sábado, 7 de novembro de 2026


ungaretti presente

♦

já não entro no facebook como antigamente. mas, numa dessas passadas raras, dei de cara com as homenagens dos seus ex-alunos. foi assim que soube da morte de wladimir ungaretti. 

♦

«morreu, na manhã desta sexta-feira, wladymir ungaretti, jornalista e professor aposentado da faculdade de biblioteconomia e comunicação da ufrgs. de todos os professores que tive ao longo da vida, foi o que mais impacto causou na minha formação. ensinou, a mim e aos meus colegas, sobretudo a indisciplina, a lição mais rara e mais necessária. suas aulas eram acontecimentos imperdíveis e inesquecíveis. continuam ressoando em cada aula que dou. espero sempre estar à altura daquelas sessões de maravilhamento diante de livros, fotos e edições de jornais e revistas que ele trazia de seus arquivos para compartilhar e comentar conosco. marcou decisivamente pelo menos uma geração de estudantes da fabico, aquela de que fiz parte. suponho, pelas conversas infelizmente esporádicas que tive com ele depois da minha graduação, que sua influência tenha sido menor entre os alunos de tempos mais profissionais e mais cínicos que vieram depois. ele, porém, continuou até os últimos dias o grande subversivo, desde os tempos de militância política - quando sofreu torturas que lhe deixaram sequelas físicas para toda a vida -, passando pelo intervalo como professor anarquista, até os exercícios fotográficos da maturidade, dedicados sobretudo ao centro de porto alegre e aos nus femininos. como poucos na nossa espécie, não pediu licença para existir e para ser quem foi. no caminho, nos tornou também um pouco menos ignorantes e mais livres. se um daqueles gregos de herberto helder, que não escreviam necrológios, perguntar, diante da morte do ungaretti: "tinha paixão?", poderemos, todos que tivemos a imensa alegria de conhecê-lo, responder enfaticamente que sim, que tinha paixão, e que transmitiu sua paixão. não há maior legado.»

♦

«ungaretti era o cara que todo estudante de jornalismo sabia quem era, sem conhecer a cara. 
a gente ficava doido com os boatos de que talvez não tivéssemos aula com ele, já dedicado ao terço final do curso. ele resistiu bravamente. nos deu a honra, o tempo, a paciência e a disciplina.
mas principalmente a coragem e a capacidade de não aceitar o conformismo careta e covarde.
obrigado por tudo.» 

♦

ungaretti e eu fomos amigos de facebook. nunca nos vimos pessoalmente, mas tínhamos o mesmo chão, o mesmo olhar no horizonte: um pé no anarquismo, outro no guevarismo e o coração em comunhão com a subversão.

♦

lendo o que escreveram sobre ele, vendo o carinho espalhado em textos e fotos, guardadas as proporções, não tive como não olhar para trás e lembrar dos meus tempos de cfc.

♦

recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração. 

♦

«olha grill, estudava em tuas aulas sobre o significado de dois silvos longos e um curto, mas o que realmente aprendi vai além das palavras...eu, um guri de 18 anos, que te olhava admirado...pois como uma aula de auto escola, poderia significar tanto?

tem pessoas que são importantes, importante..vem de importar, quando alguém te leva pra dentro dela.

e tenho certeza que fostes para vários, como para mim.

eu como tu, depois da auto escola, tinha de trabalhar, pois era vagabundo, e me fui ser vendedor da dpaschoal, descobri o ouro de tolo, a síndrome do pânico e a depressão e aprendi tudo que não queria tbm para a vida....e por tudo dar errado...que nasceu meu pequeno mundo, o sítio amoreza .

inspirado em pessoas importantes que a vida me presenteou....

abracao»

♦

«...que maravilha de aulas. são talentos que ninguém te tira. pode ser entrevistando, escrevendo, dando aula de "trânsito"... muitas vezes não é o que, mas quem faz.»

♦

«acho que nunca comentei contigo, mas fui um dos teus alunos, no senna. depois fui conhecer o américas e assim por diante... tens o meu respeito e admiração desde aquela distante época em que os teus "devaneios", em aula, me fizeram ter vontade de ir até a auto-escola para aprender a "dirigir". e os "devaneios", no américas, me ensinaram, de fato, a "dirigir" a minha vida. um caminho sem volta, onde esbarramos em companheiros de valor inestimável para transformar esse mundo em que vivemos, como tu!»

♦

«eu fui tua aluna no cfc e tu foi o melhor professor que tive na vida, parabéns.»

♦

«fui aluno, e jamais esqueci a dica para viagem à noite, manter o canto do olho atento à faixa branca, situada à direita da rodovia, valeu professor»

♦

«e antes de nos conhecermos - e reconhecermos -, nas ruas e nas lutas em comum, tive o prazer de assistir algumas das tuas aulas, lá pelos meus 18 anos. sempre o brilho no olho, inconfundível, e a palavra que anima, incentiva e conforta.» 

♦

«enilton grill foi meu instrutor de auto-escola. segue me instruindo em diversos temas em seus textos. por sinal, você que está lendo deveria seguir esse cara. no banheiro que se tornou o facebook,  ele é um alento. conhecimento e estrada são sinônimos dele. um dia acho que esse cara precisa fazer um livro sobre suas andanças. 

chorão tinha uma frase que dizia  "quem é de verdade sabe quem é de mentira"

no caso do enilton, posso dizer...quem é de verdade sabe quem é de verdade. talvez seja isso que mais deixa forte nossa amizade. reconhecer no olho do outro a essência da verdade.

aguardando o livro! vou encher teu saco.»

♦

«que legal, enilton! quantas pessoas marcaste! lembro bem dos imensos elogios que ouvia a teu respeito, a respeito das tua aulas! duas coisas muito importantes: o américas e as aulas na auto-escola.»

♦

«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... » 

♦

vida, minha vida
olha o que é que eu fiz
deixei a fatia
mais doce da vida
na mesa dos homens
de vida vazia
mas, vida, ali
quem sabe, eu fui feliz

👇

(chico buarque, 1980)

♦
«– ungaretti, quero que tu seja meu orientador do meu trabalho de conclusão do curso. tu pode?
– bah, jucá! eu já tô com dezenas de trabalhos pra orientar... acho que não vou conseguir... é sobre o quê?
– a influência do cangaço na música popular nordestina.
– topo!» 
♦

se entrega, corisco!
eu não me entrego não
não me entrego ao tenente
não me entrego ao capitão
eu me entrego só na morte
de parabelo na mão

(sérgio ricardo/glauber rocha, 1964)

♦

#ungarettipresente
#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

sexta-feira, 6 de novembro de 2026


 galopeador contra o vento 
(para eduardo bascke pinto - galego)

♦

«os pássaros de mesma plumagem procuram voar juntos»

martim césar

♦

«a criação é um pássaro sem plano de voo,
que jamais voará em linha reta.»

violeta parra

♦

«quero descrever o voo de um pássaro
escrevendo com a pena de uma asa.»

guimarães rosa

♦

pressupor que todas as formas de vida sobre a crosta terrestre estão sob ameaça de extinção é assinar a confissão da nossa própria culpa.

quem sabe se, uma vez por outra, não nos seria saudável presenciar o pôr-de-sol do banhado, ao som da própria natureza, para que, precária ou totalmente, encontrássemos o elo perdido com as tantas outras formas de vida.

pode até que um dia, uma gaivota em voo livre e solitário não precisasse se assustar de nós, como se fôssemos aves de rapina.
deogar soares | voo livre, p. 82, 83.

♦

gaivota, te amo e gaivotaria sempre em ti
gaivotar seria poder te eleger para mim
eu te quero, e se fosse o caso, quereria mais ainda
ser, eu mesmo, gaivota sobre mim
sobrevoar meus temores, meus amores
e alcançar o alto, alto, o mais alto dos teus sonhos
dos teus sonhos de subir
de subir aos ares
gaivota querida
gaivota menina
pousa perto de mim

👇

(gilberto gil, 1972)
ao vivo na escola politécnica da usp
maio de 1973

♦

– mas calma, não vou perguntar a sua idade.
– não se preocupe. posso dizer a minha idade.
– que bom! quantos anos você tem?
– ai! não me lembro.

👇

(trailer legendado em português)

♦

recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração

♦

o estudante universitário (1953 - 1956)

depois de receber meu grau de bacharel, saí de jabalpur porque um dos professores da universidade de sagar, s. s. roy, procurou-me persistentemente, escrevendo e telefonando para pedir que eu fizesse minha pós-graduação em sagar.

eu costumava ir à universidade de sagar para a competição interuniversitária de debates. durante quatro anos seguidos, venci a competição e recebi o troféu. ele era um dos juízes. no quarto ano, ele me convidou para ir a sua casa e disse: «olhe, eu espero por você todos os anos. sei que daqui a um ano, quando houver a próxima competição, você estará aqui. a maneira como apresenta seus argumentos é estranha. às vezes, é tão esquisita que fico imaginando como você conseguiu olhar o assunto por tal ângulo. impressiona-me vê-lo desistir de qualquer aspecto que possa ocorrer à mente comum e escolher o aspecto mais improvável.»

eu adorava aquele lugar e disse ao professor: «não se preocupe, eu virei, mas o senhor só me viu nas competições de debate. não sabe muito a meu respeito. posso me tornar um problema para o senhor, um estorvo. gostaria que soubesse tudo a meu respeito antes de decidir.» o professor s. s. roy disse: «não quero saber nada sobre você. o pouquinho que sei só de vê-lo, ver seus olhos, sua maneira de dizer as coisas, sua maneira de abordar a realidade, já é suficiente.»

no primeiro dia em que estive em sua aula, o professor s. s. roy estava explicando o conceito do absoluto. ele era uma autoridade em bradley e shankara, ambos pensadores que acreditavam no absoluto. esse é o nome que davam a deus.

perguntei-lhe uma coisa que me tornou muito íntimo dele, pois ele abriu todo o seu coração para mim. perguntei-lhe apenas: «seu absoluto é perfeito? ele chegou a um ponto final ou ainda está em desenvolvimento? se ainda está se desenvolvendo, então não é absoluto, é imperfeito, pois só assim ele pode se desenvolver. se estiver completo, totalmente completo, e esse é o significado da palavra absoluto, então não há possibilidade de desenvolvimento. ele está morto.» então, lhe disse: «seja claro, porque o absoluto representa deus para bradley e shankara. esse é o nome filosófico que dão a deus. deus está vivo ou morto? você tem de responder a esta pergunta.»

ele era realmente um homem honesto e pediu tempo para pensar. ele tinha um doutorado sobre bradley, feito em oxford, e outro doutorado em shankara, feito em benares, e era considerado a maior autoridade nesses dois filósofos por sua tentativa de provar que bradley, no ocidente, e shankara, no oriente, chegaram à mesma conclusão.

eu disse: «durante toda a sua vida, o senhor escreveu sobre bradley, shankara e o absoluto. eu li seus livros. li sua tese. e o senhor tem ensinado aqui a vida inteira. nunca ninguém lhe fez essa pergunta tão simples?» ele me disse: «ninguém jamais me perguntou e eu jamais pensei sobre isso, mas, certamente, se algo é perfeito, então tem de estar morto. qualquer coisa viva tem de ser imperfeita. esta ideia nunca me ocorreu. então, por favor, dê-me tempo.»

eu disse: «o senhor pode ter o tempo que quiser. eu virei aqui todos os dias e lhe farei a mesma pergunta.» e isso continuou por cinco, seis dias. todos os dias, eu entrava na classe, e ele se aproximava agitado, e eu levantava e dizia: «a minha pergunta.» no último dia, ele disse: «por favor, perdoe-me, mas não consegui decidir. com ambos os lados há uma dificuldade. não posso dizer que deus é imperfeito e não posso dizer que deus está morto. mas você conquistou meu coração.»

morei com ele durante quase seis meses até ele ser transferido para outra universidade.

certa vez, ele me disse: «agora estou recebendo um salário melhor e tudo é mais confortável mas sinto sua falta. a classe parece morta. ninguém faz perguntas como você, perguntas que não podem ser respondidas.» e eu lhe disse: «este é um acordo entre o senhor e eu, que só acho que uma pergunta é uma pergunta quando ela não pode ser respondida. se puder ser respondida, que tipo de pergunta é?»

osho
autobiografia de um místico espiritualmente incorreto,
p. 114 a 119.

♦

a veces yo me pregunto para que sirve la decencia
a veces yo me pregunto para que sirve la decencia
si para engordar al vecino o pa aguantar la miseria
si para engordar al vecino o pa aguantar la miseria

a veces yo me pregunto cuando no hay pan en la mesa
a veces yo me pregunto cuando no hay pan en la mesa
quien fue el que le dio sombrero al que no tiene cabeza
quien fue el que le dio sombrero al que no tiene cabeza

a veces yo me pregunto pa que aprendí a dividir
a veces yo me pregunto pa que aprendí a dividir
si el que suma y multiplica es el que vive de mi
si el que suma y multiplica es el que vive de mi

a veces yo me pregunto quien es mas ladrón hermano
a veces yo me pregunto quien es mas ladrón hermano
si los que roban un banco o aquellos que lo fundaron
si los que roban un banco o aquellos que lo fundaron

a veces yo me pregunto pa que me pregunto tanto
a veces yo me pregunto pa que me pregunto tanto
si pregunte o no pregunte el mundo sigue andando
si pregunte o no pregunte el mundo sigue andando

y por lo tanto cambiando.

👇

(facundo cabral, 1972)

♦

tudo outra vez

por deogar soares

(o título e a citação musical são livres associações minhas)

até hoje continuo sem saber seu nome. tem cabelos encarapinhados, corpo bem feito, um olhar atento e uma permanente vontade de fazer perguntas. às vezes faz, outras não, sem que eu saiba por quê. não é sempre, mas de quando em vez, que nos encontramos no ônibus. começamos num «olá, que tal?» hoje conversamos bastante. coisas comuns aos dois, ou até mais, e é isso que me espanta. essa jovem estudante, aluna do instituto de letras e artes, pode não representar a média dos pensamentos de sua turma, mas anda perto. se for certa essa minha impressão, fica bem.

seu primeiro espanto (disse-me há pouco) foi ter-me identificado visualmente, fora dos parâmetros que sua imaginação havia traçado. afinal, pensava, eu deveria ser um circunspecto e conservador cidadão da pátria, homem dado à gravata e bem sucedido proprietário de automóvel.

ao saber quem eu era, custou a crer. um cronista não anda de ônibus; não veste calça e jaqueta de brim, nem carrega marmita. imaginação e realidade não coincidiram na mente da universitária.

por que, obrigatoriamente temos de nos curvar às clicherias do mundo? não sei. o que não tenho dúvidas, é que essa amiga de identidade não sabida vive, também, as regras impostas pela sociedade.

ela, como a maioria das pessoas, acha (ou achava) que homens e ideias têm que residir nos catálogos.

meu compromisso, ultimamente, tem sido provar-lhe que isso só funciona quando a gente sucumbe às mesmices. dispensável mau hábito que segrega ou desagrega, porque, ao se completar uma certa idade, ou assumir um determinado compromisso funcional, cada um devesse falar, vestir, andar, comer, amar ou viver de forma supostamente adequada, então ampliaríamos os guetos sociais, econômicos, profissionais, classistas e outros criados através de conceitos errôneos.

interessante é notar que essa mulher desconhecida não está fazendo ideia errada, porque lamentavelmente o procedimento popular é esse mesmo. o que talvez a tenha surpreendido, é justamente a minha alienação a ele.

daí, quem sabe, tenhamos nos identificado, eu e ela, num ponto comum: a rebeldia ao contexto. quando penso nessas coisas, volta-me da memória uma antiga expressão do gil, há alguns anos, dizendo que, estranhamente, eu não tenho idade.

pode que sim, mas, naturalmente, o que me faz tremer de medo é a sensação de que, por distração ou imprudência, me fiz um cara de todas as idades. é por isso que percebo, claramente, que coisas se passam debaixo dos caracóis de seus cabelos, tanto quanto adivinho as elucubrações maquinadas no lado de dentro da cabeça careca do «seu»... não vem ao caso.

hoje eu penso nessas coisas, porque acordei interessadíssimo nelas. quem tem de escrever todos os dias precisa viver em dobro, experimentar a vida e deduzir em torno dela. se é o que me incumbiram, então, não tenho o direito de escolher o «modo vivendis» da minha infeliz geração. e escrever apenas para ela, como se me obrigassem a seguir o figurino.

posso ser petulante, mas devo confessar que detesto limitações de qualquer espécie. tanto posso descrever o adolescente que ainda sou, como o neurastênico homem maduro que reiteradamente insiste em brotar do meu consciente.

e sigo por aí, de barba branca e calça jeans, pelos ônibus da vida, ora insensato, ora medroso.

de qualquer forma, pretensamente livre, como estes meus voos crônicos. de resto, é só apertar o cinto, eis que vamos aterrizar.

deogar soares | voo livre, p. 111, 112 e 113.

♦

até parece que foi ontem, minha mocidade com diploma de sofrer de outra universidade minha fala nordestina quero esquecer o francês
e vou viver as coisas novas que também são boas o amor, humor das praças cheias de pessoas agora eu quero tudo, tudo outra vez
minha rede branca meu cachorro ligeiro, sertão, olha o concorde que vem vindo do estrangeiro o fim do termo saudade como o charme brasileiro de alguém sozinho a cismar
gente de minha rua como eu andei distante quando eu desapareci ela arranjou um amante minha normalista linda ainda sou estudante da vida que eu quero dar

👇

(belchior, 1979)

♦

voo livre
as crônicas... ah, as crônicas do deogar!... a voz grave e suave descrevia um mundo a partir do princípio simplíssimo de que a melhor forma de descrever o mundo é descrever sua própria aldeia naquilo que ela tem de universal: os sentimentos humanos, que são iguais em qualquer parte. com pitadas de ironia e de fino sarcasmo, deogar falava sobre política; com tristeza e consternação, sobre as tragédias humanas do dia-a-dia; com alegria discreta sobre as coisas boas da vida; com contida indignação, sobre as injustiças de sempre.

como sempre ocorre nesses casos, lhe era impossível ter a dimensão da influência do seu verbo. ele sabia que do outro lado alguém lhe escutava, mas não sabia quem, nem como, nem ao menos se escutavam suas palavras em acordo com o significado que ele pretendia dar a elas. por isto, sua rotina singular e solitária: levantar ainda de madrugada, tomar chimarrão, trancar-se no pequeno quarto feito escritório, ouvir as notícias no rádio, ler o jornal e então, escrupulosamente, arrancar da máquina de escrever as palavras que deveriam flutuar pelo ar no final de cada manhã.

antônio cruz (maneca)

♦

antes do fim

♦

rosto é rosto

cada um se vê como quer.
uns se veem como brad pitt,
eu me vejo como jorge cafrune.

parei diante do espelho
me olhei e pensei:
ainda não cheguei.

falta pouco tempo eu sei
mas quando a gente é pequeno
o tempo custa pra passar
também a barba pode crescer

parafraseando o poeta da aldeia
lembrei do poeta universal
«o tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, porque o tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.»
enfim
cada um é como é
lembrei agora de um poeta amigo meu
que sempre que me vê, diz:
«os pássaros de mesma plumagem procuram voar juntos»

grill

♦

de volta ao começo

♦
«escreva como quiser, use qualquer ritmo, experimente instrumentos diferentes, sente-se no piano, destrua a métrica, grite em vez de cantar, toque violão e toque corneta. o canto é um pássaro sem plano de vôo que nunca voará em linha reta.»
violeta parra

♦
«quem é essa garota que parece uma empregada?», perguntou o apresentador do festival de cosquín ao ver mercedes sosa convidada a subir no palco por um cantor atrevido que saiu do roteiro previsto. mercedes, que havia chegado com um vestido emprestado e seu primeiro filho nos braços. naquele dia 31 de janeiro de 1965, nascia uma lenda. o músico que a convidou a subir ao palco, sem a permissão dos organizadores, foi ninguém menos que jorge cafrune.
♦

«yo me voy a atrever, porque es un atrevimiento lo que voy a hacer ahora, y me voy a recibir un tirón de orejas por la comisión, pero que le vamos a hacer -siempre he sido así, galopeador contra el viento»

👇

jorge cafrune y mercedes sosa
ministerio de cultura de la nación

♦

«sempre tive problemas com as autoridades, não sei por quê... naquela época, porque era comunista — continuo sendo, mas naquela época isso era visto como algo ruim — e continua sendo...»

mercedes sosa

♦

mandaram-me uma carta 
pelo correio bem cedo. 
nessa carta me dizem  
que meu irmão foi preso;  
e sem dó, com seus grilhões, 
pela rua o arrastaram, sim.

a carta diz o motivo
do que cometeu roberto:
ter apoiado uma greve
que já se havia resolvido.
se isso é crime ou motivo,
presa eu vou também, sargento, sim.

eu que me encontro tão longe,
esperando uma notícia,
vem dizer-me esta carta
que en mi pátria no hay justicia:
os famintos pedem pão,
chumbo lhes dá a milícia, sim.

desta maneira pomposa
querem manter o seu assento
os de leque e de casaca,
sem ter nenhum merecimento.
vão e vêm da igreja
e esquecem os mandamentos, sim.

quem já viu tal insolência,
barbárie e covardia,
apontar o seu trabuco
e matar a sangue-frio
a quem defesa no tiene,
com as duas mãos vazias, sim?

a carta que recebi
me pede uma resposta.
e eu peço que se espalhe
por toda a população:
que «o leão» é sanguinário
em qualquer geração, sim.

por sorte tenho guitarra
para chorar minha dor;
também tenho sete irmãos
fuera del que se engrilló
todos revolucionários
com o favor de mi dios, si.

👇

(violeta parra, 1963)
mercedes sosa
ao vivo no brasil
1980

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

 

ohio

♦

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
[eleições de meio de mandato]
2026

nas eleições de 3 de novembro, os DEMOCRATAS retomaram a CÂMARA e o SENADO e viraram governos estaduais antes controlados pelos republicanos.

NA CÂMARA: hakeem jeffries poderá se tornar o primeiro presidente negro da Casa na história dos eua.

NO SENADO: os DEMOCRATAS conquistaram o número necessário de cadeiras e retomaram a maioria da caãmara alta.
AS DERROTAS MAIS SIMBÓLICAS:
TEXAS: james talarico derrotou ken paxton. primeiro democrata eleito ao senado desde 1988. gina hinojosa venceu greg abbott e retomou o governo após 36 anos.

KANSAS: adam hamilton venceu roger marshall. o estado não elegia um democrata havia 94 anos.

CAROLINA DO SUL: annie andrews derrotou darline graham, irmã de lindsey graham.

MAINE: troy jackson derrotou susan collins, encerrando quase três décadas de mandato.

NOS ESTADOS: os democratas também venceram na geórgia, com keisha lance bottoms, primeira mulher negra governadora dos EUA; em ohio, com amy acton; e em iowa, com rob sand. controlam agora a maioria dos governos estaduais pela primeira vez em 20 anos. 


♦


eu vi plantações de algodão e vi negros
vi grandes mansões brancas e pequenos barracos
eu ouvi gritos e barulho de chicote

👇

(neil young, 1970)

♦

ao vento
racismo. fascismo. xenofobismo. klan. trump. globo. aécio. temer. moro. ustra. bolsonaro. tortura. opressão torácica. dispneia. ânsia. medo. horror. desespero. você está cercado de canalhas, sofre um golpe, é enterrado vivo, vê cruzes em chamas, tenta gritar e não consegue. por fim, acorda com o coração disparado, com uma sensação de angústia, assustado e então percebe que tudo não passou de um (terrível) pesadelo. quem dera fosse só um pesadelo... quem dera
♦
o pesadelo foi real, contudo a história ainda está sendo escrita: o desamparo pode não ser o destino, mas a travessia. despertamos. e ao abrir os olhos, estamos vendo que a poesia, a memória e a união popular continuam de pé, prontas para derrotar os canalhas que desejam nos enterrar vivos.
♦

meu bem, você consegue me ouvir agora?
as correntes estão trancadas e amarradas na porta,
meu bem, cante comigo como der
de qualquer jeito

neil young

♦

...eu te segurei no meu colo / você era tão jovem e pequeno nos meus braços...

...e eu imaginei você... percorrendo os campos de um verde claro... eu imaginei você caminhando de estrela em estrela...

...nadando no mar mais azul... e imaginei que, um dia, você se juntaria a mim... indo em frente em vez de ficar para trás...

...o sopro do teu coração... eu não conhecia a profundidade da tua alma... e eu podia sentir as imagens passando pela tua mente...

...elas eram tão maiores do que as minhas... e foi então que eu já não estava mais... desamparada... desamparada... desamparada...
patti smith

👇

(neil young, 1970)
neil young, patti smith & david bowie
cowboy junkies, reeves gabrels, pearl jam, lenny kaye...
letra adicional de patti smith. concerto beneficente da bridge school
(live 1996)

♦

e ohio?

♦

ohio é uma canção escrita por neil young em reação aos tiroteios de kent state em 4 de maio de 1970, e interpretada crosby, stills, nash & young.

young escreveu a letra de ohio depois de ver as fotos do incidente na revista life .

a faixa foi gravada em 21 de maio de 1970.

no final, a voz de david crosby — com um tom evocativo de lamento — pode ser ouvida com as palavras «quatro!», «quantos mais?» e «por quê?». «david crosby chorou quando terminamos esta tomada», disse young em suas notas de encarte para a retrospectiva decade, acrescentando que o incidente de kent state foi «provavelmente a maior lição já aprendida em uma instituição de ensino americana».

♦

soldados de chumbo e nixon chegando,
finalmente estamos por conta própria.
neste verão, ouço o rufar dos tambores,
quatro mortos em ohio.

👇

(neil young, 1970)

♦

fotos chicote: 
guilherme santos
site sul 21
santa maria (rs)
2018

texto e contexto

👇

(cenas de violência marcam caravana do ex-presidente lula pela região sul)

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

segunda-feira, 2 de novembro de 2026


o sal da terra 
[para antônio cruz]

♦

«um mais um é sempre mais que dois»

ronaldo bastos

♦

«eu tô no teu clube, enilton»

maneca

♦

– quem estará nas trincheiras ao teu lado?
– e isso importa?
– mais do que a própria guerra.

ernest hemingway

♦

16 de agosto: as sementes suicidas
há uns 360 milhões de anos, as plantas vêm produzindo sementes fecundas, que geram novas plantas e novas sementes, e nunca receberam um tostão por esse favor que fazem a todos nós.

mas em 1998 foi outorgada à empresa delta and pine a patente que santifica a produção e a venda de sementes estéreis, que obrigam a comprar novas sementes a cada semeadura. e em meados do ano 2006, a empresa monsanto, de nome sacro, se apoderou da delta and pine, e também da patente.

e assim a monsanto consolidou seu poder universal: as sementes estéreis, chamadas de sementes suicidas ou sementes terminator, integram o muito lucrativo negocio que também obriga a comprar herbicidas, pesticidas e outros venenos da farmácia transgênica.

na páscoa do ano de 2010, poucos meses depois do terremoto, o haiti recebeu um grande presente da monsanto: 60 mil sacas de sementes produzidas pela indústria química. os camponeses se juntaram para receber a oferenda e queimaram todas as sacas numa imensa fogueira.
eduardo galeano | use e jogue fora , p. 168
 
♦
«é na liberdade universal de palavra, de reunião e de informação que consiste a virtude educativa»
ivan illich

♦
memes, viralizações, autoajuda, pensamento positivo, textos autoexplicativos...
♦

«a civilização que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento e o grandalhão com grandeza também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, se dedica a romper seu próprio céu.»
eduardo galeano
♦
«eles pensam que a maré vai, mas nunca volta. até agora eles estavam comandando o meu destino e eu fui, fui, fui, fui recuando, recolhendo fúrias. hoje eu sou onda solta e tão forte quanto eles me imaginam fraca.»
👇

((joana, em gota d'água)
texto de chico buarque e paulo pontes

♦

a fala trazida por chico — quando a resistência contava o tempo das marés — é o lembrete ancestral e trágico de que a vida é cíclica, não linear.

♦

17 de abril de 2017

ontem, no almoço de páscoa, me chamaram idealista
e disseram que assim eu não chegaria a lugar algum.
tudo numa boa. conversa em alto nível. sem estresse.
no entanto, não é a primeira vez que acontece.
cresci ouvindo isso. nada mais normal, portanto,
que estivesse preparado pra responder à altura.
foi o que fiz. falei de vencidos e de vencedores.
me disse dom quixote e lembrei
león felipe e darcy ribeiro.

grill

♦

fracassei em tudo o que tentei na vida.
tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
tentei salvar os índios, não consegui.
tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
tentei fazer o brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
mas os fracassos são minhas vitórias.
eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.

darcy ribeiro

♦

quantas vezes, dom quixote, por esta mesma llanura, em horas de desalento, assim te vejo passar! e quantas vezes te grito: «dá-me lugar en tu montura, e leva-me ao teu lugar!»

👇

(j. m. serrat / león felipe, 1971)
com letra

♦

e o sal da terra?

♦
o sal da terra, documentário de wim wenders, descreve a jornada de sebastião salgado na criação de sua fotografia social. ao longo dos 110 minutos de filme, acompanhamos um ciclo que vai do lugar onde o fotógrafo nasceu, a fazenda paterna no interior de minas gerais, a paris em que se refugiou durante a ditadura no brasil. sua trajetória nos leva pelos quatro cantos do mundo, nas viagens em que como um aventureiro construiu sua obra; para depois retornar ao ponto de origem, a fazenda da infância revivida e renovada na velhice.

 👇

(trailer legendado)
2014

♦
«eles pensam que a maré vai, mas nunca volta. até agora eles estavam comandando o meu destino e eu fui, fui, fui, fui recuando, recolhendo fúrias. hoje eu sou onda solta e tão forte quanto eles me imaginam fraca. quando eles virem invertida a correnteza, quero saber se eles resistem à surpresa, quero ver como eles reagem à ressaca.»

 ♦

a jornada de salgado — assim como a fala de joana em gota d'água — é o lembrete ancestral e trágico de que a vida é cíclica, não linear.
♦

«soy un caminante que por irse siempre,
siempre regresa, porque todo es circular
y eso el sol lo sabe como nadie.»

facundo cabral

♦

cansado? que nada ainda há moinhos no fim da estrada

♦

américas - o sal da terra
em breve, na rádiocom 104.5 fm

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas