casa de poeta não tem porta
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o contador de histórias
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«lendo os textos extremamente poéticos do amigo grill, profundos, provocadores, sensíveis, sem represas, sem amarras, vi a frase que inspirou este poema (habitantes de passárgada). não consegui me libertar dela, creio que ela não quis que eu me libertasse até que se fizesse poesia... é como se a casa se materializasse só pelo tempo necessário para engendrar o poema. gracias, hermano»
martim césar
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habitantes de passárgada
o rei chorou
um rei — disfarçado, é claro — costumava dar uma volta em sua cidade todas as noites. ele estava muito intrigado com um homem, com aparência de mendigo, que estava sempre sentado, todas as noites, sob uma mesma árvore à margem de uma rua. finalmente, a curiosidade venceu, e o rei parou seu cavalo diante do homem:— por que você não vai dormir?
— as pessoas vão dormir porque não têm nada para guardar, e eu tenho tantos tesouros que não posso dormir. tenho de guardá-los.
— estranho, não vejo nenhum tesouro aqui.
— os tesouros estão dentro de mim. o senhor não pode vê-los.
o rei partiu, mas voltava todas as noites, porque o homem o intrigava e aquilo que havia dito fizera o rei pensar durante horas. o rei tornou-se tão ligado e interessado no homem que começou a achar que ele era realmente um santo, porque a consciência, o amor, a paz, o silêncio e a iluminação eram os tesouros que ele estava guardando. ele não conseguia dormir, não podia se dar esse luxo. apenas os mendigos podem.
pouco a pouco, o rei começou a respeitar e honrar o homem quase como um guia espiritual. um dia, disse-lhe:
— sei que você não irá comigo ao palácio, mas penso em você todos os dias. você me vem à mente muitas vezes. gostaria que pudesse ir ao meu palácio.
o rei achava que o homem não iria concordar, conforme a velha ideia de que os santos renunciam ao mundo, mas o homem disse:
— se o senhor sente tanto a minha falta, por que não me chamou antes? traga outro cavalo e eu irei com o senhor.
o rei ficou desconfiado: «que tipo de santo é esse, que se mostraria tão acessível?». mas agora era tarde demais, ele já tinha convidado. deu-lhe seu melhor quarto no palácio, reservado apenas para convidados especiais e outros reis, pensando que o homem iria recusar, dizendo: «sou um santo e não posso viver nesse luxo». mas o homem não disse nada desse tipo. ele disse: «muito bom.»
o rei não conseguiu dormir, achando que fora enganado e que o homem não era um santo. duas ou três vezes, ele foi olhá-lo pela janela, e o santo estava dormindo. mas, antes, ele nunca dormia! ficava sempre sentado debaixo da árvore guardando seu tesouro. o rei pensou: «fui enganado. este homem é um charlatão.»
no segundo dia, comeu com o rei todos os alimentos deliciosos, sem comedimento, e adorou a comida. o rei ofereceu-lhe novas roupas, dignas de um imperador, e ele amou as roupas. o rei já pensava em como se livrar do charlatão que o enganara. no sétimo dia, o rei disse àquele estranho homem:
— quero lhe fazer uma pergunta.
— sei qual será a sua pergunta. o senhor quis formulá-la há sete dias, mas, por cortesia e boas maneiras, manteve-a reprimida. eu o estava observando. mas não vou respondê-la aqui. o senhor pode me fazer a pergunta e então sairemos para uma longa caminhada. escolherei o lugar certo para respondê-la.
— muito bem. minha pergunta é: qual é a diferença entre você e eu? você está vivendo como um rei, mas costumava ser um santo. agora não é mais um santo.
— mande preparar os cavalos!
eles saíram. e o rei lembrou-o muitas vezes da pergunta que fizera. finalmente, chegaram ao rio que marcava o limite do seu reino.
— chegamos ao fim dos meus domínios. o outro lado do rio pertence a outro reino. este é um bom lugar para me responder.
— sim, eu já vou embora. o senhor pode levar os dois cavalos de volta ou, se quiser, pode vir comigo.
— aonde você vai?
— meu tesouro está comigo. aonde eu for, meu tesouro ainda estará comigo. o senhor virá comigo ou não?
— como posso ir com você? meu reino, meu palácio, o trabalho da minha vida toda estão atrás de mim.
o estranho riu e disse:
— agora o senhor vê a diferença? eu posso ficar nu debaixo de uma árvore ou posso viver em um palácio como um rei porque meu tesouro está dentro de mim. se estou sob uma árvore ou no interior de um palácio não faz diferença. então, o senhor pode voltar, mas eu vou para o outro reino. não vale mais a pena permanecer em seu reino.
o rei se sentiu arrependido.
— perdoe-me. pensei coisas erradas sobre você. você é realmente um grande santo. não vá, não me deixe assim; do contrário, esta ferida vai doer durante toda a vida.
— isso não é difícil para mim. posso voltar com o senhor. mas no momento em que chegarmos ao palácio essa pergunta vai surgir de novo em sua mente. então é melhor me deixar ir. eu posso lhe dar um tempo para pensar. eu posso voltar. para mim, isso não faz diferença. mas para o senhor é melhor que eu saia do reino. pelo menos o senhor vai pensar em mim como um santo. se eu voltar ao palácio, o senhor vai voltar a suspeitar que sou um charlatão. mas, se insiste, estou pronto. posso partir daqui a sete dias, quando a pergunta novamente se tornar pesada demais para o senhor.
em um país antigo,
um rei falou com um camponês.
ele disse: «ofereço-te luxos e prazeres
se você me ensinar a viver feliz».
o humilde homem
respondeu: «não posso,
não posso te ensinar a viver feliz.
você, com seu dinheiro, luxos e prazeres,
jamais poderá viver feliz».
o rei chorou
e contou-lhe sua dor.
«no fim das contas, podemos aguentar muito mais do que imaginamos.»
e a morte que te ronda é a de todo ser humano
e a sorte que te espera é a de todos os mortais
enfim, tudo se acaba e assim também a aventura
daquele heroico cavaleiro nem recordas a figura
aqueles dias memoráveis não regressarão jamais
e, no entanto, o que importa tua tardia lucidez
se o mundo sempre vai lembrar a altiva insensatez
de um louco que sonhou ser um sonho a realidade
teu nome dom alonso será apagado pelo vento
mas dom quixote viverá muito além do esquecimento
além de ti, além de mim, enquanto houver humanidade
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DON QUIJOTE DE LA MANCHA | CAMINHOS DE SI
jaguarão, 27 de maio de 2011
adaptação da obra de cervantes para o teatro feita por jorge passos e martim césar com a montagem do grupo alas de cervantes em 2001.
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e assim andamos...
gente de minha rua
como eu andei distante
quando eu desapareci
ela arranjou um amante
minha normalista linda
ainda sou estudante
da vida que eu quero dar
se podes olhar, vê; se podes ver, repara:
«ela», [a utopia]
— nesse terrível caso não salvaria nada meu. só um verso que sendo de todos, é meu também:
moeda que está na mão,
quiçá se deva guardar.
moeda que está na alma,
se perde se não se dá.




