quarta-feira, 22 de julho de 2026


somos um bando e muitos outros 

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«grandes pinturas não deveriam estar em museus. museus são cemitérios. pinturas deveriam estar nas paredes das ruas, em estações de trens, em mictórios...»
bob zimmerman

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recordar é viver

algum tempo atrás, numa postagem minha no facebook, na qual eu falava sobre a foto de lula abrazado a sarney, uma companheira amiga minha, contemporânea do lad (livres atuadores pela democracia), fez o seguinte comentário:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo candidato pra derrotar o bolsonaro, glauber braga se lançou pelo psol. quem sabe combateremos o nazifascismo em rodas de ciranda, néh 😉»

resposta minha:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo argumento para nos abrazarmos a sarney e cia: o nazifascismo. aliás, o nazifascismo, para petistas e lulistas, muda de cara a cada quatro anos. em 2002, a cara era uma; em 2006, outra; em 2010, outra; e, em 2014, outra. e o final deste filme, sabemos qual é. mas que importância isso tem? nenhuma. o que importa é que a gente vença e passe mais 10, 12, 14, 16 anos no governo. depois, se nos tirarem de novo, a gente vê o que faz. mas não te preocupa, companheira, minha opinião não tem valor algum. ainda tô no jardim de infância da política, de onde, por sinal, não tenho o menor interesse de sair. 😉»

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como nossos pais

que me desculpem os «velhos de espírito»
mas não são as rodas de ciranda
nem os jardins de infância
que têm que acabar
o que tem que acabar são os «museus»

grill

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velha roupa colorida 

diferente do que muitos de nós, da esquerda, pensamos
não somos santos
muitas vezes nos atrapalhamos
nos enredamos
seres humanos que somos
(nem sempre nos amamos
muitas vezes nos odiamos)

nós, da esquerda
somos mais justos
mais solidários
mais fraternos
somos mais livres
mais humanos
mais inteligentes

nós, da esquerda
não somos nada disso
quando em nome disso
traímos tudo isso

(idem)

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«vou tratar [os 60 anos do golpe de 1964] da forma mais tranquila possível. estou mais preocupado com o golpe de janeiro de 2023 do que com o de 64. isso já fez parte da história, já causou sofrimento, o povo já reconquistou o direito democrático. os militares, hoje no poder, eram crianças naquele tempo. alguns nem eram nascidos»

luiz inácio lula da silva

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«o que eu não posso é não saber tocar a história para frente, ficar remoendo sempre, remoendo sempre, ou seja, é uma parte da história do brasil que a gente ainda não tem todas as informações, porque tem gente desaparecida ainda»

(idem)

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que fim levaram todas as flores?
que o preto velho me contava
que fim levaram todas as flores?
que a rainha louca não gostava
que a lapela morta carregava
que o olhar de todos me lembrava
que fim levaram todas as flores?
que qualquer coisa não estragava
em qualquer dia que podia
com grande amor e alegria
que fim levaram todas as flores?
que a criança às vezes me pedia

que fim levaram todas as flores | joão ricardo (1974)
(homenagem aos que tomaram posição contra a ditadura militar)

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31 de março de 1964

nunca entendi esse dia
(agora entendo)

quando os tanques tomaram as ruas do rio e de brasília, jango ainda estava no país. mesmo assim, ninguém foi capaz de atirar uma pedra, nem uma pedra, uma pedra, simbólica que fosse, contra os tanques. brizola queria armar a resistência a partir de porto alegre, como havia feito em 61. jango foi contra. apesar da insistência de brizola, jango seguiu para o exílio no uruguai. na real, antes mesmo de jango deixar o país, o presidente do senado, auro de moura andrade, já havia declarado vaga a presidência da república.

o dia que durou 21 anos
(trailer)

500 mil cidadãos investigados pelos órgãos de segurança
200 mil detidos por suspeita de subversão
50 mil presos só entre março e agosto de 1964
11 mil acusados em inquéritos das auditorias militares
dezenas de milhares de pessoas torturadas
10 mil brasileiros exilados
4.862 mandatos cassados
1.148 funcionários públicos demitidos
6.592 militares reformados ou punidos
(por defenderem a constituição e se oporem ao golpe de estado)
1.202 sindicatos sob intervenção
congresso nacional fechado por três vezes
sete assembleias estaduais postas em recesso
censura prévia à imprensa e às artes
434 mortos
243 desaparecidos

não esqueço, não perdoo

éramos muitos. mas não foram muitos os que se entrincheiraram.
foram poucos os que levantaram barricada.
viva lamarca! viva mariguela!
viva dandara! viva zumbi! viva sepé!
viva os que caíram e morreram de pé!
onde estávamos? que fazíamos? como dormíamos?
é isso que me dói. sempre me doeu.
custei muito a entender.
agora está tudo muito claro e fácil de compreender.
me dói tudo, não vejo nada.

grill

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«a gente tem um país, mas ainda não tem uma nação»

paulinho da viola

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desilusão, desilusão
danço eu, dança você
na dança da solidão

dança da solidão | paulinho da viola (1972)

