quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

milonga de andar longe

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adote um banqueirinho!

no ano de 2008, a bolsa de nova york foi a pique.

dias histéricos, dias históricos: os banqueiros, que são os mais perigosos assaltantes de bancos, haviam despojado suas empresas, embora jamais tenham sido filmados pelas câmaras de vigilância e nenhum alarme tenha disparado. e não houve maneira de evitar a derrocada geral. o mundo inteiro desmoronou, e até a lua teve medo de perder o emprego e se ver forçada a procurar outro céu.

os magos de wall street, especialistas em vender castelos no ar, roubaram milhões de casas e de empregos, mas um único banqueiro foi preso. e quando imploraram aos berros uma ajudinha pelo amor de deus, receberam, pelo mérito de seu labor, a maior recompensa jamais concedida na história humana. essa dinheirama teria bastado para alimentar todos os famintos do mundo, com sobremesa e tudo, daqui até a eternidade. ninguém pensou nisso.

eduardo galeano | os filhos dos dias (um calendário histórico sobre a humanidade), página 295


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[de: os dias de galeano]
canal encuentro 

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«muito faz o dinheiro, muito se há de amar;
do tolo faz discreto, homem de respeitar,
faz o coxo correr e ao mudo faz falar;
e o que não tem mãos bem o quer pegar.

também ao homem tolo e rude lavrador
dinheiros o convertem em fidalgo doutor;
quanto mais rico alguém é, maior é seu valor,
e quem não tem dinheiro não é de si senhor.

e se tens o dinheiro terás consolação,
prazeres e alegrias e do papa a concessão,
comprarás o paraíso, terás a salvação:
onde há muito dinheiro reina a «bendição».

em resumo o digo, para que entendas melhor:
o dinheiro é do mundo o grande motor,
faz do servo senhor e e servo do senhor
e tudo quanto existe se faz por seu amor.»

acipreste de hita
[de: o livro do bom amor,
também conhecido como livro de arcipreste ou livro dos cantares
primeira metade do século xiv]

•••••••••••••• paco ibáñez musicou este fragmento do livro do bom amor

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canta: paco ibánez
[con letra]

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«e tudo quanto existe se faz por seu amor.»
tudo não digo
tem duas coisa na vida
que não têm preço
uma, o amor
(o amor de verdade)
a outra é a solidariedade

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no final de 2008, depois de um ano em são luís, voltei para pelotas. quando cheguei, não tinha onde morar. com poucos dias na cidade, tive a sorte de cruzar com roger peres, um velho amigo da rádiocom. foi num domingo pela manhã. lembro como se fosse hoje.
  
 – bah, cara, quanto tempo... por onde tu anda? o que tu anda fazendo?
 – tô de volta... andei por são luís e tô atrás de uma casa pra morar.
 – tenho uma casa a meia quadra da avenida... o glenio tá morando nela, mas quer sair... preciso de alguém para ocupar o espaço.

(um pequeno grande parêntese:
na época, eu estava desempregado.
sempre tive ajuda da família, mas meu histórico recente não me ajudava muito.
todos achavam que minha volta era mais uma aventura, um devaneio...
e a casa — pra ser habitada por um casal cheio de planos e de sonhos — necessitava, digamos assim, de algumas pequenas reformas.
foi então que bati na porta do cfc senna e pedi mais uma chance.
a vida é engraçada: leva-se dez anos para construir uma imagem e menos de um para destruí-la.
meus últimos meses no cfc senna foram vergonhosos e deprimentes.
portanto, quando bati na porta, tinha tudo pra ouvir um não.
mas ouvi um sim.)

poucos meses depois.

– e aí, grill? o que tu anda fazendo?
– voltei a trabalhar no cfc.
– cara, esse ano o sindicato tá completando 80 anos...

foi assim que criamos — junto com a maria bonita comunicação — o documentário dos 80 anos do sindicato dos bancários de pelotas.

de tudo que já fiz, foi uma das coisas que mais me deu orgulho de realizar.

(o registro desse trabalho tá no link abaixo)

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roteiro, texto, trilha sonora e voz: enilton grill
imagens, entrevistas, concepção e direção: maria bonita comunicação
realização: ima / sindicato dos bancários

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segundo ouvi falar
o sindicato seguiu por outro caminho
não sei..
eu sigo no meu

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que longe está minha terra
e, no entanto, que perto
ou será que existe um território
onde os sangues se misturam

tanta distância e caminho
tão diferentes bandeiras
e a pobreza é a mesma
os mesmos homens esperam

eu quero romper meu mapa
formar o mapa de todos
mestiços, negros e brancos
traçá-lo ombro com ombro

os rios são como veias
de um corpo inteiro estendido
e é a cor da terra
o sangue dos caídos

não somos os estrangeiros
os estrangeiros são outros
são eles os mercadores
e os escravos nós outros 

eu quero romper a vida
como quisera mudá-la
ajude-me  companheiro
ajude-me não demore
que uma gota sendo pouco
com outra faz aguaceiro

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preguntas al azar (1) / milonga de andar lejos
daniel viglietti · mario benedetti
a dos voces

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«a bola que lancei quando brincava no parque ainda não tocou o chão.»

dylan thomas

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água de torneira

um dia, quando ainda era pequeno e brincava no chão de casa, a minha mãe se agachou na minha frente, colocou a sua mão em meu rosto e disse:

«meu filho, você vai passar por muitas coisas nessa vida, vai passar por momentos de tristeza e de desespero, mas vai sobreviver a todos eles, você vai ter momentos de muita alegria também e vai saber apreciá-los.

você vai carregar consigo algumas coisas que vai amar como poucas outras coisas, e, acredite, isso poderá ajudar algumas pessoas, até mesmo salvá-las de alguma forma.

mas sabe o que me preocupa?

meu receio é que não consiga salvar a si mesmo.

você vai viver no seu mundo, e, às vezes, ele vai pesar muito.»

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o diabo foi ao mar
escrever a história do mundo
mas não havia água
deus a tinha bebido

juan comodoro
buscando água, encontrou petróleo
mas morreu de sede

eu não sei quem vai mais longe
a montanha ou o caranguejo

pobrezinho meu patrão
pensa que o pobre sou eu

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[letra na descrição do vídeo]

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em março de 2020, passamos por circunstâncias complicadas no repecho, a seca castigou o rio grande do sul e a dificuldade para conseguir água foi imensa. o maior problema nem foi conseguir água potável, pois trazíamos do supermercado. o maior problema foi conseguir água para manter o aviário, um aviário com cerca de 100 galinhas, que recém tínhamos levantado. no início, eu subia o repecho e trazia água do poço. até que o poço secou. a solução, então, foi atravessar a estrada e trazer água do arroio. as galinhas começaram a morrer. a água era contaminada. quase perdemos tudo. ficamos com medo. mas agimos rápido e salvamos o aviário. diria o «filósofo»: «coragem não é ausência de medo; coragem é a capacidade de enfrentar o medo». 

em outras palavras: na beira do caminho sempre haverá cadeiras que nos convidem a parar. parar é fácil, difícil é continuar. 

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eu sou apenas um rapaz latino-americano
sem dinheiro no banco sem parentes importantes
e vindo do interior

mas trago de cabeça uma canção do rádio
em que um antigo compositor baiano me dizia
tudo é divino tudo é maravilhoso 

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[do álbum alucinação]
vídeo original

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em junho de 2026, com cinco cachorros. duas gatas e uma hérnia de disco, separado da vivi, voltei a morar na cidade. depois de procurar por parentes importantes, encontrei no amigo de longa data a solução para um problema que já há muito me acompanhava e que, em vez de diminuir, só aumentava. 

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quem tiver uma canção terá tempestade
quem tiver companhia, solidão
quem seguir o bom caminho terá cadeiras
perigosas que o convidam a parar
mas vale a canção a tempestade
e a companhia vale a solidão
vale sempre a agonia da pressa
mesmo que de cadeiras se encha a verdade

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[letra na descrição do vídeo]

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e as fotos e os cartazes?

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ainda em 2009, entrei em contato com daniel viglietti e realizamos, na bibliotheca pública pelotense, um tributo a mario benedetti. o lendário poeta uruguaio recém havia falecido. vivi trabalhava de secretária em um consultório médico, e eu andava pelas ruas de satolep, divulgando o evento. naquela época, já havia internet e redes sociais, mas eu, burro velho, ainda não havia me rendido aos seus encantos. a divulgação, portanto, foi feita através de jornais, rádio e pequenos panfletos distribuídos de mão em mão. panfletar, aliás, foi coisa que muito fiz na vida. o panfleto, pra quem não sabe, já foi uma das principais armas dos políticos. neste caso, porém, era para chamar atenção para um recital de música e poesia. nada melhor, então, que o pequeno papel contivesse um poema. e o poema foi escolhido a dedo. o trabalho de divulgação durou mais ou menos duas semanas. até que chegou o grande dia. depois de passar o dia divulgando o recital, fui buscar vivi no trabalho. o pôr do sol estava lindo aquele dia. quando cheguei, dei de cara com o patrão dela, dono da clínica e aproveitei para convidá-lo para o recital. eu já sabia que ele ia dizer não. mesmo assim, na tentativa de despertar nele algum interesse por poesia, recitei o poema que estava impresso no panfleto. com cara de quem não entendeu nada, ele olha pra mim e pergunta: -- de onde tu tira essas coisas, tchê?

o poema dizia

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e o céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos en la gente
e porque venceremos a derrota

grill

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cómo me cuesta afinar la guitarra,
organizar las seis cuerdas unidas
y de la lucha de sones contrarios
abrir camino cantando a la vida.

y tanto y tanto que hemos cantado,
y sin embargo poco, poco,
si se piensa el silencio que nos acecha.

bajo las cuerdas mi cuerpo desnudo,
vestido apenas de amor y preguntas.
no es el sonoro cantor de protestas,
es cuerpo en partes que nunca se juntan.

y tanto y tanto que hemos llorado,
y sin embargo poco, poco,
si se piensa en los muertos que nos dan vida.

contra el dolor, el olvido y el miedo
nuestra certeza porfiando en el alma;
quienes compartan la loca esperanza,
brújula o flecha de nuevo hacen falta.

y tanto y tanto que hemos luchado,
y sin embargo poco, poco,
si se miran los cuerpos que trae el río.

cuánto me cuesta esta nueva canción,
de la derrota crear primavera
en estas noches de ojos sin sueño,
en estos sueños de noches sin ojos
en que los buitres enormes abusan
de las parciales heridas del pueblo.

vamos haciendo la nueva canción,
de la derrota crear primavera.

y tanto y tanto que hemos perdido,
y sin embargo poco, poco,
y sin embargo mucho, mucho,
si se miran los ojos de un hombre digno.

vamos haciendo la nueva canción,
de la derrota crear primavera.
vamos haciendo la nueva canción,
crear primavera.

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daniel viglietti · mario benedetti
a dos voces
℗ 2000 ediciones tacuabe srl

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 25 de agosto de 2026


levantado do chão

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terras raras

[por cesar benjamim] 

há pouco tempo, lula e trump encontraram-se pessoalmente durante três horas, acompanhados apenas pelo intérprete. lula disse que trataram de tarifas.

era mentira.

agora, falaram por telefone durante uma hora e meia. lula voltou a dizer que trataram de tarifas.

é mentira.

dado o volume e a composição do comércio bilateral entre brasil e estados unidos, não há tanto a tratar desse assunto por dois presidentes. é algo menor. as equipes técnicas existem para isso.

outro assunto é decisivo: o destino das terras raras brasileiras.

os estados unidos dependem da china para obter esses minerais estratégicos, sem os quais não se fabricam equipamentos eletrônicos de uso civil e militar. o brasil detém as segundas reservas do mundo, praticamente inexploradas.

lula quer nos fazer crer que os dois presidentes se encontram e se falam e não tratam disso.

está nos chamando de trouxas, parece que com razão. no século xxi, as terras raras têm a mesma importância que o petróleo teve no século xx.

* * *

flávio bolsonaro oferece aos estados unidos uma vassalagem total e explícita. se puder, transformará o brasil na 52a estrela da bandeira americana.

lula oferece uma vassalagem ambígua. tudo em lula é ambíguo, pois sempre há um abismo entre o que diz e o que faz.

o império prefere a primeira opção, mas pode se ajustar perfeitamente à segunda.

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«diga ao seu patrão que estão aqui umas pessoas que vêm saber o que é que ele faz, já caíram as primeiras águas, é tempo de semear, e tendo a criada ido saber a resposta ficamos na porta, que a nós não nos mandam entrar e nisto volta a criada, e diz, o patrão manda dizer que não têm nada com isso, a terra é dele, e se voltarem aqui ele vai chamar a polícia»

josé saramago | levantado do chão, p. 234

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chame o ladrão
chame o ladrão

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[do álbum: sinal fechado]

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falando em brasil

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antonio – o senhor mandou me chamar, doutor rocha?

dr. rocha – mandei, antonio. infelizmente, devido à crise do mercado, muito a contragosto, terei de demiti-lo.

antonio – doutor rocha, eu estou no meio de um trabalho. será que não poderíamos conversar sobre isso na hora do almoço?

dr. rocha – é claro que podemos, mas infelizmente nada do que você disser poderá modificar a situação.

(na hora do almoço, antonio estava novamente na frente do dr. rocha.)

antonio – doutor rocha, como trabalho aqui há mais de oito anos, tenho mais de 50...

dr. rocha – você não é o único, antonio, a situação está ruim para todos.

antonio – o senhor não entendeu, doutor rocha. quis dizer que pelos anos de dedicação à firma, achava que tinha direito a lhe fazer algumas perguntas.

dr. rocha – pois faça-as.

antonio – o senhor gosta de coisas singelas como flores, pássaros, o orvalho nas plantas, riso de crianças pequenas? 

(antes que o patrão pudesse responder, antonio continuou) 

gosta de fazer amor com uma bela mulher, de cavalos correndo no prado, de ver o nascer do sol, de olhar para as estrelas?

dr. rocha – claro que gosto, antonio, só não estou entendendo...

antonio – só mais uma pergunta.

dr. rocha – está bem, mas seja breve, pois tenho uma reunião de diretoria e ainda preciso examinar alguns papéis.

antonio – o senhor acredita em deus, doutor rocha?

dr. rocha – claro que acredito.

antonio – pois está na frente dele.

dr. rocha – você enlouqueceu, antonio?

antonio – não enlouqueci, não. até duas horas atrás eu não era deus. era apenas antonio pinto, contador, casado, mulher e quatro filhos, um deles autista, com dívidas para pagar e muito medo de perder o emprego, pois dificilmente encontraria outro depois dos 50 anos. aí, quando saí do seu escritório, fui até em casa, peguei este revólver e me transformei em deus. 

(neste momento, antonio tirou do bolso um smith&wesson calibre 38 e apontou-o para a testa do dr. rocha)

o senhor é um dos homens mais ricos de são paulo, tem mulher, amantes, viaja várias vezes ao ano à europa, uma vida muito boa. já a minha é triste e monótona. lembra-se daquela história de estrelas, nascer do sol, flores e pássaros? 

(o dr. rocha, mudo de terror, olha para o revólver)

será que vale a pena perder a sua vida para me desempregar? pense bem, se eu morrer, não perco nada. se o senhor morrer, perde tudo. e quem vai decidir isso sou eu, pois virei deus. 

(o doutor rocha ajoelha-se diante de antonio)

dr. rocha – não faça uma loucura dessas, seu antonio. diga o que o senhor quer que terei o maior prazer em atendê-lo, o que quiser. por favor, tenha piedade. diga o que quer!

antonio – gostaria de deixar de ser deus e voltar a ser o seu escravo. que tal? posso?

fausto wolff

(publicado no livro “a milésima segunda noite”, 2005)

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como na peça de ionesco, tornamo-nos uma nação de rinocerontes exatamente porque não temos coragem de nos reconhecer como rinocerontes. no brasil encenam uma realidade para encobrir a verdade, e a verdade está na nossa bandeira. o verde representa os que vivem com menos de dez reais por mês; o amarelo, os que vivem com menos de cem; o azul, os que vivem com menos de mil. e os pontos brancos são os tiranos que, sendo tão poucos, nos esmagam com tanta facilidade. 

o país tem solução? tem e precisa ser drástica. se não quisermos que, pela dor da fome, o povo desça e o resto dance. 

(idem)

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para todos e para ninguém

não ignoro bolsonaro e o «nazifascismo» — muito pelo contrário. lembro apenas que, para fiéis seguidores de lula, o nazifascismo muda de rosto a cada quatro anos. em 2002, por exemplo, era josé serra. naquele ano, lula fez um movimento semelhante ao da escolha de alckmin como vice: convidou para ser seu companheiro de chapa o megaempresário mineiro josé alencar (pl), que chegou a ser vaiado pela militância petista. a escolha do vice não foi o único movimento rumo ao centro político — ficou famosa a «carta ao povo brasileiro». em 2006, o «nazifascismo» atendia pelo nome de neoliberalismo, e o bolsonaro da vez era geraldo alckmin. em 2010, serra; e em 2014, aécio. e do final desse filme, tenho certeza de que todos nos lembramos. 

grill 

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a certeza já me corrói
levo bronca do patrão
mas, sonhei e fiz a fé no avestruz
que vai me dar uma luz...

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[moleque gonzaguinha]

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falando em avestruz

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falam muito mal das avestruzes, injustamente. seus detratores, movidos por motivos inconfessáveis, declaram que aquelas aves são de estupidez sem paralelo. dizem que elas, ao se defrontar com um leão, enterram suas cabeças na areia. se assim elas se comportam, é porque devem ser adeptas de uma antiga filosofia que afirmava que «ser é perceber». raciocinam as avestruzes: se não percebo o perigo, o perigo não existe para mim. (traduzido popularmente: «aquilo que os olhos não veem o coração não sente».) continua o pensamento das avestruzes: «posso, assim, me comportar como se ele não existisse, desde que continue com a cabeça enterrada na areia». tudo estaria bem se o leão não fosse de verdade. e o resultado é que a avestruz acaba na barriga do leão... mas, como disse antes, eu não acredito que as avestruzes sejam assim tão estúpidas. estupidez igual somente encontrei em exemplares da espécie homo sapiens, a que pertencemos. acham que, não percebendo, a coisa não existe. o leão existe mesmo quando fechamos os olhos...

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 54

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falando em fechar os olhos

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quem não tem colírio
usa óculos escuros
a formiga só trabalha
porque não sabe cantar

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[com letra e ilustração]

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lançada em 1974, «como vovó já dizia» foi a primeira canção de raul a incomodar a censura --- teve dois versos considerados subversivos substituídos: «quem não tem papel dá recado pelo muro» e «quem não tem presente se conforma com o futuro», trocados por «quem não tem filé come pão com osso duro» e «quem não tem visão bate a cara contra o muro».

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falando em muro...

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paulo césar pinheiro, um dos maiores letristas da música popular brasileira — infelizmente, um ilustre desconhecido dos brasileiros em geral —, propôs a maurício tapajós que compusessem uma canção sem rodeios e metáforas. foi assim que nasceu «pesadelo». 

