quarta-feira, 15 de julho de 2026




as veias abertas da mão de deus

••••••••••••••

a mão de deus
canção de rodrigo ‧ 2000

em um bairro pobre nasceu, foi vontade de deus
crescer e superar as dificuldades da vida humilde
enfrentar as adversidades
com o desejo de conquistar a vida a cada passo

em um campo (de várzea), ele forjou uma canhota imortal
com experiência e uma ambição insaciável de chegar lá
quando era criança, sonhava em jogar uma copa do mundo
e se consagrar na série a

talvez jogando ele pudesse
ajudar sua família

¡grande, diego!

¡ahí va!
para ser o maior do mundo, ahí

en una villa nació, fue deseo de Dios
crecer y sobrevivir a la humilde expresión
enfrentar la adversidad
con afán de ganarse a cada paso la vida

en un potrero forjó una zurda inmortal
con experiencia, sedienta ambición de llegar
de cebollita soñaba jugar un mundial
y consagrarse en primera

tal vez jugando pudiera
a su familia ayudar

a poco que debutó
«¡maradó, maradó!»
la 12 fue quien coreó
«¡maradó, maradó!»
su sueño tenía una estrella
llena de gol y gambetas

logo que estreou
«maradó, maradó!»
a 12 foi quem gritou
«maradó, maradó!»
seu sonho tinha uma estrela
cheia de gols e dribles

e todo o povo cantou
«maradó, maradó!»
nasceu a mão de deus
«maradó, maradó!»
ele trouxe alegria ao povo
regou de glória este solo

¡ahí va!
¡cuarteto, ay!
¡eso!, para el número uno del mundo

carrega uma cruz nos ombros por ser o melhor
por nunca se vender, enfrentou o poder
curiosa fraqueza: se jesus tropeçou
por que ele não haveria de tropeçar?

a fama lhe apresentou uma «branca mulher»
de sabor misterioso e prazer proibido
que o tornou viciado no desejo de usá-la novamente
envolvendo sua vida

e é uma partida que, um dia,
diego está prestes a vencer

¡olé, olé, olé, olé
diego, diego!
¡olé, olé, olé, olé
diego, diego!

¡olé, olé, olé, olé
diego, diego!
¡olé, olé, olé, olé
diego, diego!

¡te quiero, diego!

¡ahí va!
la mano de dios, ¡ahí va!

gracias

••••••••••••••

https://www.youtube.com/watch?v=E7WTOoHdm2k&list=RDE7WTOoHdm2k&start_radio=1
la mano de dios (homenaje a diego maradona)

https://www.youtube.com/watch?v=Ecsqlv_n1zw&list=RDEcsqlv_n1zw&start_radio=1
en nueva york maradona canta «la mano de dios» junto a su mujer claudia y a su hija yanina
(imperdível)

https://www.youtube.com/watch?v=RoZr3ZN6GV8
VIDEOCLIP LA MANO DE DIOS, JORGE ALVARADO
(imperdível)

••••••••••••••

poema para diego

não estás fisicamente aqui
mas continuas presente em cada lembrança
estás em cada pibe que veste a 10
em cada pai
que conta ao filho
quem foste
e em cada campo
onde ainda
cantam teu sobrenome

és o gol contra os ingleses
és a «mão de deus»
e o capitão
que fez chorar
de alegria
um país inteiro
és os abraços de 86
os gritos de nápoles
e o sorriso malicioso
de um povo
que se sente representado
e identificado

porque a maior jogada não foi um gol
foi ter dado ao povo uma bandeira
na qual acreditar
e por isso
o povo nunca te abandonou

obrigado
obrigado, obrigado, obrigado
obrigado por nos ensinar que a bola não se mancha
que a paixão não se negocia
e que ídolos como tu
não desaparecem

grill

••••••••••••••

diego y las abuelas (ni olvido,ni perdón)
[clique no link acima]

••••••••••••••

mensajes del alma
[argentina: 24 de marzo de 1976]

.

«se o mundo sobreviver, os professores de história explicarão o século xx através de seus símbolos: mostrarão a seus alunos a garrafa de coca cola, a bola de futebol, o televisor, o computador, a bomba de nêutron. e para explicar a dignidade, mostrarão o lenço branco das rondas da plaza de mayo.»

eduardo galeano

.

«não há povo sem memória, o povo sem memória desaparece.»

adolfo pérez esquivel

.

«o pior cego é aquele que não quer ver»

popular

••••••••••••••

a memória

pior que não ver
é ver e dizer que não vê
pior que ver e dizer que não vê
é ver e dizer que o melhor é esquecer

grill

••••••••••••••

os velhos amores que não estão
a ilusão dos que perderam
todas as promessas que se vão
e os que em qualquer guerra caíram
tudo está guardado na memória
sonho da vida e da história
o engano e a cumplicidade
dos genocidas que estão soltos
o indulto e o ponto final
para as bestas daquele inferno
tudo está guardado na memória
sonho da vida e da história
a memória desperta para ferir
aos povos dormidos
que não a deixam viver
livre como o vento
os desaparecidos que se buscam
com a cor dos seus nascimentos
a fome e a abundância que se juntam
os maltratos com sua má lembrança
tudo está gravado na memória
espinha da vida e da história
dois mil comeriam por um ano
com o que custa um minuto militar
quantos deixariam de ser escravos
pelo preço de uma bomba no mar
tudo está gravado na memória
espinha da vida e da história
a memória pincha até sangrar
aos povos que a amarram
e não a deixam andar
livre como o vento
todos os mortos da AMIA
e da embaixada de israel
o poder secreto das armas
a justiça que olha e não vê
tudo está escondido na memória
refúgio da vida e da história
foi quando se calaram as igrejas
quando o futebol escondeu tudo
que os padres palotinos e angelelli
deixaram seu sangue no lodo
tudo está escondido na memória
refúgio da vida e da história
a memória explode até vencer
aos povos que a esmagam
e não a deixam ser
livre como o vento
a bala a chico mendez no brasil
150. 000 guatemaltecos
os mineiros que enfrentam o fuzil
repressão estudantil no méxico
tudo está gravado na memória
arma da vida e da história
américa com almas destruídas
os jovens que o esquadrão mata
suplício de mujica pelas vilas
dignidade de rodolfo walsh
tudo está gravado na memória
arma da vida e da história
a memória aponta até matar
aos povos que a calam
e não a deixam
livre como o vento
livre como o vento

la memoria | león gieco / gustavo santaolalla (2001)
[león gieco y la banda sinfónica de ciegos]

••••••••••••••

«a praça é das mães, e não dos covardes.»

voz popular

••••••••••••••

em novembro de 2002, a icônica líder argentina hebe de bonafini concedeu uma entrevista à revista caros amigos, refletindo sobre os 25 anos de resistência das mães da praça de maio.

mesmo sob o peso da ditadura e do descaso político que se seguiu, a força dessas mulheres redefiniu a história da américa latina.

eis um trecho impactante dessa conversa que ecoa até hoje:

como a senhora avalia a evolução do movimento das mães da praça de maio nestes 25 anos?
o movimento passou por várias fases. a primeira coisa e a mais importante foi não ter abandonado a praça todos estes anos.

e enquanto isso como evoluía a situação da argentina?
cada vez pior, mais repressão, mais trabalhadores sem emprego. e os políticos só estavam preocupados com as eleições. a ditadura militar terminou em 1983, mas desde 1982 os políticos só se preocupavam com as eleições. e fomos a eles e dissemos: senhores, se os senhores não insistirem com os juízes que julguem e condenem os militares responsáveis, não há democracia possível, pois há os desaparecidos, as mães, os pais, os filhos dos desaparecidos, e a política segue como sempre?

e como eram as relações com a sociedade em geral? no início, as senhoras eram chamadas de loucas...
somos loucas. totalmente loucas. loucas e ilegais. mas a sociedade foi se convencendo de que as loucas da praça de maio tinham vindo para ficar. quando chegou a época dos governos constitucionais, nos diziam para respeitar alfonsín e dizíamos que todos os juízes são corruptos. foi um escândalo: «como dizem que todos os juízes são corruptos?» hoje, todos dizem que os juízes são corruptos.

como a senhora lidou com o medo, na época da ditadura?
não tínhamos medo.

.
trecho extraído da revista caros amigos (ano 6, nº 68, novembro de 2002).

••••••••••••••

eu só peço a deus
que a dor não me seja indiferente
que a morte não me encontre um dia
solitário sem ter feito o que eu queria

eu só peço a deus
que a injustiça não me seja indiferente
pois não posso dar a outra face
se já fui machucado brutalmente

eu só peço a deus
que a guerra não me seja indiferente
é um monstro grande e pisa forte
toda pobre inocência dessa gente

eu só peço a deus
que a mentira não me seja indiferente
se um só traidor tem mais poder que um povo
que este povo não o esqueça facilmente

eu só peço a deus
que o futuro não me seja indiferente
sem ter que fugir desenganando
pra viver uma cultura diferente

sólo le pido a dios | león gieco (1978)
cantam: mercedes sosa e león gieco
teatro ópera 1982

••••••••••••••

de volta a 1986
[no princípio era D10S]

um dos jogos mais emblemáticos da história da copa do mundo é inglaterra x argentina na copa de 1986, que ficou marcado por muita rivalidade e dois gols históricos de maradona: um deles de mão (a famosa «mano de díos») e outro uma pintura, driblando metade do time inglês.

[clique no link acima]

••••••••••••••

quarenta anos depois, o gol da «mão de deus» de maradona ainda é celebrado. mas deveria?
publicado: 24 junho 2026
tradução por ana carolina guimarães nogueira
este artigo foi originalmente publicado em inglês

[clique no link acima]

••••••••••••••

a guerra das malvinas e os dois gols: o jogo de 1986 foi o primeiro entre as duas seleções após o conflito bélico de 1982, e galeano pontuou a importância política do triunfo argentino. maradona foi visto por ele não apenas como o herói do esporte, mas como um vingador da derrota nacional.

o autor descreveu os gols contra a inglaterra de forma poética: o primeiro, marcado com a «mão de deus», foi a vitória da malandragem argentina. o segundo, o «gol do século», foi definido como uma obra-prima onde maradona driblou quase o time inglês inteiro por puro gozo da liberdade corporal.

••••••••••••••
.
maradona por eduardo galeano
[clique no link acima]

••••••••••••••

a reflexão sobre o ídolo: galeano via maradona como o mais «humano dos deuses». em seus textos, o autor também não ignorava o lado trágico do craque. ele reconhecia que diego jogava melhor do que ninguém, mas pagava um preço altíssimo por carregar nos ombros a pesada responsabilidade e a expectativa de um país inteiro.

uma análise poética de eduardo galeano sobre o antológico gol de maradona contra a inglaterra na copa de 1986:

inolvidable historia de eduardo galeano sobre el gol de maradona a inglaterra en mexico '86
[clique no link acima]

••••••••••••••

de volta a «la mano de dios»

••••••••••••••

«roubei a carteira deles»

maradona

••••••••••••••

quarenta anos depois, o gol da «mão de deus» de maradona ainda é celebrado. mas deveria?

com a palavra, D10S

[clique no link acima]

••••••••••••••

antes do fim

••••••••••••••

a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida»

vinicius de moraes

••••••••••••••

encuentro diego y silvio

••••••••••••••

📷mercedes sosa e eu: antonio soler
cantamérica, porto alegre, 1996

📷león gieco e eu: antonio soler
cantamérica, porto alegre, 1996

••••••••••••••

#américas

terça-feira, 14 de julho de 2026

amor é apenas uma palavra de quatro letras

••••••••••••••

«aprendi a ser formal e cortês
cortando o cabelo uma vez por mês
e se acabou a formalidade
é que nunca gostei da sociedade.»


charly garcía

••••••••••••••

«qui m´importa, qui m´importa
o seu preconceito
qui m´importa»


renato teixeira

••••••••••••••

«você tem uma única tarefa: concretizar sua própria natureza; e, para isso, precisa estar na sociedade como se não fizesse parte dela. a sociedade que é tão medíocre que continua apostando em coisas que nunca funcionaram nem funcionarão.»

facundo cabral

••••••••••••••

vai trabalhar, vagabundo

por eduardo marinho

antigamente, eu pedia comida olhando no olho das pessoas – eu ainda não sabia vender meus artesanatos. o ato de pedir é uma grande escola se não nos deixamos humilhar por isso. por exemplo, se eu chego em um restaurante e vejo o dono do estabelecimento, vou até ele e digo: «estou viajando de carona, sem dinheiro, e estou sem comer há alguns dias. estou com muita fome, e você está cheio de comida aí. você vai me negar um prato de comida? não acredito nisso!».

ele se espanta pelo fato de alguém que esteja pedindo comida fale de igual para igual com ele, sem humilhação. se ele negar o prato de comida, eu me retiro. já aconteceu de me retrucarem: «mas você quer comida sem trabalhar?». respondi: «se tiver trabalho aí eu trabalho. faço qualquer coisa: lavo os pratos, varro o chão, sirvo as pessoas, limpo os banheiros, estaciono os carros… ». ele: «mas eu tenho funcionários para fazer tudo, não preciso de seus serviços». eu: «mas eu preciso comer. você não vai me negar um prato de comida, né?».

é constrangedor para ele negar comida, mas se ele o fizer, o faz violentamente, através de xingamentos, então eu vou no restaurante vizinho repetir o mesmo processo, até que me deem um prato de comida.

••••••••••••••

ao vento

não tive muita sorte
com as mulheres
como poeta

uma me mandou trabalhar
a outra já de saída
deu de me podar

a mesma poesia
que me levou a elas
foi a que
me afastou delas

grill

••••••••••••••

«devolva o neruda que você me tomou
e nunca leu»

chico buarque

••••••••••••••

«a "rainha das cantoras folk", essa tinha que ser joan baez. joan nasceu no mesmo ano que eu, e nossos futuros iriam se conectar, mas, naquela época, seria um despropósito sequer pensar nisso. eu a vira na tv. ela estava em um programa de música folk.


não consegui parar de olhar para ela, não queria nem piscar.

ela tinha uma aparência bem travessa - cabelo negro cintilante, pestanas encurvadas, parcialmente erguidas... a visão dela me deixou enlevado. tudo aquilo, e ainda a voz. uma voz que expulsava os maus espíritos. era como se ela tivesse vindo de outro planeta.

de origem escocesa e mexicana, ela parecia um ícone religioso, alguém por quem você se sacrificaria, e cantava com uma voz direto para deus... também era uma instrumentista excepcionalmente boa.

joan parecia muito madura, sedutora, intensa, mágica. nada do que ela fazia dava errado. o fato de ela ter a mesma idade que eu quase fez com que me sentisse inútil.

no entanto, por mais ilógico que pudesse parecer, algo me disse que ela era meu complemento - aquela com quem minha voz poderia encontrar perfeita harmonia.

naquela época não havia nada além de mundos de distância e enormes barreiras entre ela e eu. eu ainda estava atolado na roça. não obstante, alguma sensação estranha me disse que inevitavelmente nos encontraríamos.»

bob dylan, crônicas - volume um, pg 277.

••••••••••••••

«ele parecia um caipira urbano, com os cabelos batidos em volta das orelhas e encaracolados no topo. deslocando o peso do corpo de um pé para o outro enquanto tocava, ele parecia pequeno por trás do violão. ele era um absurdo, sua jaqueta era de couro surrado, dois números menor do que o seu tamanho, andava sempre maltrapilho, mas tinha algo nele que o fazia maior do que ele parecia ser...»

.

«tentei convencer bobby a cuidar da saúde, a beber e fumar menos, a escovar os dentes, pentear o cabelo, tomar banho, trocar de roupa, essas coisas todas (...) ele é uma pessoa complicada, problemática e difícil. vejo bobby como um diamante levemente danificado na cabeça. mais sensível do que a média das pessoas. quando eu estava na plateia assistindo-o tocar, percebia quão facilmente ele ficava arrasado com um comentário ou com algo que passava! mas nunca se sabe quando ele sente essas coisas, porque ele é muito bom em ocultar tudo isso. na minha opinião, por alguma razão, ele quer se aliviar de toda a responsabilidade, para apenas sobreviver com o que as pessoas têm para oferecer. se você não se preocupa consigo mesmo de verdade, então não tem de se preocupar com mais ninguém. ele é assustadoramente inteligente, com um curioso imã dentro de si que nos atrai. quer dizer, eu amo bobby, e faria qualquer coisa por ele, sempre.»

.

«eu andava por aí roubando as músicas dele. quer dizer, literalmente. ele escreveu "four letter word", deixou cair atrás de um piano e esqueceu. eu peguei a música lá em casa e aprendi a tocar. um ano depois, eu estava cantando e ele disse: "eita, que música boa, de quem é?". e eu ri: "foi você que escreveu, seu idiota!".»

joan baez

••••••••••••••

parece que foi ontem
que deixei minha mente para trás
lá no café cigano
com uma amiga de uma amiga minha
que estava sentada com um bebê pesado no colo
mas falava de uma vida totalmente livre da escravidão
com olhos que não mostravam nenhum traço de sofrimento
uma frase me veio à mente, associada a ela:
que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

do lado de fora, na vitrine de uma loja desorganizada
gatos miavam até o raiar do dia
eu, por minha vez, mantive a boca fechada
para você, não tinha palavras a dizer
minha experiência era limitada e insuficiente
você falava enquanto eu me escondia
para aquele que era o pai do seu filho
você provavelmente não imaginou que eu tivesse ouvido, mas eu ouvi
você dizer que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

eu me despedi sem ser notado
empurrado para dentro dos meus próprios jogos
flutuando entre vidas
indescritíveis por nome
procurando meu duplo, buscando
a evaporação completa até o âmago
embora eu tenha tentado e falhado em encontrar qualquer porta
devo ter pensado que não havia nada mais absurdo
do que dizer que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

embora eu nunca tenha sabido exatamente o que você quis dizer
quando falava com seu homem
só consigo pensar em termos de mim
e agora eu entendo
depois de acordar vezes suficientes para achar que vejo
o beijo sagrado que deveria durar a eternidade
se transformar em fumaça, é o destino
recai sobre estranhos, viaja livremente
sim, agora eu sei, as armadilhas só sou eu quem arma
e eu realmente não preciso que me garantam
que amor é apenas uma palavra de quatro letras

é estranho estar ao seu lado
há muitos anos a situação se inverteu
você provavelmente não acreditaria em mim
se eu te contasse tudo o que aprendi
e é muito, muito estranho mesmo
ouvir palavras como «para sempre»,
frotas de navios passam pela minha mente,
não consigo enganar
é como olhar diretamente nos olhos do professor
não posso dizer nada a você, a não ser repetir o que ouvi
que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

love os just a four letter word | bob dylan (1967)
canta: joan baez

••••••••••••••

com 85 anos, e ainda jovem, baez parece saber coisas que sempre confundiram, e continuam a confundir o bardo.

••••••••••••••

«não consigo ver meu reflexo nas águas
não consigo expressar os sons que não revelam dor
não consigo ouvir o eco dos meus passos
nem lembrar o som do meu próprio nome»

dylan

••••••••••••••

ao vento

com o passar do tempo
o poeta errante e a morena estonteante
foram ficando cada vez mais distantes
quarenta anos depois, dylan emitiu um mea culpa:

«eu estava apenas tentando lidar com a loucura que se tornou minha carreira… não dá pra amar e ser esperto ao mesmo tempo... lamento ver esse relacionamento terminar.»

de sua parte, baez não guardou rancor, mas disse melancolicamente:

«meus instintos de mãe verteram porque ele era uma bagunça desalinhada... dylan é um diamante a ser lapidado... um poeta em estado bruto.»

a musa que me perdoe, mas lapidar dylan seria tirar dele o que o torna único. ele é um diamante porque permaneceu bruto.

••••••••••••••
diamantes e ferrugem

atrás
de nós
a paisagem
já é
memória
o tempo
corre
não
para a frente
mas
para dentro
meu destino
é ser pedra
o teu
diamante
o tempo
que corre
para dentro
é o mesmo
que oxida
o ferro
enquanto
você
faz silêncio
eu
pacientemente
espero
meu destino
é ser pedra
o teu
diamante
enquanto
você
fala
eu
berro

grill

••••••••••••••

você apareceu no cenário
já como uma lenda
a pedra bruta
o poeta errante
o vagabundo original
você veio para os meus braços
e lá ficou
sim, eu te amava demais
e se você está me oferecendo diamantes e ferrugem
eu já paguei

diamonds and rust | joan baez (1975)
(legendas em português)

••••••••••••••

#américas

segunda-feira, 13 de julho de 2026



pablo neruda
12 de julho de 1904
23 de setembro de 1973

••••••••••••••

«a poesia é uma insurreição»

pablo neruda

.

«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

.

a poesia não terá cantado em vão 

faz hoje cem anos precisamente que um pobre e esplêndido poeta, o mais atroz dos desesperados, escrreveu esta profecia: a l'aaurore, armés d'une ardiente patience, nous entrerons aux splendides villes (ao amanhecer, armados de uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades.)

eu creio nessa profecia de rimbaud, o vidente. venho de uma obscura província, de um país separado de todos os outros pela cortante geografia. fui o mais abandonado dos poetas e minha poesia foi regional, dolorosa e chuvosa. contudo, sempre tive confiança no homem. jamais perdi a esperança. por isso talvez tenha chegado até aqui com minha poesia, e também com minha bandeira. 

em conclusão, devo dizer aos homens de boa vontade, aos trabalhadores, aos poetas, que todo o porvir foi expressado nessa frase de rimbaud: só com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens.

assim a poesia não terá cantado em vão.

pablo neruda

.

américas 

no dia 18 de julho de 2004, ia ao ar pela rádio com 104.5 fm o programa américas «centenário de pablo neruda». o programa teve quase duas horas de duração e guardo esse registro até hoje em meus arquivos físicos. abaixo, transcrevo um resumo desse material.

••••••••••••••

centenário de pablo neruda 

.

poema para pablo neruda 

pablo nosso, que estás em teu chile,
vento no vento.
voz cósmica de um antigo caracol.
nós te dizemos:
obrigado pela ternura que nos deste.
pelas andorinhas que voam com teus versos.
de barco a barco. de galho a galho.
de silêncio a silêncio.
o amor dos homens repete teus poemas.
em cada calabouço da américa,
um rapaz se lembra de teus poemas.
pablo nosso, que estás em teu chile.
toda a paisagem guarda teu sonho de gigante.
a umidade da planta e da rocha,
lá no sul.
a areia desintegrada, no meio das vicunhas,
no deserto.
e lá em cima, o salitre, as gaivotas e o mar.
pablo nosso, que estás em teu chile,
obrigado pela ternura que nos deste.

https://www.youtube.com/watch?v=KnmTk7JljxE&list=RDKnmTk7JljxE&start_radio=1
atahualpa yupanqui

.

em 1969, quatro anos antes de morrer, pablo neruda escreve: « de parral não tenho recordações de infância. me levaram quase recém nascido a frontera. um jornalista conta que muito procurou o local onde nasci, sem encontrá-lo. eu tampouco o sei. agora, aos 65 anos, parral me recebe com carinho, porém sem me conhecer o bastante, já que minha vida transcorreu em outras geografias. mas ali está a sepultura de minha mãe e de toda minha família.»

.

todos tenemos parientes, tenemos
todos por algo lloramos, lloramos
somos de una vida corta, sabemos
todos siempre nos buscamos

como explicarnos el viento
que nos pega en este invierno
como explicarnos la muerte
que llega y es un recuerdo

como somos | piero 1969
(con letra completa)

.

«minhas principais recordações são de temuco, ao sul do chile. minha poesia ficou impregnada dessa paisagem. o mar, as montanhas e os rios daquela região me ficaram na alma, emaranhados. e continua a chover dentro de mim, como há exatos 65 anos em temuco quando eu ouvia calambitos temucanos.» 

.

https://www.youtube.com/watch?v=K8uzmvh9Ud4&list=RDK8uzmvh9Ud4&start_radio=1
calambito temucano | violeta parra (1962)
por inti illimanni

.

«mas para mim o sítio dos sonhos era puerto saavedra com a imensa desembocadura do rio cautín, o oceano de ondas como montanhas, as docas cobertas de areia que eu não conhecia. tive ali diante dos olhos os primeiros pinguins e os primeiros cisnes selvagens.»

.

susurraré mi historia a un trovador errante
sombra en busca de almas
para que la reparta junto a los fuegos
ocasionales tibios que depara el camino
a todos quienes sueñan con un cisne
salvaje

https://www.youtube.com/watch?v=rCtw4XEp_00&list=RDrCtw4XEp_00&start_radio=1
canción del trovador errante | silvio rodríguez (1994)

.

«puerto saavedra tinha também um bruxo de cabelo e barba branca. era o poeta d. augusto winter. ele vinha do norte. d. augusto era o bibliotecário da melhor biblioteca que eu já conheci: a biblioteca da minha infância. era pequenina, porém abarrotada de julio verne e salgari. eu menino de calça curta me instalava ali como se me tivessem condenado a ler em três meses de verão todos os livros escritos durante os longos invernos do mundo.»

.

es día de frío y llegas a casa.
vienes de la tarde cansada de un jueves.
los muebles, tu perro y millones de ojos
están, como siempre, esperando tu vuelta,
en la que presientes que nada ha cambiado.
te espera lo mismo, el sueño ha pasado.

https://www.youtube.com/watch?v=IWeczEdKZB0&list=RDIWeczEdKZB0&start_radio=1
canción de invierno | silvio rodríguez (1969)
(com letra completa)

.

«ali também me surpreenderam e apaixonaram os olhos negros e repentinos de maria parodi. trocamos bilhetes que eram verdadeiras cartas de amor bem dobrados para que desaparecessem em nossas mãos. mais tarde escrevi para ela o número 19 de meus 20 poemas de amor.»

.

poema 19

menina morena e ágil, o sol que coalha
os trigos, que dá os frutos e que torce as algas,
fez teu corpo alegre, teus olhos luminosos
e tua boca que tem o sorriso da água.

um sol negro e ansioso te enrola nos raios
de negras madeixas, quando esticas os braços.
tu brincas com o sol como com o estuário
e ele te põe nos olhos escuros remansos.

menina morena e ágil, nada em ti acerca.
tudo de ti me afasta, como do meio dia.
és a delirante juventude da abelha,
a embriaguez da onda, e a força da espiga.

meu coração sombrio te busca, sem demora,
e amo teu corpo alegre, a voz solta e delgada.
mariposa morena, doce e inalterável,
como o trigal e o sol, a papoula e a água.

pablo neruda

.

«agora, aos 65 anos, me dou conta que estive relatando coisas sem importância. aqueles porões e aqueles livros e aqueles olhos negros levou-os talvez o vento.»

.

a veces entra en el bosque un silbido veloz
que recorre fugaz la penumbra y la luz.
y los árboles fríos del bosque soy yo.

todas las copas se postran a fin de existir.
de no hacerlo, deshechas habrían de morir.
y ese viento que trae la muerte eres tú.

eres la llama que abrasa la flor
y la violencia del fiero huracán,
la sombra oscura que sigue mi amor.

¿por qué, por qué tú sigues ―di―
matando este amor que hoy dejas?

https://www.youtube.com/watch?v=DKMxIXXaIBA&list=RDDKMxIXXaIBA&start_radio=1
el viento eres tú | silvio rodríguez (1965)

.

ponto

nova linha

nova linha

outra história

.

pelotas, 13 de julho de 2026

.

«mi casa es su casa»

anônimo

.

«passei quase todo o ano de 1969 em isla negra. desde cedo o mar começa a se avolumar de forma fantástica. parece estar amassando um pão infinito. é branca como farinha a espuma derramada, impulsionada pelo fermento frio da profundidade.

o inverno é estático e brumoso. ao seu encanto acrescentamos todo dia o fogo da lareira. a brancura das areias na praia nos oferece sempre um mundo solitário, como era antes de existirem habitantes ou veranistas na terra.

no inverno as casas de isla negra vivem envoltas pela escuridão da noite. somente a minha se acende. às vezes penso que há alguém na casa defronte. vejo uma janela iluminada. é só um reflexo. não tem ninguém na casa do outro lado da rua. é a luz da minha janela que se reflete na sua.»

pablo neruda

.

«sempre me perguntam, especialmente os jornalistas, que obra estou escrevendo, que coisa estou fazendo. esta pergunta sempre me surpreendeu pela superficialidade. porque a verdade é que sempre estou fazendo a mesma coisa. nunca deixei de fazer a mesma coisa. poesia?

só soube muito depois que o que eu escrevia se chamava poesia»

(idem)

.

«en la distancia del silencio aprendí a soñarte mujer ausente»

autor desconhecido

.

poema 15

gosto quando calas e estás como ausente,
e me ouves de longe, e minha voz não te toca.
é como se teus olhos voassem de ti
e como se um beijo fechasse tua boca.

como tudo está repleto da minha alma
emerges das coisas, repleta da minha alma
mariposa de sonho, pareces minha alma
e pareces a palavra melancolia.

gosto quando calas e ficas distante e
como te queixando, mariposa em arrulho.
e me ouves de longe e minha voz não te alcança:
deixa que eu me cale com o teu silêncio.

deixa que te fale também com teu silêncio
claro como a lâmpada, simples como o anel.
és tal qual a noite, calada e constelada.
teu silêncio é de estrela, remoto e singelo.

gosto quando calas pois ficas como ausente.
distante e triste como se estivesses morta.
uma palavra então e só um sorriso bastam.
e fico alegre, alegre por não ser real.

pablo neruda

.

https://www.youtube.com/watch?v=RIqo1amFu_w&list=RDRIqo1amFu_w&start_radio=1
me gustas cuando callas | paco ibánez/pablo neruda (1977)

.

#américas

#pabloneruda

domingo, 12 de julho de 2026


causas e «azares»

(ainda estou aqui)

••••••••••••••

«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »
maria elizabeth gastal fassa

.

«vivências que constroem história... título: VIDA!»

cris valente

.

«são muito poucos os que ainda qurem ser rebeldes»

celso borges

••••••••••••••

cafés com história

no café el cairo, que não está no egito e sim na cidade argentina de rosário, roberto fontanarrosa, desenhista e escritor, tem sua mesa. ele morreu faz anos, mas jamais deixou de comparecer. e sempre acompanhado por seu cão mendieta e seu amigo inodoro pereyra, criados por ele.

no café tortoni, de buenos aires, foi fundado o primeiro grupo de artistas e escritores argentinos.

a academia brasileira de letras, presidida pelo romancista machado de assis, se reunia no café colombo, do rio de janeiro.

no café paraventi, na cidade de são paulo, olga benário e luiz carlos prestes imaginavam a revolução brasileira.

nos tempos do exílio, trotski e lênin discutiam a revolução russa no café central, em viena.

algumas obras primas do poeta português fernando pessoa foram escritas no café a brasileira, de lisboa.

enquanto nascia o século vinte, pablo picasso fez a exposição de suas obras no café els quatre gats, de barcelona.

em 1894, o escritor ferenc molnár jogou nas águas do danúbio, as chaves do café new york, de budapeste, para que ninguém trancasse a porta.

em 1921, foi inaugurado em chicago o sunset café, onde louis armstrong e benny goodman abriram as asas da sua música.

eduardo galeano | o caçador de histórias, p. 57 e 58.

••••••••••••••

qual é a relação que as causas e os «azares» (acasos) têm para você? existe destino para você? existe casualidade?

silvio rodríguez: – a casualidade e a «causalidade», as duas coisas. eu acredito em ambas. em última análise, e em grande medida, são elas que movem a todos nós, não é? ou seja, um segundo que você demora para se barbear ou para pegar algo e olhar, é um segundo que passa, é uma chance que você usou ou desperdiçou. cada instante está cheio disso, cada instante da vida é um pouco isso, não é? é como a urdidura completa que faz todo o tecido da existência.

.

*urdidura: fios longitudinais de um tear.

••••••••••••••

«a casualidade não existe, o que nos é apresentado como acaso surge das fontes mais profundas»

friedrich schiller

••••••••••••••

a causalidade é bem conhecida do pensamento cartesiano de causa e efeito.
entretanto alguns acontecimentos em nossas vidas escapam dessa lei.
são aqueles fenômenos que por vezes tomamos por simples coincidência, mas que escapam de qualquer explicação lógica.
a esses fenômenos carl jung vai chamá-los de sincoronicidade.

••••••••••••••

«sincronicidade é a união de eventos internos e externos de uma maneira que não pode ser explicada por causa e efeito e que seja significativa para o observador.»

carl jung

••••••••••••••

«enilton, irmão lindo da alma!

tu és um desses rebeldes, e como!

são oportunidades que vêm por períodos e momentos — quiçá, às vezes, predestinados ou seriam sincronicidades? essas de te encontrar vez ou outra por aqui e sempre me inspirares e me remeteres a reflexões.

caminho pouco por aqui. a juliana diz que não sei me divertir no facebook (e cumprir a função a que ele se destina). é que, quando entro, tropeço em tantas estupidezes que sempre decido sair... mas fico. acho que é também para te encontrar, ver e ler...

tchê, como diz um poeta alemão, tu és um cara realmente imprescindível e necessário para todos nós que lutamos por «um outro mundo possível».

obrigado por me inspirares a ter fé na eterna rebeldia.»

ubirajara cunha

••••••••••••••

ao vento

não sei nada de campo e cidade
sei de prantos e reciprocidades
sei de santos e sincronicidades

grill

••••••••••••••

quando acabar este verso que canto
eu não sei ― yo no sé, madre mía ―
se me espera a paz ou o espanto,
se o agora ou se o ainda.
pois as causas estão me cercando
cotidianas, invisíveis.
e o acaso vem se enredando em mim
poderoso, invencível.

causas y azares | silvio rodríguez (1986)

••••••••••••••

«nada é coincidência...
ninguém cruza o seu caminho por acaso.
alguns chegam como espelhos.
outros como remédio.
outros como mensageiros que você só reconhecerá quando a lição finalmente se revelar.
cada encontro transforma alguma coisa: uma crença, um limite, uma versão de você que precisava morrer para que outra pudesse renascer.
o momento nunca é aleatório.
a alma orquestra aquilo que a mente não consegue explicar.
por isso, preste atenção em quem aparece quando você acha que já terminou de crescer.
essa pessoa pode ser o lembrete, o gatilho ou a chave que abrirá a próxima porta.»

scarlet seixas

••••••••••••••

«quantas vezes a gente, em busca da ventura,
procede tal e qual o avozinho infeliz:
em vão, por toda parte, os óculos procura,
tendo-os na ponta do nariz!»

mario quintana

••••••••••••••

«nada posso lhe oferecer que não exista em você mesmo. não posso abrir-lhe outro mundo além daquele que há em sua própria alma. nada posso lhe dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave.»

hermann hesse

••••••••••••••

«e de repente
o resumo de tudo é uma chave.
a chave de uma porta que não abre
para o interior desabitado
no solo que inexiste,
mas a chave existe.»

carlos drummond de andrade

••••••••••••••

«eu sinto como que se tudo que eu tivesse feito na vida
foi pra encontrar um caminho
pra chegar até aqui
e te conhecer.»

de clint eastwood para meryll streep | em «as pontes de madison»

••••••••••••••

dói na alma
por isso choramos,
mesmo depois de termos visto essa cena (link abaixo) infinitas vezes.

a gente sempre espera que dessa vez a chave funcione
que a maçaneta gire na caminhonete sob a chuva forte,
que francesca finalmente abra a porta e mude o destino.

et à la fin... sur la route de madison │ tcm cinéma
(clique no link acima)

••••••••••••••

caminhos de si

«a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida», dizia o poeta. por isso, é preciso que estejamos receptivos e atentos ao mundo ao nosso redor, pois «a todo instante rola um movimento, que muda o rumo dos ventos». de repente, do nada, o amor bate à porta. e descobrimos que ele é a chave. a chave mestra? a chave para si mesmo.

no entanto, contudo, todavia...

«é preciso viver para ver
como soube crescer
tanto mistério na flor

é preciso viver para ver
como é difícil saber
que signo carrega o amor»

••••••••••••••

jungianas

dos sinais:
guias.

dos símbolos:
definições.

da vida:
estrada aberta.

da morte:
verdade absoluta.

grill

••••••••••••••

há uma canção que se vai quando chego
suspeito que seja um tema total
uma chave-mestra de todos os jogos
um pássaro eterno e um sol colossal

há uma canção que me esconde seu fogo
há uma canção que será meu final

que signo lleva el amor | silvio rodríguez (1984)

••••••••••••••

fotos:

casa edmundo berchon
pelotas, janeiro de 2009

minifúndio café
pelotas, novembro de 2007

condomínio caravelas
são luís, novembro de 2008

ubirajara cunha e eu
minifúndio café
novembro de 2007

••••••••••••••

sua respiração é doce
seus olhos são como duas jóias no céu
sua postura é ereta, seu cabelo é macio
no travesseiro onde você repousa
mas eu não sinto afeição
nem gratidão nem amor
sua lealdade não é por mim
mas para as estrelas do céu

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

seu pai é um foragido e um traficante
ele te ensinou como selecionar e escolher e atravessar uma faca
ele supervsiona seu reino e assimnenhum estranho se intromete
sua voz treme e ele reclama por mais um prato de comida

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

sua irmã prevê o futuro assim como você e sua mãe
você não sabe ler nem escrever
não há livros na sua estante
e seu prazer não conhece limites
e sua voz soa como a de uma cotovia
mas seu coração é como um oceano
misterioso e sombrio

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

one more cup of coffee | bob dylan (1975)

••••••••••••••

#carpe diem
#bom domingo