domingo, 18 de outubro de 2026


vai trabalhar vagabundo 

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a mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

manoel de barros

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a besta-fera

por enilton grill

(texto escrito em 26 de março de 2020)
que me desculpem os que pensam que bolsonaro ultrapassou os limites da loucura com o pronunciamento de anteontem.

ele não é louco, só tem a cara do mercado financeiro, da elite e dos latifundiários. ele é uma besta-fera.

bolsonaro ultrapassou os limites no dia em que homenageou um torturador na nossa cara: «pela família, contra o comunismo, pela nossa liberdade e pela memória do coronel carlos alberto brilhante ustra, o pavor de dilma rousseff, o meu voto é sim».

ele disse o que disse e não aconteceu nada. foi ali que a besta-fera se sentiu liberada para tudo.

depois, ele pôs os interesses econômicos acima da vida, e nós seguimos sem fazer nada, esperando que alguém faça tudo — quem sabe a rede globo, como fez com collor.

é urgente conter e calar bolsonaro, mas a forma como ele vai sair importa muito: sinaliza se outro bolsonaro poderá surgir.

enfim, tudo tem limite, sobretudo bolsonaro. 
o problema não é ele, somos nós.
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a escala ramagem

por julio benchimol pinto

(texto escrito em 6 de julho de 2026)
a notícia veio com cheiro de brasil paralelo e folha de ponto em branco: a esposa de alexandre ramagem, procuradora em roraima, depois de meses longe do trabalho — entre férias, recesso, atestado não homologado, licença-prêmio e outras delicadezas do serviço público premium —, pediu nova licença para entrar na política pelo pl.

até aí, nada surpreende. no bolsonarismo, a mamata só é crime quando não está na família.

o mesmo campo político que torce o nariz para o fim da escala 6x1 — aquela engenharia medieval em que o trabalhador vive seis dias para descansar um — assiste calado à escala 0x7 dos seus: zero expediente, sete justificativas, salário de elite, discurso de mérito.

para o caixa de supermercado, “vai trabalhar, vagabundo”; para a turma do cercadinho, férias, licença, recesso, atestado, prêmio e candidatura.

é a moral bolsonarista em estado puro: chicote no lombo dos outros, almofada ergonômica no próprio gabinete. no púlpito, gritam contra privilégios; no protocolo, pedem mais um.

e ainda posam de defensores do trabalhador. defensores, sim. do trabalhador imaginário: aquele que trabalha muito, reclama pouco, descansa quase nada e vota em quem acha folga coisa de comunista.

no fundo, o bolsonarismo inventou a meritocracia reversa: quem rala merece sermão; quem encosta merece legenda.

a escala 6x1 é para o povo; para os escolhidos do pl, vale a escala ramagem: licença sobre licença, moral sobre moralismo, e ponto eletrônico tocando berrante no vazio.

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pai nosso que não estais aqui
sacrificado é o vosso povo
humilhados e ofendidos são os nossos homens
deserdados e famintos são os nossos filhos
feridos e estéreis são nossos ventres
aqui na terra

o pão nosso de cada dia
a alegria nossa de cada dia
o amor nosso de cada dia
o trabalho nosso de cada dia
venham a nós
voltem a nós
de trem, de carro ou navio

não nos deixeis cair em lamentações
mas livrai-nos desse vazio

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(último trem, 1980)

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no meio do meu caminho sempre haverá uma pedra
plantarei a minha casa, numa cidade de pedra
itamarandiba, pedra corrida, pedra miúda rolando sem vida
como é miúda e quase sem brilho a vida do povo que mora no vale

no caminho dessa cidade passarás por turmalina
sonharás com pedra azul, viverás em diamantina
no caminho dessa cidade as mulheres são morenas
os homens serão felizes como se fossem meninos

👇

itamarandiba
(último trem, 1980)

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ao vento

vai trabalhar vagabundo
tô trabalhando
onde
no américas

grill 

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américas

para o povo o que é do povo

em breve: no blog, na rádiocom e nas plataformas digitais.

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#lula13
#salacheguevara
#casadosaedos

sexta-feira, 16 de outubro de 2026


eduardo galeano sobre a palestina

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«desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. não podem nem sequer respirar sem autorização. têm perdido a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua liberdade, tudo. nem sequer têm direito a eleger os seus governantes. quando votam em quem não devem votar, são castigados. gaza está sendo castigada. converteu-se numa ratoeira sem saída, desde que o hamas ganhou legitimamente as eleições em 2006. algo parecido tinha ocorrido em 1932, quando o partido comunista triunfou nas eleições de el salvador. banhados em sangue, os habitantes de el salvador expiaram a sua má conduta e desde então viveram submetidos a ditaduras militares.»

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«a democracia é um luxo que nem todos merecem. são filhos da impotência os rockets caseiros que os militantes do hamas, encurralados em gaza, disparam com desleixada pontaria sobre as terras que tinham sido palestinas e que a ocupação israelense usurpou. e o desespero, à orla da loucura suicida, é a mãe das ameaças que negam o direito à existência de israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está a negar, desde há muitos anos, o direito à existência da palestina.»

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«já pouca palestina resta. pouco a pouco, israel está a apagá-la do mapa. os colonos invadem, e, depois deles, os soldados vão corrigindo a fronteira. as balas sacralizam o despojo, em legítima defesa. não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. hitler invadiu a polônia para evitar que a polônia invadisse a alemanha. bush invadiu o iraque para evitar que o iraque invadisse o mundo. em cada uma das suas guerras defensivas, israel engoliu outro pedaço da palestina, e os almoços continuam. o repasto justifica-se pelos títulos de propriedade que a bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.» 
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«israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das nações unidas, o que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, o que escarnece das leis internacionais, e é também o único país que tem legalizado a tortura de prisioneiros. quem lhe presenteou o direito de negar todos os direitos? de onde vem a impunidade com que israel está a executar a matança em gaza? o governo espanhol não pôde bombardear impunemente o país basco para acabar com a «eta», nem o governo britânico pôde arrasar irlanda para liquidar o ira. talvez a tragédia do holocausto implique uma apólice de eterna impunidade? ou essa luz verde vem da potência "manda chuva" que tem em israel o mais incondicional dos seus vassalos?»
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«o exército israelense, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe quem mata. não mata por erro. mata por horror. as vítimas civis chamam-se danos colaterais, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. em gaza, de cada dez danos colaterais, três são meninos. e somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está a ensaiar com êxito nesta operação de limpeza étnica. e como sempre, sempre o mesmo: em gaza, cem a um. para cada cem palestinos mortos, um israelita. gente perigosa, adverte o outro bombardeamento, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos convidam a achar que uma vida israelense vale tanto como cem vidas palestinianas. e esses meios também nos convidam a achar que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de israel, e que uma potência nuclear chamada irã foi a que aniquilou hiroshima e nagasaki.»
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«a chamada comunidade internacional, existe? é algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? é algo mais que o nome artístico que os estados unidos assumem quando fazem teatro?»
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«ante a tragédia de gaza, a hipocrisia mundial destaca-se uma vez mais. como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade. ante a tragédia de gaza, os países árabes lavam as mãos. como sempre. e como sempre, os países europeus esfregam as mãos. a velha europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma ou outra lágrima enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. porque a caça aos judeus foi sempre um costume europeu, mas desde há meio século essa dívida histórica está a ser cobrada dos palestinos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antissemitas. eles estão a pagar, em sangue, na pele, uma conta alheia.» 
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eduardo galeano
escritor uruguaio
texto publicado em 2014

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rádiocom 104.5fm

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américas - gaza urgente
produção e apresentação
enilton grill

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#palestinalivre
#gazaurgente
#rádiocom
#américas

quinta-feira, 15 de outubro de 2026


 beijo no coração

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«e agora o povo está na rua para proteger e resguardar; esta pátria que ganhamos, democrática há de avançar.»

paródia
grill

[inspirada em
«para el pueblo lo que es del pueblo»
de piero y josé]

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(piero, 1973)
com letra e imagens

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como muitos aqui sabem, morei muito tempo para fora, na colônia, ponte cordeiro de farias, vulgo repecho — hoje, moro na cidade. que a realidade política de lá é diferente da realidade urbana, não há dúvida; acho que todos sabem. eu, pelo menos, sempre soube. minha avó e meu pai eram de lá. meu pai, que nasceu num sítio lindeiro ao repecho, nunca escondeu de ninguém, muito menos de mim, a decepção que sentia quando abriam as urnas da colônia.

sim, meu pai foi político — era brizolista, ferrenhamente brizolista, apaixonadamente brizolista, brizolista até a alma, brizolista de coração. decorria daí sua baixa votação por aquelas bandas. "a colônia é reacionária", dizia meu pai. e é mesmo, a colônia é reacionária, extremamente reacionária — ele estava coberto de razão.

não havia, portanto, de minha parte, decepção alguma com a esmagadora maioria de votos na direita decorrentes do lugar de onde vim. muito pelo contrário, eu já esperava por isso. naquela época, até tentei mudar um voto e outro — uma vez fui até aplaudido na venda onde comprávamos mantimentos quando falei a favor de um mundo mais justo e fraterno —, mas voto progressista que é bom, nada. ou seja, meu pai estava certo: buscar esse voto na colônia é igual a pregar no deserto.  
minha decepção, para ser bem sincero, sempre foi com os da minha turma. aqueles que a vida toda condenaram o nazismo, o racismo, as ditaduras, as guerras, as bombas; que tiveram acesso e as mesmas oportunidades que eu tive e que, na hora h, ou escolheram o caminho das trevas ou o da omissão. isso é inadmissível, não tem explicação.
pensem nas crianças
mudas, telepáticas
pensem nas meninas
cegas, inexatas
pensem nas mulheres
rotas, alteradas
pensem nas feridas
como rosas cálidas

pensem nisso
 pois é disso que se trata. 
lula sim, flávio não.

beijo no coração.
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mas oh não se esqueçam
da rosa, da rosa
da rosa de hiroshima
a rosa hereditária
a rosa radioativa
estúpida e inválida
a rosa com cirrose
a anti-rosa atomica
sem cor, sem perfume
sem rosa, sem nada

👇

(secos & molhados, 1973)

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américas
[para o povo o que é do povo]
em breve na rádiocom

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#lula13
#lula2026

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#casadosaedos
#salacheguevara
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terça-feira, 13 de outubro de 2026

