domingo, 26 de julho de 2026


coração selvagem 

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«aqui estão os loucos. os desajustados. os rebeldes. os criadores de caso. os pinos redondos nos buracos quadrados. aqueles que vêem as coisas de forma diferente. eles não curtem regras. e não respeitam o status quo. você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. porque eles mudam as coisas. empurram a raça humana para a frente. porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam.»

jack kerouac

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«se alguém por mim perguntar, avisem que fui por ai passear, bicicletar, arvorar, poemar, escrevinhar, espreguiçar, admirar, aproveitar, adocicar, catar flores, cantarolar, palavrear e amorar.
e começar tudo de novo.»

ita portugal

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ita portugal é maranhense, pedagoga e, por teimosia, desde cedo começou a escrever. esse hábito a persegue há anos. ao mesmo tempo em que escreve compulsivamente, lê. viciada em caio fernando abreu, rubem alves, cora coralina, clarice lispector, aprendeu a não ter vergonha de seus sentimentos. começou a publicar seus textos na internet e logo surgiram leitores e pedidos para que esse material fosse transformado em livro. e assim nasceu certas incertezas, o primeiro livro desta contadora de sentimentos.

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«sinta mais, pense menos»

charles bukowski 

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«se as portas da percepção estivessem livres, tudo se mostraria ao homem como é, infinito.»

william blake

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«que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure.»

vinicius de moraes

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vinicius de moraes é carioca, diplomata de profissão e, por irresistível paixão, desde cedo começou a escrever. esse hábito o perseguiu até o fim dos dias. ao mesmo tempo em que escrevia compulsivamente, amava. viciado no amor, na bossa, na vida e nos encontros, aprendeu a não ter vergonha de seus sentimentos. começou a cantar e publicar seus textos e logo o brasil inteiro tomou seus versos como oração. e assim escreveu o soneto de fidelidade, definição mais que perfeita do que é o amor para este poeta da paixão.

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«uma vez chamaram-me poeta materialista,
e eu admirei-me, porque não julgava
que se me pudesse chamar qualquer coisa.
eu nem sequer sou poeta: vejo.
se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
o valor está ali, nos meus versos.
tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.»

alberto caeiro, 1925

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«há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?»

charles bukowski

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«ninguém é livre, até os pássaros estão presos ao céu.»

zimmerman

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«se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando sábio.»

blake

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ando contra o vento
amo mais o longe que o perto

grill

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pássaros de mesma plumagem

tenho um amigo que disse
que tinha um amigo que dizia
que os pássaros de mesma plumagem
procuram voar juntos.
e que isso vale,
justamente para os amigos.
não conhecia a frase, mas concordei no ato.
boêmios, poetas, músicos e filósofos de botequim concordam.
hoje esse amigo que tinha um amigo que dizia isso,
tem um amigo que sempre repete essa frase.
é fato.
os pássaros de mesma plumagem procuram voar juntos.

martim césar

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pato selvagem

por rubem alves

era uma vez um bando de patos selvagens que voava nas alturas. lá de cima se via muito longe, campos verdes, lagos azuis, montanhas misteriosas e os pores de sol eram maravilhosos. mas, voar nas alturas era cansativo. ao final do dia os patos estavam exaustos. aconteceu que um dos patos, quando voava nas alturas, olhou para baixo e viu um pequeno sítio, casinha com chaminé, vacas, cavalos, galinhas… e um bando de patos deitados debaixo de uma árvore. como pareciam felizes! não precisavam trabalhar. havia milho em abundância. cansado, o pato selvagem teve inveja deles. disse adeus aos companheiros, baixou seu voo e juntou-se aos patos domésticos. ah! como era boa a vida, sem precisar fazer força. ele gostou e fez amizades. o tempo passou. primavera, verão, outono, inverno… chegou de novo o tempo da migração dos patos selvagens. e eles passavam grasnando, nas alturas… de repente, o pato que fora selvagem começou a sentir uma dor no seu coração, uma saudade daquele mundo selvagem e belo, as coisas que ele via e não via mais, campos, lagos, montanhas, pores de sol. aqui embaixo a vida era fácil, mas os horizontes eram tão curtos! só se via perto. e a dor foi crescendo no seu peito até que não aguentou mais. resolveu voltar a juntar-se aos patos selvagens. abriu suas asas, bateu-as com força, como nos velhos tempos. ele queria voar! mas, caiu e quase quebrou o pescoço. estava pesado demais para o voo. havia engordado com a boa vida… e assim passou o resto de sua vida, gordo e pesado, olhando para os céus, com nostalgia das alturas…

