terça-feira, 7 de julho de 2026

os devaneios do caminhante solitário

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«o homem rende o máximo de sua capacidade quando adquire plena consciência de suas circunstâncias. por elas se comunica com o universo».

josé ortega y gasset | reflexões do quixote, p. 52

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por hélida carvalho*

barreiro, 4 de outubro de 1967
(sexta-feira)

hoje nos apareceu um professor novo de organização política. dizem que ele veio corrido de um liceu de coimbra por causa de política e que é um poeta famoso. diferente dos outros professores ele é, com certeza: entrou pela sala adentro, todo despenteado, com uma gabardine na mão, atirou-a para cima da mesa e nos disse: «desculpem o atraso, mas me enganei de turma...»

depois, sentou-se na mesa e ficou uns cinco minutos, em silêncio, olhando o pátio vazio; nós começamos a cochichar numa algazarra que qualquer outro professor já teria nos dado uma bronca, mas ele não disse nada, como se não se importasse. quando recomeçou a falar conosco, já tinha ganho o primeiro round de simpatia, e veio o mais surpreendente: «eu sou o novo professor de vocês de organização política, mas devo dizer que não entendo nada disso. não tenho culpa que tenham me colocado aqui, para dar uma matéria que não conheço, nem me interessa.»

«as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral», continuou ele, «nós temos que aprender a não ser autômatos, a pensar pela nossa cabeça; vou ensinar a vocês que, além-fronteiras, há outros mundos que não se moldam a essa ditadura de miséria social e cultural.» quando ele terminou, estava todo mundo de boca aberta, sem palavras. «que fenômeno é esse que aterrissou em setúbal?»

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*hélida carvalho foi aluna de zeca afonso no liceu nacional de setúbal durante cerca de dois meses, até o seu professor de organização política ser preso pela pide - polícia internacional e de defesa do estado. após a revolução dos cravos, em 25 de abril de 1974, esta organização foi extinta e vários dos seus elementos foram presos.

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cfc senna

das coisas que já fiz na vida, e que mais me orgulho, foi ter dado aula de direção defensiva e legislação de trânsito no cfc senna. cfc (centro de formação de condutores). e creiam! recebi mais elogios do que críticas. uma vez, no entanto, fui informado pela direção de que uma aluna teria dito que minhas aulas seriam melhores não fossem meus devaneios. não fiquei triste, nem zangado e muito menos incomodado. ela tinha razão: «nunca acreditei que a liberdade do homem consistisse em fazer o que quisesse, mas sim nunca fazer o que não quisesse...»

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em 1997, no auge do américas, dei uma guinada radical na minha vida. eu era radialista e fiz curso no senac pra instrutor de cfc. não porque eu quisesse, mas porque foi preciso. nunca me imaginei instrutor de cfc, nunca me imaginei explicando o «triângulo dos três "es"» (educação, engenharia de trânsito e esforço legal), nunca me imaginei com um apito na boca explicando a diferença entre um silvo breve e um silvo longo, nunca me imaginei explicando que os gestos do agente de trânsito são ordens que prevalecem sobre as regras de circulação, e que tudo isso está previsto tanto no anexo ii, quanto no artigo 89 do código de trânsito brasileiro. eu odeio regras. eu odeio me ver obrigado a fazer algo que eu não queira. enfim, eu não tinha nada a ver com aquele mundo e nem com aquela linguagem. mas vai entender, o que tinha tudo pra dar errado, deu certo. como? simples: «nunca acreditei que a liberdade do homem consistisse em fazer o que quisesse, mas sim nunca fazer o que não quisesse...»

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entre os anos 2003 e 2005, dos 38 aos 40 anos, vivi meu auge como instrutor de cfc. modéstia à parte, eu tava voando. minha interação com os alunos era quase perfeita. digo quase, porque sempre tinha um ou outro que não gostava da minha didática. explico: minhas aulas eram puro improviso, eu linkava o conteúdo do curso com o que eu via na rua ou com o que alguém dizia em sala de aula. de modo geral, acho que os alunos gostavam. mas é impossível agradar a todos. sempre tinha alguém que não gostava. as reclamações eram porque --- segundo os descontentes --- eu falava coisas que não tinham a ver com trânsito e ou com o conteúdo que ia cair na prova. por exemplo, recitar poemas em sala de aula. sim, uma das reclamações, é que eu dizia poesia em meio ao curso. e dizia mesmo. um dos poemas que eu dizia era este (autoria de mario benedetti):

quando éramos crianças
os velhos tinham como trinta
uma poça era um oceano
a morte simplesmente
não existia.

em seguida quando jovens
os velhos eram gente de quarenta
um açude era um oceano
a morte apenas
uma palavra

já quando nos casamos
os anciãos estavam com cinquenta
um lago era um oceano
a morte era a morte
dos outros.

agora veteranos
demos espaço para a verdade
o oceano é por fim o oceano
mas a morte começa a ser
a nossa.

o intuito era de que os alunos, sobretudo os mais jovens, refletissem sobre o valor da vida... e que tirassem o pé do acelerador... e que usassem o cinto de segurança... e que se fossem dirigir não bebessem. mas nem todos compreendiam. fazer o quê?! nunca me acreditei capaz de mudar o mundo, mas sim sempre me acreditei capaz de mudar a mim mesmo.

a verdade é que as minhas aulas eram uma luta ferrenha
minha comigo mesmo
ou seja
para desempenhar satisfatoriamente
tinha que matar um leão/dia
nunca tive o domínio pleno e total do conteúdo
as palavras me saíam meio que de improviso
era mais intuição que conhecimento
entrava em sala de aula
mais disposto a aprender
do que a ensinar
e creiam
foi assim que venci
vitória conquistada
pe(r)di o boné
e parti

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de volta ao começo

(foi dando aula no cfc
que conheci a vivi)

satolep
7 de julho

num dia como hoje
há 14 anos
nossos destinos
traçavam novos caminhos
rumavam para outros ares
pelotas fazia 200 anos
eu estava desempregado
recém havia saído do cfc
vivi era secretária num consultório médico
e nos horários livres confeccionava cupcakes
em virtude da data
surgiu o cupcake laranjal
montamos um blog
divulgamos a cria
a iniciativa foi um sucesso total
surgiram novos cupcakes
deu no diário popular
da matéria no jornal
surgiram novos clientes
o fogão ficou pequeno
a cozinha ficou pequena
a casa ficou pequena
foi nessas circunstâncias
que o repecho cresceu e apareceu
no entanto
a pergunta que não quer calar é
por que eu saí do cfc?
talvez um dia eu conte
ou não

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antes do fim

se eu não tivesse caído de para-quedas no cfc
não teria conhecido a vivi
se eu não tivesse conhecido a vivi
provavelmente não estivesse mais aqui

vida que segue...

fim de mais uma história,
e recomeço de outra.

quando dei vida ao américas,
eu tinha 20 e poucos anos.

quando vivi e eu nos casamos,
eu tinha 40 e poucos anos.

17 anos depois,
mais um fim de história.

vivi vai seguir a dela
e eu a minha.

a de vivi vai ser o que será,
e a minha o que sempre foi

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assim os dias passarão
virão as novas gerações
outras perguntas, prováveis canções
outro mundo, outra gente, outras dimensões
e na hora marcada, em algum lugar
uma estrela virá pra lhe acompanhar

assim os dias passarão | almir sater - renato teixeira - paulo simões (1991)
[com letra e imagens]

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#américas

segunda-feira, 6 de julho de 2026


 a cara do brasil

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«recordar: do latim recordis, voltar a passar pelo coração.»

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posse de bola: paulo vinícius coelho (pvc) analisa a derrota do brasil para a noruega, destacando o estilo adotado por ancelotti no jogo.

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(enviado do uol nos eua, o colunista criticou a forma reativa de jogar da seleção.)

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a crítica de pvc é cirúrgica: a seleção brasileira jogou de forma reativa, presa, esperando o adversário. é o diagnóstico preciso do que já aconteceu. diante desse cenário de passividade, lembrei-me da paráfrase de um poeta:

«há quem passe a vida repetindo o eco do que já foi
e há quem descubra a verdade depois do fato consumado
eu sou dos que falam antes.»

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teoria sobre o craque

um parâmetro seria o da conquista de títulos. como regra, o craque joga numa grande equipe e ganha muitos campeonatos importantes. não existe craque em time fraco. porém rivelino, um supercraque, jogou um longo tempo no corinthians sem conquistar títulos. só foi campeão em clubes pelo fluminense. os craques da copa de 82, falcão, júnior, sócrates e zico, não foram campeões do mundo de seleções.

uma característica comum dos grandes craques é a garra. em qualquer atividade, os craques são perfeccionistas e obstinados, querem sempre brilhar. os craques quando recebem críticas e vaias, em vez de ficarem abatidos, jogam ainda melhor.

há outros parâmetros discutíveis na definição de craque. o mais poético e interessante é que o craque antevê a jogada. pensa antes dos outros. sabe antes aonde a bola vai chegar. como ele sabe? sabendo. existe um saber que antecede o raciocínio lógico. mas não adianta somente antever o lance, é preciso executá-lo. para isso, porém, o jogador precisa ter técnica e outras qualidades físicas e emocionais.

tostão

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«hay un español errante
y hay otro que no camina.
yo soy de los caminantes.»

antonio machado

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pois então...

ou se muda a mentalidade
ou não se muda nada
quem muda a mentalidade
muda tudo

tudo muda
e o futebol brasileiro mudou
como tudo
pra pior

medo
o brasil jogou com medo
agora é tarde
o brasil foi covarde

grill

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«la cobardía es asunto de los hombres,
no de los amantes.
los amores cobardes no llegan a amores,
ni a historias, se quedan allí.»

silvio rodríguez

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sem medo de ser feliz

se dependesse de mim
guardiola seria o novo técnico do brasil
discordo peremptoriamente dos que culpam tite pela eliminação do brasil na copa
ou seja
discordo de todo mundo
não vou nem perder tempo falando na questão dos escolhidos para bater a sequência de pênaltis
hipocrisia e oportunismo me cansam
a grande questão
pra mim
é com relação aos que culpam tite pelo gol de empate da croácia
«como se permite um contra-ataque adversário no fim da prorrogação?»
verdade seja dita
assim como telê na copa de 82
tite está sendo julgado e condenado
porque cometeu o «crime hediondo»
de jogar sempre pra frente
independente do adversário
e das circunstâncias do jogo
algo absolutamente imperdoável
para os pragmáticos
não só os do futebol
mas os de todas as áreas
sendo assim
«a historia se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.»
foi com um julgamento semelhante a esse que
depois de zico, sócrates, júnior e falcão
surgiu o brasil mauro silva, dunga e zinho
que é o brasil zero a zero e campeão

ponto
nova linha

há um brasil. há muitos brasis. há dois brasis e estão separados por um abismo. há um brasil tático e pragmático e há outro onde ressoam ainda os dribles, canetas e elásticos. há dois brasis. um mais europeu e outro mais brasileiro. há um brasil formado por um encontro de culturas e há outro que reflete as consequências culturais do colonialismo. há um brasil que se lembra do mundo e outro que se esquece de si mesmo. como se fosse possível matar o tempo sem ferir a eternidade. o passado nunca está morto. o passado sequer passou. vida que segue

ponto
nova linha

hoje em dia
no brasil
é «ganhar» ou «ganhar»
perder
nem pensar
esse é o legado da nossa geração
vende-se a alma para ganhar
a carta ao povo brasileiro
lançada por lula em DOIS MIL E DOIS
que o diga

«o brasil quer mudar. mudar para crescer, incluir, pacificar. mudar para conquistar o desenvolvimento econômico que hoje não temos e a justiça social que tanto almejamos.»

diferentemente da imagem que lula adotou nas eleições anteriores – mais especificamente da identidade que ele estampava no ano de 1989 –, é possível analisar o início da carta de DOIS MIL E DOIS partindo da forma com que as palavras e as expressões foram utilizadas. a identidade política que lula adota é explicitada na utilização de termos como «o brasil quer mudar» «pacificar» «vontade popular» «povo brasileiro», no lugar de expressões como «trabalhadores» «patrão» «operário» «proletários» «explorados» «oprimidos» «massa trabalhadora», contidos em documentos anteriores como no caso da carta de PRINCÍPIOS do partido dos trabalhadores.

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resumo da ópera

há um brasil
há muitos brasis
há dois brasis e estão separados por um muro
há um brasil pobre e outro rico
há um brasil que defende a economia de mercado e outro a de estado
há um brasil seco e outro encharcado
há um brasil que mora na palafita e outro na paulista
o brasil tem duas caras
a minha eu sei qual é

grill
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eu estava esparramado na rede
jeca urbanoide de papo pro ar
me bateu a pergunta, meio à esmo:
na verdade, o brasil o que será?
o brasil é o homem que tem sede
ou quem vive da seca do sertão?
ou será que o brasil dos dois é o mesmo
o que vai é o que vem na contramão?
o brasil é um caboclo sem dinheiro
procurando o doutor nalgum lugar
ou será o professor darcy ribeiro
que fugiu do hospital pra se tratar?
a gente é torto igual garrincha e aleijadinho
ninguém precisa consertar
se não der certo a gente se virar sozinho
decerto então nunca vai dar
o brasil é o que tem talher de prata
ou aquele que só come com a mão?
ou será que o brasil é o que não come
o brasil gordo na contradição?
o brasil que bate tambor de lata
ou que bate carteira na estação?
o brasil é o lixo que consome
ou tem nele o maná da criação?
brasil mauro silva, dunga e zinho
que é o brasil zero a zero e campeão
ou o brasil que parou pelo caminho:
zico, sócrates, júnior e falcão
o brasil é uma foto do betinho
ou um vídeo da favela naval?
são os trens da alegria de brasília
ou os trens de subúrbio da central?
brasil-globo de roberto marinho?
brasil-bairro: carlinhos-candeal?
quem vê, do vidigal, o mar e as ilhas
ou quem das ilhas vê o vidigal?
o brasil alagado, palafita?
seco açude sangrado, chapadão?
ou será que é uma avenida paulista?
qual a cara da cara da nação? hein?

a cara do brasil | celso viáfora - vicente barreto/ 1998
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#américas

domingo, 5 de julho de 2026


 hoje tem

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«brasil está vazio na tarde de domingo, né?
olha o sambão, aqui é o país do futebol
brasil está vazio na tarde de domingo, né?
0lha o sambão, aqui é o país do futebol»

wilson simonal

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«a palavra "entusiasmo” vem de uma palavra grega que significa “ter os deuses dentro”. toda vez que vejo que os deuses estão dentro das pessoas, das coisas ou da natureza digo: isso é o que falta para me convencer de que vale a pena viver. viver está muito além das mesquinharias da realidade onde só se pode “ganhar” ou “perder”.»

eduardo galeano

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«se, depois de tantos anos, as pessoas ainda lembram desse time (seleção brasileira de 82), é porque era muito bom. não sei se alguns campeões são lembrados tanto quanto esse time. uma equipe é boa quando 20, 30, 40 anos se passam, e ainda se fala sobre isso»

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«apesar de tudo, isso faz você pensar que não está recebendo propostas por ser um bom treinador, mas por ter conquistado vários títulos. ganhamos muita coisa e, por isso, agora me querem um pouco mais do que na época em que comecei, quando apenas três ou quatro pessoas no barcelona acreditavam em mim. os outros pensavam diferentemente»

pepe guardiola | ex-treinador do barcelona

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«vivemos num mundo infame, um mundo “ao contrário”, mas não é o único mundo possível. existe um outro mundo na barriga deste, sendo gerado. é um mundo diferente, melhor do que este e de parto complicado. e são os jovens que nos levam para frente.»

eduardo galeano | barcelona maio de 2011

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«em 86, falcão terá 32 anos, jogará um outro futebol, talvez de líbero. mas não será o mesmo que encantou o mundo em cinco jogos de sevilla e barcelona.»

ruy carlos ostermann | barcelona 7 de julho de 1982
itinerário da derrota, porto alegre: artes e ofícios, 1992 - pg 91

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ao vento

em 1990
poucos meses depois da queda do muro de berlim
a era dunga sepultava o futebol-arte
antes disso
em 1982
a seleção brasileira revolucionava o futebol e encantava o jovem guardiola
o ex-volante e ex-treinador do barcelona
o agora ex-técnico do manchester city
é reconhecido hoje como um gênio
não me espanta
que a seleção o tenha tenha encantado
a seleção de 82 é da mesma estirpe das seleções de 58 e 70, um futebol alegre, envolvente, cheio de craques, de belas jogadas, que tinha prazer em jogar pra frente, em buscar sempre o gol.
infelizmente ele foi um divisor de águas entre o que havia de melhor e o que haveria de pior.
de todas as seleções brasileiras que eu vi jogar
a de 82 foi a única que me encantou e me fez chorar
em 86
sócrates zico júnior e falcão
já não eram mais os mesmos
e em 90
quando a «era dunga» começou
o futebol do brasil mudou
mas mudou tanto
tanto mesmo
que perdeu a identidade e nunca mais a reencontrou
nem vai encontrar
a seleção brasileira vendeu a alma para ganhar

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«recordar: do latim recordis, voltar a passar pelo coração.»

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era julho de 1977. a seleção era tratada como coisa à parte, como se não pertencesse àquele divertido e leviano futebol brasileiro. quando se falava em seleção, havia quem aumentasse a voz, fizesse impostação nas vogais e se tornasse sonoro. alguns chegavam mesmo a se tornar cívicos — o que, como se sabe, é uma exaltação da personalidade, uma espécie de solenidade do indivíduo.

pois bem, neste ambiente de solenidades e protocolos havia um repórter, um jovem fazendo sua primeira cobertura de seleção. ele aguardava a entrada de rivelino, reinaldo, zico e falcão no túnel do maracanã. o jovem era um garoto que trazia hermann hesse na mochila, portava uma barba à la che guevara um pouco irregular no queixo, usava sandália, calça de brim e uma camiseta esverdeada, sem brilho, bem amassada; e dormia espichado de tanta espera.

de repente, levantaram-se muitos, apanharam as máquinas fotográficas, as folhas de papel. foi quando um velho fotógrafo deu um grito com o jovem repórter:
— levanta daí, moleque, chegou a seleção.

podia ser brincadeira, mas não era. o velho profissional foi categórico na segunda frase:
— seleção é coisa importante, seu!
e saiu resmungando pelo túnel.

o jovem abriu bem os olhos, fez «uff», e também seguiu pelo mesmo túnel em que seguiam todos. ruy carlos ostermann — autor da história — e outro jornalista sorriam. os demais estavam diante da seleção como uma condecoração no peito. o garoto é que fazia mais: ele suspirava.

em 1977, eu tinha 12 anos, e, como o jovem (jornalista) da história acima, ainda suspirava pela seleção. suspiros cada vez mais distantes. a culpa é do schlee. nada será como antes.

grill

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num domingo qualquer, qualquer hora
ventania em qualquer direção
sei que nada será como antes, amanhã

que notícias me dão dos amigos?
que notícias me dão de você?
sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã
resistindo na boca da noite um gosto de sol

nada será como antes | milton nascimento - beto guedes (1972)

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a culpa é do schlee

antes de se tornar um dos maiores símbolos do futebol brasileiro, a camisa amarela da seleção nasceu da criatividade de um jovem de jaguarão. em 1953, aldyr garcia schlee venceu o concurso que definiu o uniforme da equipe nacional e criou o desenho que atravessou gerações.

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📸 o autor e aldyr garcia schlee, 2014 (arquivo pessoal)

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#américas
#salacheguevara
#casadesatolep

sábado, 4 de julho de 2026


 canciones & negocios de otra índole

(de poesias, ironias & autoironias)

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grandes negócios

nós os poetas sempre pensamos ter grandes ideias para prosperarmos, que somos gênios para projetar nossos negócios, ainda que gênios incompreendidos. lembro que, impelido por uma dessas combinações florescentes, vendi a meu editor no chile, em 1924, a propriedade de meu livro crepusculário, não para uma edição, mas para a eternidade. acreditei que ia prosperar com essa venda e assinei o contrato no tabelião. o sujeito me pagou quinhentos pesos, que eram pouco menos que cinco dólares naquela época. rojas giménez, álvaro hijonosa, homero arce me esperavam à porta do cartório para dar-nos um grande banquete em honra deste êxito comercial. com efeito comemos no melhor restaurante da época, la bahía, com vinhos suntuosos, charutos e licores. previamente tínhamos mandado lustrar os sapatos que luziam como espelho. os que tiveram proveito com o «genial» negócio: o restaurante, quatro engraxates e um editor. a prosperidade não chegou até o poeta.

pablo neruda | confesso que vivi, p. 44.

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ao vento

ó mundo, ó mundo
que mundo?
não sei nada do mundo
o lugar mais longe que andei
fica no sul do mundo
cheguei passando o chapéu
sem eira nem beira
dono de mim mesmo
vivendo ao léu
um dia ouvi o chamado da terra e o canto do vento
olhei para o céu e vi montevidéu

grill

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na minha cidade tem poetas, poetas
que chegam sem tambores nem trombetas,
trombetas e sempre aparecem quando
menos aguardados, guardados, guardados,
entre livros e sapatos, em baús empoeirados
saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares
onde vivem com seus pares, seus pares
seus pares e convivem com fantasmas
multicores de cores, de cores
que te pintam as olheiras
e te pedem que não chores
suas ilusões são repartidas, partidas
partidas entre mortos e feridas, feridas
feridas mas resistem com palavras
confundidas, fundidas, fundidas
ao seu triste passo lento
pelas ruas e avenidas
não desejam glórias nem medalhas
medalhas, medalhas, se contentam
com migalhas, migalhas, migalhas
de canções e brincadeiras com seus
versos dispersos, dispersos
obcecados, pela busca de tesouros submersos
fazem quatrocentos mil projetos
projetos, projetos, que jamais são
alcançados, cansados, cansados nada disso
importa enquanto eles escrevem, escrevem
escrevem o que sabem que não sabem
e o que dizem que não devem
andam pelas ruas esses poetas, poetas, poetas
como se fossem cometas, cometas
num estranho céu de estrelas idiotas
e outras e outras
cujo brilho sem barulho
veste suas caudas tortas
na minha cidade tem canetas, canetas, canetas
esvaindo-se em milhares, milhares, milhares
de palavras retorcendo-se confusas, confusas,
confusas, em delgados guardanapos
feito moscas inconclusas
andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
que eles veem nos vão dizendo, dizendo
e sendo eles poetas de verdade
enquanto espiam e piram e piram
não se cansam de falar
do que eles juram que não viram
olham para o céu esses poetas, poetas, poetas
como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas
lançadas ao espaço e ao mundo inteiro
inteiro, inteiro, fossem vendo pra
depois voltar pro rio de janeiro

guardanapos de papel | leo masliah 1984
(versão: milton nascimento)

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#américas
#casadesatolep
#umoutromundoépossível

sexta-feira, 3 de julho de 2026

o jogo por trás do jogo

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no dia de ontem, 2 de julho, foi celebrado o dia mundial do jornalista esportivo. a comemoração foi criada no ano de 1994 pela associação internacional de imprensa esportiva (aips – international sports press association), como forma de festejar seus 70 anos.

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sobre jornalismo esportivo

«não sei qual a porcentagem, mas sei que existe uma parte do jornalismo que responde aos interesses daqueles que detêm o poder.»

«eu disse: "não sei a proporção. mas sei que há uma porcentagem de jornalistas que respondem, que não dizem o que deveriam dizer, e há outra porcentagem que diz o que deveria dizer. portanto, continuo inocente porque não estou acusando todos. estou acusando a porcentagem que permanece em silêncio.»

marcelo «el loko» bielsa

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clique no link

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«fracassei em tudo o que tentei na vida. mas os fracassos são minhas vitórias. eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.»

darcy ribeiro

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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sobre jornalismo

vou contar uma coisa que quase ninguém que me conhece sabe. em 89, quando voltei pra pelotas, vindo de são luís (ma), consegui emprego de estagiário num jornal da cidade. no primeiro dia, o encarregado me colocou numa mesa com uma máquina de escrever e uma folha em branco. ele me deu o prazo de uma hora para que eu escrevesse sobre qualquer coisa. ou seja: tema livre. isso eram mais ou menos umas oito e meia da manhã, quando bateu meio-dia eu não tinha escrito uma palavra sequer. o encarregado se aproximou de mim e disse: «guri, vai procurar outra coisa pra fazer. aqui só se dá bem quem gosta de escrever». desde então, jurei nunca mais deixar uma folha em branco. tenho feito o que posso. hoje acabei de preencher mais uma, amanhã vou preencher outra e depois de amanhã outra. é o plano das 24 horas, aprendi no aa.

grill

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maradona, napoli, nápoles...

havia mais de meio século que o time da cidade não ganhava um campeonato, cidade condenada às fúrias do vesúvio e à derrota eterna nos campos de futebol e graças a maradona, o sul obscuro tinha conseguido, finalmente, humilhar o norte branco que o desprezava. campeonato atrás de campeonato, nos estádios italianos e europeus, o napoli vencia, e cada gol era uma profanação da ordem estabelecida e uma revanche contra a história.

em milão odiavam o culpado desta afronta dos pobres e não só em milão: no mundial de 90, na itália, a maioria do público castigava maradona com furiosas vaias toda vez que tocava a bola.

quando maradona disse que queria ir embora de nápoles, houve os que lhe lançaram pelas janelas bonecos de cera atravessados por alfinetes. prisioneiro da cidade que o adorava e da camorra, a máfia dona da cidade, ele já estava jogando contra a vontade, no contra-pé; e então, explodiu o escândalo da cocaína.

maradona transformou-se subitamente em «maracoca», um delinqüente que se tinha feito passar por herói. mais tarde, em buenos aires, a televisão transmitiu o segundo acerto de contas: a detenção, ao vivo, como se fosse uma partida, para deleite dos que desfrutaram o espetáculo do rei nu que a polícia levava preso. «é um doente», disseram. e disseram: «está acabado».

o messias convocado para redimir a maldição histórica dos italianos do sul tinha sido, também, o vingador da derrota argentina na guerra das malvinas, mediante um gol velhaco e outro gol fabuloso, que deixou os ingleses girando como piões durante alguns anos; mas na hora da queda, o pibe de ouro não passou de um farsante cheirador e putanheiro.

deram-no como morto. mas o cadáver levantou-se de um salto. cumprida a penitência da cocaína, maradona foi o bombeiro da seleção argentina, que estava queimando suas últimas possibilidades de chegar ao mundial de 94. graças a maradona, chegou lá. e no mundial, maradona era outra vez, como nos velhos tempos, o melhor de todos, quando estourou o escândalo da efedrina.



o mundial de 94

jogou, venceu, mijou, perdeu. a análise acusou a presença de efedrina e maradona acabou de mal jeito o mundial de 94.

maradona nunca havia usado estimulantes, nas vésperas das partidas, para multiplicar seu corpo. é verdade que se metera com cocaína, mas se dopava em festas tristes, para esquecer ou ser esquecido, quando já estava encurralado pela glória e não podia viver sem a fama que não o deixava viver. jogava melhor do que ninguém, apesar da cocaína, e não por causa dela.

maradona carregava uma carga chamada maradona, que fazia sua coluna estalar. o corpo como metáfora: suas pernas doíam, não podia dormir sem comprimidos. não tinha demorado a perceber que era insuportável a responsabilidade de trabalhar como deus nos estádios, mas desde o princípio soube que era impossível deixar de fazê-lo.

«necessito que me necessitem», confessou, quando já tinha há muitos anos o halo na cabeça, submetido à tirania do rendimento sobre-humano, intoxicado de cortisona, analgésicos e ovações, acossado pelas exigências de seus devotos e pelo ódio dos que ofendera.

a máquina do poder o tinha jurado. ele lhe dizia de tudo, e isso tem seu preço, o preço se paga à vista e sem descontos. e o próprio maradona ofereceu a justificativa, por sua tendência suicida de servir-se de bandeja na boca de seus muitos inimigos e por essa irresponsabilidade infantil que o impele a precipitar-se em todas as armadilhas que se abrem em seu caminho.

os mesmos jornalistas que o pressionam com os microfones, reprovam sua arrogância e suas zangas e o acusam de falar demais. não lhes falta razão; mas não é isso que não podem perdoar nele: na verdade, não gostam do que às vezes diz. este garoto respondão e esquentado tem o costume de lançar golpes para cima.

em 86 e em 94, no méxico e nos estados unidos, denunciou a ditadura onipotente da televisão, que obrigava os jogadores a extenuar-se ao meio-dia, esturricando-se ao sol, e em mil e uma ocasiões, ao longo de toda a sua acidentada carreira, maradona disse coisas que mexeram em casa de marimbondos.
ele não foi o único jogador desobediente, mas foi sua voz que deu ressonância universal às perguntas mais insuportáveis: por que o futebol não é regido pelas leis universais do direito do trabalho? se é normal que qualquer artista conheça os lucros do show que oferece, por que os jogadores não podem conhecer as contas secretas da opulenta multinacional do futebol?

quando maradona foi, finalmente, expulso do mundial de 94, os campos de futebol perderam seu rebelde mais clamoroso. e perderam também um jogador fantástico. maradona é incontrolável quando fala, mas muito mais quando joga: não há quem possa prever as diabruras deste criador de surpresas, que jamais se repete e goza desconcertando os computadores.

no frígido futebol do fim de século, que exige ganhar e proíbe divertir-se, este homem é um dos poucos que demonstra que a fantasia também pode ser eficaz.


eduardo galeano | futebol ao sol e á sombra, 1995.

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se eu fosse maradona, viveria como ele
(porque o mundo é uma bola que se vive à flor da pele)

houve uma vez que saí de santa vitória rumo ao beira rio e pecorri 500 km sozinho num ônibus de excursão só pra ver o inter de falcão.
tinha oito anos e pra mim não houve outro inter como o inter de falcão (nem o de fernandão).
depois cerezzo atravessou aquela bola o mundo chorou e eu também.
tinha 17 anos e pra mim não houve outra seleção como a seleção de sócrates zico e falcão (nem a de dunga nem a de felipão).
houve uma época que esperava ansioso o domingo pela manhã era uma época boa e as coisas mais fáceis do que são e do que estão.
tinha 20 anos e pra mim não houve outro maradona como aquele maradona do nápoli (do nápoli de maradona careca e alemão).
o tempo passa, hoje as coisas estão mais difíceis e o futebol sem graça.
há quem diga que a memória é seletiva e outros que é remota.
acho que são as duas juntas a razão de eu lembrar a escalação do inter de falcão e não o de fernandão.
a mim não importa que um tenha sido campeão (do mundo) e o outro não. a vida é vivida e o jogo jogado. não sou guiado pela razão nem por resultado. quem sabe se eu fosse diferente, tivesse dado certo no mundo como ele é. diga-se de passagem, isso não tem nenhuma importância. o que importa é que mundo é como é e eu sou como sou. não sei o que é certo nem o que é errado. cada um é o que é e vive como quer. se eu fosse maradona viveria como ele...

grill

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confidência do itabirano

alguns anos vivi em itabira.
principalmente nasci em itabira.
por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
noventa por cento de ferro nas calçadas.
oitenta por cento de ferro nas almas.
e esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

a vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
e o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

de itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do brasil;
este são benedito do velho santeiro alfredo duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

tive ouro, tive gado, tive fazendas.
hoje sou funcionário público.
itabira é apenas uma fotografia na parede.
mas como dói!

carlos drummond de andrade

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o parto

ao amanhecer, dona tota chegou a um hospital no bairro de lanús. ela trazia um menino na barriga. no umbral, encontrou uma estrela, na forma de prendedor de cabelos, jogada no chão.

a estrela brilhava em um lado, e no outro não. isso acontece com as estrelas, toda vez que caem na terra, e na terra se reviram: em um lado são de prata, no outro são só de lata.

essa estrela de prata e de lata, apertada na mão, acompanhou dona tota no parto.

o recém-nascido foi chamado de diego armando maradona.

eduardo galeano

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ao vento

a vida é uma loteria
de noite e de dia
é da vida perder e ganhar
lembrei de lembrar
pois maradona
já me fez sorrir e já me fez chorar

grill

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a vida é uma loteria
de noite e de dia
la vida es una tómbola
y arriba y arriba

la vida tómbola | manu chao (2007)

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a propósito da foto de maradona

«seja forte, diego, não desista. fique com seus companheiros. eu vivi o espírito de equipe na minha época. e se você puder continuar jogando, não pare», dizia a carta do escritor ernesto sábato, em 1994, após a copa do mundo.

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nas outras imagens, um pouquinho da minha própria história e dos meus mind games (jogos mentais) .

📸 praia da ponta do farol, são luís (ma), 2008.

«estamos jogando esse jogos mentais juntos»

clique no link

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#américas

quinta-feira, 2 de julho de 2026


quando nietzsche chorou

(ao pé do rádio)

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«aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.»

friedrich nietzsche. além do bem e do mal. aforismo 146 p. 69.

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corre o vento, o rio passa...

em 2007, quando cheguei a são luís, recém-saído de mais uma recaída, minha mãe e meu pai moravam num apartamento pequeno, no condomínio barra-mar. por isso, pedi para ficar na casa de minha irmã e do atual marido dela, josé lino. minha sobrinha, maria eduarda, era recém-nascida. o técnico da seleção brasileira era o dunga — dunga de ijuí — lembra, magrão? pois então... mas não é de dunga que vim lembrar. vim lembrar meu pai.

logo nos primeiros dias, fui visitar meus pais no barra-mar. havia anos que não os via. fui para charlar e lembrar como é saborosa a comida que a minha mãe faz. onze horas da manhã. bato à campainha, minha mãe atende com um sorriso e os braços abertos. eu fecho os olhos para receber aquele abraço que, mais que meu pai, só minha mãe sabe dar. ao abri-los, dou de cara com meu pai, sentado no sofá, vendo televisão. custei a reconhecer naquele homem à minha frente a figura altiva e confiante que eu guardava na memória; ver meu pai assim, estático diante da tela de uma tv, era um cenário totalmente inusitado para mim. era como se o tempo tivesse corrido rápido demais para ele.

corre o vento, o rio passa e, se alguém vier me visitar às onze da manhã ou às seis da tarde, só não me verá de pijama e assistindo à tv, pois não os tenho. nem quero.

diferente de ontem
hoje
se eu olhar para o precipício
caio e não levanto mais
os sinos que tocavam
não tocam mais
os anjos
que me habitavam
não me habitam mais
não é que perdi a esperança
perdi a velha autoconfiança
isso é ruim?
não
no momento
isso é bom pra mim
isso é tudo?
que nada
ainda ouço um chiado de rádio
no fim da estrada

grill

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corre o vento, o rio passa.
correm nuvens, nuvens correm
pela estrada que leva à minha casa.

minha casa, meu refúgio,
todos partem, eu fico
sem companheiro nem amigo.

fico contemplando
as chamas das casinhas
pelas quais vivo suspirando.

a noite chega..., o dia acaba,
os sinos tocam ao longe
o toque da «ave maria».

eles tocam para que eu reze;
rezo apenas com soluços,
afogando-me, ao que parece,
como se eles estivessem rezando por mim.

sinos de bastabales,
quando os ouço tocar,
morro de solidão.

corre o vento, o río pasa | rosalía de castro-amancio prada 1997
amancio prada · maria del mar bonet
real filharmonía de galicia

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#américas
#casadesatolep