 

devir... a ser

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«sinta mais, pense menos»

bukowski

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eu posso resumir num verso todo o processo que, de repente, seja visto como processo acabado? 
não, não posso, porque antes que o conteúdo esteja pronto o próprio verso estará modificado.
mas eu quero, mesmo sabendo do empecilho das leis físicas que me ensinaram a evolução interminável. é inquietante que eu queira interromper o trajeto das coisas fazendo-as prontas quando julgar que estão. é lamentável que eu ouse dar-lhes um peso, uma força, uma velocidade, uma fora e o meu próprio conceito de massa.
dou-me o uso das palavras, o desejo de um poema e a ordem de «faça-se a luz». 
inútil. a ideia não se cristaliza em tempo, porque eu também sou trânsito e, antes que o raciocínio atinja as pretendidas dimensões, outros mistérios do pensamento tornam precárias minhas conclusões. pensar, eu penso, ainda que nesta rota apareçam dúvidas. 
sou meu próprio ditador, impondo o que me escraviza. eu me decreto um verso definitivo ao meu espírito sabedor do transitório. 
está em mim o meu pior inquisidor na hora do interrogatório, sutil e cínico na condição de questionário. 
impessoal, sem ser anônimo; sem voz, embora me fale. 
sou eu quando não posso. 
o que eu quero é um verso final que resuma o processo de um produto. 
o que não posso é mentir um conteúdo que, por ser fictício, foi modificado. 
primeiro me dispo e vejo meu corpo. 
e ouço minha voz, e aspiro meu cheiro, e sinto meu gosto. 
nova mentira na transparência mentida. 
e invento que já não posso me escutar, mas aspiro meu cheiro e sinto meu gosto. 
sou a terceira mentira. 
transparente, surdo e sem poder sentir meu cheiro, mas sinto meu gosto. 
concluo que a quarta é a derradeira mentira, não me vejo, não me aspiro, não me toco, perdi o gosto. 
incorpóreo, eu penso.
penso que, imaterial, eu ouço um verso definitivo, que eu não escrevo. 
porque é abstrato no meu eu de fato, final e acabado... meu substrato.

deogar soares

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no momento em que eu me percebo um pouco desesperançoso, eu resisto, entende?
eu resisto. quer dizer, eu brigo contra mim mesmo, ou brigo comigo mesmo.
eu analiso a razão de ser da minha desesperança para poder superar essa razão de ser.
no fundo, eu sou inveteradamente esperançoso.
eu tenho um certo gosto... um gosto histórico de viver a esperança.
paulo freire

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se eu não sei que não sei
penso que sei.
se eu não sei que sei
penso que não sei.

r. d. laing

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tem quem pensa que é
eu penso que não sou
que vou ser
quando 

grill 

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cuando el pobrísimo tome las cúpulas
y los famélicos tomen las áfricas
y los indígenas tierra amazónica
y los mecánicos tomen las fábricas
y los utópicos salgan del prólogo
y los daltónicos pinten lo nítido
y los chuequísimos bailen de júbilo

ya lo terrícola será libérrimo
cual ritmo cíclico de un canto esdrújulo.

viglietti

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«en el 2003, invitado por mi amigo de lucha, enilton grill, tuve el placer de tocar con daniel viglietti, en el theatro sete de abril de la ciudad de pelotas rs, aqui va un registro de aquel momento inolvidable»
lyber bermúdez

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se trata cósmicos de ser más fértiles,
de no ser tímidos, de ser más trópicos,
de ir a lo pálido, volverlo térmico,
sentirse prójimo de lo más lúdico,

con verdes lápices trazar el ámbito
de lo que mágico rompe los límites,
buscar lo hidráulico de lo volcánico,
librar la métrica, cambiar de sílabas.

y con elásticas formas anárquicas
tocar lo afónico que suene homérico,
fundar metáforas, crear la hipótesis
de que lo asmático se vuelva oxígeno.

situar la brújula al sur paupérrimo,
armar las síncopas contra los déspotas,
cambiar la tónica por una séptima,
tocar en triángulo sones esféricos.

y a los dogmáticos tan poco orgásmicos,
casi ni eróticos de ser tan púdicos,
a esos acríticos de sesgo andrógino
decirles «gélidos, no sean retrógrados».

y con armónicos cantar bien nítido
contra lo frígido luchando tórridos,
con armas múltiples llamando cálidos
fondos oceánicos de lo más lúbrico.

el ritmo cíclico del vals esdrújulo
es cual la sístole que va a la diástole,
todo cardíaco de andar eufórico,
nada presbítero, más bien sacrílego.

amando nínfulas que sueña grávidas,
el vals acróbata cruza los vértices
llamando gráciles criaturas prístinas,
seres prolíficos de lo aún inédito.

y a los arácnidos volverlos líricos
y a sus ejércitos juzgarlos rápido
mediante un árbitro de juicio ecuánime
que encierre en cárceles impunes pérfidos.

y los políticos de gesto tránsfuga,
los impertérritos, los siempre cómplices
caerán patéticos en lo espasmódico
cuando lo enérgico les corte el tránsito.

con lo poético del vals arrítmico,
que está en lo crítico de sus propósitos,
no pueden síncopes ni golpes fúnebres,
ni es por patíbulos que quede acéfalo.

ni es por trifásicas que olvide históricas
luchas titánicas por lo inalámbrico,
por lo que ubérrimo se alza eufórico
y anuncia próximos cambios históricos.

cuando el pobrísimo tome las cúpulas
y los famélicos tomen las áfricas
y los indígenas tierra amazónica
y los mecánicos tomen las fábricas
y los utópicos salgan del prólogo
y los daltónicos pinten lo nítido
y los chuequísimos bailen de júbilo

ya lo terrícola será libérrimo
cual ritmo cíclico de un canto esdrújulo.

(daniel viglietti, 1992)
participação especial: lyber bermúdez
theatro sete de abril
pelotas, rs

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#lula13
#américas 

domingo, 11 de outubro de 2026


o néscio 

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«vivemos em fascismos restritos e não em democracias liberais»

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«não, não se perde uma democracia, porque você não pode perder o que nunca teve».

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«há uma racionalidade por trás [do fascismo]. são pessoas que estão acreditando no seguinte: não tem mais sociedade para todo mundo».

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vladimir safatle
15 de abril de 2026

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o filósofo, que está lançando o livro «a ameaça interna – psicanálise dos novos fascismos globais», defende que o campo progressista precisa dar uma guinada à esquerda e pensar em novas propostas para combater bolsonaro, trump e milei.
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intercept brasil – você escreve que o fascismo é uma resposta realista às diversas crises do mundo: econômica, social, política, ecológica, psíquica, demográfica e por aí vai. como o capitalismo neoliberal, supostamente democrático, preparou o campo para que a resposta fascista fosse aceitável e realista?

safatle – primeiro, o capitalismo nunca foi democrático. acho que a gente tem um problema na nossa teoria do estado, que é não saber lidar com recortes geográficos, territoriais e de classe. é possível que um regime como o estado brasileiro seja um estado democrático de direito para alguns grupos e regiões, mas com certeza não o é para outros.

onde eu moro tem estado democrático de direito, a 10 quilômetros de distância não tem mais, porque não há garantia de integridade pessoal ou de que quem vai bater na sua porta às 5 horas da manhã é o leiteiro e não a polícia sem mandado [de busca e apreensão], que pode fazer você desaparecer.

a gente tem a ideia de que o liberalismo naturalmente funciona, na sua versão normal, com democracia representativa e livre iniciativa. ele funciona, na verdade, com colonialismo e fascismo em sua versão normal. ele sempre foi colonialista, e esse colonialismo prepara o fascismo.

você tem zonas das nossas sociedades onde impera o direito do massacre administrativo. foi o que vimos no ano passado, 117 pessoas mortas [122 no total, com cinco policiais mortos] na última batida policial no complexo do alemão [e da penha], pessoas que foram amontoadas como se fossem corpos quaisquer, no meio da rua. você não sabe a história dessas pessoas, a história das famílias. ninguém foi responsabilizado por nada. isso é democracia onde? por qual critério a gente pode chamar isso de democracia? não tem nenhum.

isso é o que prepara o fascismo: o fato de que a gente não vive em democracias liberais, a gente vive em fascismos restritos. em situações de crise, esses fascismos restritos se generalizam para toda a sociedade, e é o que a gente está vendo agora. então, não tem muito aquela ideia de «vamos tentar entender como é que se perde uma democracia». não, não se perde uma democracia, porque você não pode perder o que nunca teve.
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ponto. mesma linha.

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safatle já está acostumado a polemizar – a desassossegar. em 2024, por exemplo, escreveu um artigo no qual decretava a morte da esquerda por falta de radicalismo e conexão popular. qual a reação? viu-se uma corrida às redes sociais e às páginas da grande mídia para fazer articulação institucional e disputar a narrativa. ou seja, trocou-se o «ir para as ruas» pela autojustificação. isto é, optou-se por preservar uma boa imagem institucional sem enfrentar a mudança que se exige. 
alguns, como se sabe, acharam por bem responder ao artigo de vladimir safatle. a eles, o sociólogo respondeu: «em uma época em que até armínio fraga se diz de esquerda, o melhor a fazer é dizer que ela morreu, para poder salvá-la.» 
mas quem confunde indignação e provocação com prostração e niilismo jamais vai entender que é preciso morrer para crescer e dar fruto.
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«digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. mas se morrer, dará muito fruto».

joão 12:24
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uma coisa só mais: «essa luta contra as "ideias abstratas" era, na verdade, um tema conservador. lembrem, por exemplo, de edmund burke a discursar contra as «ideias abstratas» de igualdade vindas da cabeça de filósofos ociosos que acabaram por criar caos revolucionário no mundo do final do século xviii e começo do xix. ou seja, a história demonstra, e isto os conservadores sabem muito bem, que «abstrações» tem muito mais força do que alguns estão dispostos a acreditar. seria melhor que os setores progressistas da sociedade brasileira parassem de mimetizar o anti-intelectualismo dos conservadores.

mas isso quem diz é vladimir safatle

eu apenas assino embaixo
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bem, saiamos das abstrações, falemos de eleições.

