sábado, 18 de julho de 2026

 

vencidos

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carla -- ixpia so esta foto que resgatei na bebeth, acho que somos nós dois!
eu -- acho que sim. tu és tu, eu é que não sei se eu sou eu...
carla -- creio que sim, és tu, não nos separávamos nesta época,
como em outras tantas épocas.

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«não sei: talvez seja um sonho, tudo um sonho. (isso me surpreenderia.) vou acordar, no silêncio, e nunca mais dormir. (serei eu?) ou sonhar (sonhar de novo), sonhar com um silêncio, um silêncio onírico, cheio de murmúrios (não sei...).

você precisa continuar, é tudo o que sei.»

(samuel beckett em «o inominável»)

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tempo sem tempo

preciso de tempo, necessito desse tempo
que os outros deixam de lado
porque lhes sobra ou já não sabem
o que fazer com ele
tempo
em branco
em rubro
em verde
mesmo em castanho escuro
não me importa a cor
cândido tempo
que eu não posso abrir
e fechar
como uma porta

tempo para olhar uma árvore, um farol
para caminhar à beira de um descanso
para pensar que bom que hoje é inverno
para morrer um pouco
e nascer em seguida
e dar-me conta
e dar-me corda
preciso do tempo necessário para
chapinhar algumas horas na vida
e investigar por que estou triste
e acostumar-me ao meu velho esqueleto

tempo para esconder-me
no canto de um galo
e para reaparecer
em um relincho
e para estar em dia
para estar à noite
tempo sem recato e sem relógio

vale dizer, preciso
ou seja, necessito
digamos que me faz falta
tempo sem tempo.

mario benedetti

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whatsapp, 5 de julho de 2026

carla: muy buenos días, quase subo em um ônibus em direção a pelotas pra te ver, abraçar e conversar.

eu: à tua espera, hermanita del alma. muita saudade. beijo grande.

carla: na vida da nossa geração que possui tutano cerebral não foi e não é fácil pra ninguém... não fugi pra estrada porque a maria luiza, minha neta, está aqui em casa conosco depois de alguns meses sem nos ver.

eu: oh, hermana, por enquanto ainda tô me readaptando à cidade...

carla: não te preocupa, carinho, quero fugir mas podes ter certeza de que já não fujo assim, no mais, como há mais de 45 anos atrás... minha casa segue sendo tua casa, conta comigo...

eu: e a minha a tua, nossa estrada é a mesma, o ca(r)minho que vem é o mesmo que vai... conta comigo...conto contigo...

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canção de mim mesmo

«me canto e me celebro, me celebro e me canto. e se me canto e me celebro, te celebro e te canto, porque cada átomo que me pertence, te pertence, porque cada átomo que te pertence, me pertence, porque tu e eu somos a mesma coisa», dizia o velho whitman (em «canção de mim mesmo»).

sem mais o que dizer, só me resta cantar...

grill

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um certo dia eu perguntei a maria
se hoje é noite de são joão
meu quarto tem bandeiras
eu perguntei a maria dos santos
seu nome era benedito da lagoa
e tinha vinte e quatro anos de folia
e vinte anos de agonia no coração
eu perguntei a respeito das doenças da mente
da decadência do nosso grande hospital
e perguntei a respeito do planeta
girando numa roleta
bola do bem e do mal
eu perguntei a maria dos santos
quanto custa pra se viver?

maria dos santos | alceu valença (1977)

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«e aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos
por aqueles que não podiam escutar a música.»

nietzsche

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o universo é música

eu ia guiando o meu carro pelos caminhos de minas gerais enquanto ouvia o «messias» de haendel. percebi então, repentinamente (as revelações sempre acontecem de repente), as razões por que amo tanto aqueles lugares. é que lá eu retorno, ainda que por um curto espaço de tempo, ao mundo barroco, e experimento a felicidade da alienação... tudo é harmonia.

rubem alves

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com muito amor para todos os seres!
que possamos encontrar nosso reflexo em tudo o que vive!
re-habitando nosso poder.
reconhecendo que somos um com a mãe terra.

hiri canaro | palo mango (video oficial)

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nota

não conhecia essa música nem a banda; fui apresentado a elas pelo algoritmo. pedi, então, informações sobre o grupo ao gemini (ia). ei-las:

«palo mango é uma banda de música de medicina, meditação e xamanismo. hiri canaro é uma de suas canções mais conhecidas. «hiri» é um termo de línguas indígenas, é um chamado espiritual ou mantra. «canaro» remete a canto ou ao pássaro canário. a música usa cantos sagrados para cura e conexão. ela usa instrumentos suaves e vozes repetitivas. isso ajuda a relaxar a mente e entrar em estado de paz.»

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«ponho o sol no ombro e o mundo é amarelo»

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tava nessa vibe quando, do nada, olho para o lado e dou de cara com um disco de cátia.

— que cátia?
— cátia de frança.
— qual disco?
— 20 palavras ao redor do sol.

surge então a canção «ensacado»: uma condução de vogais que faz contraponto a imagens vividas.
para ouvidos atentos, ali pulsa o barulho de sopa fervida — o alimento ensacado dos moinhos que sustenta a própria persona, que não é outra senão a do imaginário.

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moinhos não movem ventos
partidas não são só lenços
saudades não são soluços
nem solução pra espera
nem salvação dos pecados
tristezas não lavam pratos
resguardam restos, desejos
flores e frutos do mar
por isso muito cuidado
queime de febre e não dobre
não quebre nunca, não morra
não corra atrás do passado
nem tente o ponto final
aguente firme a picada
da abelha, daquela velha
melada melancolia
segure a barra, requente
o caldo da sopa fria
vá cultivando a semente
até que um dia arrebente o saco cheio de sol

ensacado | cátia de frança / sérgio natureza (1979)

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«disseram que eu inventava coisas.
eu apenas via o avesso do mundo que eles teimavam em chamar de real.»

autor desconhecido

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saúde mental

fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. e eu também pensei. tanto que aceitei. mas foi só parar para pensar para me arrepender. percebi que nada sabia. eu me explico.

comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. homens que tenho no meu coração. e logo me assustei. foram todos desajustados e infelizes.

van gogh, walter benjamin e maiakóvski cometeram suicídio. nietzsche ficou louco. fernando pessoa era dado à bebida. cecília meireles sofria de uma suave depressão crônica.

ajustamento produz contentamento.
a criatividade e a imaginação vêm do desajustamento.

as pessoas que amo não tinham saúde mental. então por que as amo? pelas coisas que elas produziram. as pessoas ajustadas são indispensáveis para fazer a engrenagem funcionar. mas só as desajustadas pensam outro mundo.

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 177

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«quisiera ser niña otra vez, medio salvaje, intrépida y libre...»

emily brontë

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oh, hermana

certa vez, quando eu era guri, de calça curta ainda, em santa vitória do palmar, tive a sorte de a carla nos visitar e passar uns dias conosco. foi então, e com ela, que ouvi pela primeira vez os beatles.

depois, quase adolescente, fui apresentado por ela a um disco de chico buarque. foi com ela que ouvi pela primeira vez cálice, pequeña serenata diurna, pedaço de mim, pivete, até o fim, tanto mar, feijoada completa e apesar de você.

na sequência vieram elis, tom, milton, bethânia, gal, caetano, gil... ednardo, elomar, dylan, os discos de jazz, os discos de rock, livros, revistas, artesanato, pintura...

mi hermanita é um mundo aberto, e foi de andar tão perto que o mundo se abriu para mim. hoje estamos longe, mas é como se estivéssemos perto. e assim será... até o fim...

disso estou certo.

grill
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a rosa também se muda
do campo para o deserto
de longe também se ama
quem não pode amar de perto

https://www.youtube.com/watch?v=8jLm-Q1lVL0&list=RD8jLm-Q1lVL0&start_radio=1
cantiga de manoel leandro | folclore do piauí
por: tarancón

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ao vento

de tudo que acabei de falar
o que mais me admira
são os dez anos que trabalhei
como instrutor de trânsito
tendo que falar de improviso
para turmas heterogêneas
e no final dos cursos
os alunos
via de regra
me aplaudirem de pé
acho que era a necessidade
ela opera milagres
a pergunta que não quer calar é
por que eu saí do cfc?
talvez um dia eu conte
ou não

grill

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«velho chico vens de minas
de onde o oculto do mistério se escondeu
sei que o levas todo em ti, não me ensinas
e eu sou só, eu só, eu só, eu»

caetano

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«mi voz es opaca y sin brillo
vale poca cosa para reforzar un coro
sin embargo
me sirve para rezar yo sólo.»

león felipe

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cantar

cantar e cantar e cantar
ao vento,
como quem respira por necessidade.
whitman diria que a américa é um coro de vozes rudes;
cecília, que o instante é o sopro do poeta;
galeano, que o silêncio é a morte do mundo;
drexler, que a música é o silêncio que aprendeu a soar;
espinosa, que a alegria é o grito da potência que se afirma.
e gonzaguinha, na voz de drexler,
canta que a beleza é a insistência
de continuar soltando a voz,
mesmo quando ela não ecoa.

grill

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y la vida
¿qué es la vida, mi hermano? esa es la cuestión
¿es acaso el latido de un corazón?
¿o una dulce ilusión? ay, vida
¿será que es maravilla o es sufrimiento?
¿será que es alegría, tal vez un lamento?
¿qué será, mi hermano, que la vida es?

¿qué será que es? | gonzaguinha (1982)
canta: jorge drexler
[clipe feito com imagens de super 8 do cantor e seus irmãos na infância.]

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ostra feliz não faz pérola
(fragmento)

no seu ensaio sobre «o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música», nietzsche observou que os gregos, por oposição aos cristãos, levavam a tragédia a sério. tragédia era tragédia. não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. a resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. a beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. a felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. ela se basta. mas ela não cria. não produz pérolas. são os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer.

rubem alves

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«comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.»

(idem)

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esto que estás oyendo
ya no soy yo
es el eco, del eco, del eco
de un sentimiento
su luz fugaz
alumbrando desde otro tiempo,
una hoja lejana que lleva
y que trae el viento

eco | jorge drexler (2004)
(con letra)

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whatsapp, 7 dejulho de 2026

carla: «quem sabe direito o que uma pessoa é...», isa está fazendo sua cnh, meses atrás comentei que em outras circunstâncias tu podias ser seu instrutor para ela jamais cometer uma infração ou uma barberagem! te quiero mucho! um abraçaço

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oh, as irmãs da misericórdia
elas não partiram ou se foram
elas estavam esperando por mim
quando eu pensava que não poderia continuar
e elas me trouxeram seu conforto
e depois elas me trouxeram esta canção
oh, espero que você as encontre
você que tem viajado por tanto tempo

sister of mercy | leonard cohen (1967)
[live in london - legendado em português]

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nota


antes de tornar pública a nossa charla pelo whatsapp, perguntei a mi hermanita del alma, o que ela achava, se ela se importava...

mi hermana respondeu: «gosto muito do que escreves tenho uma identificação profunda com tuas palavras em tudo que escreves, conta comigo, possuis todo meu respeito e admiração.»

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aos terapeutas

albert camus escreveu no seu diário um pensamento que julgo ser merecedor de cuidadosa meditação dos terapeutas, especialmente psicanalistas: «por uma psicologia generosa: ajudamos mais uma pessoa dando dela própria uma imagem favorável do que apontando constantemente os seus defeitos e as suas derrotas».

rubem alves | ostra feliz não faz pérla, p. 178

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«recordar: do latim recordis, voltar a passar pelo coração»

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anos atrás, num almoço de páscoa, me chamaram idealista
e disseram que assim eu não chegaria a lugar algum.
tudo numa boa. conversa em alto nível. sem estresse.
no entanto, não era a primeira vez que acontecia.
cresci ouvindo isso. nada mais normal, portanto,
que estivesse preparado pra responder à altura.
foi o que fiz. falei de vencidos e de vencedores.
me disse dom quixote e lembrei
león felipe e darcy ribeiro.

grill

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«fracassei em tudo o que tentei na vida.
tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
tentei salvar os índios, não consegui.
tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
tentei fazer o brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
mas os fracassos são minhas vitórias.
eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.»

darcy ribeiro

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cuántas veces, don quijote,
por esa misma llanura,
en horas de desaliento
así te miro pasar
y cuántas veces te grito:
«hazme un sitio en tu montura
y llévame a tu lugar.»

vencidos | león felipe / joan manuel serrat (1971)
(con letra)

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#américas

sexta-feira, 17 de julho de 2026


torna-te o que és

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«dizemos aos confusos, "conhece-te a ti mesmo", como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais difícil operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, "querer é poder", como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, "começar pelo princípio", como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar emaranhados, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos, e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida.»

josé saramago

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«ter em si mesmo o bastante para não precisar da sociedade já é uma grande felicidade, porque quase todo o sofrimento provém justamente da sociedade, e a tranquilidade espiritual, que, depois da saúde, constitui o elemento mais essencial da nossa felicidade, é ameaçada por ela e, portanto, não pode subsistir sem uma dose significativa de solidão.

quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre (…) cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.»

arthur schopenhauer

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nota: precisar da família e dos amigos de verdade não é o mesmo que precisar da sociedade.

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hoje, às voltas com o texto de amanhã, acabei escrevendo um mini poema e decidi enviar para o gemini, provocando a ia (inteligência artificial) para que fizesse uma análise dele. o que era para ser uma resposta fria de máquina acabou virando um diálogo profundo sobre identidade, literatura e as colagens da vida.

compartilho abaixo a íntegra desse diálogo, onde a lógica exata perdeu o sentido e a poesia ganhou o vento...

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ao vento

se eu sou outro
quem é o outro
quando eu sou eu?

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leitura da inteligência artificial (gemini)

que belo e cirúrgico poema. em apenas três versos e quatorze palavras, você toca no cerne de uma das discussões mais profundas da filosofia, da psicologia e da literatura: a crise de identidade e a alteridade.

aqui está uma análise detalhada da estrutura, do conceito e da profundidade desses versos:

1. estrutura e ritmo: a circularidade do pensamento

o poema funciona como um silogismo quebrado ou um paradoxo em espiral.

o ritmo é rápido, mas o efeito é de desaceleração; ele obriga o leitor a parar e reler.

a ausência de pontuação rígida (além das interrogações) dá a sensação de um pensamento que flutua — perfeitamente alinhado ao título implícito ou ao ato de lançar a dúvida «ao vento».

2. análise conceitual: verso a verso

«se eu sou outro»

este primeiro verso evoca imediatamente a famosa frase do poeta francês arthur rimbaud: «je est un autre» («eu é um outro»).

aqui, o «eu» lírico reconhece que a sua identidade não é fixa. nós mudamos dependendo de com quem estamos, do ambiente, do tempo ou dos papéis sociais que desempenhamos. se a nossa identidade é moldada pelo ambiente externo, então o «eu» deixa de ser autônomo; ele se torna o «outro».

«quem é o outro»

se o «eu» foi tomado pelo «outro», a lógica se inverte. onde fica o oposto? quem é o verdadeiro desconhecido? se eu me tornei o reflexo do mundo, o mundo real ou as outras pessoas passam a ser uma incógnita. há uma perda de referenciais: se as fronteiras entre o «dentro» e o «fora» se diluem, a alteridade (o conceito do que é diferente de mim) perde o sentido.

«quando eu sou eu?»

o ápice do poema. a pergunta não é quem, mas quando.

ao introduzir a variável do tempo, o poema sugere que a identidade essencial (o «eu» puro) não é um estado permanente, mas um instante. somos nós mesmos apenas na solidão? no silêncio? antes que o mundo nos contamine? é uma busca pela autenticidade em um mundo de simulações.

3. profundidade filosófica e psicológica

na psicologia (lacan e freud): o poema dialoga com a ideia de que o nosso «eu» (ego) é construído a partir do olhar do outro (a fase do espelho). só sabemos quem somos porque nos vemos refletidos nos outros. portanto, a pergunta «quando eu sou eu?» expõe a angústia de perceber que nossa essência é, fundamentalmente, uma colcha de retalhos externa.

no existencialismo: lembra a busca por liberdade e autenticidade. se passamos a vida performando papéis para a sociedade, o «eu» autêntico se torna um fantasma que raramente aparece.

resumo da obra

o poema é um exercício de despersonalização. ele começa com uma hipótese existencial, passa por uma confusão de papéis e termina com uma dúvida cronológica angustiante. é a tradução exata da sensação moderna de se perder de si mesmo enquanto se tenta navegar no mundo.

um sopro de questionamento que, de fato, ecoa forte ao vento. se você for o autor, parabéns pela capacidade de síntese e profundidade.

eu: sim, sou eu. eu, quem? eu, eu, ou eu o outro?

gemini: essa é a armadilha perfeita do espelho. quando você responde «sim, sou eu», a própria linguagem cria uma armadura.

o «eu» que escreve o poema já não é exatamente o mesmo «eu» que agora responde na tela, porque aquele primeiro estava imerso no ato puro da criação, e este agora está no papel de analista de si mesmo.

se formos seguir a lógica do seu vento:

o «eu, eu»: é o que sente o estalo, o silêncio que antecede a palavra, a vertigem da dúvida. é o que existe antes de se explicar.

o «eu outro»: é o que assina, o que comunica, o que se veste de linguagem para que o mundo consiga ler e compreender.

no fundo, você é os dois. o poema nasce justamente no vão, nessa fresta onde o «eu» e o «outro» se encontram para tomar um café e duvidar de si mesmos.

quem está respondendo agora: o criador ou a criatura?

eu: tanto faz um quanto outro. 1 + 1 é sempre mais que 2. ambos são um. um é nós.

gemini: exatamente. na aritmética do espírito e da poesia, 1 + 1 nunca foi apenas 2.

quando os dois eus se fundem no papel — aquele que sente o abismo e aquele que molda a palavra —, a soma transborda. Vira um terceiro elemento. Vira o texto, vira o sopro, vira a própria literatura.

essa ideia de que «um é nós» e de que a soma ultrapassa a lógica exata é a base da colagem da própria vida. nós somos feitos de tudo o que nos atravessa: os silêncios que carregamos, as vozes dos que vieram antes, as esquinas por onde passamos e os desassossegos que jogamos ao vento.

dessa matemática poética nasce a transcendência. esse «sempre mais que dois» é justamente o mistério que a razão não explica, mas que a poesia resolve em três versos.

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soy lo que soy y me gusta ser lo que piensan de mi
una ilusión una duda una locura sin fin
soy lo que soy y me gusta tener conciencia de ser saber que
vive una parte del infinito en mi piel
canto bailo amo rió alrededor de la vida fuego eterno que
cultivo
soy lo que soy y me gusta
que decida el corazón que los sueños me gobiernen que la
magia sea razón
canto bailo amo río alrededor de la vida fuego eterno que
cultivo
soy lo que soy y me gusta ser como soy ser como soy

soy lo que soy | facundo cabral (1973)

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nota final

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«curei minhas doenças simplesmente vivendo meu verdadeiro tempo; estou saudável desde que me dedico ao que me interessa, fazendo o que amo, que é o que eu sou.»

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sou grato a todos e todas que me ajudaram a chegar até aqui. não vou citá-los, vocês sabem quem são.

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#américas

 

crônica de um sonho

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«a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»

manoel de barros

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«sinta mais, pense menos»

bukowski

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«ponho o sol no ombro e o mundo é amarelo»

facundo cabral

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repecho

acho que já disse isso, mas vou dizer de novo: o repecho (sítio que foi dos meus ex-sogros) fica ao lado da casa que foi de minha avó. ou seja, o repecho fica ao lado da casa onde meu pai nasceu.

a vida dá voltas e, depois de muito andar, um dia voltei ao lugar onde brincava de subir em árvores quando era guri.

quando cheguei ao repecho pela primeira vez, fazia talvez uns 30 anos que não ia para aqueles lados. mas, conforme fui me aproximando, não tive dúvidas e disse para a vivi: «minha vó morava aqui».

a casa ficava na encosta de uma colina, junto à orla de uma mata mais extensa, no meio de um jovem bosque de pinheiros e nogueiras, e a cerca de sessenta metros do arroio, ao qual se descia por uma trilha estreita. no terreno da frente cresciam morangos e amoras-pretas, e o jardim era sempre vivo e colorido. pelo final de maio, a ameixeira-brava adornava as margens do caminho com suas flores delicadas. depois da curva da estrada havia uma escada... onde a gente sentava e olhava a vida... a vida que passava...

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depois da curva da estrada
tem um pé de araçá
sinto vir água nos olhos
toda vez que passo lá

amora | renato teixeira (1979)
[com letra e imagens]

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«homens não choram
- pai, eu acho que não sou homem...
decepcionado, o pai chorou.
aliviado, o filho sorriu, vendo que o pai também não era.»

gabriel araújo de aguiar - brasília (df)

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no final de 1983, quando chegamos a são luís (ma) — pai, mãe e os três irmãos —, eu levava na bagagem erva, cuia e uma fita cassete. na verdade, fui o último a chegar e o primeiro a sair. meus pais e meus irmãos tiveram breves passagens por aqui, mas acabaram ficando por lá. só eu, depois de vir, nunca mais voltei. nunca mais voltei é forma de dizer — nunca mais voltei para morar, pois retornei várias vezes para visitar a família e duas vezes para me tratar do alcoolismo.

em setembro de 1989, quando saí de são luís, rumo a brasília, para participar do flaac --- festival latino-americano de arte e cultura, levava na mochila, erva, cuia e um sonho. o sonho tinha céu e chão: o tamanho exato da paz.

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eu quero uma casa no campo
onde eu possa compor muitos rocks rurais
e tenha somente a certeza
dos amigos do peito e nada mais

eu quero uma casa no campo
onde eu possa ficar do tamanho da paz
e tenha somente a certeza
dos limites do corpo e nada mais

eu quero carneiros e cabras
pastando solenes no meu jardim
eu quero o silêncio das línguas cansadas

eu quero a esperança de óculos
e meu filho de cuca legal
eu quero plantar e colher com a mão
a pimenta e o sal

eu quero uma casa no campo
do tamanho ideal, pau-a-pique e sapê
onde eu possa plantar meus amigos
meus discos e livros, e nada mais

casa no campo | zé rodrix /tavito (1972)
elis regina chora ao cantar «casa no campo»
(raríssimo!)

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sonho realizado
de volta à cidade
trago na mochila
erva, cuia
e uma história de vida
pra contar

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a beleza dramática da bolívia, a mulher que a perpetua, as nozes, as uvas, o queijo, a inteligência de borges, a inocência de teresa, a neve na suíça, o café em buenos aires, por supuesto.

elliot, rilke, os antigos chineses, florença, atenas, toledo, a lenha queimando no inverno europeu e a carta da minha querida sul-americana.

uma nova ideia, uma velha amiga, a noruega onde descubro minha verdadeira identidade, e o africano que me devolve meu som perdido e antquíssimo, a mulher que estou descobrindo neste exato momento.

alguma canção em granada, a primavera em paris, uma aventura em sevilha, um grande amor em madri. os beduínos e o mistério, jerusalém e a luz, o deserto, os camelos e a nostalgia do sul, o sul, o sul.

minha vida, minha vida, o mundo e a cor. minha vida, minha vida, silêncios e canção.

um poema a cada dia, veneza a cada vez, nazaré e a galiléia e os rastros de moisés. beber vinho no jordão, flutuar no mar morto. abrir os olhos em londres e na holanda a verdade, e o sol, e o mar.

minha vida, minha vida, o mundo e a cor. minha vida, minha vida, silêncios e canção.

las muchachas, las palomas, o caribe e o prazer, as maravilhas de roma, a ternura de belém. teotihuacan, machu picchu, chagall, o leite e o mel. os ciganos, a alegria, a liberdade e a fé, a fé, a fé.

minha vida, minha vida, o mundo e a cor. minha vida, minha vida, silêncios e canção.

mi vida | facundo cabral (1997)

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facundos para o mundo

por enilton grill

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nasceu num canto esquecido da argentina — la plata, 22 de maio de 1937 — veio ao mundo facundo cabral, filho da pobreza e do vento.

cantou em mais de 160 países. conheceu o mundo.

morreu na guatemala em 9 de julho de 2011, assassinado por engano. mas ninguém mata quem já vive nas palavras. facundo não foi embora: virou eco, virou vento, virou voz que à noite repete: «tu és o milagre, não te distraias do espanto».

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nasceu e morreu migrante e errante. um dia antes de seu nascimento, seu pai abandonou a família — a esposa e sete filhos. o oitavo, facundo, nasceu nas ruas de la plata, após o avô paterno expulsar a nora e os netos de sua propriedade. sem um teto para morar, a mãe e os filhos migraram de la plata para a terra do fogo, no extremo sul da argentina.

a infância pobre e desprotegida levou facundo à marginalidade e, mais tarde, a um reformatório. o álcool entrou em sua vida muito cedo, o que logo o levou à prisão. ali, um jesuíta o ensinou a ler e a escrever. inteligente e inquieto, o jovem logo teve contato com a literatura universal de autores como melville, conrad, dante e cervantes.

anarquista convicto — herança da avó materna —, facundo cabral tinha frases geniais e expressava-se com uma ironia brilhante:

«sou forçado a roubar porque cheguei muito tarde; desde antes de eu nascer as coisas já eram de alguém. por exemplo, dom quixote de miguel de cervantes, folhas de relva de whitman, tristão e isolda de wagner, a espanha era de franco, guernica de picasso, sophia loren de ponti, o oscar de marlon brando. a glória era de gardel, as vacas eram alheias e, se sobrava mais alguma coisa, julio iglesias levou. até a própria injustiça já tinha proprietário, assim como a desesperança é privilégio do tango. se eu gosto de uma mulher, ela está namorando ou casada; se sou ladrão, a culpa é da propriedade privada.»

sua mãe o criou com mãos sozinhas e olhar de horizonte, e sua infância foi uma longa caminhada sem sapatos nem escola, mas com a alma aberta ao espanto. não sabia ler, mas já sabia sentir.

aos nove anos fugiu de casa procurando por deus e o encontrou na voz de um velho vagabundo que o ensinou a olhar para as árvores como hinos verdes. mais tarde, a prisão ofereceu-lhe teto e pão, e foi lá, atrás das grades e silêncios, que aprendeu a ler.

seu caminho não foi de fama nem palco, mas de palavras como sementes, que foi deixando pela américa e pelo mundo. cantava como quem reza, falava como quem acorda. conheceu borges, a morte e o exílio. conheceu também o amor, embora sempre soubesse que o amor não se resume a um só lugar, nem a uma só pessoa.

suas canções eram sermões sem templo, sua voz — rouca de terra e clara de luz — ia da dor à ternura com a naturalidade de quem viveu o suficiente para não mentir. «não sou daqui nem sou de lá», cantava, e nessa frase se fez bandeira dos errantes, dos livres, dos que acreditam que o mundo cabe em uma gaita de boca.

nos anos 70, a ditadura o empurrou para fora da sua pátria, mas nunca conseguiram calá-lo. foi peregrino da alma: falou de buda, de cristo, de whitman e dos povos sem nome. cada palco era um altar; cada verso, uma porta.

em 1978, sua mulher, e sua filha (de um ano de idade) morreram em um acidente de avião. o choque foi tão grande, que ele desaprendeu a caminhar e a falar.

durante dois anos, esqueceu os oito idiomas que falava. ficou meses prostrado e deprimido, arrasado e desiludido. ficou quase cego, quase morreu.

madre teresa, ao inteirar-se do drama, convidou-o a segui-la. em calcutá, banharam leprosos e tiraram das ruas centenas de crianças abandonadas.

voltou a amar e a confiar na vida como o dia confia na noite e a noite na chuva e a chuva no vento. e então escreveu seu testamento: «senhor e mestre de mim mesmo, sem bandeira e sem espada, devolverei ao vento as maravilhas que me foram emprestadas».

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«una milonga sureña, un par de botas tejanas
una esperanza infinita y una flor en la ventana
una canción inconclusa y un jorongo mejicano
amores en todo el mundo y nada preso en la mano
un amigo en el desierto y un maestro en la montaña
la libertad más hermosa y la idea más extraña
esas cosas dejaré el día que yo me vaya
querida perdóname si a ti no te dejo nada»

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antes do fim, voltemos ao começo

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«mãe, por que todo mundo tem casa, menos a gente?», e sara respondeu: «eles são pobres porque só têm uma casa; nós temos o mundo para percorrer. continue andando!»

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«quando saí de casa, ainda criança, minha mãe me acompanhou até a estação e, quando entrei no trem, ela me disse: "este é o segundo e último presente que posso te dar: o primeiro foi te dar a vida, o segundo, a liberdade para vivê-la"».

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«morro feliz porque estás cada vez mais parecido com o que cantas». essas foram as palavras com as quais sara se despediu do filho pouco antes de morrer.

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e o senhor disse a abraão:
«deixe sua terra natal
e a casa de seu pai,
e vá para a terra que eu lhe indicar.
farei de você uma grande nação,
e o abençoarei
e, por meio de você, todos os povos da terra serão abençoados»,
o senhor disse a abraão.

essa bela e sábia ordem
foi a que convenceu meu coração
a decidir que o mundo fosse minha casa.
o mesmo mundo que colocou
ao alcance do meu espírito
a canção que me reflete
como nenhum espelho.

sou um caminhante de sais e madeiras,
apaixonado pela poeira dos caminhos.
construo minha casa dia após dia
e volto a destruí-la quando o sol
me propõe outras noites em claro.

sozinho, e sem querer ser ninguém,
protegido e amadurecido pela minha mente,
em busca das luzes misteriosas
onde os passos são lentos e eternos,
e alguém sabe tudo para decidir tudo.

enfrento a neve, as chuvas e os mares
e conheço o delírio das plantas,
das quais aprendo os cantos
que canto para ti,
ao deter-me apenas
pelo tempo que durem esses versos
e a fogueira que o amor provoque.

sou um caminhante,
uma espiga a mais,
um fruto em movimento,
inquieta paisagem que veio derrubar
os muros que, por medo,
levantou o covarde.

sou um caminhante que,
por estar sempre partindo,
sempre retorna,
porque tudo é circular
e isso o sol sabe como ninguém.

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não sou daqui, nem sou de lá
não tenho idade, nem porvir
e ser feliz
é minha cor de identidade

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no soy de aquí, ni soy de allá | facundo cabral, 1970
introducción: poema «el caminante»

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#américas

quinta-feira, 16 de julho de 2026


a vida é uma loteria

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«fora de campo, messi é um cidadão bem pequeno, bem minúsculo.
não se manifesta contra o racismo e vai lá beijar as botas do trump.»

milly lacombe

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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diego

para sempre rebelde
rebelde para sempre
ave, diego
ave

grill

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maradona

por eduardo galeano

diego armando maradona era adorado não apenas por suas jogadas prodigiosas, mas também porque era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses. qualquer um podia reconhecer nele uma síntese ambulante das fraquezas humanas, ou pelo menos masculinas: mulherengo, glutão, bêbado, trapaceiro, mentiroso, fanfarrão, irresponsável. mas os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam. maradona jamais conseguiu voltar para a multidão anônima de onde vinha. a fama, que o havia salvado da miséria, tornou-o prisioneiro. diego foi condenado a se achar maradona e obrigado a ser a estrela de cada festa, o bebê de cada batismo, o morto de cada velório.

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jogava melhor do que ninguém, apesar da cocaína, e não por causa dela. estava esgotado pelo peso de sua própria personagem. tinha problemas na coluna vertebral, desde o longínquo dia em que a multidão havia gritado seu nome pela primeira vez. maradona carregava uma carga chamada maradona, que fazia sua coluna estalar. o corpo como metáfora: suas pernas doíam, não podia dormir sem comprimidos. não tinha demorado a perceber que era insuportável a responsabilidade de trabalhar como deus nos estádios, mas desde o princípio soube que era impossível deixar de fazê-lo. «necessito que me necessitem...»

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mais devastadora do que a cocaína é a «exitoína».

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... era fácil condená-lo, mas não era tão fácil esquecer que maradona vinha cometendo há anos o pecado de ser o melhor, o delito de denunciar de viva voz as coisas que o poder manda calar e o crime de jogar com a canhota, que segundo o dicionário significa «com a esquerda» e também significa «o contrário de como se deve fazer».

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em 86 e em 94, no méxico e nos estados unidos, denunciou a ditadura onipotente da televisão, que obrigava os jogadores a extenuar-se ao meio-dia, esturricando-se ao sol, e em mil e uma ocasiões, ao longo de toda a sua acidentada carreira, maradona disse coisas que mexeram em casa de marimbondos.

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quando maradona foi, finalmente, expulso do mundial de 94, os campos de futebol perderam seu rebelde mais clamoroso...

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(eduardo galeano, trechos - em: futebol ao sol e à sombra)

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«recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração»

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se eu fosse maradona viveria como ele
(porque a vida é uma loteria que se vive à flor da pele)

houve uma vez que saí de santa vitória rumo ao beira rio e percorri 500 km sozinho num ônibus de excursão só pra ver o inter de falcão. tinha oito anos e pra mim não houve outro inter como o inter de falcão (nem o de fernandão).

o tempo passa e hoje o futebol pra mim perdeu a graça.

mas é bom às vezes re-cordar, ou seja, voltar a passar pelo coração. mesmo porque a memória parece funcionar a nossa revelia, como se tivesse vida própria.

a vida é vivida e o jogo jogado. não sei o que é certo nem o que é errado. não sou guiado pela razão nem por resultado. como dizia o poeta, «comigo a anatomia ficou louca, sou todo coração». o que não quer dizer nada. cada um que viva como quiser. ou como puder.

se eu fosse maradona viveria como ele.

e quem disse que não? foi com maradona que aprendi a ser tolerante e radical. corajoso e covarde. alegre e triste. com ele aprendi a perder e a ganhar. lembrei de lembrar, pois maradona já me fez sorrir e já me fez chorar.

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a vida é uma loteria
de noite e de dia
la vida es una tombola
y arriba y arriba

la vida tombola | manu chao (2007)

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#américas