domingo, 2 de agosto de 2026

 

pensei, pensei, pensei

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em 2007, quando cheguei a são luís, recém-saído de mais uma recaída, minha mãe e meu pai moravam num apartamento pequeno, no condomínio barra-mar. por isso, pedi para ficar na casa da minha irmã e do meu cunhado, o josé lino. lembro como se fosse hoje: apesar do tratamento carinhoso, afetuoso e generoso com que fui recebido, custei a me restabelecer e a querer sair e ver gente. mas tudo muda. depois da noite escura vem um dia claro — e um belo dia eu acordei com uma vontade danada de me reencontrar comigo mesmo. lembrei então de uma poeta — uma poeta de verdade — que a ilha do amor havia me apresentado — há dez mil anos atrás. não me lembro como achei seu contato. não me lembro se havia celular na época; se havia, minha irmã certo que tinha e claro que resolveria — como sempre resolve — mais essa parada para mim.

— oi...
— e aí, tchê...

combinamos o (re)encontro para o final da tarde, início da noite. havia anos que não nos víamos. mas quando nossos olhos se cruzaram, o tempo sumiu e a distância desapareceu. olhos nos olhos, mãos nas mãos, corações a mil. bocas próximas uma da outra...

coisas da vida, quis o destino que o nosso reencontro fosse na véspera da minha volta para o rio grande do sul. passagem de volta marcada para a noite do dia seguinte, deu tempo de nos vermos mais uma vez. foi uma despedida tocante e emocionante. na hora do beijo, recebi um livro — nietzsche, além do bem e do mal. estou com ele agora aqui diante dos meus olhos e nas minhas mãos. estava arrumando minha estante, procurando algo que falasse de mim, quando dei de cara com o filósofo e poeta alemão. mas não é ele que fala de mim, e sim a dedicatória escrita pela poeta para mim.

antes da dedicatória, deixemos que o nosso poeta fale do beijo.

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o beijo que eu não dei

o beijo | nelson coelho de castro (1981)

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«enilton,

como eu tinha que passar a noite no hospital com minha filha, resolvi ir à banca de revistas procurar algo pra ler e (re)encontrar nietzsche — brasil, esse país gigantesco, de contradições não menores com seus milhões de analfabetos, porém único onde se compra filosofia no mesmo lugar em que se compra cigarros.

tentei reler «além do bem...» mas meu pensamento se desviava sempre para ti. acho que era porque eu queria te ligar ontem à noite. acho que era porque o texto lembra do que nós fomos. acho que era porque parece contigo. acho...

a verdade é que desde nosso reencontro tenho pensado mais em ti do que seria aconselhável pra nós dois. posso te falar da alegria de pela primeira vez em sei lá quantos anos de amizade conversar contigo e ouvir de ti frases e pensamentos completos, articulados. acho que eu nunca tinha te visto sem álcool e sem ressaca. foi bom. continua assim!

posso te falar também do meu orgulho em constatar tua fidelidade aos teus princípios, teu amor-próprio, tua altivez, tua sinceridade, tua abertura. me fez muito bem te ouvir.

fiquei tão feliz em reencontrar imagens e texturas — tua voz, teu cabelo, teus olhos, tua boca e seu movimento, tua barba de cobre. teus pés na areia, mesmos calçados, mesmos chinelos de dedo. tuas mãos nervosas, úmidas, tensas, as mais lindas interjeições pra tuas sentenças!

na verdade, quando fui te buscar aquela noite, foi preciso só um relance lá da esquina na penumbra pra eu te reconhecer. tua voz tá mais madura e a vida mapeou lindamente teu rosto. é tudo!

espero que tu gostes do livro que fala da busca de verdades, escrito pelo filósofo que elegi há tempos como o poeta de minha alma.

o que nos une — a mim e a ti — foi ele quem expressou melhor:

«somente os que trazem o caos dentro de si podem gerar estrelas dançantes».

são luís, 24.07.07 — POETA»

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zeca baleiro fala sobre o tchê
0:00 até 01:00


a lua que manda sua cara
que plena cara boa
outro mar, outro verão
e uma luz de lua
e o azul, do azul, da barra
que nem é mais da barra
nem do céu, nem do avião

ali, além, após aurora
mais que plena hora
será você, recordação
ajude-me a dizer que não
lá vem você, cabeça, perna
que perna muita perna
tudo bronze, seu deus é bom

ah, meu amor, agora nada resta
meu amor, cantar essa canção que manhã
ah, meu amor, trena toda pressa
meu amor, guarda meu coração e vem
não quero mais ninguém
intacta cena quem
que já pleno sol
que chama outro sol

zeca baleiro - o amor no caos - música de nelson coelho de castro

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repecho, 2025

acordei. levantei. fiz xixi, escovei os dentes, tomei um café preto, fiz o mate e, quando o sol nasceu, eu já tava no aviário. limpei o chão, pus palha nos ninhos e voltei pra casa. vivi acordou. tomamos café, botamos a louça na pia. vivi ficou se arrumando para o trabalho e eu voltei pra rua, pro aviário. 10 e meia nos despedimos. vivi foi pra cidade.

meio-dia

aqueço a comida. almoço. tomo um café preto. preparo o mate. me sento na frente do computador. abro o face e qual não é a minha surpresa... havia uma mensagem... a mensagem não dizia nada além disso:

e aí, tchê...

pensei, pensei, pensei
e achei melhor não responder.

vivi voltou. jantamos. deitamos e eu custei a dormir
na verdade, dormi muito pouco
quando acordei, ainda estava no mesmo dia
vi a passagem de um dia para o outro na frente do computador
pensando, pensando, pensando
pensando se respondia
ou não

pensei, pensei, pensei
e achei melhor não

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vivi e eu nos conhecemos no cfc. namoramos pela internet. noivamos. sim, noivamos. cerimônia íntima. reservada apenas para nós dois. estávamos em estado de graça. casamos em 24 de outubro de 2009. há quem diga que foi o casamento mais bonito que viu. sou suspeito pra falar... mas também acho. sempre achei e pra sempre vou achar. a verdade é que juramos fidelidade. e cumprimos. sim, eu sei, posso falar apenas por mim. mas não tenho dúvidas em relação a vivi. tem coisas que a gente não precisa saber pra saber que sabe.

«se eu não sei que não sei
penso que sei.
se eu não sei que sei
penso que não sei.»

r. d. laing

portanto, não me arrependo. fiz o que queria fazer. se quisesse fazer diferente tinha feito. não respondi porque não quis. amor é tudo o que move. não sou movido pela razão. sou todo coração.

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oh, meu amor, pela primeira vez na minha vida
minha mente está completamente aberta
oh, minha amada, pela primeira vez na minha vida
minha mente pode sentir

oh my love | john lennon / yoko ono (1971)
[letra em português]

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pelotas, 2026

vivi e eu nos separamos. tudo numa boa. sem estresse. somos ótimos amigos. ela foi viver a vida dela e eu tô vivendo a minha. acordo, levanto, faço xixi, escovo os dentes, tomo um café preto, preparo um mate, ligo o computador e escrevo, escrevo e escrevo. só paro de escrever quando acho um livro para ler.

dias atrás, tava querendo me lembrar de algo referente a nietzsche e comecei a folhear os livros que possuo do filósofo alemão. não são muitos, pelo contrário. foi fácil, portanto, chegar a este que está em minhas mãos, em cujo prefácio diz:

«admitindo-se que a verdade seja feminina --- não haveria alguma verossimilhança ao afirmar que todos os filósofos, enquanto forem dogmáticos, não sabem como lidar com mulheres? que a trágica seriedade, a indiscreção inoportuna com que até agora estavam acostumados a conquistar a verdade não eram meios pouco adequados para cativar o coração de uma mulher? o que é certo é que essa não se deixou cativar --- e todos os dogmáticos têm hoje um semblante desencorajado. se é que têm um semblante qualquer?» 

bem, essa história está se alongando e a ideia não é falar do livro, mas da dedicatória que uma POETA escreveu para mim.

eu até ia falar o nome dela
mas pensei
pensei
pensei
e achei melhor não

explico
quando pensei em escrever 
disse pra mim mesmo
só vou revelar o nome se ela disser que sim
enviei uma mensagem por instagram
e até agora nada 
nada, nada
nada, absolutamente nada 

no pasa nada 
eu só queria contar a história 
e saber dela
que anda pelo mundo
frança bahia e oropas

(eu sou só um cara solitário
esperando..)

se ela preferia 
que eu revelasse seu nome 
ou que eu a chamasse
de POETA

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a esperança é a última que morre
continuo esperando 
esperar (do latim sperare)
(ter esperança em;)

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hay medio mundo esperando
con una flor en la mano
y la otra mitad del mundo
por esa flor esperando

con una flor en la mano | facundo cabral (1972)

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carpediem
chove em satolep
bom domingo

sábado, 1 de agosto de 2026


beleza e estranheza

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«a vida é arte do encontro,
embora haja tanto desencontro pela vida.»

vinicius de moraes

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no final de 1996
por ocasião do ramilonga
com o américas a pleno
tendo entrevistado
entre outros
antonio tarragó ros
mercedes sosa
e león gieco
vitor ramil foi recebido por mim
no apê do aldeia
para uma charla
que tinha como mote
a milonga
de onde ela vinha
pra onde ela vai
seus principais intérpretes e compositores
enfim
isso foi num sábado pela manhã
vitor toca a campainha
eu atendo
cuia de chimarrão na mão
mate vai, mate vem
— enilton, tô preparando um disco só de milongas
queria ver contigo alguma coisa nessa área
na área da milonga
— cara, podemos começar por larralde...
— elizalde?! tu tem felipe elizalde?!
da milonga passamos pra mpb
— vitor, tua proximidade com caetano...
— minhas fontes de elaboração são egberto gismonti e chico buarque, que foi quem me mostrou que a letra poderia ser lapidada. caetano é mais lírico e caótico, há letras dele que nunca consegui entender
e por aí transcorreu nosso primeiro encontro
mas não vão me entender mal
vitor e eu nos entendemos perfeitamente bem
algum tempo depois
não sei precisar quanto
toca o telefone
— enilton, o ramilonga tá na mão... gostaria de te entregar em mãos...
— bah, que baita notícia, que honra... quando posso passar aí pra pegar?
— quando tu quiseres, mas hoje estou o dia todo em casa...
bato a campainha
vitor me recebe com a cuia de chimarrão na mão
mate vai, mate vem...
— já vivi em porto alegre e no rio, ficar em pelotas foi uma opção minha. mas meu interesse maior é compor e escrever, nunca fui chamado a essa profissão pela fama. não sou uma pessoa de relações, e embora ache isso importante, não é prioridade para mim. moro numa casa de cem anos, vou de carro a buenos aires, é em coisas assim que encontro inspiração para compor e escrever
e por aí ficamos
a charla não se estendeu muito
já era hora do almoço
quando chego em casa
boto o cd pra escutar
folheio o encarte e
na última folha
nos agradecimentos
ao lado de felipe elizalde
leio o meu nome
com lágrima nos olhos
escuto pela primeira vez o ramilonga
mais tarde
toco o telefone pro vitor
pra agradecer o agradecimento
e falo da sensação que o disco me causou
beleza e estranheza
do outro lado da linha
— a estranheza é o caetano, enilton
não entendi nada...
mas fiquei na minha
anos mais tarde
numa coluna da folha de são paulo
escrita por pedro alexandre sanches
veio a explicação
«no "ramilonga", fiz de propósito esse viés do caetano, que na verdade é o da bossa nova. o canto regional do sul, grosseiro e gritado, de gaúcho macho, me incomodava muito. por que não posso cantar de forma leve, delicada? forcei a barra de cantar "joãogilbertamente", e mantenho isso em "tambong"»

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você pode ser rei no país do futebol
pode ser viciado em bingo e nunca ver a luz do sol
você pode ser um mago e vender livros de montão
pode ser uma socialite, enriquecer vendendo pão

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém

pode ser incendiário e fazer um índio arder
você pode ser o índio vendo a chama acender
pode ser um bom ladrão, pode ser um mau juiz
pode ter um passado limpo, pode ter uma cicatriz

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém

você pode estar na mídia sem saber porque
você pode ser dono de uma rede de tv
você pode dar o fora tendo tudo pra ficar
adotar um nome diferente, você pode mesmo se isolar

mas um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

gotta serve somebody | bob dylan (1979)
(versão: vitor ramil)

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«nosso primeiro encontro foi inteiramente imprevisto. como ele, eu não tinha sofrido nenhum tipo de preparação anterior. esperava um homem profundamente revoltado. encontrei um consciente complicado. existe sobretudo uma preocupação evidente em ser entendido. nenhum assunto é brincadeira, tudo é muito sério e sujeito a várias indagações. vandré não gosta de piadas, não é simpático, mas também não é "estrela" de coisa nenhuma.
- minha função é fazer canções e é apenas disso que eu vivo. não pretendo levantar o povo contra uma estrutura já estabelecida. mas acredito que através da musica ele possa tomar consciência do mundo mais depressa.
muita gente já chamou vandré de festivo, de demagogo e outros bichos. não é isso não.
é, acredito, um conflito formado entre a inteligência e o conhecimento, a cultura.»

zélia prado | revista JOIA – novembro de 1968

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band: a primeira pergunta é uma que todos se fazem: por que há 50 anos você parou de cantar e de compor?
vandré: talvez porque não haja mais motivo para compor e para cantar...
band: porque não tem mais motivo...
vandré: é, deve ser por isso...
band: mas houve um motivo? houve alguma coisa que te fez parar?
vandré: não... especificamente, não.
band: se não houve mais motivo para você cantar e compor... quando você cantava e compunha, havia motivo. quais eram os motivos?
vandré: ah, faz muito tempo, não dá para lembrar... era da época... motivos da época.
band: qual era a demanda da época?
vandré: era muita coisa, não tinha nada específico.
band: ao escutar «pra não dizer que não falei das flores», é impossível não pensar em você. o que essa música significou para você?
vandré: significou o fim de uma carreira artística.
band: o fim?! mas não é o apogeu de sua carreira?
vandré: por um lado... mas o apogeu também é o fim, não é?
band: quer dizer, você se surpreendeu, então, com o efeito, com a recepção que essa obra teve?
vandré: de algum modo, sim.
band: ela é entendida — não é, vandré?
vandré: de algum modo..
band: o que você pensou quando a compôs?
vandré: não pensei em nada.

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ed bradley: as pessoas iam à sua casa?
bob dylan: sim.
ed bradley: para fazer o quê?
bob dylan: para discutir política, filosofia, agricultura orgânica, e coisas do tipo...
ed bradley: e o que você sabe de agricultura orgânica?
bob dylan: nada.

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— seu pai falava muito de você.
— é?
— dizia que você não tinha ambição.
— tinha razão.
— é mesmo?
— minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
— você é estranho.

bukowski

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«todas as minhas utopias foram embora. eu até termino o «longes» dizendo assim: "deixo ao vento que quiser levar, minhas folhas secas de utopia". hoje em dia eu sou assim, eu não tenho utopias.»

vitor ramil

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eu não faço nada
tô sem movimento
tô virando estátua
tô embrutecendo


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new morning

eu acabara de voltar para woodstock vindo do meio-oeste — do funeral de meu pai. havia uma carta de archibald macleish à minha espera em cima da mesa. macleish, poeta laureado da américa — um deles.
a semana anterior me deixara exaurido. havia voltado à cidade de meus primeiros anos de uma forma que jamais havia imaginado — para ver meu pai ser sepultado. agora não haveria jeito de dizer o que nunca fui capaz de dizer antes. enquanto eu crescia, as diferenças culturais e de geração haviam sido intransponíveis — nada além dos sons das vozes, uma conversa artificial e sem graça. quando um de meus professores disse a ele que o filho tinha uma natureza de artista, meu pai, que falava direto e sem rodeios, perguntou: «artista não é um sujeito que pinta?». parecia que eu sempre havia estado no encalço de alguma coisa, qualquer coisa que se movesse — um carro, um pássaro, uma folha soprada pelo vento ---, o que quer que pudesse me levar para um lugar mais luminoso, alguma terra desconhecida rio abaixo. eu não tinha a mais vaga noção do mundo despedaçado em que vivia, do que a sociedade podia fazer com você.
quando saí de casa, foi como se fosse um colombo partindo para o atlântico desolado. parti e fui para os confins da terra — até o abismo onde a água despencava.

bob dylan | crônicas volume um, p. 1119, 120.

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«um dos meus amigos tem cicatrizes de navalha ao longo de todo o seu braço esquerdo. o outro enfia baldes de comprimidos pra dentro de uma massa de barba preta. ambos escrevem poesia. tem qualquer coisa em escrever poesia que leva o homem pra beira do abismo.»

bukowski

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«louco, joquim louco,
o louco do chapéu azul.»

vitor ramil

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«o curioso é que absolutamente não me sinto inclinado a me considerar louco e vejo até, com toda evidência, que não estou louco: todas essas mudanças dizem respeito aos objetos. pelo menos é disso que gostaria de ter certeza.»

jean-paul sartre

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«estranho, estranho mesmo era alguma coisa que eu não via, uma coisa que faltava em toda parte, e de noite eu perdia o sono matutando nisso; era dessas adivinhas difíceis de decifrar e que quando decifra a gente exclama: é claro!»

chico, bambino a roma, p 7

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«era estranho ver no bonde tantos homens de muletas? sim, mas não era a isso que eu me referia. era estranho ver na feira tantas mulheres de luto fechado? sim, mas não era disso que se tratava. era um pouco estranho não ter feijão com arroz, mas logo tomei gosto pelas massas que a cozinheira servia todo dia no almoço.»

chico, bambino a roma, p. 9

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«não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; ao contrário, me sinto esmagado. só que meu objetivo foi atingido: sei o que desejava saber; compreendi tudo o que me aconteceu a partir do mês de janeiro. a náusea não me abandonou e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença. nem de um acesso passageiro: a náusea sou eu.»

sartre, a náusea, p.169

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«agarrado à bola de futebol, olhei para trás ao sair de casa na rua haddock lobo 1625, são paulo, assim que partiu o caminhão de mudança. vendo a casa tão vazia, com manchas de mobília no chão e de quadros na parede, entendi que a ausência seria longa, talvez para sempre. zarpamos do rio, e no convés do giulio cesare passageiros se abraçavam e brindavam vendo a cidade se afastar na baía de guanabara. eu não olhava a baía, mas sim a espuma que o transatlântico fazia no mar, como que desarranjando o caminho de volta. durante duas semanas num oceano sem fim, havia muita festa a bordo e jogos no tombadilho, mas se me perguntarem do que mais me lembro, direi francamente que só me lembro de um mar de vômito. vomitei no mar, no tombadilho, na piscina, no camarote de segunda classe, vomitei amarelo na toalha do restaurante, vomitei no sapato do garçom, eu vomitava os remédios e vomitava em cima do meu vômito com nojo de mim.

vomitei do rio a gênova com escalas nauseantes em portos que mal vi, na certeza de que aquele gosto nunca mais ia sair da minha boca.»

chico, bambino a roma, p.7

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«eis o que pensei: para que o mais banal dos acontecimentos se torne uma aventura, é preciso e basta que nos ponhamos a narrá-lo. é isso que ilude as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias [...] e procura viver sua vida como se a narrasse.»

sartre, a náusea, p. 58

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«segunda-feira, 29 de janeiro de 1932

algo me aconteceu, não posso continuar a duvidar. eu me senti um pouco estranho, nada mais. não sei. houve uma mudança nestas últimas semanas. acho que fui eu que mudei: essa é a solução mais simples. a mais desagradável também. mas tenho que reconhecer que sou sujeito a mudanças súbitas.»

sartre, a náusea, p. 16

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«o que acaba de ocorrer é que a náusea desapareceu. quando a voz se elevou no silencio, senti meu corpo se enrijecer e a náusea se dissipou. estou na música.»

sartre, a náusea, p. 39

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a música

era um mago da harpa. nos altiplanos da colômbia, não havia festa sem ele. para que a festa fosse festa, mesé figueredo tinha de estar ali, com seus dedos bailarinos que alegravam os ares e alvoroçavam as pernas.
certa noite, num caminho deserto, os ladrões o assaltaram. ia mesé figueredo, em lombo de mula, a uma festa de casamento. numa das mulas ia ele, na outra a harpa, quando os ladrões o atacaram e o moeram a bordoadas.
no dia seguinte, alguém o encontrou. estava atirado no chão, um trapo sujo de barro e sangue, mais morto do que vivo. e então aquele farrapo humano disse, com um fiapo de voz:
- levaram as mulas.
e disse:
- levaram a harpa.
e respirou fundo, acrescentando:
- mas não levaram a música.

eduardo galeano

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«a bem dizer, essa impressão de estar sendo abandonado já vinha de outras estadias em outros hotéis de roma, e outros e outros, mas o verdadeiro mal-estar que então me perseguia devia remontar aos escuros tempos de ditadura em que me exilei por mais de um ano na cidade. e já me revejo na recepção do hotel raphael atendendo a um telefonema urgente do brasil: o que houve?; como assim?; o ascensorista ainda não apareceu?; a filha do mágico continua doente? as ligações já não eram tão precárias quanto outrora, mas os diálogos pareciam evasivos porque havia palavras e nomes que não convinha pronunciar. mesmo assim, acredito que o mais profundo mal-estar vinha de antes ainda, e me intriga que durante o longo tempo ocioso que vivi adulto em roma, nunca me tenha ocorrido visitar os lugares da minha infância. pode ser que na via san marino eu descobrisse finalmente a origem de todo o meu mal-estar. mas também é possível que esse mal-estar nunca tenha existido, só existe agora que me lembro dele.»

chico, bambino a roma, p. 112

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«um romance. e haveria pessoas que leriam esse romance e diriam: «foi antoine roquentin que o escreveu, era um sujeito ruivo que estava sempre nos cafés». e pensariam em minha vida, como eu penso na dessa preta [em referência à cantora da sua canção preferida]: como em algo precioso e meio lendário. um livro.

talvez um dia, pensando precisamente nesta hora, nesta hora sombria em que estou à espera, de costas curvadas, que sejam horas de saltar para o comboio, talvez sentisse bater-me mais depressa o coração e dissesse para comigo: "foi nesse dia, a essa hora, que tudo começou."»

sartre, a náusea, p. 222

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aqui nessa hora é que ele nasceu
segundo o que contaram pra mim

joquim | bob dylan / jaques levy (1976)
versão: vitor ramil (1987)

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«cai a noite. no 1º andar do hotel printania acabam de se iluminar duas janelas. das obras da estação nova sai um cheiro intenso a madeira húmida: amanhã vai chover sobre bouville.»

sartre, a náusea, p. 222

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«nascer leva tempo»

vitor ramil

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«não preciso do fim para chegar.
do lugar onde estou já fui embora.»

manoel de barros

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chove na tarde fria de porto alegre
trago sozinho o verde do chimarrão
olho o cotidiano, sei que vou embora
nunca mais, nunca mais

ramilonga | vitor ramil (1997)
programa encuentro en el estudio con vitor ramil.
canal encuentro.
ministerio de educación de la nación.
república argentina.
dirección ariel hassan.

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porque hoje é sábado
continua amanhã
que é domingo

sexta-feira, 31 de julho de 2026


 volta belchior
(deus lhe pague)

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da orelha do livro

todos os amigos de tarso têm algo em comum: brigaram com ele um porrilhão de vezes. azar de quem estava brigado com ele quando morreu: nunca mais, disse o corvo, poderá fazer as pazes. aconteceu com dois ou três. eu, por exemplo, briguei feio com o cara. e tarso, quando estava brigado com alguém, o mínimo que fazia era dar chutes abaixo da cintura, e nem sempre metaforicamente. tive direito, por causa da nossa desavença, a um anúncio de falecimento na folha de s. paulo. causa mortis: fui atropelado pelo meu mau caráter, dizia o texto. era desleal, injusto e implacável com seus desafetos: «para os meus amigos tudo, pros meus inimigos nem justiça!», era um dos seus bordões. mas toda essa agressividade era só para mascarar que no fundo o rapaz era uma moça, superafetuoso e generoso com os amigos e as mulheres.

jaguar

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13 de agosto de 2023

biógrafo - oi enilton, boa tarde, tudo bem? vc pediu dois do caetano e um do socrates, ne? o outro do caetano é para quem? para eu fazer a dedicatória.
desculpe qualquer coisa
abração

enilton - boa tarde...
imagina, cara
tranquilo
eu pedi um do caetano, um do tarso de castro e outro do sócrates
são três livros
caetano, tarso de castro e sócrates
os três pra mim

biógrafo - eu posso te mandar o do tarso e do socrates amanha e do caetano na outra semana? é que to sem caetano aqui
me passa por favor seu endereço
desculpe o aluguel

enilton - imagina... tranquilo
mas será que vai ter o do caetano semana que vem?

biógrafo - caetano
sim, certeza

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29 de setembro de 2023

enilton - bom dia
alguma notícia do livro do caetano?
abrazo

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6 de outubro de 2023

enilton - boa tarde
alguma notícia do livro do caetano?

biógrafo - ta na fila!

enilton - qual a previsão de entrega? é bom lembrar que quando eu comprei não me foi informado que eu entraria em fila para a entrega do livro!!!
aguardo retorno...
tem quantos na minha frente?

biógrafo - estou consultando aqui... 265.

enilton - cara, te paguei pelo livro e tu não me deu as informações corretas... qual é? tá de brincadeira? caso, sim, devolve meu dinheiro.

biógrafo - qual o seu pix?

enilton - já te passei. trata de ser mais organizado, vou te passar de novo e me devolve o dinheiro de uma vez, no valor correto, que até nisso tu vacilou comigo, me deu um preço e depois inventou outro...

biógrafo - cara, se voce me der mais um sermão, vai ter que pegar o dinheiro pessoalmente.. ai nao me responsabilizo
então fica na miúda ai e nao me enche o saco
esqueci
quanto te cobrei mesmo?

enilton - 85 pila... se tu me pagar a passagem, não tem problema, vou aí e pego meu dinheiro, bem tranquilo e feliz da vida. e antes que eu me esqueça: vai te fudê! me devolve o dinheiro duma vez e fica na tua.

biógrafo - to rindo aqui. brigando por causa de 85 reais. gostou pelo menos dos dois outros livros?

enilton - aguardo meu dinheiro, só isso...

biógrafo - então gostou! fico feliz por isso. pelo menos alguma recompensa vc teve..
chave nao localizada
vc passou a certa?
é numero de celular ou cpf?

enilton - celular

biógrafo - qual o prefixo? cara, que trabalho que vc tá me dando... manda aí

enilton - (53)

biógrafo - tai. desculpe qualquer coisa. abração

enilton - abrazazo

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4 de março de 2024

enilton - cara, recebi o livro do caetano. gracias! quero comprar o livro do chico. já saiu? qual o valor? qual o prazo de entrega? abrazo

biógrafo - oi enilton! o livro do chico tá na boca do forno - devo entregar no máximo em um mês. 85 com o frete incluído.

enilton - por favor, reserva um pra mim. preciso dar entrada? parte do pagamento antecipado? valor total? ou posso pagar quando o livro sair? mas quero muito o livro do chico. parabéns pelo teu trabalho. teus livros são ótimos.

biógrafo - valor total - porque assim me organizo melhor para a entrega - eu compro da editora.

enilton - até quando posso fazer o pagamento, para reservar um exemplar pra mim?

biógrafo - até quando vc quiser. pagou entra na fila rs

enilton - beleza, hermano. gracias!

biógrafo - eu que agradeço.

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por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
a certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
por me deixar respirar, por me deixar existir
deus lhe pague

deus lhe pague | chico buarque (1971)
da trilha sonora do filme «elis»
canta: elis regina

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«fã de elis é igual a fã do renato russo.
são chatos pra caraio.
só perdem para os fãs do belchior.
vamos lá. primeiro ponto: a voz de elis é inigualável. não reconhecer isso é como reclamar dos chutes do pelé.
mas ela não "lutou contra a ditadura". não lutou contra porra nenhuma. quando protestou contra algo, errou o alvo. e de forma patética.
em 1967, no pré-ai-5, ela saiu às ruas para pedir o fim da.... guitarra elétrica.
ah, mas a elis deu entrevistas chamando os militares de gorilas. sim, mas foi para uma publicação estrangeira. assim que percebeu o perigo, foi correndo cantar nas olimpíadas do exército.
cá entre nós, eu também faria a mesma coisa. não sou candidato a herói.
e elis também não era.
ah, mas ela é intérprete de "o bêbado e a equilibrista". porra, protestar contra a ditadura em 1979, em plena abertura política, não é a mesma coisa que cantar "cálice" em 1973, ou dizer, como nara, em 1966, "que o exército não servia pra nada".
qualquer estudante de história da uniban sabe disso.
então não me venham com papo furado.
elis nunca será nara. e nara nunca será elis.
elis nunca teve a consciência política e cultural de nara.
e nara nunca cantou no nível de elis. e cagava pra isso.
como não avalio os artistas pelo gogó, fico sempre com nara.
chico buarque também.
"salve edu, bituca, nara, gal, bethânia, rita, clara.....»

tom cardoso

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- por que, na letra de «paratodos», faltou citar a eterna elis regina, ainda que você não gostasse dela? adoro você e tenho toda a sua obra, mas esta não entendi.

- quem disse que não gosto da elis? ou da elizeth? ou do ciro monteiro? artistas que admiro, fazendo as contas, há mais do lado de fora que dentro de «paratodos». mas a música foi escrita para todos.

fonte: entrevista de chico buarque aos leitores. disponível no site oficial de chico buarque.

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a vida é a arte do encontro
[embora haja tanto desencontro pela vida]

o primeiro encontro de elis regina com chico buarque ocorreu provavelmente no começo de 1965, quando a cantora selecionava repertório para o seu primeiro lp na philips, samba eu canto assim. um amigo de elis, joão evangelista leão, lhe falou de um amigo seu que tinha músicas interessantes, que ela devia ouvir e certamente escolheria alguma para o disco. elis aceitou e joão combinou com chico para este ir ao apartamento dela. o que joão não contou a elis era da enorme timidez de chico...

elis regina fala sobre seu encontro com chico

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pois é
fica o dito e o redito por não dito
e é difícil dizer que foi bonito
é inútil cantar o que perdi

chico buarque e elis regina: pois é...

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depois disso
elis cantou
pelo menos
uma dezena de músicas de chico
entre elas, deus lhe pague

a força dessa interpretação ficou registrada, por exemplo, em 1978, na apresentação do espetáculo «transversal do tempo» no teatro villaret, em lisboa, portugal. ali, ao interpretar a obra de chico, elis entregou mais do que técnica. quem se prestar a analisar com atenção, verá que elis pronuncia algumas palavras no decorrer da música «por entre os dentes», gesto bastante comum nos diálogos cotidianos quando queremos transparecer sentimento de raiva para o nosso interlocutor. esse gesto, somado ao semblante fechado, reforça a ideia de indignação que a letra visa passar, ante o contexto sociopolítico que o brasil vivia nos anos finais da década de 1970.

elis encerrou essa canção repetindo a frase «deus lhe pague» de maneira prolongada, dando um rápido soco no ar, mantendo a mão direita rigidamente fechada e preservando a feição tensa (raivosa) no rosto até o final da canção.

entendedores entenderão

do show transversal do tempo
gravado em lisboa, teatro villaret (1978)
produzido pela rtp (rádio e televisão de portugal), 2002

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leitura livre do livro de tom cardoso

a casa de maria de castro, no ipiranga, virou ponto de encontro de jovens subversivos. desobedecendo às ordens do pai para manter-se quieto em são paulo, tarso levou para lá dois estrangeiros conhecidos no gigetto: haroldo, repórter de agência cubana, e ramón, do partido comunista espanhol.

na boêmia paulistana, tarso circulava por todos os bares no intuito de buscar o anonimato. seu favorito era o paribar, onde bebia com paulo francis, refugiado do rio de janeiro. convicto de que sua coluna na última hora fora decisiva para o golpe de 64, francis vivia paranoico, encolhendo-se às mesas enquanto tarso brindava em voz alta a leonel brizola.

a dupla escapou da prisão graças a cláudio abramo, mito do jornalismo paulista. ao entrar no paribar e ver jornalistas perseguidos bebendo sem cautela, abramo deu-lhes uma bronca pela falta de discrição e convidou tarso e francis para se esconderem em sua casa no caxingui. lá, dividiram quarto com o diretor flávio rangel, também procurado pelos militares.

as duas semanas no caxingui marcaram a família abramo. as filhas do casal divertiam-se com as histórias e a sedução de tarso e com a rabugice paranoica de francis — alimentada pelas notícias trazidas por hermano alves e pelas provocações pregadas por rangel.

clandestino e apaixonado por nara leão, tarso teve a prisão preventiva decretada. despediu-se dos amigos e articulou a fuga para o uruguai com o auxílio de miguel kozma, que o guiou pela fronteira em santana do livramento até rivera.

no uruguai, o plano de brizola de liderar uma insurreição popular nos moldes de 30 naufragou com a prisão de oficiais legalistas. para piorar, tarso quase foi linchado em rivera ao ser confundido com um informante homônimo, sendo salvo por kozma.

em montevidéu, tarso reencontrou brizola num hotel em pocitos. o tédio e o pavor de ver policiais brasileiros infiltrados tomaram conta da rotina. quando brizola passou a admitir a organização de guerrilhas com apoio de fidel castro, tarso, avesso a disciplinas partidárias e leituras de manuais militares, decidiu que seu lugar de luta era no rio de janeiro, de preferência ao lado de nara leão.

grill

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além do horizonte deve ter
algum lugar bonito pra viver em paz
onde eu possa encontrar a natureza
alegria e felicidade com certeza

além do horizonte | roberto carlos / erasmo carlos (1975)
canta: nara leão

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amar e mudar as coisas me interessa mais

volta belchior

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américas

quinta-feira, 30 de julho de 2026


mestre jonas
[para flávia e jonas (in memoriam)]

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«prefiro falar de coisas impossíveis, porque do que é possível já se sabe demais»

silvio rodríguez

.

«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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«porque é exatamente isso
pra produzir um mundo novo
é preciso correr um risco muito grande
e ir não naquilo que é real
e não naquilo que é possível
a questão do pensamento é produzir o impossível
é produzir o impensável
ir além de todos os limites que nos foram dados
transgredirémuitomaisquetransgrediréproduzironovo
produzir a impossibilidade
uma força de ESTRANHAMENTO»

a loucura e a arte não param de ser perseguidas
por claudio ulpiana

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ao vento

[escrito em 10 de março]

hoje no café, vivi me contava sobre uma colega que lê todos os dias passagens da bíblia, numa versão moderna, com linguagem atual, na qual a autora sempre termina o trecho com a frase: «quero ser luz e o sal da terra».

— não sei por que ela escreve «sal da terra» se é «sol da terra» — diz a colega para a vivi.

— tu nunca ouviu esse termo «sal da terra»? — pergunta vivi.

vivi, então, explicou para ela o significado de «sal da terra».

— que lindo! — disse a colega.

vivi saiu para a cidade, foi trabalhar e eu fiquei aqui com mais uma história para contar.

grill

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para meus alunos de tão poucos dias

foram cursos diferentes, identificados pelo mesmo espírito: o da invenção e o da criação. falei-lhes de amantes que só oferecem às suas amadas, o amor; o amor do corpo expressivo. falei-lhes de orquídeas, enamoradas de vespas e de pássaros que cantam para o crepúsculo. mostrei-lhes as trevas barrocas e os clarões. como um inconsciente livre das formas do hábito. os nossos cursos foram musicais, desde que a música seja aquilo capaz de tornar belo seja o que for. enfim. o nosso encontro ̶ encontro de corpos ̶ pertenceu ao reino do encantamento, mostrando que a filosofia é uma linha melódica tão poderosa, que produziu em nós um acorde, digo ou melhor, repito ̶ um acordo: o dos amantes do corpo expressivo, que só oferecem um ao outro, o amor.

a filosofia é uma tarefa criativa; uma festa de delírio lógico ̶ um excesso de entendimento. ensinei-lhes filosofia, a minha festa privada. quebramos os relógios, e tornamos as horas intensas; fizemos do tempo uma mistura de palavras lindas; fizemos do tempo um vazio, e o percorremos como se fôssemos cavalheiros do pensamento: mais exatamente, como se fôssemos exploradores das tempestades dos mundos possíveis. compreendemos a diferença entre forma e matéria-prima. construímos barreiras contra a tolice, tornando o nosso agenciamento algo gentil e inesquecível.

em qualquer momento da minha vida, sem questão, serei assolado, tocado pelas divinas cativas, as pequeninas almas que a presença de vocês deixou para mim, como meu cortejo.

agora que nos despedimos, retomo: a criança é uma matéria-prima; é uma potência; múltiplas forças em movimento. o que com ela, a criança, temos que fazer é entendê-la. aprender com ela, a criança, que ensinar é fazer uma viagem.

sinceramente,
claudio ulpiano

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a estrada

hoje estou no oregon, deixando portland para trás e viajando rumo ao sudoeste, atravessando verdes escuros e cinzas suaves e nevoentos no meu agradável casulo de ruídos de ônibus, na direção dos morros e vales amplos e suaves do norte da califórnia. sei exatamente onde estou, claro. neste país, são as árvores que te contam.

minha mente divaga, se detém num problema que estou tendo com a banda; depois volto a refletir sobre a história da minha vida. penso em pete barnbill, um amigo que fiz quando tinha uns treze anos. ele tinha um um violão. também tinha o que chamávamos de paralisia infantil, conhecida depois como poliomelite, que aleijou sua perna direita e encolheu o braço direito, o qual tinha quase a metade do tamanho do esquerdo. ele se adaptou bem. escrevi sobre ele no encarte do «american recordings»:

«com sua mão esquerda, ele fazia os acordes, enquanto tocava um ritmo perfeito com sua minúscula mão direita. pensei que, se pudesse tocar violão daquele jeito, algum dia cantaria no rádio.»

pete era uma inspiração em vários aspectos. eu nunca havia sido próximo de alguém que tocasse violão, com exceção da minha mãe, quando era muito pequeno. eu achava que ele era o melhor violonista do mundo. para mim ele era maravilhoso, e o som que fazia era puramente celestial.

um dia eu lhe disse: «sabe, pete, você tem paralisia infantil mas sabe tocar violão de verdade».

sua resposta me impressionu muito: «às vezes, quando você perde um dom, ganha outro».

daquele momento em diante, não pensei mais nele como um deficiente; pensava nele como alguém que tinha um dom. eu me entristecia quando os outros garotos riam de pete. eles o viam ir mancando pelos três ou quatro quilômetros que separavam sua casa da cidade e o imitavam. eu também o imitava, mas não daquele jeito: meu jeito de tocar violão vem dele, tocando a base e solando ao mesmo tempo.

pete, como eu, era louco por música --- foi a primeira pessoa que eu soube que também era assim ---, e nós dois éramos loucos pelo rádio. o rádio significava o mundo para nós, literalmente.

lembro-me claramente do dia em que compramos o nosso, encomendado pelo correio e adquirido com o dinheiro do empréstimo que papai tomou do governo no ano em que ele e roy começaram a limpar nossa terra. lembro da primeira canção que escutei, «hobo bill's last ride», de jimmy rodgers, e como a imagem de um homem morrendo sozinho num vagão congelante me pareceu tão real, tão familiar. lembro de meu pai indo para a cama todas as noites às 20h05, depois do noticiário, e gritar para mim e para jack: «ok, garotos, hora de ir para a cama! apaguem a luz! desliguem o rádio!» jack diminuía a intensidade de sua lâmpada a óleo e se debruçava sobre a bíblia. eu baixava o volume e encostava minha orelha direita no rádio. a música que ouvia se tornou a melhor coisa da minha vida.

mas meu pai não gostava nada disso. dizia: «você está perdendo seu tempo ouvindo esses discos no rádio. isso não é de verdade, sabe? essas pessoas não estão lá. é só um cara sentado tocando uns discos. porque você ouve essas coisas de mentirinha?».

eu respondia: «mas é tão real quanto foi no momento em que eles cantaram e gravaram o disco. é a mesma coisa».

«mas não é de verdade, é só um disco.»
«não importa. o som é bom. eu gosto.»
«bem, você está sendo enganado por essas pessoas, isso não vai te dar um sustento. você não vai fazer nada de bom enquanto tiver essa música na cabeça.»

eu odiava ouvir isso, mas talvez tenha servido a um propósito. queria muito provar que ele estava errado. e que minha mãe estava certa. ela percebia que a música estava em mim, assim como estava nela e tinha estado em seu pai, que lhe ensinou a harmonia a quatro vozes e era o cantor principal do coral da igreja. dizem que era um ótimo cantor.

lembro dele como um homem amável. ele e minha avó rivers eram almas boas, o sal da terra, muito estimados e respeitados pela comunidade.

cash - a autobiografia de johnny cash, p. 53, 54 e 55

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«deixa nascer, o amor
deixa fluir, o amor
deixa crescer, o amor
deixa viver, o amor
o sal da terra»

ronaldo bastos

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uma criança

há livros que se lê uma vez e depois joga-se fora. lidos, esgotaram o que tinham pra dizer. parecem-se com as piadas só fazem rir na primeira vez que são contadas. outros livros, entretanto, são como fontes. a fonte é a mesma. mas a água que dela brota é sempre fresca, sempre nova, sempre outra água. retornamos sempre às fontes. cada retorno é uma felicidade nova. na minha infância havia uma fonte, um buraco simples em forma de bacia, que me dava grande alegria visitar. não que eu estivesse com sede. apenas para me encantar. daquela fonte nem meu pai nem minha mãe ficaram sabendo. vocês são os primeiros a quem estou contando. que felicidade encontrei na minha infância, solto por espaços vazios de olhos adultos! os adultos estragam o mundo das crianças com os seus olhos. diante da fonte, minha amiga, eu estava sozinho, absolutamente sozinho. guimarães rosa, falando de sua infância, disse que ela foi muito gostosa. a única coisa que atrapalhava eram os olhos dos adultos que se intrometiam em tudo. livrou-se disso quando arranjou uma chave para o seu quarto. trancado, podia gozar livremente os seus devaneios. esses livros-fonte não são de diversão. são livros de encantamento. a sua leitura é como beber água da fonte, sempre. por isso sempre voltamos a eles.

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 108.

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— seu pai falava muito de você.
— é?
— dizia que você não tinha ambição.
— tinha razão.
— é mesmo?
— minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
— você é estranho.

bukowski

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ao vento

cada um se vê como quer
uns se veem brad pitt
eu me vejo johnny cash

grill

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«e por que não, enilton grill?»

martim césar

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eu tenho uma balada
para johnny cash...
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
e também um grande amigo
que ao ouvir tua canção
me diz que ser feliz
é dar moeda ao coração
e que atahualpa e bob dylan
estão comigo, meu irmão
pois tive um norte aí no sul
e tenho o sul no maranhão

balada para johnny cash | martim césar/paulo timm (2014)

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breve ensaio sobre a cegueira

[por enilton grill]

qual o pior tipo de cegueira? a de quem não vê porque não pode? a de quem não vê porque não sabe? ou a de quem não vê porque não quer?

há quem afirme que todas as pessoas que enxergam são cegas, pois vivem em um mundo que perdeu a visão, no sentido em que a televisão, ou qualquer outro meio de incomunicação, é quem propõe as imagens — imagens prontas — tirando-nos a possibilidade de vê-las com o olhar interior.

seja como for, a verdade é que vivemos hoje a caverna de platão, onde as sombras projetadas são tomadas como verdade, o que faz de nós cegos de nós mesmos, pois verdade é como sombra, cada um tem a sua.

a minha é a minha, a sua é a sua.

você não vê a minha, eu não vejo a sua.

na maioria das vezes, somos um pouco como avestruzes, quer dizer, não vemos porque não queremos ver.

mas, se puderes olhar, vê; se puderes ver, repara:
1 + 1 é sempre mais que 2.

a felicidade mora ao lado,
quem não é tolo pode ver.

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mestre jonas

um dia, jonas, lá com seus 17 ou 18 anos, me disse: conheci um bar com caçachas e cervejas artesanais...vamos lá?
falei: vamos.
estacionamos o carro e fomos camihando até o bar.
no caminho, me falou como era difícil ser diferente, q até gostaria de ir na boate como alguns colegas de escola, mas prefiria a companhia dos amigos do clube de leitura e que não podia ser diferente do que era.
então, falei pra ele q eu tb não tinha interesse nas boates, prefiria a roda de viola no laranjal...
jonas: é...chamam a gente de esquisito né mãe? mas chamar de esquisito é elogio!

flávia maurício

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e ele diz que se chama jonas
e ele diz que é um santo homem
e ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria
e ele diz que está comprometido
e ele diz que assinou papel
que vai mantê-lo preso na baleia
até o fim da vida
até o fim da vida
até subir pro céu

mestre jonas | sá rodrix e guarabyra (1973)

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canção de mim mesmo

o jonas de flávia é, em essência, o mestre jonas em sua juventude: alguém que já entendeu, bem cedo, a beleza de morar dentro de sua própria baleia.

o avestruz se esconde para negar a verdade.
a baleia é o refúgio consciente de quem enxerga a realidade.

grill

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pergunta que não quer calar:

há espaço para o sentido artístico no mundo pragmático atual? ainda podemos ser sujeitos autônomos e de criação num tempo de consumismo fugaz?

resposta: para quem está submerso no cotidiano, essas questões fazem pouco sentido. todavia, para espíritos inquietos, serão o ponto de partida na busca do "tornar-se aquilo que se é".»

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eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada, cheia de dentes
esperando a morte chegar
porque longe das cercas embandeiradas
que separam quintais
no cume calmo do meu olho que vê
assenta a sombra sonora dum disco voador

ouro de tolo | raul seixas (1973)
(legendado)

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fotos

cris valente
pelotas, 2026

.

vivi valente
repecho, 2020

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#américas
#jonaspresente