quarta-feira, 28 de outubro de 2026


os dinossauros

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o menino perdido na intempérie

parece que já não há lugar para as revoluções, a não ser nas vitrines do museu arqueológico, não há lugar para a esquerda, exceto para a esquerda arrependida que aceita sentar-se à direita dos banqueiros. estamos todos convidados ao enterro mundial do socialismo. o cortejo fúnebre abarca, segundo dizem, a humanidade inteira.

eu confesso que não creio nisso. estes funerais equivocaram-se de morto.

 eduardo galeano | nós dizemos não, p. 88 - maio de 1990.

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o «exército» de janones

por valter pomar
uma pessoa física reuniu, sob seu comando individual, sem controle coletivo algum, uma legião de 3 a 5 milhões de seguidores.

conseguiu isso, em grande medida, exatamente porque havia milhões de pessoas querendo contribuir com a campanha e ele, habilmente, ofereceu um canal para isso.

alguém que por sinal cometeu a estupidez de dizer que a campanha nas ruas não tinha a menor importância, para mais recentemente admitir de maneira torta (via a proposta de «panelaço») que é fundamental agir fora das redes.

para piorar a situação, muita gente acha que o tal «exército» está submetido a algum tipo de controle democrático. pensam que fulano validou, que sicrano controla, que o autoproclamado «general» é o porta-voz informal de decisões coletivas.

como a coordenação da campanha e a direção do partido pelo jeito preferiram lavar as mãos, o jeito é torcer para que dê certo ou, pelo menos, que não cause muito dano.
num mundo ideal, onde as instâncias coletivas funcionassem adequadamente, essas pessoas estariam engajadas numa iniciativa sob controle democrático delas mesmas. e não sob a direção de alguém que propõe explicitamente não pensar, obedecer, agir como robô.

mas a experiência pretérita com este tipo de iniciativa, sem nenhum tipo de controle coletivo, é que, se ainda não deu errado, é porque ainda não terminou.

santo leminski, orai por nós.
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«se bem que a patroa falava “esse cara não presta” “tem cara de ser mau marido, de não ter valor” se bem que a patroa falava “esse cara não presta” “tem cara de anjo, mas nunca que ele me enganou”»

gonzaguinha

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distraídos venceremos

por enilton grill
e se o general janones determinasse que cantassem hinos para pneus...
e se o general janones mandasse que se pendurassem no para-brisa de um caminhão...
e se o general janones ordenasse que se ajoelhassem e rezassem em frente a quartéis...
e se o general janones prescrevesse que ateassem fogo em si próprios...
e se...
quem, em meio à multidão, teria coragem de dizer não?
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até que ele era um rapaz muito bem educado
até que ele tinha um bom coração
até que ele era um rapaz muito bem comportado
até que ele era um poço de boa intenção

não creio que ele fosse complexado
meio calado, talvez esquisito, mas batalhador
eu creio que ele era muito inteligente
eficiente, honesto, honrado e trabalhador

por mais de dez anos foi meu excelente vizinho
subia comigo às vezes no elevador
por certo sabia direito do seu cantinho
do escuro, tranquilo, com jeito de sonhador

até que hoje à noite pegando e relendo o jornal
a foto no canto da esquerda me despertou
matou a mulher e as crianças a golpes de pau
sem um bilhete, sem explicações, se suicidou

se bem que a patroa falava «esse cara não presta»
«tem cara de ser mau marido, de não ter valor»
se bem que a patroa falava «esse cara não presta»
«tem cara de anjo, mas nunca que ele me enganou»

até que ele era um rapaz muito bem comportado
mas, não, eu nem sei o seu nome, ele nunca falou
um preto sereno com jeito de sonhador
mas, não, eu nem sei o seu nome, ele nunca falou

👇

(gonzaguinha, 1973)

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e a foto com a camiseta amarela?

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pois é. não falei do «exército» de janones durante a campanha, pois penso que o silêncio em determinados momentos é mais eficaz que as palavras, sobretudo aquelas que na maioria das vezes são mal-entendidas e mal-interpretadas. quanto à camiseta amarela, olhei, gostei e fiz. fiz porque quis. simples assim.  
outra coisa que fiz, e fiz porque quis, foi um américas na rádiocom. costurei depoimentos de companheiros e camaradas enaltecendo as qualidades de lula — um esforço solitário que me custou três dias e três noites de trabalho sem dormir, com a coluna reclamando, queimando, latejando. ontem fui informado de que o programa atingiu «inacreditáveis» vinte visualizações. vinte. provando que, infelizmente, apesar do meu sacrifício até físico, minha contribuição real para a vitória foi zero.

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eu poderia
e talvez devesse
parar no ponto acima
pois
«com frequência escuto elogiar a brevidade e eu mesmo fico feliz quando ouço repetir que o bom, se breve, é duas vezes bom»
mas já que a minha relevância digital atingiu «inacreditáveis» 20 visualizações 
vou me dar o direito de lembrá-los de um miniconto
menos de cinquenta letras
esse é o tamanho de um dos clássicos de augusto monterroso
que é também o microconto mais famoso do mundo:
«quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.»

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los amigos del barrio pueden desaparecer
los cantores de radio pueden desaparecer
los que están en los diarios pueden desaparecer
la persona que amas puede desaparecer.
los que están en el aire pueden desaparecer en el aire
los que están en la calle pueden desaparecer en la calle.
los amigos del barrio pueden desaparecer,
pero los dinosaurios van a desaparecer.

(charly garcía, 1983)
[con letra]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas 

terça-feira, 27 de outubro de 2026


das voltas que o mundo dá

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sem medo de ser feliz

mundo, ó mundo
quem teme o raso
jamais chegará ao fundo.

– tens medo?
– é tarde demais para ter medo.

grill

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em 1983, quando cheguei em são luís (ma), eu já era petista. por influência do velho, no entanto, ainda mantinha um pé no pdt de brizola. naquela época, minha irmã e meu irmão estudavam no colégio santa teresa, bem próximo ao centro histórico, na subida para a praça joão lisboa, e meu pai fazia hora no bar da zulmira esperando os dois saírem. foi nesse bar, por intermédio de meu pai, que conheci paulinho lopes, na época, paulinho pt. daí foi um passo pra fincar os dois pés definitivamente no partido.

foi também através de paulinho que conheci os poetas da akademia dos párias. éramos (e ainda somos) amigos, andávamos sempre juntos, frequentávamos os mesmos lugares, gostávamos das mesmas coisas, mas havia algo entre nós que não fechava, que não coincidia. enquanto paulinho e eu éramos declaradamente, escancaradamente partidários do pt, nossos amigos párias estavam mais para poetas anarquistas do que para militantes petistas ou soldados lulistas.

corre o vento, o rio passa e hoje tenho a impressão de que a ordem se inverteu: paulinho e eu estamos mais para anarquistas, enquanto nossos amigos poetas da akademia dos párias estão mais para militantes petistas e soldados lulistas.

foi pensando nessas voltas que o mundo dá, que hoje acordei, preparei o mate, sentei em frente ao pc e pensei numa pergunta vinda da europa pra mim: «e aí, petista? tá feliz?». aí me perguntei: será que ela sabe que hoje sou crítico do pt e tá fazendo graça, ou será que ainda pensa que sou aquele petista que vestia a camiseta e empunhava a bandeira à luz do dia em plena praça? enquanto pensava nisso, surgiu a entrevista de valter pomar no programa 20 minutos, de breno altman. depois de assistir à entrevista, lembrei da pergunta: «e aí, petista? tá feliz?». sim, estou feliz. nem tudo é conciliação; ainda há vida combativa no pt.

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20 minutos

nesta edição do 20 minutos, breno altman recebe o historiador e dirigente petista valter pomar para debater os caminhos da esquerda brasileira. independentemente do resultado imediato, discutimos as estratégias de reorganização popular, o enfrentamento à extrema-direita e o futuro do pt e dos movimentos sociais no novo cenário político que se desenha no país.

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 (os desafios do pt e da esquerda com o quarto governo lula) 

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antes mundo era pequeno
porque terra era grande
hoje mundo é muito grande
porque terra é pequena
do tamanho da antena parabolicamará
ê, volta do mundo, camará
ê, ê, mundo dá volta, camará

(gilberto gil, 1992)

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

segunda-feira, 26 de outubro de 2026


podres poderes

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por essas ruas inclinadas
eu ando de cabeça erguida
quem não quiser olhar minha cara
que baixe a sua
sou poeta
e sei o que me espera

fernando abreu

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pedro pedreiro penseiro esperando o trem
manhã parece, carece de esperar também
para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
pedro pedreiro fica assim pensando

assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando pra trás
esperando, esperando, esperando
esperando o sol, esperando o trem
esperando o aumento desde o ano passado para o mês que vem

pedro pedreiro penseiro esperando o trem
manhã parece, carece de esperar também
para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
pedro pedreiro espera o carnaval

e a sorte grande no bilhete pela federal todo mês
esperando, esperando, esperando, esperando o Sol
esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
esperando a festa, esperando a sorte
e a mulher de pedro tá esperando um filho pra esperar também

pedro pedreiro penseiro esperando o trem
manhã parece, carece de esperar também
para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém

pedro pedreiro tá esperando a morte
ou esperando o dia de voltar pro norte
pedro não sabe mas talvez no fundo
espere alguma coisa mais linda que o mundo

maior do que o mar, mas pra que sonhar se dá
o desespero de esperar demais
pedro pedreiro quer voltar atrás
quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar

esperando, esperando, esperando
esperando o sol, esperando o trem
esperando aumento para o mês que vem
esperando um filho pra esperar também

esperando a festa, esperando a sorte
esperando a morte, esperando o Norte
esperando o dia de esperar ninguém
esperando enfim, nada mais além
da esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem

pedro pedreiro pedreiro esperando
pedro pedreiro pedreiro esperando
pedro pedreiro pedreiro esperando o trem

que já vem
que já vem
que já vem
que já vem
que já vem
que já vem

👇

(chico buarque do brasil, 1965)

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coração selvagem

ontem, entre várias manifestações, a de um amigo, ex-colega de cfc, me fez ir para a cama pensando. o debate surgiu diante de minha já insistente e cansativa ladainha: se não mudarmos a nossa forma de fazer política e de conscientizar a base, caminhamos rumo ao precipício que nos aguarda logo ali. ele me respondeu assim:

«a esquerda luta contra todos, né?! contra a mídia... nunca tem um congresso a favor. o lula nunca governou tendo a maioria no congresso. nunca! sempre é difícil fazer as coisas. eu te entendo, eu sei que tem que mudar a política. mas quantos anos a direita teve no poder, cara?! esse processo recém está começando. são cento e tantos anos em que a direita e os barões são os que mandam no país. é um processo novo, cara. tu tá completamente correto, cara, mas é difícil, né? a pior elite do mundo é a elite brasileira. ela não aceita, não admite que o pobre melhore. e nisso o pt também erra. o pt deveria mostrar que se tu conseguiu a tua casa, o teu carro, a tua faculdade, foi graças ao teu esforço, mas também às políticas públicas. senão o cara fica achando que é só o esforço dele, e dá essa merda toda que vemos hoje com o crescimento da extrema-direita.»

ao refletir sobre essa resposta dele, percebi que ambos trazemos diagnósticos corretos sobre partes diferentes do mesmo problema. enquanto meu amigo pensa o brasil no agora, nas amarras do presente, eu penso a longo prazo, na construção do futuro. nossas visões não são excludentes, são complementares, eu acho.  

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agora vamos ao que viemos: à desobediência cívica. 

«a desobediência está lá no horizonte. me aproximo dois passos, ele se afasta dois passos. caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. para que serve a desobediência? serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.»

em outras palavras, a saída é desobedecer, seguir nas ruas, pressionar, incomodar, desassossegar...

mas desobediência civil é uma utopia...

óbvio que é. aqui no brasil, politicamente falando, ninguém desobedece nada. salvo as exceções, somos um povo cordato e obediente, nunca desobedecemos coisa alguma. diante desta realidade, parece então que não nos resta outra alternativa que não seja levantar as mãos para o céu e agradecer que lula existe.

sim, penso que sim. mesmo assim, mesmo reconhecendo que somos incapazes de fazer algo mais criativo, me reservo o direito de dizer que este caminho não nos leva a nada. com ele, andamos dois passos para a frente e dez para trás. tem sido assim, e assim sempre será. penso que, para ser diferente, tem que fazer diferente, e para fazer diferente tem que mudar tudo.

tá bem, se não der para mudar tudo, façamos ao menos as reformas, sobretudo a política e a tributária.

pois é, mas estivemos mais de uma década no governo e não fomos capazes de fazê-las. também pudera. com o sistema que aí está, e com as coisas como são, que me desculpem os realistas, mas as reformas política e tributária, no brasil, são uma utopia — uma utopia tão utópica quanto a utopia da desobediência civil.

e então?

então que utopia cada um tem a sua; eu tenho a minha, você tem a sua. sim, não se engane, ambos estamos falando de utopia.

«a minha história é, talvez, / é talvez igual a tua, jovem que desceu do norte / que no sul viveu na rua / e que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo / e que ficou desapontado, como é comum no seu tempo / e que ficou apaixonado e violento como, como você / eu sou como você. eu sou como você. eu sou como você que me ouve agora»

a diferença entre nós é que...

«não quero regra nem nada / tudo tá como o diabo gosta, tá / já tenho esse peso que me fere as costas, / e não vou eu mesmo atar minha mão / o que transforma o velho no novo / bendito fruto do povo será / e a única forma que pode ser norma / é nenhuma regra ter / é nunca fazer nada que o mestre mandar / sempre desobedecer, / nunca reverenciar.»

trocando em miúdos: a diferença entre nós, na esquerda, é que, enquanto alguns estão conformados com o que o sistema oferece, outros querem mais, muito mais.

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enquanto os homens exercem seus podres poderes
motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
e perdem os verdes
somos uns boçais

queria querer gritar setecentas mil vezes
como são lindos, como são lindos os burgueses
e os japoneses
mas tudo é muito mais

enquanto os homens exercem seus podres poderes
índios e padres e bichas, negros e mulheres
e adolescentes fazem o carnaval

queria querer cantar afinado com eles
silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
ser indecente
mas tudo é muito mau

será que apenas os hermetismos pascoais
os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais
nos salvam, nos salvarão dessas trevas
e nada mais?

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(caetano veloso, 1984)
[com letra]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas


domingo, 25 de outubro de 2026


 a poesia é uma arma carregada de futuro

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«eu sou um soldado comum
na fila da frente, sou um»

zé geraldo

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«poesia para o pobre, poesia necessária
como o pão de cada dia,
como o ar que respiramos 13 vezes por minuto,
para ser e, enquanto somos, dizer um «sim» que glorifica.»

gabriel celaya

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américas

vejo a multidão, o mar vermelho
e zitarrosa me vem à mente.
«hago falta»
sim, «sou necessário»
o horizonte é logo ali
há lugar para todos
vote lula! vote 13!
amanhã será outro dia.

grill

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américas | para o povo o que é do povo

o programa traz os depoimentos de (por ordem de entrada):

• simone bacelar | poeta e jornalista (salvador, ba)
• omar dib | médico oftalmologista e professor (são paulo, sp)
• renato della vechia | professor de ciência política e militante do instituto mário alves (cruz alta, rs)
• roger peres | jornalista e colaborador da radiocom (pelotas, rs)
• paulinho lopes | poeta, compositor e produtor cultural (são luís, ma)
• aleksander aguilar-antunes | jornalista, escritor e professor-pesquisador (brasil/el salvador)
• matheus valente | percussionista e motorista de bitrem
• joão carlos gastal júnior | humanista e antifascista (brasília, df)
• martim césar | poeta, escritor e compositor (jaguarão, rs)
• henrique mascarenhas | servidor público, sindicalista e militante do pt
• fernando abreu (fabreu) | poeta e jornalista (são luís, ma)
• antônio cruz (maneca) | professor de economia e militante da economia solidária e do ecossocialismo
• pedro moacyr perez da silveira | professor aposentado de filosofia geral e jurídica da fadir/ufpel (pelotas, rs)

👇

(para o povo o que é do povo)
rádicom 104.5 fm

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#boralula
#vote13

quinta-feira, 22 de outubro de 2026


sonho com serpentes

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«cresça!»

luiz inácio lula da silva

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«um homem completo, no entanto, sabe que mesmo seu mais feroz inimigo, não um só, mas um bom número deles, não chega aos pés daquele terrível adversário, ou seja, aquele "outro" que "habita em seu seio".»
c. g. jung, em psicologia do inconsciente

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dr. jekyll & mr. hyde
quando jung conheceu o maior hyde da história, ele não descreveu um homem. ele descreveu uma coisa. 
anota o que jung disse, com a boca dele, quando viu hitler: 
«hitler causou a impressão de uma espécie de andaime de madeira revestido de tela, um autômato com máscara, como um robô, ou uma máscara de robô. era como se estivesse de mau humor, um sujeito emburrado. não deu mostras de qualquer sinal humano, por mínimo que fosse. faz-nos sentir que nunca seremos capazes de falar com ele; porque não há com quem se falar. ele não é um homem; é um ser coletivo.» (entrevistas e encontros) 
leia de novo. 
não é um homem. é um ser coletivo.
jung não viu um ser humano ali. viu um boneco oco.
um andaime. madeira por dentro, pano por fora. sem gesto humano. sem calor humano. sem alma.
porque hitler não era hitler. ele era o microfone da sombra de um povo inteiro.
todo o ódio que o alemão bom não tinha coragem de dizer em casa, aquele boneco dizia no palanque. toda a inveja, todo o racismo, toda a vontade de culpar o outro, de fuzilar...
o povo não seguiu um homem. o povo se ouviu gritando através de um robô.
e se sentiu forte. pela primeira vez, pôde ser mau em público e ser aplaudido por isso.
é isso que acontece quando o hyde governa. 
agora olhe para o espelho.
não precisa de nome. você sabe.
quando você vê alguém que simula metralhadora para fuzilar o próprio povo e você ri.
quando você vê alguém que pesa gente preta em arroba e você aplaude.
quando você vê alguém que diz que ter filho gay é falta de porrada e você concorda.
quando você vê alguém que chama o pobre de burro que só serve para votar e você vota nele.
quando você vê alguém que ri de quem está sem ar e você acha engraçado.
pergunte:
quem ali está falando? um homem? ou um andaime oco revestido de tela, repetindo exatamente o que você tem de pior e nunca teve coragem de falar sozinho?
jung avisa: quando você apoia um homem sem sinal humano mínimo, sem capacidade de ter uma conversa humana, você não está apoiando um homem.
você está emprestando sua alma para um robô usar como máscara.
e esse robô não tem alma para te devolver.
ele é um ser coletivo. ele é feito dos pedaços da sua sombra que você não teve coragem de encarar.
por isso você o ama. porque ele te dá permissão para ser mau sem culpa.
mas jung também avisa o final dessa história:
o andaime de madeira sempre cai. sempre.
e quando cai, não sobra um homem para julgar. 
sobra um país inteiro que vai ter que olhar no espelho e responder:
o que eu fiz quando o hyde falou com a minha voz?
quem ainda tem uma lanterna acesa por dentro, desliga o microfone do robô agora.
quem já virou andaime, continua aplaudindo.
quem já virou andaime, continua aplaudindo o substituto.
c. g. jung, «entrevistas e encontros».
do perfil «sou além + jung» (facebook).

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epílogo

uma coisa dessas quase chegou a governar o mundo!
os povos conseguiram dominá-la, mas ainda
é muito cedo para sair cantando vitória:
o ventre que gerou a coisa imunda continua fértil!

bertolt brecht

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«não cresça, meu filho, não cresça jamais
os grandes fazem ao mundo muito mal»

facundo cabral

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quando por cinco vezes a terra cedeu
a pesadelos de fogo e de água
(naquela que tem sido a história das grandes extinções)
foram os frágeis que se alastraram tão quietos ─
porque não tinham nome nem rosto
esconderam-se sem que os percebessem

foram para o escuro fundo, em
mares inconsoláveis
foram por entre vales de ossos imensos e
protegeram-se na curvatura da sombra
foram morar na última fenda do
último tronco ─
como se tudo insistisse num
último coração —
dentro da sequoia

são os vencidos que têm carregado o mundo
são lobas que há dias emagrecem, regurgitando
em bocas de ninhadas ainda cegas
são pássaros de asa quebrada, que
estremecem nas mãos
são algum pulso
e alguma lua
são homens e mulheres sem lugar, recurvados sobre
si como pendendo
a uma pergunta sem pronúncia

os menores é que rompem ao meio
o medo
e suspendem a vida num fio claríssimo de seda em que
a morte não toca

mar becker

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sonho com serpentes, com serpentes do mar
com certo mar, oh, de serpentes sonho eu
grandes, transparentes e em suas barrigas carregam
o que pode acabar com o amor

oh, eu a mato e surge uma maior.
oh, com muito mais inferno em digestão.

não caibo em sua boca. ela tenta me engolir.
mas se engasga com minha alma.
acho que está louca: dou a ela para mastigar
uma pomba da paz, e a enveneno com meu coração.

oh, eu a mato e surge uma maior.
oh, com muito mais inferno em digestão.

esta enfim me engole, e entro por seu esôfago,
vou passando, pensando no que acontecerá
mas ela se destrói quando chego ao seu estômago
e planto com um verso uma verdade.

oh, eu a mato e surge uma maior.
oh, com muito mais inferno em digestão.

👇

(silvio rodríguez, 1974)

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ao vento

a virada tá acontecendo
isso é fato
as pesquisas mostram
e as ruas provam
mas o que vai acontecer
daí pra frente
ainda é uma incógnita
nessas horas
é sempre bom lembrar
que é quando tá acuado
que o bicho mostra os dentes
por outro lado
não custa avisar
que a incógnita do dia seguinte
não é o destino do bicho
é o tamanho do espelho
que o homem vai ter que encarar

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coração tranquilo
há quem passe a vida procurando o caminho do meio e, apoiado na razão, machuque o coração. não é o meu caso. ando pelos extremos. coabito tanto na superfície quanto submerso. escrevo às vezes em prosa e outras em verso. a palavra é o meu universo. verso e reverso. nunca tergiverso. rio e mar. às vezes dou risada e outras tenho vontade de chorar. mas não sou bipolar. o bipolar tem dificuldade para dormir e acordar. eu durmo bem e acordo melhor ainda. tenho a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. não me vendo nem me alquilo.
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si vas hacia el centro
de este verde lugar
encontrarás mi pueblo
donde nací
pregunta por mi padre
y te sabrán decir
que es un campesino
amigo del sol

busca a mi padre y dile que estoy bien
que mi conciencia sigue libre
y que siguen muy mansos mis pensamientos

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(león gieco, 1974)

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imagens:
registros de um carreteiro que fiz para o meu pai
são luís, maranhão — outubro de 2008

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américas - para o povo o que é do povo
em breve, na rádiocom 104.5 fm

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#salacheguevara
#casadosaedos
#lula13

terça-feira, 20 de outubro de 2026


tributo a um rei esquecido

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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jean-paul sartre (o ser e o nada)
para a filosofia existencialista, o indivíduo vivo é um «projeto em aberto», imprevisível e incômodo. quando a pessoa morre, a sua existência torna-se «em-si», isto é, estática, imóvel.

o sintoma da hipocrisia: a sociedade prefere os mortos porque o morto não pode mais se defender, desmentir seus biógrafos ou mudar de opinião. o reconhecimento tardio é uma forma de domar a figura do autor, transformando uma força viva e rebelde em um monumento inofensivo.

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pedro bial: você sempre foi durão, benito? 
benito di paula: é que eu não choro pra fora, é difícil chorar pra dentro, aí você não demonstra a tristeza, você demonstra só alegria... 
👇

 (conversa com bial) 
11/11/2022
 
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ninguém sabe a mágoa que trago no peito 
quem me vê sorrir desse jeito
nem sequer sabe a minha solidão
é que meu samba me ajuda na vida
minha dor vai passando, esquecida
vou vivendo essa vida do jeito que ela me levar

vamos falar de mulher, da morena e dinheiro
do batuque do surdo e até do pandeiro
mas não fale da vida, que você não sabe o que eu já passei
moço, aumente esse samba, que o verso não para
batuque mais forte, a tristeza se cala
e eu levo essa vida do jeito que ela me levar

👇

(benito di paula, 1976)

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contra o vento
para além do conformismo dos hoje velhos que um dia foram jovens e sonharam mudar o mundo, o que mais me indigna no ser humano é a sua hipocrisia. vide incontáveis casos; o mais recente é o de benito di paula. mas é assim, é assim que as coisas são, dizem os conformados. sim, eu sei, e é por essas e outras que eu vivo e vou morrer indignado, recitando contra o vento poemas para os postes.
grill

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o que foi que fizeram com ele? não sei
só sei que esse trapo, esse homem foi um rei
o que foi que fizeram com ele? não sei
só sei que este trapo, esse homem foi um rei

👇

(benito di paula, 1974)

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«adeus, amor (adeus, adeus, amor)
eu vou partir (eu vou partir)
ah, eu vou-me embora»

benito di paula

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hey! mr. tambourine man
toca uma canção pra mim
tô sem sono e não tenho para onde ir

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(bob dylan, 1965)
[live at newport folk festival]
letra em português

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

domingo, 18 de outubro de 2026


vai trabalhar vagabundo 

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a mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

manoel de barros

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a besta-fera

por enilton grill

(texto escrito em 26 de março de 2020)
que me desculpem os que pensam que bolsonaro ultrapassou os limites da loucura com o pronunciamento de anteontem.

ele não é louco, só tem a cara do mercado financeiro, da elite e dos latifundiários. ele é uma besta-fera.

bolsonaro ultrapassou os limites no dia em que homenageou um torturador na nossa cara: «pela família, contra o comunismo, pela nossa liberdade e pela memória do coronel carlos alberto brilhante ustra, o pavor de dilma rousseff, o meu voto é sim».

ele disse o que disse e não aconteceu nada. foi ali que a besta-fera se sentiu liberada para tudo.

depois, ele pôs os interesses econômicos acima da vida, e nós seguimos sem fazer nada, esperando que alguém faça tudo — quem sabe a rede globo, como fez com collor.

é urgente conter e calar bolsonaro, mas a forma como ele vai sair importa muito: sinaliza se outro bolsonaro poderá surgir.

enfim, tudo tem limite, sobretudo bolsonaro. 
o problema não é ele, somos nós.
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a escala ramagem

por julio benchimol pinto

(texto escrito em 6 de julho de 2026)
a notícia veio com cheiro de brasil paralelo e folha de ponto em branco: a esposa de alexandre ramagem, procuradora em roraima, depois de meses longe do trabalho — entre férias, recesso, atestado não homologado, licença-prêmio e outras delicadezas do serviço público premium —, pediu nova licença para entrar na política pelo pl.

até aí, nada surpreende. no bolsonarismo, a mamata só é crime quando não está na família.

o mesmo campo político que torce o nariz para o fim da escala 6x1 — aquela engenharia medieval em que o trabalhador vive seis dias para descansar um — assiste calado à escala 0x7 dos seus: zero expediente, sete justificativas, salário de elite, discurso de mérito.

para o caixa de supermercado, “vai trabalhar, vagabundo”; para a turma do cercadinho, férias, licença, recesso, atestado, prêmio e candidatura.

é a moral bolsonarista em estado puro: chicote no lombo dos outros, almofada ergonômica no próprio gabinete. no púlpito, gritam contra privilégios; no protocolo, pedem mais um.

e ainda posam de defensores do trabalhador. defensores, sim. do trabalhador imaginário: aquele que trabalha muito, reclama pouco, descansa quase nada e vota em quem acha folga coisa de comunista.

no fundo, o bolsonarismo inventou a meritocracia reversa: quem rala merece sermão; quem encosta merece legenda.

a escala 6x1 é para o povo; para os escolhidos do pl, vale a escala ramagem: licença sobre licença, moral sobre moralismo, e ponto eletrônico tocando berrante no vazio.

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pai nosso que não estais aqui
sacrificado é o vosso povo
humilhados e ofendidos são os nossos homens
deserdados e famintos são os nossos filhos
feridos e estéreis são nossos ventres
aqui na terra

o pão nosso de cada dia
a alegria nossa de cada dia
o amor nosso de cada dia
o trabalho nosso de cada dia
venham a nós
voltem a nós
de trem, de carro ou navio

não nos deixeis cair em lamentações
mas livrai-nos desse vazio

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(último trem, 1980)

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no meio do meu caminho sempre haverá uma pedra
plantarei a minha casa, numa cidade de pedra
itamarandiba, pedra corrida, pedra miúda rolando sem vida
como é miúda e quase sem brilho a vida do povo que mora no vale

no caminho dessa cidade passarás por turmalina
sonharás com pedra azul, viverás em diamantina
no caminho dessa cidade as mulheres são morenas
os homens serão felizes como se fossem meninos

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itamarandiba
(último trem, 1980)

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ao vento

vai trabalhar vagabundo
tô trabalhando
onde
no américas

grill 

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américas

para o povo o que é do povo

em breve: no blog, na rádiocom e nas plataformas digitais.

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#lula13
#salacheguevara
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sexta-feira, 16 de outubro de 2026


eduardo galeano sobre a palestina

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«desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. não podem nem sequer respirar sem autorização. têm perdido a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua liberdade, tudo. nem sequer têm direito a eleger os seus governantes. quando votam em quem não devem votar, são castigados. gaza está sendo castigada. converteu-se numa ratoeira sem saída, desde que o hamas ganhou legitimamente as eleições em 2006. algo parecido tinha ocorrido em 1932, quando o partido comunista triunfou nas eleições de el salvador. banhados em sangue, os habitantes de el salvador expiaram a sua má conduta e desde então viveram submetidos a ditaduras militares.»

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«a democracia é um luxo que nem todos merecem. são filhos da impotência os rockets caseiros que os militantes do hamas, encurralados em gaza, disparam com desleixada pontaria sobre as terras que tinham sido palestinas e que a ocupação israelense usurpou. e o desespero, à orla da loucura suicida, é a mãe das ameaças que negam o direito à existência de israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está a negar, desde há muitos anos, o direito à existência da palestina.»

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«já pouca palestina resta. pouco a pouco, israel está a apagá-la do mapa. os colonos invadem, e, depois deles, os soldados vão corrigindo a fronteira. as balas sacralizam o despojo, em legítima defesa. não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. hitler invadiu a polônia para evitar que a polônia invadisse a alemanha. bush invadiu o iraque para evitar que o iraque invadisse o mundo. em cada uma das suas guerras defensivas, israel engoliu outro pedaço da palestina, e os almoços continuam. o repasto justifica-se pelos títulos de propriedade que a bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.» 
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«israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das nações unidas, o que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, o que escarnece das leis internacionais, e é também o único país que tem legalizado a tortura de prisioneiros. quem lhe presenteou o direito de negar todos os direitos? de onde vem a impunidade com que israel está a executar a matança em gaza? o governo espanhol não pôde bombardear impunemente o país basco para acabar com a «eta», nem o governo britânico pôde arrasar irlanda para liquidar o ira. talvez a tragédia do holocausto implique uma apólice de eterna impunidade? ou essa luz verde vem da potência "manda chuva" que tem em israel o mais incondicional dos seus vassalos?»
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«o exército israelense, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe quem mata. não mata por erro. mata por horror. as vítimas civis chamam-se danos colaterais, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. em gaza, de cada dez danos colaterais, três são meninos. e somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está a ensaiar com êxito nesta operação de limpeza étnica. e como sempre, sempre o mesmo: em gaza, cem a um. para cada cem palestinos mortos, um israelita. gente perigosa, adverte o outro bombardeamento, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos convidam a achar que uma vida israelense vale tanto como cem vidas palestinianas. e esses meios também nos convidam a achar que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de israel, e que uma potência nuclear chamada irã foi a que aniquilou hiroshima e nagasaki.»
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«a chamada comunidade internacional, existe? é algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? é algo mais que o nome artístico que os estados unidos assumem quando fazem teatro?»
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«ante a tragédia de gaza, a hipocrisia mundial destaca-se uma vez mais. como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade. ante a tragédia de gaza, os países árabes lavam as mãos. como sempre. e como sempre, os países europeus esfregam as mãos. a velha europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma ou outra lágrima enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. porque a caça aos judeus foi sempre um costume europeu, mas desde há meio século essa dívida histórica está a ser cobrada dos palestinos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antissemitas. eles estão a pagar, em sangue, na pele, uma conta alheia.» 
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eduardo galeano
escritor uruguaio
texto publicado em 2014

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rádiocom 104.5fm

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américas - gaza urgente
produção e apresentação
enilton grill

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