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quando o muro separa, uma ponte une
se a vingança encara, o remorso pune
você vem me agarra, alguém vem me solta
você vai na marra, ela um dia volta

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do álbum: «o importante é que nossa emoção sobreviva nº 2»
márcia, eduardo gudim e paulo césar pinheiro
gravado ao vivo no teatro ginástico - rio de janeiro, em fevereiro de 1976

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antes do fim

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é preciso que a justiça e a igualdade
sejam mais que palavras de ocasião
é preciso um novo tempo
em que não seja só promessa repartir a terra e o pão

link

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poema: martim césar 
música: pedro munhoz
do cd 1º festival nacional da reforma agrária

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enfim, há quem passe o dia na internet e faça dos blogs pessoais e das redes sociais trincheira contra tudo e contra todos, e por causa disso seja criticado, desvalorizado e menosprezado. não é o meu caso. eu, particularmente, não critico nada nem ninguém — muito pelo contrário: as armas são muitas e cada um escolhe e utiliza aquelas com as quais pensa obter melhores resultados. já participei de reuniões presenciais e de manifestações de rua; hoje em dia escrevo só para os raros, só para os loucos, e não vejo diferença nenhuma entre uma arma e outra... com qualquer delas me sinto desarmado e derrotado. 

trocando em miúdos: nosso discurso é velho e ultrapassado; nossa forma de atuar e de lutar não diz mais nada, nem a nós nem a ninguém. na minha opinião, é preciso passar o bastão — estamos desgastados e desacreditados. o problema é passá-lo para quem... não vejo nada nem ninguém. 

não nego
posso estar enganado
meu tempo passou
estou velho e superado
mas vou assim
até o fim
quanto mais velho
mais cego

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é a ceguêra de dexá
um dia de sê pião
num dançá mais amarrado 
pru pescoço cum cordão

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canta: dércio marques
[«pinhão» é uma variante dialetal e regional para a palavra «peão»]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

el tiempo, el implacable, el que pasó 

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o peso dos dias não é o mesmo peso
da pedra

a pedra, pelo menos,
tem a decência de ficar no chão

o dia não
o dia sobe nas costas
e ainda pergunta
por que eu ando empenada

tenho dívidas que não cabem em papel
cobranças sem cobrador
promessas que eu nunca fiz
e mesmo assim me seguem
que nem cachorro atrás de carteiro

tem uma conta antiga
morando no peito

não sei quem fez
não sei quando venceu
só sei que todo dia
acorda primeiro que eu

e eu pago

pago com insônia
pago com silêncio
pago com aquele pedaço de alegria
que eu estava guardando pra depois

afeto também pesa

quem ama, carrega

carrega o retrato de quem foi
o nome de quem ficou
a voz de quem não disse nada
o rosto de quem disse demais

carrega até o que queria esquecer
e por injustiça ou desatino
é justamente o que mais pesa

meu coração é um jumento teimoso

bota o mundo em cima
e ele vai

mais uma saudade
ele vai

mais uma dívida
mais uma decepção
mais uma esperança besta
e ele dá aquele passinho miúdo
na estrada quente

até que um dia para

fica ali
com a carga nas costas
o sol no lombo
a poeira subindo pelas canelas

a dívida vencida
a estrada comprida
e o mundo não tira nada de cima dele

ele para
levanta a cabeça
o céu não ajuda
mas está lá

ele olha pra cima
como se fosse reclamar

mas desiste

vai que deus
também está devendo.

simone bacelar

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juventud, divino tesoro
decía mi viejo
y uno pensaba que los años 
no iban a pasar

grill

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«ontem, passava pela galeria zaballeta e cruzei com um cara que não via há uns 33 anos. era um inimigo mortal que eu tinha no colégio. éramos iguais a cão e gato, bastava um encontro e a briga comia. claro, uma briga de merda, devíamos ter uns 9 ou 10 anos. acho que deve estar morando em outra cidade, mas o curioso de tudo, é que ele vinha com duas crianças pequenas e quando me enxergou fez uma cara de surpresa e espanto. demorei para conhecê-lo, mas por incrível que pareça, demos uma balançada de cabeça meio tímida e cada um seguiu seu caminho, talvez para nunca mais acontecer algum encontro ou conversa. conto isso, pois o tempo acaba dando entendimento para tudo. não sei o que ele passou nesse tempo, ele também não sabe o que passei, mas ambos talvez saibamos que a vida é dura, corrida, com perdas e ganhos. sabemos que o tempo é implacável, pessoas que amamos nascem, pessoas que amamos vão, e o mundo segue correndo não dando a mínima pra ti.»

luciano oxley

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juventud, divino tesoro,
¡ya te vas para no volver!
cuando quiero llorar, no lloro...
y a veces lloro sin querer.

en vano busqué a la princesa
que estaba triste de esperar.
la vida es dura. amarga y pesa.
¡ya no hay princesa que cantar!

a pesar del tiempo terco,
mi sed de amor no tiene fin;
cabello gris, así me acerco
a los rosales del jardín...

link

👇

canta: paco ibáñez

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médicos

dia desses, ao ler um texto meu, um amigo que não vejo (pessoalmente) há uns 43 anos, deu um telefonema para um amigo seu, o amigo deu um telefonema para não sei quem, não sei quem orientou um caminho, meu amigo falou comigo de novo, pediu que eu falasse com o amigo dele, eu falei, o amigo dele me indicou o caminho certo, esperei na fila como todo mundo espera, marquei uma hora, e agora vou resolver um problema que me incomoda e muito desde que voltei para a cidade. detalhe: a vida, tanto para o meu amigo quanto para o amigo dele, é pra lá de corrida. ambos são médicos e pessoas muito bem-sucedidas na profissão que exercem. nenhum deles é da minha família — que, por sinal, está cheia de médicos.

grill

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en este breve ciclo en que pasamos
cada paso se da porque se siente.
al hacer un recuento ya nos vamos
y la vida pasó sin darnos cuenta.

cada paso anterior deja una huella
que lejos de borrarse se incorpora
a tu saco tan lleno de recuerdos
que cuando menos se imagina afloran.

link

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canta: mercedes sosa

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foto: mercedes sosa e eu
autor: antonio soler
cantamérica
porto alegre
1996

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#américas 

domingo, 23 de agosto de 2026

 

casa das putas 

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stefanie

«era uma mulher muito bonita dedicada à prostituição — a profissão mais antiga do mundo, segundo dizem — porque queria voltar ao seu país para se casar. ela não tinha a menor ideia do que era a luta de classes, e era justamente ali que ganhava a vida. tampouco tinha noção da sociedade à qual pertencia — a mesma sociedade que a havia rejeitado e expulsado.

com essa mulher eu estive conversando uma noite, em uma boate de são paulo. por razões do seu ofício, ela gostaria de ter tido comigo um trato profissional. dessa conversa me ficou gravada uma afirmação sua ("não há dor mais atroz do que ser feliz"), que se tornou justamente o primeiro verso e o ponto de partida da canção.»

alfredo zitarrosa

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eu cresci na 28, em meio às putas

por elaine tavares

meu avô abrigava nossa família em um bar/armazém que também servia de abrigo para os visitantes da famosa «casa das putas» vizinha. aos três ou quatro anos, eu picotava salaminho no longo balcão de pedra onde se debruçavam os que caçavam amores fortuitos.

a «casa das putas» ficava colada à casa do vô, e circulávamos entre as mulheres que tomavam sol, penteavam os cabelos ou raspavam as pernas, sem qualquer preconceito por parte da família. havia cheiro de rosas, de lavanda, de pó de arroz e elas gostavam de brincar com a gente.

eram as mulheres do bordel as responsáveis pelo passeio mais lindo: os passeios de carruagem, cenário de sonho que nunca se descolou das minhas retinas. elas me apareciam como fadas, princesas, rainhas, e até hoje a lembrança daqueles dias me provoca ternura.

a rua 28 segue viva em mim. e vez em quando, nas noites, escuto o toque da gaita, o cheiro da pinga com salame, as risadas e o tropel dos cavalos. e aquelas mulheres, cheias de universos conversam comigo ao pé do bebedouro. ainda somos irmãs.

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canção de amor para francisca

por enilton grill

quase todos conhecemos «sólo le pido a dios», de león gieco. poucos de nós, no entanto, fomos apresentados a «canção de amor para francisca». proibida pela ditadura argentina nos anos 70, a faixa nasceu como uma homenagem de león a uma prostituta de sua cidade natal, de quem ele se lembrava dos tempos de menino.

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«numa casa no bairro de san pedro, francisca mostra todo o seu corpo, guardando dinheiro entre os seios, bebendo vinho tinto e um pouco de gim. veste-se de verde, veste-se de rosa e despe-se muy silenciosa. francisca não trabalha às segundas; com uma cestinha de flores e sua filhinha, correm pela floresta, pelos caminhos e campos. ela diz que os beijos, pardais e flores têm mais perfume às segundas-feiras. pele de canela, olhos de relva, cabelos longos e hálito de trigal. num quarto nos fundos da casa, os homens passam, os homens passam; ninguém lhe oferece trabalho porque têm medo de perdê-la. francisca não trabalha às segundas; com uma cestinha de flores e sua filhinha, correm pela floresta, pelos caminhos e campos. ela diz que os beijos, pardais e flores têm mais perfume às segundas-feiras.»

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«canção de amor para francisca» retrata a vida de uma profissional do sexo. a letra expõe a crueza de sua rotina diária e revela seu lado mais humano, terno e maternal durante seus dias de descanso, tornando-se um ato de empatia social e resistência contra a censura da ditadura militar.

cantar francisca ao vivo custou a león gieco detenções em comodoro rivadavia e córdoba.

por causa de sua temática realista, a canção acabou censurada e banida pelo regime vigente.

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léon gieco / joana gieco / alejo león
avô / filha / neto
8 out 2021



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[león gieco ao vivo luna park 28 de julho de 1978]

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lembro de uma casa das putas, em santa vitória do palmar. ficava perto do ctg e próxima ao cemitério. entrei só uma vez. olhei para uma moça: ela queria o que eu não tinha, eu queria o que ela tinha pra me dar. entrei, mas não me dei. não sabia nada da vida. não sabia e ainda não sei. ainda me apaixono como aquela vez me apaixonei.

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ojalá por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos en todas las visiones
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones

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[ao vivo e com letra]

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recuerdos da 28

lembro de uma outra vez na casa das putas, em santa vitória do palmar. se da primeira vez, eu me apaixonei, dessa vez, eu briguei. não sabia nada da vida. não sabia e ainda não sei. brigar, não brigo mais, mas ainda me apaixono como uma vez me apaixonei.


para quem não sabe, a paixão é o motor da arte. por isso, quando falta o amor real, o poeta inventa uma paixão de mentira para que a sua arte se mantenha viva. ou seja: na falta da verdade, apaixona-se de mentira.

mas há quem pense que a paixão é de verdade.

fazer o quê?!

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era inverno sim
eu perdido em mim
rabiscava uns versos pra enganar a dor
o tédio, o pranto, o tombo
e encantava mágoas milongueando sonhos

mauro moraes y comparsa elétrica 

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o poeta é um fingidor finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. e os que lêem o que escreve, na dor lida sentem bem, não as duas que ele teve, mas só a que eles não têm. e assim nas calhas de roda gira, a entreter a razão, esse comboio de corda que se chama coração.

fernando pessoa

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de vez em quando quando boto a mão nos cobre não existe china pobre, nem garçom de cara feia eu sou de longe, onde chove e não goteia não tenho medo de potro, nem macho que compadreia boleio a perna e vou direto pro retoço quanto mais quente o alvoroço, muito mais me sinto afoito e o chinaredo, que de muito me conhece sabe que pedindo desce, meu facão na «28» remancheio num boteco ali nos trilhos

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por juarez brasil e grupo os gaudérios
10ª califórnia da canção nativa do rs

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verdade seja dita, salvo honrosas exceções, hoje não tenho quase nenhuma afinidade com a música nativista. não gosto dos temas, das letras, do ritmo, da entonação e, muito menos, da postura ideológica da maioria dos seus artistas. mas nem sempre foi assim. houve um tempo em que eu tomava mate ao fim da tarde, na calçada em frente de casa, milongueando paixões.

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esta canção
não é mais que uma canção
quem dera fosse uma declaração de amor

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iolanda | pablo milanés | 1975
canta: chico

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falando em paixões
voltemos à paixão de alfredo
por stefanie

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exílio. buenos aires. stéphanie

por carlos bouzas (uruguay)

«em fevereiro de 1976, diante da intensificação da repressão ditatorial, tive que atravessar para a argentina.

a família de alfredo pediu-me para estabelecer rapidamente uma relação com o "flaco", uma vez que o seu estado de ânimo não era dos melhores. encontrei-o trancado num minúsculo quarto de hotel, no escuro, com um leve aroma de tabaco. conversamos bastante, preparei um mate e combinamos de tentar trabalhar juntos. seu relacionamento com o seu empresário não ia nada bem.

pouco depois, surgiu a oportunidade de um contrato para alfredo e três violonistas se apresentarem em são paulo. alfredo insistiu para que lutasse por mais uma passagem, para mim, como seu representante, e assim sair da argentina, voltar e ter novamente o visto de turista. não foi possível. apenas quatro passagens, estadia em um bom hotel, e acima de tudo, pagamento antecipado na chegada ao brasil. foi um dinheiro muito bom, para quatro apresentações. e a comissão permitir-me-ia melhorar um pouco a minha triste economia.

[...]

alfredo voltou feliz. naquela segunda-feira conversamos longamente em seu apartamento. ele resumiu a situação brasileira, em contraste com a do uruguai e da argentina, como muito mais aberta e menos repressiva. você pode fazer coisas artísticas e algumas políticas.

já terminando a conversa, me interessei pelo dinheiro, pela minha comissão.

«ah, carlitos, eu não trouxe peso nem dólar.»

«mas, "flaco», não te pagaram adiantado?», perguntei.

«sim, sim», ele respondeu meio hesitante. largou o mate, serviu-se de um uísque e começou: «no sábado, antes da segunda apresentação daquela noite, me senti muito, muito deprimido. no bar do hotel pedi uma bebida, depois outra, e de repente uma mulher de excepcional beleza aparece na minha frente. pago uma bebida para ela, conversamos, subimos para o meu quarto. e eu me apaixonei perdidamente. sugeri viajar para buenos aires. viver juntos. me casar. eles bateram na porta do meu quarto para fazer minha segunda apresentação. nada mais importava para mim. havia descoberto o amor novamente. e isso me demoliu, carlitos, me demoliu. ela me disse que não ia a lugar nenhum, que estava fazendo isso por dinheiro. mas carlitos, tenha paciência, seus dólares vão aparecer. tenho uma música na cabeça que vai dar muito certo, tenho certeza, e se chamará "stefanie".»

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stefanie, no hay dolor más atroz que ser feliz.
decías anoche: ouve me por favor, bésame aquí.
stefanie, sé que tu corazón, fala de mim,
y eso es dolor, stefanie

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(legendado en español)

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quatro horas da madrugada
é hora de ir embora

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são quatro horas da madrugada os galo já está cantando eu tenho de ir-me embora morena, vou lhe dar a despedida

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alcei a perna no pingo e saí sem rumo certo olhei o pampa deserto e o céu fincado no chão troquei as rédeas de mão mudei o pala de braço e vi a lua no espaço clareando todo o rincão


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«one more cup of coffee for the road
one more cup of coffee ’fore i go
to the valley below»

[legendado em português]

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carpe diem
bom domingo

sábado, 22 de agosto de 2026


de pampa e sertão 

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«la pampa es el cielo al reves»

atuahualpa yupanqui 

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«sertão é dentro da gente»

guimarães rosa 

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antônio açougueiro

por paulo freire 

logo que mudei para minha primeira casa no urucuia, conheci o trabalho de seu antônio açougueiro. de manhã bem cedo fui lavar o rosto no rio. quando voltei vi um boi sangrando no curral que havia ao lado de casa, enquanto antônio limpava sua faca.

o sistema era o seguinte: laçava o bruto, levava até um tronco fincado no chão em frente ao curral. amarrava a cabeça do animal rente ao tronco e enfiava uma faca bem afiada pela goela do bicho. o sangue escorria, a perna dobrava, o boi ia amolecendo até morrer. depois cortava ali mesmo. retalhava a carne, pendurava em um pau, cada homem segurava em uma ponta e levava para o açougue de seu antônio.

não tinha luz elétrica. sem geladeira, era preciso que o povo comprasse logo a carne, o resto seu antônio salgava e deixava pendurado na frente do açougue.

ele era engraçado e íamos conversar em seu açougue. paravam por ali alguns viajantes, gente que vendia boi, parentes que passavam pelo povoado. no final da tarde era comum formar uma roda de amigos, embaixo da carne dependurada.

e por aí vai...

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a propósito de açougue

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o famoso relato de atahualpa yupanqui, conhecido como o «conto da solidariedade» (ou do açougue), narra uma viagem pelas montanhas do norte argentino. lá, o dono de uma carnicería lhe oferece pouso e cede sua própria cama — a única que possuía. o homem diz ter um compromisso e sai. no meio da noite, yupanqui acorda e o encontra dormindo. mas onde? em cima de quê?

vai ouvindo

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[minuto 4 em diante...]

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de volta a paulo freire 

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enilton atahualpa 

conheci paulo freire, o violeiro, em 2002, no rio de janeiro, quando, a convite de daniel viglietti e pedro munhoz, participei da semana nacional da cultura brasileira e da reforma agrária. 

participei do evento como correspondente da rádiocom; meu trabalho era enviar boletins diários, um pela manhã, outro à tarde. fora isso, passava o dia às voltas com a nata da cultura brasileira, quando tive contato com vários nomes que até então eu só conhecia pelos livros e discos.

paulo freire eu conheci mais de perto, pois ficamos hospedados no mesmo lugar: o convento de santo antônio, em santa teresa. não só ele; ele e outros tantos. a maioria ficou hospedada nesse mesmo lugar. um lugar histórico e belíssimo.

tomávamos café todos juntos e saíamos para os eventos numa van. foi numa dessas viagens do convento para a uerj que travamos uma larga charla em torno de atahualpa yupanqui. falei para ele do américas e da minha admiração pela obra e a história de atahualpa yupanqui. ele ficou impressionado. curioso como ele só, quanto mais eu falava, mais ele perguntava. e vice-versa. por isso, a dedicatória: enilton atahualpa. 

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– e o sumiço? 
– que sumiço? 
– «vê se não some no próximo show!»

.

«vamos dar mais esta volta
na cravelha da viola,
só depois da volta dada
é hora de nós ir embora.»

.

e assim vou indo
vai ouvindo


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causo do violeiro misterioso 
por paulo freire

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026


milho aos pombos

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«o que tem de ser tem muita força, tem uma força enorme.»

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«tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. ou a ausência deles. duvida? quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.»

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ambas as frases são de joão guimarães rosa

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sextou

criança pé no chão brinco o dia inteiro

jovem olhos escuros não à escola

adulto ponto batido moinhos de vento

idoso mão na terra escuto a planta

e depois faz o quê?

canto a mim mesmo

e você?

grill

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mas em que mundo tu vive?
por josé falero
29 junho 2021

como não estava a par das circunstâncias nas quais meu primo havia abandonado o trabalho logo após o primeiro dia, resolvi perguntar:

— por que tu largou fincado do trampo lá, meu?

vem ao caso comentar que eu era parte interessada no assunto. com a saída dele, convidaram-me para substituí-lo, e não me senti inclinado a recusar, uma vez que estava desempregado havia já alguns meses. antes de ir aceitando, contudo, achei que valia a pena tentar descobrir se o motivo de sua evasão, na véspera, não colocaria também a mim mesmo para correr, no dia seguinte.

— tu quer mesmo saber qual é a cena? — começou ele. — então eu vou te dar a real: aquilo de lá é uma bomba, mano! a maior bomba!

— veja!

— mas! te liga só: o alemão lá não manda eu e o michel destruir um senhor casarão, só com um martelinho cada um?

— não creio!

— tô te falando!

— tá, e marreta? já não inventaro marreta?

— aí que eu te falava, sangue bom. é ou não é pra largar fincado? mas o pior tu nem sabe.

— tem mais?

— ô! tamo lá, eu e o michel, tirando só lasca dos tijolo maciço com aquelas porra daqueles martelinho, fritando no olho do sol, lavado de suor, daí me chega aquele filho da puta daquele alemão e fica só na volta, só olhando, que nem um peru. nós louco de fome, louco de sede, louco de cansado, louco de tudo, e ele ali na volta, bem belo, com um caldo de cana bem gelado numa mão e um pastel bem quentinho na outra, e nós só sentindo o cheiro.

— não creio!

— tô te falando! depois disso, ah!, se eu te contar, aí é que tu não vai crer mesmo. acaba o dia (claro que não fizemo nem cosquinha no casarão, tu imagina, cada um com uma porra dum martelinho!), lá vou eu me explicar pro homem: «tu vê, né, chefe, não deu pra fazer muita coisa, porque sem marreta fica ruim, mas mais uns três dia, quatro dia no máximo, o casarão já era, pode ficar descansado». o alemão, no maior desplante, me olha e me diz: «não, não, tudo bem, tudo bem, nem esquenta, nem esquenta. amanhã vem a retroescavadeira e derruba isso aí num minuto. eu só pedi pra vocês irem derrubando pra não ficarem sem fazer nada o dia inteiro hoje». rapaz, mas eu fiquei tão bravo, mas tão bravo! pedi o dinheiro do dia e já dei a letra: “ô: amanhã, nem me viu! o senhor ouviu bem? nem me viu!».

não demorei a me dar conta de que aquela era uma conversa inútil. com um extenso histórico de fugas semelhantes, que inclusive lhe rendera o apelido de seu madruga, meu primo não chegava a ser exatamente flor que se cheirasse. podia ter razão naquela história, mas também podia não ter: sua versão dos fatos não era a melhor base possível para eu tentar decidir se aceitava substituí-lo ou não. ademais, eu não estava em condições de sair por aí recusando propostas de emprego. longe disso, para falar a verdade. a fome já despontava em meu horizonte, e mesmo que o trabalho de fato fosse o quadro do terror pintado por meu primo, eu tinha obrigação de pelo menos tentar suportar o suplício pelo maior tempo que pudesse.

no dia seguinte, sacolejando dentro do ônibus lotado, lá íamos nós, eu e o michel, que, segundo meu primo, havia baixado a cabeça, isto é, havia se conformado com a situação supostamente desfavorável.

— é, meu primo não ficou lá muito contente com esse trampo — comentei, na esperança de ouvir do michel uma interpretação menos medonha dos acontecimentos.

— só se o teu primo fosse louco pra ficar contente — sorriu ele, com o bom humor que lhe era característico.

— então é uma bomba mesmo?

— è um caralho voador, aquilo de lá! deus que me perdoe!

ri da expressão «caralho voador», que para mim era nova. em seguida, perguntei se procedia a história de destruir um casarão de tijolos maciços com martelos.

— sim! o alemão lá é ruim, meu. teu primo ficou putaço. ficou puto até comigo, pra tu ter uma noção.

— ué! contigo? por quê?

— porque o alemão pediu pra gente ficar trampando até seis e meia…

— seis e meia? — interrompi-o, assustado.

— seis e meia, sem cuspe nem nada. tô te falando que o cara é ruim. daí, quando passou das seis hora, nós lá, os dois podre, os braço pura câimbra de ficar martelando aquelas porra daqueles tijolo maciço, eu comecei a cantar, só pra viajar: «são seis horas e dez minutos, já rezei minha ave maria».

tornei a rir. era impossível ficar perto do michel sem dar pelo menos uma risada a cada minuto. mas, ao mesmo tempo, compreendi que meu primo tivesse se irritado com ele: quando se está amofinado, as piadas costumam surtir efeito contrário.

— e é verdade que, no fim, esse tal de alemão disse que uma retroescavadeira ia derrubar o casarão?

— sim, sim. essa aí foi a gota d’água pro teu primo. porra, tu tinha que ver que engraçado que foi os dois discutindo! o teu primo, bufando: «mas que loucura é essa? se a máquina vai derrubar o bagulho, passei o dia martelando essa porra pra quê? sou palhaço, por acaso?». e o alemão, com aquela voz anasalada dele: «vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? vocês já tavam aqui, eu ia ser obrigado a pagar o dia de vocês de qualquer jeito, e não tinha outra coisa pra fazer. tu achou que eu ia te pagar pra passar o dia sentado, é?».

ri mais uma vez, com vontade redobrada. o michel reproduzindo a fala do tal alemão, imitando à perfeição aquele portoalegrês anasalado dos brancos endinheirados da cidade, era algo digno de aplausos.

nem bem chegamos ao local da obra, vi que havia, no flanco esquerdo do terreno, um amontoado de cacarecos: colchões, cobertas, roupas, latas, bancos, tudo imundo e sem a mínima condição de uso.

— e esses bagulho?

— é dos mendigo.

— que mendigo?

— morava uma pá de mendigo nesse casarão, porque tava abandonado. no primeiro dia, tivemo que mandar todo o mundo embora. o que eles pudero carregar, carregaro, mas agora o alemão não deixa eles entrar pra pegar o que ficou pra trás. vai ir tudo fora.

— porra, esse tal alemão é ruim mesmo.

— tô te falando. nas esse lance não é coisa dele, na real. ele é só o encarregado da obra, arquiteto, engenheiro, sei lá. a dona mesmo, pelo que eu entendi, é uma outra alemoa, que aparece aí de vez em quando, e foi ela que falou que não era pra deixar os mendigo voltar pra pegar os bagulho.

começamos a trabalhar. cavamos, carregamos, martelamos, serramos: tudo debaixo de sol forte, porque não havia uma minúscula sombra sequer no terreno inteiro. para piorar, a água do local ainda não fora ligada, de maneira que, após o almoço, quando a tarde ia a meio, já não aguentávamos mais de sede.

— olha lá a mulher regando as planta. vamo lá com uma garrafinha e vamo pedir um pouco d’água.

tivemos que abandonar o trabalho por um instante para procurar garrafinhas de refrigerante ou qualquer coisa assim, que alguém eventualmente houvesse jogado fora. em seguida, já de posse dos recipientes, nos aproximamos da vizinha da obra, que regava distraidamente suas samambaias.

— boa tarde, tia. será que a senhora consegue um pouco d’água?

ela nos olhou de cima a baixo, de baixo cima, e disparou:

— não.

incapaz de acreditar naquela categórica negativa, imaginei que a mulher talvez tivesse entendido errado.

— só um pouco de água, nessas garrafinha aqui, ó. claro que não queremo usar a água da senhora na obra.

— não — repetiu ela, ainda mais categórica.

voltamos com o rabo entre as pernas, rindo de nossa própria desgraça. e o michel, ciente de que, entre suas palhaçadas daquele dia, eu gostara particularmente de vê-lo imitando o alemão, tornou a entrar no personagem.

— vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? tu pensa que a água é de graça, é?

para nossa sorte, havia um supermercado na outra esquina, e o michel tinha trazido consigo uns trocados, que deveriam bastar para comprar uma garrafinha de água mineral. para nosso azar, os seguranças do supermercado não nos deixaram entrar, alegando que constrangeríamos os clientes, por estarmos muito sujos.

— vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? tu pensa que pode entrar nos lugares assim, parecendo um indigente, é?

e o resto do dia não foi melhor. o tempo arrastou-se como nunca antes, cada minuto parecendo durar um mês inteiro, na medida em que íamos experimentando infortúnio após infortúnio. a cereja do bolo foram os sacos de cimento. trezentos sacos de cimento, para ser preciso. tínhamos passado a tarde inteira esperando chegar a carreta que os traria, engolindo a vontade de chorar que nos assaltava só de imaginar que teríamos de carregá-los um a um até um canto adequado, e quando por fim o relógio marcou seis e meia da tarde, sem que houvesse o menor sinal da carga, fomos ingênuos o bastante para nos deixarmos arrebatar pelo alívio de termos escapado pelo menos daquilo. trocamos de roupa, usamos a saliva e o polegar parar remover dos braços uma ou outra sujeira mais grossa e tentamos disfarçar nosso bodum com desodorante. tão logo estávamos prontos para ir embora, a carreta chegou.

desnecessário comentar que nem por um segundo passou pela cabeça do alemão mandar a carreta ir embora e voltar no dia seguinte; ao contrário, bastou o veículo aparecer e buzinar, lá estava ele, com a maior boa vontade do mundo, fazendo as vezes de flanelinha.

— isso, estaciona aqui, pode vir, pode vir mais, isso, vem, vem, mais um pouco…

tornamos a colocar as roupas de trabalho e nos pusemos a descarregar a carreta, levando saco de cimento após saco de cimento até o local que o alemão achara melhor: do outro lado do terreno, exatamente no ponto mais afastado possível de onde a carreta tinha estacionado.

o leitor por acaso já carregou cimento? há algo curioso a respeito disso: quanto mais sacos se carrega, tanto mais parece pesar cada um deles. quando chegamos ao saco de número duzentos, a dor permanente que havia se instalado em nossas costas era o de menos: nossos joelhos, a essa altura, pareciam ter adquirido vontade própria, e de vez em quando, num passo ou outro que dávamos com o acréscimo de cinquenta quilos no ombro, ameaçavam se dobrar sob o peso extra, de tal modo que precisávamos fazer esforço para não cairmos de quatro no chão.

numa das ocasiões em que eu ia levando um saco e meus joelhos vacilaram brevemente, o michel, que cruzava comigo naquele preciso instante, bem no meio do terreno, já retornando com o ombro livre após largar seu saco lá do outro lado, tentou me fazer rir, para que eu perdesse as forças de vez e acabasse de quatro no chão: parou onde estava, colocou as mãos nas cadeiras e se empertigou todo, dizendo:

— vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? tu tá morrendo pra carregar esse saco de cimento, é?

até hoje imitamos aquele alemão, nas mais variadas circunstâncias. eu, por exemplo, tenho ímpetos de imitá-lo quando aparecem os progressistas de meia tigela, os intelectuais de araque, que não sabem da missa a metade, que não fazem a mais vaga ideia do que as pessoas sempre passaram em porto alegre e que se surpreendem com o fato de a ascensão fascista dos últimos tempos ter sido amplamente apoiada na capital gaúcha, só porque era aqui que aconteciam as cirandas do fórum social mundial.

— vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? tu acha que uma cidade vira fascista da noite pro dia, é?

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falando em «cirandas»...

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vai trabalhar, vagabundo
vai trabalhar, criatura
deus permite a todo mundo
uma loucura

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clipe exclusivo
hamilton de holanda com participação de chico buarque.

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isso tudo acontecendoe eu aqui na praça
dando milho aos pombos

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legendado / ao vivo

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antes do fim

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«uma pessoa que passa a vida toda, todos os dias, dez horas no trabalho, acaba por sentir-se indispensável aos propósitos da organização, da empresa e do negócio. se dispõe de tempo para si, não sabe como usá-lo.»

domenico de masi

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bem-vindo meu filho, bem-vindo à máquina
onde você esteve?
está tudo bem, nós sabemos onde você esteve
você esteve nos subterrâneos, passando o tempo
provido de brinquedos e coisas de garotos
você comprou uma guitarra para punir sua mãe
e você não gostava da escola,
mas sabe que ninguém é tolo
então, bem-vindo à máquina

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[legendado em português]

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de volta ao começo

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eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada cheia de dentes
esperando a morte chegar

[com ilustrações e letra]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas