quinta-feira, 23 de julho de 2026


 que nadie me mida el corazón 

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«como fica forte uma pessoa, quando está segura de ser amada.»

freud

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«somos finos como papel. existimos por acaso entre as percentagens, temporariamente. e esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. e não há nada que se possa fazer sobre isso. você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. você pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. talvez pensemos demais. sinta mais, pense menos.»

bukowski

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«o que quer que eu fosse, fui desde o começo. não queria que ninguém mexesse com isso. e ainda não quero.»

(idem)

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«todos nós vamos morrer, que circo! só isso deveria fazer com que amássemos uns aos outros, mas não faz. somos aterrorizados e esmagados pelas trivialidades, somos devorados por nada.»

(idem)

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eu não vejo nada
tô atrás da porta
tô no chão do carro
tô num fundo falso

eu não sinto nada
tô desenchufado
tô perdendo o tato
tô alienado

eu não acredito
tô desencantado
tô sem compromisso
tô criando caso

eu não faço nada
tô sem movimento
tô virando estátua
tô embrutecendo

eu não quero nada
tô sem interesse
tô desapontado
tô sem endereço

eu não acredito
tô desencantado
tô sem compromisso
tô criando caso

eu não digo nada
tô silencioso
tô comendo grito
tô alimentado

eu não penso nada
tô no meu direito
tô virando bicho
tô desaprendendo

eu não acredito
tô desencantado
tô sem compromisso
tô criando caso

eu não acredito

https://www.youtube.com/watch?v=GW_gATQc7cE&list=RDGW_gATQc7cE&start_radio=1
desenchufado
| vitor ramil (2004)

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«eu acho que eu nasci nesses últimos dois anos. na verdade, dizer que eu nasci é um certo exagero, porque pretendo seguir nascendo, mas aconteceu de eu me livrar de demoninhos que me atormentavam há muitos anos. deve ter sido a tal da crise dos quarenta. eu tinha chegado a pensar que a minha criatividade dependia dos meus estados de melancolia. hoje, no entanto, me sinto mais criativo do que nunca, estando feliz como nunca. eu não me sentia digno de um elogio, não relaxava, cada conquista era só um passo na direção de algo verdadeiramente bom que eu ainda iria fazer, eu não desfrutava nada. aceitar-me... acho que essa foi a chave para o meu "nascimento".»

(ramil, 2015 apud rubira, 2015, p. 214).

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«gracias a la vida que me ha dado tanto...» gracias a la vida, a canção mais conhecida de violeta parra, foi uma espécie de epitáfio adiantado — uma canção tão intensa e contraditória como sua própria vida. pouco mais de cem dias após sua edição, la viola acabava voluntariamente com a própria vida. «por que o fez? violeta era uma mulher tão valente», perguntou sua mãe. pouco antes, violeta havia dito ao jornalista tito mundt: «me falta algo, não sei bem o que é. eu procuro e não encontro. com certeza nunca vou achar.»

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poesia não rima com linha reta poesia rima com estrada torta siga a seta force a porta não é porque a porta não abre que não é a porta certa às vezes a chave é certa a fechadura é que é torta grill

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«e de repente o resumo de tudo é uma chave. a chave de uma porta que não abre para o interior desabitado no solo que inexiste, mas a chave existe.» drummond

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e de repente
o resumo de tudo é uma palavra:
a chave de uma luz apagada.
a palavra certa,
na hora certa,
abre a porta.

grill

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crônica familiar

entretanto, a solidariedade, o respeito, o amor continuam florescendo entre as brechas do asfalto, como disse drummond em um dos seus mais belos poemas. recebi do meu amigo moeller excertos do livro de um enfermeiro americano com vários exemplos de solidariedade. o que mais me comoveu foi a história de um menino de seis anos cuja irmã, de dois, sofria de uma doença rara e quase sempre mortal. só poderia ser salva se ele, o irmão mais velho, doasse sangue para ela, pois tivera a mesma doença e se curara milagrosamente, adquirindo anticorpos. quando o médico lhe explicou que ele devia dar seu sangue para salvar a irmã, em princípio ele hesitou, mas acabou concordando: «se é para salvar a vida dela...» deitou-se numa cama ao lado da irmãzinha e viu quando as bochechas dela começaram a ficar coradas. sorriu, mas logo ficou triste novamente. perguntou ao médico: «doutor, é agora que eu vou começar a morrer?» todos choraram no quarto. o bravo menininho estava preparado para morrer. achara que morreria, pois teria de dar todo o seu sangue para salvar a irmãzinha.

fausto wolff

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cada um de nós compõe a sua história [e cada ser em si / carrega o dom de ser capaz / de ser feliz]

minha irmã nunca sofreu de doença rara nenhuma e, como podem ver na foto, está feliz da vida e plena de saúde. ademais, é solidária comigo e com todos os que dela de alguma forma precisam.

para quem não a conhece, minha irmã é daquelas pessoas raras, de que falava bertolt brecht: imprescindíveis, para quem pensa um mundo melhor, mais justo, mais humano, mais fraterno e mais solidário.

o que me fez postar o texto de fausto wolff, então, foi a minha identificação com o bravo menininho da história. eu também morreria pela minha irmãzinha, se preciso fosse. mas não é. ainda bem que não é. temos muita vida pra tocar em frente.

se lembra do futuro
que a gente combinou
eu era tão criança e ainda sou

grill

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é preciso amor
pra poder pulsar
é preciso paz pra poder sorrir
é preciso a chuva para florir

penso que cumprir a vida
seja simplesmente
compreender a marcha
e ir tocando em frente

como um velho boiadeiro
levando a boiada
eu vou tocando os dias
pela longa estrada, eu vou
estrada eu sou

https://www.youtube.com/watch?v=qDSttqXpxqY&list=RDqDSttqXpxqY&start_radio=1
tocando em frente | almir sater / renato teixeira (1990)
apresentação: lima duarte

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por falar em irmã

minha irmã de alma, carla gastal, me enviou anos atrás uma foto de meu avô joão carlos gastal onde ele aparece ao lado do então governador do rio grande do sul, leonel brizola, com representantes do ptb em pedro osório.

eles buscavam melhorias para a região: a construção de 27 escolas, rede elétrica para candiota, além de escola de formação de professores para a zona rural.

na época dessa foto, eu ainda não havia nascido; mas tenho muitas e grandes lembranças de meu avô. lembro, por exemplo, de ele ser chamado para intervir a favor dos estudantes, na praça da faculdade de direito, em pelotas, contra a repressão policial, em plena ditadura militar (foto).

isso, por si só, já seria motivo mais que suficiente para sentir orgulho de meu avô. mas tem mais. um dia eu conto.

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o parâmetro humano

luís fernando veríssimo

o ser humano é a medida de todas as coisas. pelo tamanho do ser humano se mede a vastidão do universo, assim como pelo palmo e a braça se começou a medir a terra. todo o conhecimento do mundo se faz de uma perspectiva humana, todo o julgamento das coisas do mundo se faz por um parâmetro humano.

já tentaram rebaixar o homem a mero servo de uma ordem divina, a autômato descartável de engrenagens industriais, a estatística sem identidade de regimes totalitários, e agora a uma comodidade entre outras comodidades, com nenhuma liberdade para escolher seu destino individual e o mundo em que quer viver.

mas o indivíduo só é realmente um indivíduo numa sociedade igualitária, como só existirá liberdade real onde os valores neoliberais não prevalecerem.

da ciranda da informação independente
i fórum social mundial
porto alegre, 2001

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e o rádio?

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santa vitória do palmar, 1973

quando guri, eu morava em santa vitória e o brinquedo de todo guri de santa vitória era o brinquedo de todo guri do interior: jogar bola, bolinha de gude e subir em árvore. um dia caí de uma delas e quebrei a bacia. tive que ficar dois meses imóvel em cima de uma cama.

em santa vitória, naquela época, não havia sinal de tevê (a tevê não pegava). meu avô, sabendo disso e penalizado com minha situação, me mandou de presente um transglobe.

o transglobe era um super-rádio — e o meu, maior ainda — de tão grande que era, parecia que tinha o mundo dentro... santa vitória, pelotas, porto alegre, são paulo, rio de janeiro, montevidéu, buenos aires...

talvez isso explique um pouco eu ser como sou. fui criado ouvindo rádio, e o mundo que sai de dentro do rádio não sai pronto e desenhado — antes de visualizá-lo, é preciso imaginá-lo. e, quando criança, a gente imagina o mundo como quer: ou seja, como ele poderia ser, ou como gostaria que fosse, e não como ele é.

o transglobe, por exemplo, eu o imaginava muito maior do que ele é.
e o tempo? o tempo, não. o tempo parece menor do que ele é.
ontem parece que foi no mês que vem.
contudo, me olho no espelho e vejo que não.
enfim, acho que tudo se mede, menos o coração.

grill

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mi abuelo me dijo la otra vez
me dijo mi abuelo que tal vez
su abuelo le sepa responder
si el tiempo es mas largo cada vez

https://www.youtube.com/watch?v=EnTofiYehXY&list=RDEnTofiYehXY&start_radio=1
la casa de al lado | fernando cabrera, 1993

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talvez tenha algo de ficção no meio disso tudo. sempre tem. lembrança mais que tudo é imaginação.

vitor que o diga.

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e tudo isso

foi no mês que vem
foi quando eu chegar
foi na hora em que eu te vi

e mais que tudo
foi no mês que vem
foi quando eu chegar
na hora em que eu te quis

https://www.youtube.com/watch?v=7oXDLqhFKwc&list=RD7oXDLqhFKwc&start_radio=1
foi no mês que vem | vitor ramil (1995)

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«beijos, estou de saída
vou reinventar minha vida
vida, vida
eu preciso viver
hei, querida
pra que disfarçar nossa solidão?»

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estrela, estrela
como ser assim
tão só, tão só
e nunca sofrer

brilhar, brilhar
quase sem querer
deixar, deixar
ser o que se é

https://www.youtube.com/watch?v=9u4SRY6RS_E&list=RD9u4SRY6RS_E&start_radio=1
estrela, estrela | vitor ramil (1981)
do álbum: foi no mês que vem (2013)

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«após estrela, estrela era hora de se retirar e iniciar uma senda própria na música em busca de "ser o que se é". nos territórios interiores de vitor ramil, muitas coisas já pediam passagem, entre elas a canção satolep.

(luis rubira, em vitor ramil — nascer leva tempo, p. 47)

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«sinto hoje em satolep
o que há muito não sentia
o limiar da verdade
roçando na face nua»

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#américas

quarta-feira, 22 de julho de 2026


somos um bando e muitos outros 

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«grandes pinturas não deveriam estar em museus. museus são cemitérios. pinturas deveriam estar nas paredes das ruas, em estações de trens, em mictórios...»
bob zimmerman

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recordar é viver

algum tempo atrás, numa postagem minha no facebook, na qual eu falava sobre a foto de lula abrazado a sarney, uma companheira amiga minha, contemporânea do lad (livres atuadores pela democracia), fez o seguinte comentário:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo candidato pra derrotar o bolsonaro, glauber braga se lançou pelo psol. quem sabe combateremos o nazifascismo em rodas de ciranda, néh 😉»

resposta minha:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo argumento para nos abrazarmos a sarney e cia: o nazifascismo. aliás, o nazifascismo, para petistas e lulistas, muda de cara a cada quatro anos. em 2002, a cara era uma; em 2006, outra; em 2010, outra; e, em 2014, outra. e o final deste filme, sabemos qual é. mas que importância isso tem? nenhuma. o que importa é que a gente vença e passe mais 10, 12, 14, 16 anos no governo. depois, se nos tirarem de novo, a gente vê o que faz. mas não te preocupa, companheira, minha opinião não tem valor algum. ainda tô no jardim de infância da política, de onde, por sinal, não tenho o menor interesse de sair. 😉»

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como nossos pais

que me desculpem os «velhos de espírito»
mas não são as rodas de ciranda
nem os jardins de infância
que têm que acabar
o que tem que acabar são os «museus»

grill

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velha roupa colorida 

diferente do que muitos de nós, da esquerda, pensamos
não somos santos
muitas vezes nos atrapalhamos
nos enredamos
seres humanos que somos
(nem sempre nos amamos
muitas vezes nos odiamos)

nós, da esquerda
somos mais justos
mais solidários
mais fraternos
somos mais livres
mais humanos
mais inteligentes

nós, da esquerda
não somos nada disso
quando em nome disso
traímos tudo isso

(idem)

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«vou tratar [os 60 anos do golpe de 1964] da forma mais tranquila possível. estou mais preocupado com o golpe de janeiro de 2023 do que com o de 64. isso já fez parte da história, já causou sofrimento, o povo já reconquistou o direito democrático. os militares, hoje no poder, eram crianças naquele tempo. alguns nem eram nascidos»

luiz inácio lula da silva

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«o que eu não posso é não saber tocar a história para frente, ficar remoendo sempre, remoendo sempre, ou seja, é uma parte da história do brasil que a gente ainda não tem todas as informações, porque tem gente desaparecida ainda»

(idem)

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que fim levaram todas as flores?
que o preto velho me contava
que fim levaram todas as flores?
que a rainha louca não gostava
que a lapela morta carregava
que o olhar de todos me lembrava
que fim levaram todas as flores?
que qualquer coisa não estragava
em qualquer dia que podia
com grande amor e alegria
que fim levaram todas as flores?
que a criança às vezes me pedia

que fim levaram todas as flores | joão ricardo (1974)
(homenagem aos que tomaram posição contra a ditadura militar)

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31 de março de 1964

nunca entendi esse dia
(agora entendo)

quando os tanques tomaram as ruas do rio e de brasília, jango ainda estava no país. mesmo assim, ninguém foi capaz de atirar uma pedra, nem uma pedra, uma pedra, simbólica que fosse, contra os tanques. brizola queria armar a resistência a partir de porto alegre, como havia feito em 61. jango foi contra. apesar da insistência de brizola, jango seguiu para o exílio no uruguai. na real, antes mesmo de jango deixar o país, o presidente do senado, auro de moura andrade, já havia declarado vaga a presidência da república.

o dia que durou 21 anos
(trailer)

500 mil cidadãos investigados pelos órgãos de segurança
200 mil detidos por suspeita de subversão
50 mil presos só entre março e agosto de 1964
11 mil acusados em inquéritos das auditorias militares
dezenas de milhares de pessoas torturadas
10 mil brasileiros exilados
4.862 mandatos cassados
1.148 funcionários públicos demitidos
6.592 militares reformados ou punidos
(por defenderem a constituição e se oporem ao golpe de estado)
1.202 sindicatos sob intervenção
congresso nacional fechado por três vezes
sete assembleias estaduais postas em recesso
censura prévia à imprensa e às artes
434 mortos
243 desaparecidos

não esqueço, não perdoo

éramos muitos. mas não foram muitos os que se entrincheiraram.
foram poucos os que levantaram barricada.
viva lamarca! viva mariguela!
viva dandara! viva zumbi! viva sepé!
viva os que caíram e morreram de pé!
onde estávamos? que fazíamos? como dormíamos?
é isso que me dói. sempre me doeu.
custei muito a entender.
agora está tudo muito claro e fácil de compreender.
me dói tudo, não vejo nada.

grill

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«a gente tem um país, mas ainda não tem uma nação»

paulinho da viola

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desilusão, desilusão
danço eu, dança você
na dança da solidão

dança da solidão | paulinho da viola (1972)

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canta: marisa monte

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desilusões

por luis fernando verissimo

«desilusão, desilusão…» o samba dança da solidão, do grande paulinho da viola, cantado pela grande marisa monte, seria um fundo musical perfeito para estes estranhos tempos. poderíamos chamá-lo de «leitmotiv» da nossa desesperança, se quiséssemos ser bestas. a desilusão começou quando? dá para escolher. no fim da ditadura que o bolsonaro diz que nunca existiu, quando tancredo ia tomar posse como o primeiro presidente civil em 20 anos, mas os germes hospitalares de brasília tinham outros planos? depois viria o entusiasmo seguido de grande frustração com collor, o breve, tão bonito, tão moderno, tão raso, a desilusão com o pt e a desilusão com os políticos em geral, agravada com as revelações de que até grão senhores da república levavam bola.

por falar em escândalos… o samba do paulinho também tem um verso que, ligeiramente adaptado, nos diz respeito. «quando eu penso no futuro, não esqueço o passado.» se essa eleição presidencial por grande maioria provou alguma coisa é que nosso passado não tem mais nenhuma relevância política. a ditadura foi esquecida, até os generais estão voltando. bolsonaro pode ter razão, a ditadura pode nunca ter acontecido, o golpe de 64 pode ter sido apenas um movimento de tropas, como disse o toffoli.

foi tudo um delírio, vamos esquecê-lo. rubens paiva, stuart angel, vladimir herzog, manoel fiel filho e as centenas de supostos desaparecidos podem voltar. acabou a farsa. e façam suas apostas: o que vai ser esclarecido primeiro, o caso da bomba no riocentro, do qual nunca se ouviu mais nada, ou o caso da marielle, que também não?

publicado originalmente n’o estado de s. paulo.
8 de novembro de 2018.

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aos patrulheiros de plantão

ser esquerdista e criticar a esquerda é algo que a esquerda, em geral, simplesmente não tolera. eu que o diga. por causa de tamanho atrevimento, já fui chamado de fariseu, infantil e golpista. militante de sofá. militante de facebook. fanfarrão, delirante, pessimista, ingênuo, inocente... até de bolsonarista já me chamaram.

em suma, vivo num mundo de fantasia alheio a tudo e não proponho nada.

diferente do que muitos pensam, não fico chateado nem perco o sono com a imagem que alguns fazem de mim. aliás, muito pelo contrário. às vezes, me dá até vontade de rir de alguns «livres-pensadores» e de suas análises rasas.

judas, fariseu, golpista, bolsonarista, quinta-coluna, militante de sofá, rebelde de apartamento, rebelde sem causa, revolucionário de facebook, utópico, distópico, homem das montanhas, ermitão, bufão, fanfarrão, falastrão, saudosista, ultrapassado, sonhador, idealista, futurólogo, delirante, inadequado, desagradável, inoportuno, inconsequente, niilista, pessimista, ingênuo, inocente, raso, inútil, azedo...

vale tudo, só não vale me chamar de insensível. insensível é a pessoa que tem dificuldade em demonstrar seus sentimentos.

sinto muito, mas não é o meu caso.

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telegrama

«eu tava triste, tristinho»... a tristeza tava me inundando. saí da frente do pc e fui lavar a louça. mesmo assim, ela continuava — a tristeza, não a louça suja. saí da frente da pia e fui limpar o fogão. botei o arroz e o feijão para cozinhar. sem ter mais o que fazer, comecei a escrever. enquanto eu escrevia, a comida ficou pronta. talvez saciar a fome aplaque a tristeza. talvez...


— mas e quem não tem o que comer, como mata a tristeza?

— cantando, compondo, escutando música.

— mas e quem não tem música? faz o quê?

— vai ler... vai escrever...

— mas e quem não sabe ler nem escrever?

— que tente enganar a morte...

— como?

— como uma pedra que rola...


grill

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a princesa na torre do castelo e toda a gente elegante,
bebendo, achando que estão no topo do mundo,
trocando presentes caros e futilidades afins.
é melhor tirar o anel de diamante, é melhor penhorá-lo, querida.
você costumava se divertir tanto
com napoleão em farrapos e a poesia que ele usava.
vá até ele agora, ele te chama, não dá para recusar.
quando você não tem nada, não tem nada a perder.
você agora é invisível, não tem mais segredo a esconder.
like a rolling stone | bob dylan (1965)
[legendado em português]

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rolling stone - antes de terminarmos a conversa, quero perguntar sobre a controvérsia a respeito das citações nas suas músicas das obras de outros escritores... alguns críticos dizem que você não citou as suas fontes com clareza. no entanto, no folk e no jazz, a citação é uma tradição rica e enriquecedora. qual é a sua resposta a esse tipo de acusação?

bob dylan - ah, sim, no folk e no jazz, a citação é uma tradição rica e enriquecedora. isso certamente é verdade. é verdade para todo mundo, menos para mim. quer dizer, todas as outras pessoas podem fazer isso, menos eu. as regras são diferentes para mim. se você acha que é tão fácil fazer citações e que isso vai ajudar no seu trabalho, faça isso e veja até onde consegue chegar. reclamões e covardes falam dessas coisas. é algo bem antigo – faz parte da tradição. remonta a um passado bem distante. essas são as mesmas pessoas que tentaram me classificar de judas. judas, o nome mais odiado da história humana! se você acha que já foi xingado de um nome feio, tente imaginar o que é isso.

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bob dylan é chamado de judas
[clique no link acima]

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rolling stone - você considera esse tipo de crítica irrelevante, ou boba?

bob dylan - tento superar tudo isso. de todo modo, não é para essas pessoas que eu toco.

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rolling stone - mas você certamente já ouviu falar dessa controvérsia específica?

bob dylan - pessoas tentaram me deter a cada centímetro do caminho. sempre tem coisa ruim a ser dita a meu respeito. isso acontece há tanto tempo que talvez agora eu não seja mais capaz de viver sem isso. tudo que as pessoas dizem a respeito de você ou de mim, estão dizendo a respeito de si mesmas. estão se entregando. já reparou nisso?

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rolling stone - o lado oposto é que também há o público, que ama você de verdade.

bob dylan - claro que sim. eles acham que sim. eles amam a música e as canções que eu toco, não eu.

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rolling stone - por que diz isso?

bob dylan - porque as pessoas são assim. elas dizem que amam um monte de coisa, mas, na verdade, não amam.

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«o amor é apenas uma palavra de quatro letras»

bob dylan

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agora ofélia, ela está perto da janela
por ela eu temo tanto
em seu vigésimo-segundo aniversário
ela já é uma solteirona velha
para ela, a morte é bem romântica
ela veste um colete de ferro
sua profissão é sua religião
seu pecado é sua falta de vida

desolation row | bob dylan (1965)
[com letra em português e imagens reais]

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«sentir tudo de todas as maneiras,
viver tudo de todos os lados,
ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.»


álvaro de campos 


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quanto tempo você tem para incorrer na vida
que pulsa louca no peito, rebentando de vontades, de desejos,
atentando à experiência?

quanto tempo você tem para encontrar nas deformações
a posição exata, e de saber quanto de tempo você tem
pra acreditar em tanta coisa, se levar nos ventos, se livrar dos tentos
e amar como importaria?

quanto tempo você tem para esperar sem garantia
e se curvar a deuses tontos e enlouquecidos pela época?
quanto tempo você tem já bastaria para inverter,
se somar a qualquer grito, a qualquer palavra que explodisse forte no horizonte.

quanto tempo é o que se diz cansados, todos os dias que acabamos na escuridão.

e quanto mais tudo seria, sonhar com uma cantoria
de milhões de bocas por tantas milhas de terra.
e, enquanto se fizesse luta, se saberia:
somos um bando e muitos outros.

somos um bando e muitos outros.
somos um bando e muitos outros.
somos um bando e muitos outros.

de um bando | bebeto alves (1981)
[bebeto alves e os blackbagual]

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antes do fim,
voltemos ao jardim de infância.
voltemos a falar de filosofia.
— filosofia?
— sim, filosofia.
— mas em 2018, o bolsonaro fechou a faculdade de filosofia. e se o lula não ganhar, ganha o flávio.
— que flávio?
— flávio bolsonaro.
— pois é, que coisa... mas já que estamos falando de filosofia — e filosofia é a arte de colocar ponto de interrogação onde o senso comum põe ponto final —, eu pergunto:

por que o que não era pra ter nascido continua vivo?

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era inverno sim, eu perdido em mim
rabiscava uns versos pra enganar a dor
o tédio, o pranto, o tombo
e encantava mágoas milongueando sonhos

milongueando uns troços | mauro moraes (1994)

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foto: eu
onde: praça, pelotas, rs
quando: 1990
autor: antonio soler

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américas

terça-feira, 21 de julho de 2026

 


ao vento 

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«a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»

manoel de barros

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«à minha maneira, estou sempre compondo. emendo uma coisa na outra e acaba dando certo. eu pego uma canção e deixo ir rolando, devagarinho, ruminando, ruminando.»

dorival caymmi

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ruminando

com as palavras
sou como os ruminantes
rumino
rumino
e nunca termino
cadê a palavra que tava aqui
o vento levou
cadê o vento

grill

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vamos chamar o vento
vamos chamar o vento

vento que dá na vela
vela que leva o barco
barco que leva a gente

dorival caymmi - o vento - heineken concerts - 1996

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vento que guarda a tarde
(uma tarde sem pressa)

2002.

eu trabalhava há cinco anos no cfc. ainda não estava no auge, mas já havia conquistado a confiança da direção. foi nessa condição que pedi liberação para passar dez dias na cidade maravilhosa.

mal sabia eu que estava a três anos do meu auge como instrutor de trânsito e a quatro da minha aula de despedida e queda na vida.

antes disso, em 1996, um ano antes do cfc abrir, eu havia varado a noite numa churrascaria de porto alegre convidado pela lendária mercedes sosa.

essa história, todavia, conto outro dia.

de volta a 2002.

no início daquele ano, pedro munhoz me enviou um e-mail pedindo que eu entrasse em contato com daniel viglietti para intermediar sua participação na semana nacional da cultura brasileira e da reforma agrária, no rio de janeiro.

eu já sabia que daniel diria sim.

um ano antes eu o tinha entrevistado e uma das perguntas que fiz foi o que faltava a ele fazer que ainda não tinha feito. ele respondeu que queria muito fazer alguma coisa (qualquer coisa) com os sem-terra.

o autor de a desalambrar só fez uma exigência: a de que eu fosse junto.

mesmo indo de ônibus, cheguei antes do uruguaio, que foi de avião. fui recebê-lo no aeroporto do galeão e lá mesmo tentamos um contato com chico. chico buarque. daniel deu a ideia de convidá-lo para participar da semana. teríamos conseguido não estivesse chico na itália. não faz mal...

não tinha chico, mas tinha dorival.

no dia seguinte, daniel e eu nos encontramos nos corredores da uerj e assistimos juntos aos debates e palestras. depois, à noite, na concha acústica, eu apontei para juliana caymmi, neta de dorival. eu não a conhecia, e daniel queria conhecê-la. alguém teria que fazer as honras. foi o que fiz.

depois do show, numa pequeníssima sala improvisada de camarim (e cheia de gente), eu me aproximei da neta de dorival, apontei para daniel e disse quem ele era. desnecessário. ela já o conhecia. seu avô alguma vez já tinha falado no nome dele, e o marido dela sabia mais sobre daniel do que provavelmente eu mesmo.

ao nos despedirmos, daniel deu um cd seu autografado para que ela entregasse a seu avô.

no dia seguinte, quando nos cruzamos com juliana, ela vinha com um cd de dorival autografado para daniel. nos olhamos surpresos. quando penso em dorival, penso na bahia. ele estava no rio, em copacabana.

daniel agradeceu o cd, conversamos um pouco e nos despedimos. juliana ainda estava por perto quando daniel me puxou para um canto e pediu que eu tentasse, com ela, um encontro dele com o avô dela. foi o que fiz.

ela argumentou que teria que falar com a sua avó, pois o seu avô estava passando por alguns problemas de saúde...

o encontro foi marcado com duas condições:

uma, a de que fosse um encontro rápido, bastante rápido, não mais que meia hora. nada mais, nem nada de mais; afinal, dorival convalescia. a outra condição não foi uma condição, foi uma pergunta. daniel perguntou se eu poderia ir junto. sim, claro que sim.

dessas coisas que não dá para explicar. passou uma hora. mais meia hora. e mais outra hora. perdemos a hora. já era quase noite quando fomos embora.

hoje é tudo muito rápido. parece que foi ontem. mas não. olhando as fotos, eu não sou mais o que era e não há mais dorival. nem daniel. que pena. todo mundo tem pressa. eu tenho saudade. aquela tarde passou depressa. e eu nunca mais tive outra igual.

ave, daniel! saravá, dorival!

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«eu guardo em mim
dois corações»


dorival caymmi

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«a verdade é o todo»

hegel

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«os amores que guardo são tantos, tantos, tantos, por eles eu canto.»

daniel viglietti

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o fim não tem fim
nem teve início o começo
eu vivo sempre a caminho
assim luto, desejo e penso

por ellos canto | daniel viglietti (1984)
[do cd: trabajo de hormiga]

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foto: dorival caymmi e eu local: copacabana, rj (2002) autor: daniel viglietti

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foto: daniel viglietti e eu
local: pelotas, rs (2009)
autor: vilmar tavares

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#américas

domingo, 19 de julho de 2026


pequena serenata diurna 
(it's all over now baby blue)

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«eu não preciso de muito dinheiro
(graças a deus)»

waly salomão

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«a questão da felicidade não é tão complicada e é pessoal.
da pra ser feliz com bem pouca coisa.
o problema é querer que o outro também seja feliz junto contigo,
e não só tu.»

autor desconhecido

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«tem qualquer coisa em escrever poesia que leva um homem para a beira do abismo.»

bukowski

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«a vida é a arte do encontro,
embora haja tanto desencontro pela vida»

vinicius de moraes

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um dia, ele entrou na cafeteria do hotel onde estava hospedado em san josé, na costa rica, e a encontrou. ele tinha quase quarenta anos; ela, 18. segundo ele, era belíssima: finalista do miss américa e capa da playboy. ele não resistiu. aproximou-se da mesa e disparou: «oye, eres mi mujer, te vine a buscar». os pais dela o olharam como quem diz: «e este louco?», mas ela, entre estupefata e encantada, consentiu. fez as malas e eles correram o mundo. conheceram hiroshima, quioto, pequim e xangai; cruzaram a rota do transiberiano de moscou a pequim e, no meio daquela viagem que parecia eterna, viram juntos o nascimento da filha. certa vez, quando ele se apresentava na universidade de harvard, a esposa e a filha o esperavam em los angeles. o plano era se encontrarem para seguirem juntos a chicago. mas o voo dele atrasou. elas esperaram até a última chamada... e embarcaram. o avião caiu. a filha tinha um ano; a mulher, vinte e três.

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ela era tão bonita quanto eu era feio
ela era tão rica quanto eu era pobre
e como se não bastasse tímido
mas um dia tomei coragem
e quando ela já tinha passado
ou seja
quase covardemente
eu disse a ela
eu te amo
ela parou virou-se
olhou para mim e disse
eu também
então escaparam das minhas mãos
os balões que eu vendia na praça
e o céu de sábado se encheu de cores
depois conversando eu disse a ela
vou te dar uma vida simples
com as coisas que o homem esqueceu
sem tapetes mas com sorrisos
e os olhos abertos para o sol
o melhor da vida é de graça
não há pobreza quando se tem deus
a esperança será nossa hóspede
com confiança haverá compreensão
eu te ofereço a brisa de maio
as flores de outubro e todo o meu amor
eu disse a ela
vamos voar como os pássaros
no céu onde não há fronteiras
vou cobrir sua pele com a minha
e o inverno se tornará verão
nossos beijos serão nosso lar
nossos sonhos serão nossa lei
pela praia correndo descalços
vamos brincar juntos com a vida
deus colocou a alegria nas coisas simples
e esse é o caminho para a felicidade
eu disse a ela e ela gostou da ideia

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https://www.instagram.com/reel/DOTaiZZDV78/
el amor no se busca el amor te encuentra
jesús quintero entrevista facundo cabral
do perfil de palabrasqueabrazan
clique no link acima (0:44)

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enxugadas as lágrimas, brinquemos um pouco com a tragédia. esse lance de poesia é um troço engraçado. a gente aprende um poema, sai por aí repetindo e as pessoas, em geral, acreditam que você é poeta. é o meu caso, sobretudo com as mulheres — não todas, óbvio, mas com a maioria das que conheci. talvez o único poema que eu ainda guarde na memória não seja um poema, seja uma canção. esse foi um dos primeiros e, talvez, o único que realmente aprendi. eu tinha apenas treze anos quando o conheci... de lá para cá, já perdi as contas de para quantas mulheres disse «vivo en un país libre...» mas aí é que está o problema. no início dá certo, mas com o tempo a tendência é dar errado, pois elas espalham umas para as outras, e quando vou dizer de novo para uma que acabei de conhecer, ela me diz: mas isso tu dizes para todas. digo mesmo! fazer o quê, se é a única coisa que eu sei dizer? foi o caso da última, da penúltima, de todas. engraçado, o único poema que eu disse que tocou o coração de uma delas foi... não lembro agora... foram tantos os que eu disse...

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te disse te digo e te direi que o amor é para sempre
te digo por exemplo
te amo agora que faz calor e ontem quando chovia
nas manhãs nubladas e nas noites claras
te amo de pé deitada dormindo e acordada
te amo à uma às duas às três e sempre
te amo em casa e te amo no caminho
te amo depois antes e agora mesmo
te amo porque você me ama e grita isso para mim com todo o seu ser
te amo porque em você começo e termino
te amo porque nos perdemos e nos encontramos um no outro
te amo com tudo o que sou incluindo a mim mesmo

te amo quando a tarde
te amo quando a tarde
e a tua tristeza estão frias
te amo diante do mar
no deserto e no rio

te amo quando a lua
te amo quando a lua
nos confia os segredos
na paz do teu olhar
e no fogo do teu corpo

te amo quando caminhas
te amo quando caminhas
e te amo quando cantas
te amo quando adormeces
e ainda mais quando acordas

te amo quando a noite
te amo quando a noite
me faz sentir poeta
te amo acima de tudo
e antes de tudo nesta terra
te amo acima de tudo
e antes de tudo nesta terra

https://www.youtube.com/watch?v=DpKJ_P-64aA&list=RDDpKJ_P-64aA&start_radio=1
después de todo y antes que nada (en vivo) | facundo cabral

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no final de 1983, quando chegamos em são luís (ma), pai, mãe e os três irmãos, eu levava na bagagem, erva, cuia e uma fita cassete. 
em setembro de 1989, quando saí de são luís, rumo a brasília, para participar do flaac --- festival latino-americano de arte e cultura, levava na mochila, erva, cuia e uma fita cassete. 
eu ouço león gieco desde os 15 anos de idade. de lá pra cá, muita coisa aconteceu, muita gente já entrou e saiu da minha vida. mas león permanece. 

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mi padre y mi madre me empujaron a la ciudad
aqui alla hoy o mañana
al tiempo no hay que darle la oportunidad de que pase en vano
aqui alla hoy o mañana
en este pueblo queda una casa tuya para volver cuando quieras
toma esto es para vos, unos pesos al partir
lo unico que te deseamos es que te vaya bien
oh oh que te vaya bien
mi vida se hizo de cantar en cualquier lugar
aqui alla hoy o mañana
extraño por unos dias a mi hija y a mi mujer
aqui alla hoy o mañana
cuando regreso tengo cosas nuevas para contar y regalar
toma esto es para vos esto es para las dos
y todo lo que compre es para los tres
es para los tres.

aqui allá hoy o mañana | león gieco (1981)
(canciones de un cassette perdido)

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falando em fita cassete, me lembrei de zeca.

- que zeca? 
- zeca baleiro.

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o que quer que eu diga
você não vai entender
mas se eu digo venha
você traz a lenha
pro meu fogo acender

lenha | zeca baleiro (1999)
[gravado na rodovia régis bittencourt, contou também 
com participações de walter franco 
como um caixeiro viajante.]

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falando em zeca, me lembrei de nelson. 

- que nelson?
- nelson coelho de castro 


algo teu diz a minha vida
como tudo então
de um caminho novo
ai, vou me mandar
ao fim aonde não sei mais eu vou
pois me vale o rumo
que o teu coração me dá 

ver-te (algo teu) | nelson coelho de castro (1983) 

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lembrei de ambos, pois, naquele longínquo 1983, ninguém em são luís (que eu conhecesse) conhecia nelson coelho de castro. hoje ele é conhecido de muitos maranhenses amigos meus, que apresentaram sua música para amigos seus, até que ela chegou aos ouvidos de zeca baleiro, que antes de se tornar um compositor famoso no brasil e no mundo, conheci tocando no beco, a meia quadra do teatro. depois disso, como tínhamos (e ainda temos) muitos amigos em comum, acabávamos sempre nos encontrando pelas quebradas da ilha, ou em uma ou outra festa, que, naquela época, aconteciam todos os dias, a qualquer hora e em qualquer lugar.

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zeca baleiro : a arte da música de nossa ilha do amor.

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- e a fita?
- que fita? 
- a fita cassete
- o que quer que eu diga, você não vai entender, 
acho melhor o próprio zeca responder 

diz aí, zeca: 

zeca baleiro fala sobre uma tal fita cassete 
(clique no link acima)

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- e gal?

então, foi gal que me reapresentou zeca baleiro. depois que saí de são luís, em 89, não havia recebido mais nenhuma notícia dele. a primeira foi essa (vídeo abaixo), vê-lo e ouvi-lo cantando ao lado de gal. e agora que já sabem da história da tal fita e da minha relação de amizade com ele, acho que posso contar que zeca e eu namoramos a mesma estrela. uma estrela chamada sol. «solange era um sol no coração da cidade», escreveu o poeta. as coincidências, no entanto, param por aí. enquanto o meu com ela foi quase um «namorinho de portão», o deles foi uma grande história que virou canção. foi para ela que ele escreveu «flor da pele», entre 1989 e 1990, quando ainda viviam em são luís.

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ando tão à flor da pele
que qualquer beijo de novela me faz chorar
ando tão à flor da pele
que teu olhar flor na janela me faz morrer
ando tão à flor da pele
que o meu desejo se confunde com a vontade de não ser
ando tão à flor da pele
que a minha pele tem o fogo do juízo final

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oh, sim, eu estou tão cansado
mas não pra dizer
que eu não acredito mais em você
com minhas calças vermelhas
meu casaco de general
cheio de anéis
vou descendo por todas as ruas
e vou tomar aquele velho navio
eu não preciso de muito dinheiro
graças a deus
e não me importa, honey

minha honey baby
baby, honey baby
oh, minha honey baby
baby, honey baby

vapor barato/flor da pele | gal costa/zeca baleiro
(mtv ao vivo, 17 de julho de 1997)

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falando em honey baby, lembrei de it's all over now, baby blue
a canção que me deu o estalo para esse post. 

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vá, se mande, pegue tudo que você puder levar
ande, tudo que parece seu, é bom que agarre já
seu filho feio e louco ficou só
chorando feito fogo, à luz do sol

it's all over now baby blue | bob dylan (1965)
negro amor: versão de caetano veloso e péricles cavalcanti
canta: gal costa (fantástico, 1977)

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falando em sol lembrei de george harrisson
e lembrando de de george lembrei de dylan

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lá vem o sol, lá vem o sol
e eu digo que está tudo bem
lá vem o sol, lá vem o sol
está tudo bem

here comes the sun | george harrisson (1969)
concert of bangladesh (1971)

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no histórico concerto para bangladesh (1971), após george harrison cantar here comes the sun, ele convida bob dylan ao palco. o lendário compositor americano assume os vocais e o violão para apresentar um bloco com 6 de suas músicas mais icônicas. entre elas just like a woman.

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sim, eu acho que está na hora de terminar
e quando a gente se encontrar de novo
e formos apresentados como amigos
por favor, não conta que
quando me conheceu
eu era pobre e o mundo
era todo seu

just like a woman | bob dylan (1964)
concert of bangladesh (1971)
(legendado em português)

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chove em satolep
carpe diem
bom domingo