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passa
tudo passa 
até o condor passa 

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mochileira deite comigo essa noite
e conte aquela boa velha história
de como as noites são claras em machu pichu
e os dias dourados na califórnia

moça eu não vou precisar ler na sua mão
pra saber que você não vai voltar
pra vida maluca das pessoas
do mundo
das formigas tentando se esconder da chuva

dance mochileira que eu toco a guitarra

mochileira | geraldo roca (1997)
canta: almir sater 

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há uma cidade no norte de ontario
com conforto e sonhos e memória e desamparo
e na minha cabeça, eu ainda preciso de um lugar para ir

azuis, janelas azuis atrás das estrelas
a lua amarela vai subindo
grandes pássaros cruzam o céu

meu bem, agora você me ouve?
as correntes estão trancadas e presas sobre as minhas portas
meu, bem, meu bem, dê um jeito, mas cante comigo

helpless | neil young (1970)

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la la la la la la la
la la la la la la la

wigwam | bob dylan (1970)

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e eu te vejo assim
como uma vela que acende
ou como disse elton john
(like a candle in the wind)

para dylan | zé ramalho (2008)

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wigwam

1. cabana, barraca ou tenda dos índios norte-americanos, feita de peles de animais


2.habitação ameríndia de cobertura oval, típica dos índios do nordeste dos estados unidos da américa

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terra mar e ar

não nasci 
para morrer 
e ficar preso 
às raízes 

meu lugar 
quando eu viajar
e não voltar 
é terra, mar e ar

grill 

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você está comigo quando eu sonho
em toda a minha vida terra, mar e ar

você está presente no que eu penso
nas decisões, nos atos, no que eu sinto
em toda a minha vida terra, mar e ar

eterna viajante do meu peito
eu sei você existe um dia eu vou te achar
e nesse dia claro todas as vontades
virão para te festejar

eu sou só um cara
solitário, caminhando, desejando
esperando por você

levo no meu peito bem guardado
um lugar desocupado
esperando por você

terra, mar e ar | renato teixeira (1994)

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sobre que eu nem sei quem sou

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- quem é você?
- essa é uma boa pergunta
- então responda
- alias
- alias ​​o quê?
- alias, qualquer coisa que você quiser

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as guitarras vão tocar no seu grand finale
lá em algum beco de tularosa
talvez no vale do rio pecos
billy, você está tão longe de casa

https://www.youtube.com/watch?v=38rDhjjSZcA&list=RD38rDhjjSZcA&start_radio=1
billy 1 | bob dylan, 1973
(tradução inglês/espanhol)

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«às vezes o você em minhas canções sou eu falando comigo. em outras vezes, posso estar falando com outra pessoa. se eu estiver falando comigo numa música, não vou parar tudo no meio e dizer: ok, estou falando comigo. você é que tem de adivinhar quem é quem. uma porção de vezes, é você falando com você. o eu também muda. pode ser eu, ou poderia ser o eu que me criou. e, ainda poderia ser outra pessoa que está dizendo eu. quando digo eu neste momento não sei de quem estou falando.»

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prefiro ser um pardal do que um caracol
sim, eu preferiria; se pudesse, com certeza preferiria

prefiro ser um martelo do que um prego
sim, eu preferiria; se pudesse, com certeza preferiria


para longe, prefiro navegar para longe
como um cisne que passa e já se foi
um homem que fica preso ao chão
ele dá ao mundo
sua canção mais triste
sua canção mais triste

prefiro ser uma floresta do que uma rua
sim, eu preferiria; se pudesse, com certeza preferiria

prefiro sentir a terra sob meus pés
sim, eu preferiria; se ao menos pudesse, com certeza preferiria

para longe, prefiro navegar para longe
como um cisne que passa e já se foi
um homem que fica preso ao chão
ele dá ao mundo
sua canção mais triste
sua canção mais triste

https://www.youtube.com/watch?v=QqJvqMeaDtU&list=RDQqJvqMeaDtU&start_radio=1
el condor pasa | daniel robles - julio de la paz (1913)
por simon & garfunkel (com cenas em machu pichu)

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«se souberem onde olhar, é possível saber tudo sobre mim através das minhas canções.»

bob dylan

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procura-se
procura-se na califórnia, procura-se em buffalo
procura-se em kansas city, procura-se em ohio
procura-se no mississippi, procura-se no velho cheyenne
onde quer que você olhe hoje à noite, você pode me encontrar
eu posso estar no colorado ou na geórgia, à beira-mar
trabalhando para um homem que talvez nem saiba quem eu sou
se você me vir vindo, fique na sua, não diga pra ninguém
que estou fugindo e que você sabe quem eu sou
procurado por lucy watson, procurado por jeannie brown
procurado por nellie johnson, procurado na próxima cidade
mas eu tinha tudo o que queria com tudo que tinha
e muito mais do que precisava de algumas coisas que acabaram mal
fui desviado em el paso, parei para pegar um mapa
fui no caminho errado em juarez com juanita no meu colo
depois fui dormir em shreveport, acordei em abilene
me perguntando por que diabos sou procurado nas cidades por onde passo
procurado em albuquerque, procurado em siracusa
procurado em tallahassee, procurado em baton rouge
tem sempre alguém me perseguindo nos lugares por onde vou
e para onde quer que você olhe hoje à noite, você pode me enxergar
procurado na califórnia, procurado em buffalo
procurado em kansas city, procurado em ohio
procurado no mississippi, procurado no velho cheyenne
onde quer que você me procure hoje à noite, você pode me encontrar

bob dylan © 1969 by big sky music
bob dylan / johnny cash - wanted man (take 1)

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canto de mim mesmo

casas e quartos se enchem de perfumes.... as estantes estão entulhadas de perfumes, respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o reconheço, perfumes poderiam me intoxicar também, mas não deixo.

a fumaça de minha própria respiração, ecos, ondulações, zunzuns e sussurros.... raiz de amaranto, fio de seda, forquilha e videira, minha respiração minha inspiração.... a batida do meu coração.... passagem de sangue e ar por meus pulmões, o aroma das folhas verdes e das folhas secas, da praia e das rochas marinhas de cores escuras, e do feno na tulha, o som das palavras bafejadas por minha voz.... palavras disparadas nos redemoinhos do vento, jogo de luz e sombra nas árvores enquanto oscilam seus galhos sutis, delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos campos e encostas de colina, sensação de bem-estar .... apito do meio-dia .... a canção de mim mesmo se erguendo da cama e cruzando com o sol.

walt whitman

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uma vez, me perguntaram quais eram meus três poetas favoritos.
a resposta: whitman, whitman, whitman.

whitman é o xamã da américa — e, como todo xamã, é necessariamente conflituado, necessariamente ambíguo e difícil de compreender.

grill

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«eu me contradigo?
pois muito bem, eu me contradigo,
sou amplo, contenho multidões.»

whitman

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«eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes
eu prefiro ser essa metamorfose ambulante»

raul

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«...é que há uma linha muito tênue
entre o que chamamos sanidade e
o que chamamos loucura
e que o esforço que fazemos para
permanecer no lado são
só é feito para que não sejamos
punidos pela
sociedade.
senão, iríamos
frequentemente cruzar essa linha e
as coisas seriam muito mais
interessantes.»

bukowski

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enquanto você se esforça pra ser
um sujeito normal e fazer tudo igual
eu do meu lado aprendendo a ser louco
um maluco total, na loucura real
controlando a minha maluquez
misturada com minha lucidez
vou ficar
ficar com certeza
maluco beleza

metamorfose ambulante / maluco beleza
por belchior

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muda
tudo muda
e se tudo muda
eu também vou mudar

o mundo gira
o vento vira
tudo muda

as casas ficam para trás
o condor passa
os amores passam

tudo passa
e eu continuo aqui

sendo este que sou
sem porquê
nem para quê

apenas sendo

minha maior loucura
foi mudar a mim mesmo

e continua sendo
vai vendo

grill

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meu bem, talvez você possa compreender
a minha solidão
o meu som e a minha fúria
e esta pressa de viver
e este jeito de deixar
sempre de lado a certeza
e arriscar tudo de novo
com paixão
andar caminho errado
pela simples alegria de ser

coração selvagem | belchior (1977)
[legendado]

