domingo, 20 de setembro de 2026


o eterno retorno

«é tempo de chuva, é tempo de chuva.
e num dia mais triste que todos,
triste por toda a terra,
triste de mim até ao lobo,
dormimos e acordamos
com um tigre entre os olhos. »

miguel hernández


a volúpia dos deuses

[por guilherme arantes]
não representam nenhuma novidade para a psicologia a construção clássica e o modus operandi dos personagens-coringa público-privados, na privada das lendas palacianas deste velho mundo podre, tais como daniel vorcaro e seu colega ianque jeffrey epstein, pirilampos célebres nos ambientes do poder, misturando corrupção financeira com degradação moral, em meandros da mais requintada cafetinagem, envolvendo proxenetismo com jogos de influência e chantagem... as autoridades misturadas com personalidades da fama, manipulando obscenos bilhões e pessoas-de-programa, fascinando e aprisionando em sua gosma pegajosa os rompantes aliciadores e bacantes aliciados num grande trelelê de escândalos e alcovas proibidas, a clássica manipulação de fotos e falas comprometedoras, uma galeria de espelhos de vaidades, relicários gongóricos de ostentações e múltiplas falácias fálicas...

são ilhas inatingíveis à ignara plebe das pessoas comuns, festas proibidas e proibitivas de poderosos em jantares nababescos regados a libações de néctares estratosféricos e divinais, onde a exclusividade conferida pelas senhas do poder é a iguaria suprema saboreada pela sanha insaciável da auto-indulgência de deuses acima de qualquer noção de razoabilidade, decência ou vergonha-na-cara.

a volúpia dos deuses não contempla tais firulas, e nem filigramas de requinte moral, é desprovida de auto-questionamento, de pruridos morais.

a volúpia dos deuses goza de prerrogativa de função no universo.

até serem pegos com a boca-na-botija.

muitos «são suicidados».

e os que mandam mesmo, providencialmente esquecidos na paz da amnésia da conveniência.

a história é pródiga de histórias assim.

a volta de martim fierro

a lei é teia de aranha,
em minha ignorância tentarei explicar,
não temam os ricos,
nem jamais os que mandam,
pois o bicho grande a destrói
e só aos pequeninos aprisiona.
a lei é como a chuva, nunca pode ser igual para
todos.
quem a suporta se queixa,
mas a explicação é simples;
a lei é como a faca que não fere quem a impunha.

josé hernández

lá por maldonado
que hoje corre escondido e cego,
lá, no bairro cinza
que o pobre carriego cantou,

atrás de uma porta entreaberta
que dá para o pátio da videira,
onde as noites ouviram
o amor da guitarra,

haverá uma caixa e, no fundo,
dormirá com brilho intenso,
entre aquelas coisas que o tempo
sabe esquecer, uma faca.

era daquele saverio suárez,
mais conhecido como «el chileno»,
que em antros e eleições sempre provou que era bom.
os garotos, que são o diabo,
vão procurá-la com discrição
e vão testar na ponta
se o fio não está cego.
quantas vezes ela terá penetrado
na carne de um homem
e agora está abandonada e sozinha,
à espera de uma mão,

que é pó.
atrás do vidro
que douram um sol amarelo,
através dos anos e das casas,
estou te vendo, faca.

[clique no titulo para ouvir]

(délibab, 2010)
feat. carlos moscardini

nota: lançado em 2010, délibáb é o nono álbum do cantor e compositor vitor ramil, composto inteiramente por milongas baseadas em poemas de jorge luis borges (em espanhol) e joão da cunha vargas (em português).

falando em faca
tá tudo bem, mãe
só estou sangrando

«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »
bebeth fassa

ihu on-line – qual o papel dos escritos de thoreau na américa de trump?

kelly dean jolley – há uma ideia, da qual me convenci já faz um tempo, a saber, de que quanto mais consciência moral nós temos, mais nos apercebemos. walden é escrito para a consciência moral individual (não há consciência moral não individual, a consciência moral sempre possui proprietário individual). ao presidente trump, até onde posso dizer, não apenas lhe falta uma consciência moral, mas ele possui uma aversão à consciência moral. (quem é trump para dizer a trump o que ele pode ou não pode fazer?) uma importante razão para isso é que ele próprio não parece querer ser mais consciente, e ele por certo não quer que outros sejam mais conscientes. ele aprisionaria a todos nós em um dúbio crepúsculo – um crepúsculo no qual nos reconciliaríamos com nossas limitações de consciência moral e apercepção por meio do flerte com coisas: telefones celulares, televisões de tela plana, roupas e carros. a saciedade substitui a clareza. thoreau nos forçaria a abandonar este dúbio crepúsculo, saindo para a clara luz do sol. ele nos redirecionaria das nossas relações com as coisas para nossa relação com nós mesmos. eu não sei se thoreau pensaria que as linhas mais cruciais de resistência a trump seriam traçadas entre os grupos nas ruas de washington ou de... qualquer outro lugar da américa. eu não sei se ele pensaria que as linhas de resistência seriam traçadas entre qualquer «nós» e «eles». a linha mais crucial de resistência deve dividir o nosso próprio coração: eu devo ver meu rosto contra o trump em mim mesmo, contra a gélida preguiça autoindulgente que ameaça eventualmente me consumir. se finjo que não tenho um trump em mim mesmo, fortaleço tanto este trump quanto aquele na casa branca. meu palpite sobre o conselho de thoreau para nós na américa de trump (até mesmo, me atrevo a dizer, no mundo de trump) – desobedeça a si mesmo! não, obviamente, no sentido de uma consciência moral desleixada, mas no sentido de adquirir um autocomando efetivo, com força e temperança suficiente para realmente fazer aquilo que a justiça revela ser o correto. se não podemos dizer não para nós mesmos, como podemos dizer não para trump?

its alright ma , (im only bleeding)
a escuridão sem a lua, as sombras dos talheres de prata, a lâmina feita a mão, o balão da criança, eclipses do sol e da lua. é dificil compreender o que você entendeu cedo demais: que não há sentido em tentar.

gritos e amaeças já nascem mortas. observações suicidas são precipitadas como as dentaduras feitas com ouro dos tolos. a corneta sopra palavras ao vento, pois quem não se ocupa em nascer, está ocupado em morrer.

a tentação voa. você vai atrás. se vê em guerra. assiste as cataratas rugindo. quer lamentar. mas só antes de descobrir, que vai ser só mais um a chorar

então não tema, se ouvir um som estranho ao seu ouvido.
está tudo bem, mãe, eu só estou suspirando.

enquanto uns anunciam a vitória, outros anunciam a derrota. razões pessoais importantes ou insignificantes podem ser vistas nos olhos daqueles que dizem que tudo o que rasteja deve ser destruído. e outros dizem: não tenha ódio a absolutamente nada, exceto ao próprio ódio.

palavras desiludidas pipocam como balas enquantos deuses humanos miram em seus alvos. eles fizeram tudo, desde armas de brinquedo que faíscam, a cristos coloridos que brilham no escuro. é fácil ver sem olhar muito longe que quase nada é realmente sagrado.

enquanto os pregadores pregam sobre destinos malignos, os professores ensinam que o conhecimento está à espera. pode gerar pratos de centenas de dólares. a bondade se esconde atrás de seus portões. mas até mesmo o presidente dos estados unidos às vezes precisa ficar nu.

e embora as regras da estrada estejam estabelecidas,
são apenas os jogos das pessoas que você precisa evitar
e está tudo bem, mãe, eu consigo

anúncios publicitários lhe convencem de que você é o único. que pode fazer o que nunca foi feito. que pode ganhar o que nunca foi ganho. enquanto isso, a vida lá fora continua ao seu redor.

e repente você descobre que não tem nada a temer. sozinho você permanece sem ninguém por perto quando uma voz trêmula e distante surpreende seus ouvidos adormecidos. aí você pensa que eles realmente lhe encontraram.

algo incita seus nervos, porém você sabe que não há nenhuma resposta apropriada, então assegure-se que você não vai desistir e não esqueça de que você não pertence a ele ou a ela ou a isto ou àquilo.

os mestres fazem as regras para os sábios e ignorantes.
eu não tenho nada a provar, mãe.

alguns obedecem às autoridades, outros não respeitam nada de forma alguma, alguns desprezam os seus empregos e seus destinos, falam com inveja dos que são livres e cultivam suas flores para serem nada mais do que algo em que investiram.

enquanto alguns batizados são plataformas para comícios, cofres são disfarçados em clubes sociais à luz do dia. intrusos podem entrar livremente e só dirigem a palavra a quem eles idolatram. e depois dizem «deus o abençoe».

enquanto um canta com sua língua em fogo, outro gargareja no côro das ratazanas esforçando-se para adaptar-se aos ditames da sociedade. não se incomode em subir mais alto, pois antes que você caia num buraco, ele vai estar lá. mas, enfim, eu não tenho intenção de prejudicar nem de culpar ninguém que viva num sepulcro.

mas tudo bem, mãe, se eu não conseguir agradá-los.

velhas juízas observam os casais. elas são frustradas sexuais. se atrevem a impor a falsa moral, insultar e censurar. enquanto o dinheiro não aparece, elas falam obscenidades, mas quem realmente se importa? tudo é falso como uma propaganda. elas defendem o que não podem enxergar. a consciência sopra amargamente nas mentes daqueles que pensam que a morte não cairá sobre eles naturalmente. às vezes a vida pode ser muito solitária. meus olhos batem de frente com cemitérios lotados de deuses falsos, eu me arrasto algemado e caminho de cabeça baixa. eu chuto minhas pernas para romper com tudo. eu digo: «basta! eu já tive o bastante. o que mais você pode me mostrar?". e se os meus sonhos pudessem ser vistos, eles provavelmente colocariam minha cabeça numa guilhotina.

mas está tudo bem, mãe, é a vida e nada mais.
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[(sydney south wales, australia feb 24th & 25th, 1986]

(bob dylan, 1965)


falando em vida


«chego ao meu centro,
à minha álgebra e à minha chave,
ao meu espelho.
em breve saberei quem sou.»

borges


«quando vieram buscá-lo no jardim, eles sabiam?
eles sabiam quem ele era?
sabiam que ele tinha o poder de curar os cegos e fazê-los ver?
sabiam que ele fez os coxos andarem e os mudos falarem?
sabiam que ele era o filho de deus, eles sabiam?
quando ele andou sobre as águas, eles sabiam?
quando multiplicou os pães, eles sabiam? s
abiam que ele havia ressuscitado dos mortos?
ou achavam que ele era apenas mais um homem?

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[legendado em português]

(saved, 1980)

«vocês sabem que estamos vivendo o fim dos tempos... as escrituras dizem: "nos últimos dias, tempos perigosos estarão próximos... dê uma olhada no oriente médio. estamos caminhando para uma guerra... eu disse a vocês “the times they are a-changin” e eles mudaram. eu disse que a resposta era "blowin’ in the wind" e foi. estou lhe dizendo agora que jesus está voltando, e ele está! e não há outro caminho de salvação... jesus voltará para estabelecer o seu reino em jerusalém por mil anos.»
bob dylan. sermão, 1978


e se cristo voltasse...

«se cristo voltasse, nós o crucificaríamos novamente. mas desta vez, na televisão. por uma temporada, nós o transformaríamos em um astro, o maior fenômeno de massa já visto, e então o jogaríamos fora como um lenço de papel usado.»

.

«se cristo voltasse, apareceria um judas que o trairia, um pedro que o negaria três vezes, um tomé que colocaria os dedos em sua ferida após sua morte, um pilatos que lavaria as mãos e um barrabás que, sem nenhum mérito, seria preferido a ele pela chusma que todos nós somos. uma chusma veleta , que mais uma vez gritaria para que ele fosse crucificado.»

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[legendado en español]

(por jesús quintero)

nietzsche usa o eterno retorno para que você se torne o dono absoluto da sua história; borges usa o eterno retorno para mostrar que a história é um livro infinito onde nós somos apenas personagens passageiros.

não há caminhos que eu deva seguir,
não tenho certeza se vou te encontrar,
grito teu nome,
que o eco me devolve em nomes sem sentido,

não há sinais que eu deva seguir,
não tenho uma pista sequer pra te achar,
um junkie cansado,
o tempo me consome em ondas de desejo.

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(foi no més que vem, 2013)
feat. ian ramil

budapeste, 1991
foi na venerável budapeste - no terraço do buda penta hotel - que bob dylan, de roupa preta e botas de cowboy (que ele jamais parece trocar), deu sua primeira entrevista com mais de três minutos nos últimos cinco anos.

caderno 2 - o início deste seu world tour/91 foi um pouco tenso. a iugoslávia, primeiro pais do leste europeu no qual você se apresenta em 30 anos de carreira, também passa por um momento de tensão. como vê o que está acontecendo no leste nesses últimos dois anos?
bob dylan - você está dizendo que acha que a turnê começou tensa?

caderno 2 - bom, um pouco, não é?
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por quase um minuto )

caderno 2 - bem, de qualquer maneira, como vê a situação do leste europeu, agora que está aqui pela primeira vez?
bob dylan - já estive aqui antes, em 78 ou 79. de férias... ( pausa por quase um minuto)... você conhece a história da europa central e do leste europeu?

caderno 2 - um pouco.
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por quase um minuto ) então deve saber que esses países não são realmente países com unidade nacional significativa, muito menos unidade étnica. foram criados, fabricados. não são orgânicos - foram, são uma espécie de joguete no tabuleiro das grandes potências.

caderno 2 - você é a favor dos movimentos separatistas, então?
bob dylan - realmente não me interesso muito por governos e por estados.

caderno 2 - o melhor governo é aquele que não governa.
bob dylan - sim, thoreau sempre esteve certo. hum...( pausa por uns 30 segundos ) é sobre isso que você quer falar? você já leu thoreau? o que você sabe de thoreau? você conhece a obra de thoreau?

caderno 2 - bem, um pouco.
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por uns 15 segundos ) acho que já falamos mais do que o suficiente, não acha?

henry david thoreau

em julho de 1845, desgostoso com o crescente comercialismo e industrialismo da sociedade americana, henry david thoreau (1817 - 1862) deixou concord, massachussetts, sua cidade natal, para instalar-se à beira do lago walden. publicado primeiramente em 1854 com o título «walden ou a vida nos bosques», este é o relato dos dois anos, dois meses e dois dias em que o autor viveu apartado da sociedade dos homens, suprindo as próprias necessidades, estudando, contemplando a natureza e conhecendo-se a si mesmo.

«fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido.»
antes disso, em 1849, thoreau escreveu em seu livro «desbediência civil» sobre a diferença entre legal e justo:

«não é desejável cultivar o respeito pela lei no mesmo nível do respeito pelo direito. ã única obrigação que tenho o direito de assumir é fazer a qualquer momento o que considero certo.»

noutras palavras: obedecer a lei não é neutro — se a lei é injusta, obedecer é escolher um lado.
«não pretendo escrever uma ode á melancolia, e sim trombetear vigorosamente como um galo ao amanhecer, no alto de seu poleiro, quando menos para despertar meus vizinhos.»
henry david thoreau

«thoreau foi uma espécie de júlio verne que, em vez de descrever as maravilhas do futuro, anteviu os desatinos de um modelo desenvolvimentista que nunca quis levar em conta a preservação da natureza. previu o advento de um consumismo viciante e vicioso; viu os tempos em que a privacidade deixaria de ser um recurso natural renovável para se tornar bem descartável; ouviu os gritos surdos da maioria silenciosa. e preferiu se retirar para trocar as penas.

junto aos galos; longe dos lunáticos.»

eduardo bueno (peninha)

a oralidade

sempre modesto, ao contrário de dylan e peninha, mas sem deixar de aludir a modelos gloriosos - sócrates, pitágoras, cristo, buda - e a outros mais próximos, como macedonio fernández, borges (1899-1986) apresentava-se, na última etapa de sua vida, como um grande mestre da oralidade. a princípio tímido e reservado, a ponto de se ocultar em meio à plateia e pedir a um amigo para ler a conferência que redigira, com os anos e a progressiva cegueira, o escritor argentino tornou-se um narrador oral, como se quisesse dissolver-se na tradição épica dos narradores anônimos. a tradição daqueles cuja arte havia procurado imitar na prosa de seus relatos, em parte derivados dos livros que aprendera a amar desde menino na biblioteca do pai, mas muitas vezes também inspirados pelas histórias de valentões de arrabalde nos arredores de sua casa no velho bairro de palermo, numa buenos aires mítica do começo do século xx.

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corre o vento e o mississipi passa...

nas primeiras páginas de «história universal da infâmia», obra de jorge luís borges, que ganhei de um poeta, « pássaro de mesma plumagem», está escrito:

o pai das águas, o mississipi, o rio mais extenso do mundo, foi o digno teatro desse incomparável canalha. (alvarez de pineda o descobriu e seu primeiro explorador foi o capitão hernando de soto, antigo conquistador do peru, que distraiu os meses de prisão do inca atahualpa ensinando-lhe o jogo de xadrez. morreu, e lhe deram como sepultura as suas águas.)

o mississipi é rio de peito largo; é um infinito e obscuro irmão do paraná, do uruguai, do amazonas e do orinoco. é um rio de águas mulatas; mais de quatrocentos milhões de toneladas de lama insultam anualmente o golfo do méxico, descarregadas por ele. tanto lixo venerável e antigo construiu um delta, onde os gigantescos ciprestes dos pântanos crescem sobre os despojos de um continente em perpétua dissolução, e onde labirintos de barro, de peixes mortos, de juncos, dilatam as fronteiras e a paz de seu fétido império. mais acima, na altura do arkansas e do ohio, também se alongam as terras baixas. habita-as uma estirpe amarelenta de homens esquálidos, propensos à febre, que olham com avidez as pedras e o ferro, porque entre eles não há outra coisa senão areia e madeira e água turva.

recentemente, eu estava ouvindo o álbum «together through life» e me fez perceber novamente como a voz de bob dylan, com a idade, se aproxima cada vez mais dos blueseiros tradicionais. co o tempo, a voz do bardo ganhoeu apereza e profundeza.

em «i feel a change comin' on», uma das músicas do álbum, há essas palavras impressionantes: «eu tenho o sangue da terra na minha voz». será que é a terra dos antepassados, da qual ele transmitiu a riqueza desde os seus primeiros dias? ou ele fala de uma terra rochosa e desgastada que carrega todas as desgraças do mundo, assim como todas as decepções, assim como todas as esperanças?

mas esta terra pode simplesmente ser a que se encontra no mississippi, que se estende pelo sul dos estados unidos, desde o texas até a louisiana, sem esquecer o mississippi.

seus dias estão contados, assim como os meus. o tempo está se acumulando, lutamos e nos esforçamos. estamos todos encurralados, sem escapatória. a cidade é uma selva, mais jogos para jogar. presos no coração dela, tentando escapar. fui criado no interior, trabalho na cidade. estou em apuros desde que larguei minha mala. não tenho nada para você, eu não tinha nada antes. não tenho mais nada nem para mim mesmo.
céu pegando fogo, a dor caindo como chuva não me venha vender nada, te vejo em outra ocasião. toda a minha capacidade de expressão e pensamentos tão sublimes jamais te fariam justiça em razão ou rima. só uma coisa que fiz de errado: fiquei no mississippi um dia além da conta.

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[legendado em português]

(love and theft, 1996)

rolling stone: você não se considera uma voz especialmente norte-americana pela maneira como suas músicas fazem referência à história?

bob dylan: elas são históricas. mas também são biográficas e geográficas. elas representam um estado mental específico. um território específico. o que os outros pensam a meu respeito é totalmente irrelevante. deixe-me mostrar uma coisa... olhe só quem escreveu este livro [hell’s angel, de sonny barger]: keith zimmerman e kent zimmerman. esses nomes lhe parecem familiares? vou fazer uma referência a um lugar aqui. leia isto em voz alta:

«um dos primeiros presidentes dos berdoo hells angels foi bobby zimmerman. quando estávamos voltando para casa em 1964, bobby estava em sua posição de costume quando o escapamento caiu da moto dele. ao fazer um retorno rápido, jack egan o atingiu em alta velocidade e o matou no mesmo instante. nós arrastamos o corpo sem vida de bobby para o acostamento.»

bob dylan: sabe como isso se chama? chama-se transfiguração. bom, está olhando para alguém assim.

de volta a borges

em borges, a transfiguração quase nunca é um milagre físico ao modo mítico tradicional, mas sim epifânica e metafórica: é a noite em que um homem descobre seu verdadeiro rosto, o instante em que a memória humana toca o infinito, ou a magia da linguagem que converte a dor e o tempo escorrido em espelhos da eternidade.

biografia de tadeo isidoro cruz

neste texto de el aleph, o sargento cruz (personagem do martín fierro) está caçando um desertor cercado. no meio da noite e do combate, ao ver a coragem do homem encurralado, cruz compreende subitamente quem ele realmente é. em uma noite de revelação, sua identidade transfigura-se: ele deixa de ser o perseguidor da lei para se juntar ao perseguido, selando seu destino em um único instante eufórico.

vamos aos fatos
aspas para borges

«os fatos aconteceram assim:

nos últimos dias de junho de 1870, cruz recebeu ordem de prender um desertor que devia duas mortes à justiça; o relatório acrescentava que procedia de laguna colorada. daí saiu o desconhecido que gerou cruz e que pereceu numa vala; cruz esquecera o nome do lugar, mas, com leve e inexplicável inquietude, reconheceu-o.

o criminoso, acossado, foi encurralado na noite de 12 de julho num palhegal. a treva era quase indecifrável; cruz e os seus avançaram. gritou uma chajá; tadeo isidoro cruz teve a impressão de já ter vivido esse momento.

o criminoso saiu do abrigo para combatê-los. cruz o entreviu, terrível; a crescida cabeleira e a barba cinzenta pareciam comer-lhe a face. o desertor feriu gravemente ou matou vários dos homens de cruz.

este, enquanto combatia na escuridão (enquanto seu corpo combatia na escuridão), começou a compreender. compreendeu que um destino não é melhor que outro, mas que todo homem deve acatar aquele que traz consigo. compreendeu que as divisas e o uniforme já o estorvavam. compreendeu seu íntimo destino de lobo, não de cachorro gregário; compreendeu que o outro era ele.

amanhecia na imensa planície. cruz atirou por terra o quepe, gritou que não ia consentir no delito de que se matasse um valente e pôs-se a lutar contra os soldados, junto com o desertor martín fierro.»

de volta ao mississippi

«eu tenho um sonho que um dia, até mesmo o estado de mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.»
martin luther king
[agosto 28, 1963]

mississippi, 2 de julho de 1963

o student non-violent coordinating committee (sncc) organizava comícios no mississippi para registrar eleitores negros. theodore bikel sugeriu a albert grossman que dylan participasse: «acho que bob deveria ir... sentir como é o sul», e pagou a passagem. voaram juntos de nova york a jackson, com bob escrevendo letras nos versos de envelopes, e seguiram para greenwood. na manhã do evento, viajaram deitados no carro para evitar a polícia local: «se os tiras vissem um carro com negros e brancos misturados... o levariam para a cadeia. neste caso, só restaria torcer para que o pior não acontecesse...»

o comício reuniu cerca de trezentas pessoas, a maioria trabalhadores rurais afro-americanos, sob o olhar de policiais e grupos de brancos do outro lado da rodovia. lá, dylan reuniu-se a pete seeger e the freedom singers. «o que eu me lembro é do negro que discursou», diz seeger. «ele tinha um sorriso feroz, como se soubesse que estava ganhando e que a ku klux klan não sabia o que fazer com isso. ele sabia que alguns de nós seríamos mortos, mas eles não conseguiriam matar todos.» bob cantou «only a pawn in their game», sua música sobre o assassinato de medgar evers, morto a tiros um mês antes. dylan cantou que o assassino era um peão em um jogo de ignorância, preconceito e ódio. ele ficou inclinado para frente enquanto cantava, sem nunca sorrir para as câmeras que estavam a postos para registrar o evento para a televisão e os jornais. aquilo era sério e exigia uma postura séria. como diz seeger: «uma das coisas mais importantes de bob é o fato de ele se recusar a sorrir para as câmeras.»


mas o branco pobre é usado na mão de todos como ferramenta
ensinam para ele na escola, desde o início e como regra
que as leis o respaldam, para proteger sua pele branca,
para alimentar seu ódio, assim que nunca pensa conscientemente
sobre o contexto em que vive, mas não há que culpá-lo
ele não é mais que um peão no jogo

clique no título para ver e ouvir
[legendado em português]

(bob dylan, 1963)


tenesse, 7 de janeiro de 2023
a família de tyre nichols, um homem negro que morreu após ser agredido por policiais no estado do tennessee, nos estados unidos, o descreve como uma «alma linda», apaixonada por skate, pôr do sol e fotografia.

«ninguém é perfeito, mas ele chegou perto», disse a mãe dele, rowvaughn wells, em uma coletiva de imprensa ao lado de familiares e apoiadores. nichols foi brutalmente agredido por policiais em 7 de janeiro, quando o carro dele foi parado pelos agentes. imagens gravadas pelas câmeras nos uniformes dos policiais mostram o jovem chorando e chamando pela mãe enquanto era socado e chutado múltiplas vezes.

ele foi hospitalizado e morreu três dias depois, em 10 de janeiro. agora que as imagens vieram à tona, a morte do jovem tem causado grande revolta nos eua. os policiais inicialmente disseram que pararam o carro de nichols porque ele estaria dirigindo de maneira imprudente, mas a acusação não foi comprovada.

wells, visivelmente triste, abriu um sorriso raro ao descrever seu filho, durante a entrevista coletiva à imprensa.

nota: nichols era negro, assim como todos os cinco policiais acusados de seu assassinato.


«quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor».


paulo freire vive.

de volta a borges
(o eterno retorno)

os homens

em princípios do século xix, as vastas plantações de algodão eram trabalhadas por negros, de sol a sol. dormiam em cabanas de madeira, não sabiam ler e sua voz cantava num inglês de vogais lentas. trabalhavam curvados sob o rebenque do capataz; se fugiam, cães de caça os rastreavam.

a um sedimento de medos africanos haviam agregado as palavras da escritura, e o mississipi servia-lhes de magnífica imagem do sórdido jordão.
os proprietários dessas levas de negros eram ociosos e ávidos senhores. um bom escravo não durava muito, e devia-se tirar dessas incertas criaturas o maior rendimento. a terra, fatigada por essa cultura impaciente, ficava exausta, e no deserto confuso e enlodaçado viviam os poor whites, a canalha branca, que mantinha em sua prostração um orgulho: o do sangue sem tisne, sem mescla. lazarus morell foi um deles.

o homem

os daguerreótipos de morell não são autênticos; é verosímil supor que se negou à placa para não deixar rastos e alimentar o seu mistério. os anos conferiram-lhe essa peculiar majestade que têm os canalhas envelhecidos. era um cavalheiro antigo do sul que não desconhecia as escrituras e pregava com rara convicção. «eu vi lazarus morell no púlpito», anota o dono de uma casa de jogo, «e escutei as suas palavras edificantes. sabia que era um adúltero, um ladrão de negros e um assassino, mas também meus olhos choraram».

outro testemunho dessas efusões é o do próprio morell:

«abri a bíblia ao acaso e preguei uma hora e vinte minutos. tampouco desperdiçaram esse tempo crenshaw e os companheiros, porque levaram todos os cavalos dos que estavam a ouvir. vendemo-los no estado de arcansas, exceto um avermelhado, que reservei para meu uso particular.»

jorge luis borges, em «história universal da infâmia» (1935), p. 15-17.

de jorge luis borges a robert zimmerman
do mississippi à paraíba

– zé, você não segue nenhum tipo de religião – ao contrário, sua visão sobre elas é bastante crítica – mas sua música e poesia emanam uma grande religiosidade... vemos tanta intolerância na fé, no entanto a aspiração pelo divino é inerente ao ser humano...

zé ramalho da paraíba: as ideologias religiosas foram responsáveis por grandes morticínios ao longo da história. é a violência num caminho que deveria conduzir à paz. temos de encontrar o caminho dentro da nossa própria consciência.

creio que as religiões desaparecerão no futuro. elas promovem a divisão: «a minha verdade é sempre a melhor». quando ficamos em silêncio, refletimos sobre o além. isso aqui é só um estágio; para partirmos tranquilos, temos de estar de bem conosco, aqui e agora. quando eu morrer, gostaria que minhas cinzas fossem espalhadas onde nasci. a morte é só o encerramento de um ciclo, tenho certeza da continuidade.

se examinarmos a questão de forma crítica, veremos os horrores feitos «em nome de deus». o que chamamos de «história» é só uma interpretação conveniente aos detentores do poder; não recebemos fatos, mas pontos de vista parciais.

hoje a guerra virou videogame, movida por computadores e manipulada por forças obscuras. como diz bob dylan em «gotta serve somebody», do álbum «slow train coming», todo mundo tem de servir a alguém, a deus ou ao diabo. é dessa força sinistra que falo, algo que move pessoas desde o início da raça humana...


você pode estar na mídia sem saber porque
você pode ser dono de uma rede de tv
você pode dar o fora tendo tudo pra ficar
adotar um nome diferente, você pode mesmo se isolar

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

[clique nos título para ouvir]

(slow train coming, 1979)
.
(tambong, 2000)
versão vitor ramil [part: lenine]

e o homem da esquina rosada?

borges tinha algumas obsessões: os tigres, os labirintos, o livro das mil e uma noites, o tempo, o mundo do tango. deste último tema surgem poemas (como o tango: «uma mitologia de punhais lentamente se anula no esquecimento») e este conto magnífico, homem da esquina rosada.

nele se conta uma história ambientada numa espécie de faroeste argentino, um mundo de compadritos que vivem se desafiando à ponta de faca, sem motivos aparentes, só pelo desafio mesmo — para provar quem é o homem mais valente.

homem da esquina rosada, a última das histórias de história universal da infâmia antes do capítulo final feito de fragmentos (etcétera), tem tudo aquilo que faz parte da imagem de marca de borges: enumeração, associação, crescendo, um enigma insolúvel. trata-se de uma história de covardia e coragem onde é o próprio narrador que assinala a estocada final, despedindo-se do leitor e trazendo a infâmia descaradamente para o nosso mundo:

«parti tranquilamente para o meu rancho, que ficava a uns três quarteirões dali. ardia na janela uma luzinha, que em seguida se apagou. por certo que me apressei a chegar, quando tal vi. então, borges, voltei a tirar a navalha curta e afiada que eu sabia trazer aqui, no colete, ao pé do sovaco esquerdo, e olhei-a lentamente, e estava como nova, inocente, e não guardava nem um fio de sangue.» 

ao vento

racismo. fascismo. xenofobismo. klan. trump. globo. aécio. temer. moro. ustra. bolsonaro. tortura. opressão torácica. dispneia. ânsia. medo. horror. desespero. você está cercado de canalhas, sofre um golpe, é enterrado vivo, vê cruzes em chamas, tenta gritar e não consegue. por fim, acorda com o coração disparado, com uma sensação de angústia, assustado, e então percebe que tudo não passou de um (terrível) pesadelo.

quem dera fosse só um pesadelo.

quem dera.

o mistério e a beleza caminham entre nós no palco da história, mas a gente continua sem aprender nada, encenando a negação com a mesma precisão cega de dois mil anos atrás.

grill 


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

sábado, 19 de setembro de 2026


casa de poeta não tem porta 2

«um gato tem honestidade emocional absoluta: os seres humanos, por uma razão ou outra, podem esconder os seus sentimentos, mas um gato jamais o faz.»

ernest hemingway
«às vezes eu ansiava por alguém que, como eu, não estava ajustado perfeitamente com sua idade, e essa pessoa era difícil de encontrar, mas logo descobri gatos, em que eu poderia imaginar uma condição como a minha.»
julio cortázar


o processo
diante da lei está um porteiro. um homem do campo chega e pede para entrar, mas o porteiro diz que agora não pode permitir. o homem pergunta se não pode entrar mais tarde. «é possível» – diz o porteiro – «mas agora não».

o homem decide aguardar. o porteiro dá-lhe um banquinho ao lado da porta. ali fica sentado dias e anos. ele faz muitas tentativas para ser admitido e emprega tudo para subornar o porteiro. este aceita tudo, mas dizendo: «eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa».

durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. esquece os outros porteiros. quando envelhece, sua vista enfraquece, mas reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei.

já não tem mais muito tempo de vida. antes de morrer, faz um aceno para que o porteiro se aproxime: «todos aspiram à lei. como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?»

o porteiro percebe que o homem já está no fim e berra: «aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. agora eu vou embora e fecho-a».

kafka. 2016, pp. 146 e 147


siempre había oído mentar
que ante la ley era yo,
igual a todo mortal.
pero hay su dificultad
en cuanto a su ejecución.

clique no título para ouvir

(alfredo zitarrosa, 1971)


«mais de uma vez me jogaram na rua
mas a culpa é minha
contém ironia
é bom lembrar»

autor desconhecido 

silvio rodríguez, o incompreendido

clique no título para entender

(aos patrulheiros de plantão)

epaminondas: o gato explicador

por clóvis de barros filho
esses últimos, os humanos, com exceções, também adoram viajar, conhecer outros lugares, outras gentes e seus modos peculiares de viver. tomam-se por arejados, abertos e até mais cultos por conta desse hábito. talvez por isso usem – para julgar nossas vidas felinas – o critério da extensão territorial ocupada por nossos corpos. e acabam convencidos de que passar o dia todo confinado não pode valer a pena. vê-se logo que ainda não aprenderam nada de relevante. e nunca aprenderão. por mais que alguns deles – os poucos sábios da história humana na terra – tenham generosamente se sacrificado para explicar, todos os demais da espécie sempre se recusaram a aceitar o óbvio: que o mais precioso da vida já se encontra em cada um deles. e que o sucesso dessa busca requer preparo. exercício rigoroso de pensamento. e recato. fica fácil de entender por que não saem da rua. passeiam, viajam e se divertem. na verdade, permanecem em fuga. não suportam a verdade que grita em suas almas. preferem chafurdar no pântano da ignorância – entretida pelas sombras da falsidade e das mentiras – a resistir, em resiliência, aos percalços e obstáculos que todo caminho de luz costuma impor a quem sempre viveu na sombra.

os homens e suas certezas
por que os gatos dormem tanto? quantas igrejas tem o céu? foi onde que a mim me perderam, que logrei enfim me encontrar? há quem diga que a pergunta mais difícil da filosofia seja: podemos ter certeza de alguma coisa? não sei se é. se for, não sei a resposta. quem sou eu para saber o que ninguém sabe. pra dizer a verdade, não sei se ninguém sabe. talvez você saiba e eu não saiba que você sabe. pode ser, né? quem sabe... não sei. só sei que, enquanto eu compartilho minhas dúvidas, outros compartilham suas certezas. que bom para eles que não tenham dúvidas. mas não tenho certeza, ou seja, fico em dúvida se quem os lê e escuta acredita no que eles dizem e escrevem. eu, por exemplo, não acredito. ademais, não tenho certeza se quem demonstra ter tanta certeza a respeito de tudo e de todos tem realmente certeza de alguma coisa ou do que quer que seja. se todos os rios são doces, de onde tira sal o mar? não achas que vive a morte, dentro do sol de uma cereja? como se mede a espuma, que resvala da cerveja? pra cada voz da dúvida, tem outra voz que fala e viceja; pra cada voz da certeza, tem outra voz que cala e boceja.

ou seja:

«sinta mais, pense menos.»

bukowski


«que sabe a aranha a respeito de mozart? nada; entretanto, ouve com prazer uma sonata do mestre. o gato, que nunca leu kant, é talvez um animal metafísico.»

machado de assis


os cavalos não correm
para vencer.
correm para correr,
pois para isso
foram desenhados.
também não vivo
para vencer.
vivo para viver,
pois para isso me desenhei.

fausto wolff


ao vento

há dez mil anos atrás
quando ainda rolava de bar em bar
me caiu nas mãos
uma resenha do livro
«a arte cavalheiresca do arqueiro zen»
desde então
pensava em lê-lo
pesquisa daqui
pesquisa dali
encontrei-o
entre borges e kant
na minha pequena
mas
modéstia à parte
rica bibliotheca
folheia daqui, folheia dali
percebo um trecho sublinhado
como quem diz
lê isso aqui:
«o homem é definido como um ser pensante, mas suas grandes obras se realizam quando não pensa e não calcula. devemos reconquistar a ingenuidade infantil. nesse estágio, o homem pensa sem pensar. ele pensa como a chuva que cai do céu, como as ondas que se alteiam sobre os oceanos, como as estrelas que iluminam o céu noturno, como a verde folhagem que brota na paz do frescor primaveril. na verdade, ele é as ondas, o oceano, as estrelas, as folhas.»
bárbaro
mas fiquei com a impressão de que já o tinha lido
parece que tudo que ali está
eu já sabia
de pura intuição
mas não é verdade
terminei o livro
com mais dúvidas
do que quando comecei
daí fico pensando
se bukowski
fausto wolff
e yupanqui
o teriam lido
ou se
sem pensar
eles escreviam
sobre aquilo que pensavam que não sabiam

«"pelo que vejo, o senhor já é um mestre. peço-lhe que me diga a que escola pertence, antes que entremos na relação mestre-discípulo". o guarda observou que se envergonhava de dizer, mas jamais tinha aprendido a arte da esgrima. "o senhor está zombando de mim? sou o mestre do venerável xógum e sei que meus olhos jamais se enganam." o guarda insistiu: "lamento ofender a sua honra, mas a verdade é que jamais tive qualquer conhecimento desta arte". frente a tão segura negativa, o mestre vacilou um momento, ao final do qual disse: "como o senhor afirma, não vou desmenti-lo, mas seguramente o senhor é mestre em alguma outra disciplina, embora eu não saiba qual seja". respondeu-lhe o guarda: "pois bem, como o senhor insiste, devo dizer-lhe que existe uma coisa na qual me considero mestre. quando eu era criança, ocorreu-me a ideia de que um samurai não tem o direito de temer a morte em qualquer circunstância, e desde então lutei continuamente com a ideia da morte, até que ela deixou de preocupar-me. talvez seja a isso que o senhor se refere". mal ouvira tais palavras, tajima-no-kami exclamou: "exatamente! alegro-me que não tenha me enganado, pois o último segredo da arte da espada é atingir a libertação da ideia da morte. tenho mostrado essa meta a centenas de alunos, mas até agora nenhum alcançou o grau supremo na arte da espada. o senhor não precisa de qualquer treinamento, porque já é um mestre".
eugen herrigel | a arte cavalheiresca do arqueiro zen, p. 89.


a partícula cósmica que navega em meu sangue
é um mundo infinito de forças siderais.
veio a mim através de um longo caminho de milênios
quando, talvez, fui areia para os pés de vento.

logo, fui madeira, raiz desesperada
fundida no silêncio de um deserto sem água.
logo, fui caracol quem sabe onde.
e os mares me deram a primeira palavra.

depois, a forma humana despejou sobre o mundo
a universal bandeira do músculo e da lágrima.
e brotou a blasfêmia sobre a velha terra
e o açafrão, e o trigo. a árvore e as pradarias.

então vim à américa para nascer um homem
e a mim se juntou o pampa, a selva e a montanha.
se um velho da planície galopou até minha origem
outro me disse histórias em sua flauta de cana.

eu não estudo as coisas nem pretendo entendê-las
as reconheço, é certo, pois antes vivi nelas
converso com as rochas em meio aos montes
e me dão sua mensagem as raízes secretas.

e assim vou pelo mundo, sem idade nem destino
ao amparo de um cosmos que caminha comigo.
amo a luz e o rio e o caminho, e a estrela.
e floresço em guitarras porque fui a madeira.

clique no título para ver e ouvir

poema: atahualpa yupanqui
musica: campo abierto (atahualpa yupanqui)
voz y audio: alejo gómez davolio
edición: santiago cremerius

de volta ao começo dia 4 de outubro diga não a bolsonaro vote lula e depois fique bem na sua sem questionar sem reclamar nem criticar até porque quando a grande mídia o agronegócio e a faria lima caírem de pau se lula não resistir e cair a culpa vai ser toda sua 

agradezco la participación de todos
los que colaboraron con esta melodía.
se debe subrayar la importante tarea
de los perseguidores de cualquier nacimiento.

si alguien que me escucha se viera retratado,
sépase que se hace con ese destino.
cualquier reclamación, que sea sin membrete.
buenas noches, amigos y enemigos.

clique no título para ouvir

(silvio rodríguez, 1970)


foto: 
ernestito che guevara 
(in memmoriam)
repecho, 2020


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas