domingo, 21 de junho de 2026


 pequeno mapa do tempo

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

maria elizabeth gastal fassa

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evangelho do jejum

a balança é tribunal.
ponho-me nua diante dela como ré que já confessou.
o ponteiro grita sentença...menos, menos, menos.
aplaudem os fantasmas do armário, cabides batem palmas.
visto roupas antigas e danço dentro delas, tango de viúva com defunto ausente.
tenho fome de gente e nojo de gente.
na feira, as frutas riem com cara de plástico.
o açougueiro me oferece conselho embrulhado em papel pardo.
pago com moedas de banha derretida, troco nenhum.
á noite, meu estômago recita baudelaire em grego.
as tripas, coristas roucas, desafinam a ária do vazio.
ligo o rádio... só chiado, sermão de estática.
desligo o rádio... o chiado continua dentro.
perdi peso, perdi esperança, perdi promessa.
do humano, guardo o fiapo que se usa pra amarrar presunto.
do divino, guardo a nota fiscal...
e durmo com a luz acesa,
porque o escuro engorda de medo.

simone bacelar

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«a beleza é uma forma de medo ou de inquietude».

jorge luis borges

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o eu escrito por ninguém

quem é borges? o homem que caminha por buenos aires? o nome que aparece nas listas e nos dicionários? o jovem que assobia junto ao ródano? o velho que morre em adrogué? o escritor que ainda não escreveu o livro que escreverá? o autor que detesta a sintaxe que é sua? as respostas não se excluem nem se somam: aproximam-se, desviam-se, corrigem-se, deixam sobras. e talvez esse resto seja o mais borgiano — mais do que o infinito, o labirinto, o tigre, o punhal ou o espelho tomados como emblemas fáceis: o resto que uma simetria imperfeita deixa atrás de si, impedindo o nome de coincidir com o homem, o jovem com o velho, o sonho com a vigília, a morte com o cenário, a sintaxe com quem a escreve. da falha não emerge uma identidade — resta apenas a forma impessoal de si mesmo.

rodrigo gurgel

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pequeno mapa do tempo

eu tenho medo e medo está por fora
o medo anda por dentro do teu coração
eu tenho medo de que chegue a hora
em que eu precise entrar no avião
eu tenho medo de abrir a porta
que dá pro sertão da minha solidão
apertar o botão, cidade morta
placa torta indicando a contramão

faca de ponta e meu punhal que corta
e o fantasma escondido no porão
faca de ponta e meu punhal que corta
e o fantasma escondido no porão

belchior

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livre no começo

se conseguirmos compreender a compulsão que se encontra por detrás do nosso desejo de dominar ou de sermos dominados, então talvez possamos libertarmo-nos dos efeitos debilitantes da autoridade. ansiamos por ter certezas, por estarmos certos, por termos sucesso, por sabermos; e este desejo de certeza, de permanência, constrói dentro de nós mesmos a autoridade da experiência pessoal, enquanto externamente cria a autoridade da sociedade, da família, da religião, e assim por diante. mas ignorar, simples mente, a autoridade, abalar os seus símbolos exteriores tem muito pouco significado.

libertarmo-nos de uma tradição para nos moldarmos a outra, abandonar este líder para começar a seguir aquele, é apenas uma atitude superficial. se estivermos conscientes de todo o processo da autoridade, se percebermos o quanto esse processo é interno, se compreendermos e conseguirmos transcender o nosso desejo de segurança, então teremos uma ampla compreensão e uma tomada de consciência profunda e instantânea, temos de estar livres não no final, mas no começo.

krishnamurti | a vida | editora presença | pág - 33

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a raiz da autoridade: o medo da incerteza

krishnamurti argumenta que a autoridade externa (a religião, o mestre, o político, a tradição familiar) só tem poder sobre nós porque nós, internamente, ansiamos por segurança.

a vida é incerta, caótica e, muitas vezes, assustadora. para lidar com isso, queremos um mapa. queremos garantias. queremos «estar seguros». quando entregamos essa necessidade a alguém ou a alguma doutrina, criamos a autoridade. o mestre ou a tradição não nos escravizam; nós nos escravizamos ao pedir que eles nos deem a segurança que, no fundo, sabemos que não existe.

portanto, se a sua mente continua funcionando baseada no mesmo desejo de segurança, no mesmo medo e na mesma necessidade de ser liderado, você não mudou nada. você mudou de lugar, maso lugar não mudou você.

em suma: krishnamurti nos desafia a olhar para nós mesmos agora, sem o filtro de nenhuma tradição, mestre ou desejo de sucesso. se você precisa de um «caminho» para ser livre, você ainda está preso à necessidade de um guia. a liberdade, para krishnamurti, é o ato de olhar com total clareza, sem o desejo de que essa clareza lhe dê segurança.

trocando em miúdos: se você busca liberdade para se sentir seguro, você não está buscando liberdade, está buscando um «porto seguro».

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medo...
medo...
medo, medo, medo
medo...

eu tenho medo que belo horizonte
eu tenho medo de minas gerais
eu tenho medo que natal, vitória
eu tenho medo goiânia - goiás
eu tenho medo salvador - bahia
eu tenho medo belém, belém do pará
eu tenho medo pai, filho, espírito santo, são paulo
eu tenho medo eu tenho c eu digo a
eu tenho medo um rio, um porto alegre, um recife
eu tenho medo paraíba, medo paranapá
eu tenho medo estrela do norte, paixão, morte é certeza
medo fortaleza, medo ceará
eu tenho medo estrela do norte, paixão, morte é certeza
medo fortaleza, medo ceará

medo...
medo...
medo, medo, medo
medo...

eu tenho medo e já aconteceu
eu tenho medo e inda está por vir
morre o meu medo e isto não é segredo
eu mando buscar outro lá no piauí
medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
manda buscar outro, maninha no piauí
medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
manda buscar outro, maninha no piauí

pequeno mapa do tempo | belchior (1977)

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de volta a borges

«quem leu shakespeare, tolstói ou machado e não sentiu, em algum momento, uma pontada de medo, de insegurança, de desequilíbrio, então não leu, só passou os olhos. o que seria um soneto de camões sem a vertigem que ele provoca? de que serve uma beleza que não nos questiona, não nos abala, não nos incomoda? é por isso que borges recordava a súplica de seu mestre, rafael cansinos-asséns: "oh, senhor, que não haja tanta beleza". e a constatação de browning: "quando nos sentimos mais seguros acontece alguma coisa, um pôr do sol, o final de um coro de eurípides, e estamos de novo perdidos"»

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de volta a krishnamurti

«para krishnamurti, a verdadeira revolução interna acontece quando compreendemos por que ansiamos tanto por segurança. ao perceber esse mecanismo, a necessidade de se apoiar em autoridades (internas ou externas) desaparece naturalmente. a liberdade é o ponto de partida para observar o mundo com lucidez, e não uma meta futura.»

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(introdução)

«muito obrigado amigos. nós somos tão privilegiados por nos podermos reunir em momentos como estes, quando grande parte do mundo está mergulhado na escuridão e caos.»

os pássaros cantavam,
ao romper do dia,
«recomece», eu os ouvi dizer,
«não se prenda ao que
já passou,
nem ao que ainda está por vir...»

ah, as guerras,
elas serão travadas novamente.

a pomba sagrada,
ela será capturada novamente,
comprada e vendida,
e comprada de novo.
a pomba nunca é livre.

toque os sinos que ainda podem tocar.
esqueça sua oferta perfeita
há uma falha em tudo,
é assim que a luz entra.

pedimos sinais,
e os sinais foram enviados:
o nascimento traído,
o casamento desfeito.

sim, a viuvez,
de todos os governos,
sinais para todos verem

não posso mais fugir,
com essa multidão sem lei,
enquanto os assassinos em altos cargos
fazem suas orações em voz alta.

mas eles invocaram, eles evocaram,
uma nuvem de tempestade,
e eles vão ouvir falar de mim.

toque os sinos que ainda podem tocar,
esqueça sua oferta perfeita,
há uma rachadura em tudo,
é assim que a luz entra.

você pode somar as partes,
mas não terá o todo.
você pode começar a marcha, mas
não há tambor.

todo coração, todo coração,
virá ao amor,
mas como um refugiado

toquem os sinos que ainda podem tocar
esqueçam sua oferta perfeita
há uma falha, uma falha em tudo
é assim que a luz entra.

toque os sinos que ainda podem tocar,
esqueça sua oferta perfeita,
há uma falha, uma falha em tudo,
é assim que a luz entra,
é assim que a luz entra,
é assim que a luz entra.

anthem | leonard cohen (2008)

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carpe diem
bom domingo

sexta-feira, 19 de junho de 2026

 


passagem das horas

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«há um outro mundo, mas ele está neste.»

paul éluard

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«dá-me o teu braço, que eu sinto-me só no meio do vento.»

álvaro de campos (heterônimo de fernando pessoa)

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«e, se alguém prevalecer contra um, os dois lhe resistirão;
e o cordão de três dobras não se quebra tão depressa.»

eclesiastes 4:12

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ao vento

numa família
solta no ar
minha irmã veio
para me ancorar

minha vida gira
em turbulência
mas ela guia
minha existência

não deve ser fácil
segurar
por isso veio meu irmão
pra ajudar

e como se não bastasse
o que seria de mim
nessa hora
se nem com a minha mãe eu contasse

grill

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falta pouco tempo eu sei
mas quando a gente é pequeno
o tempo custa pra passar
também a gente pode crescer

armadilha | nelson coelho de castro (1981)

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#américas

terça-feira, 16 de junho de 2026


como dizia o poeta...

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das coisas que eu costumava dizer — com as minhas próprias palavras — quando o repecho era uma comuna: «nos divorciamos pelos mesmos motivos que nos casamos, romantismo não sustenta relação»

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ivan capelatto, em um trecho da sua participação do «café filosófico», fala sobre as angustias e dificuldades de se manter as relações. confira abaixo a transcrição do trecho.

«nós fazemos escolhas. a angústia nos obriga, a cada dia, a fazermos escolhas. o escritor gabriel garcía márquez disse que todo dia temos que nascer. isso porque todo dia há uma angústia do passado que não foi resolvida, assim como há uma angústia nova (novos problemas) que sabemos que não iremos resolver. um analista nos faz aprendermos a suportar as angústias e não a as resolver.

se as coisas fossem invertidas em nossa cultura, falaríamos sobre isto nas escolas: o encanto do casamento é quebrado quando o narcisismo e a onipotência acabam. por exemplo, uma esposa não consegue fazer o marido parar de beber, porém, quem bebia não era seu marido, e, sim, seu namorado. mas a escolha de se casar com ele, estando inclusos em seu pacote fumar, beber, jogar etc., foi dela. durante o namoro, ela achava esses atos legais, no entanto, no casamento, ela já não os aguenta mais.

entre o narcisismo e o real, as coisas precisam ser ditas com sinceridade. os escritores românticos foram sujeitos extremamente solitários que usaram o romance "sublimatóriamente". nenhum deles escreveu um romance com a esposa ao lado; se isso tivesse acontecido, ela, provavelmente, teria interrompido seu processo de escrita para que ele fosse ficar com os filhos, por exemplo. os românticos, então, não podem ter filhos, esposa nem vínculo com ninguém.

podemos ser românticos. contudo, o romântico é um sujeito que tem que ficar fazendo escolhas o tempo todo e livrar-se delas rapidamente. o psicanalista freud chamava de instinto de morte não permanecer com uma escolha. por exemplo, quando alguém consegue algo que escolheu, no auge de seu ganho, o dispensa para que não haja desprazer nem angústia. isto é uma doença grave: as neuroses de angústia.

nos casamentos, é proferido «até que a morte os separe». que morte é essa? a morte do narcisismo. é possível haver sobrevivência no casamento? sim. e a mágica para que isso ocorra é ter consciência de que o outro é só um sujeito humano que vive pendurado na angústia, angústia essa que se manifesta pelo medo da morte do filho, de ladrões, da fome, da pobreza etc. no entanto, na pessoa narcísica não há nada disso, pois esta não sente nem fome, por exemplo, quando está apaixonada. então, adaptemos a frase transcrita acima para "até que a morte do narcisismo os separe e vocês não sejam capazes de se transportarem para a realidade".»

transcrição feita e adaptada pelo «provocações filosóficas» do trecho da palestra: café filosófico – o casamento como fato afetivo com ivan capelatto

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a rosa e o espinho

o mundo como ele é não é meu forte
por isso criei pra mim o meu próprio mundo
um mundo que se amparou em duas muletas
a muleta do álcool e a do casamento
troquei a primeira pela segunda
e a segunda por uma terceira
isto é
daqui em diante
é eu comigo mesmo
tentando me equilibrar
no mundo como ele é

grill

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eu bato o portão sem fazer alarde
eu levo a carteira de identidade
uma saideira, muita saudade
e a leve impressão de que já vou tarde

trocando em miúdos | chico buarque (1978)
[do dvd: romance]

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fotos: são luís (ma) e alto paraíso (go), 2008

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#américas

sexta-feira, 13 de março de 2026

um completo desconhecido 
(como tu)

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https://www.youtube.com/watch?v=p2vlcxrXx5I
a complete unknown (2024) | bob dylan & johnny cash letters

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de johnny cash para bob dylan
(e vice-versa)


eu estava muito interessado na música folk no início dos anos 1960, tanto em canções autênticas de diversos períodos e aspectos da vida norte-americana quanto nas novas canções do revival folk da época, e então prestei atenção em bob dylan assim que o disco «bob dylan» apareceu, no início de 1962, e ouvi sem parar «the freewheelin' bob dylan» em 1963, eu tinha um gravador portátil que levava para a estrada e colocava o freewheelin' para tocar no backstage. depois, saía para fazer o show e o ouvia de novo quando voltava do palco. após um tempo fazendo isso, escrevi uma carta a bob dizendo que era um grande fã seu. ele respondeu em seguida, contando que acompanhava minha carreira desde «i walk the line» (1), e iniciamos uma troca de correspondência.

não foi uma correspondência muito extensa. paramos de nos escrever depois de nos conhecermos, quando fui tocar no festival folk de newport em julho de 1964. não me lembro muito desse festival, mas me lembro de june e mim e de bob e joan baez em nosso quarto de hotel, tão felizes de nos encontrarmos que pulávamos em cima da cama feito crianças.

mais tarde, é claro, bob e eu cantamos juntos em seu disco nashvile skyline (2), e ele foi meu convidado no programa de tv (3). nos encontramos em algumas ocasiões e uma dessas foi gravada por d. a. pennebaker em seu documentário don't look back, que registrou a turnê europeia de bob em 1965.

cash - a autobiografia de johnny cash
são paulo: leyla, 2013. página 170

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https://www.youtube.com/watch?v=UYKS0jZpARI&list=RDUYKS0jZpARI&start_radio=1
no direction home, documentário dirigido por martin scorsese e que conta a trajetória de bob dylan nos anos 1960. dylan permitiu que scorsese tivesse acesso a horas de filmagens que nunca antes tinham sido tornadas públicas, incluindo o encontro entre ele e johnny cash, citado por este último em sua autobiografia.

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«quando me pediram para falar sobre a morte de johnny cash, eu pensei: cash é o rei, já que eu sempre achei que era assim. ele era a estrela do norte – você poderia conduzir um navio com a luz dele. foi o maior entre os maiores, antes e hoje. eu o conheci em 1962 ou 63 e o vi muito durante os anos seguintes. nos encontramos muito ultimamente, mas de certa forma ele esteve mais presente dentro de mim do que as pessoas que eu encontro no dia a dia.»

bob dylan, depoimento para a revista rolling stone
12 de setembro de 2013

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https://www.youtube.com/watch?v=PqADZ9TNURI
bob dylan on johnny cash. ndh outtake
bob dylan talks about his friend johnny cash


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https://www.youtube.com/watch?v=LVdlF3Eih28&list=RDLVdlF3Eih28&start_radio=1
bob dylan & johnny cash - one too many mornings (rare)

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(1) https://www.youtube.com/watch?v=jh169rVMveA&list=RDjh169rVMveA&start_radio=1

(2) https://www.youtube.com/watch?v=Je4Eg77YSSA&list=RDJe4Eg77YSSA&start_radio=1

(3) https://www.youtube.com/watch?v=93NnaKMDUSo&list=RD93NnaKMDUSo&start_radio=1

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«a vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. a vida serve para você se criar. e criar coisas»

bob dylan

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https://www.youtube.com/watch?v=KMp-u9lWi0I
rolling thunder revue: a bob dylan story by martin scorsese | trailer | netflix
[legendado em português de portugal]


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«se souberem onde olhar, é possível saber tudo sobre mim através das minhas canções.»

bob dylan, 1990

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procura-se
procura-se na califórnia, procura-se em buffalo
procura-se homem em kansas city, procura-se homem em ohio
procura-se no mississippi, procura-se no velho cheyenne
onde quer que você olhe hoje à noite, você pode me encontrar
eu posso estar no colorado ou na geórgia, à beira-mar
trabalhando para um homem que talvez nem saiba quem eu sou
se você me vir vindo, fique na sua, não diga pra ninguém
que estou fugindo e que você sabe quem eu sou
procurado por lucy watson, procurado por jeannie brown
procurado por nellie johnson, procurado na próxima cidade
mas eu tinha tudo o que queria com tudo que tinha
e muito mais do que precisava de algumas coisas que acabaram mal
fui desviado em el paso, parei para pegar um mapa
fui no caminho errado em juarez com juanita no meu colo
depois fui dormir em shreveport, acordei em abilene
me perguntando por que diabos sou procurado nas cidades por onde passo
procurado em albuquerque, procurado em siracusa
procurado em tallahassee, procurado em baton rouge
tem sempre alguém atrás de mim nos lugares por onde vou
e para onde quer que você olhe hoje à noite, você pode me enxergar
procurado na califórnia, procurado em buffalo
procurado em kansas city, procurado em ohio
procurado no mississippi, procurado no velho cheyenne
onde quer que você me procure hoje à noite, você pode me encontrar

https://www.youtube.com/watch?v=iiRMfb3Z9hg&list=RDiiRMfb3Z9hg&start_radio=1
bob dylan © 1969 by big sky music
bob dylan / johnny cash - wanted man (take 1)


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sem lenço, sem documento

por enilton grill

23 de julho de 2009, long branch, nova jersey.

dylan, então com 68 anos, estava em aberdeen, em turnê com willie nelson e john mellencamp. em um dia de folga, decidiu sair para caminhar sozinho, vestindo roupas largas, um casaco com capuz (para se proteger da chuva) e calças de agasalho, o que lhe conferia uma aparência desleixada.

uma moradora local ligou para a polícia relatando ter visto um homem «suspeito» e «maltrapilho» andando pela vizinhança e olhando para dentro de uma casa que estava à venda. suspeita-se que a propriedade pertencia a bruce springsteen.

uma policial jovem (24 anos), kristie bouble, abordou dylan. ela não o reconheceu e, ao perguntar seu nome, ele respondeu: «bob dylan». a policial afirmou mais tarde que não acreditou nele, achando que era um delirante, um farsante ou um ilusionista.

como dylan não portava identificação, a policial o colocou no banco de trás da viatura e o levou até o hotel onde sua equipe de turnê estava hospedada para verificar sua identidade. ao chegarem, a equipe confirmou a identidade do músico. a policial, surpresa, pediu desculpas e o liberou.

nessa noite, entre as canções do bis em aberdeen, estava a previsível «like a rolling stone». ele a interpretou com algo menos que a sua tradicional bravata; cantou com uma humildade séria, sorrindo largamente nas referências ao «mystery tramp» («vagabundo misterioso»), «napoleon in rags» («napoleão em andrajos») e à imagem de ser invisível e não ter segredos.

«como você se sente? / sem ter para onde ir / como uma completa desconhecida / como uma pedra que rola?»

essa canção famosa começa com um golpe na bateria e as palavras «once upon a time» («era uma vez»), como qualquer conto de fadas, marcando o início da balada e da jornada da vida de dylan.

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eu tenho uma balada
para johnny cash…
e já sei que é muito tarde
porque a vida é como um flash
mas, johnny, tu bem sabes
que o tempo pouco importa...
e ninguém sabe o que haverá
nos esperando além da porta

https://americasgrill.blogspot.com/2013/05/balada-para-johnny-cash-por-martim.html

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https://soundcloud.com/grill-4/uma-balada-para-johny-cash
balada para johnny cash | martim césar/paulo timm (2008, 2014)
(caminhos de si: recital poético-musical)

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«eu só fui admitir que eu não era como a maioria dos meus amigos quando eu vi eles voltarem para suas casas e eu já não tinha mais para onde voltar.»

autor desconhecido

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«o que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.»

mario quintana

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«é estranho que uma época que começou como só tendo futuro tenha terminado como só tendo passado.»

boaventura de sousa santos

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budapeste, 1991

foi na venerável budapeste - no terraço do buda penta hotel - que bob dylan, de roupa preta e botas de cowboy ( que ele jamais parece trocar ), deu sua primeira entrevista com mais de três minutos nos últimos cinco anos.

caderno 2 - o início deste seu world tour/91 foi um pouco tenso. a iugoslávia, primeiro pais do leste europeu no qual você se apresenta em 30 anos de carreira, também passa por um momento de tensão. como vê o que está acontecendo no leste nesses últimos dois anos?
bob dylan - você está dizendo que acha que a turnê começou tensa?
caderno 2 - bom, um pouco, não é?
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por quase um minuto )
caderno 2 - bem, de qualquer maneira, como vê a situação do leste europeu, agora que está aqui pela primeira vez?
bob dylan - já estive aqui antes, em 78 ou 79. de férias... ( pausa por quase um minuto)... você conhece a história da europa central e do leste europeu?
caderno 2 - um pouco.
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por quase um minuto ) então deve saber que esses países não são realmente países com unidade nacional significativa, muito menos unidade étnica. foram criados, fabricados. não são orgânicos - foram, são uma espécie de joguete no tabuleiro das grandes potências.
caderno 2 - você é a favor dos movimentos separatistas, então?
bob dylan - realmente não me interesso muito por governos e por estados.
caderno 2 - o melhor governo é aquele que não governa.
bob dylan - sim, thoreau sempre esteve certo. hum...( pausa por uns 30 segundos ) é sobre isso que você quer falar? você já leu thoreau? o que você sabe de thoreau? você conhece a obra de thoreau?
caderno 2 - bem, um pouco.
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por uns 15 segundos ) acho que já falamos mais do que o suficiente, não acha?

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«em estado de selvageria está a preservação do mundo.»

henry david thoreau

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o problema da vida selvagem

em seu ensaio de 1996, «the trouble with wilderness» (o problema com a natureza selvagem) , o historiador ambiental william cronon escreve que «chegou a hora de repensar a natureza selvagem».

cronon argumenta que a noção de «selvageria» de thoreau é frequentemente tomada como sinônimo de «deserto geográfico» e «solidão humana».

mas para thoreau, a natureza selvagem não é um lugar isento de influência humana. é uma relação de responsabilidade e cuidado onde nos compreendemos não como seres externos à natureza, mas, como ele coloca, «como habitantes, ou parte integrante da natureza». dessa forma, cronon argumenta que cultivar a natureza selvagem em nossas relações com o mundo significa «aprender a lembrar e reconhecer a autonomia do outro».

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«suje o tapete deles de lama»
foi o que johnny cash disse a bob dylan pouco antes de ele subir ao palco do newport festival, o templo sagrado do folk, em 1965. naquele momento, bob não segurava o violão folk, e sim uma guitarra elétrica. uma fender stratocaster sunburst.

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como se sente
como um completo desconhecido
sem um lar para voltar
como uma pedra a rolar?

https://www.youtube.com/watch?v=a6Kv0vF41Bc&list=RDa6Kv0vF41Bc&start_radio=1
like a rolling stone | bob dylan (1965)
[live newport folk festival, 1965]

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ao vento

sinto-me como uma pedra que rola
pedras que rolam não criam limo
entenda isso como quiser

grill

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assim é a minha vida, pedra, como tu.
como tu, pedra pequena;
como tu, pedra ligeira;
como tu, canto que rodas pelas calçadas e pelas veredas;
como tu, guijarro humilde de las carreteras;
como tu, que em dias de tormenta te afundas no lodo da terra
e logo centelhas debaixo dos cascos e debaixo das rodas.
como tu, que não serves para ser pedra de uma lonja, nem pedra de um palácio, nem pedra de uma igreja
como tu, pedra aventureira
como tu, que talvez tenhas sido feita só para uma funda
pedra pequena e ligeira
como tu

https://www.youtube.com/watch?v=ACvIYsCqMQ0&list=RDACvIYsCqMQ0&start_radio=1
como tú | león felipe - paco ibáñez (1969)
[festival les suds, à arles, 2011]

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pedra
substantivo feminino
1. matéria mineral sólida, dura, da natureza das rochas.

do «amansa-burro»

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#casadelasaméricas
#américas #repecho

segunda-feira, 7 de abril de 2025

 


o mundo, a bola, o rádio
o velho e o mar
o cinema
eu e meu avô
[«que nadie me mida el corazón»]


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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

maria elizabeth gastal fassa

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«como fica forte uma pessoa, quando está segura de ser amada.»

freud

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«sinta mais, pense menos»

bukowski

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a função da arte / 1

diego não conhecia o mar. o pai, santiago kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. viajaram para o sul. ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. e foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. e quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- me ajuda a olhar!

eduardo galeano

***

sangrando

houve uma época que esperava ansioso o domingo pela manhã.
era uma época boa e as coisas bem mais fáceis do que são e do que estão.
nessa época, o campeonato italiano era transmitido pela rede bandeirantes de televisão.
o tempo passa... hoje as coisas estão bem mais difíceis e o futebol, pra mim, perdeu a graça.
nessa época, quando maradona jogava no nápoli, eu tinha 18 anos e pra mim não houve outro maradona como aquele maradona do nápoli.
digo isso, pois gostava tanto de futebol que vivia o enredo de uma partida como se fosse a minha própria vida. e era. maradona me ensinou a nunca desisitir. rir e chorar. cair e levantar. passo a passo, sem outros escudos além dos nascidos da minha própria voz.

grill

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quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda
que, palavra por palavra, eis aqui uma pessoa se entregando
coração na boca, peito aberto, vou sangrando
são as lutas dessa nossa vida que eu estou cantando

quando eu abrir minha garganta, essa força tanta
tudo que você ouvir, esteja certa que estarei vivendo
veja o brilho dos meus olhos e o tremor nas minhas mãos
e o meu corpo tão suado transbordando toda a raça e emoção

e se eu chorar e o sal molhar o meu sorriso
não se espante, cante, que o teu canto é a minha força pra cantar
quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda
é apenas o meu jeito de viver o que é amar

sangrando | gonzaguinha (1980)

***

quando fui pai de meu irmão

por frei betto

há episódios que marcam definitivamente nossas vidas. no meu caso, meia dúzia deles: duas prisões sob a ditadura militar; o ofício de escrever; a recusa de embolsar dois milhões de dólares em troca de uma informação que não causaria prejuízo a ninguém; o modo como livrei meu irmão do inferno das drogas; a trágica morte de tancredo neves.

todos esses episódios estão relatados em meu mais recente livro: «quando fui pai de meu irmão – o desafio é sempre imprimir sentido à existência» (alta books/70).

antônio era o caçula de oito irmãos. quando nasceu, eu já estava de malas prontas para trocar belo horizonte pelo rio de janeiro. aos 12 anos, amigos o iniciaram nas drogas. aos 16, sofreu grave acidente de moto que comprometeu a parte lógica do seu cérebro. aos 20, recebi-o em são paulo para assegurar a nossos pais alguns dias de tranquilidade.

conviver com uma pessoa adicta é viver em permanente sobressalto. a estadia comigo, programada para durar 10 ou 15 dias, se prolongou por cinco anos. tornei-me pai do meu irmão. sofri mais que nos quatro anos de prisão. e amei como jamais fiz, faço ou farei. cinco anos depois ele retornou “limpo” a belo horizonte.

embora antônio tenha tido todos os cuidados terapêuticos, aprendi que uma pessoa se torna adicta por carência afetiva. entra pela porta do desamor e só sai pela do amor. cuidados médicos, medicamentos, internações periódicas são necessários. mas é o se sentir amada que a faz emergir da escuridão à claridade.

é muito difícil amar sem imediata reciprocidade. e o adicto suga-nos o afeto antes de poder dar algo em troca. aliás, todo viciado em drogas é um místico em potencial. quer plenificar sua subjetividade. a diferença é que ele entra pela porta do absurdo; o místico, pela do absoluto.

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maradona eterno

por eduardo galeano

jogou, venceu, mijou, perdeu. houve estupor e escândalo. os trovões da condenação moral ensurdeceram o mundo inteiro, mas mal ou bem se fizeram ouvir algumas vozes de apoio ao ídolo caído. afinal de contas, julgá-lo era fácil, e era fácil condená-lo, mas não era tão fácil esquecer que maradona vinha cometendo há anos o pecado de ser o melhor, o delito de denunciar de viva voz as coisas que o poder manda calar e o crime de jogar com a canhota, que segundo o pequeno larousse Ilustrado significa “com a esquerda” e também significa “o contrário de como se deve fazer”.

diego armando maradona nunca tinha usado estimulantes, nas vésperas das partidas, para multiplicar seu corpo. é verdade que se metera com cocaína, mas se dopava em festas tristes, para esquecer ou ser esquecido, quando já estava encurralado pela glória e não podia viver sem a fama que não o deixava viver. jogava melhor do que ninguém, apesar da cocaína, e não por causa dela. maradona carregava uma carga chamada maradona, que fazia sua coluna estalar. “necessito que me necessitem”, confessou, quando já tinha há muitos anos o halo na cabeça, submetido à tirania do rendimento sobre-humano, intoxicado de cortisona, analgésicos e ovações, acossado pelas exigências de seus devotos e pelo ódio dos que ofendera. o prazer de derrubar ídolos é diretamente proporcional à necessidade de tê-los.

na espanha, quando goicoechea pegou-o por trás e sem a bola e o deixou fora das canchas por vários meses, não faltaram fanáticos que carregaram nos braços o culpado deste homicídio premeditado, e em todo o mundo não faltaram pessoas dispostas a comemorar a queda do arrogante argentininho intruso nos píncaros, o novo-rico que tinha fugido da fome e se dava ao luxo da insolência e da fanfarronice.

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entrevista realizada por el dr. marlon becerra para la tv colombiana.

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maradona - volviendo

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a vida é uma loteria
de noite e de dia
la vida es una tómbola
y arriba y arriba

la vida tombola | manu chao, 2007

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recordar: do latim re-cordis. voltar a passar pelo coração.

me lembro uma vez em santa vitória, quando fraturei a bacia. férias do colégio. verão. todo mundo na praia. o médico recomendou cirurgia ou repouso absoluto. repouso absoluto. me comprometi e cumpri. eu tinha 9 anos. fiquei dois meses sem me mexer.

em santa vitória naquela época não havia sinal de tevê. meu avô, penalizado com a minha situação, me mandou de presente um transglobe.

transglobe era um super rádio. «pegava» tudo... chuí, santa vitória, pelotas, porto alegre, são paulo, rio de janeiro, montevidéu, buenos aires... ó mundo, ó mundo ... meu rádio era maior que o mundo.

talvez isso explique um pouco eu ser como sou. eu fui criado ouvindo rádio e o mundo que sai de dentro do rádio não é exatamente o mundo como ele é. quando a gente é criança a gente imagina o mundo como quer, o transglobe, por exemplo, eu imaginava muito maior do que ele é.

acho que tudo se mede, menos o coração. o quintal onde a gente brincou, por exemplo, é maior do que o mundo. a gente só descobre isso depois de grande. a gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido menos pela distância e mais pela intimidade (que temos com elas). há de ser como acontece com a saudade.

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mi abuelo me dijo la otra vez
me dijo mi abuelo que tal vez
su abuelo le sepa responder
si el tiempo es mas largo cada vez

la casa de al lado | fernando cabrera, 1993
intérpretes: fernando rossini y juan rodriguez
(letra completa na área de comentários)

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o velho e o mar

dentro só havia uma cama, uma mesa, uma cadeira e um canto no chão sujo, onde se podia cozinhar a carvão.
- o que você tem para comer? - perguntou o garoto.
- uma panela de arroz com peixe. quer provar?
- não. vou comer em casa. quer que acenda o fogo?
- não, não é preciso.
- posso levar a rede?
- naturalmente.
não existia nenhuma rede e o garoto se lembrava muito bem de quando a tinham vendido. mas esta era uma cena que repetiam todos os dias. também não havia nenhuma panela de arroz com peixe e o garoto também sabia disso.
- por que não se senta à porta para apanhar sol?
- sim, tenho aqui o jornal de ontem e vou ler as notícias do beisebol.
o garoto não sabia bem se o jornal de ontem também era uma fantasia, mas o velho o tirou de debaixo do colchão.
- foi o pedrito quem deu para mim no botequim - explicou ele.
quando ele voltou, mais tarde, o velho santiago estava dormindo e o sol já começava a baixar no horizonte. o garoto foi buscar a velha manta da cama e colocou-a sobre os ombros do velho. eram ombros estranhos, ainda poderosos embora muito velhos, e o pescoço também era ainda muito forte. não se viam tanto as rugas quando estava dormindo assim, com a cabeça descaída para a frente. a camisa havia sido remendada tantas vezes que mais se assemelhava a uma vela, e os remendos, sob a ação do sol, tinham-se esbatido em diversos tons. a cabeça do velho era muito velha e, com os olhos fechados, não havia vida no seu rosto. tinha o jornal estendido nos joelhos e o peso do braço impedia que a brisa da tarde o levasse. estava descalço.
o garoto deixou-o ficar como estava e afastou-se, mas, quando voltou, o velho continuava dormindo.
- acorde, meu velho - disse o garoto, pondo a mão sobre um dos seus joelhos.
o velho santiago abriu os olhos e, durante um momento, deu a impressão de voltar de algum lugar distante, muito distante.

ernest hemingway

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mãe, tire este distintivo de mim
não posso mais usá-lo
está ficando escuro, escuro demais para enxergar
sinto como se estivesse batendo na porta do céu

knocking' on haven's door | bob dylan, 1973

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de volta ao começo
(«se puderes olhar, vê; se puderes ver, percebe»)

às vezes tu sabe que as coisas têm que mudar, que vão mudar, mas tu só consegue sentir, tu não sabe de maneira premeditada. pequenas coisas prenunciam o que tá vindo, mas tu não consegue identificá-las. porém, então algo instantâneo acontece, e tu vai pra outro mundo, dá um salto rumo ao desconhecido, tem uma compreensão instintiva daquilo --- tu fica livre. não precisa fazer perguntas, e já sabe quais são as respostas. às vezes é preciso que alguém te mostre o caminho...

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cinema paradiso · subtitulado al español (4:48)

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«madre, ¿por qué todos tienen casa menos nosotros?» y sara le respondió: «ellos son pobres porque solo tienen una casa, nosotros tenemos el mundo para caminar, ¡sigue andando!»

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«cuando me fui de mi casa, niño aún, mi madre me acompañó a la estación y cuando subí al tren me dijo: "este es el segundo y último regalo que puedo hacerte: el primero fue darte la vida, el segundo la libertad para vivirla"».



«muero contenta porque cada vez te pareces más a lo que cantas». estas fueron las palabras con las que sara obsequió a su hijo poco antes de morir.

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no soy de aquí, ni soy de allá
no tengo edad, ni porvenir
y ser feliz es mi color de identidad.

no soy de aqui, ni soy de allá | facundo cabral, 1970

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carpe diem
bom domingo