quarta-feira, 16 de setembro de 2026

 

ostra feliz não faz pérola
[para luciano oxley]

«não há razão nenhuma para sorrir para o ciclope, esse monstro de um só olho que é a câmera fotográfica. e, no entanto, nunca estamos tão desarmados quanto diante de uma lente. no início, achamos que podemos enganá-la, ou porque fechamos o semblante e endurecemos o olhar, ou porque simulamos a expressão que a memória do espelho nos garantiu ser a mais favorável. é aí que começa o combate entre a paciência do fotógrafo e a resistência de quem lhe faz frente. a paciência do fotógrafo é infinita, enquanto a resistência de quem está sendo fotografado acaba sempre por desmoronar. cada clique do obturador atinge um ponto vital das defesas, a muralha vai abaixo aos poucos, até que as verdades escondidas lá atrás começam a emergir. não todas as verdades, claro, mas alguns fragmentos delas, junto com o medo do fotografado de que o processo continue até o seu próprio esgotamento. por sorte, quase nunca se chega tão longe. piedoso, o fotógrafo para no último segundo, segura o fotografado quando ele já está prestes a cair no abismo, e tudo mais ou menos se ajeita. mais ou menos. mal refeito do susto, o fotografado suspira, julgando-se livre, enquanto o fotógrafo se afasta, pensando nos "bocadinhos de alma" que carrega dentro da caixa, como o pescador de linha que vai contando os peixes que roubou do cardume.»
josé saramago

«é curioso, e cômico até, quando topamos na rua com um ‘personagem’ que filmamos. como o processo de montagem é muito longo, durando às vezes mais de um ano, conhecemos de cor seus gestos, seus olhos, suas palavras. assim, ao encontrá-lo por acaso na rua, não demoramos a reconhecê-lo que, surpreso, já quase não se recorda de nós».
patrício guzmán

«domingo, sete horas da manhã. ainda não abri os jornais. vejo um dirigente do pt afirmar que «apoiar alexandre de moraes foi um erro». ele prossegue pedindo apoio às investigações. o dirigente, mais uma vez, segue o que dizem as pesquisas de opinião: o apoio a moraes, agora, tira voto. opt elevou o cinismo ao estado da arte. tudo é negociável. tudo é esperteza. tudo é cálculo. não há princípios a defender. dos bolsonaro, não preciso falar. são bandidos perigosos. imprensado no meio disso está o brasil.»
cesar benjamim

terça-feira, 15 de setembro às 20:37

o trabalho me impediu de ver o que aconteceu hoje no st. não tenho lado político-eleitoral nessa questão. defendo a ética e a lei, com a preservação da instituição.

na minha contagem pessoal, acho que o placar está 6 para os “bandidos” e 4 para os “mocinhos”. ninguém precisa concordar comigo.

dias toffoli: foi sócio de daniel vorcaro na propriedade do resort tayayá, usando dois irmãos como laranjas; há fortes indícios de que enviou para o paraíso fiscal das ilhas virgens, ilegalmente, cerca de r$ 35 milhões resultantes desse negócio.

alexandre de moraes: por intermédio de sua esposa viviane de moraes, beneficiou-se de um contrato de cerca de r$ 130 milhões com daniel vorcaro. cerca de r$ 80 milhões foram pagos até hoje em prestações mensais. atuava como conselheiro informal do banqueiro.

luiz fux: recebia, por intermédio do filho, mesada de r$ 500 mil do banco master.

kassio nunes marques: também recebia mesada de r$ 500 mil do banco master por intermédio do filho. deixou uma conta de r$ 10 mil para vorcaro pagar por uma noite com uma garota de programa.

andré mendonça: encontrou vorcaro em 2025, fora das dependências do stf, quando o banco master já era investigado por fraudes. criou o iter, instituto que firmou 68 contratos sem licitação com órgãos públicos, obtendo uma receita de r$ 11,5 milhões. usou a relatoria do caso master para fazer uma divulgação seletiva de informações, de modo a interferir no processo eleitoral.

gilmar mendes: não há acusações contra ele no caso master, mas é considerado o principal articulador de contatos empresariais e relações espúrias na corte. no último fim de semana, em plena crise, descocou-se para a itália para participar da festa de casamento da filha de marcos molina, controlador da marfrig, gigante brasileira do ramo de carnes. é relator da are 1605630, que envolve benefícios tributários à mesma marfrig.

até onde sei, edson facchin, carmen lúcia, flávio dino e cristiano zanin não são acusados de nada. ricardo lewandowski, que se vendeu barato (só r$ 250 mil por mês), já saiu do tribunal.

