a maior frustração de minha infância foi não conseguir desfrutar plenamente da maldita motoca de plástico. motoca que, diga-se de passagem, nem sequer era minha: pertencia a minha irmã. tanto quanto me lembro, jamais funcionou bem. primeiro, era uma das rodas traseiras que estava emperrada. tratei de arrancá-la para tentar corrigir o problema e fui incapaz de devolvê-la ao lugar. depois, passadas algumas semanas de angústia, um primo mais velho veio em meu auxílio e tornou a fixá-la, com alicate e arame. não demorou muito e o guidom quebrou. por fim, um tio deu jeito no guidom, mas aí foi a vez da roda da frente de ficar emperrada. sempre havia algum problema.com o passar dos anos, a motoca foi perdendo espaço em meu horizonte concreto. senti meu desejo de vê-la consertada minguar até o desaparecimento completo e contentei-me em brincar com ela no estado em que estava, o que acelerou sua destruição e, mais do que isso, a destruição de seu encanto. logo os restos mortais do brinquedo jaziam esquecidos em algum canto do pátio onde morávamos.aparentemente, porém, nada disso impediu a motoca de seguir ocupando, no insondável de mim, um espaço simbólico importante. pois foi mais ou menos por essa época que passei a ter um sonho recorrente com ela.fossem outras as circunstâncias, não seria incorreto afirmar que morávamos em um bom pátio: terreno amplo, com um belo riacho passando nos fundos: quem não se encantaria? ocorre, entretanto, que as circunstâncias eram elas mesmas, e não outras. na falta de saneamento, aquilo que realmente devia ter sido um belo riacho algum dia há muito que fora transformado em uma enorme vala de esgoto a céu aberto, cujas águas transportavam variados tipos de fezes para quem quisesse ver, espalhando mau cheiro pelo ar. de amplo, nosso pátio não tinha nada, porque eram quatro barracos espremidos ali, compondo um pequeno cortiço; quatro famílias inteiras compartilhando dimensões que seriam adequadas para apenas uma; dezesseis pessoas convivendo, utilizando o único banheiro disponível, se esbarrando aqui e ali, sem qualquer espaço para a mais diminuta privacidade. e tais insuficiências, já evidentes por si mesmas, eram ainda realçadas pelo contraste com o terreno vizinho, aos fundos: para além do valão nojento estendia-se uma chácara lindíssima; um espaço, esse sim, amplo de verdade, repleto de árvores que davam frutas e coberto de grama bem tratada; uma propriedade centenas e centenas de vezes maior do que nosso pátio; um terreno deveras gigantesco, onde espantosamente havia uma única casa, habitada por uma única família; um lugar onde às vezes avistavam-se triciclos infantis motorizados, em vez de motocas de plástico estragadas.no sonho que passei a ter de tempos em tempos, a motoca de minha irmã achava-se milagrosamente consertada, e eu, montado nela, vinha a toda a velocidade, pedalando freneticamente, e saltava glorioso por cima do valão. mas, em vez de cair na chácara, seguia subindo, subindo, subindo, até que, com um frio permanente se instalando em minhas entranhas, dava-me conta de estar voando. e a chácara rapidamente perdia toda a importância, porque, de lá do céu, olhando cá para baixo por entre as nuvens, eu podia ver o mundo inteiro, e a visão me enchia da mais profunda alegria. logo, porém, era o desespero que tomava conta de mim, porque de uma hora para a outra eu começava a cair, cair, cair, precipitando-me cada vez mais rápido em direção ao solo, e não adiantava pedalar com força redobrada ou bater os braços como se fossem asas ou implorar pela ajuda de deus ou fazer qualquer outra coisa: nada impedia ou suavizava minha queda. por fim, acordava assustado, um segundo antes de me esborrachar no chão.foi só bastante tempo depois, em algum momento da adolescência, que parei de ter esse sonho à noite, enquanto dormia, embora tenha passado a sonhar acordado com algo que, no fundo, deve ter significado semelhante: dignidade. passei a sonhar com dignidade. passei a sonhar com uma vida em que tudo, inclusive os brinquedos, funciona bem. passei a sonhar com saneamento, passei a sonhar com privacidade, passei a sonhar com liberdade, passei a sonhar com a alegria profunda. e muita gente que lê os meus textos até diz: «o céu é o limite pra ti, falero!». mas, respeitosamente, discordo dessas pessoas. discordo porque sei que, se eu for ao céu, fatalmente hei de cair e me esborrachar no chão. discordo porque me recuso a voar sozinho. discordo porque as nuvens ganham aspectos obscenos quando nem todos podem alcançá-las. discordo porque meu sonho não é realmente só meu: meu sonho pertence a uma nação inteira. discordo, discordo, discordo! não é o céu que é meu limite. meu limite é muito antes.meu limite é o maldito valão, enquanto ele ainda estiver lá, degradando a vida de alguém.
sábado, 10 de outubro de 2026
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
ritmo de pulmões da cidade que dorme. fora, faz frio.de repente, um barulho atravessa a janela fechada. você aperta as unhas em meu braço. não respiro. escutamos um barulho de golpes e palavrões e o longo uivo de uma voz humana. depois, silêncio.— não peso muito?nó marinheiro.formosuras e dormidezas, mais poderosas que o medo.quando entra o sol, pestanejo e espreguiço com quatro braços. ninguém sabe quem é o dono deste joelho, nem de quem é este cotovelo ou este pé, esta voz que murmurou bom-dia.então o animal de duas cabeças pensa ou diz ou queria:— para gente que acorda assim, não pode acontecer nada ruim.
somos obrigados a entregar, na casa rosada, as provas das páginas da revista, vindas da gráfica.— isto, não. nem isto — nos dizem.a última reunião com os militares foi assim:tínhamos ido vicente e eu.depois de discutir durante uma hora sobre o material da revista, falamos de haroldo conti.— ele é um redator de crisis — dissemos — e foi sequestrado. não se sabe nada. os senhores nos dizem que ele não está preso e que o governo não tem nada com este assunto. por que não nos deixam publicar a notícia? a proibição pode se prestar a interpretações torcidas. os senhores sabem que no exterior há pessoas que pensam mal, pessoas mal-intencionada que...— vocês têm alguma queixa contra nós? — perguntou-nos o capitão. — foram tratados sempre com correção. recebemos vocês, os escutamos. para isso estamos aqui e esta é a nossa função no governo. mas lhes advertimos: este país está em guerra, e se nós nos encontrássemos em outro terreno, o tratamento seria bem diferente.toquei o joelho em meu companheiro.— vamos, vicente, está ficando tarde — disse.caminhamos, devagar, pela plaza de mayo.no meio da praça ficamos parados um longo tempo sem nos olharmos. havia um céu limpo e um ruído de gente e pombas. o sol arrancava brilhos nas cúpulas de cobre esverdeadas.não falamos nada.entramos em um café, para tomar alguma coisa, e nenhum dos dois se animava a dizer:— isso significa que haroldo está morto, não é?de medo que o outro dissesse:— sim.
a revista não dá mais.de manhã. reúno os companheiros e falo com eles. quero mostrar-me firme e dizer esperanças, mas a tristeza escapa por meus poros. explico que nem fico, nem vicente nem eu tomamos a decisão: que as circunstâncias decidem. não aceitamos a humilhação como epílogo da linda aventura que nos reuniu durante mais de três anos. crisis não seria agachada por ninguém: vamos enterrá-la em pé; como viveu.
esvazio as gvetas da escrivaninha, repletas de papéis e cartas. releio, ao azar, palavras de mulheres que amei e de homens que foram meus irmãos. acaricio com o dedoo telefone que me transmitiu vozes amigas e ameaças.caiu a noite. os companheiros partiram há um par de hora e de meses. os escuto, os vejo; seus passos e suas vozes, a luz que cada um irradia e a fumacinha que deixa quando vai embora.
em 3 de outubro de 2016, logo após o resultado das eleições municipais para a escolha de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, escrevi o texto abaixo, entre colchetes:[que o anti-petismo, que a globo, que o tio sam, que a fiesp, que o mundo está contra nós... é verdade, está mesmo, sempre esteve e sempre estará. mesmo assim, conseguimos avançar: tiramos milhões de brasileiros da miséria, proporcionamos moradia e melhores condições de vida a outros tantos. e foi por isso, ou muito por isso, que nos deram um golpe e nos derrubaram.tudo isso eu sei.mas sei também que fracassamos em tantas e muitas outras coisas. cometemos alguns erros graves e outros (quase) imperdoáveis. abrimos a guarda e nos perdemos no caminho. com isso, deixamos o campo aberto e deu no que deu.sinto muito, mas é assim que penso.aliás, eu sou assim... quando penso em apontar o dedo para os outros, lembro sempre de apontá-lo antes para mim.perdón, es mi manera de sersi alguna gente no entiende qué le voy a hacer.]
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
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«o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade»
umberto eco
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«a educação não transforma o mundo. a educação muda as pessoas. as pessoas transformam o mundo.»
paulo freire
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1 – ignorante orgulhoso: não se abre à experiência do conhecimento. repete clichês introduzidos no cotidiano. sua formação é «midiatizada». mas como o ignorante não sabe disso, ele se orgulha de ser o que é.2 – «burro mesmo»: não há muito o que dizer. mesmo com informação por todos os lados, ele não consegue juntar os pontinhos. por exemplo: o «burro mesmo» faz uma manifestação «democrática» para defender a volta da ditadura.3 – paranóico: o paranóico tem certezas, a falta de dúvida é o que o torna idiota. o idiota paranóico cria monstros que ele acredita combater a partir de suas certezas. o comunismo, o feminismo, os indígenas, os pobres, os negros, os homossexuais ...
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o compositor pernambucano luís vieira conta que seu parceiro, o maranhense joão do vale, que era semianalfabeto, depois do sucesso de «carcará» achou que devia usar palavras difíceis nas letras. vieira discordou: «só escreva sobre o que você conhece!», ralhou.até que joão surgiu com a letra da obra prima «na asa do vento»: «deu meia noite/a lua faz o claro/eu assubo nos aro/vou brincar no vento leste». vieira quis saber onde joão tinha encontrado aquele «vento leste». e o parceiro: «de noite, liguei o rádio na "hora do brasil" e ouvi: "aviso aos navegantes: vento leste soprando pra sudoeste"».a história está em «mpbambas», de tarik de souza, e parece dar razão a um mestre da minha terra: «eu prefiro quem diz "nós vai" e vai, do que quem fala "nós vamos" e não vai».
«meia noite é a hora mais escura. precisamente nesta hora a lua apresenta sua luminosidade. do confronto com a obscuridade interior, o inconsciente, surge a luz.outro ponto interessante é o jogo de opostos. a escuridão da meia noite, o claro da lua. o jogo de opostos se faz presente durante toda a letra da canção.a aranha tece puxando o fio da teiaa ciência da abeia, da aranha e a minhamuita gente desconheceabelhas, aranhas, flor, sol, lua, vento, ar, cheiro se apresentam enquanto símbolos. eis a ciência do compositor que, valendo-se de imagens de coisas simples da natureza extrai novos e profundos significados. seu trabalho é brincar com as palavras e seus infinitos sentidos. tal habilidade poética também é o que se espera do analista. se não for poeta, que ao menos tenha seu olhar e sua escuta abertas ao simbólico.»
na foto do futuro do brasilaqueles que não tinham para pagar o fotógrafonão eram fotografados
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tenho pena
por nelson barros
a mulher que apoia o inominável, é a mulher que foi ensinada a não gostar de mulher. ela foi ensinada a entender que mulheres são rivais históricas. ela foi treinada nas sociedades patriarcais, a entender que mulheres estão no mundo para disputar um homem pra chamar de seu. ela aprendeu a olhar para as outras mulheres como inferiores, como se ela não fizesse parte desse universo. ela acha que será a escolhida para ser bem tratada por aquele que tratou mal todas as outras. ela quer punir a mulher que, no fundo, odeia ser.
o gay que apoia o inominável é a mesma coisa. ele aprendeu a não gostar de gay. ele acha que é melhor que os outros gays por que não parece ser gay. ele considera isso um elogio. ele critica «as afeminadas». ele acha que será escolhido para ser bem tratado por quem trata mal todos os outros gays. ele quer punir o gay que ele, no seu íntimo, odeia ser.
o negro que apoia o inominável aprendeu que «black is not beautiful», como dona maria, uma negra que não quis se casar, para não ter que casar com um negro. ela achava bacana quando alguém dizia que ela era uma negra de modos finos, como as brancas, e colecionava perucas. ela acha que será tratada de modo diferenciado, por quem nunca a tratou bem, não por ela ser do jeito que era, mas pelo jeito que ela imaginava que era vista: «uma negra de alma branca».
o trabalhador que apoia o inominável tem um delírio. ele vai apoiar alguém que não tem nenhuma noção do que seja trabalhar.
tenho pena de todos.e de você e de mim.
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que pena
por enilton grill
eu também. assim como nelson barros tenho pena. ao contrário de muitos de nós, eu não acho que os eleitores da extrema-direita terão, caso flávio bolsonaro seja eleito presidente desse país, o governo que merecem. eles não merecem. ninguém merece.
eles continuarão sendo vítimas de um sistema que ensinou, convenientemente, que ser mulher, ser gay, ser negro, ser pobre são moedas de menos valia.
só há uma forma de mudar isso: educação, educação e educação.
mas que educação? a educação que abre universidades, mas entrega diplomas que funcionam apenas como uma ilusão de ascensão social? não.
uma educação que foca no pragmatismo, em vez de ensinar a ler e transformar a realidade? não.
uma estrutura que trocou a formação da consciência política e a organização comunitária de base por comemorações estatísticas? não.
uma lógica que substitui o debate crítico e a filosofia por cursos rápidos voltados apenas para metas do mercado? não.
uma estrutura que financia a expansão do ensino privado com dinheiro público que deveria ir para os cieps e escolas de base? não.
um método que prepara o jovem para ser o trabalhador precarizado de aplicativo, em vez de ensiná-lo a combater a precarização? não.
precisamos da educação que liberta, não da que apenas qualifica para a exploração.enquanto o pragmatismo institucional se contentar em governar para os índices e para os mercados, continuará pavimentando a estrada por onde passa a barbárie. se queremos um futuro diferente, precisamos de uma pedagogia que ensine a questionar o poder, e não apenas a obedecer a ele. só a consciência de classe e de direitos pode quebrar o feitiço que faz com que as vítimas escolham os seus próprios algozes.
«enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto!»
era uma vez um menino, um rio, um colégio, um campinho de terra e uma cidadezinha desse tamainho.lá havia uma pedra grande, do tamanho de um prédio de seis andares, e por isso a cidade foi chamada de pedreiras.um dia, o menino deixou de ir para a escola e passou a só vender os doces da mãe, a brincar no rio e a jogar bola.ah, mas de cantar ele não cansava.
terça-feira, 6 de outubro de 2026
na escola da ponte não há programas. isso não quer dizer que a aprendizagem aconteça ao sabor dos desejos das crianças. imagine um homem do campo, que só conheça as comidas mais simples: polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne. imagine que ele venha à cidade e seja levado por um amigo a um restaurante. «que é que o senhor deseja?», lhe perguntaria o garçom. ele certamente responderia falando de polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne, pois esse é o seu repertório de pratos. aí, o amigo lhe diria: «quero sugerir que você experimente uns pratos diferentes.» assim acontece na relação entre professores e alunos. os professores sabem mais. é por isso que são professores. e uma de suas tarefas é «seduzir» as crianças para coisas que elas ainda não experimentaram. eles lhes apontam coisas que nunca viram e as introduzem num mundo desconhecido de arte, literatura, música, natureza, lugares, história, costumes, ciências, matemática. «a primeira tarefa da educação é ensinar a ver», dizia o filósofo nietzsche. não é obrigatório que elas gostem do que vêem. mas é importante que seus horizontes se alarguem.
eu já fui rebelde. mas eu aprendi. então, por favor, cresça!»
o sistema é cruel, injusto e desumano
para que uns poucos se deem bem
a imensa maioria tem que se dar mal
quem vê de fora
não entende como isso se dá
talvez seja difícil de entender
mas é fácil de explicar
junte a ganância de uns
com a ignorância de outros
e misture bem
quando a massa estiver
veja bem
com a aparência de uma manada pastando conformada
leve ao forno a uma temperatura tropical e deixe assando por 500 anos
no final
terá um país rico por fora
e pobre por dentro
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los grandes al mundo le hacen mucho mal
el hombre ambiciona cada día más
y pierde el camino por querer volar»
facundo cabral
a injustiça, motor de todas as rebeliões que ocorreram na história, não só não diminuiu no século 20, como multiplicou-se até extremos que nos pareceriam incríveis se não estivéssemos adestrados para aceitá-la como costume e obedecê-la como destino. mas o poder não ignora que a injustiça está se tornando cada vez mais injusta e que o perigo está se tornando cada vez mais perigoso.
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passaram-se os anos, o século vinte está morrendo. que mundo ele nos deixa? um mundo sem alma, desalmado, que pratica a superstição das máquinas e a idolatria das armas: um mundo ao avesso, com a esquerda à direita, o umbigo nas costas e a cabeça nos pés.
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nos anos da guerra fria, cada metade do mundo podia encontrar na outra metade as justificativas de seus crimes e de seus horrores cada um dizia ser melhor, porque a outra era pior. hoje (final dos 90), subitamente órfão do inimigo, o capitalismo celebra sua hegemonia e dela usa e abusa sem limites. mas certos sinais indicam que começa a se assustar de seus próprios atos. descobre, então, a dimensão social da economia, como um exorcismo contra os demônios da ira popular. o capitalismo tinha resolvido chamar-se economia de mercado, mas agora tornou mais abrangene o apelido e viaja aos países pobres com um passaporte onde figura seu novo nome completo: economia social de mercado.
a «economia social de mercado» à brasileira é uma obra de arte da conciliação: o mercado fica com o lucro, o social fica com a contaminação, e a ciência fica chupando o pirulito.a receita é simples e foi votada no congresso nacional. o presidente lula (pt) até tentou colocar um verniz de bom comportamento com 14 vetos à flexibilização dos agrotóxicos. mas no teatro da governabilidade, a bancada ruralista deu o veredito e derrubou tudo. o «rei da soja» passou a coroa para o ministério da agricultura, que agora é quem manda no balanço das substâncias. anvisa e ibama, coitados, foram rebaixados a meros espectadores de bula.é o «capitalismo humanizado» em sua potência máxima: as exportações batem recordes na faria lima, o plano safra injeta bilhões no latifúndio, e o povo ganha o direito constitucional de consumir, em média, algumas gramas de glifosato por refeição. tudo estritamente regulado pelas forças da oferta e da demanda de oxigênio.diante do absurdo de ver substâncias cancerígenas proibidas no exterior virarem tempero nacional, os pesquisadores da fiocruz — que ainda insistem na mania de estudar dados — soltaram a pergunta definitiva, aquela que deveria estar em um refrão de tom zé:«a ciência está errada e o agro está certo?»
✍️ texto de guto ruocco
tom zé mal começou o show e já estava saudando a saga do reitor edgar santos da universidade federal da bahia que deu ao alemão koellreutter plenos poderes para organizar a renomada escola de música da ufba, que o formou, além de toda uma geração de artistas contemporâneos da melhor música brasileira. depois citou paulo freire e a triste confusão do oprimido que conquista direitos e se torna opressor quando a educação não é transformadora antes de interpretar «esquerda, grana e direita».
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depois, emendou seus clássicos, alguns urrados por uma plateia ávida de canção inteligente e coragem artística. terminou o show saculejando o decadente teatro municipal «caindo aos pedaços» de mococa para forrozear ao som de xique-xique e com a plateia hipnotizada pelo amor e pela generosidade de tom zé. o artista de irará mostrou aos 82 anos que continua com vitalidade do menino tropicalista que mantém a sua mensagem política-libertária nos cascos. obrigado, te amo.
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segunda-feira, 5 de outubro de 2026
«os jovens de todas as épocas e de todos os países sempre se entusiasmaram com as grandes idéias de transformação, eram revolucionários, mas se mantinham dentro do famoso esquema "todos nascemos incendiários e morremos bombeiros".»
brasil de fato: como surgiu a ideia de fazer o álbum «no jardim da política», em 1984?tom zé: foi um momento em que os militares tinham compreendido que era necessário sair do poder, porque o exército sempre teve um cuidado com a sua decência moral. eles perceberam que a corrupção estava em toda parte, roendo as expectativas e o próprio exército. «no jardim da política» surge nesse período. a música «classe operária» é um banho, um «reductio ad absurdum» (do latim, redução ao absurdo). vou dizer algo tão absurdo que você vai perceber que estou falando ao contrário. «sobe no palco o cantor engajado tom zé, que vai falar dos operários, tratar dos operários, mas não há nenhum operário no palco. mas tom zé e seus amigos sabem o que é bom para os operários». qualquer pessoa de raciocínio médio vai dizer «como esse cara é louco, como a gente é metido besta, pensando que vai resolver o problema dos operários sem consultá-lo». pois teve amigo meu engajado politicamente que virou a cara pra mim. e no jardim da política tem «marcha partido», «dólar» e «vá tomar»: «meta sua grandeza no banco da esquina/ vá tomar no verbo seu filho da letra/ meta sua moral, regras e regulamentos, escritórios e gravatas, sua sessão solene/ pegue junte tudo, passe vaselina, enfie só que meta, no tanque de gasolina». isso é fazer política ou não é? era o que nós podíamos falar porque a censura havia afrouxado um pouco.brasil de fato: ainda que sem intencionalidade, esse álbum reflete o posicionamento esperado pelo público de um artista sobre determinado momento político?tom zé: eu fiz várias canções sobre o cenário que se tinha durante a ditadura. tem aquela que diz assim: «todo compositor brasileiro é um complexado, porque então essa mania de falar tão sério, de sorrir tão sério, de trepar tão sério! ah, meu deus, vá ser sério assim no inferno». essa música está no álbum «todos os olhos», de 1973. me inspirei no general ernesto geisel e na fala dele sobre termos uma «democracia relativa», além de falar sobre a liberdade que buscávamos. «a liberdade é uma graça, todo dia se decifra, todo dia se disfarça…» era uma informação comprimida, uma bomba comprimida.brasil de fato: sobre a atualidade, como você tem visto o cenário político do brasil?tom zé: o brasil é comandado por grupos que têm interesses particulares. é por isso que não se pode eleger ninguém que está na câmara dos deputados ou no senado. temos que eleger outras pessoas e tentar algo diferente. nós estamos com o país atravancado por interesses pessoais, então é preciso eleger um governo completamente novo. temos um presidente da república que, para se manter no poder, distribuiu uma fortuna a deputados para não ser processado. hoje estou com 81 anos, mas um dia tive 17, e tive que procurar esperança na música, no livro, na escola. os meninos de hoje podem procurar esperança em algum lugar?
«música de protesto é um método jesuítico, como o que (o educador) paulo freire chama de "hospedar o opressor". eu faço "classe operária" como se fosse o opressor hospedado no cantor»
tom zé mal começou o show e já estava saudando a saga do reitor edgar santos da universidade federal da bahia que deu ao alemão koellreutter plenos poderes para organizar a renomada escola de música da ufba, que o formou, além de toda uma geração de artistas contemporâneos da melhor música brasileira. depois citou paulo freire e a triste confusão do oprimido que conquista direitos e se torna opressor quando a educação não é transformadora antes de interpretar «esquerda, grana e direita».depois, emendou seus clássicos, alguns urrados por uma plateia ávida de canção inteligente e coragem artística. terminou o show saculejando o decadente teatro municipal «caindo aos pedaços» de mococa para forrozear ao som de xique-xique e com a plateia hipnotizada pelo amor e pela generosidade de tom zé. o artista de irará mostrou aos 82 anos que continua com vitalidade do menino tropicalista que mantém a sua mensagem política-libertária nos cascos. obrigado, te amo.
domingo, 4 de outubro de 2026
«seja eu amanhã. porque eu já fui você ontem. eu já fui rebelde. mas eu aprendi. então, por favor, cresça!»
foi ouvindo chico buarque que aprendi «gente humilde» foi ouvindo chico buarque que aprendi a ser cidadão foi ouvindo chico buarque que aprendi o «meu refrão» foi ouvindo chico buarque que aprendi a ser sem patrão





