sexta-feira, 17 de julho de 2026

 

crônica de um sonho

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«a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»

manoel de barros

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«sinta mais, pense menos»

bukowski

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«ponho o sol no ombro e o mundo é amarelo»

facundo cabral

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repecho

acho que já disse isso, mas vou dizer de novo: o repecho (sítio que foi dos meus ex-sogros) fica ao lado da casa que foi de minha avó. ou seja, o repecho fica ao lado da casa onde meu pai nasceu.

a vida dá voltas e, depois de muito andar, um dia voltei ao lugar onde brincava de subir em árvores quando era guri.

quando cheguei ao repecho pela primeira vez, fazia talvez uns 30 anos que não ia para aqueles lados. mas, conforme fui me aproximando, não tive dúvidas e disse para a vivi: «minha vó morava aqui».

a casa ficava na encosta de uma colina, junto à orla de uma mata mais extensa, no meio de um jovem bosque de pinheiros e nogueiras, e a cerca de sessenta metros do arroio, ao qual se descia por uma trilha estreita. no terreno da frente cresciam morangos e amoras-pretas, e o jardim era sempre vivo e colorido. pelo final de maio, a ameixeira-brava adornava as margens do caminho com suas flores delicadas. depois da curva da estrada havia uma escada... onde a gente sentava e olhava a vida... a vida que passava...

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depois da curva da estrada
tem um pé de araçá
sinto vir água nos olhos
toda vez que passo lá

amora | renato teixeira (1979)
[com letra e imagens]

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«homens não choram
- pai, eu acho que não sou homem...
decepcionado, o pai chorou.
aliviado, o filho sorriu, vendo que o pai também não era.»

gabriel araújo de aguiar - brasília (df)

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no final de 1983, quando chegamos a são luís (ma) — pai, mãe e os três irmãos —, eu levava na bagagem erva, cuia e uma fita cassete. na verdade, fui o último a chegar e o primeiro a sair. meus pais e meus irmãos tiveram breves passagens por aqui, mas acabaram ficando por lá. só eu, depois de vir, nunca mais voltei. nunca mais voltei é forma de dizer — nunca mais voltei para morar, pois retornei várias vezes para visitar a família e duas vezes para me tratar do alcoolismo.

em setembro de 1989, quando saí de são luís, rumo a brasília, para participar do flaac --- festival latino-americano de arte e cultura, levava na mochila, erva, cuia e um sonho. o sonho tinha céu e chão: o tamanho exato da paz.

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eu quero uma casa no campo
onde eu possa compor muitos rocks rurais
e tenha somente a certeza
dos amigos do peito e nada mais

eu quero uma casa no campo
onde eu possa ficar do tamanho da paz
e tenha somente a certeza
dos limites do corpo e nada mais

eu quero carneiros e cabras
pastando solenes no meu jardim
eu quero o silêncio das línguas cansadas

eu quero a esperança de óculos
e meu filho de cuca legal
eu quero plantar e colher com a mão
a pimenta e o sal

eu quero uma casa no campo
do tamanho ideal, pau-a-pique e sapê
onde eu possa plantar meus amigos
meus discos e livros, e nada mais

casa no campo | zé rodrix /tavito (1972)
elis regina chora ao cantar «casa no campo»
(raríssimo!)

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sonho realizado
de volta à cidade
trago na mochila
erva, cuia
e uma história de vida
pra contar

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a beleza dramática da bolívia, a mulher que a perpetua, as nozes, as uvas, o queijo, a inteligência de borges, a inocência de teresa, a neve na suíça, o café em buenos aires, por supuesto.

elliot, rilke, os antigos chineses, florença, atenas, toledo, a lenha queimando no inverno europeu e a carta da minha querida sul-americana.

uma nova ideia, uma velha amiga, a noruega onde descubro minha verdadeira identidade, e o africano que me devolve meu som perdido e antquíssimo, a mulher que estou descobrindo neste exato momento.

alguma canção em granada, a primavera em paris, uma aventura em sevilha, um grande amor em madri. os beduínos e o mistério, jerusalém e a luz, o deserto, os camelos e a nostalgia do sul, o sul, o sul.

minha vida, minha vida, o mundo e a cor. minha vida, minha vida, silêncios e canção.

um poema a cada dia, veneza a cada vez, nazaré e a galiléia e os rastros de moisés. beber vinho no jordão, flutuar no mar morto. abrir os olhos em londres e na holanda a verdade, e o sol, e o mar.

minha vida, minha vida, o mundo e a cor. minha vida, minha vida, silêncios e canção.

las muchachas, las palomas, o caribe e o prazer, as maravilhas de roma, a ternura de belém. teotihuacan, machu picchu, chagall, o leite e o mel. os ciganos, a alegria, a liberdade e a fé, a fé, a fé.

minha vida, minha vida, o mundo e a cor. minha vida, minha vida, silêncios e canção.

mi vida | facundo cabral (1997)

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facundos para o mundo

por enilton grill

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nasceu num canto esquecido da argentina — la plata, 22 de maio de 1937 — veio ao mundo facundo cabral, filho da pobreza e do vento.

cantou em mais de 160 países. conheceu o mundo.

morreu na guatemala em 9 de julho de 2011, assassinado por engano. mas ninguém mata quem já vive nas palavras. facundo não foi embora: virou eco, virou vento, virou voz que à noite repete: «tu és o milagre, não te distraias do espanto».

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nasceu e morreu migrante e errante. um dia antes de seu nascimento, seu pai abandonou a família — a esposa e sete filhos. o oitavo, facundo, nasceu nas ruas de la plata, após o avô paterno expulsar a nora e os netos de sua propriedade. sem um teto para morar, a mãe e os filhos migraram de la plata para a terra do fogo, no extremo sul da argentina.

a infância pobre e desprotegida levou facundo à marginalidade e, mais tarde, a um reformatório. o álcool entrou em sua vida muito cedo, o que logo o levou à prisão. ali, um jesuíta o ensinou a ler e a escrever. inteligente e inquieto, o jovem logo teve contato com a literatura universal de autores como melville, conrad, dante e cervantes.

anarquista convicto — herança da avó materna —, facundo cabral tinha frases geniais e expressava-se com uma ironia brilhante:

«sou forçado a roubar porque cheguei muito tarde; desde antes de eu nascer as coisas já eram de alguém. por exemplo, dom quixote de miguel de cervantes, folhas de relva de whitman, tristão e isolda de wagner, a espanha era de franco, guernica de picasso, sophia loren de ponti, o oscar de marlon brando. a glória era de gardel, as vacas eram alheias e, se sobrava mais alguma coisa, julio iglesias levou. até a própria injustiça já tinha proprietário, assim como a desesperança é privilégio do tango. se eu gosto de uma mulher, ela está namorando ou casada; se sou ladrão, a culpa é da propriedade privada.»

sua mãe o criou com mãos sozinhas e olhar de horizonte, e sua infância foi uma longa caminhada sem sapatos nem escola, mas com a alma aberta ao espanto. não sabia ler, mas já sabia sentir.

aos nove anos fugiu de casa procurando por deus e o encontrou na voz de um velho vagabundo que o ensinou a olhar para as árvores como hinos verdes. mais tarde, a prisão ofereceu-lhe teto e pão, e foi lá, atrás das grades e silêncios, que aprendeu a ler.

seu caminho não foi de fama nem palco, mas de palavras como sementes, que foi deixando pela américa e pelo mundo. cantava como quem reza, falava como quem acorda. conheceu borges, a morte e o exílio. conheceu também o amor, embora sempre soubesse que o amor não se resume a um só lugar, nem a uma só pessoa.

suas canções eram sermões sem templo, sua voz — rouca de terra e clara de luz — ia da dor à ternura com a naturalidade de quem viveu o suficiente para não mentir. «não sou daqui nem sou de lá», cantava, e nessa frase se fez bandeira dos errantes, dos livres, dos que acreditam que o mundo cabe em uma gaita de boca.

nos anos 70, a ditadura o empurrou para fora da sua pátria, mas nunca conseguiram calá-lo. foi peregrino da alma: falou de buda, de cristo, de whitman e dos povos sem nome. cada palco era um altar; cada verso, uma porta.

em 1978, sua mulher, e sua filha (de um ano de idade) morreram em um acidente de avião. o choque foi tão grande, que ele desaprendeu a caminhar e a falar.

durante dois anos, esqueceu os oito idiomas que falava. ficou meses prostrado e deprimido, arrasado e desiludido. ficou quase cego, quase morreu.

madre teresa, ao inteirar-se do drama, convidou-o a segui-la. em calcutá, banharam leprosos e tiraram das ruas centenas de crianças abandonadas.

voltou a amar e a confiar na vida como o dia confia na noite e a noite na chuva e a chuva no vento. e então escreveu seu testamento: «senhor e mestre de mim mesmo, sem bandeira e sem espada, devolverei ao vento as maravilhas que me foram emprestadas».

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«una milonga sureña, un par de botas tejanas
una esperanza infinita y una flor en la ventana
una canción inconclusa y un jorongo mejicano
amores en todo el mundo y nada preso en la mano
un amigo en el desierto y un maestro en la montaña
la libertad más hermosa y la idea más extraña
esas cosas dejaré el día que yo me vaya
querida perdóname si a ti no te dejo nada»

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antes do fim, voltemos ao começo

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«mãe, por que todo mundo tem casa, menos a gente?», e sara respondeu: «eles são pobres porque só têm uma casa; nós temos o mundo para percorrer. continue andando!»

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«quando saí de casa, ainda criança, minha mãe me acompanhou até a estação e, quando entrei no trem, ela me disse: "este é o segundo e último presente que posso te dar: o primeiro foi te dar a vida, o segundo, a liberdade para vivê-la"».

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«morro feliz porque estás cada vez mais parecido com o que cantas». essas foram as palavras com as quais sara se despediu do filho pouco antes de morrer.

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e o senhor disse a abraão:
«deixe sua terra natal
e a casa de seu pai,
e vá para a terra que eu lhe indicar.
farei de você uma grande nação,
e o abençoarei
e, por meio de você, todos os povos da terra serão abençoados»,
o senhor disse a abraão.

essa bela e sábia ordem
foi a que convenceu meu coração
a decidir que o mundo fosse minha casa.
o mesmo mundo que colocou
ao alcance do meu espírito
a canção que me reflete
como nenhum espelho.

sou um caminhante de sais e madeiras,
apaixonado pela poeira dos caminhos.
construo minha casa dia após dia
e volto a destruí-la quando o sol
me propõe outras noites em claro.

sozinho, e sem querer ser ninguém,
protegido e amadurecido pela minha mente,
em busca das luzes misteriosas
onde os passos são lentos e eternos,
e alguém sabe tudo para decidir tudo.

enfrento a neve, as chuvas e os mares
e conheço o delírio das plantas,
das quais aprendo os cantos
que canto para ti,
ao deter-me apenas
pelo tempo que durem esses versos
e a fogueira que o amor provoque.

sou um caminhante,
uma espiga a mais,
um fruto em movimento,
inquieta paisagem que veio derrubar
os muros que, por medo,
levantou o covarde.

sou um caminhante que,
por estar sempre partindo,
sempre retorna,
porque tudo é circular
e isso o sol sabe como ninguém.

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não sou daqui, nem sou de lá
não tenho idade, nem porvir
e ser feliz
é minha cor de identidade

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no soy de aquí, ni soy de allá | facundo cabral, 1970
introducción: poema «el caminante»

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#américas

quinta-feira, 16 de julho de 2026


a vida é uma loteria

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«fora de campo, messi é um cidadão bem pequeno, bem minúsculo.
não se manifesta contra o racismo e vai lá beijar as botas do trump.»

milly lacombe

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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diego

para sempre rebelde
rebelde para sempre
ave, diego
ave

grill

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maradona

por eduardo galeano

diego armando maradona era adorado não apenas por suas jogadas prodigiosas, mas também porque era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses. qualquer um podia reconhecer nele uma síntese ambulante das fraquezas humanas, ou pelo menos masculinas: mulherengo, glutão, bêbado, trapaceiro, mentiroso, fanfarrão, irresponsável. mas os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam. maradona jamais conseguiu voltar para a multidão anônima de onde vinha. a fama, que o havia salvado da miséria, tornou-o prisioneiro. diego foi condenado a se achar maradona e obrigado a ser a estrela de cada festa, o bebê de cada batismo, o morto de cada velório.

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jogava melhor do que ninguém, apesar da cocaína, e não por causa dela. estava esgotado pelo peso de sua própria personagem. tinha problemas na coluna vertebral, desde o longínquo dia em que a multidão havia gritado seu nome pela primeira vez. maradona carregava uma carga chamada maradona, que fazia sua coluna estalar. o corpo como metáfora: suas pernas doíam, não podia dormir sem comprimidos. não tinha demorado a perceber que era insuportável a responsabilidade de trabalhar como deus nos estádios, mas desde o princípio soube que era impossível deixar de fazê-lo. «necessito que me necessitem...»

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mais devastadora do que a cocaína é a «exitoína».

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... era fácil condená-lo, mas não era tão fácil esquecer que maradona vinha cometendo há anos o pecado de ser o melhor, o delito de denunciar de viva voz as coisas que o poder manda calar e o crime de jogar com a canhota, que segundo o dicionário significa «com a esquerda» e também significa «o contrário de como se deve fazer».

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em 86 e em 94, no méxico e nos estados unidos, denunciou a ditadura onipotente da televisão, que obrigava os jogadores a extenuar-se ao meio-dia, esturricando-se ao sol, e em mil e uma ocasiões, ao longo de toda a sua acidentada carreira, maradona disse coisas que mexeram em casa de marimbondos.

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quando maradona foi, finalmente, expulso do mundial de 94, os campos de futebol perderam seu rebelde mais clamoroso...

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(eduardo galeano, trechos - em: futebol ao sol e à sombra)

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«recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração»

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se eu fosse maradona viveria como ele
(porque a vida é uma loteria que se vive à flor da pele)

houve uma vez que saí de santa vitória rumo ao beira rio e percorri 500 km sozinho num ônibus de excursão só pra ver o inter de falcão. tinha oito anos e pra mim não houve outro inter como o inter de falcão (nem o de fernandão).

o tempo passa e hoje o futebol pra mim perdeu a graça.

mas é bom às vezes re-cordar, ou seja, voltar a passar pelo coração. mesmo porque a memória parece funcionar a nossa revelia, como se tivesse vida própria.

a vida é vivida e o jogo jogado. não sei o que é certo nem o que é errado. não sou guiado pela razão nem por resultado. como dizia o poeta, «comigo a anatomia ficou louca, sou todo coração». o que não quer dizer nada. cada um que viva como quiser. ou como puder.

se eu fosse maradona viveria como ele.

e quem disse que não? foi com maradona que aprendi a ser tolerante e radical. corajoso e covarde. alegre e triste. com ele aprendi a perder e a ganhar. lembrei de lembrar, pois maradona já me fez sorrir e já me fez chorar.

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a vida é uma loteria
de noite e de dia
la vida es una tombola
y arriba y arriba

la vida tombola | manu chao (2007)

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#américas

quarta-feira, 15 de julho de 2026




as veias abertas da mão de deus

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a mão de deus
canção de rodrigo ‧ 2000

em um bairro pobre nasceu, foi vontade de deus
crescer e superar as dificuldades da vida humilde
enfrentar as adversidades
com o desejo de conquistar a vida a cada passo

em um campo (de várzea), ele forjou uma canhota imortal
com experiência e uma ambição insaciável de chegar lá
quando era criança, sonhava em jogar uma copa do mundo
e se consagrar na série a

talvez jogando ele pudesse
ajudar sua família

¡grande, diego!

¡ahí va!
para ser o maior do mundo, ahí

en una villa nació, fue deseo de Dios
crecer y sobrevivir a la humilde expresión
enfrentar la adversidad
con afán de ganarse a cada paso la vida

en un potrero forjó una zurda inmortal
con experiencia, sedienta ambición de llegar
de cebollita soñaba jugar un mundial
y consagrarse en primera

tal vez jugando pudiera
a su familia ayudar

a poco que debutó
«¡maradó, maradó!»
la 12 fue quien coreó
«¡maradó, maradó!»
su sueño tenía una estrella
llena de gol y gambetas

logo que estreou
«maradó, maradó!»
a 12 foi quem gritou
«maradó, maradó!»
seu sonho tinha uma estrela
cheia de gols e dribles

e todo o povo cantou
«maradó, maradó!»
nasceu a mão de deus
«maradó, maradó!»
ele trouxe alegria ao povo
regou de glória este solo

¡ahí va!
¡cuarteto, ay!
¡eso!, para el número uno del mundo

carrega uma cruz nos ombros por ser o melhor
por nunca se vender, enfrentou o poder
curiosa fraqueza: se jesus tropeçou
por que ele não haveria de tropeçar?

a fama lhe apresentou uma «branca mulher»
de sabor misterioso e prazer proibido
que o tornou viciado no desejo de usá-la novamente
envolvendo sua vida

e é uma partida que, um dia,
diego está prestes a vencer

¡olé, olé, olé, olé
diego, diego!
¡olé, olé, olé, olé
diego, diego!

¡olé, olé, olé, olé
diego, diego!
¡olé, olé, olé, olé
diego, diego!

¡te quiero, diego!

¡ahí va!
la mano de dios, ¡ahí va!

gracias

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https://www.youtube.com/watch?v=E7WTOoHdm2k&list=RDE7WTOoHdm2k&start_radio=1
la mano de dios (homenaje a diego maradona)

https://www.youtube.com/watch?v=Ecsqlv_n1zw&list=RDEcsqlv_n1zw&start_radio=1
en nueva york maradona canta «la mano de dios» junto a su mujer claudia y a su hija yanina
(imperdível)

https://www.youtube.com/watch?v=RoZr3ZN6GV8
VIDEOCLIP LA MANO DE DIOS, JORGE ALVARADO
(imperdível)

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poema para diego

não estás fisicamente aqui
mas continuas presente em cada lembrança
estás em cada pibe que veste a 10
em cada pai
que conta ao filho
quem foste
e em cada campo
onde ainda
cantam teu sobrenome

és o gol contra os ingleses
és a «mão de deus»
e o capitão
que fez chorar
de alegria
um país inteiro
és os abraços de 86
os gritos de nápoles
e o sorriso malicioso
de um povo
que se sente representado
e identificado

porque a maior jogada não foi um gol
foi ter dado ao povo uma bandeira
na qual acreditar
e por isso
o povo nunca te abandonou

obrigado
obrigado, obrigado, obrigado
obrigado por nos ensinar que a bola não se mancha
que a paixão não se negocia
e que ídolos como tu
não desaparecem

grill

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diego y las abuelas (ni olvido,ni perdón)
[clique no link acima]

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mensajes del alma
[argentina: 24 de marzo de 1976]

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«se o mundo sobreviver, os professores de história explicarão o século xx através de seus símbolos: mostrarão a seus alunos a garrafa de coca cola, a bola de futebol, o televisor, o computador, a bomba de nêutron. e para explicar a dignidade, mostrarão o lenço branco das rondas da plaza de mayo.»

eduardo galeano

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«não há povo sem memória, o povo sem memória desaparece.»

adolfo pérez esquivel

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«o pior cego é aquele que não quer ver»

popular

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a memória

pior que não ver
é ver e dizer que não vê
pior que ver e dizer que não vê
é ver e dizer que o melhor é esquecer

grill

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os velhos amores que não estão
a ilusão dos que perderam
todas as promessas que se vão
e os que em qualquer guerra caíram
tudo está guardado na memória
sonho da vida e da história
o engano e a cumplicidade
dos genocidas que estão soltos
o indulto e o ponto final
para as bestas daquele inferno
tudo está guardado na memória
sonho da vida e da história
a memória desperta para ferir
aos povos dormidos
que não a deixam viver
livre como o vento
os desaparecidos que se buscam
com a cor dos seus nascimentos
a fome e a abundância que se juntam
os maltratos com sua má lembrança
tudo está gravado na memória
espinha da vida e da história
dois mil comeriam por um ano
com o que custa um minuto militar
quantos deixariam de ser escravos
pelo preço de uma bomba no mar
tudo está gravado na memória
espinha da vida e da história
a memória pincha até sangrar
aos povos que a amarram
e não a deixam andar
livre como o vento
todos os mortos da AMIA
e da embaixada de israel
o poder secreto das armas
a justiça que olha e não vê
tudo está escondido na memória
refúgio da vida e da história
foi quando se calaram as igrejas
quando o futebol escondeu tudo
que os padres palotinos e angelelli
deixaram seu sangue no lodo
tudo está escondido na memória
refúgio da vida e da história
a memória explode até vencer
aos povos que a esmagam
e não a deixam ser
livre como o vento
a bala a chico mendez no brasil
150. 000 guatemaltecos
os mineiros que enfrentam o fuzil
repressão estudantil no méxico
tudo está gravado na memória
arma da vida e da história
américa com almas destruídas
os jovens que o esquadrão mata
suplício de mujica pelas vilas
dignidade de rodolfo walsh
tudo está gravado na memória
arma da vida e da história
a memória aponta até matar
aos povos que a calam
e não a deixam
livre como o vento
livre como o vento

la memoria | león gieco / gustavo santaolalla (2001)
[león gieco y la banda sinfónica de ciegos]

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«a praça é das mães, e não dos covardes.»

voz popular

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em novembro de 2002, a icônica líder argentina hebe de bonafini concedeu uma entrevista à revista caros amigos, refletindo sobre os 25 anos de resistência das mães da praça de maio.

mesmo sob o peso da ditadura e do descaso político que se seguiu, a força dessas mulheres redefiniu a história da américa latina.

eis um trecho impactante dessa conversa que ecoa até hoje:

como a senhora avalia a evolução do movimento das mães da praça de maio nestes 25 anos?
o movimento passou por várias fases. a primeira coisa e a mais importante foi não ter abandonado a praça todos estes anos.

e enquanto isso como evoluía a situação da argentina?
cada vez pior, mais repressão, mais trabalhadores sem emprego. e os políticos só estavam preocupados com as eleições. a ditadura militar terminou em 1983, mas desde 1982 os políticos só se preocupavam com as eleições. e fomos a eles e dissemos: senhores, se os senhores não insistirem com os juízes que julguem e condenem os militares responsáveis, não há democracia possível, pois há os desaparecidos, as mães, os pais, os filhos dos desaparecidos, e a política segue como sempre?

e como eram as relações com a sociedade em geral? no início, as senhoras eram chamadas de loucas...
somos loucas. totalmente loucas. loucas e ilegais. mas a sociedade foi se convencendo de que as loucas da praça de maio tinham vindo para ficar. quando chegou a época dos governos constitucionais, nos diziam para respeitar alfonsín e dizíamos que todos os juízes são corruptos. foi um escândalo: «como dizem que todos os juízes são corruptos?» hoje, todos dizem que os juízes são corruptos.

como a senhora lidou com o medo, na época da ditadura?
não tínhamos medo.

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trecho extraído da revista caros amigos (ano 6, nº 68, novembro de 2002).

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eu só peço a deus
que a dor não me seja indiferente
que a morte não me encontre um dia
solitário sem ter feito o que eu queria

eu só peço a deus
que a injustiça não me seja indiferente
pois não posso dar a outra face
se já fui machucado brutalmente

eu só peço a deus
que a guerra não me seja indiferente
é um monstro grande e pisa forte
toda pobre inocência dessa gente

eu só peço a deus
que a mentira não me seja indiferente
se um só traidor tem mais poder que um povo
que este povo não o esqueça facilmente

eu só peço a deus
que o futuro não me seja indiferente
sem ter que fugir desenganando
pra viver uma cultura diferente

sólo le pido a dios | león gieco (1978)
cantam: mercedes sosa e león gieco
teatro ópera 1982

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de volta a 1986
[no princípio era D10S]

um dos jogos mais emblemáticos da história da copa do mundo é inglaterra x argentina na copa de 1986, que ficou marcado por muita rivalidade e dois gols históricos de maradona: um deles de mão (a famosa «mano de díos») e outro uma pintura, driblando metade do time inglês.

[clique no link acima]

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quarenta anos depois, o gol da «mão de deus» de maradona ainda é celebrado. mas deveria?
publicado: 24 junho 2026
tradução por ana carolina guimarães nogueira
este artigo foi originalmente publicado em inglês

[clique no link acima]

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a guerra das malvinas e os dois gols: o jogo de 1986 foi o primeiro entre as duas seleções após o conflito bélico de 1982, e galeano pontuou a importância política do triunfo argentino. maradona foi visto por ele não apenas como o herói do esporte, mas como um vingador da derrota nacional.

o autor descreveu os gols contra a inglaterra de forma poética: o primeiro, marcado com a «mão de deus», foi a vitória da malandragem argentina. o segundo, o «gol do século», foi definido como uma obra-prima onde maradona driblou quase o time inglês inteiro por puro gozo da liberdade corporal.

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maradona por eduardo galeano
[clique no link acima]

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a reflexão sobre o ídolo: galeano via maradona como o mais «humano dos deuses». em seus textos, o autor também não ignorava o lado trágico do craque. ele reconhecia que diego jogava melhor do que ninguém, mas pagava um preço altíssimo por carregar nos ombros a pesada responsabilidade e a expectativa de um país inteiro.

uma análise poética de eduardo galeano sobre o antológico gol de maradona contra a inglaterra na copa de 1986:

inolvidable historia de eduardo galeano sobre el gol de maradona a inglaterra en mexico '86
[clique no link acima]

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de volta a «la mano de dios»

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«roubei a carteira deles»

maradona

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quarenta anos depois, o gol da «mão de deus» de maradona ainda é celebrado. mas deveria?

com a palavra, D10S

[clique no link acima]

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antes do fim

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a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida»

vinicius de moraes

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encuentro diego y silvio

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📷mercedes sosa e eu: antonio soler
cantamérica, porto alegre, 1996

📷león gieco e eu: antonio soler
cantamérica, porto alegre, 1996

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#américas

terça-feira, 14 de julho de 2026

amor é apenas uma palavra de quatro letras

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«aprendi a ser formal e cortês
cortando o cabelo uma vez por mês
e se acabou a formalidade
é que nunca gostei da sociedade.»


charly garcía

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«qui m´importa, qui m´importa
o seu preconceito
qui m´importa»


renato teixeira

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«você tem uma única tarefa: concretizar sua própria natureza; e, para isso, precisa estar na sociedade como se não fizesse parte dela. a sociedade que é tão medíocre que continua apostando em coisas que nunca funcionaram nem funcionarão.»

facundo cabral

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vai trabalhar, vagabundo

por eduardo marinho

antigamente, eu pedia comida olhando no olho das pessoas – eu ainda não sabia vender meus artesanatos. o ato de pedir é uma grande escola se não nos deixamos humilhar por isso. por exemplo, se eu chego em um restaurante e vejo o dono do estabelecimento, vou até ele e digo: «estou viajando de carona, sem dinheiro, e estou sem comer há alguns dias. estou com muita fome, e você está cheio de comida aí. você vai me negar um prato de comida? não acredito nisso!».

ele se espanta pelo fato de alguém que esteja pedindo comida fale de igual para igual com ele, sem humilhação. se ele negar o prato de comida, eu me retiro. já aconteceu de me retrucarem: «mas você quer comida sem trabalhar?». respondi: «se tiver trabalho aí eu trabalho. faço qualquer coisa: lavo os pratos, varro o chão, sirvo as pessoas, limpo os banheiros, estaciono os carros… ». ele: «mas eu tenho funcionários para fazer tudo, não preciso de seus serviços». eu: «mas eu preciso comer. você não vai me negar um prato de comida, né?».

é constrangedor para ele negar comida, mas se ele o fizer, o faz violentamente, através de xingamentos, então eu vou no restaurante vizinho repetir o mesmo processo, até que me deem um prato de comida.

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ao vento

não tive muita sorte
com as mulheres
como poeta

uma me mandou trabalhar
a outra já de saída
deu de me podar

a mesma poesia
que me levou a elas
foi a que
me afastou delas

grill

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«devolva o neruda que você me tomou
e nunca leu»

chico buarque

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«a "rainha das cantoras folk", essa tinha que ser joan baez. joan nasceu no mesmo ano que eu, e nossos futuros iriam se conectar, mas, naquela época, seria um despropósito sequer pensar nisso. eu a vira na tv. ela estava em um programa de música folk.


não consegui parar de olhar para ela, não queria nem piscar.

ela tinha uma aparência bem travessa - cabelo negro cintilante, pestanas encurvadas, parcialmente erguidas... a visão dela me deixou enlevado. tudo aquilo, e ainda a voz. uma voz que expulsava os maus espíritos. era como se ela tivesse vindo de outro planeta.

de origem escocesa e mexicana, ela parecia um ícone religioso, alguém por quem você se sacrificaria, e cantava com uma voz direto para deus... também era uma instrumentista excepcionalmente boa.

joan parecia muito madura, sedutora, intensa, mágica. nada do que ela fazia dava errado. o fato de ela ter a mesma idade que eu quase fez com que me sentisse inútil.

no entanto, por mais ilógico que pudesse parecer, algo me disse que ela era meu complemento - aquela com quem minha voz poderia encontrar perfeita harmonia.

naquela época não havia nada além de mundos de distância e enormes barreiras entre ela e eu. eu ainda estava atolado na roça. não obstante, alguma sensação estranha me disse que inevitavelmente nos encontraríamos.»

bob dylan, crônicas - volume um, pg 277.

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«ele parecia um caipira urbano, com os cabelos batidos em volta das orelhas e encaracolados no topo. deslocando o peso do corpo de um pé para o outro enquanto tocava, ele parecia pequeno por trás do violão. ele era um absurdo, sua jaqueta era de couro surrado, dois números menor do que o seu tamanho, andava sempre maltrapilho, mas tinha algo nele que o fazia maior do que ele parecia ser...»

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«tentei convencer bobby a cuidar da saúde, a beber e fumar menos, a escovar os dentes, pentear o cabelo, tomar banho, trocar de roupa, essas coisas todas (...) ele é uma pessoa complicada, problemática e difícil. vejo bobby como um diamante levemente danificado na cabeça. mais sensível do que a média das pessoas. quando eu estava na plateia assistindo-o tocar, percebia quão facilmente ele ficava arrasado com um comentário ou com algo que passava! mas nunca se sabe quando ele sente essas coisas, porque ele é muito bom em ocultar tudo isso. na minha opinião, por alguma razão, ele quer se aliviar de toda a responsabilidade, para apenas sobreviver com o que as pessoas têm para oferecer. se você não se preocupa consigo mesmo de verdade, então não tem de se preocupar com mais ninguém. ele é assustadoramente inteligente, com um curioso imã dentro de si que nos atrai. quer dizer, eu amo bobby, e faria qualquer coisa por ele, sempre.»

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«eu andava por aí roubando as músicas dele. quer dizer, literalmente. ele escreveu "four letter word", deixou cair atrás de um piano e esqueceu. eu peguei a música lá em casa e aprendi a tocar. um ano depois, eu estava cantando e ele disse: "eita, que música boa, de quem é?". e eu ri: "foi você que escreveu, seu idiota!".»

joan baez

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parece que foi ontem
que deixei minha mente para trás
lá no café cigano
com uma amiga de uma amiga minha
que estava sentada com um bebê pesado no colo
mas falava de uma vida totalmente livre da escravidão
com olhos que não mostravam nenhum traço de sofrimento
uma frase me veio à mente, associada a ela:
que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

do lado de fora, na vitrine de uma loja desorganizada
gatos miavam até o raiar do dia
eu, por minha vez, mantive a boca fechada
para você, não tinha palavras a dizer
minha experiência era limitada e insuficiente
você falava enquanto eu me escondia
para aquele que era o pai do seu filho
você provavelmente não imaginou que eu tivesse ouvido, mas eu ouvi
você dizer que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

eu me despedi sem ser notado
empurrado para dentro dos meus próprios jogos
flutuando entre vidas
indescritíveis por nome
procurando meu duplo, buscando
a evaporação completa até o âmago
embora eu tenha tentado e falhado em encontrar qualquer porta
devo ter pensado que não havia nada mais absurdo
do que dizer que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

embora eu nunca tenha sabido exatamente o que você quis dizer
quando falava com seu homem
só consigo pensar em termos de mim
e agora eu entendo
depois de acordar vezes suficientes para achar que vejo
o beijo sagrado que deveria durar a eternidade
se transformar em fumaça, é o destino
recai sobre estranhos, viaja livremente
sim, agora eu sei, as armadilhas só sou eu quem arma
e eu realmente não preciso que me garantam
que amor é apenas uma palavra de quatro letras

é estranho estar ao seu lado
há muitos anos a situação se inverteu
você provavelmente não acreditaria em mim
se eu te contasse tudo o que aprendi
e é muito, muito estranho mesmo
ouvir palavras como «para sempre»,
frotas de navios passam pela minha mente,
não consigo enganar
é como olhar diretamente nos olhos do professor
não posso dizer nada a você, a não ser repetir o que ouvi
que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

love os just a four letter word | bob dylan (1967)
canta: joan baez

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com 85 anos, e ainda jovem, baez parece saber coisas que sempre confundiram, e continuam a confundir o bardo.

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«não consigo ver meu reflexo nas águas
não consigo expressar os sons que não revelam dor
não consigo ouvir o eco dos meus passos
nem lembrar o som do meu próprio nome»

dylan

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ao vento

com o passar do tempo
o poeta errante e a morena estonteante
foram ficando cada vez mais distantes
quarenta anos depois, dylan emitiu um mea culpa:

«eu estava apenas tentando lidar com a loucura que se tornou minha carreira… não dá pra amar e ser esperto ao mesmo tempo... lamento ver esse relacionamento terminar.»

de sua parte, baez não guardou rancor, mas disse melancolicamente:

«meus instintos de mãe verteram porque ele era uma bagunça desalinhada... dylan é um diamante a ser lapidado... um poeta em estado bruto.»

a musa que me perdoe, mas lapidar dylan seria tirar dele o que o torna único. ele é um diamante porque permaneceu bruto.

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diamantes e ferrugem

atrás
de nós
a paisagem
já é
memória
o tempo
corre
não
para a frente
mas
para dentro
meu destino
é ser pedra
o teu
diamante
o tempo
que corre
para dentro
é o mesmo
que oxida
o ferro
enquanto
você
faz silêncio
eu
pacientemente
espero
meu destino
é ser pedra
o teu
diamante
enquanto
você
fala
eu
berro

grill

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você apareceu no cenário
já como uma lenda
a pedra bruta
o poeta errante
o vagabundo original
você veio para os meus braços
e lá ficou
sim, eu te amava demais
e se você está me oferecendo diamantes e ferrugem
eu já paguei

diamonds and rust | joan baez (1975)
(legendas em português)

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#américas