quarta-feira, 29 de julho de 2026


não sou daqui, nem sou de lá
[para maria eduarda grill]

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o mendigo e o sapateiro

deus assumiu a forma de um mendigo e desceu à cidade.
procurou a casa do sapateiro e disse-lhe:
— irmão, sou muito pobre, não tenho nem uma moeda no bolso e estas são minhas únicas sandálias, que estão rasgadas. você poderia me fazer um favor?
o sapateiro respondeu:
— estou cansado de que todos venham pedir e ninguém venha dar.
o senhor disse-lhe:
— eu posso te dar o que você precisa.
e o sapateiro, desconfiado ao ver um mendigo, perguntou:
— você poderia me dar o milhão de dólares de que preciso para ser feliz?
o senhor disse-lhe:
— eu posso te dar dez vezes mais do que isso, mas em troca de algo.
— em troca de quê? — perguntou o sapateiro.
— em troca das suas pernas.
o sapateiro perguntou:
— para que eu quero dez milhões de dólares se não vou poder andar?
então o senhor disse-lhe:
— posso te dar cem milhões de dólares em troca dos seus braços.
o sapateiro perguntou:
— para que eu quero cem milhões de dólares se nem consigo comer sozinho?
então o senhor disse a ele:
— posso te dar mil milhões de dólares em troca dos seus olhos.
o sapateiro pensou um pouco e perguntou:
— para que eu iria querer mil milhões de dólares se não vou poder ver minha esposa, meus filhos, meus amigos?
então o senhor disse a ele:
— ah, irmão, irmão! que sorte tens e não percebes.

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pois é...

outro dia, lendo a coluna de paulo santana, deparei-me com o tema da felicidade — um de seus prediletos. santana contava que certa vez passou por uma sinagoga e entrou. estava lotada de judeus e de curiosos. falava um rabino. e o rabino discorria sobre os sonhos do homem, que são três: ser rico, ser forte e ser sábio.

de acordo com o rabino:

1. o homem quer ser forte, mas pensa que ser forte é dominar os outros. engana-se: ser forte é dominar-se a si próprio.

2. o homem quer ser sábio, mas imagina que ser sábio é abeberar-se da cultura dos livros, dos ensinamentos que os sábios nos legaram pela escrita. quando, na verdade, ser sábio é outra coisa: ser sábio é aprender com cada pessoa que se encontra na vida.

3. o homem quer ser rico, mas não sabe que ser rico não é amealhar toda a riqueza, ganhar e juntar todo o dinheiro que se possa. ser rico, acrescentou o rabino, é contentar-se com o que se tem.

das reflexões e ensinamentos do rabino, paulo santana concluiu: «esta é a sabedoria, este é o jeito de ser feliz: mostrar-se satisfeito com o que se possui. e não querer se tornar feliz desejando aquilo que não se conseguiu ou não se pode conseguir. venham por mim», convidou paulo.

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o trecho acima é o início de um texto que escrevi e enviei para o e-mail de paulo santana. o texto, na íntegra, está logo abaixo. nele, faço uma analogia entre o que disse o rabino e o que dizia facundo cabral. esperei uma semana, um mês, dois meses, três meses... e nenhuma resposta de paulo. um dia estou escutando o sala de redação e um dos participantes diz: «muito bonito aquilo do facundo cabral na tua coluna de hoje, santana...» fui correndo à banca mais próxima e na coluna do santana havia uma série de frases de facundo cabral e uma pequena citação dizendo haver recebido um e-mail meu (se mostrando surpreso por nunca ter ouvido falar em facundo cabral). procurei esta primeira coluna para compartilhar aqui, mas, infelizmente, não encontrei. na sequência, paulo escreveu, pelo menos, mais duas colunas citando facundo cabral — ipsis litteris — do texto enviado por mim a ele (sem dar os créditos, é claro...). não fiquei triste, nem revoltado. fiquei feliz. afinal de contas, o que eu queria, enviando meu texto para paulo, era popularizar o nome de facundo cabral, não o meu — e isso eu consegui.

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antes do texto, vejamos o que diz a inteligência artificial sobre a relação de paulo sant'ana com facundo cabral.

«o cronista gaúcho paulo sant'ana admirava profundamente o cantor e compositor argentino facundo cabral, citando-o frequentemente em suas colunas em zero hora como uma referência de sabedoria popular, liberdade existencial e profunda sensibilidade poética sobre a vida e o tempo.

ambos compartilhavam de um olhar lírico, melancólico e intensamente filosófico acerca do cotidiano e da mortalidade.

sant'ana usava pensamentos e trechos de apresentações de cabral para ilustrar reflexões profundas sobre a solidão humana, a alegria simples e a grandeza de existir.»

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facundo cabral

[por enilton grill]

admirador de diógenes e são francisco de assis, da poesia de whitman e da genialidade de borges, facundo cabral foi um crente fervoroso e um anarquista convicto. através de suas canções, histórias e pensamentos, ele transformou a busca incessante pela felicidade em uma profunda reflexão sobre a vida e a humanidade — sempre guiado pelos valores inabaláveis da liberdade, da igualdade e da solidariedade.

tal qual um trovador da idade média, o compositor argentino transformava cada um de seus recitais e entrevistas numa oportunidade para narrar histórias e transmitir suas ideias e pensamentos.

pela sinceridade de suas palavras, facundo cabral parecia um discípulo direto de diógenes. aliás, o compositor e escritor argentino costumava citar o filósofo grego em seus recitais: diógenes, sempre que passava pelo mercado, ria porque dizia que achava muito engraçado e, ao mesmo tempo, ficava muito feliz ao ver quantas coisas havia no mercado das quais ele não precisava. ou seja, rico não é quem tem mais, mas quem precisa de menos, dizia facundo cabral.

uma das frases mais célebres do trovador argentino é: foge dos que compram o que não necessitam, com dinheiro que não têm, para agradar quem não vale a pena. nela, o misto de poeta, compositor, escritor e profeta resumiu várias de suas críticas à escravidão do homem em relação à sociedade de consumo.

inumeráveis declarações, sentenças e versos expressam o pensamento filosófico e ajudam a entender melhor o ideário de facundo cabral. por exemplo: no soy de aquí, ni soy de allá / no tengo edad, ni porvenir / y ser feliz es mi color / de identidad. verso este, aliás, que o aproximava mais ainda de diógenes, que, muito antes de facundo, já dizia: não sou nem ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo.

sobre essa sociedade que insiste em reduzir as relações humanas ao jogo sinistro do consumo e da competição, diz facundo cabral: o conquistador, por cuidar de sua conquista, se converte em escravo do que conquistou. diz mais: quem não está disposto a perder tudo, não está preparado para ganhar nada.

essa civilização, que confunde quantidade com qualidade — dize-me quanto consomes e te direi quanto vales —, propaga, em quase todos nós, o medo, a desconfiança e a competitividade desenfreada. dou a cara ao inimigo, as costas ao bom comentário, porque aquele que aceita um afago começa a ser dominado; o homem acaricia o cavalo para montá-lo..., ensina facundo cabral.

mas suas palavras podiam ser luminosas também: cada manhã é uma boa notícia, cada criança que nasce é uma boa notícia, cada homem justo é uma boa notícia, cada cantor é uma boa notícia, porque cada cantor é um soldado a menos... outra: fui analfabeto até os 14 anos, por isso quando me dizem «NÃO POSSO», eu digo «NÃO FODE».

não entendeu? o mestre explica: sempre, com o que se tem, se pode, se deve começar de novo; o dever do homem é ser feliz.

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e sobre o plágio? fala mais sobre o plágio...
pois é, sobre o plágio a pergunta que não quer calar é:
e se fosse o contrário, isto é, se o plagiador fosse eu e o plagiado, paulo?
não sei, ninguém sabe.
o que eu sei é que, como o plagiado fui eu, não aconteceu nada
- por quê?
- porque eu não quis

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companheiro que passas pela estrada,
seguindo pelo rumo do sertão
quando vires a cruz abandonada,
deixe-a em paz dormir na solidão.

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já ia embora
mas resolvi voltar
me lembrei de julio iglesias
e de sua passagem por porto alegre

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https://www.youtube.com/watch?v=YwUhurFvX7Q
julio iglesias e paulo santana - teatro do sesi - 2008
[recuerdos de yapacaraí]

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a propósito de julio igliesias...
com a palavra, facundo cabral

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«estávamos em nova york um dia e, quando saíamos do teatro do lincoln center, um jornalista se aproximou de mim e disse: "sr. cabral concordo com tudo o que o senhor disse esta noite, exceto que deus é sempre justo. se deus fosse sempre justo, o senhor teria tanta visibilidade e tanto sucesso quanto julio iglesias. ao que respondi: "claro que deus é sempre justo. julio iglesias tem mais exposição e mais sucesso do que eu, pois ele precisa de dinheiro muito mais do que eu para viver. eu, que preciso de mais liberdade que julio para viver, deus me fez mais livre.»

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«minha avó gostava muito de julio iglesias, por isso toda vez que o via na televisão me dizia:
- você deveria fazer um dueto com esse homem. seria uma dupla extraordinária.
- por que avó?
- imagine, ele as excita e você as faz pensar.»

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de volta ao começo

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facundo veio ao mundo nas ruas de la plata. na véspera de seu nascimento, seu pai abandonou a família. sem um lar, sara e seus oito filhos iniciaram uma longa migração em direção à terra do fogo, no extremo sul da argentina.

conta facundo:

«vagamos sete anos de cidade em cidade atravessando campos. um dia, queixou-se um irmão e disse: "todo mundo tem uma casa, menos nós". e minha mãe disse a ele: "eles são pobres porque só têm uma casa. nós somos ricos porque temos un mundo para andar, segue andando".»

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«e o senhor disse a abraão: sai-te da tua terra e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.»

gênesis 12.1

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y el señor dijo a abraham:
abandona tu tierra natal
y la casa de tu padre,
y ve al país que yo te indicaré.
haré de ti una gran nación,
te bendeciré
y por ti se bendecirán todos los pueblos de la tierra.
el señor dijo a abraham.
esa bella y sabia orden,
fue la que convenció a mi corazón
a decidir que el mundo fuese mi casa.
el mismo mundo que puso
al alcance de mi espíritu
la canción que me refleja
como ningún espejo.

no soy de aquí, ni soy de allá
no tengo edad, ni porvenir
y ser feliz es mi color de identidad.

https://www.youtube.com/watch?v=KeoIZ523q38&list=RDKeoIZ523q38&start_radio=1
no soy de aquí, ni soy de allá | facundo cabral, 1970
introducción: poema «el caminante»

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#américas

terça-feira, 28 de julho de 2026


só tem amor quem tem amor pra dar
(direto da sala che guevara da casa dos aedos)

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«aedos eram poetas, cantores e músicos da grécia antiga que compunham e recitavam poemas épicos.

acreditavam receber inspiração direta das musas e da deusa memória para criar suas canções.

surgiram antes mesmo da escrita e do alfabeto, guardando e transmitindo o saber mitológico e histórico de cabeça.»

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tarso de castro, presente
[por júlio cargnin filho]

polêmico, brigão e subversivo, tarso era daqueles «malditos» que fechava bares, alugava carros e aprontava em hotéis de luxo, ao melhor estilo «gonzo jornalismo». comprou brigas homéricas pelas redações que passou – com diretores e editores – mas nem mesmo os amigos mais próximos escapavam de seu temperamento tempestuoso.

um «enigma» sempre foi uma pulga atrás das orelhas de seus camaradas: o charme do maldito. mesmo desajeitado, feio, desleixado, descuidado consigo e sem onde ter para cair morto, teve relacionamentos com belas mulheres. de uma dessas aventuras, uma história bem ao «estilo tarso»: seu namoro com a atriz estadunidense candice bergen.

o jornalista adorava exibir à atriz uma fotografia pessoal ao lado do revolucionário argentino che guevara. já a atriz, se vangloriava de ter namorado um «guerrilheiro que participou da revolução cubana».

após 30 anos ininterruptos de consumo de álcool e sua oitava hemorragia interna, tarso foi tomar seu scotch em outro universo. o dia: 20 de maio de 1991. uma morte que não surpreendeu os mais próximos, pois ele mesmo pregava que «após os 40 anos a vida não teria mais graça». viveu nove a mais do que o limite que queria.

nas palavras de otto lara resende: «tarso tinha defeitos visíveis e qualidades nem sempre visíveis, sobretudo para quem o via de longe, ou o sofria de perto».

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a casa dos aedos 

nessas condições, se nos perguntassem qual o benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz. só os pensamentos e as experiências sancionam os valores humanos. ao devaneio pertencem valores que marcam o homem em sua profundidade. o devaneio tem mesmo um privilégio de autovalorização. ele usufrui diretamente de seu ser. toda pessoa deveria, portanto, falar de suas estradas e encruzilhadas, de seus sucessos e fracassos.

gaston bachelard, em a terra e os devaneios do repouso

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tarso de castro
[por tom cardoso]

tarso de castro, recém-chegado a salvador, liga para o amigo de copo joão ubaldo ribeiro:

- o que manda, tarso?
- tô aqui, vem cá me ver!
- onde você está?
- no hotel meridien.
- porra, então vem você pra cá, é perto.
- não posso. estou aqui com a (falando baixinho)...candice bergen.
- com quem? não ouvi.
- estou aqui com a (sussurando).. candice bergen.
- tarso, vou abaixar o som e você me diz com quem você está.
- vai logo.
- pronto, diga.
- estou aqui com a can-di-ce ber-gen.

joão ubaldo conta: «eu resolvi ir, com a certeza de que o tarso estava aprontando alguma escrotidão. mas eu adorava ele, peguei o meu fusca e fui até o meridien. quando eu cheguei lá a candice estava sentada, com as pernas esticadas, despojada, sem maquiagem, mas bonita como sempre foi, uma mulher enorme. me lembro que ela tinha um pezão imenso, porque foi a primeira coisa que eu vi: ela relaxada, com o pé pra cima de uma cadeira e o tarso atrás, radiante, andando de um lado para o outro, com os braços abertos, em transe absoluto»

descobertos pelos colunistas sociais de salvador, tarso e candice deixaram de ir à praia e passaram o resto da «lua-de-mel» trancados no meridien.
jantaram lagosta e camarão todos os dias, acabaram com o estoque de vinho, uísque e champagne do hotel.
no dia de encerrarem a conta, candice chamou joão ubaldo, que estava lá para levá-los ao aeroporto, e fez um pedido ao escritor:

- ubaldo, eu sei que o tarso gosta muito de você e tenho certeza que ele vai te ouvir.
- me diga, candice, o que houve?
- eu sei que o tarso é duro. e sei também que ele não vai me deixar pagar a conta do hotel. é muito orgulhoso. quero que você o convença de que isso tudo é bobagem, que eu sou rica e pago tudo sem problema nenhum. faz isso por mim?
ubaldo foi falar com tarso, já caminhando em direção ao guichê do hotel.
- tarso, a moça faz questão de pagar a conta...
- nada disso. eu pago essa merda!!!

a conta era um absurdo, algo equivalente a um mês de bebedeira no antonio’s.
tarso não perdeu a pose. puxou a carteira do bolso e, quando estava preparando para assinar mais um cheque sem fundo para a sua coleção, foi interrompido pelo gerente do hotel:

- senhor. em nome do hotel meridien queria agradecer a presença do senhor e da senhorita candice bergen. ficamos gratos pela preferência. as despesas são por nossa conta.
tarso, para desespero de joão ubaldo, ainda fez charme:
- não senhor. eu faço questão de pagar tudo. fomos muito bem tratados aqui.
- meu senhor, aceite a nossa gentileza em nome da boa hospitalidade baiana.
- se o senhor faz questão...

a atriz, completamente apaixonada, bancou todas as viagens de tarso a nova york.
o jornalista, porém, se queixara aos amigos que, por mais que tentasse, não conseguia dedicar-se apenas a uma grande paixão.
candice cansou de ser esnobada e casou anos depois com o cineasta francês louis malle, baixinho, porém atencioso.
tom jobim tentou consolar tarso:
«não fique assim, meu caro, dos malles, o menor!».

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há várias versões sobre a noite em que tarso conquistou candice na varanda do antonio's. alguns juram ter visto o jornalista entrar correndo no restaurante, ajoelhar-se aos pés da atriz e beijá-la dos pés à cabeça sem a menor cerimônia. outros dizem que a abordagem foi um pouco mais sutil: com um buquê na mão esquerda e um urso de pelúcia na direita (doado na última hora pela mãe da promoter ana maria tornagui), o jornalista disse meia dúzia de palavras em inglês e conquistou a moça.
uma terceira versão é sustentada por amigos mais próximos a tarso. candice interessou-se por ele no antonio's mas só se apaixonou de verdade depois que viu o seu retrato ao lado de che guevara, tirado durante a cobertura da conferência econômica e social da oea, em punta del este, em 1961. rápido no gatilho, o jornalista teria dito à atriz que lutara ao lado de guevara e fidel castro durante a revolução cubana --- contou (provavelmente fazendo gestos) os apuros que ele e os dois líderes comunistas passaram juntos nas montanhas de sierra maestra, semanas antes de entrarem triunfantes para tomar havana do ditador fulgêncio batista. candice teria ouvido a história com lágrimas nos olhos e se apaixonado perdidamente.

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- e o teu pai?
- meu pai era um aedo. um homem sem medo.
herdei dele, além do nome, o gosto pelas viagens.

nas viagens que fazíamos - e fizemos muitas juntos - meu pai, um brizolista de quatro costados, sempre contava da vez que foi a punta del este para ver e ouvir o che. eu adorava.

às vezes ele esquecia
mas eu sempre lembrava
e pedia

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papá cuéntame otra vez esa historia tan bonita
de aquel guerrillero loco que mataron en bolivia

papá cuéntame otra vez | daniel serrano / ismael serrano, 1997

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acho que já contei essa história. mas vou contar de novo. não custa nada --- pelo contrário, é uma forma de recordar. do latim re-cordis: voltar a passar pelo coração.

passei a vida ouvindo meu pai contar da vez que esteve com o che em punta del este, junto com brizola e flávio tavares, durante a conferência pan-americana promovida no uruguai, em 1961.

é uma pena que eu não seja bom o suficiente com as palavras para descrever o brilho nos olhos do meu pai cada vez que me contava a mesma história. o brilho era tanto que eu pensava que aquilo era verdade, não podia ser mentira.

até que um dia resolvi comentar com minha mãe sobre o encontro do meu pai com o che. minha mãe ficou surpresa, disse que não sabia de nada. falou com os familiares e ninguém se lembrava de nenhuma viagem.

no dia seguinte, no café da manhã, minha mãe perguntou:

- enilton, que história é essa da tua viagem ao uruguai pra encontrar o che guevara? falei com todo mundo e ninguém sabe nada dessa tal viagem...

meu pai respondeu:

- ninguém sabe de nada porque não era pra saber mesmo. foi uma viagem clandestina...

meu pai faz falta, muita falta. e não só para mim, mas para o mundo. as pessoas, hoje em dia, ou estão agarradas às suas verdades ou entregues às suas mentiras.

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aquí se queda la clara
la entrañable transparencia
de tu querida presencia
comandante che guevara

hasta siempre | carlos puebla (1965)
canta: nathalie cardone
[con letra e imagens]

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poema-carta de ernesto che guevara a sua esposa aleida march

amor: chegou o momento de te enviar um adeus com aroma a campo santo (a hojarasca, a algo distante e não utilizado). queria fazê-lo com estas folhas que caem e são frequentemente chamadas de poesia, mas fracassei; eu tenho tantas coisas íntimas para teu ouvido mas a palavra torna-se carcereira e a poesia não é o meu forte. eu não sou poeta. eu não sirvo para o nobre ofício de escrever poemas. não que eu não tenha coisas doces. se você soubesse das que se agitam dentro de mim. mas é tão longo, cheio de voltas e estreito o caracol que as contêm, que saem cansadas da viagem, mal humoradas, esquivas, e as mais doces são tão frágeis! saem despedaçadas no caminho, vibrações dispersas, nada mais. careço de condução, teria de desintegrar-me para te dizer de uma só vez. usemos as palavras com um sentido cotidiano e fotografemos o momento.

acabaram-se os cantos das sereias e os embates interiores; se ergue a fita para minha última corrida. a velocidade será tanta que escapará todo grito. o passado acabou; eu sou um futuro a caminho. não me chame, não te escutaria; só posso ruminar-te (no sentido de pensar profundamente em alguém) em dias de sol sob a renovada carícia de balas […] lançarei um olhar em espiral, como a volta que o cão dá para descansar, e lhes tocarei com meu olhar, um a um e todos juntos. se um dia você sentir a imposição de um forte olhar, não se vire, não quebres o encanto, continue coando meu café e deixe-me viver para sempre no momento perene.

não obstante,
no labirinto mais fundo do caracol taciturno
se unem e repelem os pólos do meu espírito:
tu e todos.

os todos me exigem a entrega total,
que a minha solitária sombra escureça o caminho!
mas, sem burlar as normas do amor sublimado,
te guardo escondida no meu alforge de viagem.

(te levo no meu alforge de viajante insaciável
como o pão nosso de todos os dias.)

saio para edificar as primaveras de sangue e argamassa
e deixo, no vão da minha ausência,
este beijo sem domicílio conhecido.
mas não me anunciaram o lugar reservado
no desfile triunfal da vitória
e a vereda que conduz ao meu caminho
está cercada de sombras agourentas.

se me destinam ao escuro lugar dos cimentos,
guarda-o no arquivo nebuloso da lembrança;
usa-o em noites de lágrimas e sonhos...

adeus , minha única,
não temas ante a fome dos lobos
nem no frio estepario da ausência;
do lado do coração te levo
e juntos seguiremos até que o caminho se desvaneça.

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já ia embora, mas me lembrei de mais uma

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quando eu ainda era jovem, meu pai me imaginava hermano henning --- hermano henning, o correspondente internacional da globo ---, sim, estamos nos anos 80. naquela época, eu não me imaginava escritor, eu me imaginava jornalista. ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são: gosto de escrever mas não sou jornalista --- comecei a faculdade mas não terminei.

em cada esquina tinha um bar,
tinha um bar em cada esquina

mas nem tudo se perde, alguma coisa sempre fica. livros, por exemplo. quem tem um livro é como se tivesse sempre um mestre ao alcance de sua mão. o mestre em questão chama-se «comunicação, memória & resistência», de pedro g. gomes / linda bulik / c. piva (orgs.). foi com ele que aprendi, por exemplo, o significado da sigla «aida»:

a (atenção),
i (interesse),
d (desejo),
a (adquirir).

a sigla por si só já diz tudo,
mas amor é tudo o que move
e o que me move é ir além...

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hoje existe tanta gente que quer nos modificar
não quer ver nosso cabelo assanhado com jeito
nem quer ver a nossa calça desbotada, o que é que há?
se o amigo está nessa ouça bem, não tá com nada!

só tem amor quem tem amor pra dar | sá, rodrix & guarabyra (1973)

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o processo da publicidade, sintetizado pela sigla «aida», implica em:

captar a atenção (a)
despertar o interesse (i)
provocar o desejo (d)
vontade de adquirir (a)

no brasil há um aparelho de tv por habitante.

mais de 90% das redes de tv no brasil são controladas por consórcios de publicidade.

a publicidade não busca apenas convencer, ela busca - e invariavelmente consegue - distorcer a realidade do mundo em que se vive.

ou seja, ela cria pseudopersonalidades, e o homem as assume usando as máscaras simbólicas que são os produtos:

a casa, o automóvel, a roupa, o alimento, a bebida, o shampoo

tudo o que lhe é imposto e que dá ao indivíduo uma imagem de si mesmo de acordo com o que ele desejaria ser
ou o que os outros gostariam que ele fosse
ou o que a sociedade exige que ele seja
mas que ele não é e nem pode ser
e é por essas e outras
que tem muita poeira que vira ouro
e muito ouro que vira pó

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o pó da estrada gruda no meu rosto,
como a distância, matando as palavras,
na minha boca sempre o mesmo assunto,
o pó da estrada.

https://www.youtube.com/watch?v=mggILxtBBzQ&list=RDmggILxtBBzQ&start_radio=1
o pó da estrada | sá, rodrix e guarabyra 1973

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enfim, a verdade é que o tempo não para. as coisas acontecem muito rápido na vida da gente. mas as pegadas para estarmos onde estamos e sermos o que somos estão por aí... desenterrá-las e decifrá-las depende de muita coisa... uma delas é saber onde procurá-las.
pra quem tem mais de 60, como eu, talvez seja mais fácil
pois antigamente tudo marcava e deixava marca
que o digam as calças desbotadas
que usei e ainda uso
e os mortos e desaparecidos
que chorei e ainda choro

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olá, como vai?
eu vou indo, e você, tudo bem?
tudo bem, eu vou indo correndo
pegar meu lugar no futuro, e você?
tudo bem, eu vou indo em busca
de um sono tranquilo, quem sabe?

quanto tempo, pois é, quanto tempo

me perdoe a pressa
é a alma dos nossos negócios
pô, não tem de quê
eu também só ando a cem

quando é que você telefona?
precisamos nos ver por aí
pra semana, prometo
talvez nos vejamos, quem sabe?

quanto tempo, pois é, quanto tempo

tanta coisa que eu tinha a dizer
mas eu sumi na poeira das ruas
eu também tenho algo a dizer
mas me foge à lembrança
por favor, telefone, eu preciso beber
alguma coisa rapidamente

pra semana, o sinal
eu procuro você, vai abrir, vai abrir
prometo, não esqueço
por favor não esqueça, não esqueça
não esqueço, adeus

sinal fechado | paulinho da viola (1969)
canta: chico buarque

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por falar em sinal fechado, é preciso que os doutores e mestres, formados em sociologia nas universidades brasileiras, saibam que há coisas que a universidade não ensina.
uma delas, por exemplo, é a sequência de luzes e cores do semáforo. você sabia que antes do verde vem o vermelho e que o amarelo vem antes do vermelho e o vermelho depois do amarelo?
outra é o tempo em que as luzes ficam acesas, definido por um técnico de tráfego de acordo com o movimento de cada rua. a luz verde, por exemplo, fica mais tempo acesa na rua de maior movimento e menos tempo na rua de menor movimento...

- entendeu?
- não.
- eu também não.
meu negócio é outro
preciso de campo aberto
pra dar certo

sim, era assim que eu pensava quando tinha uns 17, 18 anos de idade. naquela época, eu tinha desistido de estudar e meu pai me deu uma lavoura de arroz pra cuidar. tinha tudo pra dar errado... e deu mesmo. meu pai me deu um calhamaço de notas pra organizar e eu passava o dia na lavoura, atrás de uma pá pra cavar. pra completar, na hora de voltar pra casa:

tinha um bar no meio do caminho,
no meio do caminho tinha um bar.

e a pergunta que não quer calar: e a lavoura? a lavoura a água levou. o que restou daquela lavoura foi a canoa que salvou. e a canoa? não sei. ninguém nunca mais viu, nunca mais voltou.

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canoa foi rio acima
canoa não volta mais
foi só um sonho bonito
e a vida não volta atrás

canoa | almir sater - renato teixeira (1989)

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- fala sério...
- tô falando.
- então conta mais da faculdade
- da faculdade ficaram os livros
- só os livros? e o resto?
o resto foi passageiro
se perdeu pelo caminho
sumiu no pó da estrada
quando peguei carona com jesus numa moto

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sob a luz da lua
mesmo com sol claro
não importa o preço que eu pague
o meu negócio é viver

jesus numa moto | sá rodrix guarabyra (2000)
(legendado)

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ah, conta outra...
tá bem, vou contar
conta galeano que, quando era criança
sua avó lhe contou a fábula dos cegos e o elefante.
três cegos estavam diante do elefante.
um deles apalpou a cauda do animal e disse:
- é uma corda.
outro acariciou uma pata do elefante e opinou:
- é uma coluna.
o terceiro cego apoiou a mão no corpo do elefante e adivinhou:
- é uma parede.
assim estamos: cegos de nós, cegos do mundo.
desde que nascemos somos treinados para ver o mundo como dizem que ele é, não como queremos ou imaginamos que ele possa ser.

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- não entendi.
- tá bem, vou explicar

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quando eu era guri,
vivia pedindo para o meu pai contar história.
história de criança.
mas ele não contava.
acho que não gostava.
ou não queria.
ou não sabia.
hoje eu até entendo:
acho que ele não achava graça.
graça ele achava contando história do che e do brizola.
dizia que o brizola não teria perdido para o collor
do jeito que o lula perdeu.
hoje, lembrando uma e outra discussão,
me dói o coração.
digo agora o que não disse antes:
que talvez meu pai tivesse razão.
agora é tarde.
tá vendo essa foto em que estou tocando gaita de boca?
o sopro sai,
mas a cena é muda.
meu pai já não pode escutar.
o che está morto e a mim não me resta mais que o silêncio.
calo-me então.

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de volta ao título
[só tem amor quem tem amor pra dar]

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fiz um relato da foto
e enviei as quatro linhas finais para o gemini (ia)
a resposta da ia (inteligência artificial) para o significado da falta de esperança é a seguinte:

«não ter esperança pode ser uma resposta natural a situações pessoais e mundiais, mas não precisa ser permanente. a falta de esperança pode levar a sentimentos de desânimo, apatia, medo e ansiedade, que podem culminar em depressão.
esperança é um sentimento importante que contribui para a saúde mental.
pessoas esperançosas têm um humor mais positivo e uma atitude otimista, o que melhora a qualidade de vida.»

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só tem esperança quem tem esperança pra dar

a resposta da ia acabou com o fio de esperança que eu tinha. aliás, ao contrário do que diz a «ia» e do que pensa a maioria das pessoas, não creio que ter esperança seja algo saudável, pelo contrário, quanto menos esperança eu tenho, mais eu escrevo, e quanto mais eu escrevo, menos eu durmo, e quanto menos eu durmo, mais coisas eu faço, e quanto mais coisas eu faço, menos eu morro, e quanto menos eu morro, mais eu vivo, e quanto mais eu vivo, menos esperança eu tenho.

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tenho

tenho, vamos ver,
que já aprendi a ler,
a contar,
tenho que já aprendi a escrever
e a pensar
e a rir.
tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
tenho, vamos ver,
tenho o que tinha que ter.

nicolás guillén, 1964

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vivemos a ditadura da esperança. somos escravos da esperança. o sistema se alimenta de esperança. só tem esperança quem tem esperança pra dar. não devemos dar esperança. se algum dia vencermos terá sido porque acordamos e levantamos, não porque dormimos e esperamos.

grill

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agora escrevo pássaros

agora escrevo pássaros.
não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe, o amor.

cortázar

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cortázar comenta a morte do che, em 1967

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paris, 29 de outubro de 1967,
roberto, adelaida, meus muito queridos:

quero dizer-te isto: não sei escrever quando algo me dói tanto, não sou, não serei nunca o escritor profissional pronto a produzir o que se espera dele, o que lhe pedem ou o que ele pede a si mesmo desesperadamente. a verdade é que a escrita, hoje e diante disto, parece-me a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de dissimulação quase, a substituição do insubstituível.

o che está morto e a mim não me resta mais que silêncio.

calo-me então.

recebeste, espero, a mensagem que te enviei. era minha única maneira de abraçar-te, a ti e a adelaida, a todos os amigos da casa. e para ti também é isto, o único que fui capaz de fazer nestas primeiras horas, isto que nasceu como um poema e que quero que tenhas e que guardes para que estejamos mais juntos.

che

eu tive um irmão.
não nos vimos nunca
porém não importava.
eu tive um irmão
que ia pelos montes
enquanto eu dormia.
quis-lhe a meu modo,
tomei-lhe sua voz
livre como a água,
caminhei às vezes
próximo de sua sombra.
não nos vimos nunca
porém não importava,
meu irmão acordado
enquanto eu dormia,
meu irmão mostrando-me
por trás da noite
sua estrela eleita.

logo nos escreveremos.
abraça forte a adelaida.
até sempre, julio

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de volta ao começo

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«que tenho eu que hablarte comandante
se o poeta és tu»

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historia de un hermano 
por julio cortázar

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#américas

segunda-feira, 27 de julho de 2026


era uma vez um homem e seu tempo
(infinito de mim mesmo)
 
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celebração aos poetas loucos

dou vivas a essa rebeldia que as folhas vazias
não podem domar
a esse voo incerto a um lugar tão perto
de nenhum lugar
à incontrolável febre daquele que escreve
poemas ao vento
e - do inferno ao céu - derrama no papel
rios de sentimento

celebro os doidos da arte e o seu mundo à parte
sem regras cabais
que navegam sozinhos por um mar de vinho
sem buscar um cais
que, mesmo sem vê-las, acendem estrelas 
nas almas feridas
e vivem sem medo, que é o maior segredo
dessa nossa vida

dou graças aos poetas loucos que não fazem pouco
das palavras vãs
que rompem as grades para a claridade 
do sol das manhãs
que cultuam versos nesse universo
do céu interior
que vivem de sonhos e, às vezes, tristonhos
   se matam de amor!!!!

martim césar

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges 

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belchior

um cidadão do bem
um erudito de disciplina monástica
um hippie vivendo num prédio em construção
um poeta fá de joão cabral e bob dylan
um músico experimental
um incorrigível don juan
um pintor de retratos
um outsider
um andarilho
um desaparecido

jotabê medeiros

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«fugitivo de si e do mundo, belchior personificou a própria arte da fuga, transformando o silêncio de sua partida em poesia pura.»

autor desconhecido

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«vivo sem viver em mim
e tão alta vida espero
que morro porque não morro»

belchior

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«ele tinha um lado são francisco misturado com uns diabinhos», brinca o amigo fausto nilo. é uma necessidade que o ser humano tem, de que esse real da vida possa se dar um tempo e imaginar as coisas de outra maneira. essa é a função dos artistas. eles precisam disso. e o povo também precisa disso. «acredito, como scott fitzgerald, que a melhor fuga é sem volta», diz o maranhense zeca baleiro, endossando a ruptura definitiva de belchior.»

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«sob o ponto de vista poético, belchior celebrou o desespero — o que era moda em 1976 — e o que se sobrepôs a isto, atravessando corações e mentes, por gerações e gerações. nunca se furtou em traduzir em poesia, numa voz marcante com interpretação de quem quase declama ao invés de cantar, todos os recantos obscuros do desespero do homem de seu tempo.»

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«foi um apaixonado, um indignado, um sedutor. mas, principalmente, tocou fundo na solidão da condição humana, antecipando em décadas o isolamento nosso de cada dia, retidos numa tela de smartphone. estamos conectados com o mundo e chorando de solidão.»

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«autobiográfica, sua obra retrata suas diversas fases de vida, com um tipo de nuance romanceada, mas não inventada e jamais amenizada. não há lições de moral ou aprendizados fáceis na obra poética do cantor. não há autoajuda, tampouco salvação. há vida, e a vida às vezes dói.»

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textos do jornalista jotabê medeiros,
extraídos de sua biografia sobre belchior e de ensaio para a revista bula.

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

maria elizabeth gastal fassa

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viver é melhor que sonhar - os últimos caminhos de belchior

por chris fuscaldo e marcelo bortoloti

em algum momento, belchior e edna estiveram em montevidéu, pois foi de lá que o casal fez contato com martim césar, um poeta da cidade de jaguarão, que eles não conheciam até ali, mas para quem decidiram pedir ajuda depois da indicação de seu nome por um amigo em comum que não foi revelado. o e-mail, escrito por edna, chegou no dia 10 de outubro de 2010, e era dirigido a ele e à esposa, com os seguintes dizeres:

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«prezados martim e elisangela

a casa de cultura belchior é uma fundação sem fins lucrativos que desenvolve um trabalho muito especial de arte e cultura social especialmente no nordeste, as atividades vão desde as aulas de música no sertão até atividades com artistas de longo caminho, em vários lugares.
existe um projeto atual que pretende expandir as atividades no sentido da unidade latino-americana.
os sócios não têm obrigatoriedade de pagar mensalidades, porque cada um contribui como pode, muitas pessoas atuam organizando os cursos e em diversas atividades.
haverá eleições para a coordenação e vocês estão sendo indicados para fazer parte da suplência do conselho fiscal.
gostaria de saber se vocês aceitam o convite e, números de r.g.
enviamos também um convite para o paulo timm.

casa de arte e cultura belchior»

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martim césar se prontificou a encontrá-los assim que foi solicitado. junto ao músico paulo timm, dirigiu até montevidéu para uma conversa. no café tribunales, o casal escolheu uma mesa de canto e se comportou como se estivesse se escondendo. edna quase não deixou belchior falar. eles não disseram o hotel que estavam, mas deram uma dica da direção, que não era das mais nobres da cidade. o papo estava estranho e eles logo perceberam que o casal parecia passar alguma dificuldade. por ser um artista que admiravam, resolveram ajudar assim que voltaram para jaguarão.

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martim conseguia pouco espaço de conversa com o artista, mas, quando possível, debatiam literatura, assunto caro aos dois. belchior lhe declamava poemas de baudelaire. chegou a comentar que tinha composto vinte canções novas e que as apresentaria na hora certa. «ele pediu livros, eu levei alguns, mas ela se incomodava quando conversávamos sobre literatura», conta martim. o jaguarense viu a companheira dele fechar a cara enquanto os dois falavam da trama de um deles. certo dia, recebeu um e-mail da casa de arte e cultura belchior, colocando fim à relação, de uma forma tão misteriosa como começou. a mensagem informava que o casal havia saído da residência e deixado a chave e os livros em um hotel vizinho.

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«prezado martim,

falei com a edna e com o belchior e eles me pediram para te enviar este e-mail:
agradecem pelo empréstimo dos livros e dvds
os seus pertences estão na casa da sra. helen.
no entanto, outros 2 livros seus e o livro e canetas da sra. helen ficaram no hotel em seu nome, onde eles disseram que jantaram com vocês uma noite.

até,
rafael.»

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nunca se ouviu falar no tal rafael. todos que conviveram com o casal sabiam que era edna a responsável pelas trocas digitais do cantor e de sua instituição cultural. até hoje martim e paulo não sabem o porquê da mudança de comportamento, mas de entrevista em entrevista fomos percebendo que isso acontecia recorrentemente por onde passavam. como uma espécie de autossabotagem, afinal, dispensar o conforto que os fãs lhe davam não parecia algo inteligente. ou seria uma estratégia de fuga, o que, também, não fazia sentido nesses lugares onde conseguiram passar despercebidos.

já era novembro e o casal conseguira ajuda de thiara gimenez, uma estudante de história eleita vereadora pelo partido dos trabalhadores (pt) em 2008, empossada presidente da câmara municipal de jaguarão, que tinha menos de 30 anos e um filha recém-nascida. edna vinha frequentando a loja de produtos naturais de reinaldo, sogro dela, localizada em jaguarão, próximo de lago merín. acabaram estabelecendo uma relação, e thiara lhe foi apresentada. a vereadora ouvia edna dizer que o casal estava sendo perseguido pela tv globo...

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https://www.youtube.com/watch?v=QdqIngMqwqk 
belchior: um homem procurado
[onde está belchior?]
fantástico (rede globo) - 30 de agosto de 2009

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por que belchior agiu assim?

qualquer explicação única para o gesto de belchior seria uma explicação medíocre. estávamos diante de um drama humano, mas também de um drama poético. na ontolgia da música popular brasileira, seu desparecimento foi algo imenso e surgiu em sua vida de forma tão inexplicável quanto o corvo no quarto do poeta edgar allan poe. um pássaro preto que simplesmente entrou pela janela para lhe dizer: «nunca mais, nunca mais». apenas uma porta que se fechava, deixando a falta de sentido no ar.

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você não sente, não vê mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
que uma nova mudança em breve vai acontecer
o que há algum tempo era novo, jovem
hoje é antigo
e precisamos todos rejuvenescer


https://www.youtube.com/watch?v=96Ke5TPILF0&list=RD96Ke5TPILF0&start_radio=1 
velha roupa colorida | belchior, 1976
(última gravação conhecida de belchior)
artigas - uruguai - 2011

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da inglória tarefa de compreender como jornalistas e pesquisadores a razão desta mensagem enigmática, nos restou uma envergonhada alegria. reviramos as gavetas que ninguém havia revirado, tocamos em lugares doloridos em busca de uma verdade que no final não existia. e, depois de tanta intimidade exposta, não estávamos tão longe assim do ponto de partida. mas já não éramos os mesmos. ficamos mais íntimos de belchior, compreendemos melhor a natureza do seu gesto e, de alguma maneira, este esforço ajudava a refletir sobre ele, talvez até engrandecê-lo. muito provavelmente, belchior não ficaria feliz com tamanha exposição pessoal. mas se percebesse que houve em nossa atitude mais admiração do que deboche, mais gratidão do que interesse, talvez nos perdoasse por isso. se como jornalistas sonhamos encontrá-lo ainda vivo, como pesquisadores, acabamos vivendo essa história que passou a ser de alguma forma nossa também. viver é melhor que sonhar.

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textos dos jornalistas chris fuscaldo e marcelo bortoloti
extraídos do livro viver é melhor que sonhar - os últimos caminhos de belchior.

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não quero lhe falar, meu grande amor
das coisas que aprendi nos discos
quero lhe contar como eu vivi
e tudo o que aconteceu comigo

do álbum alucinação

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bangalôs, charqueadas e acampamentos
o sumiço de belchior

[da revista trip]

belchior começou a desaparecer em 2007. as evidências de que seu sumiço era inusitado e «misterioso» foram sendo levantadas pela imprensa e por alguns vestígios que corroboravam a tese de uma fuga doida.

«quando eu soube que ele tinha sumido por causa de umas dividazinhas, comecei a procurá-lo. nós podíamos arrumar dois ou três shows e pagar tudo. era coisinha. mas não consegui achá-lo. ele não quer ser ajudado», contou um desolado ciro gomes, ex-governador do ceará, ex-ministro da fazenda e candidato eterno à presidência da república, logo após um debate político em são paulo, em 2016.

dez anos mais novo que belchior, ciro estudou em sobral, cidade natal do cantor, no colégio sobralense, mas só veio a conhecê-lo em fortaleza, quando já era famoso e cantava em festivais, em meados dos anos 1970. ciro era amigo de fagner e ednardo, e, por tabela, acabou fazendo amizade também com belchior. a última vez que se encontraram foi em 2008, depois do início do sumiço «oficial», em 2007. passaram a noite cantando e bebendo, como sempre fizeram, e ciro conta que ele lhe pareceu «centrado e criativo» como sempre.

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corre o vento, o rio passa...

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«não podemos escolher onde nascemos. podemos, no entanto, escolher onde viver e até mesmo onde vamos morrer», disse o professor ubiratan trindade, o bira, que o hospedou em santa cruz do sul. belchior não escolheu onde morrer, mas escolheu viver os últimos anos conforme as palavras de dante alighieri em a «divina comédia»: «a fama que se adquire no mundo não passa de um sopro de vento, que ora vem de uma parte, ora de outra, e assume um nome diferente segundo a direção de onde sopra».

deixando a profundidade de lado, o fato é que o ceará e o brasil reservaram alguns dias atentos (e talvez alguns anos, e talvez até algumas décadas, e quem sabe quanto mais?) para ouvir de novo as canções daquele rapaz educado e de sorriso falsamente tímido que se despedia das pessoas que lhe pediam autógrafos com um verso cúmplice e um texto ao qual sempre acrescentava, no fim:

«abrazos & canções. belchior.»

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ponto
nova linha

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meu infinito sou eu

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«veloso,
o sol não é tão bonito
pra quem vem do norte
e vai viver na rua»

belchior

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«olha pra mim, não há nada mais triste
que um homem morrendo de frio»

vitor ramil

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ao vento

não deve ser fácil
acordar e ver o dia amanhecer
gris, nublado e chuvoso.

pior é o frio
pior que o frio
é a frieza do ser humano

essa história de que o sol brilha para todos
não é bem assim.

para alguns — mais iluminados —
ele até brilha
mas o brilho
tem prazo limitado

é a vida
num dia você está vivo
no outro
morreu

grill

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e as paralelas dos pneus n' água das ruas
são duas estradas nuas em que foges do que é teu
no apartamento, oitavo andar, abro a vidraça e grito
grito quando o carro passa: meu infinito sou eu
sou eu, sou eu, sou eu

paralelas | belchior (1977)
imagem em movimento
(dentro do carro)

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de volta ao futuro

«ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro»

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«você me pergunta pela minha paixão
digo que estou encantado
como uma nova invenção
eu vou ficar nesta cidade
não vou voltar pro sertão
pois vejo vir vindo no vento
cheiro de nova estação
eu sei de tudo na ferida viva
do meu coração»

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quero desejar, antes do fim,
pra mim e os meus amigos,
muito amor e tudo mais;
que fiquem sempre jovens
e tenham as mãos limpas
e aprendam o delírio com coisas reais.

https://www.youtube.com/watch?v=PXDUR9nLf_s&list=RDPXDUR9nLf_s&start_radio=1 
antes do fim | belchior (1976)

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foto belchior: mario luiz thompson

tela gas: edward hopper, 1940

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#belchiorpresente