segunda-feira, 21 de setembro de 2026


casa de um poeta na grécia


dizem que todo poeta precisa de proteção
dizem que todo poeta deve cair
mas juro que vejo meu reflexo
em algum lugar bem acima deste muro

vejo minha luz brilhando
do oeste até o leste
a qualquer momento, a qualquer momento
serei libertado

bob dylan


a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

manoel de barros


o poeta descreveu sua casa para sua mãe
«tem um terraço enorme com vista para montanhas imponentes e casas brancas brilhantes. os cômodos são amplos e arejados, com janelas profundas embutidas em paredes grossas. Imagino que tenha cerca de 200 anos e muitas gerações de marinheiros devem ter vivido aqui. Farei pequenas reformas todos os anos e, em poucos anos, será uma mansão... moro em uma colina e a vida aqui continua exatamente igual há centenas de anos. durante todo o dia, ouço os chamados dos vendedores ambulantes, e eles são realmente muito musicais... geralmente, acordo por volta das 7h e trabalho até o meio-dia. de manhã cedo é mais fresco e, portanto, melhor, mas adoro o calor de qualquer maneira, especialmente quando o mar egeu está a 10 minutos da minha porta.»

esta é hydra como era nos anos 60 e as pessoas que leonard cohen conheceu lá e com quem passou alguns anos de sua vida.

clique no título para ver

(filmes: «girl in black» com elli labetti
«the boy and the dolphin» com sofia loren.)


no final da década de 1960, em meio às águas azuis do golfo de argos, leonard cohen encontrou consolo em uma casa tradicional pitoresca na ilha grega de hydra. mal sabia ele que esta ilha paradisíaca se tornaria o cenário de uma das histórias de amor mais encantadoras do século xx.

clique nos títulos para ver e ouvir

(marianne e cohen em hydra)

.

cinema em detalhe (em português)
[recomendo]


a história de amor de leonard e marianne
hydra, no final dos anos 1960, era um refúgio para artistas, escritores e boêmios que buscavam inspiração e tranquilidade. leonard cohen , o icônico cantor e compositor canadense, estava entre os atraídos para esta idílica ilha grega. ele adquiriu uma casa tradicional caiada por meros US$ 1.500, uma decisão que mudaria sua vida para sempre.

foi em hydra que leonard cohen encontrou o amor, não apenas pela ilha em si, mas também por marianne ihlen, uma mulher norueguesa que conquistou seu coração. a história de amor deles se tornou uma lenda, imortalizada na música e na poesia de cohen. marianne serviu como sua musa, inspirando canções atemporais como «so long, marianne» e «bird on the wire». diferente, por exemplo, da canção «hey, that’s no way to say goodbye» (uma das canções memoráveis do clássico álbum de estreia de leonard cohen, lançado em dezembro de 1967).

cohen conta que escreveu a música quando morava em um quarto do penn terminal hotel, em nova york: «é um nome sinistro para um hotel. fiquei lá muitas vezes, e sempre achava que seria a última. e o quarto também era horrível. a janela era distante, a torneira não parava de gotejar na pia de porcelana, o aquecedor assoviava. eu estava com a mulher errada no lugar errado, como de costume, mas como dizem os metafísicos orientais, todo esse contexto sombrio me ajudou a escrever uma boa canção».

ei, isto não é maneira de dizer adeus

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[legendado em português]

(leonard cohen, 1967)

por sete anos felizes, cohen e ihlen viveram juntos naquela casa em hydra, onde a criatividade fluía tão livremente quanto as águas cristalinas da ilha. cohen escreveu algumas de suas obras mais profundas e icônicas durante esse tempo, incluindo seu romance de estreia, «beautiful losers», e o álbum «songs of leonard cohen».

o caso amoroso deles acabou, mas a lembrança de hydra e do tempo que passaram juntos perdurou no coração de cohen. ao saber da saúde debilitada de marianne ihlen em 2016, cohen escreveu uma carta de despedida sincera, expressando seu amor eterno e gratidão pelo tempo que passaram na ilha que os uniu.

ele disse: «bem, marianne, chegamos a esta época em que somos tão velhos que nossos corpos caem aos pedaços; acho que a seguirei muito em breve. saiba que estou tão perto de você que, se estender sua mão, acredito que poderá tocar a minha. você bem sabe que sempre a amei por sua beleza e sua sabedoria, mas não preciso me estender sobre isso, você sabe tudo. só quero lhe desejar boa viagem. adeus, velha amiga. te vejo na estrada.»

dois dias depois, marianne perdeu a consciência e faleceu.

venha até a janela, minha querida
eu gostaria de tentar ler a palma da sua mão.
eu costumava pensar que eu era um cigano
antes de eu deixar você me levar para casa.

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[subtitulado en español]

leonard cohen (1967)


de marianne para suzanne


suzanne
dizem que foi um dos momentos mais impressionantes da música popular norte-americana. em 1970, na isle de wight, costa sul da inglaterra, um povoado pacato repleto de iates e de aposentados da marinha britânica, um mar se seiscentas mil pessoas, esperavam pela atração que se seguiria à performance explosiva de jimi hendrix. era a terceira edição do festival de rock que até então atraía cerca de cento e cinquenta a duzentos mil participantes --- o auge foi em 1969, quando bob dylan voltou a se apresentar após o famoso acidente de motocicleta. talvez em homenagem a dylan, alguém resolveu chamar o lugar onde aquelas seiscentas mil pessoas esperavam pela próxima atração de «desolation row» --- a travessa da desolação --- uma referência à faixa sombria que termina o clássico álbum highway 61 revisited (1966).

ninguém esperava por aquela multidão, muito menos os organizadores do evento. todos estavam tensos. as pessoas se aglomeravam. bebidas e drogas eram passadas adiante sem nenhuma restrição. hendrix havia simplesmente tocado fogo no palco e na própria guitarra. era o auge da loucura da guerra do vietnam, o ápice do que a chamada contracultura poderia chegar em influência global.

enquanto isso a próxima atração simplesmente dormia. estava em seu trailer, vestido em uma espécie de macacão que poderia servir tanto como pijama e como uniforme de um exército particular. aliás, era esse o nome da banda que o acompanhava: o exército. nada mais incorreto quando o antimilitarismo era a moda da vez. como se não bastasse, ao contrário da microfonia e da distorção de hendrix, o set list das canções que seriam tocadas previam bandolins, coros femininos, violões, violinos e pouca percussão. sem contar o conteúdo das letras: não haveria nenhuma referência à guerra nuclear, aos políticos corruptos de washington e ao fim do mundo, mas, sim, dilemas existenciais, canções sobre a morte e declarações de amor.

quando o acordaram, não sabia se ainda sonhava ou se já estava desperto. talvez fosse o efeito dos quaaludes que tomara antes de dormir, talvez fosse o fato de que eram três e meia da madrugada. acordou, olhou para bob johnson, o produtor que o acompanhava na turnê, pegou o seu violão e foi para o palco. kris kristofferson, que havia sido vaiado algumas horas antes, o olhou apreensivo; joan baez, que encantara o público com suas letras pacifistas, não sabia o que poderia acontecer. ao empunhar o violão, viu as seiscentas mil pessoas que o esperavam. aproximou-se do microfone e disse: «não estou vendo vocês. não estou vendo ninguém. é possível que cada um acenda um fósforo? assim posso vê-los melhor». lentamente, fagulhas de luz foram surgindo na multidão escura. «isso mesmo, isso mesmo, acenda cada um seus fósforos, assim poderemos conversar melhor», continuou a dizer, a voz meio sonambúlica, meio hipnótica. e então começou a dedilhar alguns acordes e sem nenhum aviso cantou pausadamente como se quisesse que cada um ali ouvisse as vogais e consoantes de cada verso. «suzanne takes you down to her place near the river / you can hear the boats go by / you can spend the night beside her / and you know that she's half crazy / but that's why you want to be there.» («suzanne te leva até a casa dela perto do rio / dá pra ouvir os barcos passando / você pode passar a noite ao lado dela / e sabe que ela é meio maluca / mas é por isso que você quer estar lá.»)
e ela te oferece chá e laranjas
que vêm diretamente da china
e justamente quando você está prestes a dizer a ela
que não tem amor para lhe dar
então ela te coloca na mesma sintonia que ela
e deixa que o rio responda
que você sempre foi seu amante
e você quer viajar com ela
e você quer viajar às cegas
e você sabe que ela vai confiar em você
pois você tocou seu corpo perfeito
com sua mente

e jesus era um marinheiro
quando caminhou sobre as águas
e passou muito tempo observando
de sua solitária torre de madeira
e quando teve certeza
de que apenas os que se afogavam podiam vê-lo
ele disse: «todos os homens serão marinheiros, então
até que o mar os liberte»
mas ele próprio estava abatido
muito antes de o céu se abrir
abandonado, quase humano
ele afundou sob sua sabedoria como uma pedra
e você quer viajar com ele
e você quer viajar às cegas
e você acha que talvez vá confiar nele
pois ele tocou seu corpo perfeito
com sua mente

agora suzanne pega sua mão
e ela te leva até o rio
ela está vestindo trapos e penas
dos balcões do exército da salvação
e o sol derrama como mel
sobre nossa senhora do porto
e ela te mostra para onde olhar
entre o lixo e as flores
há heróis nas algas
há crianças pela manhã
elas se inclinam em busca de amor
e ficarão inclinadas assim para sempre
enquanto suzanne segura o espelho
e você quer viajar com ela
e você quer viajar às cegas
e você sabe que pode confiar nela
pois ela tocou seu corpo perfeito
com a mente dela

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[live at the isle of wight 1970]

(leonard cohen,1967)


avalanche
o público ficou quieto durante o resto da apresentação de duas horas e, no final, aplaudiu efusivamente.

assim como fez na isle de wight em 1970, leonard norman cohen impôs elegantemente a sua liberdade ao público que o acompanhou em cinquenta anos de carreira. é uma liberdade muito peculiar: não se trata de aceitar o que o público queria e sim de se reinventar a cada momento, conforme as necessidades da vida, conforme os obstáculos que encontrava na jornada rumo a um pouco de unidade interior, na aceitação de que tudo passa e nada fica neste mundo. talvez essa reinvenção tenha uma raiz única --- a questão judaica da qual ele não hesitaria em satirizar, chamando a si próprio de «o pequeno judeu que escreveu a bíblia» --- mas é também provável que seja algo que devemos ter como meta, quiçá como exemplo. como um pássaro preso no arame farpado, ele tentou ser livre ao seu modo. mas também entrou na avalanche em que quase perdeu o que lhe era mais precioso. a sorte é que viveu o suficiente para acompanharmos sua vitória.

eu entrei em uma avalanche
que encobriu minha alma
quando não sou esse corcunda que você vê
eu durmo embaixo da golden hill

você que deseja conquistar a dor
deve aprender o que me torna amável
as migalhas de amor que você me oferece
são as migalhas que eu deixei pra trás

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[legendado em português]
(leonard cohen, 1971)


ao vento

ao contrário das pessoas
as grandes músicas
são como os sonhos.
sonhos não envelhecem.

grill


- quem estará nas trincheiras ao teu lado?
- e isso importa?
- mais do que a própria guerra.

ernest hemingway


oh, o vento, o vento sopra
pelos túmulos o vento sopra
a liberdade logo virá
então nós sairemos das sombras

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[legendado em português]

(versão: leonard cohen 1969)


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

domingo, 20 de setembro de 2026


o eterno retorno

«é tempo de chuva, é tempo de chuva.
e num dia mais triste que todos,
triste por toda a terra,
triste de mim até ao lobo,
dormimos e acordamos
com um tigre entre os olhos. »

miguel hernández


a volúpia dos deuses

[por guilherme arantes]
não representam nenhuma novidade para a psicologia a construção clássica e o modus operandi dos personagens-coringa público-privados, na privada das lendas palacianas deste velho mundo podre, tais como daniel vorcaro e seu colega ianque jeffrey epstein, pirilampos célebres nos ambientes do poder, misturando corrupção financeira com degradação moral, em meandros da mais requintada cafetinagem, envolvendo proxenetismo com jogos de influência e chantagem... as autoridades misturadas com personalidades da fama, manipulando obscenos bilhões e pessoas-de-programa, fascinando e aprisionando em sua gosma pegajosa os rompantes aliciadores e bacantes aliciados num grande trelelê de escândalos e alcovas proibidas, a clássica manipulação de fotos e falas comprometedoras, uma galeria de espelhos de vaidades, relicários gongóricos de ostentações e múltiplas falácias fálicas...

são ilhas inatingíveis à ignara plebe das pessoas comuns, festas proibidas e proibitivas de poderosos em jantares nababescos regados a libações de néctares estratosféricos e divinais, onde a exclusividade conferida pelas senhas do poder é a iguaria suprema saboreada pela sanha insaciável da auto-indulgência de deuses acima de qualquer noção de razoabilidade, decência ou vergonha-na-cara.

a volúpia dos deuses não contempla tais firulas, e nem filigramas de requinte moral, é desprovida de auto-questionamento, de pruridos morais.

a volúpia dos deuses goza de prerrogativa de função no universo.

até serem pegos com a boca-na-botija.

muitos «são suicidados».

e os que mandam mesmo, providencialmente esquecidos na paz da amnésia da conveniência.

a história é pródiga de histórias assim.

a volta de martim fierro

a lei é teia de aranha,
em minha ignorância tentarei explicar,
não temam os ricos,
nem jamais os que mandam,
pois o bicho grande a destrói
e só aos pequeninos aprisiona.
a lei é como a chuva, nunca pode ser igual para
todos.
quem a suporta se queixa,
mas a explicação é simples;
a lei é como a faca que não fere quem a impunha.

josé hernández

lá por maldonado
que hoje corre escondido e cego,
lá, no bairro cinza
que o pobre carriego cantou,

atrás de uma porta entreaberta
que dá para o pátio da videira,
onde as noites ouviram
o amor da guitarra,

haverá uma caixa e, no fundo,
dormirá com brilho intenso,
entre aquelas coisas que o tempo
sabe esquecer, uma faca.

era daquele saverio suárez,
mais conhecido como «el chileno»,
que em antros e eleições sempre provou que era bom.
os garotos, que são o diabo,
vão procurá-la com discrição
e vão testar na ponta
se o fio não está cego.
quantas vezes ela terá penetrado
na carne de um homem
e agora está abandonada e sozinha,
à espera de uma mão,

que é pó.
atrás do vidro
que douram um sol amarelo,
através dos anos e das casas,
estou te vendo, faca.

[clique no titulo para ouvir]

(délibab, 2010)
feat. carlos moscardini

nota: lançado em 2010, délibáb é o nono álbum do cantor e compositor vitor ramil, composto inteiramente por milongas baseadas em poemas de jorge luis borges (em espanhol) e joão da cunha vargas (em português).

falando em faca
tá tudo bem, mãe
só estou sangrando

«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »
bebeth fassa

ihu on-line – qual o papel dos escritos de thoreau na américa de trump?

kelly dean jolley – há uma ideia, da qual me convenci já faz um tempo, a saber, de que quanto mais consciência moral nós temos, mais nos apercebemos. walden é escrito para a consciência moral individual (não há consciência moral não individual, a consciência moral sempre possui proprietário individual). ao presidente trump, até onde posso dizer, não apenas lhe falta uma consciência moral, mas ele possui uma aversão à consciência moral. (quem é trump para dizer a trump o que ele pode ou não pode fazer?) uma importante razão para isso é que ele próprio não parece querer ser mais consciente, e ele por certo não quer que outros sejam mais conscientes. ele aprisionaria a todos nós em um dúbio crepúsculo – um crepúsculo no qual nos reconciliaríamos com nossas limitações de consciência moral e apercepção por meio do flerte com coisas: telefones celulares, televisões de tela plana, roupas e carros. a saciedade substitui a clareza. thoreau nos forçaria a abandonar este dúbio crepúsculo, saindo para a clara luz do sol. ele nos redirecionaria das nossas relações com as coisas para nossa relação com nós mesmos. eu não sei se thoreau pensaria que as linhas mais cruciais de resistência a trump seriam traçadas entre os grupos nas ruas de washington ou de... qualquer outro lugar da américa. eu não sei se ele pensaria que as linhas de resistência seriam traçadas entre qualquer «nós» e «eles». a linha mais crucial de resistência deve dividir o nosso próprio coração: eu devo ver meu rosto contra o trump em mim mesmo, contra a gélida preguiça autoindulgente que ameaça eventualmente me consumir. se finjo que não tenho um trump em mim mesmo, fortaleço tanto este trump quanto aquele na casa branca. meu palpite sobre o conselho de thoreau para nós na américa de trump (até mesmo, me atrevo a dizer, no mundo de trump) – desobedeça a si mesmo! não, obviamente, no sentido de uma consciência moral desleixada, mas no sentido de adquirir um autocomando efetivo, com força e temperança suficiente para realmente fazer aquilo que a justiça revela ser o correto. se não podemos dizer não para nós mesmos, como podemos dizer não para trump?

its alright ma , (im only bleeding)
a escuridão sem a lua, as sombras dos talheres de prata, a lâmina feita a mão, o balão da criança, eclipses do sol e da lua. é dificil compreender o que você entendeu cedo demais: que não há sentido em tentar.

gritos e amaeças já nascem mortas. observações suicidas são precipitadas como as dentaduras feitas com ouro dos tolos. a corneta sopra palavras ao vento, pois quem não se ocupa em nascer, está ocupado em morrer.

a tentação voa. você vai atrás. se vê em guerra. assiste as cataratas rugindo. quer lamentar. mas só antes de descobrir, que vai ser só mais um a chorar

então não tema, se ouvir um som estranho ao seu ouvido.
está tudo bem, mãe, eu só estou suspirando.

enquanto uns anunciam a vitória, outros anunciam a derrota. razões pessoais importantes ou insignificantes podem ser vistas nos olhos daqueles que dizem que tudo o que rasteja deve ser destruído. e outros dizem: não tenha ódio a absolutamente nada, exceto ao próprio ódio.

palavras desiludidas pipocam como balas enquantos deuses humanos miram em seus alvos. eles fizeram tudo, desde armas de brinquedo que faíscam, a cristos coloridos que brilham no escuro. é fácil ver sem olhar muito longe que quase nada é realmente sagrado.

enquanto os pregadores pregam sobre destinos malignos, os professores ensinam que o conhecimento está à espera. pode gerar pratos de centenas de dólares. a bondade se esconde atrás de seus portões. mas até mesmo o presidente dos estados unidos às vezes precisa ficar nu.

e embora as regras da estrada estejam estabelecidas,
são apenas os jogos das pessoas que você precisa evitar
e está tudo bem, mãe, eu consigo

anúncios publicitários lhe convencem de que você é o único. que pode fazer o que nunca foi feito. que pode ganhar o que nunca foi ganho. enquanto isso, a vida lá fora continua ao seu redor.

e repente você descobre que não tem nada a temer. sozinho você permanece sem ninguém por perto quando uma voz trêmula e distante surpreende seus ouvidos adormecidos. aí você pensa que eles realmente lhe encontraram.

algo incita seus nervos, porém você sabe que não há nenhuma resposta apropriada, então assegure-se que você não vai desistir e não esqueça de que você não pertence a ele ou a ela ou a isto ou àquilo.

os mestres fazem as regras para os sábios e ignorantes.
eu não tenho nada a provar, mãe.

alguns obedecem às autoridades, outros não respeitam nada de forma alguma, alguns desprezam os seus empregos e seus destinos, falam com inveja dos que são livres e cultivam suas flores para serem nada mais do que algo em que investiram.

enquanto alguns batizados são plataformas para comícios, cofres são disfarçados em clubes sociais à luz do dia. intrusos podem entrar livremente e só dirigem a palavra a quem eles idolatram. e depois dizem «deus o abençoe».

enquanto um canta com sua língua em fogo, outro gargareja no côro das ratazanas esforçando-se para adaptar-se aos ditames da sociedade. não se incomode em subir mais alto, pois antes que você caia num buraco, ele vai estar lá. mas, enfim, eu não tenho intenção de prejudicar nem de culpar ninguém que viva num sepulcro.

mas tudo bem, mãe, se eu não conseguir agradá-los.

velhas juízas observam os casais. elas são frustradas sexuais. se atrevem a impor a falsa moral, insultar e censurar. enquanto o dinheiro não aparece, elas falam obscenidades, mas quem realmente se importa? tudo é falso como uma propaganda. elas defendem o que não podem enxergar. a consciência sopra amargamente nas mentes daqueles que pensam que a morte não cairá sobre eles naturalmente. às vezes a vida pode ser muito solitária. meus olhos batem de frente com cemitérios lotados de deuses falsos, eu me arrasto algemado e caminho de cabeça baixa. eu chuto minhas pernas para romper com tudo. eu digo: «basta! eu já tive o bastante. o que mais você pode me mostrar?". e se os meus sonhos pudessem ser vistos, eles provavelmente colocariam minha cabeça numa guilhotina.

mas está tudo bem, mãe, é a vida e nada mais.
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[(sydney south wales, australia feb 24th & 25th, 1986]

(bob dylan, 1965)


falando em vida


«chego ao meu centro,
à minha álgebra e à minha chave,
ao meu espelho.
em breve saberei quem sou.»

borges


«quando vieram buscá-lo no jardim, eles sabiam?
eles sabiam quem ele era?
sabiam que ele tinha o poder de curar os cegos e fazê-los ver?
sabiam que ele fez os coxos andarem e os mudos falarem?
sabiam que ele era o filho de deus, eles sabiam?
quando ele andou sobre as águas, eles sabiam?
quando multiplicou os pães, eles sabiam? s
abiam que ele havia ressuscitado dos mortos?
ou achavam que ele era apenas mais um homem?

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[legendado em português]

(saved, 1980)

«vocês sabem que estamos vivendo o fim dos tempos... as escrituras dizem: "nos últimos dias, tempos perigosos estarão próximos... dê uma olhada no oriente médio. estamos caminhando para uma guerra... eu disse a vocês “the times they are a-changin” e eles mudaram. eu disse que a resposta era "blowin’ in the wind" e foi. estou lhe dizendo agora que jesus está voltando, e ele está! e não há outro caminho de salvação... jesus voltará para estabelecer o seu reino em jerusalém por mil anos.»
bob dylan. sermão, 1978


e se cristo voltasse...

«se cristo voltasse, nós o crucificaríamos novamente. mas desta vez, na televisão. por uma temporada, nós o transformaríamos em um astro, o maior fenômeno de massa já visto, e então o jogaríamos fora como um lenço de papel usado.»

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«se cristo voltasse, apareceria um judas que o trairia, um pedro que o negaria três vezes, um tomé que colocaria os dedos em sua ferida após sua morte, um pilatos que lavaria as mãos e um barrabás que, sem nenhum mérito, seria preferido a ele pela chusma que todos nós somos. uma chusma veleta , que mais uma vez gritaria para que ele fosse crucificado.»

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[legendado en español]

(por jesús quintero)

nietzsche usa o eterno retorno para que você se torne o dono absoluto da sua história; borges usa o eterno retorno para mostrar que a história é um livro infinito onde nós somos apenas personagens passageiros.

não há caminhos que eu deva seguir,
não tenho certeza se vou te encontrar,
grito teu nome,
que o eco me devolve em nomes sem sentido,

não há sinais que eu deva seguir,
não tenho uma pista sequer pra te achar,
um junkie cansado,
o tempo me consome em ondas de desejo.

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(foi no més que vem, 2013)
feat. ian ramil

budapeste, 1991
foi na venerável budapeste - no terraço do buda penta hotel - que bob dylan, de roupa preta e botas de cowboy (que ele jamais parece trocar), deu sua primeira entrevista com mais de três minutos nos últimos cinco anos.

caderno 2 - o início deste seu world tour/91 foi um pouco tenso. a iugoslávia, primeiro pais do leste europeu no qual você se apresenta em 30 anos de carreira, também passa por um momento de tensão. como vê o que está acontecendo no leste nesses últimos dois anos?
bob dylan - você está dizendo que acha que a turnê começou tensa?

caderno 2 - bom, um pouco, não é?
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por quase um minuto )

caderno 2 - bem, de qualquer maneira, como vê a situação do leste europeu, agora que está aqui pela primeira vez?
bob dylan - já estive aqui antes, em 78 ou 79. de férias... ( pausa por quase um minuto)... você conhece a história da europa central e do leste europeu?

caderno 2 - um pouco.
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por quase um minuto ) então deve saber que esses países não são realmente países com unidade nacional significativa, muito menos unidade étnica. foram criados, fabricados. não são orgânicos - foram, são uma espécie de joguete no tabuleiro das grandes potências.

caderno 2 - você é a favor dos movimentos separatistas, então?
bob dylan - realmente não me interesso muito por governos e por estados.

caderno 2 - o melhor governo é aquele que não governa.
bob dylan - sim, thoreau sempre esteve certo. hum...( pausa por uns 30 segundos ) é sobre isso que você quer falar? você já leu thoreau? o que você sabe de thoreau? você conhece a obra de thoreau?

caderno 2 - bem, um pouco.
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por uns 15 segundos ) acho que já falamos mais do que o suficiente, não acha?

henry david thoreau

em julho de 1845, desgostoso com o crescente comercialismo e industrialismo da sociedade americana, henry david thoreau (1817 - 1862) deixou concord, massachussetts, sua cidade natal, para instalar-se à beira do lago walden. publicado primeiramente em 1854 com o título «walden ou a vida nos bosques», este é o relato dos dois anos, dois meses e dois dias em que o autor viveu apartado da sociedade dos homens, suprindo as próprias necessidades, estudando, contemplando a natureza e conhecendo-se a si mesmo.

«fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido.»
antes disso, em 1849, thoreau escreveu em seu livro «desbediência civil» sobre a diferença entre legal e justo:

«não é desejável cultivar o respeito pela lei no mesmo nível do respeito pelo direito. ã única obrigação que tenho o direito de assumir é fazer a qualquer momento o que considero certo.»

noutras palavras: obedecer a lei não é neutro — se a lei é injusta, obedecer é escolher um lado.
«não pretendo escrever uma ode á melancolia, e sim trombetear vigorosamente como um galo ao amanhecer, no alto de seu poleiro, quando menos para despertar meus vizinhos.»
henry david thoreau

«thoreau foi uma espécie de júlio verne que, em vez de descrever as maravilhas do futuro, anteviu os desatinos de um modelo desenvolvimentista que nunca quis levar em conta a preservação da natureza. previu o advento de um consumismo viciante e vicioso; viu os tempos em que a privacidade deixaria de ser um recurso natural renovável para se tornar bem descartável; ouviu os gritos surdos da maioria silenciosa. e preferiu se retirar para trocar as penas.

junto aos galos; longe dos lunáticos.»

eduardo bueno (peninha)

a oralidade

sempre modesto, ao contrário de dylan e peninha, mas sem deixar de aludir a modelos gloriosos - sócrates, pitágoras, cristo, buda - e a outros mais próximos, como macedonio fernández, borges (1899-1986) apresentava-se, na última etapa de sua vida, como um grande mestre da oralidade. a princípio tímido e reservado, a ponto de se ocultar em meio à plateia e pedir a um amigo para ler a conferência que redigira, com os anos e a progressiva cegueira, o escritor argentino tornou-se um narrador oral, como se quisesse dissolver-se na tradição épica dos narradores anônimos. a tradição daqueles cuja arte havia procurado imitar na prosa de seus relatos, em parte derivados dos livros que aprendera a amar desde menino na biblioteca do pai, mas muitas vezes também inspirados pelas histórias de valentões de arrabalde nos arredores de sua casa no velho bairro de palermo, numa buenos aires mítica do começo do século xx.

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corre o vento e o mississipi passa...

nas primeiras páginas de «história universal da infâmia», obra de jorge luís borges, que ganhei de um poeta, « pássaro de mesma plumagem», está escrito:

o pai das águas, o mississipi, o rio mais extenso do mundo, foi o digno teatro desse incomparável canalha. (alvarez de pineda o descobriu e seu primeiro explorador foi o capitão hernando de soto, antigo conquistador do peru, que distraiu os meses de prisão do inca atahualpa ensinando-lhe o jogo de xadrez. morreu, e lhe deram como sepultura as suas águas.)

o mississipi é rio de peito largo; é um infinito e obscuro irmão do paraná, do uruguai, do amazonas e do orinoco. é um rio de águas mulatas; mais de quatrocentos milhões de toneladas de lama insultam anualmente o golfo do méxico, descarregadas por ele. tanto lixo venerável e antigo construiu um delta, onde os gigantescos ciprestes dos pântanos crescem sobre os despojos de um continente em perpétua dissolução, e onde labirintos de barro, de peixes mortos, de juncos, dilatam as fronteiras e a paz de seu fétido império. mais acima, na altura do arkansas e do ohio, também se alongam as terras baixas. habita-as uma estirpe amarelenta de homens esquálidos, propensos à febre, que olham com avidez as pedras e o ferro, porque entre eles não há outra coisa senão areia e madeira e água turva.

recentemente, eu estava ouvindo o álbum «together through life» e me fez perceber novamente como a voz de bob dylan, com a idade, se aproxima cada vez mais dos blueseiros tradicionais. com o tempo, a voz do bardo ganhou aspereza e profundeza.

em «i feel a change comin' on», uma das músicas do álbum, há essas palavras impressionantes: «eu tenho o sangue da terra na minha voz». será que é a terra dos antepassados, da qual ele transmitiu a riqueza desde os seus primeiros dias? ou ele fala de uma terra rochosa e desgastada que carrega todas as desgraças do mundo, assim como todas as decepções, assim como todas as esperanças?

mas esta terra pode simplesmente ser a que se encontra no mississippi, que se estende pelo sul dos estados unidos, desde o texas até a louisiana, sem esquecer o mississippi.

seus dias estão contados, assim como os meus. o tempo está se acumulando, lutamos e nos esforçamos. estamos todos encurralados, sem escapatória. a cidade é uma selva, mais jogos para jogar. presos no coração dela, tentando escapar. fui criado no interior, trabalho na cidade. estou em apuros desde que larguei minha mala. não tenho nada para você, eu não tinha nada antes. não tenho mais nada nem para mim mesmo.
céu pegando fogo, a dor caindo como chuva não me venha vender nada, te vejo em outra ocasião. toda a minha capacidade de expressão e pensamentos tão sublimes jamais te fariam justiça em razão ou rima. só uma coisa que fiz de errado: fiquei no mississippi um dia além da conta.

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[legendado em português]

(love and theft, 1996)

rolling stone: você não se considera uma voz especialmente norte-americana pela maneira como suas músicas fazem referência à história?

bob dylan: elas são históricas. mas também são biográficas e geográficas. elas representam um estado mental específico. um território específico. o que os outros pensam a meu respeito é totalmente irrelevante. deixe-me mostrar uma coisa... olhe só quem escreveu este livro [hell’s angel, de sonny barger]: keith zimmerman e kent zimmerman. esses nomes lhe parecem familiares? vou fazer uma referência a um lugar aqui. leia isto em voz alta:

«um dos primeiros presidentes dos berdoo hells angels foi bobby zimmerman. quando estávamos voltando para casa em 1964, bobby estava em sua posição de costume quando o escapamento caiu da moto dele. ao fazer um retorno rápido, jack egan o atingiu em alta velocidade e o matou no mesmo instante. nós arrastamos o corpo sem vida de bobby para o acostamento.»

bob dylan: sabe como isso se chama? chama-se transfiguração. bom, está olhando para alguém assim.

de volta a borges

em borges, a transfiguração quase nunca é um milagre físico ao modo mítico tradicional, mas sim epifânica e metafórica: é a noite em que um homem descobre seu verdadeiro rosto, o instante em que a memória humana toca o infinito, ou a magia da linguagem que converte a dor e o tempo escorrido em espelhos da eternidade.

biografia de tadeo isidoro cruz

neste texto de el aleph, o sargento cruz (personagem do martín fierro) está caçando um desertor cercado. no meio da noite e do combate, ao ver a coragem do homem encurralado, cruz compreende subitamente quem ele realmente é. em uma noite de revelação, sua identidade transfigura-se: ele deixa de ser o perseguidor da lei para se juntar ao perseguido, selando seu destino em um único instante eufórico.

vamos aos fatos
aspas para borges

«os fatos aconteceram assim:

nos últimos dias de junho de 1870, cruz recebeu ordem de prender um desertor que devia duas mortes à justiça; o relatório acrescentava que procedia de laguna colorada. daí saiu o desconhecido que gerou cruz e que pereceu numa vala; cruz esquecera o nome do lugar, mas, com leve e inexplicável inquietude, reconheceu-o.

o criminoso, acossado, foi encurralado na noite de 12 de julho num palhegal. a treva era quase indecifrável; cruz e os seus avançaram. gritou uma chajá; tadeo isidoro cruz teve a impressão de já ter vivido esse momento.

o criminoso saiu do abrigo para combatê-los. cruz o entreviu, terrível; a crescida cabeleira e a barba cinzenta pareciam comer-lhe a face. o desertor feriu gravemente ou matou vários dos homens de cruz.

este, enquanto combatia na escuridão (enquanto seu corpo combatia na escuridão), começou a compreender. compreendeu que um destino não é melhor que outro, mas que todo homem deve acatar aquele que traz consigo. compreendeu que as divisas e o uniforme já o estorvavam. compreendeu seu íntimo destino de lobo, não de cachorro gregário; compreendeu que o outro era ele.

amanhecia na imensa planície. cruz atirou por terra o quepe, gritou que não ia consentir no delito de que se matasse um valente e pôs-se a lutar contra os soldados, junto com o desertor martín fierro.»

de volta ao mississippi

«eu tenho um sonho que um dia, até mesmo o estado de mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.»
martin luther king
[agosto 28, 1963]

mississippi, 2 de julho de 1963

o student non-violent coordinating committee (sncc) organizava comícios no mississippi para registrar eleitores negros. theodore bikel sugeriu a albert grossman que dylan participasse: «acho que bob deveria ir... sentir como é o sul», e pagou a passagem. voaram juntos de nova york a jackson, com bob escrevendo letras nos versos de envelopes, e seguiram para greenwood. na manhã do evento, viajaram deitados no carro para evitar a polícia local: «se os tiras vissem um carro com negros e brancos misturados... o levariam para a cadeia. neste caso, só restaria torcer para que o pior não acontecesse...»

o comício reuniu cerca de trezentas pessoas, a maioria trabalhadores rurais afro-americanos, sob o olhar de policiais e grupos de brancos do outro lado da rodovia. lá, dylan reuniu-se a pete seeger e the freedom singers. «o que eu me lembro é do negro que discursou», diz seeger. «ele tinha um sorriso feroz, como se soubesse que estava ganhando e que a ku klux klan não sabia o que fazer com isso. ele sabia que alguns de nós seríamos mortos, mas eles não conseguiriam matar todos.» bob cantou «only a pawn in their game», sua música sobre o assassinato de medgar evers, morto a tiros um mês antes. dylan cantou que o assassino era um peão em um jogo de ignorância, preconceito e ódio. ele ficou inclinado para frente enquanto cantava, sem nunca sorrir para as câmeras que estavam a postos para registrar o evento para a televisão e os jornais. aquilo era sério e exigia uma postura séria. como diz seeger: «uma das coisas mais importantes de bob é o fato de ele se recusar a sorrir para as câmeras.»


mas o branco pobre é usado na mão de todos como ferramenta
ensinam para ele na escola, desde o início e como regra
que as leis o respaldam, para proteger sua pele branca,
para alimentar seu ódio, assim que nunca pensa conscientemente
sobre o contexto em que vive, mas não há que culpá-lo
ele não é mais que um peão no jogo

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[legendado em português]

(bob dylan, 1963)


tenesse, 7 de janeiro de 2023
a família de tyre nichols, um homem negro que morreu após ser agredido por policiais no estado do tennessee, nos estados unidos, o descreve como uma «alma linda», apaixonada por skate, pôr do sol e fotografia.

«ninguém é perfeito, mas ele chegou perto», disse a mãe dele, rowvaughn wells, em uma coletiva de imprensa ao lado de familiares e apoiadores. nichols foi brutalmente agredido por policiais em 7 de janeiro, quando o carro dele foi parado pelos agentes. imagens gravadas pelas câmeras nos uniformes dos policiais mostram o jovem chorando e chamando pela mãe enquanto era socado e chutado múltiplas vezes.

ele foi hospitalizado e morreu três dias depois, em 10 de janeiro. agora que as imagens vieram à tona, a morte do jovem tem causado grande revolta nos eua. os policiais inicialmente disseram que pararam o carro de nichols porque ele estaria dirigindo de maneira imprudente, mas a acusação não foi comprovada.

wells, visivelmente triste, abriu um sorriso raro ao descrever seu filho, durante a entrevista coletiva à imprensa.

nota: nichols era negro, assim como todos os cinco policiais acusados de seu assassinato.


«quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor».


paulo freire vive.

de volta a borges
(o eterno retorno)

os homens

em princípios do século xix, as vastas plantações de algodão eram trabalhadas por negros, de sol a sol. dormiam em cabanas de madeira, não sabiam ler e sua voz cantava num inglês de vogais lentas. trabalhavam curvados sob o rebenque do capataz; se fugiam, cães de caça os rastreavam.

a um sedimento de medos africanos haviam agregado as palavras da escritura, e o mississipi servia-lhes de magnífica imagem do sórdido jordão.
os proprietários dessas levas de negros eram ociosos e ávidos senhores. um bom escravo não durava muito, e devia-se tirar dessas incertas criaturas o maior rendimento. a terra, fatigada por essa cultura impaciente, ficava exausta, e no deserto confuso e enlodaçado viviam os poor whites, a canalha branca, que mantinha em sua prostração um orgulho: o do sangue sem tisne, sem mescla. lazarus morell foi um deles.

o homem

os daguerreótipos de morell não são autênticos; é verosímil supor que se negou à placa para não deixar rastos e alimentar o seu mistério. os anos conferiram-lhe essa peculiar majestade que têm os canalhas envelhecidos. era um cavalheiro antigo do sul que não desconhecia as escrituras e pregava com rara convicção. «eu vi lazarus morell no púlpito», anota o dono de uma casa de jogo, «e escutei as suas palavras edificantes. sabia que era um adúltero, um ladrão de negros e um assassino, mas também meus olhos choraram».

outro testemunho dessas efusões é o do próprio morell:

«abri a bíblia ao acaso e preguei uma hora e vinte minutos. tampouco desperdiçaram esse tempo crenshaw e os companheiros, porque levaram todos os cavalos dos que estavam a ouvir. vendemo-los no estado de arcansas, exceto um avermelhado, que reservei para meu uso particular.»

borges, em «história universal da infâmia» (1935), p. 15-17.

de jorge luis borges a robert zimmerman
do mississippi à paraíba

– zé, você não segue nenhum tipo de religião – ao contrário, sua visão sobre elas é bastante crítica – mas sua música e poesia emanam uma grande religiosidade... vemos tanta intolerância na fé, no entanto a aspiração pelo divino é inerente ao ser humano...

zé ramalho da paraíba: as ideologias religiosas foram responsáveis por grandes morticínios ao longo da história. é a violência num caminho que deveria conduzir à paz. temos de encontrar o caminho dentro da nossa própria consciência.

creio que as religiões desaparecerão no futuro. elas promovem a divisão: «a minha verdade é sempre a melhor». quando ficamos em silêncio, refletimos sobre o além. isso aqui é só um estágio; para partirmos tranquilos, temos de estar de bem conosco, aqui e agora. quando eu morrer, gostaria que minhas cinzas fossem espalhadas onde nasci. a morte é só o encerramento de um ciclo, tenho certeza da continuidade.

se examinarmos a questão de forma crítica, veremos os horrores feitos «em nome de deus». o que chamamos de «história» é só uma interpretação conveniente aos detentores do poder; não recebemos fatos, mas pontos de vista parciais.

hoje a guerra virou videogame, movida por computadores e manipulada por forças obscuras. como diz bob dylan em «gotta serve somebody», do álbum «slow train coming», todo mundo tem de servir a alguém, a deus ou ao diabo. é dessa força sinistra que falo, algo que move pessoas desde o início da raça humana...


você pode estar na mídia sem saber porque
você pode ser dono de uma rede de tv
você pode dar o fora tendo tudo pra ficar
adotar um nome diferente, você pode mesmo se isolar

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

[clique nos títulos para ouvir]

(slow train coming, 1979)

.

(tambong, 2000)
versão vitor ramil [part: lenine]

e o homem da esquina rosada?

borges tinha algumas obsessões: os tigres, os labirintos, o livro das mil e uma noites, o tempo, o mundo do tango. deste último tema surgem poemas (como o tango: «uma mitologia de punhais lentamente se anula no esquecimento») e este conto magnífico, homem da esquina rosada.

nele se conta uma história ambientada numa espécie de faroeste argentino, um mundo de compadritos que vivem se desafiando à ponta de faca, sem motivos aparentes, só pelo desafio mesmo — para provar quem é o homem mais valente.

homem da esquina rosada, a última das histórias de história universal da infâmia antes do capítulo final feito de fragmentos (etcétera), tem tudo aquilo que faz parte da imagem de marca de borges: um enigma insolúvel. trata-se de uma história de covardia e coragem onde é o próprio narrador que assinala a estocada final, despedindo-se do leitor e trazendo a infâmia descaradamente para o nosso mundo:

«parti tranquilamente para o meu rancho, que ficava a uns três quarteirões dali. ardia na janela uma luzinha, que em seguida se apagou. por certo que me apressei a chegar, quando tal vi. então, borges, voltei a tirar a navalha curta e afiada que eu sabia trazer aqui, no colete, ao pé do sovaco esquerdo, e olhei-a lentamente, e estava como nova, inocente, e não guardava nem um fio de sangue.» 

ao vento

racismo. fascismo. xenofobismo. klan. trump. globo. aécio. temer. moro. ustra. bolsonaro. tortura. opressão torácica. dispneia. ânsia. medo. horror. desespero. você está cercado de canalhas, sofre um golpe, é enterrado vivo, vê cruzes em chamas, tenta gritar e não consegue. por fim, acorda com o coração disparado, com uma sensação de angústia, assustado, e então percebe que tudo não passou de um (terrível) pesadelo.

quem dera fosse só um pesadelo.

quem dera.

o mistério e a beleza caminham entre nós no palco da história, mas a gente continua sem aprender nada, encenando a negação com a mesma precisão cega de dois mil anos atrás.

grill 


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas