quarta-feira, 30 de setembro de 2026


educação da tristeza

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

maria elizabeth gastal fassa
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«a literatura acontece em todos os sentidos e não se inibe perante verdades ou mentiras. usa tudo, como alarve sem limites senão os da sua própria imaginação, a vontade de se instalar como substututa absoluta da vida. por vezes, a literatura tange a vida como se até nós nos confundíssemos, baralhados entre o que é verdade e o que parece verdade, seguindo por vias paralelas, permitindo viver numa fantasia cujo aparato nos apetece ou mais conforta.»
valter hugo mãe 

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«a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»

manoel de barros

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por que cresceste, curuminha
assim depressa, e estabanada
saíste maquilada
dentro do meu vestido
se fosse permitido
eu revertia o tempo
pra reviver a tempo
de poder

te ver, as pernas bambas, curuminha
batendo com a moleira
te emporcalhando inteira
e eu te negar meu colo
recuperar as noites, curuminha
que atravessei em claro
ignorar teu choro
e só cuidar de mim

deixar-te arder em febre, curuminha
cinquenta graus, tossir, bater o queixo
vestir-te com desleixo
tratar uma ama-seca
quebrar tua boneca, curuminha
raspar os teus cabelos
e ir te exibindo pelos
botequins

tornar azeite o leite
do peito que mirraste
no chão que engatinhaste, salpicar
mil cacos de vidro
pelo cordão perdido
te recolher pra sempre
à escuridão do ventre, curuminha
de onde não deverias
nunca ter saído

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(chico buarque, 1979)
mônica salmaso e chico 
(ao vivo)

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eduacação da tristeza
novos anos e, afinal ainda não há colônias na lua, não se fala com extraterrestres, não temos casas que mudam de posição conforme o sol, não somos nada teletransportados.

tudo quanto nos prometeram para o já distante ano 2000 foi mentira. ao invés disso, arranjaram a internet para imitar a realidade e convidar a uma cidadania de fantasia. na fantasia final, podemos elaborar sobre a felicidade, o bem-estar, o amor correspondido.
estamos cada vez mais entregues a essa dimensão sucedânea que nos mente uma compensação que não procede. os anos parecem só ser novos nessa transferência cada vez mais intensa e trágica que fazemos do que é verdade em prol daquilo que é mentira.

aceitamos a mentira, preferimo-la, vamos concebendo sua dignidade e sua necessidade. Por causa da poesia, do que ainda há de arte, de uns poucos amigos e da possibilidade de chegarem a mais primaveras e verões, estarei invariavelmente do lado da esperança, mas convicto de que espero assuzinhado, porque me parece que menos pessoas esperam algo que não seja apenas pior, menos bom, mais difícil.»
valter hugo mãe

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ao vento

no meio do caminho tinha uma «cadeira»
tinha uma «cadeira» no meio do caminho
tinha uma «cadeira»
no meio do caminho tinha uma «cadeira»

grill

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en el borde del camino hay una silla,
(na beira do caminho há uma cadeira,)
la rapiña merodea aquel lugar.
as aves de rapina sobrevoam aquele lugar.
la casaca del amigo está tendida,
(o casaco do amigo está estendido,)
el amigo no se sienta a descansar.
(o amigo não se senta a descansar.)
sus zapatos, de gastados, son espejos
(seus sapatos, de tão gastos, são espelhos)
que le queman la garganta con el sol.
que lhe queimam a garganta com o sol.
y a través de su cansancio pasa un viejo
(e, em meio ao seu cansaço, passa um velho)
que le seca, con la sombra, el sudor.
(que lhe seca, com a sombra, o suor.)

en la punta del amor viaja el amigo,
(na ponta do amor viaja o amigo,)
en la punta más aguda que hay que ver.
(no ponto mais agudo que se pode ve.)
esa punta que lo mismo cava en tierra,
(esse ponto que tanto escava na terra
que en las ruinas, que en un rastro de mujer.
(quanto nas ruínas, quanto em um rastro de mulher.)
es por eso que es soldado y es amante,
(é por isso que é soldadado e e é amante,)
es por eso que es madera y es metal.
(é por isso que é madeira e é metal.)
es por eso que lo mismo siembra rosas,
(é por isso que tanto semeia rosas
que razones de banderas y arsenal.
quanto razões de bandeia e arsenal.)

el que tenga una canción tendrá tormenta,
(quem tiver uma canção terá tempestade,)
el que tenga compañía, soledad.
(quem tiver companhia, solidão.)
el que siga buen camino tendrá sillas
(quem seguir o caminho certo encontrará cadeiras)
peligrosas que lo inviten a parar.
(perigosas que o convidem a parar.)
pero vale la canción buena tormenta,
(mas a boa canção vale a tempestade)
y la compañía vale soledad.
(e a companhia vale a solidão.)
siempre vale la agonía de la prisa,
(sempre vale a agonia da pressa,)
aunque se llene de sillas la verdad.
(mesmo que se encha de cadeiras a verdade.)

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(silvio rodríguez, 1969)

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«a bola que lancei
quando brincava no parque
ainda não tocou o chão»

dylan thomas

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¡pero eso sí!
y en esto soy irreductible no les perdono,
bajo ningún pretexto,
que no sepan volar¡

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(sobre poemas de mario benedetti e outros)

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«penso que existo numa ideia antiga que pessoas calmíssimas terão deixado ao mundo. sou essa ideia dessas pessoas mortas e generosas. só tenho de esperar entender essa ideia. deixá-la intensa, não para saber que livro escrevo. mas para saber quem sou. e, então, escrevo.»
valter hugo mãe

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cores e valores
por josé falero

na linha pontilhada vou indo, indo, indo
na terra cujo herói matou um milhão de índios
pelas marginais os pretos agem como reis
gostar de nós, tanto faz, tanto fez
me degradar pra agradar vocês? nunca!

cores e valores, racionais mc’s

«e o recepcionista do hotel que achou que eu não era hóspede?»

recebi essa mensagem da dalva, minha namorada. não existe tom em texto. pelo escrito, eu não tinha como saber qual era o estado de espírito da dalva naquele momento. a Dalva, então, mandou mais mensagens:

«fui deixar uns livrinhos para uma leitora que vai vir buscar no hotel.»
«o recepcionista fez uma cara ruim e perguntou se a pessoa que viria pegar os livrinhos era hóspede.»
«eu disse que eu era a hóspede.»
«e ele: "ah, tu é hóspede?".»

dalva é escritora independente. e lá estava ela, num hotel em porto alegre.

recorri ao meu último lançamento em são paulo para responder à dalva. comentei que estive hospedado em um hotel tão pomposo quanto aquele e que também houve suspeitas quanto à minha condição de hóspede. três pessoas pensaram que eu estava lá para realizar algum tipo de trabalho braçal. tudo isso durante o tempo que levei para fumar um cigarro.

fui a um bar. queria ficar quieto um pouco, olhando para o nada e pensando na conversa que a gente tinha acabado de ter.

«ah, tu é hospede?»

conheço constrangimentos assim muito bem. já amarguei situações semelhantes muitas vezes desde que me tornei escritor e passei a circular por espaços que historicamente não foram reservados para pessoas como nós. em geral, porém, a verbalização involuntária do que pensam e sentem a nosso respeito não é, em si, o que mais me incomoda. tal verbalização não passa de uma pequeníssima cereja; o restante do bolo, que é tácito, me perturba muito mais. o recepcionista deixou escapulir por acidente aquilo que passou não só pela sua mente e pelo seu coração, mas pela mente e pelo coração de todos, absolutamente todos os que cruzaram com a dalva naquele hotel. todos. do funcionário ao hóspede. e esse é o problema real.

enquanto bebia a minha cerveja, lembrei de um episódio do chapolin colorado: a vendedora de flores. trata-se de uma paródia de my fair lady, que é uma adaptação da peça pigmalião, que se baseia no mito de pigmalião.

o sentido da história é a insinuação de que a expectativa que temos a respeito da realidade, antes mesmo de a realidade em si se manifestar, determina como a realidade vai se manifestar depois.

lembrei de finado neguin, do álbum cores e valores:
quem, quem permitiu?
deus dirigiu esse filme
dizem: crime é o rap
dizem: rap é o crime
dizem: rap é o crime
você diz, você decide
o resto só coincide
e aí temos tudo: como causa, a expectativa e, como efeito, a realidade. o classicismo e o racismo fazem com que o rap seja percebido antecipadamente como sinônimo de criminalidade; a mentalidade espera que a realidade coincida com a sua visão de mundo; e a realidade de fato costuma coincidir.

robert rrosenthal e lenore jacobson conduziram um estudo sobre como as expectativas afetam o desempenho e deram o nome de efeito pigmalião; já robert k. merton preferiu batizar o fenômeno de profecia auto-realizável, porque quem faz a profecia é, na verdade, quem a faz acontecer.

e no caso da dalva, também coincidiu. ciente de que não era avaliada como hóspede por ninguém naquele maldito hotel, ela não conseguiu comportar-se como tal. passou todos os dias da hospedagem encerrada no quarto. não queria ser vista por ninguém, não queria interagir com ninguém. não queria ser submetida ao constrangimento infalível que um lugar como aquele provoca em uma pessoa como ela.

mas pensar sobre essas coisas todas só me fez perceber o quanto dalva é mesmo uma figura incrível. ao longo de sua trajetória, nunca, em nenhum momento, dalva deixou de ter sobre si o peso do machismo, do racismo, do classicismo, tudo isso a esmagá-la. do que essa mulher não seria capaz em uma sociedade mais justa?

a grande sacada do episódio do chapolin colorado foi trabalhar a ideia da troca horizontal entre os participantes de um processo de transformação. no final, o homem que transformou a vendedora de flores agora fala gírias e veste-se de maneira desalinhada. por que prontamente imaginamos que, nessa troca, o homem foi prejudicado e ela beneficiada? essa é a lente do classicismo.

certa vez, dalva me disse que a minha camisa polo não tem o poder de me transformar no joão dória. a camisa depõe menos a favor da minha figura do que a minha figura contra a camisa. eu e a camisa estamos em relação, e nessa relação eu desfalco muito mais o valor simbólico da camisa do que a camisa consegue acrescentar valor simbólico a mim.

a marca da minha camisa polo depõe menos a meu favor do que eu contra ela; o hotel de luxo depõe menos a favor da dalva do que a dalva contra ele. na verdade, esse fenômeno ocorre até mesmo aqui, neste texto.

um texto escrito por mim jamais vai depor a meu favor tanto quanto eu deponho contra ele. um texto escrito por mim sempre parecerá menos bom do que realmente é, porque fui eu que o escrevi, porque o escrevi com a minha mão parda, porque o pensei com a minha cabeça mestiça, porque o construí com as minhas referências populares, porque o concebi com o ódio perpétuo dos oprimidos. sim, eu deponho contra o meu próprio texto. toda a literatura contemporânea parece menos valorosa porque uma pessoa como eu escreve e publica, porque uma pessoa como dalva escreve e publica. não acreditam que somos hóspedes? no fundo, também não podem acreditar que somos escritores.

embora, é claro, alguns saibam disfarçar melhor do que outros.
(texto escrito para a bienal do mercosul 2025)

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eu venho de um recanto escuro
o sol, luz perpendicular
do outro lado azul do muro
não vou saltar

eu chego às portas da cidade
e nada procuro fazer
espero, nem feliz nem gaia
acontecer

não salto, mas sou carregada
por asas que a gente não tem
a luz não me fulmina os olhos
nem vejo bem

em breve, só saio de noite
a lua não me rasga o peito
cool jazz me faz feliz e só
não tenho jeito

o álcool só me faz chorar
convidam-me a mudar o mundo
é fácil, nem tem que pensar
nem ver o fundo

o chão da prisão militar
meu coração, um fogareiro
foi só fazer pose e cantar
presa ao dinheiro

mas é sempre o recanto escuro
só deus sabe o duro que eu dei
mulher aos prazeres, futuro
eu me guardei

coisas sagradas permanecem
nem o demo as pode abalar
espírito é o que, enfim, resulta
de corpo, alma, feitos, cantar

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(gal, 2011)

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de volta a valter hugo mãe
(ao seu comovente livro)

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em 27 textos de não ficção, a maioria bem curtos, o autor traz reflexões íntimas e profundas sobre morte, luto, a passagem do tempo, como lidar com a presença e ausência das pessoas queridas que partem, além de filosofar sobre o sentido do amor e da vida. numa edição muito bem cuidada, em que os textos são ilustrados pelo próprio autor, na orelha do livro, os editores afirmam que «com rara autoconsciência, educação da tristeza é o cantinho escuro do quarto onde valter se sente livre para rir de si mesmo, brincar, chorar, sentir saudades e, acima de tudo, se abrir para mostrar seu lado mais humano, falível e belo justamente por ser assim».
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impossível não se comover com a profundidade das reflexões do escritor português. a morte motivou a criação deste livro, mas valter hugo procura refletir sobre como continuar a viver apesar da dor. e vê na perda da amiga e do sobrinho este ensinamento.

«estás na morte. digo que estás na morte porque sinto que é um lugar onde ainda vou chegar, quando descobrir o caminho, entender o mapa.
eu penso que a morte é um lugar por dentro de nós, um território mapeado no caminho interior que todos temos e tememos.»

«o eduardo passou mais de dois anos a ensinar a mais limpa e generosa arte de morrer. os gênios, como ele se tornou, educam até a morte, educam até deus.
o eduardo alcançou a sapiência. viu a grandeza da vida, entendeu o sentido. no tabuleiro da vida, onde se busca o sentido, ele não perdeu. ele entendeu.».
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apesar da radicalidade da perda que é a morte, as duas lições são extensíveis a tantos outros motivos de tristeza passíveis de serem erradamente interpretados com os filtros das distorções cognitivas: uma amiga que nos desilude; uma relação que termina; o retorno que (não) temos das coisas que fazemos, o qual nem sempre coincide com o tempo e o esforço que lhes dedicamos… podemos ter feito tudo o que está ao nosso alcance para evitar que estas coisas aconteçam, e mesmo assim elas acontecerem. isso não significa necessariamente, nem que tenhamos culpa, nem que só aconteça conosco, nem que nunca mais consigamos ser felizes. aceitar e reconfigurar não se trata de criar ficções a propósito das perdas e das desilusões, trata-se de não acrescentar um problema ao problema. mas o problema é que o problema insiste, persiste.
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o problema senhor
segue sendo semear amor

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(silvio rodríguez, 1991)

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vida que segue

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«não importa o que fizeram com você. o que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você»
jean-paul sartre

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cartas a théo
é verdade que ora ganhei meu pedaço de pão, ora ele me foi dado por bondade de um amigo; vivi como pude, nem bem nem mal, como dava; é verdade que perdi a confiança de muitos, é verdade que meus assuntos financeiros estão em um estado lastimável, é verdade que o futuro parece bastante sombrio, é verdade que eu poderia ter feito melhor, é verdade que eu perdi tempo quando se tratava de ganhar a vida, é verdade que meus estudos estão em um estado lamentável e desesperador, e que minhas necessidades são maiores, infinitamente maiores do que meus recursos. mas vocês chamam isso de cair, de não fazer nada?

eis como eu vejo a coisa: continuar, continuar, isso é que é necessário.
van gogh, julho de 1880

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ao vento 

a cor preferida de van gogh era o amarelo.
o que começou com pontinhos foi se tornando um grande sol.

«ponho o sol no ombro
e o mundo é amarelo».

grill

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y el señor dijo a abraham:
abandona tu tierra natal
y la casa de tu padre,
y ve al país que yo te indicaré.
haré de ti una gran nación,
te bendeciré
y por ti se bendecirán todos los pueblos de la tierra.
el señor dijo a abraham.
esa bella y sabia orden,
fue la que convenció a mi corazón
a decidir que el mundo fuese mi casa.
el mismo mundo que puso
al alcance de mi espíritu
la canción que me refleja
como ningún espejo.

no soy de aquí, ni soy de allá
no tengo edad, ni porvenir
y ser feliz es mi color de identidad.

👇

(facundo cabral, 1970)
introducción: poema «el caminante»

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 29 de setembro de 2026

 

somos

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— quem estará nas na trincheiras ao teu lado?
— ao meu lado há um amigo que é preciso proteger
— e isso importa?
— mais do que a própria guerra

colagem de fragmentos
ernest hemingway e «os saltimbancos»
(chico buarque / sergio bardotti)

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todos juntos somos fortes
somos flecha e somos arco
todos nós no mesmo barco
não há nada pra temer

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(os saltimbancos, 1977)
chico buarque e mônica salmaso
(que tal um samba? ao vivo)

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somos
como esos viejos árboles
batidos por el viento
que azota desde el mar

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(josé antonio labordeta, 1984)
[clipe oficial]

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ao vento

tenho velhos amigos
que são como vinho
todavia são raros
no máximo uns cinco ou seis
a maioria já abandonou o barco faz tempo
e daí? daí nada
esse cinco ou seis são como se fossem remos pra mim
barco que segue

grill

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finco o meu remo na água
levo o teu remo no meu
creio ter visto uma luz
no outro lado do rio

👇

(jorge drexler, 2004)
[clipe oficial]

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somos el barco, somos el mar,
yo navego en ti, tu navegas en mi.
el arroyo le canta al río
el río le canta al mar
y el mar le canta al barco
que lejos nos va llevar

👇

(pete seeger/león gieco, 1989)

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barco que segue

♦

lá vai uma vela aberta
se afastando pelo mar
branca visão que desperta
anseios de navegar

👇

(walter franco, 1979)

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#lula2026
#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

segunda-feira, 28 de setembro de 2026


(re)nascer leva tempo

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o grande encontro
vitor ramil / leonard cohen
quem pela água / quem pelo fogo

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neste fim de tarde ao sul
quem virá?

neste fim de tarde sem fim
quem irá
me encontrar
me encontrar
me encontrar

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(hermenegildo, de vitor ramil)
direção e produção: luis rubira

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quem pelo fogo, quem pela água
quem à luz do sol, quem à noite
quem por alta provação, quem por sofrimento comum
quem em seu feliz feliz mês de maio
quem por decadência muito lenta
e quem eu devo dizer que está chamando?

quem nestes reinos do amor, quem por algo contundente
e quem pela avalanche, quem pela pólvora
quem por sua ambição, quem por sua fome
e quem eu devo dizer que está chamando?

e quem por bravo consentimento, quem por acidente
quem em solidão, quem neste espelho
quem por ordem da mulher, quem por sua própria mão
quem em correntes mortais, quem em poder
e quem eu devo dizer que está chamando?

(leonard cohen, 1974)
[live in london]

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(re)nascer leva tempo
voltei de são luís no final de 2008. alguns meses depois, no início de 2009, eu entrava no estúdio da rádiocom, para fazer aquele que eu pensava seria o último américas. o que me motivou a voltar (pelotas) e a voltar a fazê-lo (américas) foi a vivi. vivi ouvia falar do américas, mas nunca o havia escutado. sabedor de sua admiração pela obra de vitor ramil, fiz, na época, um américas que tinha vitor como centro. além de vivi e de mim, quase ninguém sabe desse américas. não fiz questão de divulgá-lo. a ideia era fazer um américas «que eu não possa ler, nem desejar / que eu não possa imaginar»...
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oh, vento que vem
pode passar
inventa fora de mim
outro lugar

fora de mim
outro lugar

vento
que vem das esquinas
e ruas vazias
de um céu interior

(vitor ramil, 2007)
[clipe oficial]

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corre o vento, o rio passa...
e o américas volta ao berço

produção e apresentação: enilton grill
rádiocom - pelotas - rs
27 setembro 2024

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#américas
#radiocom
#vitorramil
#leonardcohen
#luisrubira

domingo, 27 de setembro de 2026


mora na filosofia 
(para matheus valente)

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«a felicidade mora ao lado
e quem não é tolo pode ver»

o sal da terra

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ao vento

meses atrás, no café, vivi me contou sobre uma colega que lê todos os dias passagens da bíblia, numa versão moderna, com linguagem atual, na qual a autora sempre termina o trecho com a frase: «quero ser luz e sal da terra».

— não sei por que ela escreve «sal da terra» se é «sol da terra» — diz a colega para a vivi.

— tu nunca ouviste esse termo «sal da terra»? — pergunta vivi.

vivi, então, explica para ela o significado de «sal da terra».

— que lindo! — diz ela.

vivi saiu para a cidade, foi trabalhar, e eu fiquei aqui com mais uma história para contar.

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anda, quero te dizer nenhum segredo
falo nesse chão da nossa casa
vem que tá na hora de arrumar
tempo, quero viver mais duzentos anos
quero não ferir meu semelhante
nem por isso quero me ferir
vamos precisar de todo mundo
pra banir do mundo a opressão
para construir a vida nova
vamos precisar de muito amor
a felicidade mora ao lado
e quem não é tolo pode ver

👇

(contos da lua vaga, 1981)

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«caminhante, não há caminho
faz-se caminho andando»

cantares

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um rio que não para de cantar 

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lindo cerro colorado,
cerro de piedras pintadas.
alguna vez volveré
por tus senderos de cabras.

la guitarra bajo el poncho
y una tonada sencilla.
siempre juntos, como viven
la piedra y la doradilla.

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 alemania occidental por swf badén- badén + macondo film 
gmbh + alfredo troncoso west deutscher fresen kóln 
dirección: josé montes baquer 
música: atahualpa yupanqui 
año: 1985
(parte 1 de 4 )

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corre o vento, o rio, velho músico, segue andando, andando...

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ismaco
no fio dos cumes, caiu a tarde. as sombras vão devorando os detalhes, mas sobre a linha dos cerros distantes desenham-se ainda as claridades.
os jovens as olham e tecem desejos e quimeras; os velhos averiguam nelas o tempo que fará amanhã.
pouco a pouco o campo vai se povoando de estremecimentos. insinua-se a sinfonia do ocaso, com um adágio a cargo dos violinos invisíveis do pajonal; em seguida, a melodia se firma na flauta dos grilos que dialogam com o rumor dos matos.
os algarrobos querem fazer seu canto na viração, e as nuvens se detêm por um momento a escutar.
o rio, velho músico, segue andando, andando...

cerro bayo, novela de atahualpa yupanqui, p. 9

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a estrada
hoje estou no oregon, deixando portland para trás e viajando rumo ao sudoeste, atravessando verdes escuros e cinzas suaves e nevoentos no meu agradável casulo de ruídos de ônibus, na direção dos morros e vales amplos e suaves do norte da califórnia. sei exatamente onde estou, claro. neste país, são as árvores que te contam.

minha mente divaga, se detém num problema que estou tendo com a banda na performance de «rusty cage», a canção do soundgarden que gravei para o álbum «unchained»; depois volto a refletir sobre a história da minha vida. penso em pete barnhill, um amigo que fiz quando tinha uns treze anos. ele tinha um violão. também tinha o que chamávamos de paralisia infantil, conhecida depois como poliomielite, que aleijou sua perna direita e encolheu o braço direito, o qual tinha quase a metade do tamanho do esquerdo. ele se adaptou bem. escrevi sobre ele no encarte do «american recordings»:

«com sua mão esquerda, ele fazia os acordes, enquanto tocava um ritmo perfeito com sua minúscula mão direita. pensei que, se pudesse tocar violão daquele jeito, algum dia cantaria no rádio.»

pete era uma inspiração em vários aspectos. eu nunca havia sido próximo de alguém que tocasse violão, com exceção da minha mãe, quando era muito pequeno. eu achava que ele era o melhor violonista do mundo. para mim ele era maravilhoso, e o som que fazia era puramente celestial.

um dia eu lhe disse: «sabe, pete, você tem paralisia infantil mas sabe tocar violão de verdade».

sua resposta me impressionou muito: «às vezes, quando você perde um dom, ganha outro».

daquele momento em diante, não pensei mais nele como um deficiente; pensava nele como alguém que tinha um dom. eu me entristecia quando os outros garotos riam de pete. eles o viam ir mancando pelos três ou quatro quilômetros que separavam sua casa da cidade e o imitavam. eu também o imitava, mas não daquele jeito: meu jeito de tocar violão vem dele, tocando a base e solando ao mesmo tempo.

pete, como eu, era louco por música — foi a primeira pessoa que eu soube que também era assim —, e nós dois éramos loucos pelo rádio. o rádio significava o mundo para nós, literalmente.

lembro-me claramente do dia em que compramos o nosso, um «sears roebuck» com uma grande bateria, encomendado pelo correio e adquirido com o dinheiro do empréstimo que papai tomou do governo no ano em que ele e roy começaram a limpar nossa terra. lembro da primeira canção que escutei, «hobo bill's last ride», de jimmie rodgers, e como a imagem de um homem morrendo sozinho num vagão congelante me pareceu tão real, tão familiar. lembro de meu pai indo para a cama todas as noites às 20h05, depois do noticiário, e gritar para mi e para jack: «ok, garotos, hora de ir para a cama! apaguem a luz! desliguem o rádio!» jack diminuía a intensidade de sua lâmpada a óleo e se debruçava sobre a bíblia. eu baixava o volume e encostava minha orelha direita no rádio. a música que ouvia se tornou a melhor coisa da minha vida.

mas meu pai não gostava nada disso. dizia: «você está perdendo seu tempo ouvindo esses discos no rádio. isso não é de verdade, sabe? essas pessoas não estão lá. é só um cara sentado tocando uns discos. por que você ouve essas coisas de mentirinha?».

eu respondia: «mas é tão real quanto foi no momento em que eles cantaram e gravaram o disco. é a mesma coisa».
«mas não é de verdade, é só um disco.»
«não importa. o som é bom. eu gosto.»
«bem, você está sendo enganado por essas pessoas», ele concluía. «isso não vai te dar um sustento. você não vai fazer nada de bom enquanto tiver essa música na cabeça.»

eu odiava ouvir isso, mas talvez tenha servido a um propósito. queria muito provar que ele estava errado. e que minha mãe estava certa. ela percebia que a música estava em mim, assim como estava nela e tinha estado em seu pai, john l. rivers, que lhe ensinou a harmonia a quatro vozes e era o cantor principal do coral da igreja. dizem que era um ótimo cantor.

lembro dele como um homem amável. ele e minha avó rivers eram almas boas, o sal da terra, muito estimados e respeitados pela comunidade.
cash - a autobiografia de johnny cash, p. 53, 54 e 55

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exceções à parte
grande parte das coisas que a maioria dos mais velhos dizem ser boas
acredito do fundo da alma que são ruins
sendo assim
não vou por aí
só vou por aqui
por onde me levam meus próprios passos
caminante, no hay camino
se hace camino al andar
mas porém, contudo, todavia
alguns acreditam que todo o terreno da vida humana já foi trilhado
há quem diga
por exemplo
que o sábio salomão prescreveu regras até para a distância entre as árvores
que hipócrates deixou instruções sobre a maneira de cortar as unhas
mas as capacidades do homem jamais foram medidas
o que se tentou até hoje foi muito pouco
só 10% de nossa cabeça animal, cantou um louco
sendo assim
eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada, cheia de dentes
esperando a morte chegar
que as pessoas sonhem, fantasiem, imaginem
a mente humana está cheia de imaginação
tente outra vez

👇

(releitura: solo fértil)

mas
como eu ia dizendo
se eu fosse contar como queria passar a minha vida alguns anos atrás eu diria apenas que
a qualquer tempo, a qualquer hora do dia e da noite, eu ansiava em penetrar na cunha do tempo; colocar-me no cruzamento de duas eternidades, o passado e o futuro, que é exatamente o momento presente
o homem não é nada mais do que faz a si próprio
és livre
escolhe
inventa
que estás aqui
que existe vida e identidade
que a potente peça prossegue
e tu podes contribuir com um verso
não digo que todos venham a entender tudo isso
mas este é o caráter daquele amanhã que o o mero decorrer do tempo jamais fará alvorecer
a luz que extingue nossos olhos é escuridão para nós
só amanhece o dia para o qual estamos despertos
o dia não cessa de amanhecer
nasce a cada amanhecer uma semente e seus frutos
o sol é apenas uma estrela da manhã

♦

abra os olhos aos poucos
não deve se preocupar
veja a grandiosa energia
sinta o momento para acordar
ouvindo a voz da natureza
ter a certeza que o sol vem
e ele vai brilhar

👇

(viver de verdade, 2021)
solo fértil [participação: enilton grill]

♦ 

e a vila do sossego?

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«vila do sossego» surgiu na casa de mesmo nome, que ficava no bairro de manaíra, em joão pessoa, próximo à praia. ela ficava em uma rua de terra batida - que hoje já está asfaltada, e mudou tanto que eu nem sequer consigo lembrar da casa, quando passo por lá. isso foi em 1974. a casa pertencia a uma tia minha, a tetê, que a liberou para que eu passasse uma temporada por lá. foi na época em que eu vim pela primeira vez ao rio, quando realizei, junto com o geraldinho azevedo, um show no teatro opinião, chamado "sopa de morcego na boca do rock". o show começava à meia-noite, e obviamente foi um fracasso total - quem viria à meia-noite ver dois caras completamente desconhecidos? de qualquer maneira, foi meu pontapé inicial aqui no rio... quando retornei a joão pessoa, já tinha um repertório montado. na época eu só tocava rock e blues. aí resolvemos montar o show por lá também. tínhamos o argumento de já tê-lo apresentado no rio... meu primeiro filho, o cristian, era recém-nascido. bem, com a casa na mão, nós nos instalamos. eu era totalmente crazy, hippie, desembestado. a vila do sossego foi muito importante para mim. logo que mudamos eu coloquei uma plaquinha de isopor na entrada, escrito «vila do sossego», que se tornou um point entre os malucos que faziam parte de minha turma. eram rapazes e moças que «puxavam» um fumo, universitários, artistas, pessoas que procuravam um papo mais inteligente, distante das conversas sobre novela e futebol. obviamente, o clima era meio «riponga»; a casa não tinha móveis, eram almofadas espalhadas pelo chão, ouvia-se música o dia inteiro, etc. ali foram realizadas muitas cantorias de violeiros. foi durante esse período que eu mergulhei na literatura. lia muito, sem parar, e dessas leituras é que surgiu a inspiração para compor a música. a letra de «vila do sossego» é quase toda ela baseada nos títulos e trechos de livros que eu estava lendo. por exemplo, havia acabado de ler papillon, e me referi a isso.
zé ramalho, o poeta dos abismos, p. 177

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ó, eu não sei se eram os antigos que diziam
em seus papiros, papillon já me dizia
que nas torturas toda carne se trai
e normalmente, comumente, fatalmente, felizmente
displicentemente, o nervo se contrai
com precisão

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(zé ramalho, 1978)

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falando em papillon, o livro:
«je ne regrette rien. j'ai vécu des mois de liberté absolue... j'ai connu l'amour pur et l'amizade sincère.» (tradução livre: «não me arrependo de nada. vivi meses de liberdade absoluta... conheci o amor puro e a amizade sincera.»)
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falando em amizade sincera...
o que é um amigo?
um amigo...
«muitas vezes "um” não sabe quem é…»
de acordo com atahualpa yupanqui, é «um mesmo com outra pele»

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falando em amigo
escreveu sobre mim
nos meus 50
um que hoje faz 32

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«já tive cabelo raspado
deixei crescer depois de conhecer um cabeludo que havia chegado
já fui colorado
acoampanhei os jogos com meu pai, minha irmã e meu cunhado
.
escutava de tudo sem entender quase nada
se hoje escuto chico, caetano, gil, león, dylan e atahualpa
escuto e compreendo por causa desse cara:
enilton grill, todos os américas juntos aqu no sul do brasil
.
50 anos de um jovem latino-americano
50 anos de sonhos sonhados, realizados
e continuemos sonhando
50 anos de meu cunhado hermano
.
"todos hablan de su pago
como si fuera el mejor.
mi querencia es el caamino
bajo la luna y el sol"

atahualpa
.
caminhando por esse brasil
pra lá e prá cá, histórias mil
até que chegou por aqui, se aquerenciou
e para minha irmã deu o sobrenome grill
.
"pa versiar, yo necesito
cancha libre y atención.
corro de un solo tirón
montao en mis sentimientos
lo que mme falta de aliento
me suebra de corazón"

atahualpa
.
coração caminante
coração gigante
corazón hecho de poesia
coração de pura essência e alegria
.
"la tierra es toda cantares
como pasto van brotando
tu te pones a escucharla
y ella te los va dictando"

atahualpa
.
escutando a terra, escutando a vida
aprendeu lições que não passaram despercebias
escutou com atenção, guardou tudo no coração
dos cantares de la tierra, ouvi uma cançãao
uma música que me trouxe um irmão
à terra e à vida eus sou grato
por ter me dado um irmão, um amigo, juntos
no meu cunhado

dale cunhado!»

matheus valente

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somos todos irmãos da lua
moramos na mesma rua
bebemos no mesmo copo
a mesma bebida crua
o caminho já não é novo
por ele é que passa o povo
farinha do mesmo saco
galinha do mesmo ovo
mas nada é melhor que a água
a terra é a mãe de todos
o ar é que toca o homem
e o homem maneja o fogo
e o homem possui a fala
e a fala edifica o canto
no canto repousa a alma
da alma depende a calma
e a calma é irmã do simples
e o simples resolve tudo
mas tudo na vida às vezes
consiste em não se ter nada

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(cantigas de abraçar, 1982)

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fotos: vivi valente

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas