sábado, 8 de agosto de 2026


pra viajar no cosmos não precisa gasolina

••••••••••••••

«somos um bando
um bando
um bando
e muitos outros»

bebeto alves

••••••••••••••

legislativo

no ano de 1983, mal tinha completado 18 anos de idade e fui morar em são luís do maranhão. neste ano, nelson coelho de castro lançou seu segundo elepê, um disco homônimo, com o selo da rge. em 1979 lançou seu primeiro compacto, «faz a cabeça» e, entre 1980 e 1981, produziu e lançou o primeiro disco independente produzido no rio grande do sul, - juntos - um marco na música gaúcha e que influenciou outros compositores neste segmento alternativo.

quando cheguei em são luís, já tinha ouvido falar de nelson coelho de castro, mas daí a dizer que conhecia sua obra a distância é grande.

coisas da vida: vim a ouvir seus discos, faixa por faixa, quando já estava em são luís. tinha recém-chegado à ilha e minha irmã de alma, carla gastal, a pedido meu, me enviou, através de minha avó, algumas das «novidades» da música popular gaúcha. entre elas, nei lisboa, bebeto alves e nelson coelho de castro.

todos foram impactantes e marcantes na minha vida. mas nelson é nelson, sempre foi e sempre será.

grill

••••••••••••••

eu não posso me esquecer
de nada do que está acontecendo agora, nesse momento...
nesta cidade, neste estado, neste país, neste planeta -
do que estamos fazendo
e o que estamos fazendo para a narrativa da história
eu quero ver se consigo trazer tudo isto
sempre acordado dentro de mim:
este êxtase, esta fotografia
esta música, este cinema
este agora, recém-parido
porque é saber isto tudo agora
e será saber isto tudo, em outro agora
a minha única e verdadeira arma
isto me excita

👇


••••••••••••••

conto isso, pois, naquele longínquo 1983, ninguém em são luís (que eu conhecesse) conhecia nelson coelho de castro. hoje ele é conhecido de muitos maranhenses amigos meus, que apresentaram sua música a amigos seus, até que ela chegou aos ouvidos de zeca baleiro e blá blá blá, blá blá blá blábláblá. sim, essa história vocês já estão cansados de ouvir e eu de contar.

o que eu ainda não contei
e vou contar agora
é que
em 1987
minha avó foi nos visitar
e trazia um elepê junto com ela
cujo nome é tango
de vitor ramil
que traz
entre umas & outras
loucos de cara
e joquim
não digo que ninguém
na ilha
além de mim
conhecia vitor
seria muita pretensão
de minha parte
até porque
é bom lembrar
o sobrenome ramil
já era conhecido em todo o brasil
mas
em relação aos amigos mais próximos
jovens poetas
reunidos em torno da akademia dos párias
«loucos em suma
uns por pouca coisa
outros por coisa alguma»
de que o disco os impactou
eu não tenho dúvida nenhuma
a verdade é que cruzei com nelson coelho de castro uma vez só
numa apresentação sua aqui em pelotas
já com zeca baleiro, celso borges, fernando abreu e vitor ramil
nos cruzamos muitas vezes e em vários lugares
hoje todos são amigos
--- cb já não está mas continua ---
se admiram mutuamente
e quando os vejo
em americana
cantando bob dylan
e lembrando woody guthrie
sinto que o tempo passou
e a gente continua
uns & outros
como diz o poeta
«por essas ruas inclinadas
e de cabeça erguida
quem não quiser olhar a nossa cara
que baixe a sua»

grill

••••••••••••••

um trem me atravessa lentamente
carregado de ferrugem e neblina
seguindo as estrelas da noite americana

sobre os ombros das planícies do norte
comboios noturnos plenos de chumbo e fumaça
atravessam estradas desoladas, futuros condomínios ali
na fronteira onde os ventos não têm piedade

nuvens passam apressadas
chuvas que não param
sonhos congelados pelo inverno que não chega

alguém me colocou aqui, alguém me disse sim
escrevi algo em minha alma:
não serei jovem eternamente
quem sabe nasci tarde demais

há falta de beijos nos bailes
há brados surdos nos becos
botas batendo no bico das sarjetas
lua no céu de estrela nenhuma

dividido, desesperados
mirando o sol escuro das tempestades
aqui estamos
alvo certeiro
pasto de aluguel

a chacina abre suas cortinas

preparar, apontar, fogo!

rosa negra rosa negra rosa esquálida
buquê de cinzas bétula de guerra
e o céu vermelho aberto sobre o deserto americano

👇

vozes: zeca baleiro, vitor ramil, fernando abreu e celso borges.

••••••••••••••

«lá vai o trem com o menino
lá vai a vida a rodar»

ferreira gullar

••••••••••••••

em meados dos anos 80, quando andava pelas ruas, becos e praias de são luís, encontrei e me encontrei em uma multidão de gente, gente rica, gente pobre, gente simples, funcionários públicos, poetas, músicos, escritores, anônimos e celebridades. alguns «anônimos» viraram «celebridades» e algumas celebridades não sei... nunca mais ouvi falar...

nunca mais ouvi falar até falar com meu irmão
que me contou da morte de cunha santos
jornalista, poeta e escritor
autor de diversos livros
entre outros
«meu calendário em pedaços» (1978)
«a madrugada dos alcoólatras» (s/d)
«pesadelo» (1993)
«paquito, o anjo doido» (s/d)
«vozes do hospício» (2008)
bom
pelos títulos dos livros
já sabemos
ou pensamos saber
quem era
o que era o cara
que
óbvio
não era só isso
cunha santos era mais
muito mais
quanto a nós
eu e ele
não éramos amigos
desses de frequentar a casa
éramos amigos de bar
uma palavra fora do lugar
e o bar incendiava
mesas e cadeiras voavam
não sobrava ninguém pra contar a história
então
ao contrário de meu irmão
que tem uma memória de elefante
eu tenho a memória fraca
sim
é sabido
o álcool afeta a memória
no meu caso
de uma estranha forma
pois eu me lembro de tudo
sou um contador de histórias
mas não me lembro de nenhuma história do cara pra contar
podia me esforçar um pouco mais
puxar pela memória
mas não ia adiantar
vou então contar
que meu irmão esteve com cunha santos
poucos dias antes dele morrer
e não falaram de outra coisa
a não ser de nós
eu e ele
e as nossas histórias de bar
enfim
faz mais de trinta anos
quase 40
que voltei de são luís
desde então
nunca mais nos vimos
nos perdemos pelo mundo
não voltamos a nos encontrar
sinceramente
quando meu irmão me contou
me deu vontade de chorar
nunca imaginei que ele ia se lembrar

grill

••••••••••••••

as lágrimas de seu nelson

seu nelson chorava todas as manhãs
não porque estivesse velho ou triste
não porque lhe deprimisse estar no mundo
seu nelson chorava todas as tardes
não porque sentisse dor ou soubesse de saudades
não porque lhe deprimisse não ter muito aonde ir
seu nelson chorava todas as noites
não porque fosse criança ou tivesse medo do escuro
não porque lhe restasse na vida um único e antigo amor
seu nelson chorava todas as manhãs
porque tinha certeza de que jamais
haveria outra manhã igual àquela
seu nelson chorava todas as tardes
porque cedo ou tarde todas as tardes acabam
seu nelson chorava todas as noites
porque sabia que as estrelas
se repetiriam em outras noites
naquela noite nunca mais
e que sua madrugada só duraria
até a hora de chorar mais uma vez

cunha santos

••••••••••••••

joquim

«os assassinos fugiram num carro que, como eles, nunca se encontrou. joquim cambaleou ferido, alguns instantes, e acabou caído no meio-fio. ao amigo que veio ajudá-lo, falou: «me dê apenas mais um tiro, por favor. olha pra mim, não há nada mais triste que um homem morrendo de frio»

vitor ramil

••••••••••••••

joquim

[por mauro ferreira]

intitulada joquim (assim mesmo, joquim, sem o presumível «a») e baseada na vida de joaquim fonseca, a versão de dylan por vitor ramil em «tango» flagrou o artista gaúcho mergulhado no mar de ideias do bardo, a bordo da «nau da loucura» citada poeticamente no refrão dessa saga guerrilheira ambientada por ramil nas fronteiras imaginárias de satolep.

joquim, a faixa, totalizou oito minutos e meio e se afinou, no universo do disco, com «loucos de cara», obra-prima da safra autoral apresentada pelo artista no álbum «tango». parceria de vitor com o irmão kleiton ramil, «loucos de cara» sugeriu liberdade, em sintonia com a melodia e a letra sem amarras.

••••••••••••••

vem, anda comigo pelo planeta
vamos sumir!
vem, nada nos prende, ombro no ombro
vamos sumir!

👇


••••••••••••••

em 1989, dois anos depois do lançamento de tango, embarquei num ônibus, que partiu da biblioteca pública de são luís, rumo à brasília, para o ii flaac (festival latino-americano de arte e cultura). de brasília fui para satolep, de onde nunca mais voltei.

••••••••••••••

sinto hoje em satolep
o que há muito não sentia
o limiar da verdade
roçando na face nua
as coisas não têm segredo
no corredor dessa nossa casa
onde eu fico só com minha voz

👇


••••••••••••••

e pra viajar no cosmos?

••••••••••••••

apenas apanhei, na beira-mar
um táxi pra estação lunar

👇


••••••••••••••

táxi lunar

viajar ouvindo música
qualquer um viaja
mas viajar ouvindo geraldinho
é surreal
a estação nunca é a mesma
é sempre outra

grill

••••••••••••••

de volta a nelson coelho de castro

••••••••••••••

faz tempo que admiro a obra de nelson coelho de castro. na minha opinião, é um dos maiores compositores da música popular brasileira. sigo seus passos, versos e notas, desde quando surgiu na cena musical do rio grande do sul. levei-o comigo quando fui para são luís do maranhão. andava com ele, pra cima e pra baixo, pra frente e pra trás, a pé, de carro, de ônibus, onde quer que eu fosse, levava-o debaixo do braço, colado ao peito, como se fosse um amuleto. e era isso que nelson era pra mim: um amuleto. um amuleto da sorte. poderia, por exemplo, passar o resto dos meus anos falando de situações pelas quais passei e das quais vou me lembrar pro resto da vida que tiveram como trilha sonora a sua música e a sua poesia. mas não é o caso. vim aqui hoje pra dizer que o conheci de perto num show na fábrica cultural em pelotas em 2011 (acho) e naquela noite realizei um sonho, disse a ele de minhas andanças com seus discos embaixo do braço pelas ruelas e becos de são luís e da repercussão de sua música na ilha do amor e da poesia. ele olhou pra mim e sorriu. mas não era um sorriso qualquer, pelo contrário, era um sorriso aberto, como quem diz, «mesmo longe estamos perto». nelson estava certo.

grill

••••••••••••••

não resta mais nada
que duvide
da real felicidade

👇


••••••••••••••

foto: vivi valente
praia da pinheira (sc)
fevereiro de 2016

••••••••••••••

#américas

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

 


suzanne 

••••••••••••••

«sou obrigado a roubar porque cheguei tarde demais, pois antes de eu nascer as coisas eram de alguém. por exemplo, "dom quixote" de miguel cervantes, "folhas de relva" de whitman, "tristão e isolda" de wagner, "espanha" era de franco, "guernica" de picasso, "sofia loren" de ponti o "oscar" de marlon brando. a glória era de gardel, as vacas eram de outros e, se restava alguma coisa, julio iglesias as levava.»

facundo cabral

••••••••••••••

a cláusula do elevador
[ou: com o chico pode]

por luís fernando veríssimo

porque eram precavidos, porque queriam que sua união desse certo, e principalmente porque eram advogados, decidiram fazer um contrato nupcial. um instrumento particular, só entre os dois, separado das formalidades usuais de um casamento civil. nele estariam explicitados os deveres e os compromissos de cada um até que a morte — ou o descumprimento de qualquer uma das cláusulas — os separasse.
quando chegaram à parte do contrato que trataria da fidelidade, ele ponderou que a cláusula deveria ter uma certa flexibilidade. deveria prever circunstâncias aleatórias, heterodoxas e atenuantes. em outras palavras, oportunidades imperdíveis. e exemplificou.
– digamos que eu fique preso num elevador com a luana piovani. depois de dez, quinze minutos, ela diz «calor, né?», e desabotoa a blusa. mais dez minutos e ela tira toda a roupa. mais cinco minutos e ela diz «não adiantou», e começa a desabotoar a minha blusa… o contrato deveria prever que, em casos assim, eu estaria automaticamente liberado dos seus termos restritivos. ela concordou, em tese, mas argumentou que a licença pleiteada deveria ser específica. ficou decidido que ele estaria automaticamente liberado da obrigação contratual de ser fiel a ela no caso de ficar preso num elevador com a patrícia pillar, a luma de oliveira e a luana piovani. isto estabelecido, ela disse:

– no meu caso…
– como, no seu caso?
– no caso de eu ficar presa num elevador com alguém.
– quem, por exemplo?
– sei lá. o maurício mattar. o raí. o renato gaúcho...
– o renato gaúcho não!

foi uma negociação longa e difícil, durante a qual ele vetou vários nomes, até ser obrigado a concordar com um, por absoluta falta de argumentos. ela estaria liberada de ser fiel a ele se um dia ficasse presa num elevador com o chico buarque. com o chico buarque pode. mas só com o chico buarque...

••••••••••••••

«não fode
chico é chico
chico é pra quem pode»

grill 

••••••••••••••

«eu não, nesse elevador não ponho o pé eu não, pé eu não
eu não, nesse elevador não ponho o pé eu não»

kledir ramil

••••••••••••••

chico

[por tom cardoso]

andarilho contumaz, chico manteve por algum tempo a rotina de caminhar pela orla do rio sem ser incomodado. a internet acabou com o sossego. qualquer coisa virou assunto. a partir da metade dos anos 2000, chico não compareceu mais a peças, filmes e shows de amigos.

«eu em geral não vou mais a estreias, porque muitas vezes a plateia trabalha mais que o artista. tem que estar bem vestido, a sua roupa vai ser comentada, essas coisas. minha empregada outro dia ficou com vergonha porque apareci com a mesma camisa em dois acontecimentos sociais.»

como se não bastasse administrar as chateações impostas pelo sucesso, chico ainda sofre de algo não tão comum para todo artista: o peso de ser o muso da sua geração. apesar da inegável beleza dos olhos cor de ardósia (ou seriam verdes ultramarinos?), ele rejeita a imagem de símbolo sexual: «não me considero um homem especialmente bonito», disse a uma revista feminina, e acrescentou para um jornal:

«não acho que tenha essa imagem não. não sou símbolo sexual, digo sinceramente. se eu fosse, estava contente. sou até uma pessoa desajeitada, um pouco inábil com as mãos, que funcionam de um jeito esquisito. não estou querendo fazer contrapropaganda das minhas qualidades, mas não acredito nelas.»

o compositor admitiu que, no início da carreira, ainda solteiro, escrevia canções também com o objetivo de ser visto de uma maneira mais sedutora pelas mulheres por quem se interessava. muitas dessas mulheres ele admirava à distância, apenas de forma platônica. era o caso da socialite eleonora mendes caldeira, para quem compôs, em 1966, «morena dos olhos d'água», na esperança de diminuir o abismo entre os dois...

antes de seguir em frente
voltemos ao elevador

••••••••••••••

«foi uma negociação longa e difícil, durante a qual ele vetou vários nomes, até ser obrigado a concordar com um, por absoluta falta de argumentos. ela estaria liberada de ser fiel a ele se um dia ficasse presa num elevador com o chico buarque. com o chico buarque pode. mas só com o chico buarque... »

••••••••••••••

«eu não, nesse elevador não ponho o pé eu não, pé eu não
eu não, nesse elevador não ponho o pé eu não»

ramil

••••••••••••••

«eu também não, nesse elevador não ponho o pé eu não
conheço o meu lugar»

grill

••••••••••••••

atire a primeira pedra
quem nunca levou um carão
um fora
«uma tábua»
eu levei vários
pensando bem
até gostaria de ter levado mais
recordo quando era adolescente
e veraneava nas praias de santa vitória do palmar
e saía do hermenegildo em direção à barra do chuí 
e vice-versa
pela beira da praia
num fusca lotado
sim
naquela época 
a noite era uma criança 
havia boate na barra e no hermena 
dia sim e no outro também 
se um dia era aqui
no outro era lá
eu tava em todas 
não perdia uma 
boate, digo
pois mulheres
perdi várias
algumas 
porque não me quiseram, mesmo
outras
porque fui covarde 
não tive coragem de atravessar a pista
para convidá-las para dançar 
e a maior dor não é pelas que me disseram não
e sim pelas que 
lá atrás
quando eu era jovem
e a estrada parecia sem fim
 eu não disse sim

••••••••••••••

de volta à morena
morena dos olhos d'água 

«eu lembro que ia à missa dos dominicanos. eu e minha turma para ver a eleonora. ela era simplesmente maravilhosa, mas eu não ousava chegar muito perto. tinha medo de tirar pra dançar porque podia levar uma tábua, como se dizia na época. mas, depois que eu virei famoso, deu pra chegar a ela sem medo de levar tábua.» 

••••••••••••••

de volta ao livro de tom cardoso

as irmãs dizem tê-lo visto dedicando a mesma canção feita para eleonora para outras morenas --- de olhos d'água ou não. uma artimanha mais do que justificável no seu caso, em que a facilidade de compor lindas e sofisticadas canções de amor é infinitamente maior do que o traquejo com as mulheres. é o que ele vive alardeando por aí. «não sou o sedutor que comentam.»

há controvérsias. essa história de ficar dedicando uma mesma canção para mulheres diferentes não durou muito tempo --- chico se casou com a atriz marieta severo, em 1966, aos 22 anos. os dois foram apresentados por um amigo comum, o ator hugo carvana, que na época encenava uma peça com marieta e produzia seu primeiro show, meu refrão, na boate arpège, no leme.

as canções de amor, porém, continuaram brotando. chico precisa estar apaixonado para alimentar o compositor --- do jeito que for possível.

«falam que o artista só faz música para pegar mulher. mas aí geralmente acontece o contrário, o artista inventa uma mulher para pegar a música.»

«quando eu falo que você inventa amores, você também sofre por eles. e a moça da farmácia? ela foi embora! elle est partie en vacances monsieur! e você não vai vê-la nunca mais. dá uma solidão. eu estou fazendo uma caricatura, mas essas coisas acontecem. você se encanta com uma pessoa que você viu na televisão, daí você cria uma história e você sofre. e fica feliz e escreve músicas.»

••••••••••••••

foi tão bom te ver rever-te ver-te
como antes de rever-te nos vimos agora no solitário agora ver-te verte tudo com sabor e tudo do primeiro louco ver-te no mais o coração ainda está apaixonado como apaixonado ainda está o ver-te e ver-te novamente verte o ver-te igual e necessariamente é preciso sempre ver-te

👇


••••••••••••••

lembrei da ilha
dos MUITOS beijos 
que quis dar
e não dei

grill 

••••••••••••••

o(s) beijo(s) que eu não dei 

👇


••••••••••••••

seguimos 
de volta ao livro de tom cardoso
de volta a chico 

••••••••••••••

no começo de março de 2005, chico foi fotografado beijando uma jovem e bela mulher na praia do leblon. o que seria apenas mais um episódio da falta de privacidade enfrentada pelos artistas, perseguidos diariamente por paparazzi na zona sul da cidade, virou assunto do mês. um escândalo: a moça, a produtora cultural celina sjostedt, 25 anos mais nova que chico, era casada, mãe de dois adolescentes.

logo se soube mais: o marido traído, o pianista ricardo sjostedt, o duna, conhecia chico havia muitos anos. querido pelos músicos da cidade, próximo da família de tom jobim, era dono de um estúdio frequentemente procurado para ensaios de pré-produção. chico recorrera a ele algumas vezes, a primeira em 1984, nas gravações do disco lançado no primeiro ano.

chico e celina silenciaram. duna, não. em entrevista à coluna de mônica bergamo, da folha de s. paulo, publicada dias depois do flagra, o pianista deu a entender que aquele não havia sido o primeiro flerte de chico e celina. «o que acontece é que esse cidadão tem uma fixação pela minha mulher, talvez por ela ser muito bonita, e fica investindo (...). só quero que ele deixe a nossa vida em paz, bote na balança que temos família e vá procurar alguém da idade dele. talvez em uma clínica geriátrica..»

o caso repercutiu bastante. foi do cantor e humorista cearense falcão o comentário mais espirituoso: «tomar chifre do chico buarque é mais importante do que ganhar um grammy».

o veterano artista e a moça não foram mais vistos juntos, pelo menos em público. duna e celina separaram-se tempos depois do episódio, após 15 anos juntos.

chico não falou sobre o assunto nem quando a história esfriou.

••••••••••••••

eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando
e não posso falar
tou me guardando pra quando o carnaval chegar
há quanto tempo desejo seu beijo
molhado de maracujá
tou me guardando pra quando o carnaval chegar

👇


••••••••••••••

falando em carnaval

a verdade é que desde garoto chico se recusa a seguir um ensinamento repassado pela mãe. toda vez que se deparava com uma vadiagem do filho, maria amélia repetia: «juízo e alegria!» chico a confrontava, sabedor da dificuldade de associar uma à outra. «mamãe, ou juízo ou alegria.»

o rio de janeiro dos anos 1960 e 1970, um paraíso para qualquer hedonista, era uma cidade cheia de tentações até mesmo para o mais ajuizado dos homens. e chico, que não era uma coisa nem outra, tampouco capaz, como desejava a mãe, de equilibrar razão e emoção, caiu nas farras muitas vezes.

e o desequilíbrio se agravou depois que o compositor se tornou amigo de copo do mais beberrão, notívago e mulherengo morador da zona sul carioca: tarso de castro. marieta, por razões óbvias, destestou as novas amizades do marido, embora as antigas não fossem também lá muito confiáveis.

numa dessas noites, depois de uma briga feia com marieta, acabou no apartamento de tarso, que não perdeu tempo: chamou duas amigas para irem lá passar o resto da madrugada. marieta, porém, se arrependeu e foi atrás do marido. chegou ao apartamento e deu de cara com o quarteto. chico tentou, ridiculamente, convencê-la que ambas eram namoradas de tarso --- insaciável, este não se contentaria apenas com uma. não colou.

após reduzir a bebida, chico não foi mais visto com frequência na companhia de sujeitos como tarso e, consequentemente deixou de se meter em tantas confusões. mas isso não impediu que as encrencas chegassem até o compositor. nesse caso, só havia um culpado. na verdade, dois. os olhos verdes ultramarinos. ou seriam cor de ardósia?

o casamento de chico e marieta, não formalizado em cartório, terminou em 1997. os dois, que tiveram três filhas, silvia, helena e luísa, continuaram grandes amigos. durante um período, ele almoçou todos os domingos na casa da gávea, que ficou com marieta --- ela ajudou o ex-marido a mobiliar o apartamento de solteiro no jardim botânico. em 1999, o músico se mudou para um prédio no leblon, onde mora atualmente.

a solteirice não mudou a rotina de vida de chico que apesar do histórico de farras com tarso de castro, não vê serventia na possibilidade, aberta pela fama, de se relacionar com muitas mulheres. «tem outro [erasmo carlos] que falou que teve mil mulheres. eu digo: "bom, mas então, não foi bom com nenhuma..." não acho vantagem».

em 2005, uma enquete promovida por um site de notícias elegeu chico um dos homens mais sexy do brasil. para ele, tão patético quanto aquele tipo de pesquisa eram os resultados. «isso é ridículo, e essa lista é ridícula. tenho 60 anos, percebe?»

trocando em miúdos: seis vezes chico, p. 115 a 121

••••••••••••••

lendo as histórias de chico e tarso
lembro que
anos atrás
quando tava solteiro
desejei muito uma mulher casada
começamos a nos falar pelo orkut
ela me disse que havia sido minha aluna
eu perguntei: quando?
ela disse o ano
olhei pra foto no perfil dela
pensei pensei pensei
puxei pela memória
mas que coisa
não é possível que eu não me lembre dela
o porquê está logo ali na frente
em LETRAS GARRAFAIS
seguimos
conversa vai, conversa vem
lá pelas tantas
ela comentou que ia no show do vitor ramil
[de quem ela era e ainda é muito fã
e eu também]
não falei nada
mas pensei
eu vou também
mas como, se eu não tenho um puto
nem um centavo
tô sem trabalhar há meses
tô afastado
distante da cena cultural
há anos não vejo o vitor
tô sem jeito... tô desenchufado ...
escrevi então uma coluna para o diário popular
com o seguinte título
«será que vem alguma carta pra mim?»
falando da minha paixão pela moça
e de minha admiração pelo cara
pedi que a coluna fosse publicada no dia do show
e o pedido foi atendido
saí então cedo da casa da cris
minha amiga
irmã de alma
passei na sede do jornal
pedi três exemplares
um, pra mim
outro, pro vitor
e o outro pra mulher em questão
fui para o teatro
entrei
assisti à passagem de som
quando terminou
fui em direção ao vitor
ele ficou feliz e surpreso ao me ver
não era pra menos
não nos víamos há muitos anos
entreguei o jornal pra ele
falei de meu desejo de assistir ao show
ele disse: claro, cara
peraí que vou falar com fulano de tal
falou
nos despedimos
ele foi para um lado
eu para outro
voltei acho que uma hora antes das portas do teatro abrirem
fiquei ali 
parado
pensando em como eu era iluminado 
em que até o momento tudo corria conforme eu tinha planejado 
cuidado
 nem sempre a autoconfiança é o melhor aliado
eu havia esquecido algo importantíssimo 
para que aquela noite terminasse do jeito que eu havia desejado
EU SOU PÉSSIMO FISIONOMISTA 
quando as portas abriram
eu fui o primeiro a entrar
me posicionei num lugar estratégico
onde eu pudesse ver todos os que entravam
e todos os que entrassem pudessem me ver 
portas abertas
as pessoas foram entrando
lá pelas tantas
uma mulher alta e morena 
vem toda sorridente ao meu encontro
olhei para os lados 
pensando
não pode ser pra mim esse sorriso todo 
pensei, pensei, pensei
tentando me lembrar de onde eu a conhecia
nisso ela já tinha me dado um 
e aí, enilton
e eu ali
com aquela cara de
de onde que eu te conheço?
quando a ficha caiu
já era tarde
passei o show 
com o ouvido no vitor
e olho na plateia procurando por ela  
a bela
olhava, olhava, olhava
e nada 
terminou o show
voltei pra casa da cris
minha amiga e irmã de alma
entrei no meu quarto
liguei o computador
entrei no orkut
procurei por ela
pelo nome dela
e nada.
eu havia sido bloqueado
sin olvido, ni perdón 
BLOCK 
mas passa
tudo passa
namoramos
noivamos
e casamos
mas passa
tudo passa
depois de quase 20 anos
nos separamos
antes disso
quando voltei de são luís
nos encontramos em porto alegre
na casa da minha madrinha 
quando
entre beijos e gargalhadas
ela me contou
sobre aquela noite
«menos, querido, bem menos
não ia acontecer nada
eu não podia e não queria 
eu era casada»

••••••••••••••

trocando em miúdos
 
chico é chico
chico só tem um
eu sou um homem comum 

grill 

••••••••••••••

e a morena dos olhos d'água?

••••••••••••••
 
morena dos olhos d'água
tira os seus olhos do mar
vem ver que a vida ainda vale
o sorriso que eu tenho
pra lhe dar

descansa em meu pobre peito
que jamais enfrenta o mar
mas que tem abraço estreito, morena
com jeito de lhe agradar
vem ouvir lindas histórias
que por seu amor sonhei
vem saber quantas vitórias, morena
por mares que só eu sei

o seu homem foi-se embora
prometendo voltar já
mas as ondas não têm hora, morena
de partir ou de voltar
passa a vela e vai-se embora
passa o tempo e vai também
mas meu canto ainda lhe implora, morena
agora, morena, vem

👇

(do dvd à flor dapele)

••••••••••••••

e a carta?

••••••••••••••

será que vem?
mas de quem virá?
o que irá dizer?
que surpresa encontrar...  

que me vou por aqui
que fiquei por ali 
que me vou por aqui
que fiquei por ali 

👇

do álbum foi no mês que vem
 
••••••••••••••

e suzanne?

••••••••••••••

suzanne te leva até seu canto perto do rio
você pode ouvir os barcos passando
você pode passar a noite ao lado dela
e você sabe que ela é meio maluca
mas é por isso mesmo que você quer estar lá
e ela te alimenta com chá e laranjas
que vieram lá da china
e justo quando você pensa em contar a ela
que você não tem nenhum amor para lhe oferecer
então ela te sintoniza na sua frequência
e ela deixa o rio responder
que você sempre foi o amante dela
e você quer viajar com ela
e você quer viajar às cegas
e você sabe que ela vai confiar em você
pois você tocou seu corpo perfeito
com sua mente

e jesus era um marinheiro
quando ele andou sobre as águas
e ele passou um longo tempo observando
de sua solitária torre de madeira
e quando ele soube com certeza
que apenas os homens afogados podiam enxergá-lo
ele disse: «então todos os homens serão marinheiros
até o mar libertá-los»
mas ele mesmo estava quebrado
muito antes de o céu se abrir
desamparado, quase humano
ele afundou sob a sua sabedoria feito pedra
e você quer viajar com ele
e você quer viajar às cegas
e você acredita que talvez confie nele
pois ele tocou seu corpo perfeito
com sua mente

agora suzanne pega sua mão
e ela te leva até o rio
ela está vestida de trapos e penas
dos balcões do exército da salvação
e o sol se derrama feito mel
em nossa dama do cais
e ela te mostra onde olhar
entre o lixo e as flores
há heróis entre as algas
há crianças na manhã
elas se inclinam em busca do amor
e vão se inclinar assim para sempre
enquanto suzanne segura o espelho
e você quer viajar com ela
e você quer viajar às cegas
e você sabe que pode confiar nela
pois ela tocou seu corpo perfeito
com a mente dela

👇

(live at the isle of wight 1970)

••••••••••••••

#américas

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

 

poema em linha reta

••••••••••••••

quanto mais escrevo
menos leitores tenho
quanto menos leitores tenho
mais escrevo

autor desconhecido

.

– quem estará nas trincheiras ao teu lado?
– e isso importa?
– mais do que a própria guerra.

ernest hemingway

••••••••••••••

o poeta que era uma multidão

pelo que se acreditava, fernando pessoa, o poeta de portugal, levava dentro dele outros cinco ou seis poetas.
no final de 2010, o escritor brasileiro josé paulo cavalcânti conclui sua pesquisa de muitos anos sobre «alguém que sonhou ser tantos».
cavalcânti descobriu que pessoa não abrigava cinco, nem seis: levava cento e vinte sete hóspedes em seu corpo magro, cada um com seu nome, seu estilo e sua história, sua data de nascimento e seu horóscopo.
seus vinte e sete habitantes haviam assinado poemas, artigos, cartas, ensaios, livros...
alguns deles tinham publicado críticas ofídicas contra ele, mas pessoa nunca havia expulsado nenhum, embora deva ter sido difícil, suponho, alimentar uma família tão numerosa.

eduardo galeano | os filhos dos dias, p. 389

••••••••••••••

um homem comum

tenho sérias críticas às redes sociais e afins, e a quem nelas publica apenas seus sucessos e vitórias. está difícil para todo mundo. daí tu abres as redes sociais e é só sucesso, só gente feliz e se dando bem. isso é um passo para tu achares que o problema é teu. em outras palavras: que tu és um merda.

enfim, acho que a exposição exclusiva de vitórias e sucessos, além de ser falsa, pode ser desestimulante para quem nos lê. sim, por mais insignificantes que sejamos, nunca escrevemos para o vazio.

sendo assim, de vez em quando compartilho também minhas derrotas, minhas dificuldades e meus fracassos. talvez isso inspire algumas pessoas a encararem seus tropeços como algo comum. ninguém é campeão em tudo.

grill

••••••••••••••

un hombre común tiene una patria, una bandera,
un amor, una cara, una nariz, alguna miseria,
una alegría, una vieja enfermedad, alguna estrella
un llanto, una deuda, un rencor, una nueva franqueza.

un hombre común tiene un paladar, olor a vino,
un gesto, un apellido, un hijo muerto, un asesino,
un pasado, un presente, un futuro y un destino,
un amor, una idea, un color,
alguno que otro delirio.

hablo de un hombre común.

un hombre común tiene una niñez, un adulterio,
un presidente, un ministro, un patrón, alguna infamia,
una inflación, una traición, un corazón, algún silencio,
un horario, un trabajo, una vergüenza, mucha rabia.

rabia de un hombre
común.

un hombre común tiene un sexo y un apellido,
una cárcel, una herida, un sueño, un inquilino,
tan común como los ojos, los labios, el aliento,
la bronca, el sol, el cuerpo, y yo te quiero
un hombre común, tiene todo común
un nacimiento, un bautismo, una impotencia,
un dios común... que mira sorprendido...
cómo el mundo está confuso y aturdido

y entonces canta, al menos canta

un hombre común
tiene siempre lo que tiene que tener
ganas de vivir la vida, nuestra vida
y que se dejen de joder.

piero / josé (1983)

••••••••••••••

poema em linha reta

nunca conheci quem tivesse levado porrada.
todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

toda a gente que eu conheço e que fala comigo
nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

quem me dera ouvir de alguém a voz humana
que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
não, são todos o ideal, se os ouço e me falam.
quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
ó príncipes, meus irmãos,

arre, estou farto de semideuses!
onde é que há gente no mundo?

álvaro de campos

••••••••••••••

palavra dada é palavra escrita

[por enilton grill]

escrever me faz bem, me mantém sóbrio, me mantém vivo.

o que determina meu estado de espírito não é o conteúdo do que escrevo, mas sim a frequência com que escrevo.

quanto mais escrevo, melhor me sinto.

não importa o que escrevo, o que importa é estar escrevendo. não importa o que digo, o que importa é estar dizendo.

explico: se estou escrevendo sobre álcool, não significa que estou bebendo. se estou escrevendo sobre morte, não significa que estou morrendo. e o mesmo se dá com relação à esperança: se estou escrevendo sobre desesperança, não significa que estou desesperançado.

é como se a vida fosse um teatro e a folha em branco o meu palco — lugar onde tanto posso escrever um texto triste com sorriso nos lábios quanto um texto alegre com lágrima nos olhos.

na minha folha em branco, nada é proibido, tudo é permitido; nada é longe, tudo é perto; nada é errado, tudo é certo. meu palco é sagrado, minha palavra é um mundo em aberto.

dentro de mim há um mundo nascendo, fora de mim há um mundo morrendo.

como resolvo essa contradição?

escrevendo.

••••••••••••••

e a folha em branco?

••••••••••••••

já contei essa história, mas ontem um poeta e amigo, por conta de uma publicação minha, me enviou uma canção pelo whatsapp e me deu uma vontade danada de contar de novo e mais uma vez.

em 89, quando voltei pra pelotas, vindo de são luís, consegui emprego de estagiário num jornal da cidade. no primeiro dia, o encarregado me colocou numa mesa com uma máquina de escrever e uma folha em branco. ele me deu o prazo de uma hora para que eu escrevesse sobre qualquer coisa. ou seja: tema livre. isso eram mais ou menos umas oito e meia da manhã, quando bateu meio-dia eu não tinha escrito uma palavra sequer. o encarregado se aproximou de mim e disse: «cara, vai procurar outra coisa pra fazer. aqui só se dá bem quem gosta de escrever». dali pro bar da esquina foi a distância de meia quadra (moradores de satolep entenderão). de lá pra cá jurei nunca mais deixar uma folha em branco. tenho feito o que posso. hoje acabei de preencher uma, amanhã vou preencher outra e depois de amanhã outra. é o plano das 24 horas. aprendi no aa.

••••••••••••••

e a canção?

••••••••••••••

como se a vida fosse
uma folha em branco
que viraste agora
e com tuas mãos, enfim,
pudesses escrever
uma nova história
tudo por fazer,
o mundo ainda tão novo
te pedindo a escrita
a boca sussurrando
a forma das palavras
que um dia serão ditas

como se sonhasses
um engenho novo
reinventando o tempo
e desses o teu gosto
--- a tua assinatura ---
à arte desse invento
o horizonte aberto,
o sul,o norte incertos,
à espera dos teus passos
na esquina ali em frente,
a esperar a gente
a paz de um novo abraço

mistério de viver, o eterno renascer
a cada novo dia
o que virá, virá! (e sempre há de vir),
o futuro não se adia!
mas escolher a fruta boa, a canção que soa
o tom da nossa voz...
o que fazer de cada dia... essa é a nossa poesia
isso sim, pertence a nós!

como se nascesses
para um novo mundo
neste exato instante
e as coisas simples
fossem doravante
as coisas importantes
um afago, um beijo,
um abraço amigo
um momento a dois
porque o demais não conta,
o tempo das ausências
fica pra depois!

zebeto corrêa (mg) / martim césar (rs)
intérprete: zebeto corrêa

••••••••••••••

lento mas vem

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

hoje está mais além
das nuvens que escolhe
e mais além do trovão
e da terra firme

demorando-se vem
qual flor desconfiada
que vigila ao sol
sem perguntar-lhe nada

iluminando vem
as últimas janelas

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

já se vai aproximando
nunca tem pressa
vem com projetos
e sacos de sementes

com anjos maltratados
e fiéis andorinhas

devagar mas vem
sem fazer muito ruído
cuidando sobretudo
os sonhos proibidos

as recordações dormidas
e as recém-nascidas

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

já quase está chegando
com sua melhor notícia
com punhos com olheiras
com noites e com dias

com uma estrela pobre
sem nome ainda

lento mas vem
o futuro real
o mesmo que inventamos
nós mesmos e o acaso

cada vez mais nós mesmos
e menos o acaso

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

lento mas vem
lento mas vem
lento mas vem

mario benedetti

••••••••••••••

nasça o que nasce
que passe o que passa
nasça o que nasce
e que passe o que passa
mesa cadeira
televisor
sol geladeira
lençol cobertor
árvore telha
vento vapor
pássaro abelha
despertador
leite cigarro
gelo café
plástico ferro
pão chaminé
chave moeda
página pé
fósforo pedra
sangue chiclé

walter franco / arnaldo antunes (2001)

••••••••••••••

antes do fim

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar mas vem
hoje ando a 10
para chegar aos 100

grill

••••••••••••••

#américas