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intercept brasil - entre 2019 e 2022, com jair bolsonaro no poder, o brasil ficou mais perto do fascismo generalizado, e isso ficou especialmente claro na pandemia, com o descaso de bolsonaro e a aproximação dessas características estruturais do fascismo que você menciona, a indiferença e a dessensibilização. nessas eleições, não é jair quem é o candidato, mas seu filho flávio. dá para dizer que ele segue a mesma cartilha, que também é um candidato fascista?

safatle – claro, com certeza. o fascismo é um processo que paulatinamente vai degradando as instituições. você acorda numa situação onde ações que imaginava impensáveis são cotidianas. a pandemia demonstrou muito claramente essa lógica: a indiferença é o elemento desagregador fundamental. é você olhar uma família inteira morrendo do seu lado e pensar: “isso é normal”. o que tem que acontecer com a sociedade para que um processo como esse seja naturalizado?

esse é um projeto que vai se impor no brasil durante muito tempo, porque existem forças econômicas muito dependentes dessa brutalização social. por outro lado, há uma racionalidade por trás disso. são pessoas que estão acreditando no seguinte: não tem mais sociedade para todo mundo. as crises que estão aí vieram para ficar: crise ecológica, econômica, social, política.

nessas circunstâncias, não faz sentido esperar um corpo social solidário e totalmente includente. é mais racional você falar: «olha, não tem espaço para todo mundo. a questão é quem vai ser preservado e quem não vai ser, e eu quero estar no primeiro grupo, não no segundo. se tiver que empurrar outras pessoas para que sobre espaço para mim, eu vou».

não é necessário nenhum argumento psicológico para entender essa lógica. sou contrário a essa psicologização do campo político de maneira tão selvagem. acho que é importante entender o cálculo racional por trás. ele é dramático, mas é racional. então, ele pede um outro tipo de resposta, não uma patologização geral dos comportamentos políticos.
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saiamos das eleições, voltemos à esquerda.

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para a esquerda, morrer é só o começo

por vladimir safatle

primeiro, alguns creem ser sintoma de melancolia e «desabafo» falar em morte da esquerda nacional. até mesmo ironias a respeito do fato de eu ter anteriormente insistido no esgotamento de outros processos históricos, como a nova república e os acordos imanentes à democracia liberal foram levantados como marcas de uma fixação necrofílica.

lembraria que clinicamente «melancolia» é exatamente a incapacidade de se liberar da fixação a objetos perdidos, não a decisão de se recusar a carregar o que está morto. por mais que alguns se comprazem com as máscaras da euforia, há mais melancolia neste entusiasmo do que poderia aparentar. é, na verdade, sintoma de melancolia não encarar as derrotas quando elas ocorrem, não querer ir até o fundo das derrotas a fim de compreender sua real extensão. contra essa leitura, há de se lembrar que, em uma vida, morre-se várias vezes. um dos piores erros é acreditar que só se morre no fim. morre-se várias vezes e esta é, muitas vezes, a condição de realmente continuar e se transformar.

nesse sentido, afirmar que a esquerda nacional morreu não é expressão alguma de prazer infantil de contenda. antes, é fruto da compreensão de que a sobrevivência da esquerda nacional depende do reconhecimento de sua morte. dizer claramente «nós morremos» é a primeira condição para nos livrarmos do que nos matou. quem se recusa a pensar dialeticamente nessas circunstâncias desconhece a dinâmica de processos históricos. e nossa morte não foi apenas um acidente externo, ela tem causas internas. o jogo do «estamos sendo atacados por fascistas, agora não é hora de assumir nossa auto-crítica» é suicida, é o verdadeiro suicídio. se o fascismo nacional voltou, se ele teve força para voltar, foi porque ele foi o primeiro a sentir o cheiro de nossa morte. de toda forma, em uma época em que até armínio fraga se diz de esquerda, o melhor a fazer é dizer que ela morreu, para poder salvá-la.
el país, 27 de fevereiro de 2020.

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esqueçamos a esquerda, salvemos a democracia.

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«quando digo que o estado é uma entidade criminosa contra sua população, que as instituições "democráticas" são uma farsa, uma fraude, uma simulação dominada por interesses econômico-financeiros que passa longe de ser uma democracia - onde o próprio estado viola sua "lei máxima", a constituição, o que se pode comprovar com a fome, o desabrigo, o analfabetismo, a ignorância, a desinformação, entre tantos outros exemplos de ilegalidades constitucionais cometidas pelas instituições - vem logo a pergunta "então qual é a solução? qual a saída?" eu respondo: sei lá. o que não dá é pra seguir acreditando em mentiras só porque não vejo verdades. perceber as mentiras não depende de saber as verdades. e não saber as verdades não é motivo pra me agarrar nas mentiras, nem inibidor pra percebê-las. que cobrança idiota.»
eduardo coutinho

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falando em idiota, lembrei de néscios.

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néscio

1. que ou aquele que é falho de instrução, de conhecimento ou de inteligência; demente, estúpido, ignorante.

2. que ou aquele que não possui competência; incapaz, inepto.

3. que ou o que é falto de sentido; absurdo.

4. que ou aquele que é imprudente.

5. que ou o que se recusa a pensar antes de agir.
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se eu não sei que não sei
penso que sei.
se eu não sei que sei
penso que não sei.

r. d. laing

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pensar eu penso
quem não pensa
digo isso pois pode alguém pensar
que eu penso que alguém pensa
que eu não penso
pensar eu penso
quem não pensa
tem quem pensa
que é inteligente
eu penso que
sou burro

grill

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revista bicicleta chile, 1994
— suas canções relataram muitas mudanças mas a nescedade longe de ser um defeito desprezível, norteou seu pensamento. quanto mudou silvio rodríguez, o homem, desde que escreveu «el necio»?

— um mundo em que aparentemente tudo tem preço (inclusive certa gente), entendo que se possa ver como «defeito desprezível» não tê-lo. precisamente nisso consiste a «nescedade» da minha canção.

— ainda continua sendo «néscio»?

— ainda desejo seguir jugando a lo perdido (insistindo em causas que o mundo considera fracassadas ou utópicas) e rezar a fundo um filho nosso.
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dicen que me arrastrarán por sobre rocas
cuando la revolución se venga abajo,
que machacarán mis manos y mi boca,
que me arrancarán los ojos y el badajo.
será que la necedad parió conmigo,
la necedad de lo que hoy resulta necio:
la necedad de asumir al enemigo,
la necedad de vivir sin tener precio.

👇

(silvio rodríguez, 1991)
legendado

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bom domingo

sábado, 10 de outubro de 2026


a página do relâmpago elétrico

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o início, o fim e o meio
(parafraseando josé, joão, raul e vandré)

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entre o céu e o valão

por josé falero
a maior frustração de minha infância foi não conseguir desfrutar plenamente da maldita motoca de plástico. motoca que, diga-se de passagem, nem sequer era minha: pertencia a minha irmã. tanto quanto me lembro, jamais funcionou bem. primeiro, era uma das rodas traseiras que estava emperrada. tratei de arrancá-la para tentar corrigir o problema e fui incapaz de devolvê-la ao lugar. depois, passadas algumas semanas de angústia, um primo mais velho veio em meu auxílio e tornou a fixá-la, com alicate e arame. não demorou muito e o guidom quebrou. por fim, um tio deu jeito no guidom, mas aí foi a vez da roda da frente de ficar emperrada. sempre havia algum problema.

com o passar dos anos, a motoca foi perdendo espaço em meu horizonte concreto. senti meu desejo de vê-la consertada minguar até o desaparecimento completo e contentei-me em brincar com ela no estado em que estava, o que acelerou sua destruição e, mais do que isso, a destruição de seu encanto. logo os restos mortais do brinquedo jaziam esquecidos em algum canto do pátio onde morávamos.

aparentemente, porém, nada disso impediu a motoca de seguir ocupando, no insondável de mim, um espaço simbólico importante. pois foi mais ou menos por essa época que passei a ter um sonho recorrente com ela.

fossem outras as circunstâncias, não seria incorreto afirmar que morávamos em um bom pátio: terreno amplo, com um belo riacho passando nos fundos: quem não se encantaria? ocorre, entretanto, que as circunstâncias eram elas mesmas, e não outras. na falta de saneamento, aquilo que realmente devia ter sido um belo riacho algum dia há muito que fora transformado em uma enorme vala de esgoto a céu aberto, cujas águas transportavam variados tipos de fezes para quem quisesse ver, espalhando mau cheiro pelo ar. de amplo, nosso pátio não tinha nada, porque eram quatro barracos espremidos ali, compondo um pequeno cortiço; quatro famílias inteiras compartilhando dimensões que seriam adequadas para apenas uma; dezesseis pessoas convivendo, utilizando o único banheiro disponível, se esbarrando aqui e ali, sem qualquer espaço para a mais diminuta privacidade. e tais insuficiências, já evidentes por si mesmas, eram ainda realçadas pelo contraste com o terreno vizinho, aos fundos: para além do valão nojento estendia-se uma chácara lindíssima; um espaço, esse sim, amplo de verdade, repleto de árvores que davam frutas e coberto de grama bem tratada; uma propriedade centenas e centenas de vezes maior do que nosso pátio; um terreno deveras gigantesco, onde espantosamente havia uma única casa, habitada por uma única família; um lugar onde às vezes avistavam-se triciclos infantis motorizados, em vez de motocas de plástico estragadas.

no sonho que passei a ter de tempos em tempos, a motoca de minha irmã achava-se milagrosamente consertada, e eu, montado nela, vinha a toda a velocidade, pedalando freneticamente, e saltava glorioso por cima do valão. mas, em vez de cair na chácara, seguia subindo, subindo, subindo, até que, com um frio permanente se instalando em minhas entranhas, dava-me conta de estar voando. e a chácara rapidamente perdia toda a importância, porque, de lá do céu, olhando cá para baixo por entre as nuvens, eu podia ver o mundo inteiro, e a visão me enchia da mais profunda alegria. logo, porém, era o desespero que tomava conta de mim, porque de uma hora para a outra eu começava a cair, cair, cair, precipitando-me cada vez mais rápido em direção ao solo, e não adiantava pedalar com força redobrada ou bater os braços como se fossem asas ou implorar pela ajuda de deus ou fazer qualquer outra coisa: nada impedia ou suavizava minha queda. por fim, acordava assustado, um segundo antes de me esborrachar no chão.

