RDmggILxtBBzQ&start_radio=1
o pó da estrada | sá, rodrix e guarabyra 1973

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enfim, a verdade é que o tempo não para. as coisas acontecem muito rápido na vida da gente. mas as pegadas para estarmos onde estamos e sermos o que somos estão por aí... desenterrá-las e decifrá-las depende de muita coisa... uma delas é saber onde procurá-las.
pra quem tem mais de 60, como eu, talvez seja mais fácil
pois antigamente tudo marcava e deixava marca
que o digam as calças desbotadas
que usei e ainda uso
e os mortos e desaparecidos
que chorei e ainda choro

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olá, como vai?
eu vou indo, e você, tudo bem?
tudo bem, eu vou indo correndo
pegar meu lugar no futuro, e você?
tudo bem, eu vou indo em busca
de um sono tranquilo, quem sabe?

quanto tempo, pois é, quanto tempo

me perdoe a pressa
é a alma dos nossos negócios
pô, não tem de quê
eu também só ando a cem

quando é que você telefona?
precisamos nos ver por aí
pra semana, prometo
talvez nos vejamos, quem sabe?

quanto tempo, pois é, quanto tempo

tanta coisa que eu tinha a dizer
mas eu sumi na poeira das ruas
eu também tenho algo a dizer
mas me foge à lembrança
por favor, telefone, eu preciso beber
alguma coisa rapidamente

pra semana, o sinal
eu procuro você, vai abrir, vai abrir
prometo, não esqueço
por favor não esqueça, não esqueça
não esqueço, adeus

sinal fechado | paulinho da viola (1969)
canta: chico buarque

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por falar em sinal fechado, é preciso que os doutores e mestres, formados em sociologia nas universidades brasileiras, saibam que há coisas que a universidade não ensina.
uma delas, por exemplo, é a sequência de luzes e cores do semáforo. você sabia que antes do verde vem o vermelho e que o amarelo vem antes do vermelho e o vermelho depois do amarelo?
outra é o tempo em que as luzes ficam acesas, definido por um técnico de tráfego de acordo com o movimento de cada rua. a luz verde, por exemplo, fica mais tempo acesa na rua de maior movimento e menos tempo na rua de menor movimento...

- entendeu?
- não.
- eu também não.
meu negócio é outro
preciso de campo aberto
pra dar certo

sim, era assim que eu pensava quando tinha uns 17, 18 anos de idade. naquela época, eu tinha desistido de estudar e meu pai me deu uma lavoura de arroz pra cuidar. tinha tudo pra dar errado... e deu mesmo. meu pai me deu um calhamaço de notas pra organizar e eu passava o dia na lavoura, atrás de uma pá pra cavar. pra completar, na hora de voltar pra casa:

tinha um bar no meio do caminho,
no meio do caminho tinha um bar.

e a pergunta que não quer calar: e a lavoura? a lavoura a água levou. o que restou daquela lavoura foi a canoa que salvou. e a canoa? não sei. ninguém nunca mais viu, nunca mais voltou.

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canoa foi rio acima
canoa não volta mais
foi só um sonho bonito
e a vida não volta atrás

canoa | almir sater - renato teixeira (1989)

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- fala sério...
- tô falando.
- então conta mais da faculdade
- da faculdade ficaram os livros
- só os livros? e o resto?
o resto foi passageiro
se perdeu pelo caminho
sumiu no pó da estrada
quando peguei carona com jesus numa moto

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sob a luz da lua
mesmo com sol claro
não importa o preço que eu pague
o meu negócio é viver

jesus numa moto | sá rodrix guarabyra (2000)
(legendado)

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ah, conta outra...
tá bem, vou contar
conta galeano que, quando era criança
sua avó lhe contou a fábula dos cegos e o elefante.
três cegos estavam diante do elefante.
um deles apalpou a cauda do animal e disse:
- é uma corda.
outro acariciou uma pata do elefante e opinou:
- é uma coluna.
o terceiro cego apoiou a mão no corpo do elefante e adivinhou:
- é uma parede.
assim estamos: cegos de nós, cegos do mundo.
desde que nascemos somos treinados para ver o mundo como dizem que ele é, não como queremos ou imaginamos que ele possa ser.

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- não entendi.
- tá bem, vou explicar

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quando eu era guri,
vivia pedindo para o meu pai contar história.
história de criança.
mas ele não contava.
acho que não gostava.
ou não queria.
ou não sabia.
hoje eu até entendo:
acho que ele não achava graça.
graça ele achava contando história do che e do brizola.
dizia que o brizola não teria perdido para o collor
do jeito que o lula perdeu.
hoje, lembrando uma e outra discussão,
me dói o coração.
digo agora o que não disse antes:
que talvez meu pai tivesse razão.
agora é tarde.
tá vendo essa foto em que estou tocando gaita de boca?
o sopro sai,
mas a cena é muda.
meu pai já não pode escutar.
o che está morto e a mim não me resta mais que o silêncio.
calo-me então.

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de volta ao título
[só tem amor quem tem amor pra dar]

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fiz um relato da foto
e enviei as quatro linhas finais para o gemini (ia)
a resposta da ia (inteligência artificial) para o significado da falta de esperança é a seguinte:

«não ter esperança pode ser uma resposta natural a situações pessoais e mundiais, mas não precisa ser permanente. a falta de esperança pode levar a sentimentos de desânimo, apatia, medo e ansiedade, que podem culminar em depressão.
esperança é um sentimento importante que contribui para a saúde mental.
pessoas esperançosas têm um humor mais positivo e uma atitude otimista, o que melhora a qualidade de vida.»

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só tem esperança quem tem esperança pra dar

a resposta da ia acabou com o fio de esperança que eu tinha. aliás, ao contrário do que diz a «ia» e do que pensa a maioria das pessoas, não creio que ter esperança seja algo saudável, pelo contrário, quanto menos esperança eu tenho, mais eu escrevo, e quanto mais eu escrevo, menos eu durmo, e quanto menos eu durmo, mais coisas eu faço, e quanto mais coisas eu faço, menos eu morro, e quanto menos eu morro, mais eu vivo, e quanto mais eu vivo, menos esperança eu tenho.

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tenho

tenho, vamos ver,
que já aprendi a ler,
a contar,
tenho que já aprendi a escrever
e a pensar
e a rir.
tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
tenho, vamos ver,
tenho o que tinha que ter.

nicolás guillén, 1964

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vivemos a ditadura da esperança. somos escravos da esperança. o sistema se alimenta de esperança. só tem esperança quem tem esperança pra dar. não devemos dar esperança. se algum dia vencermos terá sido porque acordamos e levantamos, não porque dormimos e esperamos.

grill

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agora escrevo pássaros

agora escrevo pássaros.
não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe, o amor.

cortázar

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cortázar comenta a morte do che, em 1967

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paris, 29 de outubro de 1967,
roberto, adelaida, meus muito queridos:

quero dizer-te isto: não sei escrever quando algo me dói tanto, não sou, não serei nunca o escritor profissional pronto a produzir o que se espera dele, o que lhe pedem ou o que ele pede a si mesmo desesperadamente. a verdade é que a escrita, hoje e diante disto, parece-me a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de dissimulação quase, a substituição do insubstituível.

o che está morto e a mim não me resta mais que silêncio.

calo-me então.

recebeste, espero, a mensagem que te enviei. era minha única maneira de abraçar-te, a ti e a adelaida, a todos os amigos da casa. e para ti também é isto, o único que fui capaz de fazer nestas primeiras horas, isto que nasceu como um poema e que quero que tenhas e que guardes para que estejamos mais juntos.

che

eu tive um irmão.
não nos vimos nunca
porém não importava.
eu tive um irmão
que ia pelos montes
enquanto eu dormia.
quis-lhe a meu modo,
tomei-lhe sua voz
livre como a água,
caminhei às vezes
próximo de sua sombra.
não nos vimos nunca
porém não importava,
meu irmão acordado
enquanto eu dormia,
meu irmão mostrando-me
por trás da noite
sua estrela eleita.

logo nos escreveremos.
abraça forte a adelaida.
até sempre, julio

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de volta ao começo

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«que tenho eu que hablarte comandante
se o poeta és tu»

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historia de un hermano 
por julio cortázar

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#américas