sábado, 4 de julho de 2026


 canciones & negocios de otra índole

(de poesias, ironias & autoironias)

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grandes negócios

nós os poetas sempre pensamos ter grandes ideias para prosperarmos, que somos gênios para projetar nossos negócios, ainda que gênios incompreendidos. lembro que, impelido por uma dessas combinações florescentes, vendi a meu editor no chile, em 1924, a propriedade de meu livro crepusculário, não para uma edição, mas para a eternidade. acreditei que ia prosperar com essa venda e assinei o contrato no tabelião. o sujeito me pagou quinhentos pesos, que eram pouco menos que cinco dólares naquela época. rojas giménez, álvaro hijonosa, homero arce me esperavam à porta do cartório para dar-nos um grande banquete em honra deste êxito comercial. com efeito comemos no melhor restaurante da época, la bahía, com vinhos suntuosos, charutos e licores. previamente tínhamos mandado lustrar os sapatos que luziam como espelho. os que tiveram proveito com o «genial» negócio: o restaurante, quatro engraxates e um editor. a prosperidade não chegou até o poeta.

pablo neruda | confesso que vivi, p. 44.

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ao vento

ó mundo, ó mundo
que mundo?
não sei nada do mundo
o lugar mais longe que andei
fica no sul do mundo
cheguei passando o chapéu
sem eira nem beira
dono de mim mesmo
vivendo ao léu
um dia ouvi o chamado da terra e o canto do vento
olhei para o céu e vi montevidéu

grill

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na minha cidade tem poetas, poetas
que chegam sem tambores nem trombetas,
trombetas e sempre aparecem quando
menos aguardados, guardados, guardados,
entre livros e sapatos, em baús empoeirados
saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares
onde vivem com seus pares, seus pares
seus pares e convivem com fantasmas
multicores de cores, de cores
que te pintam as olheiras
e te pedem que não chores
suas ilusões são repartidas, partidas
partidas entre mortos e feridas, feridas
feridas mas resistem com palavras
confundidas, fundidas, fundidas
ao seu triste passo lento
pelas ruas e avenidas
não desejam glórias nem medalhas
medalhas, medalhas, se contentam
com migalhas, migalhas, migalhas
de canções e brincadeiras com seus
versos dispersos, dispersos
obcecados, pela busca de tesouros submersos
fazem quatrocentos mil projetos
projetos, projetos, que jamais são
alcançados, cansados, cansados nada disso
importa enquanto eles escrevem, escrevem
escrevem o que sabem que não sabem
e o que dizem que não devem
andam pelas ruas esses poetas, poetas, poetas
como se fossem cometas, cometas
num estranho céu de estrelas idiotas
e outras e outras
cujo brilho sem barulho
veste suas caudas tortas
na minha cidade tem canetas, canetas, canetas
esvaindo-se em milhares, milhares, milhares
de palavras retorcendo-se confusas, confusas,
confusas, em delgados guardanapos
feito moscas inconclusas
andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
que eles veem nos vão dizendo, dizendo
e sendo eles poetas de verdade
enquanto espiam e piram e piram
não se cansam de falar
do que eles juram que não viram
olham para o céu esses poetas, poetas, poetas
como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas
lançadas ao espaço e ao mundo inteiro
inteiro, inteiro, fossem vendo pra
depois voltar pro rio de janeiro

guardanapos de papel | leo masliah 1984
(versão: milton nascimento)

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#américas
#casadesatolep
#umoutromundoépossível

sexta-feira, 3 de julho de 2026

o jogo por trás do jogo

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no dia de ontem, 2 de julho, foi celebrado o dia mundial do jornalista esportivo. a comemoração foi criada no ano de 1994 pela associação internacional de imprensa esportiva (aips – international sports press association), como forma de festejar seus 70 anos.

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sobre jornalismo esportivo

«não sei qual a porcentagem, mas sei que existe uma parte do jornalismo que responde aos interesses daqueles que detêm o poder.»

«eu disse: "não sei a proporção. mas sei que há uma porcentagem de jornalistas que respondem, que não dizem o que deveriam dizer, e há outra porcentagem que diz o que deveria dizer. portanto, continuo inocente porque não estou acusando todos. estou acusando a porcentagem que permanece em silêncio.»

marcelo «el loko» bielsa

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«fracassei em tudo o que tentei na vida. mas os fracassos são minhas vitórias. eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.»

darcy ribeiro

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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sobre jornalismo

vou contar uma coisa que quase ninguém que me conhece sabe. em 89, quando voltei pra pelotas, vindo de são luís (ma), consegui emprego de estagiário num jornal da cidade. no primeiro dia, o encarregado me colocou numa mesa com uma máquina de escrever e uma folha em branco. ele me deu o prazo de uma hora para que eu escrevesse sobre qualquer coisa. ou seja: tema livre. isso eram mais ou menos umas oito e meia da manhã, quando bateu meio-dia eu não tinha escrito uma palavra sequer. o encarregado se aproximou de mim e disse: «guri, vai procurar outra coisa pra fazer. aqui só se dá bem quem gosta de escrever». desde então, jurei nunca mais deixar uma folha em branco. tenho feito o que posso. hoje acabei de preencher mais uma, amanhã vou preencher outra e depois de amanhã outra. é o plano das 24 horas, aprendi no aa.

grill

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maradona, napoli, nápoles...

havia mais de meio século que o time da cidade não ganhava um campeonato, cidade condenada às fúrias do vesúvio e à derrota eterna nos campos de futebol e graças a maradona, o sul obscuro tinha conseguido, finalmente, humilhar o norte branco que o desprezava. campeonato atrás de campeonato, nos estádios italianos e europeus, o napoli vencia, e cada gol era uma profanação da ordem estabelecida e uma revanche contra a história.

em milão odiavam o culpado desta afronta dos pobres e não só em milão: no mundial de 90, na itália, a maioria do público castigava maradona com furiosas vaias toda vez que tocava a bola.

quando maradona disse que queria ir embora de nápoles, houve os que lhe lançaram pelas janelas bonecos de cera atravessados por alfinetes. prisioneiro da cidade que o adorava e da camorra, a máfia dona da cidade, ele já estava jogando contra a vontade, no contra-pé; e então, explodiu o escândalo da cocaína.

maradona transformou-se subitamente em «maracoca», um delinqüente que se tinha feito passar por herói. mais tarde, em buenos aires, a televisão transmitiu o segundo acerto de contas: a detenção, ao vivo, como se fosse uma partida, para deleite dos que desfrutaram o espetáculo do rei nu que a polícia levava preso. «é um doente», disseram. e disseram: «está acabado».

o messias convocado para redimir a maldição histórica dos italianos do sul tinha sido, também, o vingador da derrota argentina na guerra das malvinas, mediante um gol velhaco e outro gol fabuloso, que deixou os ingleses girando como piões durante alguns anos; mas na hora da queda, o pibe de ouro não passou de um farsante cheirador e putanheiro.

deram-no como morto. mas o cadáver levantou-se de um salto. cumprida a penitência da cocaína, maradona foi o bombeiro da seleção argentina, que estava queimando suas últimas possibilidades de chegar ao mundial de 94. graças a maradona, chegou lá. e no mundial, maradona era outra vez, como nos velhos tempos, o melhor de todos, quando estourou o escândalo da efedrina.



o mundial de 94

jogou, venceu, mijou, perdeu. a análise acusou a presença de efedrina e maradona acabou de mal jeito o mundial de 94.

maradona nunca havia usado estimulantes, nas vésperas das partidas, para multiplicar seu corpo. é verdade que se metera com cocaína, mas se dopava em festas tristes, para esquecer ou ser esquecido, quando já estava encurralado pela glória e não podia viver sem a fama que não o deixava viver. jogava melhor do que ninguém, apesar da cocaína, e não por causa dela.

maradona carregava uma carga chamada maradona, que fazia sua coluna estalar. o corpo como metáfora: suas pernas doíam, não podia dormir sem comprimidos. não tinha demorado a perceber que era insuportável a responsabilidade de trabalhar como deus nos estádios, mas desde o princípio soube que era impossível deixar de fazê-lo.

«necessito que me necessitem», confessou, quando já tinha há muitos anos o halo na cabeça, submetido à tirania do rendimento sobre-humano, intoxicado de cortisona, analgésicos e ovações, acossado pelas exigências de seus devotos e pelo ódio dos que ofendera.

a máquina do poder o tinha jurado. ele lhe dizia de tudo, e isso tem seu preço, o preço se paga à vista e sem descontos. e o próprio maradona ofereceu a justificativa, por sua tendência suicida de servir-se de bandeja na boca de seus muitos inimigos e por essa irresponsabilidade infantil que o impele a precipitar-se em todas as armadilhas que se abrem em seu caminho.

os mesmos jornalistas que o pressionam com os microfones, reprovam sua arrogância e suas zangas e o acusam de falar demais. não lhes falta razão; mas não é isso que não podem perdoar nele: na verdade, não gostam do que às vezes diz. este garoto respondão e esquentado tem o costume de lançar golpes para cima.

em 86 e em 94, no méxico e nos estados unidos, denunciou a ditadura onipotente da televisão, que obrigava os jogadores a extenuar-se ao meio-dia, esturricando-se ao sol, e em mil e uma ocasiões, ao longo de toda a sua acidentada carreira, maradona disse coisas que mexeram em casa de marimbondos.
ele não foi o único jogador desobediente, mas foi sua voz que deu ressonância universal às perguntas mais insuportáveis: por que o futebol não é regido pelas leis universais do direito do trabalho? se é normal que qualquer artista conheça os lucros do show que oferece, por que os jogadores não podem conhecer as contas secretas da opulenta multinacional do futebol?

quando maradona foi, finalmente, expulso do mundial de 94, os campos de futebol perderam seu rebelde mais clamoroso. e perderam também um jogador fantástico. maradona é incontrolável quando fala, mas muito mais quando joga: não há quem possa prever as diabruras deste criador de surpresas, que jamais se repete e goza desconcertando os computadores.

no frígido futebol do fim de século, que exige ganhar e proíbe divertir-se, este homem é um dos poucos que demonstra que a fantasia também pode ser eficaz.


eduardo galeano | futebol ao sol e á sombra, 1995.

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se eu fosse maradona, viveria como ele
(porque o mundo é uma bola que se vive à flor da pele)

houve uma vez que saí de santa vitória rumo ao beira rio e pecorri 500 km sozinho num ônibus de excursão só pra ver o inter de falcão.
tinha oito anos e pra mim não houve outro inter como o inter de falcão (nem o de fernandão).
depois cerezzo atravessou aquela bola o mundo chorou e eu também.
tinha 17 anos e pra mim não houve outra seleção como a seleção de sócrates zico e falcão (nem a de dunga nem a de felipão).
houve uma época que esperava ansioso o domingo pela manhã era uma época boa e as coisas mais fáceis do que são e do que estão.
tinha 20 anos e pra mim não houve outro maradona como aquele maradona do nápoli (do nápoli de maradona careca e alemão).
o tempo passa, hoje as coisas estão mais difíceis e o futebol sem graça.
há quem diga que a memória é seletiva e outros que é remota.
acho que são as duas juntas a razão de eu lembrar a escalação do inter de falcão e não o de fernandão.
a mim não importa que um tenha sido campeão (do mundo) e o outro não. a vida é vivida e o jogo jogado. não sou guiado pela razão nem por resultado. quem sabe se eu fosse diferente, tivesse dado certo no mundo como ele é. diga-se de passagem, isso não tem nenhuma importância. o que importa é que mundo é como é e eu sou como sou. não sei o que é certo nem o que é errado. cada um é o que é e vive como quer. se eu fosse maradona viveria como ele...

grill

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confidência do itabirano

alguns anos vivi em itabira.
principalmente nasci em itabira.
por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
noventa por cento de ferro nas calçadas.
oitenta por cento de ferro nas almas.
e esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

a vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
e o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

de itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do brasil;
este são benedito do velho santeiro alfredo duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

tive ouro, tive gado, tive fazendas.
hoje sou funcionário público.
itabira é apenas uma fotografia na parede.
mas como dói!

carlos drummond de andrade

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o parto

ao amanhecer, dona tota chegou a um hospital no bairro de lanús. ela trazia um menino na barriga. no umbral, encontrou uma estrela, na forma de prendedor de cabelos, jogada no chão.

a estrela brilhava em um lado, e no outro não. isso acontece com as estrelas, toda vez que caem na terra, e na terra se reviram: em um lado são de prata, no outro são só de lata.

essa estrela de prata e de lata, apertada na mão, acompanhou dona tota no parto.

o recém-nascido foi chamado de diego armando maradona.

eduardo galeano

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ao vento

a vida é uma loteria
de noite e de dia
é da vida perder e ganhar
lembrei de lembrar
pois maradona
já me fez sorrir e já me fez chorar

grill

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a vida é uma loteria
de noite e de dia
la vida es una tómbola
y arriba y arriba

la vida tómbola | manu chao (2007)

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a propósito da foto de maradona

«seja forte, diego, não desista. fique com seus companheiros. eu vivi o espírito de equipe na minha época. e se você puder continuar jogando, não pare», dizia a carta do escritor ernesto sábato, em 1994, após a copa do mundo.

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nas outras imagens, um pouquinho da minha própria história e dos meus mind games (jogos mentais) .

📸 praia da ponta do farol, são luís (ma), 2008.

«estamos jogando esse jogos mentais juntos»

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#américas

quinta-feira, 2 de julho de 2026


quando nietzsche chorou

(ao pé do rádio)

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«aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.»

friedrich nietzsche. além do bem e do mal. aforismo 146 p. 69.

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corre o vento, o rio passa...

em 2007, quando cheguei a são luís, recém-saído de mais uma recaída, minha mãe e meu pai moravam num apartamento pequeno, no condomínio barra-mar. por isso, pedi para ficar na casa de minha irmã e do atual marido dela, josé lino. minha sobrinha, maria eduarda, era recém-nascida. o técnico da seleção brasileira era o dunga — dunga de ijuí — lembra, magrão? pois então... mas não é de dunga que vim lembrar. vim lembrar meu pai.

logo nos primeiros dias, fui visitar meus pais no barra-mar. havia anos que não os via. fui para charlar e lembrar como é saborosa a comida que a minha mãe faz. onze horas da manhã. bato à campainha, minha mãe atende com um sorriso e os braços abertos. eu fecho os olhos para receber aquele abraço que, mais que meu pai, só minha mãe sabe dar. ao abri-los, dou de cara com meu pai, sentado no sofá, vendo televisão. custei a reconhecer naquele homem à minha frente a figura altiva e confiante que eu guardava na memória; ver meu pai assim, estático diante da tela de uma tv, era um cenário totalmente inusitado para mim. era como se o tempo tivesse corrido rápido demais para ele.

corre o vento, o rio passa e, se alguém vier me visitar às onze da manhã ou às seis da tarde, só não me verá de pijama e assistindo à tv, pois não os tenho. nem quero.

diferente de ontem
hoje
se eu olhar para o precipício
caio e não levanto mais
os sinos que tocavam
não tocam mais
os anjos
que me habitavam
não me habitam mais
não é que perdi a esperança
perdi a velha autoconfiança
isso é ruim?
não
no momento
isso é bom pra mim
isso é tudo?
que nada
ainda ouço um chiado de rádio
no fim da estrada

grill

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corre o vento, o rio passa.
correm nuvens, nuvens correm
pela estrada que leva à minha casa.

minha casa, meu refúgio,
todos partem, eu fico
sem companheiro nem amigo.

fico contemplando
as chamas das casinhas
pelas quais vivo suspirando.

a noite chega..., o dia acaba,
os sinos tocam ao longe
o toque da «ave maria».

eles tocam para que eu reze;
rezo apenas com soluços,
afogando-me, ao que parece,
como se eles estivessem rezando por mim.

sinos de bastabales,
quando os ouço tocar,
morro de solidão.

corre o vento, o río pasa | rosalía de castro-amancio prada 1997
amancio prada · maria del mar bonet
real filharmonía de galicia

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#américas
#casadesatolep

quarta-feira, 1 de julho de 2026

 


ainda — e hasta siempre — bielsa

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«eu como técnico sou uma merda total, como marcelo bielsa, sou o homem ideal».

livre paráfrase inspirada no abraço poético de raul seixas

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«bielsa, bielsa, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele... anda pelo mundo em verdade viva... esse teu andar pela vida despido de hipocrisia... orgulha a quem sempre te admirou, pois... não é futebol, é vida mesmo...»

livre paráfrase inspirada no abraço poético de maria elizabeth gastal fassa

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*frases originais no final do post

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autocrítica e o peso da derrota

«sinto que decepcionamos os torcedores; é uma frustração enorme. minha responsabilidade é muito clara; não posso justificar a posição em que terminamos. minha gestão dos recursos não foi suficiente. claro, fizemos o nosso melhor, eu, meus colegas e os jogadores, mas não foi o bastante. estou convencido de que, se tivesse escolhido um caminho diferente, não acho que essa opção teria revertido os resultados que obtivemos.»

«este final é muito doloroso por causa das esperanças que eu tinha quando comecei este projeto e de como ele terminou mal; por causa do esforço que arrastou tantas pessoas para dentro, especialmente os jogadores, que têm uma grande capacidade de trabalho árduo. não tenho desculpa para explicar por que a equipe só conseguiu dois pontos de nove possíveis e não se classificou para a segunda fase. venho aqui e respondo, sabendo que quanto mais eu falar, pior será. a dor de uma derrota que fere o orgulho de todos, e daqueles que decepcionei, não pode ser resolvida com palavras. nem posso demonstrar o quanto estou sofrendo; essas coisas não têm solução. no entanto, tento explicar algumas das coisas que me perguntam porque a única obrigação que sinto é não dizer nada que não seja verdade. não minto nem tento esconder nada. não me acomodo no «mais mínimo». não me conformo com o «mínimo possível».

a relação com o elenco e as concessões táticas

«minha reputação é julgada exclusivamente pela minha relação com os jogadores. eles não fizeram nada para me impedir de liderá-los ou de lhes fornecer os argumentos disponíveis para que pudéssemos alcançar o resultado que merecíamos. portanto, em relação à manipulação de informações e tudo mais: nunca falei com nenhum jornalista, de qualquer nacionalidade, exceto em coletivas de imprensa. também não recorri a nenhum dirigente para intervir ou transmitir minhas necessidades aos jogadores. apenas conversei com eles, os ouvi e disse o que achei apropriado.»

«em relação aos rumores de mudança de estratégia, a resposta é não. isso não aconteceu. se tivesse acontecido, não seria bom para os jogadores. o jogo contra a espanha mostra que jogamos de acordo com as minhas ideias, que sempre foram as mesmas.»

«quanto às reuniões, sim, elas aconteceram. foram muitas, ao longo de um longo período. depois dos estados unidos, tivemos cinco charlas com os jogadores, e os pontos de descontentamento se resumiam a dois: excesso de informação e treinos separados. os jogadores sugeriram que não treinássemos em dois grupos. eu prefiro assim porque reduz o tempo de treino pela metade e me permite ver todos se expressarem, mas quando expressaram o desejo de treinar todos juntos, pareceu-me absurdo insistir numa posição que não compartilhavam. entendi que tinha que aceitar um pedido dessa natureza, pois eles queriam se sentir mais próximos, já que sempre estiveram unidos. aceitei prontamente porque o argumento deles fez sentido para mim.»

«também houve um pedido relacionado à redução das palestras. eu tenho um jeito de explicar as coisas, e eles preferiam que esse tempo fosse reduzido. analisei como resolver isso e reduzi a quantidade de informações a serem transmitidas. as palestras passaram a ser divididas em partes e nunca ultrapassaram os 10 minutos. antes da espanha, também me disseram que preferiam um intervalo porque algo os sobrecarregava mentalmente, e eu não posso ir contra isso. as concessões que fiz foram porque, se eu tivesse agido sem aceitar certos pedidos, teria sido pior. se alguém prefere o convívio e o companheirismo em vez da qualidade ou das necessidades do treinamento, é preciso aceitar o pedido. se a mensagem sobrecarrega em vez de ajudar, ela se torna um obstáculo. eu não fui arbitrário e/ou vaidoso.»

«hoje, o assessor de imprensa da auf me enviou um comentário de um ex-jogador da seleção uruguaia dizendo que era evidente em campo que o grupo e o técnico estavam divididos. eu digo que aconteceu exatamente o contrário. estávamos unidos o suficiente para correr 20% mais que a arábia saudita, 30% mais que cabo verde e 25% mais que a espanha. o comprometimento dos jogadores é evidente na dedicação deles. contra a espanha e a arábia saudita, o uruguai correu mais nos segundos tempos. tivemos uma preparação muito séria, organizada e focada.»

a refutação às críticas de desunião e os méritos

«se falarmos de méritos, eu poderia explicar por que deveríamos ter passado da fase de grupos com sete pontos. não há nenhum aspecto de uma análise séria, ponderada e bem pensada que não nos coloque vencendo a arábia e cabo verde, e empatando com a espanha. criamos cinco vezes mais perigo do que a arábia, 50% a mais do que cabo verde e a mesma quantidade que a espanha. isso não são apenas números, é uma interpretação da realidade. mas não gosto de dizer isso, porque o torcedor ouve e diz: "continue falando, tudo o que você diz é inútil, porque você não conquistou o que deveria." essa tristeza sentida por todos os torcedores de futebol é o peso, é o fardo que tenho que carregar. e vale muito mais do que vocês podem imaginar.»

o caso muslera e sua relação com valverde

«vou contar algo que diz muito sobre a grandeza de muslera. na véspera da partida, ele teve febre de 38,1 graus. eu sabia disso. no dia do jogo, ele não tinha febre, nenhum sintoma, nenhum problema físico e estava absolutamente pronto para jogar. nunca tive um jogador que pedisse para ser substituído por causa do impacto emocional de erros passados. muslera me disse — algo que talvez eu esteja mencionando de forma imprudente, mas que vale a pena dizer porque diz muito sobre ele — que estava tão afetado pelo erro que havia cometido, sem dúvida ligado a situações anteriores, que preferiu pedir para sair porque as chances da equipe ainda estavam intactas e ele não estava em sua melhor forma. considero isso um ato de extraordinária grandeza.»

«de forma alguma acredito que expus valverde ao substituí-lo contra a espanha. nunca tive nenhum problema com ele. é um jogador que disputa um número incrível de partidas por ano e nunca fiz tantas concessões a um jogador quanto a ele; acredito que ele merece tudo isso. no início das eliminatórias, disse a ele que talvez precisasse que jogasse como lateral, ponta ou meio-campista central, sua posição natural. sua resposta foi de enorme generosidade: «na posição que você precisar». depois, ele teve oportunidades em posições que não são as ideais, mas sempre demonstrei enorme respeito por ele. se existe algum conflito, desconheço a origem. eu sonhava em treinar bentancur, valverde, darwin e araujo, e depois conheci outro grupo de jogadores que valorizei muito. de qualquer forma, considero insuficiente a forma como lidei com os jogadores que recebi para a copa do mundo».

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antes do fim

«eu não sou louco, o mundo que não entende minha lucidez.»

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ah! mas que sujeito chato sou eu
que não acha nada engraçado
macaco, praia, carro, jornal, tobogã
eu acho tudo isso um saco

ouro de tolo | raul seixas (1973)
(ilustrado e legendado)

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frases originais (epígrafe)


«eu como marido sou uma merda total, como raul seixas, sou o homem ideal».

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

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#américas

terça-feira, 30 de junho de 2026

 


canção de mim mesmo

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«se um homem marcha com um passo diferente do dos seus
companheiros, é porque ouve outro tambor.»

henry david thoreau

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«quem não se encaixa no mundo
está mais perto de encontrar a si mesmo.»

herman hesse

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«o que aconteceu com kafka é o mesmo que aconteceu comigo: ele se isolou profundamente na solidão e sabia — ou devia saber — que ninguém retorna de lá.»

alejandra pizarnik

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«há uma falha, uma falha em tudo
é assim que a luz entra.»

leonard cohen

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like a rolling stone

em 1989, saí de são luís rumo a brasília para participar do 2º flaac (festival latino-americano de arte e cultura). a ideia era voltar de onde havia saído. mas tudo muda. em vez de subir de volta, resolvi seguir em frente. quando vi, estava em satolep, batendo na campainha do apartamento da minha avó.

a intenção era passar uma, duas semanas no máximo. mas tudo muda. o que era para durar duas semanas já soma quase quatro décadas. também pudera... logo nos primeiros dias, fui apresentado por minha prima a uma amiga dela. foi amor à primeira vista, daqueles de santos que não batem. eu dizia preto, ela, branco; eu, sal, ela, doce. eu queria uma coisa; ela, outra. rio e mar, tal para qual. a nossa história seguiu o único rumo possível: fomos morar juntos, em uma trajetória marcada por uma intensa relação de altos e baixos --- de altos não tão altos e baixos muito baixos.

um deles, em 1992, me levou a uma internação numa clínica para desintoxicação. lembro como se fosse hoje: foram trinta dias, que pareceram trinta séculos. não deu outra: logo que saí, recaí.

como uma pedra a rolar, sem ter mais para onde ir, fui pedir abrigo no apartamento da minha irmã. na época ela estava casada com o bruno e grávida da natalia (nati grill), de quem sou padrinho. um padrinho ausente, é verdade, mas padrinho.

«a rosa também se muda
do campo para o deserto
de longe também se ama
quem não pode amar de perto»

o passo seguinte estava escrito: trabalhar com o bruno na canal de propaganda. comecei a frequentar o aa, me recuperei e me mudei do apartamento da minha irmã para a sede da empresa. tinha, na época, as mesmas coisas que tenho hoje: livros, discos e uma história para contar e ser contada. isso é tudo? que nada. ainda há luz no fim da estrada.

grill

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o amigo enilton

por adriano barboza


novo ensaio de A NOZ [mundo]

«o amigo enilton» é um ensaio que entrelaça memória, amizade e cultura latino-americana para homenagear enilton grill júnior, refletindo sobre o sentido da comunicação, da criação e dos vínculos que permanecem vivos através do tempo. a publicação apresenta ainda um texto de uma publicação recente no qual o autor convidado amplia o diálogo entre diferentes formas de pensar, escrever e habitar a américa latina.

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caçador de mim

algumas canções soam como confissões que tentam atravessar o silêncio interior. caçador de mim é uma delas --- é a jornada de autoconhecimento, a tentativa de se encontrar em meio a incertezas e ao fluxo da vida.

a canção é um reflexo da busca incessante pelo eu, da consciência de que a vida muitas vezes nos empurra por caminhos tortuosos, e que a identidade se constrói na luta constante com nossos próprios medos, anseios e memórias.

em caçador de mim, cada acorde e cada nota vocal é uma jornada pelo próprio coração: a música nos lembra que a busca por nós mesmos é inevitável, que a solidão pode ser tanto revelação quanto companhia, e que, no meio do silêncio interior, podemos ouvir a verdade de quem realmente somos.

berg vasconcelos

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por tanto amor, por tanta emoção,
a vida me fez assim.
doce ou atroz, manso ou feroz,
eu, caçador de mim.

preso a canções,
entregue a paixões
que nunca tiveram fim.
vou me encontrar
longe do meu lugar,
eu, caçador de mim.

nada a temer senão o correr da luta.
nada a fazer senão esquecer o medo, medo!
abrir o peito à força, numa procura,
fugir às armadilhas da mata escura.

longe se vai, sonhando demais...
mas onde se chega assim?
vou descobrir o que me faz sentir
eu, caçador de mim.

caçador de mim | sérgio magrão / luiz carlos sá (1981)
(tambores de minas)
milton nascimento com fabiano medeiros e fábio tavares.

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#américas
#casadesatolep
#salacheguevara

domingo, 28 de junho de 2026

 


a democracia é uma ilusão

(chomsky que o diga)

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le monde diplomatique — toda vez que perguntamos a uma estrela do jornalismo ou a um apresentador de grande jornal da televisão se ele sofre pressões ou é censurado, a resposta é invariavelmente «não». o jornalista diz que é totalmente livre, que somente expressa suas próprias convicções. conhecemos bem os mecanismos de dominação ideológica das ditaduras. mas como funciona o controle do pensamento em uma sociedade democrática?

chomsky — quando os jornalistas são questionados, eles respondem de fato: «nenhuma pressão é feita sobre mim, escrevo o que quero». e isso é verdade. apenas deveríamos acrescentar que, se eles assumissem posições contrárias à norma dominante, não escreveriam mais seus editoriais. não se trata de uma regra absoluta, é claro. eu mesmo sou publicado pela mídia norte-americana. os estados unidos não são um país totalitário. mas ninguém que não satisfaça exigências mínimas terá chance de chegar à posição de comentarista respeitável. essa é, aliás, uma das grandes diferenças entre o sistema de propaganda de um estado totalitário e a maneira de agir das sociedades democráticas. com certo exagero, nos países totalitários, o estado decide a linha a ser seguida e todos devem se conformar. as sociedades democráticas funcionam de outra forma: a linha jamais é anunciada como tal; ela é subliminar. realizamos, de certa forma, uma «lavagem cerebral em liberdade». na grande mídia, mesmo os debates apaixonados se situam na esfera dos parâmetros implicitamente consentidos – o que mantém na marginalidade muitos pontos de vista contrários.

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de chomsky a althusser

«o caráter politicamente sombrio da teoria de althusser é evidente em sua própria concepção de como o sujeito emerge no ser. ser "sujeitificado" é ser "sujeitado": tornamo-nos sujeitos humanos "livres", "autônomos", justamente submetendo-nos obedientemente ao sujeito, ou lei. assim que "internalizamos" essa lei, começamos a agir espontânea e inquestionavelmente. vamos para o trabalho "por nossa conta", e é essa lamentável condição que reconhecemos erroneamente como liberdade.»

de althusser a espinosa

«nas palavras do filósofo que se encontra por trás de toda a obra de althusser – baruch espinosa – homens e mulheres "lutam por sua escravidão como se estivessem lutando por sua liberdade".»

de espinosa a freud

«o modelo por trás desse argumento é a sujeição do ego freudiano ao superego, fonte de toda a consciência e autoridade. a liberdade e a autonomia, então, parecem ser meras ilusões: significam simplesmente que a lei está tão profundamente inscrita em nós, tão intimamente de acordo com nosso desejo, que a consideramos erradamente como nossa própria livre iniciativa. mas esse é apenas um lado da narrativa freudiana. para freud, como veremos depois, o ego se rebelará contra seu senhor autoritário se suas exigências tornarem-se insuportáveis; e o equivalente político desse momento seria a insurreição ou a revolução. a liberdade, em resumo, pode transgredir a própria lei da qual é efeito.»

de volta a althusser

«mas althusser sustenta um silêncio sintomático a respeito desse corolário mais esperançoso de seu argumento. para ele, a própria subjetividade parece ser apenas uma forma de autoencarceramento, e a questão quanto à origem da resistência política deve, assim, permanecer obscura.»

eagleton, terry. ideologia: uma introdução: são paulo: boitempo, 2019, pp. 161-2

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resumindo: «ninguém é livre, até os pássaros estão presos ao céu.»

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você pode ser rei no país do futebol
pode ser viciado em bingo e nunca ver a luz do sol
você pode ser um mago e vender livros de montão
pode ser uma socialite, enriquecer vendendo pão

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

pode ser incendiário e fazer um índio arder
você pode ser o índio vendo a chama acender
pode ser um bom ladrão, pode ser um mau juiz
pode ter um passado limpo, pode ter uma cicatriz

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode estar na mídia sem saber porque
você pode ser dono de uma rede de tv
você pode dar o fora tendo tudo pra ficar
adotar um nome diferente, você pode mesmo se isolar

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode trabalhar na construção civil
pode estar desempregado, com a vida por um fio
você pode ter poder, fazer coisas que ninguém fizer
pode ter mulheres numa jaula, pode ter as drogas que quiser

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode desejar a cura com lacan
você pode procurar os serviços de um xamã
você pode ser um pregador, chutar os santos do altar
você pode ter um bom discurso, você pode nem saber falar

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode ser demente, pode ser doutor
você pode ser sincero, pode ter rancor
você pode ser um crente, você pode ser ateu
pode ser um leitor vaidoso ou uma miss que nunca leu

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode ser turco, pode ser nissei
pode estar ali na esquina, estar onde jamais pensei
você pode me adular, você pode me esquecer
você pode estar me ouvindo agora, você pode mesmo nem saber

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

gotta serve somebody | bob dylan, 1979

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versão vitor ramil [part: lenine]

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antes do fim

avançar em relação aos sistema atual,
colocar isso como perspectiva,
me parece ser condição fundamental
para o que quer que se faça
ou se imagine fazer

grill

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mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

one more cup of coffe (valley bellow) | bob dylan, 1975
[legendado em português]

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chove em satolep
bom domingo

sábado, 27 de junho de 2026

 


com «el loco»

(até o fim)

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«o que eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem eu devo ao futebol»

albert camus

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«aprendi que a bola nunca vem por onde esperamos que ela venha. isso me ajudou muito na vida»

(idem)

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– quem estará nas trincheiras ao teu lado?
– e isso importa?
– mais do que a própria guerra.

ernest hemingway

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bielsa e os justos

por enilton grill

a história trabalhou meticulosamente para «apequenar» a biografia futebolística de bielsa.

poucos títulos em uma longa carreira como treinador e três experiências decepcionantes em copas do mundo à frente de uma seleção.

em duas delas, foi eliminado em fases de grupos relativamente fáceis, mesmo comandando boas equipes. com o chile, conseguiu avançar, mas encontrou o algoz, o brasil.

em relação à atuação mais recente, muitas coisas podem ser ditas: por que muslera no time titular? mas pergunto: o reserva rochet é hoje um goleiro confiável?

outras coisas são certas, não questionáveis: o uruguai foi o protagonista e merecia mais em todas as três partidas (com exceção do primeiro tempo contra a arábia saudita e a espanha).

a pressão, no final das duas primeiras partidas, foi de tirar o fôlego, finalmente combinando a intensidade de bielsa com a garra charrua.

basta de acusadores! bielsa não precisa de difamadores, nem de detratores; ele se conhece bem: uma pessoa enigmática, que pode até ser «tóxica» para as equipes — ele mesmo disse isso recentemente — e que não é exatamente amigável com a «sagrada» e «invicta» imprensa esportiva.

mas aqueles que o acompanham — eu o acompanho há bastante tempo — também sabem que ele é capaz de extrair a essência de seus jogadores, que revolucionou vidas, clubes e torcedores para sempre.

se nós, que admiramos bielsa — eu o admiro muito —, precisássemos de troféus para perpetuar esse respeito, já estaríamos trilhando um caminho diferente.

é por isso que ainda estamos aqui, dando mais uma vez a cara a tapa, ao lado dos que estão sós, porque dizer a verdade em campo e diante dos microfones vale muito mais do que o mercado acredita nestes tempos inacreditáveis.

borges, em um poema sublime, diz que existem pessoas que, com pequenos gestos, tornam este mundo mais suportável, mais «habitável». marcelo bielsa, em seu «azedume», é uma delas.

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ainda bielsa

por esteban bekerman

outro problema com bielsa — e nenhum dos meus colegas menciona isso — é que ele sabe que muitos jornalistas (muitos mesmo) não têm o vocabulário dele, o que é extremamente grave quando se trata de profissionais da comunicação. portanto, é compreensível que ele tenda a generalizar, demonstrando desprezo por seus interlocutores e, muitas vezes, respondendo de forma "telegráfica" quando participa de uma coletiva de imprensa ou concede uma entrevista. da minha parte, eu jamais o criticaria por sua maneira de falar. pelo contrário, eu usaria sua verborragia característica a meu favor... e se ele me desse uma resposta ruim — só então — eu retrucaria. o problema é que hoje em dia os entrevistadores geralmente fazem perguntas apenas para agradar aos entrevistados, sem ouvir ou acompanhar as respostas impossibilitando assim uma conversa coerente. e dessa forma, você não pode esperar reciprocidade de alguém como bielsa. da minha parte, sempre houve essa reciprocidade quando ele era o técnico do vélez e eu era responsável pelos canais de mídia oficiais do clube. seria muita ingratidão da minha parte não dizer isso. a nobreza me obriga.

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quando nasci veio um anjo safado
o chato dum querubim
e decretou que eu tava predestinado
a ser errado assim
já de saída a minha estrada entortou
mas vou até o fim

até o fim | chico buarque (1978)
palavra-chave: craque
dvd futebol

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#vivaelloco
#américas