a cara do brasil
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«recordar: do latim recordis, voltar a passar pelo coração.»
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posse de bola: paulo vinícius coelho (pvc) analisa a derrota do brasil para a noruega, destacando o estilo adotado por ancelotti no jogo.
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(enviado do uol nos eua, o colunista criticou a forma reativa de jogar da seleção.)
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a crítica de pvc é cirúrgica: a seleção brasileira jogou de forma reativa, presa, esperando o adversário. é o diagnóstico preciso do que já aconteceu. diante desse cenário de passividade, lembrei-me da paráfrase de um poeta:
«há quem passe a vida repetindo o eco do que já foi
e há quem descubra a verdade depois do fato consumado
eu sou dos que falam antes.»
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teoria sobre o craque
um parâmetro seria o da conquista de títulos. como regra, o craque joga numa grande equipe e ganha muitos campeonatos importantes. não existe craque em time fraco. porém rivelino, um supercraque, jogou um longo tempo no corinthians sem conquistar títulos. só foi campeão em clubes pelo fluminense. os craques da copa de 82, falcão, júnior, sócrates e zico, não foram campeões do mundo de seleções.
uma característica comum dos grandes craques é a garra. em qualquer atividade, os craques são perfeccionistas e obstinados, querem sempre brilhar. os craques quando recebem críticas e vaias, em vez de ficarem abatidos, jogam ainda melhor.
há outros parâmetros discutíveis na definição de craque. o mais poético e interessante é que o craque antevê a jogada. pensa antes dos outros. sabe antes aonde a bola vai chegar. como ele sabe? sabendo. existe um saber que antecede o raciocínio lógico. mas não adianta somente antever o lance, é preciso executá-lo. para isso, porém, o jogador precisa ter técnica e outras qualidades físicas e emocionais.
tostão
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«hay un español errante
y hay otro que no camina.
yo soy de los caminantes.»
antonio machado
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pois então...
ou se muda a mentalidade
ou não se muda nada
quem muda a mentalidade
muda tudo
tudo muda
e o futebol brasileiro mudou
como tudo
pra pior
medo
o brasil jogou com medo
agora é tarde
o brasil foi covarde
grill
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«la cobardía es asunto de los hombres,
no de los amantes.
los amores cobardes no llegan a amores,
ni a historias, se quedan allí.»
silvio rodríguez
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sem medo de ser feliz
se dependesse de mim
guardiola seria o novo técnico do brasil
discordo peremptoriamente dos que culpam tite pela eliminação do brasil na copa
ou seja
discordo de todo mundo
não vou nem perder tempo falando na questão dos escolhidos para bater a sequência de pênaltis
hipocrisia e oportunismo me cansam
a grande questão
pra mim
é com relação aos que culpam tite pelo gol de empate da croácia
«como se permite um contra-ataque adversário no fim da prorrogação?»
verdade seja dita
assim como telê na copa de 82
tite está sendo julgado e condenado
porque cometeu o «crime hediondo»
de jogar sempre pra frente
independente do adversário
e das circunstâncias do jogo
algo absolutamente imperdoável
para os pragmáticos
não só os do futebol
mas os de todas as áreas
sendo assim
«a historia se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.»
foi com um julgamento semelhante a esse que
depois de zico, sócrates, júnior e falcão
surgiu o brasil mauro silva, dunga e zinho
que é o brasil zero a zero e campeão
ponto
nova linha
há um brasil. há muitos brasis. há dois brasis e estão separados por um abismo. há um brasil tático e pragmático e há outro onde ressoam ainda os dribles, canetas e elásticos. há dois brasis. um mais europeu e outro mais brasileiro. há um brasil formado por um encontro de culturas e há outro que reflete as consequências culturais do colonialismo. há um brasil que se lembra do mundo e outro que se esquece de si mesmo. como se fosse possível matar o tempo sem ferir a eternidade. o passado nunca está morto. o passado sequer passou. vida que segue
ponto
nova linha
hoje em dia
no brasil
é «ganhar» ou «ganhar»
perder
nem pensar
esse é o legado da nossa geração
vende-se a alma para ganhar
a carta ao povo brasileiro
lançada por lula em DOIS MIL E DOIS
que o diga
«o brasil quer mudar. mudar para crescer, incluir, pacificar. mudar para conquistar o desenvolvimento econômico que hoje não temos e a justiça social que tanto almejamos.»
diferentemente da imagem que lula adotou nas eleições anteriores – mais especificamente da identidade que ele estampava no ano de 1989 –, é possível analisar o início da carta de DOIS MIL E DOIS partindo da forma com que as palavras e as expressões foram utilizadas. a identidade política que lula adota é explicitada na utilização de termos como «o brasil quer mudar» «pacificar» «vontade popular» «povo brasileiro», no lugar de expressões como «trabalhadores» «patrão» «operário» «proletários» «explorados» «oprimidos» «massa trabalhadora», contidos em documentos anteriores como no caso da carta de PRINCÍPIOS do partido dos trabalhadores.
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resumo da ópera
há um brasil
há muitos brasis
há dois brasis e estão separados por um muro
há um brasil pobre e outro rico
há um brasil que defende a economia de mercado e outro a de estado
há um brasil seco e outro encharcado
há um brasil que mora na palafita e outro na paulista
o brasil tem duas caras
a minha eu sei qual é
grill
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eu estava esparramado na rede
jeca urbanoide de papo pro ar
me bateu a pergunta, meio à esmo:
na verdade, o brasil o que será?
o brasil é o homem que tem sede
ou quem vive da seca do sertão?
ou será que o brasil dos dois é o mesmo
o que vai é o que vem na contramão?
o brasil é um caboclo sem dinheiro
procurando o doutor nalgum lugar
ou será o professor darcy ribeiro
que fugiu do hospital pra se tratar?
a gente é torto igual garrincha e aleijadinho
ninguém precisa consertar
se não der certo a gente se virar sozinho
decerto então nunca vai dar
o brasil é o que tem talher de prata
ou aquele que só come com a mão?
ou será que o brasil é o que não come
o brasil gordo na contradição?
o brasil que bate tambor de lata
ou que bate carteira na estação?
o brasil é o lixo que consome
ou tem nele o maná da criação?
brasil mauro silva, dunga e zinho
que é o brasil zero a zero e campeão
ou o brasil que parou pelo caminho:
zico, sócrates, júnior e falcão
o brasil é uma foto do betinho
ou um vídeo da favela naval?
são os trens da alegria de brasília
ou os trens de subúrbio da central?
brasil-globo de roberto marinho?
brasil-bairro: carlinhos-candeal?
quem vê, do vidigal, o mar e as ilhas
ou quem das ilhas vê o vidigal?
o brasil alagado, palafita?
seco açude sangrado, chapadão?
ou será que é uma avenida paulista?
qual a cara da cara da nação? hein?
a cara do brasil | celso viáfora - vicente barreto/ 1998
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#américas






