quarta-feira, 19 de agosto de 2026

 

los hermanos 

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«cantamos a obra de meu pai, atahualpa yupanqui, porque nos permite falar de assuntos que vêm desde muito longe e muito fundo nos homens. nesta obra nos reconhecemos e nosso recital constitui nossa melhor contribuição na direção de um mesmo ideal: um mundo de hermanos.»

roberto kolla chavero | theatro sete de abril
16 de novembro de 2003
pelotas - rs - brasil

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américas

por luis rubira
texto publicado no diário popular
pelotas, 2005

no ano de 2003, kolla yupanqui, filho de don atahualpa, elegeu um especialista em música que mora na cidade de pelotas para representar a fundação atahualpa no brasil.

enilton grill é, certamente, uma das pessoas que mais entende da multiplicidade musical produzida nos três continentes americanos. em sua casa, ao entrar na sala, já nos deparamos com quase dois mil CDs criteriosamente escolhidos.

conhecido por muitos músicos, recebe discos que vêm de longe e de culturas específicas, tais como os de amâncio prada — uma pedra preciosa da galícia.

para se ter uma ideia, enilton grill apresentou um dos maiores músicos do uruguai, daniel viglietti, a um dos maiores nomes da música no brasil: dorival caymmi. e, no disco ramilonga - a estética do frio, entre as pessoas a quem vitor ramil agradece, está o nome de enilton.

há quase dez anos apresenta o programa américas numa rádio da cidade de pelotas, já tendo percorrido praticamente todos os caminhos musicais destas vastas culturas de língua portuguesa, espanhola e inglesa.

seus programas são um luxo não só sonoro, mas educativo, pois partem da música, mas percorrem caminhos da história, da filosofia, da política e outros «caminhos no bosque», como diria o filósofo martin heidegger.

na sala de sua casa, além dos discos e de muitos livros especializados em música, podemos ver três quadros na parede que revelam o tripé onde sua lente musical está apoiada: ali aparecem as fotos de bob dylan, chico buarque e atahualpa yupanqui.

aproveitando esta homenagem que o fórum social mundial presta a yupanqui, esperamos que a fundação atahualpa receba incentivo para sua concretização.

afinal, já está na hora de o conhecimento de enilton não ficar reduzido a privilegiados ouvintes da cidade de pelotas, mas, tal como as coplas de yupanqui, ser repartido com outras pessoas de nosso país.

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links

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do documentário «un río que no cesa de cantar»
fragmento (1:06)

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canciones que nacen del camino

em janeiro de 2016, fazia dois anos que vivi e eu tínhamos nos mudado para o repecho. foi quando o poeta e amigo martim césar me enviou um e-mail com o convite para o lançamento do cd «canciones que nacen del camino». o evento foi no teatro esperança, em jaguarão, na fronteira com o uruguai. no e-mail, martim escrevia: «tomara que possam... se puderem, fazes algum pequeno texto de abertura.»

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abertura
fronteira não é lugar de divisão...
fronteira é lugar de inclusão, de integração.
disse bem aldyr garcía schlee, na fronteira é tudo uma coisa só. e é mesmo, tem razão. aqui e agora, por exemplo, com o testemunho do rio jaguarão temos diante de nós três pátrias num só palco: oscar massita (uruguai), martim césar (brasil) e roberto chavero (kolla yupanqui) argentina. tudo isso não é pouco. é muito o que se faz aqui. basta ver o que fizeram de nós fora daqui: imagem estilhaçada, pedaços sem conexão entre si. repito: é muito o que se faz aqui. pois fora daqui nos fizeram um corpo mutilado, uma cara por descobrir. mas se o mundo está dentro ¿afuera, por qué mirar? o canto do vento. a música que toca o rio. o latido humano que brota da terra. ir e vir. caminhar, caminhar. e as canções, as canções; mil símbolos, mil razões e três troncos de uma só raiz me trouxeram até aqui. fora da margem de dentro / entre o caule e o rebento / há sempre um pequeno espaço // entre movimento e passo / entre passo e movimento / a corda que faz o laço / a força que faz o braço / acordar o pensamento. pensando bem: ¡que coisas tem a vida/misteriosas por demais! estamos onde queremos estar, muitas vezes sem pensar. o pensamento então parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar -é que as léguas desaparecem, se a alma começa a-le-tear - bater asas / sem sair do lugar. do outro lado da mente / do outro lado da gente / do lado da gente do outro lado / do lado da gente que fica de frente / da gente que vive o futuro-presente / o tempo presente não repete o passado, mas traz ele consigo. há que se olhar para frente, mas com los recuerdos detrás. afinal, de que pegadas partem nossos passos para que nasçam canções pelo caminho? de minha parte, para encerrar: só estão longe as coisas que não sabemos mirar... que não sabemos ouvir...
que não sabemos escutar. nós que aqui estamos escutamos ao longe as payadas jaymecaetanas as zambas yupanquianas as milongas alfredianas porque estamos perto de oscar, de martim e de roberto repecho, verão de 2016 enilton grill •••••••••••••• à flor da pele antes disso, fui convidado por daniel viglietti para ir com ele a montevidéu. daniel foi muito amigo de atahualpa. falei para ele do convite feito pelo kolla para que eu representasse a fundação atahualpa no brasil. disse a ele que não conhecia a argentina — não conheço mesmo. lembro que ele ficou muito surpreso. como assim?! então, disse que entraria em contato com pessoas que me levariam ao cerro colorado. cerro colorado — na província de córdoba, na argentina — é o lugar sagrado onde estão as cinzas de yupanqui e é a sede da fundação atahualpa yupanqui.

abri um sorriso amarelo e agradeci. disse a viglietti que gostaria muito, mas que não podia, pois acabara de passar 10 dias «vivendo de poesia» e tinha que voltar para pelotas e reassumir meu lugar no cfc.
na verdade, a gente sempre pode: basta querer. se eu ainda quisesse, largava tudo e ia. mas algo havia mudado, eu beirava os 40 e começavam a soprar outros ventos pelo meu costado. eu já não olhava apenas para a casa e o trabalho. minha visão havia se ampliado. eu sentia todo e qualquer sinal que passasse por mim: à frente, atrás e ao lado. meus sentidos estavam todos acionados. como diria baleiro, eu estava à flor da pele. eu supunha que queria ser poeta, mas no fundo queria ser poema. o cfc já era passado. o «casamento» já tinha dançado.
eu estava apaixonado. ••••••••••••••

o que será que me dá que me queima por dentro, será que me dá que me perturba o sono, será que me dá que todos os tremores me vêm agitar que todos os ardores me vêm atiçar que todos os suores me vêm encharcar que todos os meus nervos estão a rogar que todos os meus órgãos estão a clamar e uma aflição medonha me faz implorar o que não tem vergonha, nem nunca terá o que não tem governo, nem nunca terá o que não tem juízo

link

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[vídeo - com milton mascimento]

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falando em poema lembrei de um do ano passado •••••••••••••• faz 40 que fiz 20 quando eu tinha 20 40 era um acinte agora que fiz 60 o poema ainda se sustenta minha alma é de 20 40 foi um acinte ••••••••••••••

el tiempo pasa nos vamos poniendo viejos el amor no lo reflejo como ayer

link

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[en vivo - con «la reina» mercedes sosa]

•••••••••••••• normal, é assim com todo mundo, o tempo passa. a diferença — se é que há — é que eu olho pra trás e acho graça. verdade. começaria tudo outra vez. não me arrependo de nada. vivi cada dia como se fosse o último. que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure. depois, somei noite mais noite olhando a lua, decorei cada estrela que brilhava, morri mais de uma vez em cada rua. e hoje, parece mentira, estou aqui mais vivo do que nunca. pobre do tempo que não me alcança: nunca se alcança aquilo que flutua. o personagem de robin williams, em sociedade dos poetas mortos, pergunta: — qual será o seu verso? eu respondo: — meu verso é minha loucura! e levanto-a, como um facho, a arder na noite escura. se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! se eu fosse contar como queria passar a minha vida alguns anos atrás, provavelmente surpreenderia os leitores. o mais que faço, porém, não vale nada: dar conselhos a um homem culto é supérfluo; aconselhar a quem ignora tudo é inútil. não se pode confiar às cegas em nenhuma maneira de pensar, por mais antiga que seja. grande parte das coisas que a maioria dos mais velhos dizem ser boas, acredito do fundo da alma que são ruins. não vou por aí. só vou por onde me levam meus próprios passos. caminante, no hay camino, se hace camino al andar. as capacidades do homem jamais foram medidas, e tampouco podemos julgar do que ele é capaz tomando como base qualquer precedente. eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. que as pessoas sonhem! a mente humana está cheia de imaginação: tente outra vez.

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tente
e não diga que a vitória está perdida
se é de batalhas que se vive a vida
tente outra vez

link

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[vídeo oficial - com letra e animação]

•••••••••••••• agora é tarde

... «a minha poesia consistiu numa tentativa de inventar para mim uma identidade. depois de inventada e assumida, já não me ocorre aquele apostar-me inteiro em tornar-me poema para chegar a ítaca. ítaca já não há e eu não sou mais o que era.» «no volveré a ser joven. que la vida iba en serio uno lo empieza a comprender más tarde... pero ha pasado el tiempo y la verdad desagradable asoma: envejecer, morir, es el único argumento de la obra.» «juventud, divino tesoro, ¡ya te vas para no volver! cuando quiero llorar no lloro, y a veces, lloro sin querer.»

... mas lembre-se: a mente humana é imaginação. tente outra vez.

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está sempre
essa pessoinha feliz
transformando o que está sujo em ouro.
sempre chega até o salão principal, onde fica o motor que aciona a luz.
sempre lá
faz sua melhor tarefa
o reparador de sonhos

link

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[en vivo - con silvito]

•••••••••••••• «havia um artista na cidade de kouroo que estava disposto a alcançar a perfeição. um dia ocorreu-lhe a ideia de fazer um bastão. considerando que o tempo é um ingrediente num trabalho imperfeito, mas que num trabalho perfeito o tempo não entra, disse a si mesmo: será perfeito em todos os aspectos, mesmo que eu não faça mais nada em minha vida. foi buscar madeira na floresta. enquanto procurava e rejeitava vara após vara, seus amigos o abandonaram e morreram, mas ele não envelheceu um só instante. sua perseguição de um único fim o dotou da eterna juventude. como ele não fazia nenhuma concessão ao tempo, o tempo se mantinha fora de seu caminho, suspirando à distância por não conseguir vencê-lo.»

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abra os braços, respire fundo
e corte os laços todos deste mundo com a sua imagem e semelhança nos mesmos traços de uma criança

link

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respire fundo | walter franco | 1978
[clipe]

•••••••••••••• «do outro lado das colinas, as acácias cheiram a mel. e na cidade, não muito longe daqui, o vento ergue papéis velhos em redemoinhos pelas ruas. nos mercados, anunciam morangos de salto. os cachorros cochilam ao sol junto dos mendigos. sentado na beira da calçada, um garotinho desenha o mundo com um palito.»

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numa folha qualquer,
eu desenho um sol amarelo

[con letra e imag[i]nação]

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falando em sol amarelo
lembrei de facundo cabral
lembrando facundo
lembrei do mundo

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«giro um simples compasso
e num círculo eu faço o mundo
ponho o sol no ombro
e o mundo é amarelo.
[que descolorirá]»

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de volta ao começo

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los hermanos 

roberto kolla chavero | theatro sete de abril
16 de novembro de 2003
pelotas - rs - brasil

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uns dias antes do recital, fui colar os cartazes na porta do theatro e dei de cara com o diretor:
– e aí, cara, tudo bem?
– tudo bem...
– quem tu tá trazendo dessa vez?
quando mostrei o cartaz, o coitado quase teve um troço.
– cara, tu tá trazendo o «los hermanos»?!
levei um bom tempo até explicar que «los hermanos» não era nome de banda de rock, e sim uma milonga belíssima, composta por atahualpa yupanqui e cantada por mercedes sosa.
– bem que eu achei que tava muito barato pra ser o «los hermanos».

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«y así seguimos andando
curtidos de soledad
nos perdemos por el mundo
nos volvemos a encontrar»

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link

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un documental dirigido por federico randazzo abad
producido por bellasombra, bosque cine 
apoyo de la fundación atahualpa yupanqui.

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 18 de agosto de 2026


memórias de o que já não será
[para bebeth]

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dia desses, uma pessoa especial, recebeu essa mensagem, incluída no link abaixo, e compartilhou comigo, com uma legenda que dizia mais ou menos assim: pensei logo em ti...

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«esta obra (link acima) foi escrita para as marcas que continuam a viver silenciosamente dentro de nós...
algumas memórias desvanecem-se com o tempo.
outras nunca desaparecem.
apenas se tornam mais silenciosas.
e, como uma sombra...
acompanham-nos para onde quer que vamos.
ao compor esta música, tentei captar sentimentos de saudade, fragilidade e aceitação.
cada melodia sussurra a história silenciosa de um coração que está a aprender a fazer as pazes com o seu passado.
talvez algumas sombras não existam para nos impedir de seguir em frente...
mas para nos lembrarem do caminho que já percorremos.
e talvez a verdadeira paz não esteja em mudar o nosso passado...
mas em aprender a viver com ele.
espero que esta música lhe recorde uma memória que nunca esqueceu, uma pessoa de quem sente saudades ou um sentimento que continua vivo no seu coração.
obrigado por ouvir.
dançar com uma sombra (dance with a shadow) está disponível em todas as plataformas.
os links estão disponíveis no meu perfil e nas minhas stories.
e tenho um pequeno pedido...
se esta música lhe fez sentir alguma coisa, poderia partilhá-la com uma pessoa especial?»

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as palavras andantes

entre muitas outras histórias reunidas em «as palavras andantes», há uma que conta as aventuras de um menino e sua sombra.
o relato termina dizendo:
e agora, depois de anos, quando o menino deixou a infância muito para trás, sente pena de morrer e deixar sua sombra sozinha.
uma leitora, daidie donnelle, me escreveu dizendo que não me preocupasse: a sombra não ia ficar sozinha, porque a sombra da sombra a estaria acompanhando.

eduardo galeano | o caçador de histórias, p. 229.

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falando da sombra da sombra
lembrei da frase de hemingway

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- quem estará nas trincheiras ao seu lado?
- e isso importa?
- mais do que a própria guerra.

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«passeando com cortázar
por um boulevard de paris
alejandra pizarnik percebe
que o amigo não tem
sombra»

.

«ainda com cortázar
agora em outro boulevard
alejandra pizarnik descobre
apavorada
que o amigo na verdade
tem duas sombras»

celso borges pequenos | poemas viúvos, p.p. 77, 78

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o entendimento

comecemos por dizer que sombra havia morrido. sabia sombra que sombra havia morrido? indubitavelmente. sombra e ela foram sócias durante anos. sombra foi sua única testamenteira, sua única amiga e a única que vestiu luto por sombra. sombra não estava terrivelmente aflita pelo triste sucesso e o dia inteiro o solenizou com um banquete.

sombra não apagou o nome de sombra. a casa de comércio se conhecia sob a razão social «sombra e sombra». algumas vezes os novos clientes chamavam sombra a sombra; mas sombra atendia por ambos os nomes, como se ela, sombra, fosse de fato sombra, que havia morrido.

alejandra pizarnik

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elogio da sombra
a velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
o animal morreu ou quase morreu.
restam o homem e sua alma.
vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
buenos aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser la recoleta, o retiro,
as imprecisas ruas do once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o sul.
sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
demócrito de abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu demócrito.
esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
do sul, do leste, do oeste, do norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
emerson e a neve e tantas coisas.
agora posso esquecê-las. chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
breve saberei quem sou.

jorge luis borges. 1969

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os achados e perdidos

no dia em ele atravessou a ponte sozinho só por atravessar, sem ter nada que fazer aqui, sorriu ao ver a sombra da ponte como que passando, também, como o rio --- e nela a própria sombra presa à ponte, passando como a ponte e como o rio. era como se o rio se refizesse ali na sombra da ponte, como se a sombra se fosse mas já não fosse, como se ela nem passasse e ficasse, sem ter ido, porque sombra; mas indo, porque rio.

aldyr garcia schlee | memórias de o que já não será | p. 199.

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vidala para mi sombra

«muitos me perguntam por que acordo às quatro da manhã há mais de 20 anos. sabe por que escolho essa hora?... porque o homem ainda não começou a sofrer. nessa hora, estou puro, limpo, em silêncio, e escrevo enquanto a família dorme. então, sou como uma esponja que absorve tudo. leio idiomas, gramáticas, filosofia ou escrevo sobre meus próprios assuntos.»

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«e passo as madrugadas,
procurando um raio de luz.
por que a noite é tão longa,
guitarra, me diga você.»

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«não gosto da noite. talvez porque os fantasmas apareçam ao anoitecer. com isso, quero dizer que os fantasmas aparecem depois que o homem sofre. e o homem começa a sofrer quando sai para a rua para ganhar o pão dos filhos... e se depara com o outro homem.

então, só então, começam a surgir os lobos que cada um tem dentro de si.»

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os homens são deuses mortos,
de um templo já em ruínas.
nem mesmo seus sonhos se salvaram,
apenas uma sombra restou.

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[fragmento]

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tales de mileto

platão, em teeteto, nos conta que certa vez, observando o céu, tales de mileto tropeçou e caiu em um buraco. uma escrava da trácia ficou rindo dele, e o primeiro filósofo adquiriu fama de lunático e distraído. tales observava o céu e o tempo, pois era também astrônomo e exímio observador da natureza.

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oscuro lazo de niebla
te pialó junto al barranco
cómo fue que no lo viste
qué estrella andabas mirando

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grabada en 1980 para el programa
«retrato en vivo: el hombre del camino».

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tales viajou por diversas regiões e no egito teria calculado a altura de uma pirâmide. o cálculo foi feito a partir da sua própria altura e o comprimento de sua sombra e através desta proporção calculou a altura da pirâmide através da sombra desta, pois a proporção é a mesma. esse cálculo de proporções é conhecido até hoje na geometria como teorema de tales.

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a veces sigo mi sombra
a veces viene detrás,
pobrecita si me muero
con quién va a andar.

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{atahualpa yupanqui en vivo en puerto rico]

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«pensei num mundo sem memória, sem tempo; considerei a possibilidade de uma linguagem que ignorasse os substantivos, uma linguagem de verbos impessoais ou de epítetos indeclináveis. assim foram morrendo os dias e com os dias os anos, mas alguma coisa parecida à felicidade ocorreu uma manhã. choveu, com poderosa lentidão.»

jorge luís borges, em «o outro» | o aleph, p. 17

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não tenho pressa

não tenho pressa. pressa de quê?
não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
não; não sei ter pressa.
se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega nem um centímetro mais longe.
toco só onde toco, não aonde penso.
só me posso sentar aonde estou.
e isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
e vivemos vadios da nossa realidade.
e estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

alberto caeiro

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«no me dejes partir, viejo algarrobo...
levanta un cerco con tu sombra buena,
átame a la raíz de tu silencio
donde se torna pájaro la pena.»

yupanqui

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a nuvem é tão longe
o mar é tão grande.
meu mundo não é aqui
é mais além.

grill

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«rastro de flor e de estrela,
nuvem e mar.
meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar.»

clarice

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le he preguntado a mi sombra
a ver cómo ando para reírme,
mientras el llanto, con voz de templo,
rompe en la sala regando el tiempo.

mi sombra dice que reírse
es ver los llantos como mi llanto.
y me he callado, desesperado.
y escucho entonces: la tierra llora.

links

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[canta omara portuondo]

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[canta: silvio rodríguez]

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de volta a tales de mileto

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conforme o relato de aristóteles, na sua obra «a política», tales foi repreendido pelos cidadãos de mileto por ser pobre, afirmando que a filosofia de nada servia e que ele perdia tempo meditando sobre a natureza. contudo, sendo tales um estudioso dos astros, previu uma grande safra de azeitonas com um ano de antecedência. assim, arrumou algum capital e alugou por baixo custo todas as prensas de azeite da região. com a chegada da safra prevista, os produtores foram obrigados a alugar de tales as prensas a um custo bem mais alto. com esse negócio tales angariou grande fortuna e tornou-se um homem rico.

aristóteles conclui essa história da seguinte forma: «é fácil aos poetas e filósofos enriquecer, se desejarem, mas não é isso o que lhes interessa».

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antes de seguir em frente
voltemos ao começo de tudo,
sem o qual esse post seria:
nada

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então, a mesma pessoa que me enviou o link, dançar com uma sombra, que abre este post, me enviou, mp do dia seguinte a seguinte mensagem:

ainda não vi o américas (sou terrível). o américas só a leitura da página de entrada, a figura da cabeça de francisco... me encaminhou para ler a encíclica laudato sí que nunca tinha lido... e acabei lendo as notas com vontade de compartilhar contigo duas notas:

nota 1. francisco, carta enc. lumen fidei (29 de Junho de 2013), 34 [AAS 105 (2013), 577]: «enquanto unida à verdade do amor, a luz da fé não é alheia ao mundo material, porque o amor vive-se sempre com corpo e alma; a luz da fé é luz encarnada, que dimana da vida luminosa de jesus. a fé ilumina também a matéria, confia na sua ordem, sabe que nela se abre um caminho cada vez mais amplo de harmonia e compreensão. deste modo, o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, em toda a sua riqueza inesgotável. a fé desperta o sentido crítico, enquanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas fórmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa. convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes da razão para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ciência»

nota 2. um mestre espiritual, ali al-khawwas, partindo da sua própria experiência, assinalava a necessidade de não separar demasiado as criaturas do mundo e a experiência de deus na interioridade. dizia ele: «não é preciso criticar preconceituosamente aqueles que procuram o êxtase na música ou na poesia. há um “segredo” subtil em cada um dos movimentos e dos sons deste mundo. os iniciados chegam a captar o que dizem o vento que sopra, as árvores que se curvam, a água que corre, as moscas que zunem, as portas que rangem, o canto dos pássaros, o dedilhar de cordas, o silvo da flauta, o suspiro dos enfermos, o gemido dos aflitos…» [eva de vitray-meyerovitch (ed.), anthologie du soufisme (paris 1978), 200].

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falando em «captar o que diz o vento que sopra»
me lembrei de... yupanqui

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«aquele que for capaz de entender a linguagem e o rumo do vento, de compreender sua voz e seu destino, achará sempre o rumo, alcançará o verso, penetrará o canto.»

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en lo alto de la sierra me detuve a descansar
en lo alto de la sierra me detuve a descansar
pero sentí que me iba sin moverme del lugar
pero sentí que me iba sin moverme del lugar

los ojos se me perdieron en aquella inmensidad
los ojos se me perdieron en aquella inmensidad
y me olvidé de mi mismo tanto mirar y mirar
y me olvidé de mi mismo tanto mirar y mirar

de pronto me ha preguntado la voz de la soledad
de pronto me ha preguntado la voz de la soledad
si andaba buscando el cielo y yo respondí: "quizás"
si andaba buscando el cielo y yo respondí: "quizás"

el cielo está dentro de uno y está el infierno también
el cielo está dentro de uno y está el infierno también
el alma escribe su libros pero ninguno los lee
el alma escribe su libros pero ninguno los lee

aveces uno camina entre la sombra y la luz
aveces uno camina entre la sombra y la luz
en la cara la sonrisa y en el corazón la cruz
en la cara la sonrisa y en el corazón la cruz

búscalo al cielo en ti mismo que allí lo vas a encontrar
búscalo al cielo en ti mismo que allí lo vas a encontrar
pero no es fácil hallarlo pues hay mucho que luchar
pero no es fácil hallarlo pues hay mucho que luchar

por camino solitario yo me puse a caminar
por camino solitario yo me puse a caminar
por fuera nada buscaba, pero por dentro quizás
por fuera nada buscaba, pero por dentro quizás

link

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[versão: enrique bunbury]

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não sei por que
mas a transcendência, a interiorização do sagrado e a despersonalização do eu diante da natureza
em yupanqui
me levou naturalmente a alberto caeiro
e seu poema «há metafísica em não pensar em nada»

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o que penso eu do mundo?
sei lá o que penso do mundo!
se eu adoecesse pensaria nisso

link

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[mundo dos poemas]

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e a canção de gieco?

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então, através de «pensar en nada», león convida o ouvinte a refletir sobre as prioridades da vida e as consequências de uma sociedade focada no materialismo e na competição.

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«ainda ontem percebi
que é só uma questão de dinheiro
enquanto dez guichês cobram
apenas um é que paga

de como as pessoas pensam
às vezes a diferença
é tão grande que parecem
seres de outra terra

no escritório do trabalho,
com a chegada do ano novo,
todos brigam por
aquela maldita promoção

com a dose de frustração,
alguns veem a vida cor-de-rosa;
a cidade fica cada vez maior
e cada vez mais perigosa.»

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em resumo
o simples está em não ter a urgência dos tolos, mas a necessária sabedoria do fluir natural em que pensar em nada basta e é bastante coisa.

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e o que me dizem daquela casa solitária
que se vê de um avião
talvez na solidão não haja dor
de pensar, de pensar em nada

link

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ao vento

anos atrás
em uma pizzaria da cidade
numa charla que foi até quase a madrugada
como resumo da minha fala
eu disse
«tá tudo em shakespeare»
ou seja
nossa história já foi contada
já vimos tudo e não aprendemos nada

grill

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crônica familiar
(fragmento)

se o homem não existisse quem poderia criar algo mais maravilhoso capaz de enunciar mais pensamentos num momento que todos os computadores do mundo, capaz de escrever peças como shakespeare, filosofias humanistas como marx, romances como cervantes, esculturas como rodin, quadros como van gogh, poesias como mário quintana, sinfonias como mozart, filmes como john cassavetes. esses homens que não citei ao acaso aproveitaram a vida que lhes foi concedida e a louvaram através da sua arte. se existe algum deus além do homem, esses que citei, certamente quando chegaram diante dele puderam dizer com orgulho: eu fiz a minha parte. e entretanto shakespeare morreu pobre e quase nada se sabe além disso da sua vida, cervantes quase morreu na prisão, aliás no mesmo dia em que shakespeare embora jamais houvessem sabido da existência do outro, marx morreu na mais extrema penúria num quartinho de um bairro pobre de londres, rodin morreu de frio esmolando ao governo um lugar para morar, mozart morreu numa vala comum, van gogh enlouqueceu e se suicidou, mário quintana morreu pobre num quarto de hotel, despesas pagas por amigos. por duas vezes essa feira senil de vaidades burguesas que é a academia brasileira de letras (onde estão sarney, maciel e paulo coelho) lhe negou o ingresso. e quintana que pouco se importava com as glórias do mundo, queria mesmo era o jeton que os acadêmicos recebem para viver um pouco melhor. finalmente, cassavetes, morreu jovem e estigmatizado por hollywood por querer fazer filmes que falavam da vida, do homem e de como é ser homem e estar no mundo. são seres como esses que dão um sentido à vida e não os reis, os generais, os presidentes, os tiranos de um modo geral. os verdadeiros heróis -como jesus cristo cujo mais belo milagre foi acreditar-se filho de deus- só são louvados depois que estão definitivamente mortos; depois que os canalhas têm certeza de que não retornarão.

fausto wolff | la insignia. brasil, junho de 2004.

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- e agora o que faremos?
- poesia, esses canalhas não suportam poesia

rafael corrêa

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segue o teu destino

segue o teu destino,
rega as tuas plantas,
ama as tuas rosas.
o resto é a sombra
de árvores alheias.

a realidade
sempre é mais ou menos
do que nós queremos.
só nós somos sempre
iguais a nós-próprios.

suave é viver só.
grande e nobre é sempre
viver simplesmente.
deixa a dor nas aras
como ex-voto aos deuses.
vê de longe a vida.
nunca a interrogues.
ela nada pode
dizer-te. a resposta
está além dos deuses.
mas serenamente
imita o olimpo
no teu coração.
os deuses são deuses
porque não se pensam.

ricardo reis

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voltemos a yupanqui e a caeiro

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em caeiro: pensar sobre o mundo é «adoecer». o pensamento intelectual gera angústia desnecessária.

em yupanqui: a busca externa gera solidão, e a sociedade exige máscaras («no rosto o sorriso e no coração a cruz»). a escrita da alma é incompreendida pelos outros («a alma escreve seus livros, mas ninguém os lê»).

caeiro olha para fora (para a natureza) e descobre que não precisa pensar; yupanqui olha para dentro (para a própria alma) e descobre que não precisa procurar.

o desfecho de ambos é um retorno à simplicidade, uma espécie de "minimalismo existencial".

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e chico e caeiro?

caeiro em «há bastante metafísica em não pensar em nada» tira deus do centro para colocar a natureza; chico em «sobre todas as coisas» questiona deus para colocar o amor humano no centro. ambos recusam a ideia de um universo que existe apenas para adoração cega.

trocando em miúdos:

ambos concordam que a criação (seja ela fruto de deus ou da natureza) não existe para servir ao ego de um «senhor».

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falando em servir ao ego de um «senhor»
lembrei de vitor e dylan

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você pode ser rei no país do futebol
pode ser viciado em bingo e nunca ver a luz do sol
você pode ser um mago e vender livros de montão
pode ser uma socialite, enriquecer vendendo pão

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

pode ser incendiário e fazer um índio arder
você pode ser o índio vendo a chama acender
pode ser um bom ladrão, pode ser um mau juiz
pode ter um passado limpo, pode ter uma cicatriz

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode estar na mídia sem saber porque
você pode ser dono de uma rede de tv
você pode dar o fora tendo tudo pra ficar
adotar um nome diferente, você pode mesmo se isolar

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode trabalhar na construção civil
pode estar desempregado, com a vida por um fio
você pode ter poder, fazer coisas que ninguém fizer
pode ter mulheres numa jaula, pode ter as drogas que quiser

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode desejar a cura com lacan
você pode procurar os serviços de um xamã
você pode ser um pregador, chutar os santos do altar
você pode ter um bom discurso, você pode nem saber falar

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode ser demente, pode ser doutor
você pode ser sincero, pode ter rancor
você pode ser um crente, você pode ser ateu
pode ser um leitor vaidoso ou uma miss que nunca leu

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode ser turco, pode ser nissei
pode estar ali na esquina, estar onde jamais pensei
você pode me adular, você pode me esquecer
você pode estar me ouvindo agora, você pode mesmo nem saber

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

links

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«os assentos estão vazios. o teatro está escuro. por que segues atuando?»

bukowski

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« - esse homem vai carregado de sofrimento.
- como sabe?
- não vê que só o pé esquerdo é que pisa com vontade? aquilo é peso de coração.
explica-me que sabe ler a vida de um homem pelo modo como ele pisa o chão. tudo está escrito em seus passos, os caminhos por onde ele andou.
– a terra tem suas páginas: os caminhos.»

mia couto | em: um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.

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você que deseja conquistar a dor
deve aprender o que me torna amável
as migalhas de amor que você me oferece
são as migalhas que eu deixei para trás
sua dor não é credencial aqui
é só uma sombra, sombra da minha ferida

link

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[legendado em português]
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#salacheguevara
#casadosaedis
#américas