quinta-feira, 13 de agosto de 2026

 

ato de fé — cuba agoniza mas não morre

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«condene-me, não importa, a história me absolverá.»

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«uma revolução não é um leito de rosas. uma revolução é uma luta até a morte entre o futuro e o passado.»

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«se queremos falar como queremos que sejam nossos combatentes revolucionários, nossos militantes, nossos homens, devemos dizer sem hesitação de nenhuma espécie: que sejam como o che!»

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«o que não nos perdoam os imperialistas é que tenhamos feito uma revolução socialista nas próprias barbas dos estados unidos.»

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«minha barba significa muitas coisas para o meu país. quando tivermos cumprido nossa promessa de um bom governo, farei a barba»

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«comecei a revolução com 82 homens. se tivesse que fazê-lo de novo, faria com 10 ou 15 e fé absoluta. não importa quão pequeno seja, se tiver fé e plano de ação.»

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todas as frases são de fidel

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creio em ti,
como creio quando cresce
quanto se sente e se sofre
ao olhar ao redor.

creio em ti ,
e fico feliz que o amanhã,
visto pela minha janela,
nunca seja igual a hoje.

creio em ti,
porque mesmo dando-me desgostos
o queriéndome mucho,
siempre vuelvo a ti.

creio em ti,
cheio de contradições,
pronto para soluções,
sempre creio em ti.

creio em ti,
porque nada é mais humano
do que prenderse de tu mano
e caminhar acreditando em ti.

creio em ti,
assim como creio em deus,
que és tu, que sou eu,
em ti, revolução.

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pablo milanés ao vivo no brasil
[com chico buarque de havana]
canecão rio de janeiro
novembro de 1983

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repecho, dezembro de 2016

havia pouco que eu tinha entrado no facebook quando meu camarada, eduardo menezes, me mandou uma mensagem. perguntou se eu podia escrever um artigo para o jornal o troco, do sindicato dos bancários, sobre os 90 anos de fidel. não precisei nem pensar. agradeci a lembrança e escrevi o texto de uma só vez.

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fidel não é deus
[deus não existe]

por enilton grill
jornal o troco
dezembro de 2016

há quem diga que, para nós da esquerda, fidel é deus.
há quem diga que, para nós da esquerda, cuba é um paraíso.
nós dizemos que nada disso é verdade.
fidel não é deus porque deus não existe;
e cuba não é um paraíso porque no paraíso não há guerra.

fidel não é deus, mas sobreviveu a 637 atentados; cuba não é um paraíso, mas tem o melhor sistema de educação e de saúde pública da américa latina e do caribe, e um dos melhores do mundo.

tudo isso, no entanto, não foi de graça: «não precisamos que o império nos dê nenhum presente», disse fidel após a visita de obama a cuba.

de 1959 até hoje, foram mais de 50 anos de bloqueio e de guerra — de guerra contra um império. durante esses anos todos, cuba sobreviveu a dez presidentes dos estados unidos. e isso não foi obra de deus. fidel não é deus. deus não existe.

poderia passar o resto dos meus anos escrevendo sobre os ataques dos estados unidos a cuba e de como fidel e os cubanos os enfrentaram e os derrotaram. mas não é o caso. não é hora e não há espaço.

não posso deixar de dizer, porém, que em cuba os ianques não só organizaram bandos mercenários, como também introduziram armas e explosivos, treinaram homens, fizeram sabotagens, impulsionaram a contrarrevolução por todos os meios, realizaram ataques piratas contra os portos e contra os barcos; durante anos, organizaram expedições mercenárias e levaram a cabo invasões e bombardeios.

mas fidel resistiu; e, em meio ao fogo cruzado, ainda encontrou tempo para mostrar ao mundo talvez sua faceta mais bonita: a solidariedade.

o que teria sido de angola sem os 50 mil cubanos que a defenderam contra os racistas da áfrica do sul a troco de nada? o que teria sido da nicarágua sem os médicos, os professores e os técnicos que, a troco de nada, foram de cuba para lá? «em quantos países os cubanos foram os primeiros a chegar, a troco de nada, na hora de enfrentar uma peste, um furacão ou um terremoto?», pergunta galeano.

e o que seria do mais médicos, aqui no brasil, não fosse o apoio dos médicos cubanos?, pergunto eu.

a verdade é que todos nós devemos muito do que somos a fidel.

fidel foi aquele que apontou o caminho e mostrou como se faz para chegar. e isto não é pouco; pelo contrário, é muito.

é muito, mas não é tudo.

a revolução de fidel não foi a revolução das liberdades. quem sabe um dia façamos nós aquilo que fidel não fez. quem se habilita?

no entanto, é bom lembrar: com um gigante a acossá-lo, fidel fez o que podia fazer. e tem mais: se não fizesse como fez, não faria tudo o que fez.

em cuba não existe nenhum descalço, nenhum analfabeto, nenhum faminto. cuba é hoje o que é: uma nação solidária, com o melhor sistema de saúde pública, com a melhor educação do continente, sem uma criança sequer dormindo na rua porque fidel foi o que foi, e fidel foi o que tinha de ser. «o homem é o homem e sua circunstância», diria ortega y gasset.

fidel não é deus, deus não existe. fidel é fidel:
para os cubanos, mel; para os ianques, fel.

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falando em deus
lembrei do deus de espinosa

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einstein, quando perguntado se acreditava em deus, respondeu:
— acredito no deus de spinoza que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no deus que se interessa em premiar ou castigar os homens.

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pra não dizer que não falei de flores

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tudo que aqui ele deixou
não passou e vai sempre existir
flores nos lugares que pisou
e o caminho certo pra seguir

(teria sido psicografada por chico xavier)
com letra e imagens

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pergunta que não quer calar:
e se cristo voltasse?

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«se cristo voltasse, nós o crucificaríamos novamente. mas desta vez, na televisão. por uma temporada, nós o transformaríamos em um astro, o maior fenômeno de massa já visto, e então o jogaríamos fora como um lenço de papel usado.»

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«se cristo voltasse, apareceria um judas que o trairia, um pedro que o negaria três vezes, um tomé que colocaria os dedos em sua ferida após sua morte, um pilatos que lavaria as mãos e um barrabás que, sem nenhum mérito, seria preferido a ele pela chusma (1) que todos nós somos. uma chusma veleta (2), que mais uma vez gritaria para que ele fosse crucificado.»

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JESÚS QUINTERO: SE CRISTO VOLTASSE
(legendado en español)
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1. conjunto o multitud de gente grosera o vulgar. la chusma.
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2. peça de metal, geralmente em forma de seta, que é colocada no topo de um edifício, de modo que possa girar em torno de um eixo vertical impulsionada pelo vento, e que serve para indicar a direção do mesmo.

© real academia española, 2024.

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canção de mim mesmo

o passado e o presente definham .... já os enchi e esvaziei,
passo a encher minha própria dobra do futuro.

vocês que me escutam aí em cima! você aí ....
algum segredo para me contar?
me encare enquanto assopro o discreto poente,
seja sincero, ninguém está te ouvindo,
só vou ficar mais um minuto.

eu me contradigo?
tudo bem, então .... me contradigo;
sou vasto .... contenho multidões.

me concentro nos que estão perto .... espero na porta.

quem terminou o batente e vai jantar mais cedo?
quem quer passear comigo?

você vai falar antes que eu vá embora?
ou virá quando já for tarde demais?

o falcão pintado dá uma rasante sobre mim e me acusa ....
reclama de minha conversa fiada, minha preguiça.

também não sou facilmente amestrado ....
também não sou facilmente traduzível,
solto meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo.

a última nuvem do dia se demora por mim.

lança minha semelhança após o resto,
fiel como todas nos ermos sombrios,
me incita para o vapor e para o crepúsculo.

vou-me feito vento .... agito meus cabelos brancos
contra o sol fugitivo,
esparramo minha carne em redemoinhos
e a deixo flutuar em retalhos rendados.

me entrego à terra pra crescer da relva que amo,
se me quiser de novo me procure sob a sola de suas botas.

vai ser difícil você saber quem sou
ou o que estou querendo dizer,
mas mesmo assim vou dar saúde,
vou filtrar e dar fibra a seu sangue.

se não me encontrarem logo, paciência,
se eu não estiver num lugar, procurem-me outro,
em algum lugar, estarei à espera.

walt whitman

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señor, señor, vamos desconectar estes cabos,
derrubar estas mesas.
este lugar já não tem nenhum sentido pra mim.
pode me dizer o que estamos esperando, señor?

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SEÑOR | BOB DYLAN | 1978
(letra ing / esp)

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não ao bloqueio
viva cuba
viva o povo cubano
viva fidel
viva a revolução

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#américas

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 

casa de poeta não tem porta 

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«deem-me um poema! um só!
e eu já moverei o mundo!»

martim césar

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o contador de histórias

a história que comecei a contar outro dia e não terminei, tem a ver com a história que conto hoje aqui. 

senão vejamos: o que espinosa e os hippies tinham em comum? ambos sabiam — cada um a seu modo e no seu tempo — que a vida acontece na mesma substância: a natureza, o afeto, a alegria de estar junto. ambos recusaram o dogma para abraçar o livre existir.

foi esse mesmo espírito que levou bob dylan, em 1975, a passar uma temporada na frança, encontrar um festival itinerante que cruzava por les saintes-maries-de-la-mer e comemorar seu aniversário de 34 anos em uma tenda cigana. hoje não sei por onde ele anda, tanto pode estar numa choupana quanto numa mesquita muçulmana, em meio a uma caravana ou participando de uma cerimônia palaciana. o lugar não importa. casa de poeta não tem porta. é isso que uma tarde com amigos oferta — para homens com estrela a porta está sempre aberta.

grill

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«lendo os textos extremamente poéticos do amigo grill, profundos, provocadores, sensíveis, sem represas, sem amarras, vi a frase que inspirou este poema (habitantes de passárgada). não consegui me libertar dela, creio que ela não quis que eu me libertasse até que se fizesse poesia... é como se a casa se materializasse só pelo tempo necessário para engendrar o poema. gracias, hermano»

martim césar

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habitantes de passárgada

casa de poeta não tem portas
pois palavras não são paredes!...
são rios que sempre têm sede
e extravasam as comportas

não detêm sua correnteza
nem as muralhas mais fortes
nem mesmo quando as represas
dividem a vida e a morte

casa de poeta não tem portas
senão para que serviria?
só para abrigar em linhas tortas
a passagem reta dos dias?

nessa construção sem janelas
sem trancas, sem fechaduras
mora o sol das noites belas
o luar das noites escuras

mas só o amor cruza os limites
dessas estranhas moradas
sem licença e sem convite
sem deixar hora marcada

e não importa qual amor
se a um alguém ou à natureza
se é de esperança ou de dor
se é de alegria ou tristeza

então as frases certeiras
com asas de sentimento
bordam o colar das estrelas
colhem a rosa dos ventos
é quando o coração verte vinho
preso de uma estranha magia...
e as palavras encontram seu ninho
para transformar-se em poesia...

martim césar

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«minha vida é uma vida feita de todas as vidas: as vidas do poeta.»

pablo neruda

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minha vida, minha vida, o mundo e a cor.
minha vida, minha vida, silêncios e canção.

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o rei chorou

um rei — disfarçado, é claro — costumava dar uma volta em sua cidade todas as noites. ele estava muito intrigado com um homem, com aparência de mendigo, que estava sempre sentado, todas as noites, sob uma mesma árvore à margem de uma rua. finalmente, a curiosidade venceu, e o rei parou seu cavalo diante do homem:
— por que você não vai dormir?
— as pessoas vão dormir porque não têm nada para guardar, e eu tenho tantos tesouros que não posso dormir. tenho de guardá-los.
— estranho, não vejo nenhum tesouro aqui.
— os tesouros estão dentro de mim. o senhor não pode vê-los.
o rei partiu, mas voltava todas as noites, porque o homem o intrigava e aquilo que havia dito fizera o rei pensar durante horas. o rei tornou-se tão ligado e interessado no homem que começou a achar que ele era realmente um santo, porque a consciência, o amor, a paz, o silêncio e a iluminação eram os tesouros que ele estava guardando. ele não conseguia dormir, não podia se dar esse luxo. apenas os mendigos podem.
pouco a pouco, o rei começou a respeitar e honrar o homem quase como um guia espiritual. um dia, disse-lhe:
— sei que você não irá comigo ao palácio, mas penso em você todos os dias. você me vem à mente muitas vezes. gostaria que pudesse ir ao meu palácio.
o rei achava que o homem não iria concordar, conforme a velha ideia de que os santos renunciam ao mundo, mas o homem disse:
— se o senhor sente tanto a minha falta, por que não me chamou antes? traga outro cavalo e eu irei com o senhor.
o rei ficou desconfiado: «que tipo de santo é esse, que se mostraria tão acessível?». mas agora era tarde demais, ele já tinha convidado. deu-lhe seu melhor quarto no palácio, reservado apenas para convidados especiais e outros reis, pensando que o homem iria recusar, dizendo: «sou um santo e não posso viver nesse luxo». mas o homem não disse nada desse tipo. ele disse: «muito bom.»
o rei não conseguiu dormir, achando que fora enganado e que o homem não era um santo. duas ou três vezes, ele foi olhá-lo pela janela, e o santo estava dormindo. mas, antes, ele nunca dormia! ficava sempre sentado debaixo da árvore guardando seu tesouro. o rei pensou: «fui enganado. este homem é um charlatão.»
no segundo dia, comeu com o rei todos os alimentos deliciosos, sem comedimento, e adorou a comida. o rei ofereceu-lhe novas roupas, dignas de um imperador, e ele amou as roupas. o rei já pensava em como se livrar do charlatão que o enganara. no sétimo dia, o rei disse àquele estranho homem:
— quero lhe fazer uma pergunta.
— sei qual será a sua pergunta. o senhor quis formulá-la há sete dias, mas, por cortesia e boas maneiras, manteve-a reprimida. eu o estava observando. mas não vou respondê-la aqui. o senhor pode me fazer a pergunta e então sairemos para uma longa caminhada. escolherei o lugar certo para respondê-la.
— muito bem. minha pergunta é: qual é a diferença entre você e eu? você está vivendo como um rei, mas costumava ser um santo. agora não é mais um santo.
— mande preparar os cavalos!
eles saíram. e o rei lembrou-o muitas vezes da pergunta que fizera. finalmente, chegaram ao rio que marcava o limite do seu reino.
— chegamos ao fim dos meus domínios. o outro lado do rio pertence a outro reino. este é um bom lugar para me responder.
— sim, eu já vou embora. o senhor pode levar os dois cavalos de volta ou, se quiser, pode vir comigo.
— aonde você vai?
— meu tesouro está comigo. aonde eu for, meu tesouro ainda estará comigo. o senhor virá comigo ou não?
— como posso ir com você? meu reino, meu palácio, o trabalho da minha vida toda estão atrás de mim.
o estranho riu e disse:
— agora o senhor vê a diferença? eu posso ficar nu debaixo de uma árvore ou posso viver em um palácio como um rei porque meu tesouro está dentro de mim. se estou sob uma árvore ou no interior de um palácio não faz diferença. então, o senhor pode voltar, mas eu vou para o outro reino. não vale mais a pena permanecer em seu reino.
o rei se sentiu arrependido.
— perdoe-me. pensei coisas erradas sobre você. você é realmente um grande santo. não vá, não me deixe assim; do contrário, esta ferida vai doer durante toda a vida.
— isso não é difícil para mim. posso voltar com o senhor. mas no momento em que chegarmos ao palácio essa pergunta vai surgir de novo em sua mente. então é melhor me deixar ir. eu posso lhe dar um tempo para pensar. eu posso voltar. para mim, isso não faz diferença. mas para o senhor é melhor que eu saia do reino. pelo menos o senhor vai pensar em mim como um santo. se eu voltar ao palácio, o senhor vai voltar a suspeitar que sou um charlatão. mas, se insiste, estou pronto. posso partir daqui a sete dias, quando a pergunta novamente se tornar pesada demais para o senhor.

osho (bhagwan shree rajneesh)

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lembro-me de uma vez,
em um país antigo,
um rei falou com um camponês.
ele disse: «ofereço-te luxos e prazeres
se você me ensinar a viver feliz».
o humilde homem
respondeu: «não posso,
não posso te ensinar a viver feliz.
você, com seu dinheiro, luxos e prazeres,
jamais poderá viver feliz».
o rei chorou
e contou-lhe sua dor.

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canta: león gieco

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falando em dor
lembrei de frida

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«pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade.»

«agora, vivo num planeta dolorido, transparente como o gelo. é como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.»

«no fim das contas, podemos aguentar muito mais do que imaginamos.»

frida kahlo

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balada de abraçar

abraço você, meu irmão
meu irmão de vida
meu irmão de frida

grill

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falando em frida
lembrei de quixote

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«nisto, descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento e disse dom quixote: — não vês ali, amigo sancho, desaforados gigantes? — não são gigantes, mas moinhos de vento — respondeu sancho. — são gigantes, e se tens medo fica de lado — disse quixote, que investiu contra o primeiro, partiu a lança e foi rolando pelo chão. — não lhe disse eu que eram moinhos? — disse sancho. — cala-te, que as coisas da guerra mudam, e o mágico tornou os gigantes em moinhos, para me roubar a glória de vencê-los — respondeu quixote.»

cervantes

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balada de abraçar

abraço você, meu irmão
meu irmão de morte
meu irmão quixote

grill

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enfim, termina o sonho, voltaste a ser quijano
e a morte que te ronda é a de todo ser humano
e a sorte que te espera é a de todos os mortais

enfim, tudo se acaba e assim também a aventura
daquele heroico cavaleiro nem recordas a figura
aqueles dias memoráveis não regressarão jamais

e, no entanto, o que importa tua tardia lucidez
se o mundo sempre vai lembrar a altiva insensatez
de um louco que sonhou ser um sonho a realidade

teu nome dom alonso será apagado pelo vento
mas dom quixote viverá muito além do esquecimento
além de ti, além de mim, enquanto houver humanidade

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DON QUIJOTE DE LA MANCHA | CAMINHOS DE SI
jaguarão, 27 de maio de 2011
adaptação da obra de cervantes para o teatro feita por jorge passos e martim césar com a montagem do grupo alas de cervantes em 2001.

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e assim andamos...

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gente de minha rua
como eu andei distante
quando eu desapareci
ela arranjou um amante
minha normalista linda
ainda sou estudante
da vida que eu quero dar


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se podes olhar, vê; se podes ver, repara:
«ela», [a utopia]

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«o verbo dar é o melhor verbo do mundo.»

atahualpa yupanqui

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em cali, colômbia (1964) um jornalista finaliza a entrevista com esta pergunta: - se estivesse ameaçado por um ataque de amnésia, afonia e paralisia; e além do mais um incêndio ameaçasse destruir toda sua obra escrita e gravada e só lhe fosse concedido salvar uma canção para a posteridade, qual de suas obras salvaria? responde atahualpa:
nesse terrível caso não salvaria nada meu. só um verso que sendo de todos, é meu também:

moeda que está na mão,
quiçá se deva guardar.
moeda que está na alma,
se perde se não se dá.


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e pelo(s)
e para o(s)
habitantes de passárgadas

uma só palavra gasta,
porém reluzente como uma velha moeda:
obrigado!

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#casadosaedos
#américas

terça-feira, 11 de agosto de 2026


traumas

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janela da alma

janela da alma é um documentário dos diretores brasileiros joão jardim e walter carvalho. a ideia surgiu da vivência do diretor joão jardim, que achava que o fato ter uma miopia muito grande teria influenciado em sua personalidade e até mesmo em sua vida.

entre os entrevistados estão josé saramago, manoel de barros, eugene bavcar, agnès varda e wim wenders (dentre tantos outros).

curioso observar aqui que a «cegueira» vai para muito além da oftalmológica.

e eis que os mitos milenares (alegoria da caverna - a república - platão) deixam de ser mitos, para tornarem-se realidade, ainda que em um mundo de ilusões.

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josé saramago e wim wenders - caverna de platão e as ilusões
[«janela da alma» (doc 2001) - fragmento (5:50)]

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traumas

traumas, de roberto carlos, é uma canção profundamente autobiográfica e dolorosa, lançada no icônico álbum de 1971. na obra, o compositor quebra o silêncio e usa a arte como desabafo para enfrentar o maior tabu de sua vida: o gravíssimo acidente de trem sofrido na infância, aos seis anos de idade, que resultou na amputação de parte de sua perna direita.

através de versos melancólicos, a letra descreve «anjos que eu conheci no delírio da febre que ardia», uma referência sutil às memórias de hospital, ao sofrimento físico e à perda precoce da inocência. a composição também expõe o contraste sensível entre a tentativa dos pais de «enfeitar" a realidade com fantasias e o peso real dos calos que a vida adulta impõe».

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meu pai um dia me falou
pra que eu nunca mentisse
mas ele também se esqueceu
de me dizer a verdade


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a verdade dividida

a porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
e sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
e os meios perfis não coincidiam.

arrebentaram a porta. derrubaram a porta.
chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
nenhuma das duas era perfeitamente bela.
era preciso optar. cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

carlos drummond de andrade

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ilusão
ilusão
veja as coisas como elas são
a fortuna
a roda
o raio
a imensidão

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as cartas | chico buarque (1984)

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além do horizonte

por oliver harden

«há algo de profundamente enigmático na união silenciosa entre o mar e o crepúsculo, como se duas entidades cósmicas, há milênios separadas, reencontrassem-se a cada fim de dia para renovar um pacto secreto. o mar, com sua respiração líquida e seu murmúrio ancestral, guarda em si a memória dos abismos e dos nascimentos, o rumor das marés que conheceram o surgimento da vida e a dissolução de impérios. o crepúsculo, por sua vez, é o instante em que o tempo se inclina, como um ponteiro fatigado, e os contornos do mundo se desfazem em tonalidades que nenhum pincel ousaria inventar.

quando ambos se encontram, dá-se um rito que não pertence nem à terra nem ao céu, mas a uma zona liminar onde a luz se curva diante da água e a água se entrega ao abraço da luz. é nesse instante que o horizonte deixa de ser mera linha e torna-se uma ferida aberta entre dois infinitos, por onde o olhar se perde e o espírito se dilata.»

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além do horizonte deve ter
algum lugar bonito pra viver em paz
onde eu possa encontrar a natureza
alegria e felicidade com certeza

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por jota quest
(vídeo oficial)

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de uns tempos para cá, dei para escancarar algo que a vida inteira procurei esconder e disfarçar. refiro-me ao meu estrabismo. na infância até que não. na infância o problema eram os óculos, ou melhor, o bullying que eu sofria por causa deles. na adolescência é que tudo mudou. não queria usar óculos e não queria parecer estrábico. impossível. ou uma coisa ou outra. ou eu usava óculos e não parecia estrábico ou eu (a)parecia estrábico e não usava óculos. quando completei 18 anos, busquei resolver o dilema fazendo cirurgia. foi esforço em vão. passados alguns dias do procedimento, o olho direito voltou a desviar. meu caso, porém, parece não ser algo que preocupe os médicos. conhecida como o tipo de estrabismo divergente, a exotropia intermitente é um desvio ocular que não se manifesta a todo instante. com o passar dos anos, entretanto, esse estrabismo pode descompensar e o paciente manter os olhos desviados a todo momento --- o que, cá entre nós, se eu ainda sei me olhar, é o que eu acho que está acontecendo comigo. «nada demais», dirá você que me lê. sim, eu sei, o dilema é meu (meu comigo mesmo). mas não é porque o fardo é só meu que ele deixa de existir. o poeta que o diga:

«a nós nos bastem nossos próprios ais,
que a ninguém sua cruz é pequenina.
por pior que seja a situação da china,
os nossos calos doem muito mais...».

doem mesmo. lembro de um colega do cfc que adorava contar a história de quando fazíamos o trajeto de rio grande para pelotas. para fazer o curso de instrutor no senac, eu ia de ônibus, mas costumava voltar de carona com ele. numa dessas voltas, o para-brisa do fusca estourou na estrada e, quando chegamos, eu estava com os cabelos em pé e os olhos arregalados. ao falar dos meus olhos, ele dava um sorriso irônico. ninguém dizia uma palavra. nem precisava.

doía?
doía.
e tu fazia o quê?
eu levantava e continuava... vou fazer o quê?

na sequência, como instrutor de trânsito, uma das provações mais difíceis que vivi foi encarar os alunos em sala de aula. foram dez anos seguidos, nos três turnos – manhã, tarde e noite –, enfrentando a média de 20 a 30 alunos por turma, todos com os olhares voltados para mim --- para mim e para o meu estrabismo.

lembro-me de uma vez em que respondi a uma pergunta de um aluno olhando para outro. o aluno, para quem eu olhava, esperou eu terminar de responder e falou:

— professor, eu não perguntei nada.

entre piadas, sorrisos constrangidos e sonoras gargalhadas, engoli em seco e segui dando minha aula... fazer o quê?

no final daquele curso, foi a primeira vez que fui aplaudido de pé. desde então, reforcei a convicção de que a adversidade me é positiva. isto é, que navego melhor contra a maré.

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dito isto
vamos ao que importa
minha terapia é escrever
não em linha reta
mas com a corda esticada
que é por onde ando
rumo à casa do poeta
que é sem porta
se ainda posso ver
está escrito em minhas mãos
se ainda sei ler
as linhas são infinitas e tortas

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«queria falar-te de tudo
contudo,
tudo o que posso falar-te
não é tudo...
é apenas uma parte»

martim césar

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«o óbvio não guarda segredos. o texto tá atrás do texto»

marcos magah

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«claras palavras não cabem às claras.»

nelson coelho de castro

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– e agora, o que faremos?
– poesia, esses canalhas não suportam poesia.

rafael corrêa

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«o silêncio é tudo
o resto é uma parte»

autor desconhecido

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repecho, 2019
[escrito no face]

domingo, oito da manhã, fui à venda aqui perto buscar café. quando cheguei, vi duas carroças e três bicicletas estacionadas. de fora dava para ouvir o alarido; a conversa estava animada. de repente, do nada, fez-se silêncio. olhei para o balcão, o bar lotado, e pensei: com um frio desses tem que ter coragem... procurei ver se tinha algum conhecido, mas, pelo contrário, todos os que estavam ali exibiam cara de poucos amigos, a popular «cara de bunda». no pasa nada. dei bom dia a todos e fui pegar o café.

antes de ir embora, porém, um dos caras que estava no balcão se aproximou de mim e, com cara de quem sabe tudo, me deu uma intimada:

— e aí, tu que é um cara estudado, que entende de tudo, quero ver tu explicar o aquecimento global hoje...

lembrei do campo branco coberto de geada, olhei para ele, pensei em dizer alguma coisa, mas achei melhor não dizer nada. qualquer explicação que eu desse, naquele momento, não ia adiantar nada.

ademais, ia reforçar a ideia dele de que eu sou um cara estudado e que entendo de tudo — o que absolutamente não é verdade.

portanto, fiz silêncio. achei que era o melhor que eu tinha a fazer.

já os que estão me lendo agora, neste exato instante (não digo todos, mas alguns), ou muito estou enganado, ou estão pensando que isso tudo é invenção minha, e que eu fechei a boca pois fiquei com medo do cara e não sabia o que responder.

fazer o quê? assim caminha a humanidade... todo mundo pensa que sabe tudo e ninguém sabe nada.

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há quem diga que eu dormi de touca
que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
que eu caí do galho e que não vi saída
que eu morri de medo quando o pau quebrou

há quem diga que eu não sei de nada
que eu não sou de nada e não peço desculpas
que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
e que durango kid quase me pegou

eu quero é botar meu bloco na rua
brincar, botar pra gemer
eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender

eu, por mim, queria isso e aquilo
um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
é disso que eu preciso ou não é nada disso
eu quero é todo mundo nesse carnaval


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trocando em miúdos

não roubamos dinheiro, dinheiro não vale nada,
roubamos sonhos, sonho é tudo.

quantos talentos a humanidade já perdeu?

quantos outros «eniltons grills» pelo mundo,
com mais potencial e qualidades do que nós,
mas sem essa perseverança cega,
por falta de apoio e por desmerecimento alheio,
acabaram ficando pelo meio do caminho?

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e a canção do silêncio?

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o silêncio não é uma palavra
escrita sobre uma parede
é uma canção solitária pelo vento
que não se detém no meio de um inferno
é uma canção solitária pelo vento
que não se detém no meio de um inferno


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foto: león gieco e eu
autor: antonio soler
cantamérica
porto alegre
1996

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#américas

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

 


mais uma pra estrada

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«ele não tem onde pôr a cabeça, mas consegue se sentir em casa em qualquer lugar.»

bob dylan

.

«nada é mais útil ao homem do que o próprio homem; os homens não podem desejar nada de melhor, para conservar o seu ser, do que concordarem todos em tudo, de modo que as mentes e os corpos de todos formem como que uma só mente e um só corpo.»

baruch espinosa

.

«se essa seca durar mais um mês
vou-me embora para o paraguai
vou de muda para o maranhão»

nei lisboa

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no início dos anos 80, quando meu pai nos levou para o maranhão, passei uns meses em são luís e logo fui para turiaçu, quase fronteira com o pará. levei na mochila livros e erva para o chimarrão. passei não lembro exatamente quanto tempo lá, mas foi o suficiente pra aprender muita coisa do que hoje eu sei. manejo de tratores, por exemplo, não sabia nada. o pouco que sei aprendi lá. acho até que me saí bem. afinal, quando chovia e na fronteira do maranhão com o pará chove bem , havia trechos na estrada onde ninguém passava que só eu passei. turiaçu fogueira grande em tupi-guarani era quase uma terra sem lei. eu estava onde queria e fazia o que queria. muito mais que dinheiro, buscava farra e forria. um belo dia, no entanto, cansei. e viajar, viajei.

não quis ser o melhor
sossego trago de longe
não sou louco, poeta
nem sou profeta ou monge
mas viajar, viajei
viajar, viajei...

em 1995, com 30 anos, fui para a estrada pedir carona para assistir a uma cantoria de almir sater, em porto alegre. na época, o américas recém começava, e eu ainda não sabia até onde aquele programa de rádio me levaria. hoje eu sei: ele me trouxe até aqui e ainda pode me levar além.

cantei ao velho peão
fiz versos pra burguesia
e de quando em quando
o dono das terras falava
fique, violeiro
pois tem dinheiro e pousada
e eu viajar, viajei
viajar, viajei...

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ontem, dia dos pais, convidado por uma irmã de alma, saí da casa dos aedos e fui comer um assado e me encontrar com amigos. cheguei, cumprimentei a todos, me oitavei no balcão e por ali fiquei. tava tudo uma maravilha: a carne, a maionese, as charlas, as gentes, o ambiente. enfim, fui muito bem recebido, como sempre.

mas, como eu ia dizendo, me oitavei no balcão, pedi uma água mineral com gás e ali fiquei, mais ouvindo do que falando. lá pelas tantas, como o assunto se proporcionou, comecei a contar uma história minha — que tinha a ver com dois dos três participantes da roda na qual eu me encontrava. comecei, mas não terminei, pois quando estava na metade da minha, um deles se lembrou de uma história dele que era melhor que a minha, e o outro se lembrou de outra e de mais outra; e eu fiquei ouvindo, esperando a minha vez para voltar a contar a minha. normal. afinal, eles estavam no chopp e eu na água mineral. não demorou muito, a vez chegou: um deles olhou pra mim e se lembrou de um hippie; o outro, de espinosa. e eu pensei, cá comigo, nada como ter amigos.

afinal, a história que eu comecei a contar lá e não terminei, eu já a havia contado aqui. e a história que estou contando aqui agora tem a ver com as histórias que ouvi lá.

senão vejamos: o que espinosa e os hippies tinham em comum? ambos sabiam — cada um a seu modo e no seu tempo — que a vida acontece na mesma substância: a natureza, o afeto, a alegria de estar junto. ambos recusaram o dogma para abraçar o livre existir.

foi esse mesmo espírito que levou bob dylan, em 1975, a passar uma temporada na frança, encontrar um festival itinerante que cruzava por les saintes-maries-de-la-mer e comemorar seu aniversário de 34 anos em uma tenda cigana. hoje não sei por onde ele anda, tanto pode estar numa choupana quanto numa mesquita muçulmana, em meio a uma caravana ou participando de uma cerimônia palaciana. o lugar não importa. lar de poeta não tem porta. é isso que uma tarde com amigos oferta — para homens com estrela a porta está sempre aberta.


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mais um café para a estrada,
mais um café antes de partir,
para o vale profundo.

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#américas

domingo, 9 de agosto de 2026

 

aos que virão depois de nós

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«tenho uma teoria: quanto mais próximo da morte, mais vivo você se sente, mais vivo você é»

james hunt

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coração tranquilo

há quem passe a vida procurando o caminho do meio e, apoiado na razão, machuque o coração. não é o meu caso. ando pelos extremos. coabito tanto na superfície quanto submerso. escrevo às vezes em prosa e outras em verso. a palavra é o meu universo. verso e reverso. nunca tergiverso. rio e mar. às vezes dou risada e outras tenho vontade de chorar. mas não sou bipolar. o bipolar tem dificuldade para dormir e acordar. eu durmo bem e acordo melhor ainda. tenho a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. não me vendo nem me alquilo.

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hoje é dia dos pais
mas não é por isso
que lembrei do meu

ah, pai
como e quanto te devo
por teus hábitos de dormir tarde e acordar cedo
por tuas histórias de homens apaixonados e sem medo

uma vez
aqui em satolep
meu pai, ailton e eu
saímos do bar da luz (foto)
e fomos ver um jogo do xavante
grêmio esportivo brasil
brasil de pelotas
em são borja
meu pai tinha um chevrolet opala
eu tinha uns 17 anos
ainda não tinha carteira de motorista
meu pai foi dirigindo
o ponteiro não baixava de 150
lembrei do rei
«eu vou, vou voando pela vida
sem querer chegar»
chegamos cedo
procuramos um bar
tínhamos que fazer tempo
até a hora do jogo
quando nos levantamos
pra ir pro estádio
a partida já havia começado
não me lembro se o xavante ganhou ou perdeu
só me lembro de meu pai me perguntar
se eu me animava a voltar dirigindo
viajamos a noite inteira
não vou mentir que foi a minha primeira vez na estrada
pois não foi
a primeira foi com 15
pelotas - santa vitória
santa vitória - pelotas
os tempos eram outros
eu sei
hoje é tudo muito chato
todo mundo é juiz de todo mundo
ninguém se atreve a marchar fora do compasso
marcha soldado
cabeça de papel
quem não marchar direito
vai preso pro quartel
é isso
ninguém arrisca nada
estamos de joelhos
rezamos pelas cartilhas
do grande capital
e do politicamente correto
não me admira
portanto
que estejamos onde estamos
isto é
dentro das nossas casas
de onde só saímos
pra passear na praça
enquanto seu lobo não vem
e ainda assim
cheio de recomendações
não faça isso não faça aquilo
por mim tudo bem
afinal
meu quarto de hora já passou
já tive meus 15 minutos de fama
e estou ótimo assim
lembro porém de brecht
e fico pensando em como será o amanhã
pensando bem
basta olhar para a juventude de hoje
para saber o que será
há exceção?
sim
sempre houve e sempre haverá
«um brinde aos loucos. aos desajustados. aos rebeldes. aos criadores de caso. os pinos redondos nos buracos quadrados. aqueles que veem as coisas de forma diferente. eles não curtem regras. e não respeitam o status quo. você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los.»
pensando melhor
não tenho nada com isso
não sou pai
sou filho
vivo em paz e durmo tranquilo
llevo un cartel en la frente:
¡no me vendo, ni me alquilo¡

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o rei morreu! viva o rei!

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eu vou voando pela vida sem querer chegar
nada vai mudar meu rumo nem me fazer voltar
vivo, fugindo, sem destino algum
sigo caminhos que me levam a lugar nenhum

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[áudio oficial de de roberto carlos.]

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lembrei do rei porque, cinco anos atrás, no almoço de 27 anos do matheus, irmão da vivi, meu eterno «cunhado», comentei sobre um documentário que tinha acabado de assistir sobre schumacher. a conversa foi passando por senna, piquet, lauda, barrichello, até chegar em james hunt — meu ídolo máximo na fórmula 1. campeão mundial de 1976, o britânico morreu jovem, aos 45 anos, vítima de um infarto fulminante. um desfecho quase inevitável para quem viveu uma vida acelerada e cheia de excessos, mas em que nunca faltaram nem coragem nem talento.

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vida que segue

em 1976, james hunt venceu dez corridas e levou a melhor num épico duelo com o austríaco niki lauda. a rivalidade entre os dois pilotos, de personalidades tão diferentes, foi marcante a ponto de virar filme de hollywood.

assista ao trailer de «rush, no limite da emoção»

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[o doc é situado na era dourada da fórmula 1, e conta a emocionante história de dois dos maiores rivais que o mundo já viu — james hunt e niki lauda. acompanhando a vida deles dentro e fora das pistas, rush observa os dois pilotos enquanto eles se esforçam para atingir a máxima resistência física e psicológica, onde não há atalho para a vitória, nem margem para erros. se cometer um erro, você morre.]

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trocando em miúdos

james hunt, assim como vinicius de moraes e outros mais, não teriam espaço nos dias politicamente corretos de hoje. aliás, vinicius, hunt, guevara, lamarca, sepé, zumbi ... e por aí vai... a lista é grande... começa com meu pai...

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falando no meu pai
se alguém o vir
diga-lhe que estou bem
que hoje ando a 10
para chegar aos 100

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busca a mi padre y dile que estoy bien
que mi conciencia sigue libre
y que siguen muy mansos mis pensamientos

[com fotos e letra]

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antes do fim

trabalhei dez anos como instrutor de direção defensiva num cfc que tem como nome senna. há quem diga que desempenhei bem o papel. não duvido. herdei de meu pai, além do nome, o gosto pelo perigo. ando por um fio. o que me move é o desafio. faço o caminho ao contrário. se o vento sopra pra lá, eu ando para cá. se o vento sopra para o norte, eu caminho para o sul. ou seria o contrário? caminhar rumo ao sul é o meu norte.

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foto: eu com meu pai | são luís, 2008

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e a foto do bar? a foto do bar encontrei no perfil de diego gonçalves, filho do aílton, dono do bar. aílton é o de bigode que aparece abraçado a dois homens. nenhum deles é o meu pai. meu pai (grill) aparece na parede, na propaganda eleitoral, junto com meu avô (gastal).

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e o bar? o bar era frequentado por algumas lendas:

zé becker (fabricante dos «únicos» grandes times de botão de acrílico).
zé pereira (pianista da igreja da luz).
maneca da frigideira (da escola de samba general osorio, funcionário do clube brilhante).
sidnei birolho (da baixada do pepino, ponta-direita do xavante. fundador da escola de samba ramiro barcelos).
maico (também fundador da ramiro barcelos).
joãozinho do garbo magazine (fundador da bandalha).
jorginho (estofador, conhecido como «perninha» ou «roberto carlos»)

entre outras lendas,
das quais a principal para mim era o meu pai.

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e diego? diego gonçalves foi candidato a vereador pelo pt em 2024. trabalhou como secretário de governo e assuntos estratégicos na prefeitura de pelotas e, desde abril de 2026, é assessor de relações institucionais do gabinete do prefeito fernando marroni.

diego é alcoólatra. alcoólatra em recuperação. assim como eu. sim, o alcoolismo é uma doença incurável. o alcoólatra que diz ou pensa estar curado, ou quer enganar ou está enganado. em ambos os casos, é possível imaginar o resultado.

explico: não importa o tempo que você está limpo, seja por 1 dia, 1 ano, 10 anos ou 50 anos. o alcoólatra está sempre em recuperação. o alcoolismo é igual a uma vela: quando você para de beber, você apaga a vela. quando você volta a beber, a vela volta a acender no exato ponto em que apagou. ou seja, a vela nos diz quanto tempo nos resta. o que queimou tá queimado... não volta mais. não importa quanto tempo passou.

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falando em tempo...

o tempo passa, vai passar, já passou. os sonhos não envelhecem, nós é que envelhecemos. um outro mundo possível jamais se dará através de nós. never! pode esquecer: o nosso tempo já passou.

as águas estão subindo, estamos atolados da cabeça aos pés. ou nos refundamos ou afundamos. deu pra tudo que limita, que divide, que exclui, que julga, que pré-julga.

saudade de quando éramos potros chucros. hoje somos bois mansos. o tempo passa, vai passar, já passou. já passou da hora de passar o bastão. mas pra quem? pois então, essa é a questão.

«já não há loucos». «são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes».

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falando em rebelde
me lembrei de cb
lembrando de cb
me lembrei de guevara
lembrando de guevara
me lembrei de whitman

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«aos que falharam, grandes na aspiração,
aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate,
aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos,
aos super ardorosos viajantes,
a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento
– eu gostaria de erguer um momento coberto de louros
alto, bem alto, acima dos demais:
a todos os truncados antes do tempo,
arrebatados por algum estranho espírito de fogo,
tocados por morte prematura.»

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lembrando de whitman
me lembrei de darcy ribeiro

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«fracassei em tudo o que tentei na vida.
tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
tentei salvar os índios, não consegui.
tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
tentei fazer o brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
mas os fracassos são minhas vitórias.
eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.»

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lembrando de darcy ribeiro
me lembrei de glauber rocha

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[trecho do doc "glauber, labirinto do brasil", de sílvio tendler. ao final, maria lucia godoy homenageia glauber cantando a bachiana nº 5 de villa lobos.]

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e por aí vai
mas por hoje deu
fico por aqui

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feliz dia dos pais

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carpe diem
bom domingo