terça-feira, 14 de julho de 2026

amor é apenas uma palavra de quatro letras

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«aprendi a ser formal e cortês
cortando o cabelo uma vez por mês
e se acabou a formalidade
é que nunca gostei da sociedade.»


charly garcía

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«qui m´importa, qui m´importa
o seu preconceito
qui m´importa»


renato teixeira

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«você tem uma única tarefa: concretizar sua própria natureza; e, para isso, precisa estar na sociedade como se não fizesse parte dela. a sociedade que é tão medíocre que continua apostando em coisas que nunca funcionaram nem funcionarão.»

facundo cabral

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vai trabalhar, vagabundo

por eduardo marinho

antigamente, eu pedia comida olhando no olho das pessoas – eu ainda não sabia vender meus artesanatos. o ato de pedir é uma grande escola se não nos deixamos humilhar por isso. por exemplo, se eu chego em um restaurante e vejo o dono do estabelecimento, vou até ele e digo: «estou viajando de carona, sem dinheiro, e estou sem comer há alguns dias. estou com muita fome, e você está cheio de comida aí. você vai me negar um prato de comida? não acredito nisso!».

ele se espanta pelo fato de alguém que esteja pedindo comida fale de igual para igual com ele, sem humilhação. se ele negar o prato de comida, eu me retiro. já aconteceu de me retrucarem: «mas você quer comida sem trabalhar?». respondi: «se tiver trabalho aí eu trabalho. faço qualquer coisa: lavo os pratos, varro o chão, sirvo as pessoas, limpo os banheiros, estaciono os carros… ». ele: «mas eu tenho funcionários para fazer tudo, não preciso de seus serviços». eu: «mas eu preciso comer. você não vai me negar um prato de comida, né?».

é constrangedor para ele negar comida, mas se ele o fizer, o faz violentamente, através de xingamentos, então eu vou no restaurante vizinho repetir o mesmo processo, até que me deem um prato de comida.

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ao vento

não tive muita sorte
com as mulheres
como poeta

uma me mandou trabalhar
a outra já de saída
deu de me podar

a mesma poesia
que me levou a elas
foi a que
me afastou delas

grill

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«devolva o neruda que você me tomou
e nunca leu»

chico buarque

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«a "rainha das cantoras folk", essa tinha que ser joan baez. joan nasceu no mesmo ano que eu, e nossos futuros iriam se conectar, mas, naquela época, seria um despropósito sequer pensar nisso. eu a vira na tv. ela estava em um programa de música folk.


não consegui parar de olhar para ela, não queria nem piscar.

ela tinha uma aparência bem travessa - cabelo negro cintilante, pestanas encurvadas, parcialmente erguidas... a visão dela me deixou enlevado. tudo aquilo, e ainda a voz. uma voz que expulsava os maus espíritos. era como se ela tivesse vindo de outro planeta.

de origem escocesa e mexicana, ela parecia um ícone religioso, alguém por quem você se sacrificaria, e cantava com uma voz direto para deus... também era uma instrumentista excepcionalmente boa.

joan parecia muito madura, sedutora, intensa, mágica. nada do que ela fazia dava errado. o fato de ela ter a mesma idade que eu quase fez com que me sentisse inútil.

no entanto, por mais ilógico que pudesse parecer, algo me disse que ela era meu complemento - aquela com quem minha voz poderia encontrar perfeita harmonia.

naquela época não havia nada além de mundos de distância e enormes barreiras entre ela e eu. eu ainda estava atolado na roça. não obstante, alguma sensação estranha me disse que inevitavelmente nos encontraríamos.»

bob dylan, crônicas - volume um, pg 277.

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«ele parecia um caipira urbano, com os cabelos batidos em volta das orelhas e encaracolados no topo. deslocando o peso do corpo de um pé para o outro enquanto tocava, ele parecia pequeno por trás do violão. ele era um absurdo, sua jaqueta era de couro surrado, dois números menor do que o seu tamanho, andava sempre maltrapilho, mas tinha algo nele que o fazia maior do que ele parecia ser...»

