quarta-feira, 2 de setembro de 2026


artigo 5º
[de verdades e de mentiras]


dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações

chico buarque do brasil


«a rede globo de televisão, mãe e guia da imprensa corporativa, deu claras mostras de seu lado dissimulado, onde o tratamento a tudo e a todos sempre parece equitativo, equilibrado, mas não o é. nas entrevistas dos candidatos à presidência da república, ontem (27 de agosto), um filho que sequer é indiciado por qualquer atitude criminosa foi o motivo central de colocarem contra a parede o pai, atual presidente da república; hoje (28 de agosto), ao contrário, um pai que se encontra preso pelo cometimento de diversos crimes, e que, igualmente, foi presidente da república, não foi minimamente lembrado nas inquirições feitas ao filho. na verdade, lamento por ambas as entrevistas, por não haverem questionado praticamente nada sobre os planos de governo dos dois (assuntos que mais interessariam ao país), mas, antes, deploro a nunca abandonada condição enganadora e perversamente astuciosa dessa emissora. golpistas não se perdem do método e nem da direção do autoritarismo. mesmo que, na maioria das vezes, essa condição fique sempre escondida sob a relva, como minas a explodir noutro tempo! certas atividades traiçoeiras são diferidas, não se mostram ao primeiro olhar.
lula haverá de vencer, contra muitos e contra tanto!»
— pedro moacyr pérez da silveira


«o "tribunal penal" da globonews, reunido com seus jornalistas e especialistas, já julgou e condenou alexandre de moraes ao cadafalso moral e ético — postura que vem sendo acompanhada por toda a mídia: cnn, jovem pan, record, band e sbt.
​certamente, essa condenação se estenderá ao pgr paulo gonet. tudo isso graças à covardia do advogado-geral da união, jorge messias — a quem lula insiste em bancar como ministro do stf —, que não tomou atitude para conter a sanha investigatória, policialesca e vazadora de andré mendonça, denunciado pelo diretor da polícia federal por invasão de competência.
espero que o lula esteja satisfeito com seu pupilo.»
— luiz alberto franca


tudo isso é verdade
no país de mentira


a propósito


estou mais envolvido com meu blog pessoal do que com as redes sociais e não vejo televisão. peguei o bonde andando na crise do stf, mas ela não me surpreende. fiz vários posts sobre alexandre de moraes, o «herói» da esquerda liberal e burguesa; o mais recente é de 7 de março. veja abaixo:


xandão

não me admira que xandão esteja envolvido com daniel vorcaro
tampouco me admira a pressa com que setores da esquerda saem em sua defesa
não me admiram também as justificativas da outrora combativa esquerda
que o estadão isso
que a globo aquilo
convenhamos
«o jogo é jogado e o "ministro" é pescado»
mas não precisa confiar na malu gaspar
para desconfiar do xandão
grill


bom, por causa de dezenas de posts como esse, em que critico a esquerda liberal e burguesa, representada na figura de luiz inácio lula da silva, tacharam-me no tribunal penal do facebook, entre outras coisas: traidor, fariseu, infantil e golpista... até de bolsonarista já me chamaram. militante de sofá, militante de facebook, utópico, distópico, homem das montanhas, ermitão, fanfarrão, charlatão, futurólogo, delirante, niilista, pessimista, ingênuo, inocente, azedo, amargo, inconsequente... 


tudo isso é mentira
no país de verdade


vandré que o diga


globonews: a pergunta que todos gostariam de fazer é a mais simples possível: o que foi que aconteceu com geraldo vandré?
geraldo vandré: ficou fora dos acontecimentos (risos). ficou fora dos acontecimentos. acho melhor para ele. tenho outras coisas para fazer. estudei leis. quando terminei meu curso de direito aqui no rio e fui me dedicar a uma carreira artística, já sabia que arte é cultura inútil. mas hoje consegui ser mais inútil do que qualquer artista. sou advogado num tempo sem lei. quer coisa mais inútil do que isso?

globonews: em que país vive geraldo vandré?
geraldo vandré: vive num brasil que não está aqui. geraldo vandré vive no brasil. eu até me atreveria a dizer que quem não vive no brasil é a maioria dos brasileiros. a quase totalidade dos brasileiros não vive mais no brasil. vive num amontoado.

globonews: por que você tomou esta decisão tão drástica – de interromper uma carreira de tanto sucesso?
geraldo vandré: decidi sair do brasil naquele ano de 1968. eu tinha uma programação para fazer fora do brasil. tinha um contrato com a televisão bavária, na alemanha, para fazer um filme sobre geraldo vandré. fui fazer.

narrador alemão conta sobre vandré

👇 

(legendas em pt-br)
geraldo vandré: passei um ano e meio pela europa. depois, voltei para o chile, para onde eu tinha ido do brasil. havia muitos brasileiros lá ainda. de lá, fui para o peru. ganhamos um festival em lima em 1972 com uma canção que era a única não cantada em espanhol. era cantada em «brasileiro» mesmo. o brasil não conhece a canção. chama-se «pátria amada idolatrada, salve, salve – canção terceira».

globonews: você se lembra da letra ?
geraldo vandré: eu me lembro. é uma canção que foi feita para ser cantada por um homem e uma mulher. existe de caso pensado – coincidentemente – uma confusão de sentimentos entre a ideia da pátria e a ideia da mulher amada. o homem canta:

«se é pra dizer-te adeus / pra não te ver jamais / eu – que dos filhos teus fui te querer demais - / no verso que hoje chora para me fazer capaz da dor que me devora / quero dizer-te mais / que além de adeus / agora eu te prometo em paz levar comigo afora o amor demais».

e a mulher, cuja imagem se confunde com a noção da pátria, responde:

«amado meu sempre será quem me guardou no seu cantar / quem me levou além do céu / além dos seus / e além do mais / amado meu / que além de mim se dá / não se perdeu nem se perderá».

os dois cantam juntos um para o outro. é um contraponto.

entrevista a geneton moraes neto
dossiê globo news, 25 set 2010


pois é...

é triste que ainda haja brasileiro
que não saiba quem ele é.
pátria amada idolatrada, salve, salve
seu nome é geraldo vandré.

grill


se é pra dizer adeus
pra não te ver jamais
eu, que dos filhos teus
fui te querer demais
no verso que hoje chora
pra te fazer capaz
da dor que me devora
quero dizer-te mais
que além de adeus agora
eu te prometo em paz
levar comigo afora
o amor demais 

👇

[canção terceira]
manduka / geraldo vandré 1972
participação: soledad bravo


e o artigo 5°?


todos são iguais perante a lei
sem distinção de qualquer natureza
garantindo-se ao brasileiros e estrangeiros residentes no país
a inviolabilidade do direito
à vida
à liberdade
à igualdade
à segurança e à propriedade
mas, você se quiser
pode cagar nesse artigo
e, se tiver poder
pode cagar nessa constituição
que dá nada

👇

artigo 5° | leo aprato/ian ramil
com gutcha ramil
[derivacivilização, 2015]


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 1 de setembro de 2026


sol de primavera 
(para minha irmã)


«hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás»

che guevara


«guevara lê gullar
dentro da noite veloz
perto de la higuera, selva boliviana
em outubro de 1967
na quebrada do yuro são 13 e 30 horas»

celso borges | pequenos poemas viúvos, p. 61


«o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor»

che guevara


«os dois meninos
da capa do clube da esquina nº 1
nunca mais sentiram
aquele gosto de sol
das noites azuis de minas»

celso borges | pequenos poemas viúvos, p. 70


«o clube da esquina é essencialmente um trabalho coletivo. todos se davam as mãos quando o negócio era criar belezas. a letra de ronaldo bastos homenageia aqueles que lutaram e sonharam a liberdade. muitas das pessoas que eram amigas da turma do clube foram vítimas da covarde repressão que assolou o brasil. a música soa até hoje como um hino de amor, de liberdade e de esperança. uma luz que se acende. «mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer sol de primavera». o maravilhoso desenho da capa é do grande artista plástico gilberto de abreu.»

robertinho brant


já sonhamos juntos
semeando as canções no vento
quero ver crescer nossa voz
no que falta sonhar

já choramos muito
muitos se perderam no caminho
mesmo assim, não custa inventar
uma nova canção que venha nos trazer

sol de primavera
abre as janelas do meu peito
a lição sabemos de cor
só nos resta aprender

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música: beto guedes 
letra: ronaldo bastos 
álbum: sol de primavera
ano: 1979


a ternura e a bela cena
(fragmento)

por rubem alves 

a ternura 

pureza de coração é desejar uma só coisa”, definiu kierkegaard. a paixão vive disso: de uma única imagem que apaga todas as outras e faz o apaixonado enxergar beleza plena no ser amado. como no encontro do pequeno príncipe com a raposa, o amor começa quando colocamos uma metáfora poética no rosto do outro. não vemos o que vemos, vemos o que somos: esse olhar não busca a posse, mas a contemplação pura e a alegria da presença.

essa experiência estética se traduz na ternura, o exato oposto do sexo compulsivo que apenas busca o alívio imediato. quem ama sorri ao contemplar a amada dormindo sem sequer tocá-la, contendo a própria mão para não interromper a paz da cena. enquanto o sexo sem amor usa o outro como mero objeto, a ternura reside no olhar demorado que sorri diante do mistério e da beleza do ser amado.

mi camión en el camino y teresa en mi cabeza
por la ruta tres voy pensando en ella
que siempre me está esperando en avellaneda

yo que soy el jd de la ruta tres
cambié las mujeres por una mujer: teresa
yo que nunca llegue temprano a ninguna parte
voy corriendo por la ruta tres
porque la teresa me está esperando en avellaneda

👇

letra e música: facundo cabral
álbum: facundo secreto
ano: 1987

a bela cena

tomas não conhecia a experiência da paixão, apenas os prazeres do sexo. saciado o desejo, horrorizava-o a ideia de acordar ao lado de uma mulher; agia como um caçador que abandona a caça tão logo a fome é satisfeita. mas com tereza tudo foi diferente. sua aventura com tereza tinha começado exatamente onde terminavam suas aventuras com as outras mulheres. ela se desenrolara do outro lado do imperativo que o levava à conquista.

conhecera tereza acidentalmente num bar de cidadezinha do interior. dissera-lhe, quase como uma brincadeira, que se fosse à capital que o procurasse. e lhe dera o seu endereço. tereza foi e o procurou. chegara à capital doente e não sabia para onde ir. foi aí que a história de amor começou.

ela estava ardendo em febre, adormecera no sofá da sala, e ele não pudera levá-la de volta como fazia com as outras. para onde a levaria? ajoelhado à sua cabeceira ocorrera-lhe a ideia de que ela viera para ele numa cesta sobre as águas.

desde que tomas conhecera tereza, nenhuma outra mulher tinha o direito de deixar a marca, por efêmera que fosse, nessa zona do seu cérebro. agora, na memória poética de tomas, aquela cena permanecia imóvel, imperturbável, fora do tempo. era uma parte da sua alma. não morreria jamais.

«o que é que amo quando te amo?» tomas amava tereza porque amava nela uma outra coisa: aquela cena que repentinamente brilhara em sua imaginação. na cena, tereza não era tereza; era uma criança abandonada, levada pelas águas de um rio. e, de repente, ele deixou de ser tomas, o caçador – tornou-se um homem forte, que tomava aquela criança nos braços. tereza poderia deteriorar-se ou morrer. mas a cena permaneceria inalterada, suspensa na memória poética, como objeto de amor.


ojalá se te acabe la mirada constante
la palabra precisa la sonrisa perfecta
ojalá pase algo que te borre de pronto
una luz cegadora un disparo de nieve
ojalá por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos en todas las visiones
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones.

👇

letra e música: silvio rodríguez
álbum: al final de este viaje...
ano: 1969/1978


a insustentável leveza do ser

«quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes. o que escolher, então? o peso ou a leveza?»

milan kundera


«a verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza e com toda a liberdade em relação àqueles que não representam nenhuma força. o verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, situado num nível tão profundo que escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais.»

(idem)


«o acaso tem seus sortilégios, a necessidade não. para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se encontrem nele desde o primeiro instante como os pássaros nos ombros de são francisco de assis.»
(idem)


por mim mesmo


no último capítulo intitulado «o sorriso de karenin», tereza e tomas vendem quase tudo que possuem em praga e se mudam para o interior. o campo é a fuga deles. tereza está feliz. mas ela e tomas tiveram que romper com velhos costumes e velhos amigos em praga para viver uma nova vida. uma pequena aldeia, sem igrejas, bares, e o teatro mais próximo fica a quilômetros de distância.


tereza encontra trabalho cuidando das novilhas da fazenda coletiva. karenin (a cachorrinha) está mancando e, ao levá-la ao veterinário, descobre que ela sofre de um câncer. semanas depois, fica claro que o câncer de karenin está se espalhando. aqui o narrador diz que a bondade humana, se for realmente pura, só pode existir se o destinatário dessa bondade não tiver nenhum tipo de poder. assim, o verdadeiro teste moral da humanidade é a misericórdia que se mostra para com os animais.


vivendo na natureza, cercada de animais e árvores, tereza e tomas encontram a felicidade.


e, baltazar, o que diz?


dice baltazar que tiene que cuidar
100 gallinas 10 caballos 30 vacas y sembrar 
dice baltazar porque trabajo tanto 
si al final me estoy muriendo de tanto trabajar 
pero un dia baltazar escribio sobre un galpon 
unas frases muy cortitas que decian lo siguiente: 
"las tierras deben ser del que las siembra 
porque yo estoy dando todo y hay quien se lo lleva 
esto es para usted señor patron y como va a conocer su campo 
si esta sentado en un sillon con su esposa mirando television" 
pero un dia baltazar se fue sin avisar 
y cuando estaba ya muy lejos se dio vuelta por mirar 
porque escuchaba un ruido extraño y no sabia que podia ser 
...y eran todos los caballos todas las gallinas 
mariposas blancas y los gorriones y las vacas 
que seguian por detras a baltazar...

👇

música e letra: león gieco
álbum: la banda de los caballos cansados
ano: 1974


e minha irmã? 


quando voltei para a cidade
os primeiros dias foram de muito medo
e insegurança
muita luta interna contra os fantasmas
que estavam adormecidos
mas não mortos
um dia
na hora certa
quando tudo
dentro de mim
escurecia
minha irmã
de sangue e alma
envia-me uma mensagem
com as palavras certas
certas porque mágicas
certas porque proféticas


e a borra do café?


«só o acaso pode nos parecer uma mensagem. aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e se repete cotidianamente é coisa muda apenas. somente o acaso tem voz. tenta-se ler no acaso como as ciganas leem no fundo de uma xícara os desenhos deixados pela borra do café.»  


mas a mensagem da minha irmã
não foi mero acaso
a casualidade não existe
o que chamamos de acaso
surge das fontes mais profundas


mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

👇

letra e música: bob dylan
álbum: desire
1975/1976


arte

girl with balloon (em português: garota com balão) 
autor: banksy
ano: 2002


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026


jogos de armar

«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

maria elizabeth gastal fassa


«a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»

manoel de barros

boi, boi, boi cara de louça
pega o toim zé que ele tem medo de moça
boi, boi, boi cara de lua
toim zé ainda chora
quando vê moça nua

👇

spotify (letra na descrição)

gênio

tem quem diga que é
e tem quem seja
eu não sou
nem digo que sou
quem diz que é
que seja
o que não é o caso de tom zé
tom zé diz que não é
mas é

e chico?

não fode
chico é chico
chico é pra quem pode

grill

tom zé, o gênio de irará
[vira lata da via láctea]

de onde veio essa ideia de vira-lata da via láctea?
tom zé - começou com caetano me pedindo uma letra. tive a ideia de falar sobre o planeta terra ainda bem jovem, quando tudo começou mesmo, e existia uma promessa de que um dia haveria vida aqui. o ser humano, nesse tempo, era uma coisa impensável. escrevi a letra como se fosse essa criatura. e depois, como não poderia deixar de ser, eu sorri de mim mesmo. eu virei o vira-lata no meio de todos esses artistas. quem não ri está perdido.
— por que vira-lata?
tom zé - posso dizer que gil e caetano são gênios porque convivi com eles de perto. eu, na verdade, sou um trabalhador contumaz, sou obsessivo, não tenho nenhuma das capacidades que eles têm. para tirar meia-dúzia de palavras e compassos eu trabalho 14 horas por dia, não tenho aquela compreensão instantânea. eu não sou um gênio. reivindico o direito de informar que não sou um gênio. e não é humildade. para viver de música no brasil, é preciso ser muito pretensioso. ave-maria, com chico buarque, roberto carlos, erasmo carlos… não vou lembrar de um terço desses que assombram a gente. vi paul mccartney, que fez shows no brasil em novembro. você viu o paul? nunca tinha visto um artista tão grande.quelas moças que a câmera mostrava, elas estavam chorando. e eu também estava chorando aqui em casa. não é possível ver uma criatura daquelas e não chorar. é de outro mundo. ele vem com uma simplicidade, cantando coisas inacreditáveis…




é elevando sinhá inácia
melânia, pedro piroca
que irará chegará lá lá
irará, irá lá, irá lá

👇

spotify (letra na descrição)

aí ai
meu bem
tire a calcinha,
aí ai
galope meu laptop,
hum hum,
me clone
aí no seu smartphone
me bote on line não me largue
ipad, ipad, ipod, aípode.
vem depressa, porque
meu bem, meu bem, meu bem,
daqui a alguns anos
vamos ter de governar – ah, ah!
daqui a alguns anos
vamos ter de governar – ah, ah!
daqui a alguns anos,
infelizmente governar.
oh, e os nossos ideais, ai, quem diria
no mesmo camburão da burguesia.
uma renca de parentes atender
nos ritos e delitos do poder
PUTA, QUE TRAGÉDIA!
desaba sobre nós,
logo depois que a ilusão tem voz.
oh oh yes!
wireless
um et
dentro do hd,
mas, além disso,
o ambiente é compromisso
porque já somos o pós-humano
e o novo antropomórfico bando ô
vem depressa, porque
meu bem, meu bem, meu bem...

👇

[do álbum: vira lata na via láctea]
*grifo do autor


vem depressa, querido... trabalhando bem cedo, fones no ouvido, tom zé a todo volume, quando escuto ao fundo a voz da vivi. — vem depressa, querido, acho que os vizinhos estão brigando. a briga era feia. não deu dois minutos e a vizinha bateu na porta. abrimos e ela entrou correndo. o homem ficou na rua, alterado. fechei a cara, abri a porta: — o que foi? ele baixou a cabeça e foi saindo de fininho. entrei e vi a mulher contando pra vivi. hematomas nos braços, no pescoço, o olho roxo. apavorada. vivi e eu nos olhamos: polícia, boletim de ocorrência, maria da penha. a vizinha concordou com a cabeça. naquela manhã, vi um homem algemado ser levado no camburão. grill


de volta a tom zé


5 grandes músicas sobre mulheres

👇

[arte 1]


aproveitando que tom zé lembrou «mulheres de atenas»...


«o que quer a mulher?» (was will das weib?) - a pergunta irrespondida que se fez freud, em carta a maria bonaparte, ressoa singularmente na alta poesia de chico buarque. não que se pretenda que a resposta tenha sido dada, pois, como já cantou caetano veloso, «ninguém sabe mesmo o que quer uma mulher».

mas as canções de chico, como as de poucos na música popular brasileira, tematizam a mulher e seu desejo.

adélia bezerra de meneses | figuras do feminino na canção de chico buarque, p. 15.


«às vezes coloco a mulher numa posição submissa, justamente para denunciar, embora algumas feministas não gostem. vejo o movimento de minorias importante, mas dentro de um contexto geral. não acredito, entretanto, que a liberação da mulher sozinha, independente de todo o resto, resolva alguma coisa. é preciso estar aliada a um movimento geral de libertação do ser humano.»

chico buarque


mirem-se no exemplo daquelas mulheres de atenas
geram pros seus maridos os novos filhos de atenas
elas não têm gosto ou vontade
nem defeito nem qualidade
têm medo apenas
não têm sonhos, só têm presságios
o seu homem, mares, naufrágios
lindas sirenas
morenas

com depoimento de chico
do dvd à flor da pele


o beijo

anonio pujía escolheu, ao acaso, um dos blocos de mármore de carrara que vinha comprando ao longo dos anos.

era uma lápide. viera de alguma tumba, sabe-se lá de onde; ele não tinha a menor ideia de como tinha ido parar em seu ateliê.

antonio deitou a lápide sobre uma base de apoio, e começou a trabalhar. tinha alguma ideia do que queria esculpir, ou talvez nenhuma. começou por apagar a inscrição: o nome de um homem, o ano do nascimento, o ano do fim.

depois o cinzel penetrou no mármore. e antonio encontrou uma surpresa, que estava esperando por ele pedra adentro. o veio tinha a forma de duas caras que se juntavam, algo assim como dois perfis unidos frente a frente, o nariz grudado no nariz, a boca grudada na boca.

o escultor obedeceu à pedra. e foi escavando, suavemente, até que cobrou relevo aquele encontro que a pedra continha. no dia seguinte, deu o trabalho por concluído. e então, quando levantou a escultura, viu o que não havia visto antes. ao dorso, havia outra inscrição: o nome de uma mulher, o ano do nascimento, o ano do fim.

eduardo galeano | bocas do tempo, p. 29.


o beijo que eu não dei
o verso – azul – a cor
com quem eu vou pra lá?
espero abril – e tu
me dê – me dando – ri
morango - eu gosto – vem
saudade de quem for
de quem eu vou gostar
a magia sempre cria
luzes, luzes lá
o jeito dá um jeito
cruzes, cruzes lá
vejo um nada – feito nada
vejo – VEJO lá
( sempre vejo lá)
a morte vive aqui
o medo dela é meu
a mão - armada voz
angustia – é o não fazer

👇

do álbum: juntos (1981)
*grifo do autor



demanda de amor, busca de felicidade, elã de reintegrar uma completude para sempre perdida, necessidade de comunhão, ânsia insofrida por um objeto não nomeado. falando de desejo, diz octavio paz:

«más allá de ti, más allá de mí, por el cuerpo, en el cuerpo, más allá del cuerpo, queremos ver algo. no sabemos a ciencia cierta, lo que es, excepto que es algo más. más que la historia, más que el sexo, más que la vida, más que la muerte.» (além de você, além de mim, pelo corpo, no corpo, além do corpo, queremos ver algo. não sabemos ao certo o que é, exceto que é algo mais. mais do que a história, mais do que o sexo, mais do que a vida, mais do que a morte.»)

não só à mulher, também ao homem caberia a pergunta que se coloca freud. ela há de ser reformulada: «o que querem a mulher e o homem?»

adélia bezerra de meneses | figuras do feminino na canção de chico buarque, p. 159.


o que será que será
que todos os avisos não vão evitar
porque todos os risos vão desafiar
porque todos os sinos irão repicar
porque todos os hinos irão consagrar
e todos os meninos vão desembestar
e todos os destinos irão se encontrar
e mesmo o padre eterno que nunca foi lá
olhando aquele inferno, vai abençoar
o que não tem governo, nem nunca terá
o que não tem vergonha nem nunca terá
o que não tem juízo

👇

do álbum: meus caros amigos (1976)
spotify (letra na descrição)


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

domingo, 30 de agosto de 2026


só para os raros, só para os loucos
[para meu irmão]


antes do fim

recentemente, por ocasião do aniversário da minha mãe, ela e eu conversávamos sobre a minha rotina e os motivos que me levavam a escrever. falei que o meu dia a dia era pesado, de trabalho duro no repecho, e que, quando me sentava diante do computador, cansado de falar sobre a vida dos outros, descansava falando sobre a minha.

enfim,
assim tem sido
e assim será
até o fim.

grill


«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

«não estou minimamente interessado em salvar quem quer que seja. ninguém precisa ser salvo. a única coisa que posso fazer é falar de quem sou e do que me sucedeu. eu não carrego pesos, não levo às costas os males do mundo [...] apenas gosto de partilhar a minha experiência, e essa partilha traz-me uma grande alegria.»

osho

ao vento 

já disse isso aqui
e volto a repetir
quanto mais escrevo
menos leitores tenho
quanto menos leitores tenho
mais escrevo
mas escrevo para quem, então?
só para os raros, só para os loucos
ambos cada vez mais raros
cada vez mais loucos
e antes que alguém me acuse de «vitimização» e «coitadismo»
não estou advogando em causa própria
nem poderia
não sou advogado
aliás
diga-se de passagem
não sou advogado
não sou jornalista
não sou agricultor
não sou professor
não sou poeta 
não sou escritor
não sou autor
o melhor que faço
modéstia à parte
é falar de mim
da minha vida
sou um contador de histórias
histórias de mim mesmo
por quê? porque eu quero
será arte? não sei
aliás, falando em arte
não confunda arte com comercial de margarina
arte é sina
digo isso
pois há quem confunda o narrador com o autor
não é o meu caso
eu preferiria ser um condor
do que um artista ou escritor
sim
eu preferiria
se eu pudesse

grill

para longe, prefiro navegar para longe
como um cisne que passa e já se foi
um homem que fica preso ao chão
ele dá ao mundo
sua canção mais triste
sua canção mais triste

👇

simon & garfunkel
(com cenas em machu pichu)

«o que é um artista? é alguém que tem antenas, que sabe se ligar às correntes que estão na atmosfera, no cosmos; ele apenas tem facilidade para fisgar, por assim dizer. quem é original? tudo que fazemos, tudo que pensamos, já existe, e somos apenas os intermediários que usamos o que está no ar, só isso.»

henry miller

sobre o ouvir

o ato de ouvir exige humildade de quem ouve. saber, não com a cabeça mas com o coração, que é possível que o outro veja mundos que nós não vemos.

para sair do círculo fechado de nós mesmos, é preciso que nos coloquemos fora de nós mesmos. para se ouvir de verdade, é preciso colocar entre parênteses, ainda que provisoriamente, as nossas opiniões.

é norma de boa educação ficar em silêncio enquanto o outro fala. mas esse silêncio não é verdadeiro. é apenas um tempo de espera: estou esperando que ele termine de falar para que eu, então, diga a verdade.

rubem alves

«descendo das montanhas onde passara dez anos de solidão, zaratustra se encontra com um eremita que vivia numa floresta. passara por ele dez anos antes, quando subia. o eremita se espanta: "sim, reconheço zaratustra", ele diz. "seus olhos são puros, em sua boca não se esconde nenhum desgosto. e não anda ele como um dançarino?»

nietzsche

yo era el rey de este lugar
tenía cien capas de seda fina 
y estoy desnudo 
si quieren verme bailando 
a través de las colinas

charly garcía

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sui generis 
[con letra]

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[en el ch75 de hoy conocimos el detrás de escena de la canción de sui generis que está inspirada en la revolución francesa]

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charly garcia 
en vivo 
2005

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[videoclip oficial] 
por ia

«e aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música»

nietzsche

perdoname amor por tanto hablar
es que quiero ayudar al mundo a cambiar
que loco
si realmente se pudiera
y todo el mundo se pusiera alguna vez
a realizar

david lebón

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david lebon
(official video) ft. Fito Paez

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david lebón en vivo en el cck
con hilda lizarazu 

👇

mercedes sosa . ft. oveja negra

ao vento

nunca foi meu dever reconstruir o mundo todo
nem é minha intenção tocar um chamado à guerra 
sou vendedor de canções e arqueiro na fronteira do nada

autor desconhecido

«será que a loucura pode ser provocada por excesso de lucidez?»

ao vento 

acreditem ou não
no mundo como ele é 
é muito boa a sensação de 
lançar palavras ao vento 
e tão poucos voarem com elas 
é a comprovação 
de que a roda gira para um lado 
e nós para o outro

grill

«yo sigo siendo tan inocente que, me sigue alumbrando la bendita esperanza de que un día, los poetas gobernarán el mundo.»

la realidad duerme sola en un entierro
y camina triste por el sueño del más bueno.
la realidad baila sola en la mentira
y en un bolsillo tiene amor y alegrías,
un dios de fantasías,
la guerra y la poesía.

león gieco

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[legendado]

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porsuigieco . remasterizado

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mercedes sosa / león gieco / nito mestre 
 en vivo

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charly garcía & león gieco
video registrado durante los festejos de los 400 años de la universidad nacional de cordoba. 
(derechos reservados)

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leon gieco y nito mestre 
 acusticazo b.a.rock 
8 de junho de 2017

- quem estará nas trincheiras...
- e isso importa?
- mais do que a própria guerra.


fotos

1. eu, meu pai (ao fundo) e meu irmão
são luís, 1984
2. león gieco y charly garcía 
(do álbum: porsuigieco)
3. eu
4. meu irmão 

bom domingo