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canta: marisa monte

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desilusões

por luis fernando veríssimo

«desilusão, desilusão…» o samba dança da solidão, do grande paulinho da viola, cantado pela grande marisa monte, seria um fundo musical perfeito para estes estranhos tempos. poderíamos chamá-lo de «leitmotiv» da nossa desesperança, se quiséssemos ser bestas. a desilusão começou quando? dá para escolher. no fim da ditadura que o bolsonaro diz que nunca existiu, quando tancredo ia tomar posse como o primeiro presidente civil em 20 anos, mas os germes hospitalares de brasília tinham outros planos? depois viria o entusiasmo seguido de grande frustração com collor, o breve, tão bonito, tão moderno, tão raso, a desilusão com o pt e a desilusão com os políticos em geral, agravada com as revelações de que até grão senhores da república levavam bola.

por falar em escândalos… o samba do paulinho também tem um verso que, ligeiramente adaptado, nos diz respeito. «quando eu penso no futuro, não esqueço o passado.» se essa eleição presidencial por grande maioria provou alguma coisa é que nosso passado não tem mais nenhuma relevância política. a ditadura foi esquecida, até os generais estão voltando. bolsonaro pode ter razão, a ditadura pode nunca ter acontecido, o golpe de 64 pode ter sido apenas um movimento de tropas, como disse o toffoli.

foi tudo um delírio, vamos esquecê-lo. rubens paiva, stuart angel, vladimir herzog, manoel fiel filho e as centenas de supostos desaparecidos podem voltar. acabou a farsa. e façam suas apostas: o que vai ser esclarecido primeiro, o caso da bomba no riocentro, do qual nunca se ouviu mais nada, ou o caso da marielle, que também não?

publicado originalmente n’o estado de s. paulo.
8 de novembro de 2018.

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aos patrulheiros de plantão

ser esquerdista e criticar a esquerda é algo que a esquerda, em geral, simplesmente não tolera. eu que o diga. por causa de tamanho atrevimento, já fui chamado de fariseu, infantil e golpista. militante de sofá. militante de facebook. fanfarrão, delirante, pessimista, ingênuo, inocente... até de bolsonarista já me chamaram.

em suma, vivo num mundo de fantasia alheio a tudo e não proponho nada.

diferente do que muitos pensam, não fico chateado nem perco o sono com a imagem que alguns fazem de mim. aliás, muito pelo contrário. às vezes, me dá até vontade de rir de alguns «livres-pensadores» e de suas análises rasas.

judas, fariseu, golpista, bolsonarista, quinta-coluna, militante de sofá, rebelde de apartamento, rebelde sem causa, revolucionário de facebook, utópico, distópico, homem das montanhas, ermitão, bufão, fanfarrão, falastrão, saudosista, ultrapassado, sonhador, idealista, futurólogo, delirante, inadequado, desagradável, inoportuno, inconsequente, niilista, pessimista, ingênuo, inocente, raso, inútil, azedo...

vale tudo, só não vale me chamar de insensível. insensível é a pessoa que tem dificuldade em demonstrar seus sentimentos.

sinto muito, mas não é o meu caso.

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telegrama

«eu tava triste, tristinho»... a tristeza tava me inundando. saí da frente do pc e fui lavar a louça. mesmo assim, ela continuava — a tristeza, não a louça suja. saí da frente da pia e fui limpar o fogão. botei o arroz e o feijão para cozinhar. sem ter mais o que fazer, comecei a escrever. enquanto eu escrevia, a comida ficou pronta. talvez saciar a fome aplaque a tristeza. talvez...


— mas e quem não tem o que comer, como mata a tristeza?

— cantando, compondo, escutando música.

— mas e quem não tem música? faz o quê?

— vai ler... vai escrever...

— mas e quem não sabe ler nem escrever?

— que tente enganar a morte...

— como?

— como uma pedra que rola...


grill

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a princesa na torre do castelo e toda a gente elegante,
bebendo, achando que estão no topo do mundo,
trocando presentes caros e futilidades afins.
é melhor tirar o anel de diamante, é melhor penhorá-lo, querida.
você costumava se divertir tanto
com napoleão em farrapos e a poesia que ele usava.
vá até ele agora, ele te chama, não dá para recusar.
quando você não tem nada, não tem nada a perder.
você agora é invisível, não tem mais segredo a esconder.
like a rolling stone | bob dylan (1965)
[legendado em português]

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rolling stone - antes de terminarmos a conversa, quero perguntar sobre a controvérsia a respeito das citações nas suas músicas das obras de outros escritores... alguns críticos dizem que você não citou as suas fontes com clareza. no entanto, no folk e no jazz, a citação é uma tradição rica e enriquecedora. qual é a sua resposta a esse tipo de acusação?

bob dylan - ah, sim, no folk e no jazz, a citação é uma tradição rica e enriquecedora. isso certamente é verdade. é verdade para todo mundo, menos para mim. quer dizer, todas as outras pessoas podem fazer isso, menos eu. as regras são diferentes para mim. se você acha que é tão fácil fazer citações e que isso vai ajudar no seu trabalho, faça isso e veja até onde consegue chegar. reclamões e covardes falam dessas coisas. é algo bem antigo – faz parte da tradição. remonta a um passado bem distante. essas são as mesmas pessoas que tentaram me classificar de judas. judas, o nome mais odiado da história humana! se você acha que já foi xingado de um nome feio, tente imaginar o que é isso.

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bob dylan é chamado de judas
[clique no link acima]

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rolling stone - você considera esse tipo de crítica irrelevante, ou boba?

bob dylan - tento superar tudo isso. de todo modo, não é para essas pessoas que eu toco.

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rolling stone - mas você certamente já ouviu falar dessa controvérsia específica?

bob dylan - pessoas tentaram me deter a cada centímetro do caminho. sempre tem coisa ruim a ser dita a meu respeito. isso acontece há tanto tempo que talvez agora eu não seja mais capaz de viver sem isso. tudo que as pessoas dizem a respeito de você ou de mim, estão dizendo a respeito de si mesmas. estão se entregando. já reparou nisso?

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rolling stone - o lado oposto é que também há o público, que ama você de verdade.

bob dylan - claro que sim. eles acham que sim. eles amam a música e as canções que eu toco, não eu.

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rolling stone - por que diz isso?

bob dylan - porque as pessoas são assim. elas dizem que amam um monte de coisa, mas, na verdade, não amam.

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«o amor é apenas uma palavra de quatro letras»

bob dylan

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agora ofélia, ela está perto da janela
por ela eu temo tanto
em seu vigésimo-segundo aniversário
ela já é uma solteirona velha
para ela, a morte é bem romântica
ela veste um colete de ferro
sua profissão é sua religião
seu pecado é sua falta de vida

desolation row | bob dylan (1965)
[com letra em português e imagens reais]

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«sentir tudo de todas as maneiras,
viver tudo de todos os lados,
ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.»


álvaro de campos 


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quanto tempo você tem para incorrer na vida
que pulsa louca no peito, rebentando de vontades, de desejos,
atentando à experiência?

quanto tempo você tem para encontrar nas deformações
a posição exata, e de saber quanto de tempo você tem
pra acreditar em tanta coisa, se levar nos ventos, se livrar dos tentos
e amar como importaria?

quanto tempo você tem para esperar sem garantia
e se curvar a deuses tontos e enlouquecidos pela época?
quanto tempo você tem já bastaria para inverter,
se somar a qualquer grito, a qualquer palavra que explodisse forte no horizonte.

quanto tempo é o que se diz cansados, todos os dias que acabamos na escuridão.

e quanto mais tudo seria, sonhar com uma cantoria
de milhões de bocas por tantas milhas de terra.
e, enquanto se fizesse luta, se saberia:
somos um bando e muitos outros.

somos um bando e muitos outros.
somos um bando e muitos outros.
somos um bando e muitos outros.

de um bando | bebeto alves (1981)
[bebeto alves e os blackbagual]

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antes do fim,
voltemos ao jardim de infância.
voltemos a falar de filosofia.
— filosofia?
— sim, filosofia.
— mas em 2018, o bolsonaro fechou a faculdade de filosofia. e se o lula não ganhar, ganha o flávio.
— que flávio?
— flávio bolsonaro.
— pois é, que coisa... mas já que estamos falando de filosofia — e filosofia é a arte de colocar ponto de interrogação onde o senso comum põe ponto final —, eu pergunto:

por que o que não era pra ter nascido continua vivo?

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era inverno sim, eu perdido em mim
rabiscava uns versos pra enganar a dor
o tédio, o pranto, o tombo
e encantava mágoas milongueando sonhos

milongueando uns troços | mauro moraes (1994)

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foto: eu
onde: praça, pelotas, rs
quando: 1990
autor: antonio soler

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américas

terça-feira, 21 de julho de 2026

 


ao vento 

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«a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»

manoel de barros

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«à minha maneira, estou sempre compondo. emendo uma coisa na outra e acaba dando certo. eu pego uma canção e deixo ir rolando, devagarinho, ruminando, ruminando.»

dorival caymmi

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ruminando

com as palavras
sou como os ruminantes
rumino
rumino
e nunca termino
cadê a palavra que tava aqui
o vento levou
cadê o vento

grill

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vamos chamar o vento
vamos chamar o vento

vento que dá na vela
vela que leva o barco
barco que leva a gente

dorival caymmi - o vento - heineken concerts - 1996

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vento que guarda a tarde
(uma tarde sem pressa)

2002.

eu trabalhava há cinco anos no cfc. ainda não estava no auge, mas já havia conquistado a confiança da direção. foi nessa condição que pedi liberação para passar dez dias na cidade maravilhosa.

mal sabia eu que estava a três anos do meu auge como instrutor de trânsito e a quatro da minha aula de despedida e queda na vida.

antes disso, em 1996, um ano antes do cfc abrir, eu havia varado a noite numa churrascaria de porto alegre convidado pela lendária mercedes sosa.

essa história, todavia, conto outro dia.

de volta a 2002.

no início daquele ano, pedro munhoz me enviou um e-mail pedindo que eu entrasse em contato com daniel viglietti para intermediar sua participação na semana nacional da cultura brasileira e da reforma agrária, no rio de janeiro.

eu já sabia que daniel diria sim.

um ano antes eu o tinha entrevistado e uma das perguntas que fiz foi o que faltava a ele fazer que ainda não tinha feito. ele respondeu que queria muito fazer alguma coisa (qualquer coisa) com os sem-terra.

o autor de a desalambrar só fez uma exigência: a de que eu fosse junto.

mesmo indo de ônibus, cheguei antes do uruguaio, que foi de avião. fui recebê-lo no aeroporto do galeão e lá mesmo tentamos um contato com chico. chico buarque. daniel deu a ideia de convidá-lo para participar da semana. teríamos conseguido não estivesse chico na itália. não faz mal...

não tinha chico, mas tinha dorival.

no dia seguinte, daniel e eu nos encontramos nos corredores da uerj e assistimos juntos aos debates e palestras. depois, à noite, na concha acústica, eu apontei para juliana caymmi, neta de dorival. eu não a conhecia, e daniel queria conhecê-la. alguém teria que fazer as honras. foi o que fiz.

depois do show, numa pequeníssima sala improvisada de camarim (e cheia de gente), eu me aproximei da neta de dorival, apontei para daniel e disse quem ele era. desnecessário. ela já o conhecia. seu avô alguma vez já tinha falado no nome dele, e o marido dela sabia mais sobre daniel do que provavelmente eu mesmo.

ao nos despedirmos, daniel deu um cd seu autografado para que ela entregasse a seu avô.

no dia seguinte, quando nos cruzamos com juliana, ela vinha com um cd de dorival autografado para daniel. nos olhamos surpresos. quando penso em dorival, penso na bahia. ele estava no rio, em copacabana.

daniel agradeceu o cd, conversamos um pouco e nos despedimos. juliana ainda estava por perto quando daniel me puxou para um canto e pediu que eu tentasse, com ela, um encontro dele com o avô dela. foi o que fiz.

ela argumentou que teria que falar com a sua avó, pois o seu avô estava passando por alguns problemas de saúde...

o encontro foi marcado com duas condições:

uma, a de que fosse um encontro rápido, bastante rápido, não mais que meia hora. nada mais, nem nada de mais; afinal, dorival convalescia. a outra condição não foi uma condição, foi uma pergunta. daniel perguntou se eu poderia ir junto. sim, claro que sim.

dessas coisas que não dá para explicar. passou uma hora. mais meia hora. e mais outra hora. perdemos a hora. já era quase noite quando fomos embora.

hoje é tudo muito rápido. parece que foi ontem. mas não. olhando as fotos, eu não sou mais o que era e não há mais dorival. nem daniel. que pena. todo mundo tem pressa. eu tenho saudade. aquela tarde passou depressa. e eu nunca mais tive outra igual.

ave, daniel! saravá, dorival!

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«eu guardo em mim
dois corações»


dorival caymmi

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«a verdade é o todo»

hegel

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«os amores que guardo são tantos, tantos, tantos, por eles eu canto.»

daniel viglietti

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o fim não tem fim
nem teve início o começo
eu vivo sempre a caminho
assim luto, desejo e penso

por ellos canto | daniel viglietti (1984)
[do cd: trabajo de hormiga]

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foto: dorival caymmi e eu local: copacabana, rj (2002) autor: daniel viglietti

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foto: daniel viglietti e eu
local: pelotas, rs (2009)
autor: vilmar tavares

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#américas

domingo, 19 de julho de 2026


pequena serenata diurna 
(it's all over now baby blue)

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«eu não preciso de muito dinheiro
(graças a deus)»

waly salomão

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«a questão da felicidade não é tão complicada e é pessoal.
da pra ser feliz com bem pouca coisa.
o problema é querer que o outro também seja feliz junto contigo,
e não só tu.»

autor desconhecido

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«tem qualquer coisa em escrever poesia que leva um homem para a beira do abismo.»

bukowski

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«a vida é a arte do encontro,
embora haja tanto desencontro pela vida»

vinicius de moraes

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um dia, ele entrou na cafeteria do hotel onde estava hospedado em san josé, na costa rica, e a encontrou. ele tinha quase quarenta anos; ela, 18. segundo ele, era belíssima: finalista do miss américa e capa da playboy. ele não resistiu. aproximou-se da mesa e disparou: «oye, eres mi mujer, te vine a buscar». os pais dela o olharam como quem diz: «e este louco?», mas ela, entre estupefata e encantada, consentiu. fez as malas e eles correram o mundo. conheceram hiroshima, quioto, pequim e xangai; cruzaram a rota do transiberiano de moscou a pequim e, no meio daquela viagem que parecia eterna, viram juntos o nascimento da filha. certa vez, quando ele se apresentava na universidade de harvard, a esposa e a filha o esperavam em los angeles. o plano era se encontrarem para seguirem juntos a chicago. mas o voo dele atrasou. elas esperaram até a última chamada... e embarcaram. o avião caiu. a filha tinha um ano; a mulher, vinte e três.

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ela era tão bonita quanto eu era feio
ela era tão rica quanto eu era pobre
e como se não bastasse tímido
mas um dia tomei coragem
e quando ela já tinha passado
ou seja
quase covardemente
eu disse a ela
eu te amo
ela parou virou-se
olhou para mim e disse
eu também
então escaparam das minhas mãos
os balões que eu vendia na praça
e o céu de sábado se encheu de cores
depois conversando eu disse a ela
vou te dar uma vida simples
com as coisas que o homem esqueceu
sem tapetes mas com sorrisos
e os olhos abertos para o sol
o melhor da vida é de graça
não há pobreza quando se tem deus
a esperança será nossa hóspede
com confiança haverá compreensão
eu te ofereço a brisa de maio
as flores de outubro e todo o meu amor
eu disse a ela
vamos voar como os pássaros
no céu onde não há fronteiras
vou cobrir sua pele com a minha
e o inverno se tornará verão
nossos beijos serão nosso lar
nossos sonhos serão nossa lei
pela praia correndo descalços
vamos brincar juntos com a vida
deus colocou a alegria nas coisas simples
e esse é o caminho para a felicidade
eu disse a ela e ela gostou da ideia

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https://www.instagram.com/reel/DOTaiZZDV78/
el amor no se busca el amor te encuentra
jesús quintero entrevista facundo cabral
do perfil de palabrasqueabrazan
clique no link acima (0:44)

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enxugadas as lágrimas, brinquemos um pouco com a tragédia. esse lance de poesia é um troço engraçado. a gente aprende um poema, sai por aí repetindo e as pessoas, em geral, acreditam que você é poeta. é o meu caso, sobretudo com as mulheres — não todas, óbvio, mas com a maioria das que conheci. talvez o único poema que eu ainda guarde na memória não seja um poema, seja uma canção. esse foi um dos primeiros e, talvez, o único que realmente aprendi. eu tinha apenas treze anos quando o conheci... de lá para cá, já perdi as contas de para quantas mulheres disse «vivo en un país libre...» mas aí é que está o problema. no início dá certo, mas com o tempo a tendência é dar errado, pois elas espalham umas para as outras, e quando vou dizer de novo para uma que acabei de conhecer, ela me diz: mas isso tu dizes para todas. digo mesmo! fazer o quê, se é a única coisa que eu sei dizer? foi o caso da última, da penúltima, de todas. engraçado, o único poema que eu disse que tocou o coração de uma delas foi... não lembro agora... foram tantos os que eu disse...

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te disse te digo e te direi que o amor é para sempre
te digo por exemplo
te amo agora que faz calor e ontem quando chovia
nas manhãs nubladas e nas noites claras
te amo de pé deitada dormindo e acordada
te amo à uma às duas às três e sempre
te amo em casa e te amo no caminho
te amo depois antes e agora mesmo
te amo porque você me ama e grita isso para mim com todo o seu ser
te amo porque em você começo e termino
te amo porque nos perdemos e nos encontramos um no outro
te amo com tudo o que sou incluindo a mim mesmo

te amo quando a tarde
te amo quando a tarde
e a tua tristeza estão frias
te amo diante do mar
no deserto e no rio

te amo quando a lua
te amo quando a lua
nos confia os segredos
na paz do teu olhar
e no fogo do teu corpo

te amo quando caminhas
te amo quando caminhas
e te amo quando cantas
te amo quando adormeces
e ainda mais quando acordas

te amo quando a noite
te amo quando a noite
me faz sentir poeta
te amo acima de tudo
e antes de tudo nesta terra
te amo acima de tudo
e antes de tudo nesta terra

https://www.youtube.com/watch?v=DpKJ_P-64aA&list=RDDpKJ_P-64aA&start_radio=1
después de todo y antes que nada (en vivo) | facundo cabral

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no final de 1983, quando chegamos em são luís (ma), pai, mãe e os três irmãos, eu levava na bagagem, erva, cuia e uma fita cassete. 
em setembro de 1989, quando saí de são luís, rumo a brasília, para participar do flaac --- festival latino-americano de arte e cultura, levava na mochila, erva, cuia e uma fita cassete. 
eu ouço león gieco desde os 15 anos de idade. de lá pra cá, muita coisa aconteceu, muita gente já entrou e saiu da minha vida. mas león permanece. 

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mi padre y mi madre me empujaron a la ciudad
aqui alla hoy o mañana
al tiempo no hay que darle la oportunidad de que pase en vano
aqui alla hoy o mañana
en este pueblo queda una casa tuya para volver cuando quieras
toma esto es para vos, unos pesos al partir
lo unico que te deseamos es que te vaya bien
oh oh que te vaya bien
mi vida se hizo de cantar en cualquier lugar
aqui alla hoy o mañana
extraño por unos dias a mi hija y a mi mujer
aqui alla hoy o mañana
cuando regreso tengo cosas nuevas para contar y regalar
toma esto es para vos esto es para las dos
y todo lo que compre es para los tres
es para los tres.

aqui allá hoy o mañana | león gieco (1981)
(canciones de un cassette perdido)

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falando em fita cassete, me lembrei de zeca.

- que zeca? 
- zeca baleiro.

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o que quer que eu diga
você não vai entender
mas se eu digo venha
você traz a lenha
pro meu fogo acender

lenha | zeca baleiro (1999)
[gravado na rodovia régis bittencourt, contou também 
com participações de walter franco 
como um caixeiro viajante.]

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falando em zeca, me lembrei de nelson. 

- que nelson?
- nelson coelho de castro 


algo teu diz a minha vida
como tudo então
de um caminho novo
ai, vou me mandar
ao fim aonde não sei mais eu vou
pois me vale o rumo
que o teu coração me dá 

ver-te (algo teu) | nelson coelho de castro (1983) 

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lembrei de ambos, pois, naquele longínquo 1983, ninguém em são luís (que eu conhecesse) conhecia nelson coelho de castro. hoje ele é conhecido de muitos maranhenses amigos meus, que apresentaram sua música para amigos seus, até que ela chegou aos ouvidos de zeca baleiro, que antes de se tornar um compositor famoso no brasil e no mundo, conheci tocando no beco, a meia quadra do teatro. depois disso, como tínhamos (e ainda temos) muitos amigos em comum, acabávamos sempre nos encontrando pelas quebradas da ilha, ou em uma ou outra festa, que, naquela época, aconteciam todos os dias, a qualquer hora e em qualquer lugar.

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zeca baleiro : a arte da música de nossa ilha do amor.

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- e a fita?
- que fita? 
- a fita cassete
- o que quer que eu diga, você não vai entender, 
acho melhor o próprio zeca responder 

diz aí, zeca: 

zeca baleiro fala sobre uma tal fita cassete 
(clique no link acima)

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- e gal?

então, foi gal que me reapresentou zeca baleiro. depois que saí de são luís, em 89, não havia recebido mais nenhuma notícia dele. a primeira foi essa (vídeo abaixo), vê-lo e ouvi-lo cantando ao lado de gal. e agora que já sabem da história da tal fita e da minha relação de amizade com ele, acho que posso contar que zeca e eu namoramos a mesma estrela. uma estrela chamada sol. «solange era um sol no coração da cidade», escreveu o poeta. as coincidências, no entanto, param por aí. enquanto o meu com ela foi quase um «namorinho de portão», o deles foi uma grande história que virou canção. foi para ela que ele escreveu «flor da pele», entre 1989 e 1990, quando ainda viviam em são luís.

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ando tão à flor da pele
que qualquer beijo de novela me faz chorar
ando tão à flor da pele
que teu olhar flor na janela me faz morrer
ando tão à flor da pele
que o meu desejo se confunde com a vontade de não ser
ando tão à flor da pele
que a minha pele tem o fogo do juízo final

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oh, sim, eu estou tão cansado
mas não pra dizer
que eu não acredito mais em você
com minhas calças vermelhas
meu casaco de general
cheio de anéis
vou descendo por todas as ruas
e vou tomar aquele velho navio
eu não preciso de muito dinheiro
graças a deus
e não me importa, honey

minha honey baby
baby, honey baby
oh, minha honey baby
baby, honey baby

vapor barato/flor da pele | gal costa/zeca baleiro
(mtv ao vivo, 17 de julho de 1997)

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falando em honey baby, lembrei de it's all over now, baby blue
a canção que me deu o estalo para esse post. 

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vá, se mande, pegue tudo que você puder levar
ande, tudo que parece seu, é bom que agarre já
seu filho feio e louco ficou só
chorando feito fogo, à luz do sol

it's all over now baby blue | bob dylan (1965)
negro amor: versão de caetano veloso e péricles cavalcanti
canta: gal costa (fantástico, 1977)

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falando em sol lembrei de george harrisson
e lembrando de de george lembrei de dylan

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lá vem o sol, lá vem o sol
e eu digo que está tudo bem
lá vem o sol, lá vem o sol
está tudo bem

here comes the sun | george harrisson (1969)
concert of bangladesh (1971)

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no histórico concerto para bangladesh (1971), após george harrison cantar here comes the sun, ele convida bob dylan ao palco. o lendário compositor americano assume os vocais e o violão para apresentar um bloco com 6 de suas músicas mais icônicas. entre elas just like a woman.

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sim, eu acho que está na hora de terminar
e quando a gente se encontrar de novo
e formos apresentados como amigos
por favor, não conta que
quando me conheceu
eu era pobre e o mundo
era todo seu

just like a woman | bob dylan (1964)
concert of bangladesh (1971)
(legendado em português)

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chove em satolep
carpe diem
bom domingo

sábado, 18 de julho de 2026

 

vencidos

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carla -- ixpia so esta foto que resgatei na bebeth, acho que somos nós dois!
eu -- acho que sim. tu és tu, eu é que não sei se eu sou eu...
carla -- creio que sim, és tu, não nos separávamos nesta época,
como em outras tantas épocas.

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«não sei: talvez seja um sonho, tudo um sonho. (isso me surpreenderia.) vou acordar, no silêncio, e nunca mais dormir. (serei eu?) ou sonhar (sonhar de novo), sonhar com um silêncio, um silêncio onírico, cheio de murmúrios (não sei...).

você precisa continuar, é tudo o que sei.»

(samuel beckett em «o inominável»)

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tempo sem tempo

preciso de tempo, necessito desse tempo
que os outros deixam de lado
porque lhes sobra ou já não sabem
o que fazer com ele
tempo
em branco
em rubro
em verde
mesmo em castanho escuro
não me importa a cor
cândido tempo
que eu não posso abrir
e fechar
como uma porta

tempo para olhar uma árvore, um farol
para caminhar à beira de um descanso
para pensar que bom que hoje é inverno
para morrer um pouco
e nascer em seguida
e dar-me conta
e dar-me corda
preciso do tempo necessário para
chapinhar algumas horas na vida
e investigar por que estou triste
e acostumar-me ao meu velho esqueleto

tempo para esconder-me
no canto de um galo
e para reaparecer
em um relincho
e para estar em dia
para estar à noite
tempo sem recato e sem relógio

vale dizer, preciso
ou seja, necessito
digamos que me faz falta
tempo sem tempo.

mario benedetti

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whatsapp, 5 de julho de 2026

carla: muy buenos días, quase subo em um ônibus em direção a pelotas pra te ver, abraçar e conversar.

eu: à tua espera, hermanita del alma. muita saudade. beijo grande.

carla: na vida da nossa geração que possui tutano cerebral não foi e não é fácil pra ninguém... não fugi pra estrada porque a maria luiza, minha neta, está aqui em casa conosco depois de alguns meses sem nos ver.

eu: oh, hermana, por enquanto ainda tô me readaptando à cidade...

carla: não te preocupa, carinho, quero fugir mas podes ter certeza de que já não fujo assim, no mais, como há mais de 45 anos atrás... minha casa segue sendo tua casa, conta comigo...

eu: e a minha a tua, nossa estrada é a mesma, o ca(r)minho que vem é o mesmo que vai... conta comigo...conto contigo...

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canção de mim mesmo

«me canto e me celebro, me celebro e me canto. e se me canto e me celebro, te celebro e te canto, porque cada átomo que me pertence, te pertence, porque cada átomo que te pertence, me pertence, porque tu e eu somos a mesma coisa», dizia o velho whitman (em «canção de mim mesmo»).

sem mais o que dizer, só me resta cantar...

grill

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um certo dia eu perguntei a maria
se hoje é noite de são joão
meu quarto tem bandeiras
eu perguntei a maria dos santos
seu nome era benedito da lagoa
e tinha vinte e quatro anos de folia
e vinte anos de agonia no coração
eu perguntei a respeito das doenças da mente
da decadência do nosso grande hospital
e perguntei a respeito do planeta
girando numa roleta
bola do bem e do mal
eu perguntei a maria dos santos
quanto custa pra se viver?

maria dos santos | alceu valença (1977)

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«e aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos
por aqueles que não podiam escutar a música.»

nietzsche

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o universo é música

eu ia guiando o meu carro pelos caminhos de minas gerais enquanto ouvia o «messias» de haendel. percebi então, repentinamente (as revelações sempre acontecem de repente), as razões por que amo tanto aqueles lugares. é que lá eu retorno, ainda que por um curto espaço de tempo, ao mundo barroco, e experimento a felicidade da alienação... tudo é harmonia.

rubem alves

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com muito amor para todos os seres!
que possamos encontrar nosso reflexo em tudo o que vive!
re-habitando nosso poder.
reconhecendo que somos um com a mãe terra.

hiri canaro | palo mango (video oficial)

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nota

não conhecia essa música nem a banda; fui apresentado a elas pelo algoritmo. pedi, então, informações sobre o grupo ao gemini (ia). ei-las:

«palo mango é uma banda de música de medicina, meditação e xamanismo. hiri canaro é uma de suas canções mais conhecidas. «hiri» é um termo de línguas indígenas, é um chamado espiritual ou mantra. «canaro» remete a canto ou ao pássaro canário. a música usa cantos sagrados para cura e conexão. ela usa instrumentos suaves e vozes repetitivas. isso ajuda a relaxar a mente e entrar em estado de paz.»

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«ponho o sol no ombro e o mundo é amarelo»

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tava nessa vibe quando, do nada, olho para o lado e dou de cara com um disco de cátia.

— que cátia?
— cátia de frança.
— qual disco?
— 20 palavras ao redor do sol.

surge então a canção «ensacado»: uma condução de vogais que faz contraponto a imagens vividas. para ouvidos atentos, ali pulsa o barulho de sopa fervida — o alimento ensacado dos moinhos que sustenta a própria persona, que não é outra senão a do imaginário.

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moinhos não movem ventos
partidas não são só lenços
saudades não são soluços
nem solução pra espera
nem salvação dos pecados
tristezas não lavam pratos
resguardam restos, desejos
flores e frutos do mar
por isso muito cuidado
queime de febre e não dobre
não quebre nunca, não morra
não corra atrás do passado
nem tente o ponto final
aguente firme a picada
da abelha, daquela velha
melada melancolia
segure a barra, requente
o caldo da sopa fria
vá cultivando a semente
até que um dia arrebente o saco cheio de sol

ensacado | cátia de frança / sérgio natureza (1979)

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«disseram que eu inventava coisas.
eu apenas via o avesso do mundo que eles teimavam em chamar de real.»

autor desconhecido

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saúde mental

fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. e eu também pensei. tanto que aceitei. mas foi só parar para pensar para me arrepender. percebi que nada sabia. eu me explico.

comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. homens que tenho no meu coração. e logo me assustei. foram todos desajustados e infelizes.

van gogh, walter benjamin e maiakóvski cometeram suicídio. nietzsche ficou louco. fernando pessoa era dado à bebida. cecília meireles sofria de uma suave depressão crônica.

ajustamento produz contentamento.
a criatividade e a imaginação vêm do desajustamento.

as pessoas que amo não tinham saúde mental. então por que as amo? pelas coisas que elas produziram. as pessoas ajustadas são indispensáveis para fazer a engrenagem funcionar. mas só as desajustadas pensam outro mundo.

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 177

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«quisiera ser niña otra vez, medio salvaje, intrépida y libre...»

emily brontë

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oh, hermana

certa vez, quando eu era guri, de calça curta ainda, em santa vitória do palmar, tive a sorte de a carla nos visitar e passar uns dias conosco. foi então, e com ela, que ouvi pela primeira vez os beatles.

depois, quase adolescente, fui apresentado por ela a um disco de chico buarque. foi com ela que ouvi pela primeira vez cálice, pequeña serenata diurna, pedaço de mim, pivete, até o fim, tanto mar, feijoada completa e apesar de você.

na sequência vieram elis, tom, milton, bethânia, gal, caetano, gil... ednardo, elomar, dylan, os discos de jazz, os discos de rock, livros, revistas, artesanato, pintura...

mi hermanita é um mundo aberto, e foi de andar tão perto que o mundo se abriu para mim. hoje estamos longe, mas é como se estivéssemos perto. e assim será... até o fim...

disso estou certo.

grill
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a rosa também se muda
do campo para o deserto
de longe também se ama
quem não pode amar de perto

https://www.youtube.com/watch?v=8jLm-Q1lVL0&list=RD8jLm-Q1lVL0&start_radio=1
cantiga de manoel leandro | folclore do piauí
por: tarancón

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ao vento

de tudo que acabei de falar
o que mais me admira
são os dez anos que trabalhei
como instrutor de trânsito
tendo que falar de improviso
para turmas heterogêneas
e no final dos cursos
os alunos
via de regra
me aplaudirem de pé
acho que era a necessidade
ela opera milagres
a pergunta que não quer calar é
por que eu saí do cfc?
talvez um dia eu conte
ou não

grill

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«velho chico vens de minas
de onde o oculto do mistério se escondeu
sei que o levas todo em ti, não me ensinas
e eu sou só, eu só, eu só, eu»

caetano

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«mi voz es opaca y sin brillo
vale poca cosa para reforzar un coro
sin embargo
me sirve para rezar yo sólo.»

león felipe

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cantar

cantar e cantar e cantar
ao vento,
como quem respira por necessidade.
whitman diria que a américa é um coro de vozes rudes;
cecília, que o instante é o sopro do poeta;
galeano, que o silêncio é a morte do mundo;
drexler, que a música é o silêncio que aprendeu a soar;
espinosa, que a alegria é o grito da potência que se afirma.
e gonzaguinha, na voz de drexler,
canta que a beleza é a insistência
de continuar soltando a voz,
mesmo quando ela não ecoa.

grill

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y la vida
¿qué es la vida, mi hermano? esa es la cuestión
¿es acaso el latido de un corazón?
¿o una dulce ilusión? ay, vida
¿será que es maravilla o es sufrimiento?
¿será que es alegría, tal vez un lamento?
¿qué será, mi hermano, que la vida es?

¿qué será que es? | gonzaguinha (1982)
canta: jorge drexler
[clipe feito com imagens de super 8 do cantor e seus irmãos na infância.]

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ostra feliz não faz pérola
(fragmento)

no seu ensaio sobre «o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música», nietzsche observou que os gregos, por oposição aos cristãos, levavam a tragédia a sério. tragédia era tragédia. não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. a resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. a beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. a felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. ela se basta. mas ela não cria. não produz pérolas. são os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer.

rubem alves

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«comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.»

(idem)

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esto que estás oyendo
ya no soy yo
es el eco, del eco, del eco
de un sentimiento
su luz fugaz
alumbrando desde otro tiempo,
una hoja lejana que lleva
y que trae el viento

eco | jorge drexler (2004)
(con letra)

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whatsapp, 7 de julho de 2026

carla: «quem sabe direito o que uma pessoa é...», isa está fazendo sua cnh, meses atrás comentei que em outras circunstâncias tu podias ser seu instrutor para ela jamais cometer uma infração ou uma barberagem! te quiero mucho! um abraçaço

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oh, as irmãs da misericórdia
elas não partiram ou se foram
elas estavam esperando por mim
quando eu pensava que não poderia continuar
e elas me trouxeram seu conforto
e depois elas me trouxeram esta canção
oh, espero que você as encontre
você que tem viajado por tanto tempo

sister of mercy | leonard cohen (1967)
[live in london - legendado em português]

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nota


antes de tornar pública a nossa charla pelo whatsapp, perguntei a mi hermanita del alma, o que ela achava, se ela se importava...

mi hermana respondeu: «gosto muito do que escreves tenho uma identificação profunda com tuas palavras em tudo que escreves, conta comigo, possuis todo meu respeito e admiração.»

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aos terapeutas

albert camus escreveu no seu diário um pensamento que julgo ser merecedor de cuidadosa meditação dos terapeutas, especialmente psicanalistas: «por uma psicologia generosa: ajudamos mais uma pessoa dando dela própria uma imagem favorável do que apontando constantemente os seus defeitos e as suas derrotas».

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 178

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«recordar: do latim recordis, voltar a passar pelo coração»

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anos atrás, num almoço de páscoa, me chamaram idealista
e disseram que assim eu não chegaria a lugar algum.
tudo numa boa. conversa em alto nível. sem estresse.
no entanto, não era a primeira vez que acontecia.
cresci ouvindo isso. nada mais normal, portanto,
que estivesse preparado pra responder à altura.
foi o que fiz. falei de vencidos e de vencedores.
me disse dom quixote e lembrei
león felipe e darcy ribeiro.

grill

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«fracassei em tudo o que tentei na vida.
tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
tentei salvar os índios, não consegui.
tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
tentei fazer o brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
mas os fracassos são minhas vitórias.
eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.»

darcy ribeiro

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cuántas veces, don quijote,
por esa misma llanura,
en horas de desaliento
así te miro pasar
y cuántas veces te grito:
«hazme un sitio en tu montura
y llévame a tu lugar.»

vencidos | león felipe / joan manuel serrat (1971)
(con letra)

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