no rastro da lua cheia
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meus super-heróis
por fausto wolff
1. edgar allan poe
o homem era alto, magro, cabeça enorme. pobre, órfão de pai e mãe, criado por um tutor militarista. escreveu, entre outras obras-primas, o primeiro romance de detetive. ignorado no seu país, foi traduzido por baudelaire. em 1839, já havia publicado dez livros que lhe rendiam menos do que me rendem os meus. num cubículo da filadélfia editou o graham's magazine. ganhava US$ 800 por ano e conseguiu aumentar a tiragem da revista de cinco mil para 45 mil exemplares. em 1842 sua mulher morreu de tuberculose. ele desmoronou. foi despedido. ninguém lhe dava um emprego decente. foi largado nu em uma sarjeta pedindo que lhe dessem um tiro nos miolos. morreu dois dias depois, aos 38 anos. no seu túmulo, apenas o número 80. trinta anos depois, já reconhecido como o melhor escritor nascido em solo americano, os cidadãos de boston recolheram dinheiro para lhe dar uma sepultura digna onde inscreveram a frase «and the raven said never more« (e o corvo disse: nunca mais).
2. vincent van gogh
o homem era alto, magro, cabeça enorme, mas não era feio, como se diz hoje em dia. usava uma barba ruiva porque quando menino uma garota lhe dissera que tinha o queixo pequeno. todo emoção e timidez, a vida lhe doía. aos 20 anos, todos os domingos caminhava 40km só para ver de longe uma jovem que amava. um dia, ela lhe disse da janela que era noiva. trabalhou numa galeria, foi professor elementar, pastor, lavrador e levou seu cristianismo ao extremo, trabalhando de sol a sol e dormindo no chão. embora só começasse a pintar em 1881, fez 900 telas e 1.100 desenhos sem que tenha conseguido vender um em vida. tinha crises de loucura e numa delas, em arles, atacou gauguin com uma navalha. depois cortou o lóbulo da própria orelha e deu-o a uma prostituta. foi internado na clínica do dr. gachet, mais louco do que ele. o retrato que fez do dr. gachet, uma obra menor, foi vendido há alguns anos por US$ 84 milhões.
3. lima barreto
o homem era baixo, magro, doente, mulato claro. certa vez o gerente de uma livraria no centro do rio pediu firme, mas delicadamente, que se retirasse, pois seu cheiro de cachaça perturbava os clientes. era odiado pelos esnobes por ser anarquista e pelos militares porque, quando membro do júri, acusou um deles da morte de um estudante. expulso da livraria, voltou para casa o grande escritor brasileiro. lá morreu de enfarte em 1922, aos 41 anos.
4. auguste rodin
o homem era alto, magro, barbudo. passou de 1914 a 1917 perambulando pelas repartições públicas de paris, pedindo ao governo uma quantia que julgava lhe ser devida para poder se manter. havia sido o artista mais prestigiado, premiado e querido da frança e uma unanimidade mundial. no verão de 1917, aos 77 anos, pediu ao governo que lhe cedesse um quartinho, o que foi recusado. morreu de frio num parque alguns dias depois. todas as esculturas e estátuas que doara ao governo estavam abrigadas no calor dos museus.
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como nossos pais
leio teses e mais teses a respeito das redes sociais e sua influência sobre nós.
a principal delas, ou uma das mais citadas, é a de umberto eco.
nela, o escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano diz, textualmente:
«as mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do prêmio nobel.»
não discordo. quem sou eu pra discordar do grandioso umberto eco.
mas me pergunto: quem serão os imbecis a que ele se refere (já que não sou ganhador de prêmio nobel, e passei mais da metade da minha vida falando só em bar, depois de muitos copos de plástico de vinho barato, sem nunca ter causado dano a ninguém, a não ser a mim mesmo).
pergunta imbecil, feita por um imbecil.
os imbecis nunca somos «nós», são sempre «eles»
e assim caminha a imbecilidade...
gasta-se muito latim para tentar entender por que a tecnologia tem nos deixado mais tristes e solitários. é verdade. não discordo. mas o pensamento simplista pode nos levar a crer que a culpa - por não sermos mais sensíveis, mais humanos, mais solidários e mais felizes - é da internet. pode ser... talvez antigamente as coisas fossem diferentes... vai ver dostoiévski --- sua vida foi marcada por pobreza, prisão, epilepsia e um vício severo em jogos --- era feliz e não sabia. pode ser... quem sou eu pra dizer que não?
quando fui - com meu pai, com minha mãe e com meus irmãos - morar em santa vitória, a cidade nos foi acolhedora, não tinha tv, nem telefone residencial, o carro ficava aberto com a chave dentro, as pessoas tomavam mate na frente de casa, os vizinhos se visitavam e conversavam sobre tudo e sobre todos. tudo era lindo e maravilhoso... menos o bullyng que eu sofria por usar óculos e ter nascido em pelotas.
moral da história:
nosso problema não é o facebook
nosso problema não é a televisão
nosso problema não é o rádio
nosso problema somos nós mesmos
não estou com isso querendo dizer que é melhor ficar na internet e/ou vendo televisão do que jogar bola e/ou visitar alguém e/ou tomar mate na praça enquanto seu lobo não vem. sou imbecil mas não é pra tanto, também.
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el problema no es
si te buscas o no más problemas.
el problema no es
ser capaz de volver a empezar.
el problema no es
vivir demostrando
a uno que te exige
y anda mendigando.
el problema no es
repetir el ayer
como fórmula para salvarse.
el problema no es jugar a darse.
el problema no es de ocasión.
el problema, señor,
sigue siendo sembrar amor.
el problema | silvio rodríguez (1991)
(com letra)
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o vazio existencial
a canção «el problema» foi composta pelo cubano silvio rodríguez no ano de 1991.
o ano de 1991 foi um dos períodos mais transformadores da história moderna, marcado pelo fim de uma era geopolítica, o nascimento da internet pública e grandes marcos culturais.
em 26 de dezembro, a união sovética chegou oficialmente ao fim.
em janeiro, uma coalizão liderada pelos estados unidos iniciou os bombardeios contra o iraque (operação tempestade no deserto).
em agosto, o cientista tim berners-lee lançou o primeiro website da história, permitindo que a internet começasse a se espalhar pelo mundo.
em 24 de novembro, o mundo perdeu freddie mercury, o icônico vocalista da banda queen, em decorrência de complicações da aids.
o filme «o silêncio dos inocentes» estreou nos cinemas, tornando-se um clássico absoluto do suspense.
de volta ao começo
em 1976, em um mundo analógico regido por cartas e discos de vinil, belchior já cantava em «como nossos pais» o peso esmagador do isolamento e da estagnação, provando que a frustração geracional e a melancolia independem de conexões de internet.
vida que segue...
quase cinco décadas depois, em 2022, almir sater atualiza esse mesmo cenário em «verdade absoluta», ao pedir perdão aos novos tempos e seus «reinos virtuais».
antes do fim
a verdade é que a velocidade e o alcance das redes sociais mudaram apenas a escala, e não a essência, desse vazio. trata-se de uma evolução proporcional à mudança dos tempos: assim como o telefone silenciou o hábito das cartas e a televisão esvaziou as conversas de calçada, as telas de cristal de hoje apenas mudaram o endereço das velhas angústias humanas.
enfim
«desde que a roda girou
e o mundo acelerou
nesse bom e velho império
tem um só problema sério
que é salvar o que restou»
ao vento
ainda cego
do pó da estrada
na cidade vim parar
de volta à civilidade
tive que tatear
pisando em areia movediça
entre postes de luz
feito folha solta no ar
ainda não clareou
mas vai
grill
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ah, o tempo faz
tempo desfaz
e vai além sempre
a vida vem lá de longe
é como se fosse um rio
pra rio pequeno, canoa
pros grandes rios, navios
e bem lá no fim de tudo
começo de outro lugar
será como deus quiser
como o destino mandar
no rastro da lua cheia
se chega em qualquer lugar
no rastro da lua cheia | almir sater - renato teixeira (2007)
(com imagens)
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e a verdade absoluta?
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a verdade absoluta
nem jesus nos revelou
mesmo crenças ou ciências
nem a arte nos salvou
as pessoas se contentam
com migalhas que sustentam
tão estranhos rituais
se houver seres humanos
nesse estranho amanhã
para eles deixaremos
já mordida essa maçã
verdade absoluta | almir sater - paulo simões (2022)
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#américas