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sobre que eu nem sei quem sou
(a imagem do post)

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self portrait (junho de 1970)

a capa deste álbum duplo é uma pintura impressionista/expressionista feita pelo próprio bob dylan.

a arte: retrata um rosto simplificado, com pinceladas largas e cores brutas (tons de rosa, azul e cinza), sem a precisão de um retrato realista.

o conceito: o disco foi recebido pela crítica com bastante controvérsia — a famosa resenha de greil marcus na rolling stone começava com «what is this shit?» («que merda é essa?»).

a capa traduz o espírito da obra: dylan desconstruindo a própria imagem de «poeta e profeta» da geração para se redefinir apenas como um artista em busca de experimentação.

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carpe diem
bom domingo

sábado, 25 de julho de 2026

 

sua santidade a poesia

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«desde 7, 8 anos de idade, a única coisa que eu quis na minha vida foi ser poeta, e tudo que eu fiz foi no sentido de me fazer um poeta melhor, cada vez melhor.»

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«as outras coisas todas da vida, pra mim, me vieram através da poesia. foi o domínio da palavra que a poesia me deu que me possibilitou, por exemplo, ser jornalista, eu não sou formado em jornalismo e fui jornalista por vários anos, e ainda sou.»

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«aos 17 anos todo mundo é poeta, junto com as espinhas da cara, todo mundo faz poesia. homem, mulher, todo mundo têm seu caderninho lá dentro da gaveta, e têm os seus versinhos que depois ele joga fora ou guarda como mera curiosidade. ser poeta aos 17 anos é fácil, eu quero ver alguém continuar acreditando em poesia aos 22 anos, aos 25 anos, aos 28 anos, aos 32 anos, aos 35 anos, aos 40 anos, eu estou com 41, aos 45 anos, aos 50, aos 60 anos.»

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«a poesia é uma espécie de heroísmo, você continuar ao longo dos anos acreditando nessa coisa inútil que é a pura beleza da linguagem, que é a poesia, é um heroísmo, é uma modalidade quase, às vezes eu gostaria de acreditar, de santidade. é uma espécie de santidade da linguagem. porque a poesia não vai te fazer rico de jeito nenhum, é muito mais lucrativo você abrir uma banquinha e vender banana do que fazer poesia. quer dizer, para você continuar acreditando em poesia é preciso muita santidade.»

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todas as frases são de paulo leminski

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30 de maio de 2026

faz 31 que fiz 30.
num dia como hoje,
também há 31 anos,
o américas nascia.

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«quando você foi embora
fez-se noite em meu viver»

fernando brant / milton nascimento

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elegia

meu pai se foi
sem o meu adeus.

o destino me deu
esta triste sorte:

cheguei
um dia após sua morte.

eu vivo no sul,
meu pai morreu no norte.

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30 de maio de 2026

hoje estou sentado na varanda dos fundos da «casa de las américas» --- no «fim do fundo da américa do sul», no cume da colina, dou adeus ao repecho. olho para o norte, na direção de são luís, ilha generosa que, para que eu conte meus passos, sem soltar meu braço, me dá amor e espaço...

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são luís, janeiro de 2008

quando cheguei, eu estava num tal estado que era quase impossível saber o que estava se passando comigo. só o fato de me manter vivo já era quase um milagre - porque o apetite desapareceu e o desejo sumiu. eu ainda não havia sumido de vez, mas a estrada havia se estreitado, estava quase fechada, quando era de se esperar que fosse bastante ampla. dentro de mim havia uma pessoa perdida, e eu precisava achá-la. tentei algumas vezes, de quando em quando; dei um duro danado. a natureza tem remédio para tudo, e é para onde eu geralmente vou em busca dele.

alô, alô, são luís, ilha da poesia, aquele abraço!
alô, alô, família, aquele abraço!

sou grato pela família que tenho. grato a minha irmã, ao meu irmão, a minha mãe e as minhas sobrinhas. tenho muitos parentes bons e importantes. sou grato ao joão, a flávia, ao meu cunhado, a minha cunhada, ao meu padrinho, a minha madrinha, as minhas primas e aos meus primos. sou grato a carla, minha irmã de alma. sou grato aos meus avós. sou grato ao meu pai. sou grato ao ciro, a rejane, a vivi, ao matheus, a ray, a cris e a dona eli por terem me ajudado a chegar até aqui.

sou grato à vida por me dar tanto
do tempo, espaço
do universo, esgarço
do mar, sargaço
do sertão, cangaço
do calor, mormaço
da rotina, cansaço
da utopia, um passo
da hipocrisia, rechaço
do poder, desfaço
da música, regaço
da dança, compasso
da arte, picasso
da fruta, bagaço
do cigarro, maço
do álcool, fracasso
do pão, amasso
da fome, caço
da carne, asso
do erro, crasso
do ferro, aço
do couro, laço
da pele, embaço
do corpo, braço
do braço, abraço
do sexo, devasso
da mulher, nasço
do amor, renasço
da poesia, faço
da vida um traço
e passo

a vida é um milagre
o tempo é um milagre
o espaço é um milagre
a travessia é um milagre
a memória é um milagre

tudo é milagre
menos a morte

meu pai se foi
e eu não tive tempo de me despedir

não tive a sorte
eu vivo no sul
meu pai morreu no norte

corre o vento,
o rio passa
e eu sigo

em frente
na contramão de nossos pais
escutando o silêncio do caminho

o silêncio não é uma palavra
escrita numa parede
é uma canção solitária levada pelo vento

na minha estadia de alguns dias em são luís do maranhão, minha mãe, de 82 anos, me disse que a minha descrença em tudo e em todos é coisa de velho. minha resposta foi uma pergunta: nossos filhos, hoje em dia, em sua grande maioria, são educados para serem pragmáticos, espertos e vencedores, ou idealistas, sonhadores e perdedores? fez-se silêncio. então, pensando em dom quixote e nos jovens que virão, escrevi:

o novo nasce velho
o velho morre novo

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de volta ao repecho

o repecho é um sítio lindeiro à chácara onde meus irmãos e eu brincávamos quando éramos crianças. o repecho só não é o lugar onde meus irmãos e eu brincávamos quando éramos crianças, por causa de uma cerca de arame, e cercas de arame são iguais a muros e muros são diferentes de pontes.

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«minha casa não é minha
e nem é meu este lugar
estou só e não resisto
muito tenho pra falar»

fernando brant

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30 de maio de 1995.

nesse dia, o américas foi ao ar pela primeira vez.

eu cursava jornalismo na católica e havia uma cadeira que exigia x número de horas/aula de rádio na federal fm, emissora da ufpel. não deu outra. nascia assim o américas.

em 1996, o américas já era uma realidade. os jornais da cidade estampavam --- todas as semanas --- matérias falando do programa. neste mesmo ano, no cantamérica, em porto alegre, entrevistei, entre outros, mercedes sosa, ruben rada, antonio tarragó ros e león gieco.

em 1997, interrompi a escalada do américas e fui dar aula como instrutor no cfc senna — onde, por sinal, fui muito feliz e tive meu trabalho reconhecido e valorizado —. coisas da vida, da vida de casado. é o que eu digo: há quem se encante pelo poeta, mas, para viver, espere pelo marido tradicional — o cidadão comum, aquele que se orgulha de possuir carteira de trabalho, cnh, rg, cpf, título de eleitor e conta bancária. é assim que a chama vai apagando e o amor definhando. não nasci para ganhar dinheiro. verdade. o poeta não é de mentira, é de verdade.

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tinha cá pra mim
que agora sim
eu vivia enfim o grande amor
mentira

me atirei assim
de trampolim
fui até o fim um amador
passava um verão
a água e pão
dava o meu quinhão pro grande amor
mentira

eu botava a mão
no fogo então
com meu coração de fiador
hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
exijo respeito, não sou mais um sonhador
chego a mudar de calçada
quando aparece uma flor
e dou risada do grande amor
mentira

samba do grande amor | chico buarque (1982)

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poetas de verdade
sabem que eu não sou poeta
tá bem
vá que eu acredite
ser um poeta de mentira
mas teve uma vez
em que até eu acreditei ser poeta
de verdade
foi quando, inspirado por um poeta
que não é de mentira
fiz um poema de verdade

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«uma vez perguntaram a justino leiva, um homem de bigode grisalho, quando eu tinha sete ou oito anos: "o que é um amigo para você?". após pensar e dar duas pitadas, ele respondeu: "um amigo é você mesmo com outra pele".»

fonte: atahualpa yupanqui, em entrevista ao programa a fondo (tve, 1977).

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ah, américa! te falo de martim

américa... ah, américa!
queria saber-te ler. te descrever.
no entanto, mesmo tão perto,
sou de ti quase analfabeto.

ah, américa!
como e quanto te devo
por teus vates, teus rapsodos, teus aedos
teus atahualpas, violetas. teus alfredos.

queria saber-te ver. e de ti dizer.
mas não nego. sou de ti
quase mudo. quase cego.

ah, américa!
como e quanto te devo
por tuas selvas, montes, fontes e mares.
por teus evos... morales.

queria saber-te entender.
te compreender.
mas me é impossível. de tão incrível,
me és incompreensível.

ah, américa!
como e quanto te devo
por tua filosofia e geografia.
pela utopia. por tua poesia.

retribuir? gostaria. me engrandeceria.
agradecer? claro. se tivesse palavras,
agradeceria.
não sei como pagar. mas deveria. talvez um dia.

ah, américa!
quem dera penetrar tuas entranhas,
dizer tuas façanhas. decifrar tuas manhas,
cantar tuas espanhas.

quem dera...ah, quem dera!
mas não passa de uma quimera
ah, américa! te falo de martim

américa...ah, américa!
queria saber-te ler. te descrever.
no entanto, mesmo tão perto,
sou de ti quase analfabeto.

ah, américa!
como e quanto te devo
por teus vates, teus rapsodos, teus aedos
teus atahualpas, violetas. teus alfredos.

queria saber-te ver. e de ti dizer.
mas não nego. sou de ti
quase mudo. quase cego.

ah, américa!
como e quanto te devo
por tuas selvas, montes, fontes e mares.
por teus evos... morales.

queria saber-te entender.
te compreender.
mas me é impossível. de tão incrível,
me és incompreensível.

ah, américa!
como e quanto te devo
por tua filosofia e geografia.
pela utopia. por tua poesia.

retribuir? gostaria. me engrandeceria.
agradecer? claro. se tivesse palavras,
agradeceria.
não sei como pagar. mas deveria. talvez um dia.

ah, américa!
quem dera penetrar tuas entranhas,
dizer tuas façanhas. decifrar tuas manhas,
cantar tuas espanhas.

quem dera...ah, quem dera!
mas não passa de uma quimera
não tenho o dom.
¡perdón!

és grande. muito grande!
como grande e muito grande é
quem para mim te escreve. te descreve.
te desnuda.

não, não falo de neruda. nem de san martín
ah, américa! te falo de martim
ele já fez poesia cor de sangue. cor de carmim. e claro
poesia cor de marfim. poesia escrita a nanquim.
poesia pra ti. poesia pra mim.

poesia viglietti. poesia benedetti.
poesia cor de céu envolto em véu
poesia como inverno
de montevidéu.

poesia de andar longe
poesia de andar perto.
poesia de vida e morte.
poesia de azar e sorte.

poesia longa
como uma milonga
poesia leve e pequena
como se tivesse pena.

poesia de tuas rezas
e de tuas crenças
nascida de tuas mortes
de teus cortes. de teus recortes.

poesia arteira, matreira, brasileira.
poesia guerrilheira. como pedra de atiradeira.
que fala não cala abala
teus limites e barreiras.
tuas fronteiras.

poesia para os que sentem frio.
poesia para os que vivem na beira do rio.
poesia pra quem ficou. pra quem lutou. não deserdou.
pra quem encarou o vazio de quem partiu.
não fugiu. cumpriu.  e depois sorriu.

poesia que soluça.
chama. clama. reclama
depois chora e dorme
poesia por alfonsina storni.

poesia que em aleph se reconhece
em labirintos e desertos se esquece
poesia que em círculos
se propaga.  cresce. aparece.

e isso é tudo?
é  nada...
é quase nada!

poesia pra quem por nós
deu tudo que é seu.
se deu. perdeu. morreu.

e deixou uma última lição:
diante do algoz, não temeu.
nem tremeu.

poesia que emana de tua foz
que diz de nós
poesia hermana
latino-americana.

poesia quintana
como o frescor de tu mañana
poesia vinicius
como a noite e seus muitos vícios.

poesia chorada. sussurrada. desesperada.
poesia como última cartada.

e isso é tudo?
que nada...
é página virada.

antes que se apaguem as luzes e se feche a cortina
se amotina...como inquilina. sem dó. em mi.
ou lá em ci-ma de uma flauta andina. na asa de uma golondrina.
na mira do cano de uma carabina.
assim como faz serrat. assim como faz sabina.

poesia pensada e trabalhada.
agalopada e inusitada.
poesia de pensar em tudo
poesia de pensar... em nada.

poesia cantada, (en)cantada.
trova trovada.palavra flechada.
raiz alada.

e isso é tudo?
que nada...
é nada.

são madrigais. poemas provençais
são rosas entre cristais. versos de um poeta
do amor demais.

é poesia no varal.
poesia oral, visual.
poesia como aval
de um amor total. o verso é como um punhal.
a poesia é visceral.  

e isso é tudo?
que nada...
é quase nada.

poesia como quem foge do inferno (de dante).
montado num rocinante. atrás de um sonho
(de um tal quixote) de cervantes.

atrás do que não existe.
e ainda assim insiste.
subsiste.

o que se imagina.
o que renova e ilumina.
o que em nós germina. e não termina.

como a pachamama
ou como aquelas sementes de flores
que dormem no deserto do atacama
que a cada dez anos voltam
e sem drama dão colorido e sentido
a quem já havia desistido.
a quem acreditou que as flores haviam morrido.

ah, américa! te falo de martim!
nele, és algo assim
como meio e como fim.

algo assim...
como um recomeço
sem fim...

grill 

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de volta ao começo 
             
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«nascer leva tempo»

vitor ramil

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«viver não tem cura»

paulo leminski

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«querer a verdade é confessar-se incapaz de a criar»

nietzsche

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vim pelo caminho difícil
a linha que nunca termina
a linha bate na pedra
a palavra quebra uma esquina

mínima linha vazia
a linha, uma vida inteira
palavra, palavra minha
palavra, palavra minha

https://www.youtube.com/watch?v=JLmbxqFJCpI&list=RDJLmbxqFJCpI&start_radio=1
palavra minha | leminski/ramil (2024)

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e como hoje é sábado
palavra minha
que continua amanhã
na crônica de domingo

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fotos

martim e eu
biblioteca pública pelotense
novembro de 2024
por vivi valente

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#américas

sexta-feira, 24 de julho de 2026


vá e não olhe para trás

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«vá, se mande, pegue tudo que você puder levar
as pedras do caminho, deixe para trás
esqueça os mortos, que eles não levantam mais
o vagabundo esmola pela rua
vestindo a mesma roupa que foi sua
risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor»

bob zimmerman

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ando contra o vento
amo mais o longe que o perto
minha vida não é um filme
é um livro aberto

vida, minha vida
resolvi falar da minha
cansei de ouvir falar
da vida dos outros

grill

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canção da estrada aberta

jamais vou esquecer o dia que peguei a estrada com os beatniks e me deixei levar. foi o dia que chamei whitman e saí a procura de mim. foi assim que conheci a história de martí, bolívar e san martin... botando o pé na estrada.

andando pela estrada, li as veias abertas e o canto geral. li galeano e li neruda. depois adentrei por gabriel garcía márquez, aldyr garcia schlee, ernesto sábato, octávio paz, rulfo, borges, cortázar e outros mais. conheci o cinema do cubano gutierrez alea e o cinema do argentino fernando solanas. conheci o teatro el galpón e ouvi o tarancón. ouvi as vozes de violeta parra e de victor jara. ouvi as ramilongas de vitor ramil e as milongas de alfredo zitarrosa. ouvi o bandoneón de piazzolla e o silêncio de atahualpa.

nesse dia, não aguentei, e tive que falar.

fui amigo de daniel viglietti. passei uma tarde com caymmi, almocei com bráulio lopez e jantei com pepe guerra. entrevistei león gieco, conheci uma filha do che e o filho de yupanqui. jantei com la negra (como isso su-ce-deu, nem eu sei), entrevistei e abracei el negro rada e conversei de perto com o príncipe da caatinga, elomar figueira melo.

belo. tudo muito belo.
então pensei: nada, não preciso mais nada.
que nada, parece mentira, peguei de novo a estrada.

dormi na rua e senti frio. não há nada mais triste /que um homem morrendo de frio. o pior frio é a frieza do ser humano. me trataram que nem cão sarnento. teve um dia que na lateral do quartel da brigada fui acordado a pontapé e borrachada. não esqueço, não perdoo.

nesse dia, lembrei de ednardo, eles são muitos, mas não podem voar.

tive a sorte de ter uma amiga, uma irmã de alma, que abriu as portas de sua casa pra me ajudar. sempre vou agradecer e pra sempre vou lembrar.

mas ainda não era a hora de aterrissar.

eu precisava ver meu pai, minha mãe, minha irmã e meu irmão. e foi o que fiz. voei rumo a são luís. foi lá, na ilha do amor e da poesia, ao lado da família, que a poeira começou a baixar. só então, vi de novo a estrada e retomei a caminhada.

por fim, cheguei onde queria chegar -- estou onde queria estar -- no dia que saí à procura de mim e me deixei levar.

isso é tudo? que nada
isso é nada
ainda tem muita estrada.

grill

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«dorme, que a vida é nada!
dorme, que tudo é vão!
se alguém achou a estrada,
achou-a em confusão,
com a alma enganada.»

fernando pessoa

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durmo muito pouco
quem dorme muito
cria pouco

grill

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vida não é filme?

um dos filmes mais bonitos e comoventes que vi em toda a minha vida foi cinema paradiso. quase todas as pessoas que conheço choraram em algumas partes do filme. eu chorei em quase todas. a cena que provocou lágrimas no maior número de espectadores é aquela na qual o velho, pai espiritual e sentimental do rapaz, que lhe ensinou quase tudo o que sabia da vida até então, diz a ele que se prepare para partir do vilarejo rumo à cidade grande: «vá e não olhe para trás; não volte nem mesmo se eu te chamar». o pai manda embora o filho adorado e «ordena» que vá em busca do seu caminho, do seu destino, dos seus ideais...

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cinema paradiso (la despedida) · subtitulado al español

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tabacaria

fiz de mim o que não soube,
e o que podia fazer de mim não o fiz.
o dominó que vesti era errado.
conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
quando quis tirar a máscara,
estava pegada à cara.
quando a tirei e me vi ao espelho,
já tinha envelhecido.
estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
joguei fora a máscara e dormi no vestiário
como um cão tolerado pela gerência
por ser inofensivo
e vou escrever esta história para provar que sou sublime.

fernando pessoa

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ao vento

escrevi sem saber escrever
ensinei sem saber ensinar
falei sem saber falar
fui até onde minhas pernas puderam me levar
quase cheguei lá
mas ainda estou aqui
ainda me falta voar

grill

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pavão misterioso, pássaro formoso
tudo é mistério nesse teu voar
ai, se eu corresse assim
tantos céus assim
muita história eu tinha pra contar

pavão mysterioso | ednardo (1974)

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sem grandes chances.
completamente desprovido de propósito.
ele era um jovem andando de ônibus pela carolina do norte a caminho de algum lugar.
e começou a nevar.
e o ônibus parou em um pequeno café nas montanhas.

nirvana | charles bukowski
lido por tom waits
(legendado em português)

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mais uma xícara de café
para seguir caminho
mais uma xícara de café
antes de pegar a estrada

one more cup of coffee [valley below]| bob dylan (1975)
(legendado em português)

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essa estrada vai passar
pela vila da boa esperança
vai cruzar o município dos homens de fé
vai fazer da certeza o seu arraial
na cidade dos homens sem medo
vai fazer o seu ponto final

https://www.youtube.com/watch?v=XT61Y7AKR2g&list=RDXT61Y7AKR2g&start_radio=1
estradas | zé geraldo (1980)

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fotos:

minifúndio café
pelotas 2007
autor desconhecido

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casa da cris
pelotas 2026
por cris valente

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quadro gerado por inteligência artificial

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#américas