traumas
••••••••••••••
janela da alma
janela da alma é um documentário dos diretores brasileiros joão jardim e walter carvalho. a ideia surgiu da vivência do diretor joão jardim, que achava que o fato ter uma miopia muito grande teria influenciado em sua personalidade e até mesmo em sua vida.
entre os entrevistados estão josé saramago, manoel de barros, eugene bavcar, agnès varda e wim wenders (dentre tantos outros).
curioso observar aqui que a «cegueira» vai para muito além da oftalmológica.
e eis que os mitos milenares (alegoria da caverna - a república - platão) deixam de ser mitos, para tornarem-se realidade, ainda que em um mundo de ilusões.
👇
josé saramago e wim wenders - caverna de platão e as ilusões
[«janela da alma» (doc 2001) - fragmento (5:50)]
••••••••••••••
traumas
traumas, de roberto carlos, é uma canção profundamente autobiográfica e dolorosa, lançada no icônico álbum de 1971. na obra, o compositor quebra o silêncio e usa a arte como desabafo para enfrentar o maior tabu de sua vida: o gravíssimo acidente de trem sofrido na infância, aos seis anos de idade, que resultou na amputação de parte de sua perna direita.
através de versos melancólicos, a letra descreve «anjos que eu conheci no delírio da febre que ardia», uma referência sutil às memórias de hospital, ao sofrimento físico e à perda precoce da inocência. a composição também expõe o contraste sensível entre a tentativa dos pais de «enfeitar" a realidade com fantasias e o peso real dos calos que a vida adulta impõe».
••••••••••••••
meu pai um dia me falou
pra que eu nunca mentisse
mas ele também se esqueceu
de me dizer a verdade
••••••••••••••
a verdade dividida
a porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
e sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
e os meios perfis não coincidiam.
arrebentaram a porta. derrubaram a porta.
chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.
chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
nenhuma das duas era perfeitamente bela.
era preciso optar. cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
carlos drummond de andrade
••••••••••••••
ilusão
ilusão
veja as coisas como elas são
a fortuna
a roda
o raio
a imensidão
👇
as cartas | chico buarque (1984)
••••••••••••••
além do horizonte
por oliver harden
«há algo de profundamente enigmático na união silenciosa entre o mar e o crepúsculo, como se duas entidades cósmicas, há milênios separadas, reencontrassem-se a cada fim de dia para renovar um pacto secreto. o mar, com sua respiração líquida e seu murmúrio ancestral, guarda em si a memória dos abismos e dos nascimentos, o rumor das marés que conheceram o surgimento da vida e a dissolução de impérios. o crepúsculo, por sua vez, é o instante em que o tempo se inclina, como um ponteiro fatigado, e os contornos do mundo se desfazem em tonalidades que nenhum pincel ousaria inventar.
quando ambos se encontram, dá-se um rito que não pertence nem à terra nem ao céu, mas a uma zona liminar onde a luz se curva diante da água e a água se entrega ao abraço da luz. é nesse instante que o horizonte deixa de ser mera linha e torna-se uma ferida aberta entre dois infinitos, por onde o olhar se perde e o espírito se dilata.»
••••••••••••••
além do horizonte deve ter
algum lugar bonito pra viver em paz
onde eu possa encontrar a natureza
alegria e felicidade com certeza
👇
por jota quest
(vídeo oficial)
••••••••••••••
de uns tempos para cá, dei para escancarar algo que a vida inteira procurei esconder e disfarçar. refiro-me ao meu estrabismo. na infância até que não. na infância o problema eram os óculos, ou melhor, o bullying que eu sofria por causa deles. na adolescência é que tudo mudou. não queria usar óculos e não queria parecer estrábico. impossível. ou uma coisa ou outra. ou eu usava óculos e não parecia estrábico ou eu (a)parecia estrábico e não usava óculos. quando completei 18 anos, busquei resolver o dilema fazendo cirurgia. foi esforço em vão. passados alguns dias do procedimento, o olho direito voltou a desviar. meu caso, porém, parece não ser algo que preocupe os médicos. conhecida como o tipo de estrabismo divergente, a exotropia intermitente é um desvio ocular que não se manifesta a todo instante. com o passar dos anos, entretanto, esse estrabismo pode descompensar e o paciente manter os olhos desviados a todo momento --- o que, cá entre nós, se eu ainda sei me olhar, é o que eu acho que está acontecendo comigo. «nada demais», dirá você que me lê. sim, eu sei, o dilema é meu (meu comigo mesmo). mas não é porque o fardo é só meu que ele deixa de existir. o poeta que o diga:
«a nós nos bastem nossos próprios ais,
que a ninguém sua cruz é pequenina.
por pior que seja a situação da china,
os nossos calos doem muito mais...».
doem mesmo. lembro de um colega do cfc que adorava contar a história de quando fazíamos o trajeto de rio grande para pelotas. para fazer o curso de instrutor no senac, eu ia de ônibus, mas costumava voltar de carona com ele. numa dessas voltas, o para-brisa do fusca estourou na estrada e, quando chegamos, eu estava com os cabelos em pé e os olhos arregalados. ao falar dos meus olhos, ele dava um sorriso irônico. ninguém dizia uma palavra. nem precisava.
— doía?
— doía.
— e tu fazia o quê?
— eu levantava e continuava... vou fazer o quê?
na sequência, como instrutor de trânsito, uma das provações mais difíceis que vivi foi encarar os alunos em sala de aula. foram dez anos seguidos, nos três turnos – manhã, tarde e noite –, enfrentando a média de 20 a 30 alunos por turma, todos com os olhares voltados para mim --- para mim e para o meu estrabismo.
lembro-me de uma vez em que respondi a uma pergunta de um aluno olhando para outro. o aluno, para quem eu olhava, esperou eu terminar de responder e falou:
— professor, eu não perguntei nada.
entre piadas, sorrisos constrangidos e sonoras gargalhadas, engoli em seco e segui dando minha aula... vou fazer o quê?
no final daquele curso, foi a primeira vez que fui aplaudido de pé. desde então, reforcei a convicção de que a adversidade me é positiva. isto é, que navego melhor contra a maré.
••••••••••••••
dito isto
vamos ao que importa
minha terapia é escrever
não em linha reta
mas com a corda esticada
que é por onde ando
rumo à casa do poeta
que é sem porta
se ainda posso ver
está escrito em minhas mãos
se ainda sei ler
as linhas são infinitas e tortas
••••••••••••••
«queria falar-te de tudo
contudo,
tudo o que posso falar-te
não é tudo...
é apenas uma parte»
martim césar
••••••••••••••
«o óbvio não guarda segredos. o texto tá atrás do texto»
marcos magah
••••••••••••••
«claras palavras não cabem às claras.»
nelson coelho de castro
••••••••••••••– e agora, o que faremos?
– poesia, esses canalhas não suportam poesia.
rafael corrêa
••••••••••••••
«o silêncio é tudo
o resto é nada»
autor desconhecido
••••••••••••••
repecho, 2019
[escrito no face]
domingo, oito da manhã, fui à venda aqui perto buscar café. quando cheguei, vi duas carroças e três bicicletas estacionadas. de fora dava para ouvir o alarido; a conversa estava animada. de repente, do nada, fez-se silêncio. olhei para o balcão, o bar lotado, e pensei: com um frio desses tem que ter coragem... procurei ver se tinha algum conhecido, mas, pelo contrário, todos os que estavam ali exibiam cara de poucos amigos, a popular «cara de bunda». no pasa nada. dei bom dia a todos e fui pegar o café.
antes de ir embora, porém, um dos caras que estava no balcão se aproximou de mim e, com cara de quem sabe tudo, me deu uma intimada:
— e aí, tu que é um cara estudado, que entende de tudo, quero ver tu explicar o aquecimento global hoje...
lembrei do campo branco coberto de geada, olhei para ele, pensei em dizer alguma coisa, mas achei melhor não dizer nada. qualquer explicação que eu desse, naquele momento, não ia adiantar nada.
ademais, ia reforçar a ideia dele de que eu sou um cara estudado e que entendo de tudo — o que absolutamente não é verdade.
portanto, fiz silêncio. achei que era o melhor que eu tinha a fazer.
já os que estão me lendo agora, neste exato instante (não digo todos, mas alguns), ou muito estou enganado, ou estão pensando que isso tudo é invenção minha, e que eu fechei a boca pois fiquei com medo do cara e não sabia o que responder.
fazer o quê? assim caminha a humanidade... todo mundo pensa que sabe tudo e ninguém sabe nada.
••••••••••••••
há quem diga que eu dormi de touca
que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
que eu caí do galho e que não vi saída
que eu morri de medo quando o pau quebrou
há quem diga que eu não sei de nada
que eu não sou de nada e não peço desculpas
que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
e que durango kid quase me pegou
eu quero é botar meu bloco na rua
brincar, botar pra gemer
eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender
eu, por mim, queria isso e aquilo
um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
é disso que eu preciso ou não é nada disso
eu quero é todo mundo nesse carnaval
••••••••••••••
trocando em miúdos
não roubamos dinheiro, dinheiro não vale nada,
roubamos sonhos, sonho é tudo.
quantos talentos a humanidade já perdeu?
quantos outros «eniltons grills» pelo mundo,
com mais potencial e qualidades do que nós,
mas sem essa perseverança cega,
por falta de apoio e por desmerecimento alheio,
acabaram ficando pelo meio do caminho?
••••••••••••••
e a canção do silêncio?
••••••••••••••
o silêncio não é uma palavra
escrita sobre uma parede
é uma canção solitária pelo vento
que não se detém no meio de um inferno
é uma canção solitária pelo vento
que não se detém no meio de um inferno
••••••••••••••
foto: león gieco e eu
autor: antonio soler
cantamérica
porto alegre
1996
••••••••••••••
#américas