quinta-feira, 22 de outubro de 2026


sonho com serpentes

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«cresça!»

luiz inácio lula da silva

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«um homem completo, no entanto, sabe que mesmo seu mais feroz inimigo, não um só, mas um bom número deles, não chega aos pés daquele terrível adversário, ou seja, aquele "outro" que "habita em seu seio".»
c. g. jung, em psicologia do inconsciente

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dr. jekyll & mr. hyde
quando jung conheceu o maior hyde da história, ele não descreveu um homem. ele descreveu uma coisa. 
anota o que jung disse, com a boca dele, quando viu hitler: 
«hitler causou a impressão de uma espécie de andaime de madeira revestido de tela, um autômato com máscara, como um robô, ou uma máscara de robô. era como se estivesse de mau humor, um sujeito emburrado. não deu mostras de qualquer sinal humano, por mínimo que fosse. faz-nos sentir que nunca seremos capazes de falar com ele; porque não há com quem se falar. ele não é um homem; é um ser coletivo.» (entrevistas e encontros) 
leia de novo. 
não é um homem. é um ser coletivo.
jung não viu um ser humano ali. viu um boneco oco.
um andaime. madeira por dentro, pano por fora. sem gesto humano. sem calor humano. sem alma.
porque hitler não era hitler. ele era o microfone da sombra de um povo inteiro.
todo o ódio que o alemão bom não tinha coragem de dizer em casa, aquele boneco dizia no palanque. toda a inveja, todo o racismo, toda a vontade de culpar o outro, de fuzilar...
o povo não seguiu um homem. o povo se ouviu gritando através de um robô.
e se sentiu forte. pela primeira vez, pôde ser mau em público e ser aplaudido por isso.
é isso que acontece quando o hyde governa. 
agora olhe para o espelho.
não precisa de nome. você sabe.
quando você vê alguém que simula metralhadora para fuzilar o próprio povo e você ri.
quando você vê alguém que pesa gente preta em arroba e você aplaude.
quando você vê alguém que diz que ter filho gay é falta de porrada e você concorda.
quando você vê alguém que chama o pobre de burro que só serve para votar e você vota nele.
quando você vê alguém que ri de quem está sem ar e você acha engraçado.
pergunte:
quem ali está falando? um homem? ou um andaime oco revestido de tela, repetindo exatamente o que você tem de pior e nunca teve coragem de falar sozinho?
jung avisa: quando você apoia um homem sem sinal humano mínimo, sem capacidade de ter uma conversa humana, você não está apoiando um homem.
você está emprestando sua alma para um robô usar como máscara.
e esse robô não tem alma para te devolver.
ele é um ser coletivo. ele é feito dos pedaços da sua sombra que você não teve coragem de encarar.
por isso você o ama. porque ele te dá permissão para ser mau sem culpa.
mas jung também avisa o final dessa história:
o andaime de madeira sempre cai. sempre.
e quando cai, não sobra um homem para julgar. 
sobra um país inteiro que vai ter que olhar no espelho e responder:
o que eu fiz quando o hyde falou com a minha voz?
quem ainda tem uma lanterna acesa por dentro, desliga o microfone do robô agora.
quem já virou andaime, continua aplaudindo.
quem já virou andaime, continua aplaudindo o substituto.
c. g. jung, «entrevistas e encontros».
do perfil «sou além + jung» (facebook).

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epílogo

uma coisa dessas quase chegou a governar o mundo!
os povos conseguiram dominá-la, mas ainda
é muito cedo para sair cantando vitória:
o ventre que gerou a coisa imunda continua fértil!

bertolt brecht

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«não cresça, meu filho, não cresça jamais
os grandes fazem ao mundo muito mal»

facundo cabral

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quando por cinco vezes a terra cedeu
a pesadelos de fogo e de água
(naquela que tem sido a história das grandes extinções)
foram os frágeis que se alastraram tão quietos ─
porque não tinham nome nem rosto
esconderam-se sem que os percebessem

foram para o escuro fundo, em
mares inconsoláveis
foram por entre vales de ossos imensos e
protegeram-se na curvatura da sombra
foram morar na última fenda do
último tronco ─
como se tudo insistisse num
último coração —
dentro da sequoia

são os vencidos que têm carregado o mundo
são lobas que há dias emagrecem, regurgitando
em bocas de ninhadas ainda cegas
são pássaros de asa quebrada, que
estremecem nas mãos
são algum pulso
e alguma lua
são homens e mulheres sem lugar, recurvados sobre
si como pendendo
a uma pergunta sem pronúncia

os menores é que rompem ao meio
o medo
e suspendem a vida num fio claríssimo de seda em que
a morte não toca

mar becker

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sonho com serpentes, com serpentes do mar
com certo mar, oh, de serpentes sonho eu
grandes, transparentes e em suas barrigas carregam
o que pode acabar com o amor

oh, eu a mato e surge uma maior.
oh, com muito mais inferno em digestão.

não caibo em sua boca. ela tenta me engolir.
mas se engasga com minha alma.
acho que está louca: dou a ela para mastigar
uma pomba da paz, e a enveneno com meu coração.

oh, eu a mato e surge uma maior.
oh, com muito mais inferno em digestão.

esta enfim me engole, e entro por seu esôfago,
vou passando, pensando no que acontecerá
mas ela se destrói quando chego ao seu estômago
e planto com um verso uma verdade.

oh, eu a mato e surge uma maior.
oh, com muito mais inferno em digestão.

👇

(silvio rodríguez, 1974)

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ao vento

a virada tá acontecendo
isso é fato
as pesquisas mostram
e as ruas provam
mas o que vai acontecer
daí pra frente
ainda é uma incógnita
nessas horas
é sempre bom lembrar
que é quando tá acuado
que o bicho mostra os dentes
por outro lado
não custa avisar
que a incógnita do dia seguinte
não é o destino do bicho
é o tamanho do espelho
que o homem vai ter que encarar

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coração tranquilo
há quem passe a vida procurando o caminho do meio e, apoiado na razão, machuque o coração. não é o meu caso. ando pelos extremos. coabito tanto na superfície quanto submerso. escrevo às vezes em prosa e outras em verso. a palavra é o meu universo. verso e reverso. nunca tergiverso. rio e mar. às vezes dou risada e outras tenho vontade de chorar. mas não sou bipolar. o bipolar tem dificuldade para dormir e acordar. eu durmo bem e acordo melhor ainda. tenho a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. não me vendo nem me alquilo.
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si vas hacia el centro
de este verde lugar
encontrarás mi pueblo
donde nací
pregunta por mi padre
y te sabrán decir
que es un campesino
amigo del sol

busca a mi padre y dile que estoy bien
que mi conciencia sigue libre
y que siguen muy mansos mis pensamientos

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(león gieco, 1974)

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imagens:
registros de um carreteiro que fiz para o meu pai
são luís, maranhão — outubro de 2008

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américas - para o povo o que é do povo
em breve, na rádiocom 104.5 fm

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#salacheguevara
#casadosaedos
#lula13

terça-feira, 20 de outubro de 2026


tributo a um rei esquecido

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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jean-paul sartre (o ser e o nada)
para a filosofia existencialista, o indivíduo vivo é um «projeto em aberto», imprevisível e incômodo. quando a pessoa morre, a sua existência torna-se «em-si», isto é, estática, imóvel.

o sintoma da hipocrisia: a sociedade prefere os mortos porque o morto não pode mais se defender, desmentir seus biógrafos ou mudar de opinião. o reconhecimento tardio é uma forma de domar a figura do autor, transformando uma força viva e rebelde em um monumento inofensivo.

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pedro bial: você sempre foi durão, benito? 
benito di paula: é que eu não choro pra fora, é difícil chorar pra dentro, aí você não demonstra a tristeza, você demonstra só alegria... 
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 (conversa com bial) 
11/11/2022
 
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ninguém sabe a mágoa que trago no peito 
quem me vê sorrir desse jeito
nem sequer sabe a minha solidão
é que meu samba me ajuda na vida
minha dor vai passando, esquecida
vou vivendo essa vida do jeito que ela me levar

vamos falar de mulher, da morena e dinheiro
do batuque do surdo e até do pandeiro
mas não fale da vida, que você não sabe o que eu já passei
moço, aumente esse samba, que o verso não para
batuque mais forte, a tristeza se cala
e eu levo essa vida do jeito que ela me levar

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(benito di paula, 1976)

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contra o vento
para além do conformismo dos hoje velhos que um dia foram jovens e sonharam mudar o mundo, o que mais me indigna no ser humano é a sua hipocrisia. vide incontáveis casos; o mais recente é o de benito di paula. mas é assim, é assim que as coisas são, dizem os conformados. sim, eu sei, e é por essas e outras que eu vivo e vou morrer indignado, recitando contra o vento poemas para os postes.
grill

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o que foi que fizeram com ele? não sei
só sei que esse trapo, esse homem foi um rei
o que foi que fizeram com ele? não sei
só sei que este trapo, esse homem foi um rei

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(benito di paula, 1974)

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«adeus, amor (adeus, adeus, amor)
eu vou partir (eu vou partir)
ah, eu vou-me embora»

benito di paula

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hey! mr. tambourine man
toca uma canção pra mim
tô sem sono e não tenho para onde ir

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(bob dylan, 1965)
[live at newport folk festival]
letra em português

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#casadosaedos
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domingo, 18 de outubro de 2026


vai trabalhar vagabundo 

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a mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

manoel de barros

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a besta-fera

por enilton grill

(texto escrito em 26 de março de 2020)
que me desculpem os que pensam que bolsonaro ultrapassou os limites da loucura com o pronunciamento de anteontem.

ele não é louco, só tem a cara do mercado financeiro, da elite e dos latifundiários. ele é uma besta-fera.

bolsonaro ultrapassou os limites no dia em que homenageou um torturador na nossa cara: «pela família, contra o comunismo, pela nossa liberdade e pela memória do coronel carlos alberto brilhante ustra, o pavor de dilma rousseff, o meu voto é sim».

ele disse o que disse e não aconteceu nada. foi ali que a besta-fera se sentiu liberada para tudo.

depois, ele pôs os interesses econômicos acima da vida, e nós seguimos sem fazer nada, esperando que alguém faça tudo — quem sabe a rede globo, como fez com collor.

é urgente conter e calar bolsonaro, mas a forma como ele vai sair importa muito: sinaliza se outro bolsonaro poderá surgir.

enfim, tudo tem limite, sobretudo bolsonaro. 
o problema não é ele, somos nós.
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a escala ramagem

por julio benchimol pinto

(texto escrito em 6 de julho de 2026)
a notícia veio com cheiro de brasil paralelo e folha de ponto em branco: a esposa de alexandre ramagem, procuradora em roraima, depois de meses longe do trabalho — entre férias, recesso, atestado não homologado, licença-prêmio e outras delicadezas do serviço público premium —, pediu nova licença para entrar na política pelo pl.

até aí, nada surpreende. no bolsonarismo, a mamata só é crime quando não está na família.

o mesmo campo político que torce o nariz para o fim da escala 6x1 — aquela engenharia medieval em que o trabalhador vive seis dias para descansar um — assiste calado à escala 0x7 dos seus: zero expediente, sete justificativas, salário de elite, discurso de mérito.

para o caixa de supermercado, “vai trabalhar, vagabundo”; para a turma do cercadinho, férias, licença, recesso, atestado, prêmio e candidatura.

é a moral bolsonarista em estado puro: chicote no lombo dos outros, almofada ergonômica no próprio gabinete. no púlpito, gritam contra privilégios; no protocolo, pedem mais um.

e ainda posam de defensores do trabalhador. defensores, sim. do trabalhador imaginário: aquele que trabalha muito, reclama pouco, descansa quase nada e vota em quem acha folga coisa de comunista.

no fundo, o bolsonarismo inventou a meritocracia reversa: quem rala merece sermão; quem encosta merece legenda.

a escala 6x1 é para o povo; para os escolhidos do pl, vale a escala ramagem: licença sobre licença, moral sobre moralismo, e ponto eletrônico tocando berrante no vazio.

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pai nosso que não estais aqui
sacrificado é o vosso povo
humilhados e ofendidos são os nossos homens
deserdados e famintos são os nossos filhos
feridos e estéreis são nossos ventres
aqui na terra

o pão nosso de cada dia
a alegria nossa de cada dia
o amor nosso de cada dia
o trabalho nosso de cada dia
venham a nós
voltem a nós
de trem, de carro ou navio

não nos deixeis cair em lamentações
mas livrai-nos desse vazio

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(último trem, 1980)

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no meio do meu caminho sempre haverá uma pedra
plantarei a minha casa, numa cidade de pedra
itamarandiba, pedra corrida, pedra miúda rolando sem vida
como é miúda e quase sem brilho a vida do povo que mora no vale

no caminho dessa cidade passarás por turmalina
sonharás com pedra azul, viverás em diamantina
no caminho dessa cidade as mulheres são morenas
os homens serão felizes como se fossem meninos

👇

itamarandiba
(último trem, 1980)

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ao vento

vai trabalhar vagabundo
tô trabalhando
onde
no américas

grill 

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américas

para o povo o que é do povo

em breve: no blog, na rádiocom e nas plataformas digitais.

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sexta-feira, 16 de outubro de 2026


eduardo galeano sobre a palestina

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«desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. não podem nem sequer respirar sem autorização. têm perdido a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua liberdade, tudo. nem sequer têm direito a eleger os seus governantes. quando votam em quem não devem votar, são castigados. gaza está sendo castigada. converteu-se numa ratoeira sem saída, desde que o hamas ganhou legitimamente as eleições em 2006. algo parecido tinha ocorrido em 1932, quando o partido comunista triunfou nas eleições de el salvador. banhados em sangue, os habitantes de el salvador expiaram a sua má conduta e desde então viveram submetidos a ditaduras militares.»

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«a democracia é um luxo que nem todos merecem. são filhos da impotência os rockets caseiros que os militantes do hamas, encurralados em gaza, disparam com desleixada pontaria sobre as terras que tinham sido palestinas e que a ocupação israelense usurpou. e o desespero, à orla da loucura suicida, é a mãe das ameaças que negam o direito à existência de israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está a negar, desde há muitos anos, o direito à existência da palestina.»

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«já pouca palestina resta. pouco a pouco, israel está a apagá-la do mapa. os colonos invadem, e, depois deles, os soldados vão corrigindo a fronteira. as balas sacralizam o despojo, em legítima defesa. não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. hitler invadiu a polônia para evitar que a polônia invadisse a alemanha. bush invadiu o iraque para evitar que o iraque invadisse o mundo. em cada uma das suas guerras defensivas, israel engoliu outro pedaço da palestina, e os almoços continuam. o repasto justifica-se pelos títulos de propriedade que a bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.» 
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«israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das nações unidas, o que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, o que escarnece das leis internacionais, e é também o único país que tem legalizado a tortura de prisioneiros. quem lhe presenteou o direito de negar todos os direitos? de onde vem a impunidade com que israel está a executar a matança em gaza? o governo espanhol não pôde bombardear impunemente o país basco para acabar com a «eta», nem o governo britânico pôde arrasar irlanda para liquidar o ira. talvez a tragédia do holocausto implique uma apólice de eterna impunidade? ou essa luz verde vem da potência "manda chuva" que tem em israel o mais incondicional dos seus vassalos?»
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«o exército israelense, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe quem mata. não mata por erro. mata por horror. as vítimas civis chamam-se danos colaterais, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. em gaza, de cada dez danos colaterais, três são meninos. e somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está a ensaiar com êxito nesta operação de limpeza étnica. e como sempre, sempre o mesmo: em gaza, cem a um. para cada cem palestinos mortos, um israelita. gente perigosa, adverte o outro bombardeamento, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos convidam a achar que uma vida israelense vale tanto como cem vidas palestinianas. e esses meios também nos convidam a achar que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de israel, e que uma potência nuclear chamada irã foi a que aniquilou hiroshima e nagasaki.»
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«a chamada comunidade internacional, existe? é algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? é algo mais que o nome artístico que os estados unidos assumem quando fazem teatro?»
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«ante a tragédia de gaza, a hipocrisia mundial destaca-se uma vez mais. como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade. ante a tragédia de gaza, os países árabes lavam as mãos. como sempre. e como sempre, os países europeus esfregam as mãos. a velha europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma ou outra lágrima enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. porque a caça aos judeus foi sempre um costume europeu, mas desde há meio século essa dívida histórica está a ser cobrada dos palestinos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antissemitas. eles estão a pagar, em sangue, na pele, uma conta alheia.» 
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eduardo galeano
escritor uruguaio
texto publicado em 2014

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rádiocom 104.5fm

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américas - gaza urgente
produção e apresentação
enilton grill

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#palestinalivre
#gazaurgente
#rádiocom
#américas

quinta-feira, 15 de outubro de 2026


 beijo no coração

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«e agora o povo está na rua para proteger e resguardar; esta pátria que ganhamos, democrática há de avançar.»

paródia
grill

[inspirada em
«para el pueblo lo que es del pueblo»
de piero y josé]

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(piero, 1973)
com letra e imagens

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como muitos aqui sabem, morei muito tempo para fora, na colônia, ponte cordeiro de farias, vulgo repecho — hoje, moro na cidade. que a realidade política de lá é diferente da realidade urbana, não há dúvida; acho que todos sabem. eu, pelo menos, sempre soube. minha avó e meu pai eram de lá. meu pai, que nasceu num sítio lindeiro ao repecho, nunca escondeu de ninguém, muito menos de mim, a decepção que sentia quando abriam as urnas da colônia.

sim, meu pai foi político — era brizolista, ferrenhamente brizolista, apaixonadamente brizolista, brizolista até a alma, brizolista de coração. decorria daí sua baixa votação por aquelas bandas. "a colônia é reacionária", dizia meu pai. e é mesmo, a colônia é reacionária, extremamente reacionária — ele estava coberto de razão.

não havia, portanto, de minha parte, decepção alguma com a esmagadora maioria de votos na direita decorrentes do lugar de onde vim. muito pelo contrário, eu já esperava por isso. naquela época, até tentei mudar um voto e outro — uma vez fui até aplaudido na venda onde comprávamos mantimentos quando falei a favor de um mundo mais justo e fraterno —, mas voto progressista que é bom, nada. ou seja, meu pai estava certo: buscar esse voto na colônia é igual a pregar no deserto.  
minha decepção, para ser bem sincero, sempre foi com os da minha turma. aqueles que a vida toda condenaram o nazismo, o racismo, as ditaduras, as guerras, as bombas; que tiveram acesso e as mesmas oportunidades que eu tive e que, na hora h, ou escolheram o caminho das trevas ou o da omissão. isso é inadmissível, não tem explicação.
pensem nas crianças
mudas, telepáticas
pensem nas meninas
cegas, inexatas
pensem nas mulheres
rotas, alteradas
pensem nas feridas
como rosas cálidas

pensem nisso
 pois é disso que se trata. 
lula sim, flávio não.

beijo no coração.
♦

mas oh não se esqueçam
da rosa, da rosa
da rosa de hiroshima
a rosa hereditária
a rosa radioativa
estúpida e inválida
a rosa com cirrose
a anti-rosa atomica
sem cor, sem perfume
sem rosa, sem nada

👇

(secos & molhados, 1973)

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américas
[para o povo o que é do povo]
em breve na rádiocom

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terça-feira, 13 de outubro de 2026

 

devir... a ser

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«sinta mais, pense menos»

bukowski

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eu posso resumir num verso todo o processo que, de repente, seja visto como processo acabado? 
não, não posso, porque antes que o conteúdo esteja pronto o próprio verso estará modificado.
mas eu quero, mesmo sabendo do empecilho das leis físicas que me ensinaram a evolução interminável. é inquietante que eu queira interromper o trajeto das coisas fazendo-as prontas quando julgar que estão. é lamentável que eu ouse dar-lhes um peso, uma força, uma velocidade, uma fora e o meu próprio conceito de massa.
dou-me o uso das palavras, o desejo de um poema e a ordem de «faça-se a luz». 
inútil. a ideia não se cristaliza em tempo, porque eu também sou trânsito e, antes que o raciocínio atinja as pretendidas dimensões, outros mistérios do pensamento tornam precárias minhas conclusões. pensar, eu penso, ainda que nesta rota apareçam dúvidas. 
sou meu próprio ditador, impondo o que me escraviza. eu me decreto um verso definitivo ao meu espírito sabedor do transitório. 
está em mim o meu pior inquisidor na hora do interrogatório, sutil e cínico na condição de questionário. 
impessoal, sem ser anônimo; sem voz, embora me fale. 
sou eu quando não posso. 
o que eu quero é um verso final que resuma o processo de um produto. 
o que não posso é mentir um conteúdo que, por ser fictício, foi modificado. 
primeiro me dispo e vejo meu corpo. 
e ouço minha voz, e aspiro meu cheiro, e sinto meu gosto. 
nova mentira na transparência mentida. 
e invento que já não posso me escutar, mas aspiro meu cheiro e sinto meu gosto. 
sou a terceira mentira. 
transparente, surdo e sem poder sentir meu cheiro, mas sinto meu gosto. 
concluo que a quarta é a derradeira mentira, não me vejo, não me aspiro, não me toco, perdi o gosto. 
incorpóreo, eu penso.
penso que, imaterial, eu ouço um verso definitivo, que eu não escrevo. 
porque é abstrato no meu eu de fato, final e acabado... meu substrato.

deogar soares

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no momento em que eu me percebo um pouco desesperançoso, eu resisto, entende?
eu resisto. quer dizer, eu brigo contra mim mesmo, ou brigo comigo mesmo.
eu analiso a razão de ser da minha desesperança para poder superar essa razão de ser.
no fundo, eu sou inveteradamente esperançoso.
eu tenho um certo gosto... um gosto histórico de viver a esperança.
paulo freire

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se eu não sei que não sei
penso que sei.
se eu não sei que sei
penso que não sei.

r. d. laing

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tem quem pensa que é
eu penso que não sou
que vou ser
quando 

grill 

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cuando el pobrísimo tome las cúpulas
y los famélicos tomen las áfricas
y los indígenas tierra amazónica
y los mecánicos tomen las fábricas
y los utópicos salgan del prólogo
y los daltónicos pinten lo nítido
y los chuequísimos bailen de júbilo

ya lo terrícola será libérrimo
cual ritmo cíclico de un canto esdrújulo.

viglietti

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«en el 2003, invitado por mi amigo de lucha, enilton grill, tuve el placer de tocar con daniel viglietti, en el theatro sete de abril de la ciudad de pelotas rs, aqui va un registro de aquel momento inolvidable»
lyber bermúdez

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se trata cósmicos de ser más fértiles,
de no ser tímidos, de ser más trópicos,
de ir a lo pálido, volverlo térmico,
sentirse prójimo de lo más lúdico,

con verdes lápices trazar el ámbito
de lo que mágico rompe los límites,
buscar lo hidráulico de lo volcánico,
librar la métrica, cambiar de sílabas.

y con elásticas formas anárquicas
tocar lo afónico que suene homérico,
fundar metáforas, crear la hipótesis
de que lo asmático se vuelva oxígeno.

situar la brújula al sur paupérrimo,
armar las síncopas contra los déspotas,
cambiar la tónica por una séptima,
tocar en triángulo sones esféricos.

y a los dogmáticos tan poco orgásmicos,
casi ni eróticos de ser tan púdicos,
a esos acríticos de sesgo andrógino
decirles «gélidos, no sean retrógrados».

y con armónicos cantar bien nítido
contra lo frígido luchando tórridos,
con armas múltiples llamando cálidos
fondos oceánicos de lo más lúbrico.

el ritmo cíclico del vals esdrújulo
es cual la sístole que va a la diástole,
todo cardíaco de andar eufórico,
nada presbítero, más bien sacrílego.

amando nínfulas que sueña grávidas,
el vals acróbata cruza los vértices
llamando gráciles criaturas prístinas,
seres prolíficos de lo aún inédito.

y a los arácnidos volverlos líricos
y a sus ejércitos juzgarlos rápido
mediante un árbitro de juicio ecuánime
que encierre en cárceles impunes pérfidos.

y los políticos de gesto tránsfuga,
los impertérritos, los siempre cómplices
caerán patéticos en lo espasmódico
cuando lo enérgico les corte el tránsito.

con lo poético del vals arrítmico,
que está en lo crítico de sus propósitos,
no pueden síncopes ni golpes fúnebres,
ni es por patíbulos que quede acéfalo.

ni es por trifásicas que olvide históricas
luchas titánicas por lo inalámbrico,
por lo que ubérrimo se alza eufórico
y anuncia próximos cambios históricos.

cuando el pobrísimo tome las cúpulas
y los famélicos tomen las áfricas
y los indígenas tierra amazónica
y los mecánicos tomen las fábricas
y los utópicos salgan del prólogo
y los daltónicos pinten lo nítido
y los chuequísimos bailen de júbilo

ya lo terrícola será libérrimo
cual ritmo cíclico de un canto esdrújulo.

(daniel viglietti, 1992)
participação especial: lyber bermúdez
theatro sete de abril
pelotas, rs

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#lula13
#américas 

domingo, 11 de outubro de 2026


o néscio 

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«vivemos em fascismos restritos e não em democracias liberais»

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«não, não se perde uma democracia, porque você não pode perder o que nunca teve».

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«há uma racionalidade por trás [do fascismo]. são pessoas que estão acreditando no seguinte: não tem mais sociedade para todo mundo».

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vladimir safatle
15 de abril de 2026

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o filósofo, que está lançando o livro «a ameaça interna – psicanálise dos novos fascismos globais», defende que o campo progressista precisa dar uma guinada à esquerda e pensar em novas propostas para combater bolsonaro, trump e milei.
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intercept brasil – você escreve que o fascismo é uma resposta realista às diversas crises do mundo: econômica, social, política, ecológica, psíquica, demográfica e por aí vai. como o capitalismo neoliberal, supostamente democrático, preparou o campo para que a resposta fascista fosse aceitável e realista?

safatle – primeiro, o capitalismo nunca foi democrático. acho que a gente tem um problema na nossa teoria do estado, que é não saber lidar com recortes geográficos, territoriais e de classe. é possível que um regime como o estado brasileiro seja um estado democrático de direito para alguns grupos e regiões, mas com certeza não o é para outros.

onde eu moro tem estado democrático de direito, a 10 quilômetros de distância não tem mais, porque não há garantia de integridade pessoal ou de que quem vai bater na sua porta às 5 horas da manhã é o leiteiro e não a polícia sem mandado [de busca e apreensão], que pode fazer você desaparecer.

a gente tem a ideia de que o liberalismo naturalmente funciona, na sua versão normal, com democracia representativa e livre iniciativa. ele funciona, na verdade, com colonialismo e fascismo em sua versão normal. ele sempre foi colonialista, e esse colonialismo prepara o fascismo.

você tem zonas das nossas sociedades onde impera o direito do massacre administrativo. foi o que vimos no ano passado, 117 pessoas mortas [122 no total, com cinco policiais mortos] na última batida policial no complexo do alemão [e da penha], pessoas que foram amontoadas como se fossem corpos quaisquer, no meio da rua. você não sabe a história dessas pessoas, a história das famílias. ninguém foi responsabilizado por nada. isso é democracia onde? por qual critério a gente pode chamar isso de democracia? não tem nenhum.

isso é o que prepara o fascismo: o fato de que a gente não vive em democracias liberais, a gente vive em fascismos restritos. em situações de crise, esses fascismos restritos se generalizam para toda a sociedade, e é o que a gente está vendo agora. então, não tem muito aquela ideia de «vamos tentar entender como é que se perde uma democracia». não, não se perde uma democracia, porque você não pode perder o que nunca teve.
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ponto. mesma linha.

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safatle já está acostumado a polemizar – a desassossegar. em 2024, por exemplo, escreveu um artigo no qual decretava a morte da esquerda por falta de radicalismo e conexão popular. qual a reação? viu-se uma corrida às redes sociais e às páginas da grande mídia para fazer articulação institucional e disputar a narrativa. ou seja, trocou-se o «ir para as ruas» pela autojustificação. isto é, optou-se por preservar uma boa imagem institucional sem enfrentar a mudança que se exige. 
alguns, como se sabe, acharam por bem responder ao artigo de vladimir safatle. a eles, o sociólogo respondeu: «em uma época em que até armínio fraga se diz de esquerda, o melhor a fazer é dizer que ela morreu, para poder salvá-la.» 
mas quem confunde indignação e provocação com prostração e niilismo jamais vai entender que é preciso morrer para crescer e dar fruto.
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«digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. mas se morrer, dará muito fruto».

joão 12:24
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uma coisa só mais: «essa luta contra as "ideias abstratas" era, na verdade, um tema conservador. lembrem, por exemplo, de edmund burke a discursar contra as «ideias abstratas» de igualdade vindas da cabeça de filósofos ociosos que acabaram por criar caos revolucionário no mundo do final do século xviii e começo do xix. ou seja, a história demonstra, e isto os conservadores sabem muito bem, que «abstrações» tem muito mais força do que alguns estão dispostos a acreditar. seria melhor que os setores progressistas da sociedade brasileira parassem de mimetizar o anti-intelectualismo dos conservadores.

mas isso quem diz é vladimir safatle

eu apenas assino embaixo
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bem, saiamos das abstrações, falemos de eleições.

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intercept brasil - entre 2019 e 2022, com jair bolsonaro no poder, o brasil ficou mais perto do fascismo generalizado, e isso ficou especialmente claro na pandemia, com o descaso de bolsonaro e a aproximação dessas características estruturais do fascismo que você menciona, a indiferença e a dessensibilização. nessas eleições, não é jair quem é o candidato, mas seu filho flávio. dá para dizer que ele segue a mesma cartilha, que também é um candidato fascista?

safatle – claro, com certeza. o fascismo é um processo que paulatinamente vai degradando as instituições. você acorda numa situação onde ações que imaginava impensáveis são cotidianas. a pandemia demonstrou muito claramente essa lógica: a indiferença é o elemento desagregador fundamental. é você olhar uma família inteira morrendo do seu lado e pensar: “isso é normal”. o que tem que acontecer com a sociedade para que um processo como esse seja naturalizado?

esse é um projeto que vai se impor no brasil durante muito tempo, porque existem forças econômicas muito dependentes dessa brutalização social. por outro lado, há uma racionalidade por trás disso. são pessoas que estão acreditando no seguinte: não tem mais sociedade para todo mundo. as crises que estão aí vieram para ficar: crise ecológica, econômica, social, política.

nessas circunstâncias, não faz sentido esperar um corpo social solidário e totalmente includente. é mais racional você falar: «olha, não tem espaço para todo mundo. a questão é quem vai ser preservado e quem não vai ser, e eu quero estar no primeiro grupo, não no segundo. se tiver que empurrar outras pessoas para que sobre espaço para mim, eu vou».

não é necessário nenhum argumento psicológico para entender essa lógica. sou contrário a essa psicologização do campo político de maneira tão selvagem. acho que é importante entender o cálculo racional por trás. ele é dramático, mas é racional. então, ele pede um outro tipo de resposta, não uma patologização geral dos comportamentos políticos.
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saiamos das eleições, voltemos à esquerda.

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para a esquerda, morrer é só o começo

por vladimir safatle

primeiro, alguns creem ser sintoma de melancolia e «desabafo» falar em morte da esquerda nacional. até mesmo ironias a respeito do fato de eu ter anteriormente insistido no esgotamento de outros processos históricos, como a nova república e os acordos imanentes à democracia liberal foram levantados como marcas de uma fixação necrofílica.

lembraria que clinicamente «melancolia» é exatamente a incapacidade de se liberar da fixação a objetos perdidos, não a decisão de se recusar a carregar o que está morto. por mais que alguns se comprazem com as máscaras da euforia, há mais melancolia neste entusiasmo do que poderia aparentar. é, na verdade, sintoma de melancolia não encarar as derrotas quando elas ocorrem, não querer ir até o fundo das derrotas a fim de compreender sua real extensão. contra essa leitura, há de se lembrar que, em uma vida, morre-se várias vezes. um dos piores erros é acreditar que só se morre no fim. morre-se várias vezes e esta é, muitas vezes, a condição de realmente continuar e se transformar.

nesse sentido, afirmar que a esquerda nacional morreu não é expressão alguma de prazer infantil de contenda. antes, é fruto da compreensão de que a sobrevivência da esquerda nacional depende do reconhecimento de sua morte. dizer claramente «nós morremos» é a primeira condição para nos livrarmos do que nos matou. quem se recusa a pensar dialeticamente nessas circunstâncias desconhece a dinâmica de processos históricos. e nossa morte não foi apenas um acidente externo, ela tem causas internas. o jogo do «estamos sendo atacados por fascistas, agora não é hora de assumir nossa auto-crítica» é suicida, é o verdadeiro suicídio. se o fascismo nacional voltou, se ele teve força para voltar, foi porque ele foi o primeiro a sentir o cheiro de nossa morte. de toda forma, em uma época em que até armínio fraga se diz de esquerda, o melhor a fazer é dizer que ela morreu, para poder salvá-la.
el país, 27 de fevereiro de 2020.

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esqueçamos a esquerda, salvemos a democracia.

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«quando digo que o estado é uma entidade criminosa contra sua população, que as instituições "democráticas" são uma farsa, uma fraude, uma simulação dominada por interesses econômico-financeiros que passa longe de ser uma democracia - onde o próprio estado viola sua "lei máxima", a constituição, o que se pode comprovar com a fome, o desabrigo, o analfabetismo, a ignorância, a desinformação, entre tantos outros exemplos de ilegalidades constitucionais cometidas pelas instituições - vem logo a pergunta "então qual é a solução? qual a saída?" eu respondo: sei lá. o que não dá é pra seguir acreditando em mentiras só porque não vejo verdades. perceber as mentiras não depende de saber as verdades. e não saber as verdades não é motivo pra me agarrar nas mentiras, nem inibidor pra percebê-las. que cobrança idiota.»
eduardo coutinho

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falando em idiota, lembrei de néscios.

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néscio

1. que ou aquele que é falho de instrução, de conhecimento ou de inteligência; demente, estúpido, ignorante.

2. que ou aquele que não possui competência; incapaz, inepto.

3. que ou o que é falto de sentido; absurdo.

4. que ou aquele que é imprudente.

5. que ou o que se recusa a pensar antes de agir.
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se eu não sei que não sei
penso que sei.
se eu não sei que sei
penso que não sei.

r. d. laing

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pensar eu penso
quem não pensa
digo isso pois pode alguém pensar
que eu penso que alguém pensa
que eu não penso
pensar eu penso
quem não pensa
tem quem pensa
que é inteligente
eu penso que
sou burro

grill

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revista bicicleta chile, 1994
— suas canções relataram muitas mudanças mas a nescedade longe de ser um defeito desprezível, norteou seu pensamento. quanto mudou silvio rodríguez, o homem, desde que escreveu «el necio»?

— um mundo em que aparentemente tudo tem preço (inclusive certa gente), entendo que se possa ver como «defeito desprezível» não tê-lo. precisamente nisso consiste a «nescedade» da minha canção.

— ainda continua sendo «néscio»?

— ainda desejo seguir jugando a lo perdido (insistindo em causas que o mundo considera fracassadas ou utópicas) e rezar a fundo um filho nosso.
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dicen que me arrastrarán por sobre rocas
cuando la revolución se venga abajo,
que machacarán mis manos y mi boca,
que me arrancarán los ojos y el badajo.
será que la necedad parió conmigo,
la necedad de lo que hoy resulta necio:
la necedad de asumir al enemigo,
la necedad de vivir sin tener precio.

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(silvio rodríguez, 1991)
legendado

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bom domingo