foi só bastante tempo depois, em algum momento da adolescência, que parei de ter esse sonho à noite, enquanto dormia, embora tenha passado a sonhar acordado com algo que, no fundo, deve ter significado semelhante: dignidade. passei a sonhar com dignidade. passei a sonhar com uma vida em que tudo, inclusive os brinquedos, funciona bem. passei a sonhar com saneamento, passei a sonhar com privacidade, passei a sonhar com liberdade, passei a sonhar com a alegria profunda. e muita gente que lê os meus textos até diz: «o céu é o limite pra ti, falero!». mas, respeitosamente, discordo dessas pessoas. discordo porque sei que, se eu for ao céu, fatalmente hei de cair e me esborrachar no chão. discordo porque me recuso a voar sozinho. discordo porque as nuvens ganham aspectos obscenos quando nem todos podem alcançá-las. discordo porque meu sonho não é realmente só meu: meu sonho pertence a uma nação inteira. discordo, discordo, discordo! não é o céu que é meu limite. meu limite é muito antes.

meu limite é o maldito valão, enquanto ele ainda estiver lá, degradando a vida de alguém.
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vente

vento
que contraventa
venta

vente

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escrevi sem saber escrever
ensinei sem saber ensinar
falei sem saber falar

fui até onde minhas pernas puderam me levar

fiz o que queria fazer
vivi sem medo de morrer
morri sem medo de viver

só me faltou voar

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a vida passa
tudo passa
menos o valão

o valão continua lá

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lule

lula
que contralula
lula

lule

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parafraseando john keats

«aqui jaz alguém cujo nome foi escrito entre o céu e o valão»

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para luiz inácio lula da silva
(parafraseando vandré)

entre o céu e o valão
(entre lula e flávio)
na terra como no céu
(no valão como no mar)

não viemos por teu pranto
nem viemos pra chorar
viemos ao teu encontro
e estamos no teu altar
por seguir nosso caminho
que é também teu caminhar
na força do teu carinho
esperamos nos salvar
na terra como no céu
no valão como no mar

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«eu choro de cara suja
meu papagaio o vento carregou
e lá se foi pra nunca mais
linha nova que pai comprou

dança maria, maria
lança seu corpo jovem pelo ar
ela já vem, ela virá
solidária nos ajudar»

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(paráfrase segunda)

veja
não diga que a eleição está perdida
tenha fé em lula, tenha fé na vida
tente outra vez

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a casa estava escura
o vento forte, a chuva desabou
a luz não vem, eu aqui estou
a rezar na escuridão e só

venho do vento da noite
na luz do novo dia cantarei
brilha o sol, brilha o luar
brilha a vida de quem dançar

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(a página do relâmpado elétrico, 1977)

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#lulaurgente
#bolsonaronuncamais

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

 

fábulas do mar
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«con lo poco que yo sé
antes de llegar a brasil sé que me perderé»

piero

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hoy tengo nublada la sonrisa
país de cielo, país de tiza
piden las paredes libertades
la calle espera, la gente sabe

es que hay un juramento y hay silencio
y hay un hombre, amor, que resucita
somos territorio de violencia
mi pueblo habla, mi pueblo grita

somos territorio de violencia
mi pueblo habla, mi pueblo grita
¡basta de muerte, basta, basta!
¡basta de morir, morir, morir!

que se vayan ellos
que se vayan ellos
los que no dejaron
nacer y vivir

que se vayan ellos
que se vayan ellos
los que encarcelaron
los que torturaron
los que te mataron

que se vayan ellos
que se vayan ellos
los que te prohibieron
gritar ¡libertad!

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piero, 1973

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buenos aires, julho de 1976:
longa viagem sem nos movermos
ritmo de pulmões da cidade que dorme. fora, faz frio. 
de repente, um barulho atravessa a janela fechada. você aperta as unhas em meu braço. não respiro. escutamos um barulho de golpes e palavrões e o longo uivo de uma voz humana. depois, silêncio.
— não peso muito? 
nó marinheiro.
formosuras e dormidezas, mais poderosas que o medo. 
quando entra o sol, pestanejo e espreguiço com quatro braços. ninguém sabe quem é o dono deste joelho, nem de quem é este cotovelo ou este pé, esta voz que murmurou bom-dia.
então o animal de duas cabeças pensa ou diz ou queria:
— para gente que acorda assim, não pode acontecer nada ruim. 
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para el pueblo lo que es del pueblo
porque el pueblo se lo ganó.
para el pueblo lo que es del pueblo;
para el pueblo liberación.

comer bien era muy raro; comer poco era normal.
comer era subversivo para el señor militar.
eran actos de violencia, la alegría popular;
«el pueblo tiene paciencia» dijo un señor general.

estudiar era pecado; clandestino era saber,
porque cuando el pueblo sabe, no le engaña un brigadier.
prohibiremos la esperanza y prohibido está nacer.
«¿no será mucho, almirante?» «faltaba más, coronel.»

y al país lo remataron, y lo remataron mal.
lo partieron en pedazos, ahora hay que volverlo a armar.
y ahora el pueblo está en la calle a cuidar y a defender.
esta patria que ganamos liberada debe ser.

pra el pueblo lo que es del pueblo
porque el pueblo se lo ganó.
para el pueblo lo que es del pueblo;
para el pueblo liberación.

liberación, liberación, liberación.

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(piero, 1973)
microestadio de atlanta
en vivo
inédito

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buenos aires, julho de 1976:
quando as palavras não podem ser mais dignas que o silêncio, mais vale ficar calado

1
somos obrigados a entregar, na casa rosada, as provas das páginas da revista, vindas da gráfica.
— isto, não. nem isto — nos dizem.
a última reunião com os militares foi assim:
tínhamos ido vicente e eu. 
depois de discutir durante uma hora sobre o material da revista, falamos de haroldo conti. 
— ele é um redator de crisis — dissemos — e foi sequestrado. não se sabe nada. os senhores nos dizem que ele não está preso e que o governo não tem nada com este assunto. por que não nos deixam publicar a notícia? a proibição pode se prestar a interpretações torcidas. os senhores sabem que no exterior há pessoas que pensam mal, pessoas mal-intencionada que...
— vocês têm alguma queixa contra nós? — perguntou-nos o capitão. — foram tratados sempre com correção. recebemos vocês, os escutamos. para isso estamos aqui e esta é a nossa função no governo. mas lhes advertimos: este país está em guerra, e se nós nos encontrássemos em outro terreno, o tratamento seria bem diferente.
toquei o joelho em meu companheiro.
— vamos, vicente, está ficando tarde — disse.
caminhamos, devagar, pela plaza de mayo.
no meio da praça ficamos parados um longo tempo sem nos olharmos. havia um céu limpo e um ruído de gente e pombas. o sol arrancava brilhos nas cúpulas de cobre esverdeadas.
não falamos nada.
entramos em um café, para tomar alguma coisa, e nenhum dos dois se animava a dizer:
— isso significa que haroldo está morto, não é?
de medo que o outro dissesse:
— sim.
2
a revista não dá mais.
de manhã. reúno os companheiros e falo com eles. quero mostrar-me firme e dizer esperanças, mas a tristeza escapa por meus poros. explico que nem fico, nem vicente nem eu tomamos a decisão: que as circunstâncias decidem. não aceitamos a humilhação como epílogo da linda aventura que nos reuniu durante mais de três anos. crisis não seria agachada por ninguém: vamos enterrá-la em pé; como viveu.
3
esvazio as gvetas da escrivaninha, repletas de papéis e cartas. releio, ao azar, palavras de mulheres que amei e de homens que foram meus irmãos. acaricio com o dedoo telefone que me transmitiu vozes amigas e ameaças.
caiu a noite. os companheiros partiram há um par de hora e de meses. os escuto, os vejo; seus passos e suas vozes, a luz que cada um irradia e a fumacinha que deixa quando vai embora.
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eduardo galeano | dias e noites de amor e de guerra, p. 178 - 181

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me estoy muriendo de frío.
tengo la bronca en la voz
porque a esta puerta del río
le apuñalaron el sol,
porque a esta puerta del río
le apuñalaron el sol.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

argentina tiene un nombre
desde el mar hasta la sierra.
cómo le cuento a mi gente
lo que pasa en esta tierra
pero cómo le cuento a mi gente
lo que pasa en esta tierra.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

no soy de muchas palabras.
hay muy poco que contar.
las cosas se cuentan solas.
sólo hay que saber mirar.
las cosas se cuentan solas.
sólo hay que saber mirar.

y después cuando yo canto
que me lo llaman protesta.
cómo contar lo que pasa
con mi gente y su pobreza.
pero cómo contar lo que pasa
con mi gente y su pobreza.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país de nubes,
lleno de humo y alcohol.
cómo le canto a mi gente
lo que yo pienso con vos,
pero cómo le canto a mi gente
lo que yo pienso de vos.

que a mi patria la fundaron
a golpes y cachetazos.
cuántas voces se callaron
a machete y a balazos.
pero cuántas voces se callaron
a machete y a balazos.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! hermanita perdida,
cómo te quiero abrazar.
pero sin guerra ni balas.
ni muertos para llorar.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

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(piero, 1972)
1982 b.a. rock 

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de volta ao começo

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«siempre habrá tiempo para volver
y cuántas naves, cuántas velas seguiré
por cada fábula de mar que aún no sé.»

piero

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em 3 de outubro de 2016, logo após o resultado das eleições municipais para a escolha de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, escrevi o texto abaixo, entre colchetes:

[que o anti-petismo, que a globo, que o tio sam, que a fiesp, que o mundo está contra nós... é verdade, está mesmo, sempre esteve e sempre estará. mesmo assim, conseguimos avançar: tiramos milhões de brasileiros da miséria, proporcionamos moradia e melhores condições de vida a outros tantos. e foi por isso, ou muito por isso, que nos deram um golpe e nos derrubaram.

tudo isso eu sei.

mas sei também que fracassamos em tantas e muitas outras coisas. cometemos alguns erros graves e outros (quase) imperdoáveis. abrimos a guarda e nos perdemos no caminho. com isso, deixamos o campo aberto e deu no que deu.

sinto muito, mas é assim que penso.

aliás, eu sou assim... quando penso em apontar o dedo para os outros, lembro sempre de apontá-lo antes para mim.

perdón, es mi manera de ser
si alguna gente no entiende qué le voy a hacer.]
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con lo poco que yo sé
antes de llegar a brasil sé que me perderé,
pero no importa, es mi manera de ser,
si alguna gente no entiende qué le voy a hacer.

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(piero, 1976)

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#nuncamais