ou seja, 6 x 4.

do ponto de vista moral, não há mais quórum no stf. em qualquer país sério, por muito menos já estariam todos fora da suprema corte há muito tempo.

eu posso ter perdido alguma informação, e novas revelações podem surgir. mas isso aí está de bom tamanho para avaliarmos o buraco em que nos metemos. em tese, esses são os nossos grandes juristas.

chamem o ladrão.
(idem)


há 7 horas
mariana schreiber
da bbc news brasil no stf em brasília
stf não decide e prolonga a crise: uma visão de dentro do plenário

a crise inédita do supremo tribunal federal persiste, sem qualquer sinal de solução à vista, a menos de três semanas das eleições nacionais.

a sessão histórica realizada nesta terça-feira (15/9) para deliberar sobre a possível abertura de uma investigação sobre a relação do ministro alexandre de moraes e do banqueiro daniel vorcaro foi suspensa por pedido de vista (mais tempo para analisar o caso) do ministro flávio dino, sem que a corte começasse a analisar a questão principal.

os debates foram marcados por bate-bocas entre os ministros e a falta de definições.

na visão do criminalista joão pedro pádua (uff), a suspensão do julgamento deixou a corte em situação ainda mais frágil.

«ficar sem decisão me parece, institucionalmente, o pior dos mundos», disse.

professora de direito constitucional da puc-sp, gabriela zancaner diz que o desfecho da sessão foi altamente prejudicial para o stf e para a nação.

pra não dizer que eu não disse nada sobre o herói da «esquerda» e da «democracia» brasileira


«a massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa.»

george orweel


«de repente senti uma gratidão inesperada pelos meus professores medíocres. os bons professores, eu os acompanhava encantado. surfava nas suas ideias. mas os professores medíocres me irritavam tanto que eu me vi forçado a pensar minhas próprias ideias.»

rubem alves


mamãe, não quero ser prefeito
pode ser que eu seja eleito
e alguém pode querer me assassinar

eu não preciso ler jornais
mentir sozinho eu sou capaz
não quero ir de encontro ao azar

papai, não quero provar nada
eu já servi à pátria amada
e todo mundo cobra a minha luz

oh, coitado, foi tão cedo
deus me livre, eu tenho medo
morrer dependurado numa cruz

eu não sou besta pra tirar onda de herói
sou vacinado, eu sou cowboy
cowboy fora da lei

(raul seixas, 1987)


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 15 de setembro de 2026


viver é prazer
(prazer é escrever)


«a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida»

vinicius de moraes


«a vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. a vida serve para você se criar»

bob dylan


o faze(dor)
ao outro, a borges, é que sucedem as coisas. pouco a pouco vou cedendo-lhe tudo, embora conheça seu perverso costume de falsear e magnificar. spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar em seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra e o tigre um tigre. eu permanecerei em borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros ou do que no laborioso rasqueado de uma guitarra. há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de borges e terei que imaginar outras coisas. assim minha vida é uma fuga e tudo eu perco e tudo é do esquecimento, ou do outro. não sei qual dos dois escreve esta página.
jorge luis borges


autopsicografia

o poeta é um fingidor
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

e os que lêem o que escreve,
a dor lida sentem bem,
não as duas que ele teve,
as só a que eles não têm.

e assim nas calhas de roda
gira, a entreter a razão,
esse comboio de corda
que se chama coração.

fernando pessoa


«sinta mais, pense menos»

bukowski


sentir, penso, logo sinto
sorrir, apesar de tudo, ir fundo
pois o mundo é o mundo
é o mundo, é o mundo

(bicho de 7 cabeças, 1993)


a ilusão do espelho
quem lê um poema de dor acha que o poeta chora enquanto escreve. quem lê um poema de amor jura que ele está apaixonado. mas a verdade é que a poesia é emancipação: o poeta consegue cantar o sol estando na mais profunda tempestade, ou escrever sobre o abismo enquanto toma um café tranquilo em uma tarde de sol. a palavra vira poesia; a vida segue seu próprio rumo.
grill


todo dia eu saio por aí tentando descobrir
o que ninguém já houvesse descoberto algum dia
thomas edson já descobriu a luz
beethoven a nona sinfonia
jesus cristo descobriu a cruz
os poetas descobriram a poesia, desista
pedro álvares cabral já descobriu o brasil
pelé já fez de gols pra lá de mil, desista
os blacks descobriram o blues
os palhaços descobriram a alegria
casanova descobriu como seduz
tem gente bem na frente
já faz tempo já faz dias, desista
até você meu bem foi descoberta
mas vou cobri-la para que não sintas frio
nua debaixo dessa coberta
porque quem descobriu já descobriu

(bicho de sete cabeças, 1993)


ao vento

viver é prazer
se viver é esforço
e esforço é sofrer
eu quero morrer

grill


sei que vou morrer, não sei o dia
levarei saudades da maria
sei que vou morrer não sei a hora
levarei saudades da aurora

quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba
quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba
quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba

(ataulfo alves por itamar assumpção - pra sempre agora, 1996)


antes do fim


«o dom você o tem. nunca se esqueça.»

johnny cash

1. escrever me faz bem, me mantém sóbrio, me mantém vivo.

2. o que determina meu estado de espírito não é o conteúdo do que escrevo e sim a frequência com que escrevo.

3. quanto mais escrevo, melhor eu me sinto.

repetindo: não importa o que escrevo, o que importa é estar escrevendo. não importa o que digo, o que importa é estar dizendo.
quando digo escrever
digo viver
o corpo envelhece,
o cabelo embranquece
mas a palavra permanece.

o que o poeta escreve é alquimia,
não biografia.

agora volto ao meu ser:

dentro de mim há um mundo nascendo, fora de mim há um mundo morrendo.

como resolvo essa contradição?

escrevendo.


viver é prazer
prazer é escrever
e agradecer


fui dotado com uma voz de ouro,
e os meus amigos se foram, meu cabelo já embranqueceu,
eu me dou mal no negócio em que os outros se dão bem,
mas estou entregue ao amor e pago o aluguel todo dia
na torre da canção.

(leonard cohen, 1988)


«o eu não é senhor na sua própria morada.»

sigmund freud | uma dificuldade no caminho da psicanálise, p. 171.


casa de poeta não tem porta

pagar aluguel significa ser inquilino do próprio dom.
o dom cobra aparição e produção;
exige exposição.
a poesia não pertence ao poeta — pertence ao dom.
o poeta é a casa por onde a poesia passa,
o vento entra,
a vida passa,
o poeta é só vidraça:
o mistério bate e racha.

grill


há uma rachadura, uma fenda em tudo
é assim que a luz entra

(the future, 1992)


tela: bob dylan


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

segunda-feira, 14 de setembro de 2026


itamar assumpção:
pra sempre agora
[dedicado a glênio rissio]


clique no título para ler sobre glenio rissio
contador de hitorias da cultura de pelotas

(brasil de fato, 16 de agosto de 2021)


prezadíssimos ouvintes
(como se fosse o américas)

[clique nos títulos das músicas para ver e ouvir]

minha avó já morreu, o meu pai lá se foi
só ficou minha mãe pra rezar

(itamar assumpção, 1981)
(por batuque de umbigada e anelis assumpção)

bisneto de escravos angolanos francisco josé itamar de assumpção nasceu na pacata cidade de tietê (sp), no dia 13 de setembro de 1949 e passou boa parte de sua infância ouvindo os tambores dos terreiros de candomblé no quintal de sua casa.

negro falava de umbanda
branco ficava cabreiro
fica longe desse negro
esse negro é feiticeiro
hoje o preto vai à missa
e chega sempre primeiro
o branco vai pra macumba
já é babá de terreiro

(pretrobrás, 1998)

itamar não participava do movimento negro – nunca foi «raízes africanas». se casou com uma mulher loira, filha de italianos, do paraná, com quem viveu 35 anos, elizena brigo de assumpção.

as questões da negritude, entretanto, perpassam sua obra. vale lembrar os versos de «cabelo duro»

eu tenho cabelo duro
mas não o miolo mole
sou afro brasileiro puro
é mulata minha prole
não vivo em cima do muro
da canga meu som me abole
desaforo eu não engulo
comigo é o freguês que escolhe
sushi com chuchu misturo
quibebe com raviole
chopp claro com escuro
empada com rocambole
tudo que é falso esconjuro
seja flerte ou love story
quanto a ter porto seguro
tem sempre alguém que me acolhe
é com ervas que me curo
caso algum tombo me esfole
em se tratando de apuro
meu pai xangô me socorre

(isso vai dar repercussão, 2004)

o duelo verbal lhe apetece como defesa da integridade do artista e – ao observador atento assim parecia – dá-lhe prazer triturar argumentos dos que tentam dirigir o seu processo de criação.

pela rebeldia, ousadia e audácia, artistas como ele ganharam a alcunha de «malditos».

«maldito quer dizer o quê? livre?»

polemista, se saía bem, talentoso que era com as palavras não só no âmbito poético. odiava ouvir que só fazia música para intelectual.

em uma de suas tiradas mais famosas disse:

«se tivesse que ouvir conselho, pediria ao hermeto pascoal…»

artista livre. artista brasileiro. gênio, vanguardista, visionário. mas incompreendido, considerado marginal, maldito. a verdade é que «benedito joão dos santos silva beleléu/vulgo nego dito, nego dito cascavel» era tão grande que não se encaixava nos padrões impostos pela indústria da arte.

eu me invoco eu brigo
eu faço e aconteço
eu boto pra correr
eu mato a cobra e mostro o pau
pra provar pra quem quiser ver e comprovar

(beleléu, léu, eu, 1980)

verdade seja dita, itamar não cabia em uma palavra. era múltiplo. são, ao menos, duas versões dele, que se revezam e dialogam entre si.

nasceste no rio, estácio
eu em são paulo, tietê
os nossos passos com passos
afirmam ter tudo a ver

não só na tonalidade
e também no jeitão de ser
circula pela cidade
que sou cover de você

tu és o pérola negra
já desde setenta e dois
eu inventei beleleú
só oito anos depois

além desta pele preta
coisa comum em nós dois
idéias músicas letras
não são só feijão com arroz

dizem formarmos de fato
um belo par de malditos
te chamam de negro gato
me tratam de nego dito

e já que talento é inato
isso tudo estava escrito
num mundo cheio de chatos
(e bota chato nisso!)
até que somos são beneditos

(bicho de 7 cabeças, 1993)

sob a influência das obras de adoniran barbosa, cartola, clementina de jesus, jimi hendrix, miles davis e ray charles e do convívio com alice ruiz, alzira espíndola, arrigo barnabé, chico césar, jards macalé, paulo leminski, ná ozzetti, paulinho le petit, susana salles, rita lee, mônica salmaso, jane duboc, vange milliet, virgínia rosa, zizi possi, zélia duncan entre outros músicos, a obra de itamar assumpção, para além dos rótulos de maldita, underground ou marginal, se afirma pela sua força poética, ao mesmo tempo em que, a partir de doses regulares de lirismo e ceticismo, expõe dores de amor, dramas urbanos, comédias cotidianas.

dentro de instantes, logo após os comerciais
voltaremos com mais lenha neste inverno
eu fico louco, faço cara de mau, falo o que me vem...

(às próprias cusas s/a, 1981)


venha até são paulo ver o que é bom pra tosse
venha até são paulo, dance e pule o rock and rush
entre no meu carro vamos ao largo do arouche
liberdade é bairro mas como japão fosse

(bicho de 7 cabeças, 1993)

seu desejo firme de liberdade de criação e sua recusa de pertencer ao esquema ditado pelas grandes gravadoras, procurando outras formas de divulgação, trouxeram-lhe a pecha de maldito, condição também extrapolada ao recriar interpretações de canções clássicas da música popular brasileira, como as canções do sambista ataulfo alves.

o meu nome ninguém vai jogar na lama
diz o dito popular
morre o homem fica a fama

(ataulfo alves por itamar assumpção - pra sempre agora, 1996)

desde que agitou a cena musical paulistana em 1980 com «beleléu, leléu, eu», até lançar o amargurado «preto brás», em 1998, suas músicas nunca figuraram entre os sucessos das rádios fms. fato que lhe dava uma mistura curiosa de orgulho e dissabor. o grande público tinha uma dificuldade danada de entendê-lo. talvez porque tentar compreender fosse uma missão inútil.

cansei de ouvir abobrinhas
abobrinhas não

(pretrobrás, 1998)

«itamar tinha parceria com o demônio da palavra musicada: apenas começava a cantar, e a música continuava sozinha, no ar», afirmou josé miguel wisnik, à folha de s. paulo. já para outro parceiro, naná vasconcelos, «as músicas de itamar são mantras. chegava ao auge da sabedoria com simplicidade. era o astro do intelecto».

meu amor por você chegou ao fim
é tudo que tenho a dizer
também não precisa sair assim
espere o dia amanhecer

fim de festa
(isso vai dar repercussão, 2001)


isso não vai ficar assim
vai dar repercussão


eu assessorado de mais dois chegados
bartolomeu, ptolomeu
partimos pra comemorar
não lembro o que numa boa boite

escabrosa noite
deu blackout na paulista
breu no trianon
cadê o vão do museu? sumiu

tenebrosa noite
faltou light na paulista
breu no trianon
cadê a consolação?
escureceu o museu
onde está o chão?

(sampa midnight, 1983)

o músico elegante e melancólico se tornou uma das mais perfeitas traduções musicais de são paulo. «por oposição, se pode compará-lo com jorge ben. a música dos dois é comunicativa. mas jorge é alegre, do dia, e itamar era mais amargo, da noite», explicou o grande parceiro arrigo barnabé.

em pé eu tomo um café
na pia a louça suja
me lembra da roupa suja
no tanque que a vida é

(bicho de 7 cabeças, 1993)

ao mesmo tempo em que vivia ao lado dos «descolados» e universitários de são paulo, recusava-se a se mudar do bairro da penha, na zona leste, então uma região desvalorizada da capital.

ela me abandonou
porque moro no lado leste da cidade
o lado leste é meu santuário

(beleléu, léu, eu, 1983)

no quintal de sua casa penhense dedicava-se à outra paixão: cuidar de plantas e flores, com carinho especial às orquídeas.

que sonhem que sonhem
que sonhem que sonhem
que sonhem que sonhem
que sonhem que sonhem
nós somos orquídeas

(bicho de 7 cabeças, 1993)

lançado em dezembro de 1993 (pelo selo alternativo baratos afins), o primeiro volume da trilogia «bicho de sete cabeças» ganhou o prêmio sharp de «melhor disco pop-rock». apesar da qualidade do álbum, a fama de maldito não saia de si.

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa, um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios, édens, analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo o que me sobra
sofrer vai ser a minha última obra

(pretrobrás, 1998)

o próximo disco, «pretobrás», soou como um desabafo do artista que se amargurava pela falta de entendimento do público. «o resultado foi uma raiva exposta como ferida aberta no iracundo «pretobrás'», escreveu o jornalista pedro alexandre sanches.

nem bem cheguei me feri
foi bala na cidade grande
compondo sobrevivi
cantar estancou o meu sangue

(pretrobrás, 1998)

cantor, compositor, escritor, instrumentista, ator, produtor, artista. itamar assumpção foi tudo isso e mais um pouco. foi um homem preocupado com o seu legado. não se vendeu. manteve sua dignidade intacta. defendeu a liberdade. exaltou a negritude, seus ancestrais. criticou a mídia, o racismo, o sistema brasileiro. cuidou das orquídeas. deu comida aos pássaros. coou seus cafés. fez amizades. andou pelas ruas da penha, o bairro de são paulo que se tornou quase o quintal da casa dele. pagou caro por suas escolhas, mas jamais baixou a cabeça.

já cantei num galinheiro
cantei numa procissão
cantei ponto de terreiro
agora eu quero é cantar na televisão

(sampa midnight, 1983)


créditos finais


«quis, quero, quisera
que em beleza caminhe
que haja beleza diante de mim
e beleza atrás
e abaixo
e acima
e que tudo ao meu redor seja beleza
ao longo de um caminho de beleza
que em beleza termine»

possivelmente, assumpção se insira naquilo que paul gilroy chamou de pérolas do atlântico negro, uma das formas culturais de expressão ricamente produzidas pelos descendentes da diáspora dos africanos nas américas. 
ter um fim bem no meio
nenhuma rima em or
um começo que não veio
nossa história de amor

seja meu versejar
cantar como quem resiste
resistir como quem deseja

meu versejar seja
sorriso que te visite
a brisa que te beija
e que te festeja

não
tristeza não
corre, anda, rasteja

peleja sim, coração
em busca da beleza

(empório brasil, 1989)


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#casadosaedos
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domingo, 13 de setembro de 2026


no jardim da política
[ou: na terra de noel]


«se o néscio persistisse em sua nescidade, ele se tornaria sábio.»

william blake

.

não vou tirar meu chapéu
p'ra qualquer vagabundo
nasci na terra de noel
sou cidadão do mundo

josias sobrinho

no final do post de ontem, eu disse que, mesmo sem dinheiro e perdendo a razão, ainda me restava o direito de ser consciente da situação. que situação? a situação de impasse. que impasse? o impasse da frente ampla  — impasse, aliás, apontado por andré singer:

«diante desta etapa regressiva, torna‑se obrigatório construir a frente mais ampla possível para preservar e aprofundar o regime democrático. dadas as contradições de classe envolvidas na coalizão resultante, todavia, o artefato frentista se paralisa, impedindo o salto de qualidade necessário para formar uma maioria sólida em torno do objetivo almejado.»

dito isso, vamos ao que viemos

há dez mil anos atrás, numa postagem minha no facebook, na qual falava sobre a foto de lula abrazado a sarney, uma companheira amiga minha, contemporânea do lad (livres atuadores pela democracia), fez o seguinte comentário:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo candidato pra derrotar o bolsonaro, glauber braga se lançou pelo psol. quem sabe combateremos o nazifascismo em rodas de ciranda, néh 😉»
ao que eu respondi:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo argumento para nos abrazarmos a sarney e cia: o nazifascismo. aliás, o nazifascismo, para petistas e lulistas, muda de cara a cada quatro anos. em 2002, a cara era uma; em 2006, outra; em 2010, outra; e, em 2014, outra. e o final deste filme, sabemos qual é. mas que importância isso tem? nenhuma. o que importa é que a gente vença e passe mais 10, 12, 14, 16 anos no governo. depois, se nos tirarem de novo, a gente vê o que faz. mas não te preocupa, companheira, minha opinião não tem valor algum. ainda tô no jardim da infância da política, de onde, por sinal, não tenho o menor interesse de sair. 😉»

de farsa em farsa, a «nova república» morreu
a expressão «nova república» foi cunhada há 31 anos, quando josé sarney assumia a presidência do país, na qualidade de vice de um agonizante tancredo neves, eleito indiretamente pelo colégio eleitoral inventado pela ditadura. em seu discurso de posse, escrito por tancredo, o imortal autor de marimbondos de fogo anunciava: «brasileiros, começamos hoje a viver a nova república». a expressão pretendia anunciar o advento da democracia. a farsa não poderia ser mais perversa e descarada: ignorando a vontade de milhões que expressaram nas ruas a exigência por eleições diretas, o poder era entregue a um líder da arena – principal partido de sustentação dos generais –, sem que qualquer instituição do antigo regime fosse desmantelada, ou os seus responsáveis julgados e muito menos punidos.
josé arbex jr.
abril de 2016

«há quem diga que essa história de desobediência civil e revolução, não tá com nada. isto é, já era. «não tá com nada» pode ser que sim, «já era» penso que não. por quê? porque aqui no brasil, salvo uma ou outra exceção — vide a balaiada no maranhão — isso jamais aconteceu. portanto, não se pode dizer «já era» para uma coisa que nunca foi.»

ontem, aqui no blog, reproduzi o trecho acima. hoje, ao entrar no whats, havia a seguinte mensagem para mim: «ah, fala sério que tu ainda acredita em desobediência civil e revolução...»

uma fábula de natal

por fausto wolff
a minha mais bela noite de natal aconteceu numa (sei do cacófato) manhã. eu não era a criança que recebia os presentes, mas sim o papai noel que os dava. não aconteceu no brasil, mas em copenhague e nevava, como nos filmes de natal que os americanos mandavam para nós em programas duplos dominicais e que nós crianças pobres assistíamos, não acreditando que pudesse existir um país onde todos eram tão bons e se amavam tanto. antes, porém, de lhes contar minha performance como papai noel, devo lhes contar minha performance como vinícius de moraes.

tudo começou alguns anos atrás, vários graus abaixo de zero, fora e dentro do copo. uma dessas noites em que a angústia encontra-se com a solidão numa esquina do inconsciente, quando sentimos os nossos demônios dançando dentro de nós, informando-nos da nossa fragilidade e ignorância. numa dessas noites em que os pais de família apressam-se em ir para casa e ao pé da lareira tomarem chocolate quente e contarem histórias de hans christian andersen para os filhos. em se tratando de um país estranho, então, a solidão aumenta consideravelmente e a angústia parece esmagar a psique como quem aperta uma borboleta na mão fechada. a solução, principalmente para quem não é uma pessoa séria e respeitável como é o meu caso, é unir-se com outros sócios do mesmo sindicato e ir armar uma zoeira até que, como diz drummond, venha a manhã trazer leite, jornal e calma.

entrei numa boatezinha de badstuestraede, se não me engano, e lá estavam outras moças e rapazes que se divertiam em torno de um piano, abraçando-se, beijando-se e tentando tirar sambas de tom e vinícius do teclado que negava-se a cooperar com dedos tão inábeis. uma jovem morena de pele muito branca chegou a cantar «felicidade» num portunhol de indisfarçável origem escandinava. terminei meu quinto uísque e dirigi-me com o sexto na mão até onde estava o grupo e mandei ver, falando em inglês para ninguém em particular:

– vocês não sabem o quanto eu estou emocionado. não sabia que gostavam tanto das minhas músicas por aqui, meu nome é vinícius de moraes.

vocês bem podem imaginar o que aconteceu: abrações, beijos, pedidos de canções, etc. auxiliado pelo pianista cantei «felicidade», «minha namorada», «eu não existo sem você», «chega de saudade», e todas as que eu sabia de cor e as que eu improvisava, pois afinal, no grupo ninguém sabia português e obviamente ninguém vira o bom vinícius nem mesmo por fotografia. a boate não estava cheia, de modo que nos adonamos do lugar mas no melhor da festa entrou um rapaz com aquele jeito de ser brasileiro no exterior que já entrou para o folclore da crônica nacional. ouvi quando o maître lhe disse que vinícius estava cantando e antes que ele pudesse responder eu já estava lhe dando um grande abraço, talvez até mesmo um pouco apertado demais, enquanto lhe sussurrava ao ouvido:

– vê se não estraga a minha festa, meu chapinha. olhe quantas moças bonitas ao redor do piano. se você souber tocar eu posso até lhe apresentar como o tom jobim. quando ele se desprendeu do abraço, disse aos berros para quem quisesse ouvir em forte sotaque nordestino: «vinícius de moraes seu cabra da peste, que bom te ver por aqui.»

tratava-se de um jovem cearense que estudava algo que não me lembro mais em malmo, na suécia e viera passar o natal com os pais da noiva que era dinamarquesa. mas não topou ser tom jobim, pois sua noiva iria encontrá-lo mais tarde no night-club, o que efetivamente se deu, quando o cearense, peito inflamado de orgulho, apresentou o grande poeta e compositor vinícius de moraes à sua bem amada.

quando o ex-futuro tom jobim retirou-se com a sua namorada já eram quatro da matina e eu estava traduzindo para o inglês para a pálida jovem de cabelos pretos que me olhava como se eu fosse um deus um dos meus poemas:

«...but inside the frame of a bed no other woman has been so beautiful...» («...mas dentro da estrutura de uma cama, nenhuma outra mulher foi tão bela...»)

era a época em que as comunidades estavam em moda na escandinávia e moças e rapazes moravam juntos em grandes e velhas casas que chamavam de colectivs e dividiam as despesas. lá fui eu para a colectiv e «no quiero dicir por hombre las cosas que yo y la morena hicimos pues que la luz del intendimiento me hace ser muy comedido».

por volta das 11 horas da manhã do dia seguinte encontrei quatro moças e cinco rapazes tomando café na grande mesa da sala, todos vestidos de papais noéis com longas barbas e bigodes brancos. um deles, entregando-me uma roupa de papai noel, disse-me:

– vinícius, veste isto aí que vamos a uma festa de caridade.

e lá fomos nós vestidos de papais noéis dentro da bela e fria manhã de 24 de dezembro pelas ruas de copenhague. repentinamente, vi-me dentro de uma grande magazin, uma espécie de «sears» ou «mesbla» local que se não me engano chamava-se «magazin du nord» ou «illum». a loja com departamentos em vários andares estava apinhada de gente. a um certo momento, a morena, que chamaremos de karen, ao meu lado, apanhou um brinquedo e deu para um menino:

– tome, isto é para você. presente de papai noel.

os demais papais noéis faziam a mesma coisa. apanhavam o que lhes caísse nas mãos e entregavam ao público que – acreditem – aceitava tudo com muita satisfação, pois que de natal se tratava. apesar dos protestos dos funcionários, centenas de pessoas foram presenteadas antes que a polícia chegasse. nós papais noéis, protegidos pelo público, fugimos nas mais diversas direções. havia tantos papais noéis pela rua principal que era impossível distinguir os legítimos, ou seja nós, dos falsos, ou seja, os que anunciavam produtos comerciais. ao longe vi um papai noel que gritava para mim:

– good-bye, vinícius, see you around! (– adeus, vinícius, até mais!)

entrei no toillete de um botequim e tirei a roupa do bom velhinho e saí com a minha que mantive por baixo, sentindo-me um misto de papai noel, super-homem e dom quixote. não mais solitário, não mais angustiado. o milagre de natal que eu tanto esperava desde o meu tempo de menino pobre acontecera.

se a história que contei é verdade ou não, é um problema que deixo com os leitores. a verdade que eu gostaria que, realmente, acontecesse neste natal de 1978 é a seguinte: gostaria que todos os leitores quando reunidos com suas famílias para festejar o aniversário de jesus cristo, tivessem um pensamento para com todos os presos políticos e mesmo os não políticos, os pobres ladrões de galinha, vítimas de um sistema penitenciário cruel e desumano, para que eles saibam que estamos com eles. e um pensamento especial para uma menina chamada flávia shilling, uma brasileirinha que há seis anos padece nos cárceres uruguaios. quem sabe, assim, conseguiremos anular as palavras de são tomás de aquino: «os olhos foram feitos mais para chorar do que para ver, pois cegos choram e não vêem.» nós que vemos, não sejamos cegos neste natal.
dezembro/1978

«vou tratar [os 60 anos do golpe de 1964] da forma mais tranquila possível. estou mais preocupado com o golpe de janeiro de 2023 do que com o de 64. isso já fez parte da história, já causou sofrimento, o povo já reconquistou o direito democrático. os militares, hoje no poder, eram crianças naquele tempo. alguns nem eram nascidos»
luiz inácio lula da silva

«o que eu não posso é não saber tocar a história para frente, ficar remoendo sempre, remoendo sempre, ou seja, é uma parte da história do brasil que a gente ainda não tem todas as informações, porque tem gente desaparecida ainda»
(idem)

todo poeta é um profeta
1980. vinicius já quase não saía. só recebia os amigos mais íntimos. havia, na época, uma jornalista que insistia com uma entrevista. vinicius resistia até que um dia cedeu.
a primeira pergunta foi fulminante: - poeta, o senhor tem medo da morte? vinicius olhou nos olhos da moça e respondeu: - não. eu não tenho medo da morte, o que eu tenho é saudade da vida.
começava a década de 1980 --- mais conhecida como a década perdida --- e essa foi a última entrevista que vinicius concedeu.
tom Jobim recebeu a notícia em casa e, literalmente, caiu da cama.
chico buarque ouviu a notícia, acidentalmente, no rádio do automóvel, mudou o trajeto e foi direto para o cemitério.
toquinho, de volta do cemitério, roda a maçaneta da porta de entrada da casa do poeta e é tomado pela imagem de vinicius esticado no sofá da sala. mas o sofá está vazio. não há mais o que fazer. toquinho chora sozinho:
«meu deus, vinicius morreu».

ao vento

ontem
pelas cinco da tarde
o céu ficou encarnado

não era vermelho de derrotado
era vermelho de envergonhado,
como se o dia tivesse medo
e não quisesse dizer de quê

ninguém falou nada
a cidade se fez de sonsa
e ficou calada 

no banheiro,
a toalha torcida dentro do balde 

o homem olhando aquilo
examinando o mapa
de um país derrotado

lá fora,
o sinal fechou

olá, como vai?
eu vou indo, e você, tudo bem?
tudo bem, eu vou indo correndo
pegar meu lugar no futuro, e você?

um rapaz enxugou a testa
uma velha segurou três sacolas
com o cuidado de quem carrega
três filhos no colo

um cachorro mijou no poste,
solene,
resolvendo um problema sério
igual presidente

o céu continuava vermelho

vermelho como a raiva
que a gente guarda
e finge que esqueceu

no fundo da gaveta,
no avesso do bolso,
na dobra da língua.

agora falando sério

hoje
segundo a previsão
começa a clarear cerca de 30 minutos antes
por volta das 6 horas 
já o pôr-do-sol ocorre às 18:18
se precisar da previsão do tempo completa é só falar!


de volta ao começo

minhas análises políticas não contribuem em absolutamente nada na luta contra jair bolsonaro e o nazifascismo. contribuiriam se eu fosse uma grande liderança e ou uma pessoa influente dentro da esquerda. o que nunca fui, nem nunca quis ser.
nem poeta eu sou
mesmo que fosse
de nada adiantaria
lembremos o que
a revolução russa
fez com maiakovski
maiakovski morreu
de incompreensão
o poeta tentou se enquadrar, fez poemas engajados-proletários, produziu cartazes revolucionários, mas sua criatividade, tida como excessiva e contagiante, chocava os comunistas retrógrados e, segundo dizem, não era entendida pelas massas.

esse é o ponto: o texto poético exige do leitor conexão.
assim sendo
às vezes eu me pergunto
qual a validade de fazer o que faço
aqui nesse espaço?
a resposta
meu amigo
está soprando
nos textos que faço
e que vou seguir fazendo
vai vendo

grill


se me levanto cedo,
limpo e curado, lúcido e feliz,
e te digo: «vou para a mata
pra me aliviar de ti»,
sabe que trago dentro um tesouro
que me chega até a raiz.

clique no título para ver e ouvir

(silvio rodríguez, 1974)


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