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«tentei convencer bobby a cuidar da saúde, a beber e fumar menos, a escovar os dentes, pentear o cabelo, tomar banho, trocar de roupa, essas coisas todas (...) ele é uma pessoa complicada, problemática e difícil. vejo bobby como um diamante levemente danificado na cabeça. mais sensível do que a média das pessoas. quando eu estava na plateia assistindo-o tocar, percebia quão facilmente ele ficava arrasado com um comentário ou com algo que passava! mas nunca se sabe quando ele sente essas coisas, porque ele é muito bom em ocultar tudo isso. na minha opinião, por alguma razão, ele quer se aliviar de toda a responsabilidade, para apenas sobreviver com o que as pessoas têm para oferecer. se você não se preocupa consigo mesmo de verdade, então não tem de se preocupar com mais ninguém. ele é assustadoramente inteligente, com um curioso imã dentro de si que nos atrai. quer dizer, eu amo bobby, e faria qualquer coisa por ele, sempre.»

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«eu andava por aí roubando as músicas dele. quer dizer, literalmente. ele escreveu "four letter word", deixou cair atrás de um piano e esqueceu. eu peguei a música lá em casa e aprendi a tocar. um ano depois, eu estava cantando e ele disse: "eita, que música boa, de quem é?". e eu ri: "foi você que escreveu, seu idiota!".»

joan baez

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parece que foi ontem
que deixei minha mente para trás
lá no café cigano
com uma amiga de uma amiga minha
que estava sentada com um bebê pesado no colo
mas falava de uma vida totalmente livre da escravidão
com olhos que não mostravam nenhum traço de sofrimento
uma frase me veio à mente, associada a ela:
que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

do lado de fora, na vitrine de uma loja desorganizada
gatos miavam até o raiar do dia
eu, por minha vez, mantive a boca fechada
para você, não tinha palavras a dizer
minha experiência era limitada e insuficiente
você falava enquanto eu me escondia
para aquele que era o pai do seu filho
você provavelmente não imaginou que eu tivesse ouvido, mas eu ouvi
você dizer que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

eu me despedi sem ser notado
empurrado para dentro dos meus próprios jogos
flutuando entre vidas
indescritíveis por nome
procurando meu duplo, buscando
a evaporação completa até o âmago
embora eu tenha tentado e falhado em encontrar qualquer porta
devo ter pensado que não havia nada mais absurdo
do que dizer que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

embora eu nunca tenha sabido exatamente o que você quis dizer
quando falava com seu homem
só consigo pensar em termos de mim
e agora eu entendo
depois de acordar vezes suficientes para achar que vejo
o beijo sagrado que deveria durar a eternidade
se transformar em fumaça, é o destino
recai sobre estranhos, viaja livremente
sim, agora eu sei, as armadilhas só sou eu quem arma
e eu realmente não preciso que me garantam
que amor é apenas uma palavra de quatro letras

é estranho estar ao seu lado
há muitos anos a situação se inverteu
você provavelmente não acreditaria em mim
se eu te contasse tudo o que aprendi
e é muito, muito estranho mesmo
ouvir palavras como «para sempre»,
frotas de navios passam pela minha mente,
não consigo enganar
é como olhar diretamente nos olhos do professor
não posso dizer nada a você, a não ser repetir o que ouvi
que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

love os just a four letter word | bob dylan (1967)
canta: joan baez

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com 85 anos, e ainda jovem, baez parece saber coisas que sempre confundiram, e continuam a confundir o bardo.

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«não consigo ver meu reflexo nas águas
não consigo expressar os sons que não revelam dor
não consigo ouvir o eco dos meus passos
nem lembrar o som do meu próprio nome»

dylan

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ao vento

com o passar do tempo
o poeta errante e a morena estonteante
foram ficando cada vez mais distantes
quarenta anos depois, dylan emitiu um mea culpa:

«eu estava apenas tentando lidar com a loucura que se tornou minha carreira… não dá pra amar e ser esperto ao mesmo tempo... lamento ver esse relacionamento terminar.»

de sua parte, baez não guardou rancor, mas disse melancolicamente:

«meus instintos de mãe verteram porque ele era uma bagunça desalinhada... dylan é um diamante a ser lapidado... um poeta em estado bruto.»

a musa que me perdoe, mas lapidar dylan seria tirar dele o que o torna único. ele é um diamante porque permaneceu bruto.

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diamantes e ferrugem

atrás
de nós
a paisagem
já é
memória
o tempo
corre
não
para a frente
mas
para dentro
meu destino
é ser pedra
o teu
diamante
o tempo
que corre
para dentro
é o mesmo
que oxida
o ferro
enquanto
você
faz silêncio
eu
pacientemente
espero
meu destino
é ser pedra
o teu
diamante
enquanto
você
fala
eu
berro

grill

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você apareceu no cenário
já como uma lenda
a pedra bruta
o poeta errante
o vagabundo original
você veio para os meus braços
e lá ficou
sim, eu te amava demais
e se você está me oferecendo diamantes e ferrugem
eu já paguei

diamonds and rust | joan baez (1975)
(legendas em português)

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#américas

segunda-feira, 13 de julho de 2026



pablo neruda
12 de julho de 1904
23 de setembro de 1973

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«a poesia é uma insurreição»

pablo neruda

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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a poesia não terá cantado em vão 

faz hoje cem anos precisamente que um pobre e esplêndido poeta, o mais atroz dos desesperados, escrreveu esta profecia: a l'aaurore, armés d'une ardiente patience, nous entrerons aux splendides villes (ao amanhecer, armados de uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades.)

eu creio nessa profecia de rimbaud, o vidente. venho de uma obscura província, de um país separado de todos os outros pela cortante geografia. fui o mais abandonado dos poetas e minha poesia foi regional, dolorosa e chuvosa. contudo, sempre tive confiança no homem. jamais perdi a esperança. por isso talvez tenha chegado até aqui com minha poesia, e também com minha bandeira. 

em conclusão, devo dizer aos homens de boa vontade, aos trabalhadores, aos poetas, que todo o porvir foi expressado nessa frase de rimbaud: só com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens.

assim a poesia não terá cantado em vão.

pablo neruda

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américas 

no dia 18 de julho de 2004, ia ao ar pela rádio com 104.5 fm o programa américas «centenário de pablo neruda». o programa teve quase duas horas de duração e guardo esse registro até hoje em meus arquivos físicos. abaixo, transcrevo um resumo desse material.

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centenário de pablo neruda 

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poema para pablo neruda 

pablo nosso, que estás em teu chile,
vento no vento.
voz cósmica de um antigo caracol.
nós te dizemos:
obrigado pela ternura que nos deste.
pelas andorinhas que voam com teus versos.
de barco a barco. de galho a galho.
de silêncio a silêncio.
o amor dos homens repete teus poemas.
em cada calabouço da américa,
um rapaz se lembra de teus poemas.
pablo nosso, que estás em teu chile.
toda a paisagem guarda teu sonho de gigante.
a umidade da planta e da rocha,
lá no sul.
a areia desintegrada, no meio das vicunhas,
no deserto.
e lá em cima, o salitre, as gaivotas e o mar.
pablo nosso, que estás em teu chile,
obrigado pela ternura que nos deste.

https://www.youtube.com/watch?v=KnmTk7JljxE&list=RDKnmTk7JljxE&start_radio=1
atahualpa yupanqui

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em 1969, quatro anos antes de morrer, pablo neruda escreve: « de parral não tenho recordações de infância. me levaram quase recém nascido a frontera. um jornalista conta que muito procurou o local onde nasci, sem encontrá-lo. eu tampouco o sei. agora, aos 65 anos, parral me recebe com carinho, porém sem me conhecer o bastante, já que minha vida transcorreu em outras geografias. mas ali está a sepultura de minha mãe e de toda minha família.»

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todos tenemos parientes, tenemos
todos por algo lloramos, lloramos
somos de una vida corta, sabemos
todos siempre nos buscamos

como explicarnos el viento
que nos pega en este invierno
como explicarnos la muerte
que llega y es un recuerdo

como somos | piero 1969
(con letra completa)

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«minhas principais recordações são de temuco, ao sul do chile. minha poesia ficou impregnada dessa paisagem. o mar, as montanhas e os rios daquela região me ficaram na alma, emaranhados. e continua a chover dentro de mim, como há exatos 65 anos em temuco quando eu ouvia calambitos temucanos.» 

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https://www.youtube.com/watch?v=K8uzmvh9Ud4&list=RDK8uzmvh9Ud4&start_radio=1
calambito temucano | violeta parra (1962)
por inti illimanni

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«mas para mim o sítio dos sonhos era puerto saavedra com a imensa desembocadura do rio cautín, o oceano de ondas como montanhas, as docas cobertas de areia que eu não conhecia. tive ali diante dos olhos os primeiros pinguins e os primeiros cisnes selvagens.»

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susurraré mi historia a un trovador errante
sombra en busca de almas
para que la reparta junto a los fuegos
ocasionales tibios que depara el camino
a todos quienes sueñan con un cisne
salvaje

https://www.youtube.com/watch?v=rCtw4XEp_00&list=RDrCtw4XEp_00&start_radio=1
canción del trovador errante | silvio rodríguez (1994)

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«puerto saavedra tinha também um bruxo de cabelo e barba branca. era o poeta d. augusto winter. ele vinha do norte. d. augusto era o bibliotecário da melhor biblioteca que eu já conheci: a biblioteca da minha infância. era pequenina, porém abarrotada de julio verne e salgari. eu menino de calça curta me instalava ali como se me tivessem condenado a ler em três meses de verão todos os livros escritos durante os longos invernos do mundo.»

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es día de frío y llegas a casa.
vienes de la tarde cansada de un jueves.
los muebles, tu perro y millones de ojos
están, como siempre, esperando tu vuelta,
en la que presientes que nada ha cambiado.
te espera lo mismo, el sueño ha pasado.

https://www.youtube.com/watch?v=IWeczEdKZB0&list=RDIWeczEdKZB0&start_radio=1
canción de invierno | silvio rodríguez (1969)
(com letra completa)

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«ali também me surpreenderam e apaixonaram os olhos negros e repentinos de maria parodi. trocamos bilhetes que eram verdadeiras cartas de amor bem dobrados para que desaparecessem em nossas mãos. mais tarde escrevi para ela o número 19 de meus 20 poemas de amor.»

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poema 19

menina morena e ágil, o sol que coalha
os trigos, que dá os frutos e que torce as algas,
fez teu corpo alegre, teus olhos luminosos
e tua boca que tem o sorriso da água.

um sol negro e ansioso te enrola nos raios
de negras madeixas, quando esticas os braços.
tu brincas com o sol como com o estuário
e ele te põe nos olhos escuros remansos.

menina morena e ágil, nada em ti acerca.
tudo de ti me afasta, como do meio dia.
és a delirante juventude da abelha,
a embriaguez da onda, e a força da espiga.

meu coração sombrio te busca, sem demora,
e amo teu corpo alegre, a voz solta e delgada.
mariposa morena, doce e inalterável,
como o trigal e o sol, a papoula e a água.

pablo neruda

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«agora, aos 65 anos, me dou conta que estive relatando coisas sem importância. aqueles porões e aqueles livros e aqueles olhos negros levou-os talvez o vento.»

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a veces entra en el bosque un silbido veloz
que recorre fugaz la penumbra y la luz.
y los árboles fríos del bosque soy yo.

todas las copas se postran a fin de existir.
de no hacerlo, deshechas habrían de morir.
y ese viento que trae la muerte eres tú.

eres la llama que abrasa la flor
y la violencia del fiero huracán,
la sombra oscura que sigue mi amor.

¿por qué, por qué tú sigues ―di―
matando este amor que hoy dejas?

https://www.youtube.com/watch?v=DKMxIXXaIBA&list=RDDKMxIXXaIBA&start_radio=1
el viento eres tú | silvio rodríguez (1965)

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ponto

nova linha

nova linha

outra história

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pelotas, 13 de julho de 2026

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«mi casa es su casa»

anônimo

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«passei quase todo o ano de 1969 em isla negra. desde cedo o mar começa a se avolumar de forma fantástica. parece estar amassando um pão infinito. é branca como farinha a espuma derramada, impulsionada pelo fermento frio da profundidade.

o inverno é estático e brumoso. ao seu encanto acrescentamos todo dia o fogo da lareira. a brancura das areias na praia nos oferece sempre um mundo solitário, como era antes de existirem habitantes ou veranistas na terra.

no inverno as casas de isla negra vivem envoltas pela escuridão da noite. somente a minha se acende. às vezes penso que há alguém na casa defronte. vejo uma janela iluminada. é só um reflexo. não tem ninguém na casa do outro lado da rua. é a luz da minha janela que se reflete na sua.»

pablo neruda

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«sempre me perguntam, especialmente os jornalistas, que obra estou escrevendo, que coisa estou fazendo. esta pergunta sempre me surpreendeu pela superficialidade. porque a verdade é que sempre estou fazendo a mesma coisa. nunca deixei de fazer a mesma coisa. poesia?

só soube muito depois que o que eu escrevia se chamava poesia»

(idem)

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«en la distancia del silencio aprendí a soñarte mujer ausente»

autor desconhecido

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poema 15

gosto quando calas e estás como ausente,
e me ouves de longe, e minha voz não te toca.
é como se teus olhos voassem de ti
e como se um beijo fechasse tua boca.

como tudo está repleto da minha alma
emerges das coisas, repleta da minha alma
mariposa de sonho, pareces minha alma
e pareces a palavra melancolia.

gosto quando calas e ficas distante e
como te queixando, mariposa em arrulho.
e me ouves de longe e minha voz não te alcança:
deixa que eu me cale com o teu silêncio.

deixa que te fale também com teu silêncio
claro como a lâmpada, simples como o anel.
és tal qual a noite, calada e constelada.
teu silêncio é de estrela, remoto e singelo.

gosto quando calas pois ficas como ausente.
distante e triste como se estivesses morta.
uma palavra então e só um sorriso bastam.
e fico alegre, alegre por não ser real.

pablo neruda

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https://www.youtube.com/watch?v=RIqo1amFu_w&list=RDRIqo1amFu_w&start_radio=1
me gustas cuando callas | paco ibánez/pablo neruda (1977)

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#américas

#pabloneruda

domingo, 12 de julho de 2026


causas e «azares»

(ainda estou aqui)

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »
maria elizabeth gastal fassa

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«vivências que constroem história... título: VIDA!»

cris valente

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«são muito poucos os que ainda qurem ser rebeldes»

celso borges

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cafés com história

no café el cairo, que não está no egito e sim na cidade argentina de rosário, roberto fontanarrosa, desenhista e escritor, tem sua mesa. ele morreu faz anos, mas jamais deixou de comparecer. e sempre acompanhado por seu cão mendieta e seu amigo inodoro pereyra, criados por ele.

no café tortoni, de buenos aires, foi fundado o primeiro grupo de artistas e escritores argentinos.

a academia brasileira de letras, presidida pelo romancista machado de assis, se reunia no café colombo, do rio de janeiro.

no café paraventi, na cidade de são paulo, olga benário e luiz carlos prestes imaginavam a revolução brasileira.

nos tempos do exílio, trotski e lênin discutiam a revolução russa no café central, em viena.

algumas obras primas do poeta português fernando pessoa foram escritas no café a brasileira, de lisboa.

enquanto nascia o século vinte, pablo picasso fez a exposição de suas obras no café els quatre gats, de barcelona.

em 1894, o escritor ferenc molnár jogou nas águas do danúbio, as chaves do café new york, de budapeste, para que ninguém trancasse a porta.

em 1921, foi inaugurado em chicago o sunset café, onde louis armstrong e benny goodman abriram as asas da sua música.

eduardo galeano | o caçador de histórias, p. 57 e 58.

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qual é a relação que as causas e os «azares» (acasos) têm para você? existe destino para você? existe casualidade?

silvio rodríguez: – a casualidade e a «causalidade», as duas coisas. eu acredito em ambas. em última análise, e em grande medida, são elas que movem a todos nós, não é? ou seja, um segundo que você demora para se barbear ou para pegar algo e olhar, é um segundo que passa, é uma chance que você usou ou desperdiçou. cada instante está cheio disso, cada instante da vida é um pouco isso, não é? é como a urdidura completa que faz todo o tecido da existência.

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*urdidura: fios longitudinais de um tear.

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«a casualidade não existe, o que nos é apresentado como acaso surge das fontes mais profundas»

friedrich schiller

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a causalidade é bem conhecida do pensamento cartesiano de causa e efeito.
entretanto alguns acontecimentos em nossas vidas escapam dessa lei.
são aqueles fenômenos que por vezes tomamos por simples coincidência, mas que escapam de qualquer explicação lógica.
a esses fenômenos carl jung vai chamá-los de sincoronicidade.

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«sincronicidade é a união de eventos internos e externos de uma maneira que não pode ser explicada por causa e efeito e que seja significativa para o observador.»

carl jung

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«enilton, irmão lindo da alma!

tu és um desses rebeldes, e como!

são oportunidades que vêm por períodos e momentos — quiçá, às vezes, predestinados ou seriam sincronicidades? essas de te encontrar vez ou outra por aqui e sempre me inspirares e me remeteres a reflexões.

caminho pouco por aqui. a juliana diz que não sei me divertir no facebook (e cumprir a função a que ele se destina). é que, quando entro, tropeço em tantas estupidezes que sempre decido sair... mas fico. acho que é também para te encontrar, ver e ler...

tchê, como diz um poeta alemão, tu és um cara realmente imprescindível e necessário para todos nós que lutamos por «um outro mundo possível».

obrigado por me inspirares a ter fé na eterna rebeldia.»

ubirajara cunha

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ao vento

não sei nada de campo e cidade
sei de prantos e reciprocidades
sei de santos e sincronicidades

grill

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quando acabar este verso que canto
eu não sei ― yo no sé, madre mía ―
se me espera a paz ou o espanto,
se o agora ou se o ainda.
pois as causas estão me cercando
cotidianas, invisíveis.
e o acaso vem se enredando em mim
poderoso, invencível.

causas y azares | silvio rodríguez (1986)

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«nada é coincidência...
ninguém cruza o seu caminho por acaso.
alguns chegam como espelhos.
outros como remédio.
outros como mensageiros que você só reconhecerá quando a lição finalmente se revelar.
cada encontro transforma alguma coisa: uma crença, um limite, uma versão de você que precisava morrer para que outra pudesse renascer.
o momento nunca é aleatório.
a alma orquestra aquilo que a mente não consegue explicar.
por isso, preste atenção em quem aparece quando você acha que já terminou de crescer.
essa pessoa pode ser o lembrete, o gatilho ou a chave que abrirá a próxima porta.»

scarlet seixas

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«quantas vezes a gente, em busca da ventura,
procede tal e qual o avozinho infeliz:
em vão, por toda parte, os óculos procura,
tendo-os na ponta do nariz!»

mario quintana

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«nada posso lhe oferecer que não exista em você mesmo. não posso abrir-lhe outro mundo além daquele que há em sua própria alma. nada posso lhe dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave.»

hermann hesse

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«e de repente
o resumo de tudo é uma chave.
a chave de uma porta que não abre
para o interior desabitado
no solo que inexiste,
mas a chave existe.»

carlos drummond de andrade

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«eu sinto como que se tudo que eu tivesse feito na vida
foi pra encontrar um caminho
pra chegar até aqui
e te conhecer.»

de clint eastwood para meryll streep | em «as pontes de madison»

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dói na alma
por isso choramos,
mesmo depois de termos visto essa cena (link abaixo) infinitas vezes.

a gente sempre espera que dessa vez a chave funcione
que a maçaneta gire na caminhonete sob a chuva forte,
que francesca finalmente abra a porta e mude o destino.

et à la fin... sur la route de madison │ tcm cinéma
(clique no link acima)

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caminhos de si

«a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida», dizia o poeta. por isso, é preciso que estejamos receptivos e atentos ao mundo ao nosso redor, pois «a todo instante rola um movimento, que muda o rumo dos ventos». de repente, do nada, o amor bate à porta. e descobrimos que ele é a chave. a chave mestra? a chave para si mesmo.

no entanto, contudo, todavia...

«é preciso viver para ver
como soube crescer
tanto mistério na flor

é preciso viver para ver
como é difícil saber
que signo carrega o amor»

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jungianas

dos sinais:
guias.

dos símbolos:
definições.

da vida:
estrada aberta.

da morte:
verdade absoluta.

grill

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há uma canção que se vai quando chego
suspeito que seja um tema total
uma chave-mestra de todos os jogos
um pássaro eterno e um sol colossal

há uma canção que me esconde seu fogo
há uma canção que será meu final

que signo lleva el amor | silvio rodríguez (1984)

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fotos:

casa edmundo berchon
pelotas, janeiro de 2009

minifúndio café
pelotas, novembro de 2007

condomínio caravelas
são luís, novembro de 2008

ubirajara cunha e eu
minifúndio café
novembro de 2007

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sua respiração é doce
seus olhos são como duas jóias no céu
sua postura é ereta, seu cabelo é macio
no travesseiro onde você repousa
mas eu não sinto afeição
nem gratidão nem amor
sua lealdade não é por mim
mas para as estrelas do céu

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

seu pai é um foragido e um traficante
ele te ensinou como selecionar e escolher e atravessar uma faca
ele supervsiona seu reino e assimnenhum estranho se intromete
sua voz treme e ele reclama por mais um prato de comida

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

sua irmã prevê o futuro assim como você e sua mãe
você não sabe ler nem escrever
não há livros na sua estante
e seu prazer não conhece limites
e sua voz soa como a de uma cotovia
mas seu coração é como um oceano
misterioso e sombrio

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

one more cup of coffee | bob dylan (1975)

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#carpe diem
#bom domingo

sábado, 11 de julho de 2026

 


te mando notícia de mim

(ainda estou aqui)

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morrer

tenho morrido muitas vezes.
depois, respiro fundo,
lavo o rosto, sigo em frente.
não é fácil morrer,
difícil é renascer,
fingir-se de sol,
cegar a lua,
beber o mar.
detestável seria ter a covardia
dos que me mataram.
eu sigo renascendo,
eles seguem covardes.

pedro munhoz

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filme de mim mesmo

depois de um período de desintoxicação em são luís, aos cuidados da família, onde fui tratado com todo amor e carinho, retornei a pelotas. voltei com a cara e a coragem. não sabia onde ia ficar e nem o que ia fazer. tinha tudo pra dar errado. mas sabia que ia dar certo.

pouca gente sabe, mas quando voltei, tinha gente que esfregava os olhos quando me via na rua.

só mais tarde vim a saber o porquê: espalharam um boato aqui onde moro que eu havia morrido.

quando fiquei sabendo, primeiro levei um susto, depois, sabendo dos detalhes de como o boato se espalhou, fiquei incrédulo. não podia acreditar. eu havia morrido de várias formas.

uns, disseram que eu morri numa briga de bar, outros, que me viram embaixo das rodas de um carro, outros, que me viram cair de bêbado e bater com a cabeça no chão, outros, que me viram sumir dentro de um camburão, outros, que me viram pedindo esmola com uma lata vazia na mão, outros, que me viram dormindo na rua, morrendo de frio, abraçado a um cão.

e todos tinham razão.

morrer é fácil. morre-se de várias formas e todos os dias. viver sem se deixar morrer é que é difícil. por quê? porque a única forma de viver sem se deixar morrer é viver em paz --- em paz consigo mesmo. paz interior. paz que eu sabia que existia, mas que não encontrava.

por quê? porque eu procurava fora o que está dentro.

grill


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«diógenes, toda vez que passava pelo mercado, ria porque achava muito engraçado e, ao mesmo tempo, ficava muito feliz em ver quantas coisas tinha no mercado que ele não necessitava.»

facundo cabral

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«toda vez que passo pelo corredor de bebidas do supermercado, sorrio por dentro. fico muito feliz em ver a quantidade de coisas que existe ali que eu simplesmente não preciso mais.»

(inspirado na reflexão de facundo cabral sobre diógenes de sinope)

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o tempo tá feio na fronteira
tem vento e polvadeira, vai chover
ouvi na rádio uruguaia, o boletim não falha
vem água no anoitecer

nesta longa avenida
eu transito minhas mágoas
entre dois mundos
nestas calçadas vazias
eu divido os meus dias
numa fronteira absurda

assim mesmo, procuro os teus olhos
na visão de quem olha, apenas por ver
meu desespero é às avessas
depois das promessas que prometemos
por prometer

e o outro lado do mundo
é o mesmo lado da rua
pelo menos por aqui
mouros, morenos, mulatos, ciganos
gente de fato, querendo ser feliz

prometo: te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
eu prometo

pra semana, arrumo minha mochila
dou de mão na viola, é hora de partir
compro passagem pra trienta y três
jaguarão fica mais perto da gente ir

faço planos pra volta
vontade não falta de acertar
aos olhos de minha filha
sou o mesmo herói, que eu queria
que fosse meu pai

no mais eu vou indo, quem sabe, qualquer dia desses
a gente se encontra
como diria o amigo plínio
lá por franças, bahias e europas

e o outro lado do mundo
é o mesmo lado da rua
pelo menos por aqui
mouros, morenos, mulatos, ciganos
gente de fato, querendo ser feliz

prometo: te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
eu prometo

te mando notícia de mim | pedro munhoz (1997)

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raul vive
(por enilton grill)

um dia a terra parou. raul fingiu que não viu e seguiu. o tempo passou e raul ficou. em 1989, ele deu adeus, embarcou num disco voador e voou.

raul sempre leu muito. começou explorando os livros da biblioteca de seu pai, onde ficava horas viajando por galáxias e estrelas distantes nos livros de astronomia.

depois de sair de salvador e passar fome na cidade maravilhosa, raul resolveu fazer terapia e cursar filosofia. só mais tarde é que foi viver de cantoria.

raul se recusou, terminantemente, a aceitar o determinismo enquanto viveu: «eu que não me sento / no trono de um apartamento / com a boca escancarada / cheia de dentes / esperando a morte chegar».

para ele o hoje era apenas um furo no futuro, por onde o passado começava a jorrar. viveu como quis. morreu quando cansou deste lugar, onde jamais conseguiu se encontrar.

há dez mil anos atrás raul havia começado a sonhar em ser cantor e compositor. mas para ele a passagem do tempo parecia não importar tanto assim. se tempo presente ou futuro tanto faz quanto fez. e assim ele se fez.

tempos depois ele declarava: «eu sou tão bom ator que me finjo de poeta e profeta e todo mundo acredita».

«se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou / se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor». era chato chegar a um objetivo num instante. ele se transmutava a todo instante. e o ritmo que isso acontecia era tão alucinante era tão estonteante que raul tornou-se «metamorfose ambulante».

mas com o passar do tempo ficou difícil ordenar o pensamento. seu tempo era ao mesmo tempo perto e distante. nesse instante o álcool entra em sua vida. uma anestesia para a monotonia do dia-a-dia.

no final, já estava cansado de viver drogado. tarde demais. quando quis dizer não, o álcool e a droga já o haviam jogado ao chão. então raul disse: «eu não morri de overdose; eu morri foi de tédio».

o diretor do documentário, raul: o início, o fim e o meio, walter carvalho, disse que raul morreu de amor.

«do passado me esqueci / no presente me perdi / se chamarem diga que eu saí, para o futuro não estou nem aí».

o maluco vivia a esmo. fugia de si mesmo. não que fosse um frustrado ou fracassado, apenas tinha um universo inteiro a rodar em seu costado. outro dia, disse: «o universo me espanta e não posso imaginar que esse relógio exista e não tenha relojoeiro».

raul nunca conseguiu ficar sozinho. ao mesmo tempo, nunca conseguiu ficar com ninguém por muito tempo: «como poeta e cantor, sou o homem ideal; como marido, sou uma merda total».

um turbilhão de ideias e um copo sempre à mão. uma profusão de imagens e possivelmente uma confusão na mente. mas antes do álcool lhe derrubar de vez, deixou a semente. «eu não sou louco, é o mundo que não entende minha lucidez».

lúcido o bastante para não entrar em toda e qualquer luta. com onze anos de idade já desconfiava da verdade absoluta: «tem gente que passa a vida inteira / travando a inútil luta com os galhos / sem saber que é lá no tronco / que está o coringa do baralho».

tal qual um fora da lei, raul viveu de lutar contra o rei. mas o mundo é um moinho, e raul morreu sozinho.

e assim é a vida: o caminho do acaso é o azar ou a sorte. e o caminho da vida, seja no início no fim ou no meio, é a morte.

mas, antes da morte, raul nos deixa um mote: «jogue as cartas, leia a minha sorte / tanto faz a vida como a morte / o pior de tudo eu já passei».

morte? que morte?

raul não morreu, isso sabe ele e sei eu.

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veja quanto livro na estante
dom quixote, o cavaleiro andante
luta a vida inteira contra o rei


as minas do rei salomão | raul seixas / paulo coelho (1973)

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ao vento

ontem
depois de um bom tempo
cabelo ao vento
saí e não me perdi
(ainda estou aqui)

grill

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quem vai chorar, quem vai sorrir?
quem vai ficar, quem vai partir?
pois o trem está chegando
tá chegando na estação
é o trem das sete horas
é o último do sertão

o trem das sete | raul seixas, 1974
(clipe oficial)

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foto: minifúndio café
satolep, 2007

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#raulpresente
#choveemsatolep
#américas