terça-feira, 28 de julho de 2026


só tem amor quem tem amor pra dar
(direto da sala che guevara da casa dos aedos)

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«aedos eram poetas, cantores e músicos da grécia antiga que compunham e recitavam poemas épicos.

acreditavam receber inspiração direta das musas e da deusa memória para criar suas canções.

surgiram antes mesmo da escrita e do alfabeto, guardando e transmitindo o saber mitológico e histórico de cabeça.»

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tarso de castro, presente
[por júlio cargnin filho]

polêmico, brigão e subversivo, tarso era daqueles «malditos» que fechava bares, alugava carros e aprontava em hotéis de luxo, ao melhor estilo «gonzo jornalismo». comprou brigas homéricas pelas redações que passou – com diretores e editores – mas nem mesmo os amigos mais próximos escapavam de seu temperamento tempestuoso.

um «enigma» sempre foi uma pulga atrás das orelhas de seus camaradas: o charme do maldito. mesmo desajeitado, feio, desleixado, descuidado consigo e sem onde ter para cair morto, teve relacionamentos com belas mulheres. de uma dessas aventuras, uma história bem ao «estilo tarso»: seu namoro com a atriz estadunidense candice bergen.

o jornalista adorava exibir à atriz uma fotografia pessoal ao lado do revolucionário argentino che guevara. já a atriz, se vangloriava de ter namorado um «guerrilheiro que participou da revolução cubana».

após 30 anos ininterruptos de consumo de álcool e sua oitava hemorragia interna, tarso foi tomar seu scotch em outro universo. o dia: 20 de maio de 1991. uma morte que não surpreendeu os mais próximos, pois ele mesmo pregava que «após os 40 anos a vida não teria mais graça». viveu nove a mais do que o limite que queria.

nas palavras de otto lara resende: «tarso tinha defeitos visíveis e qualidades nem sempre visíveis, sobretudo para quem o via de longe, ou o sofria de perto».

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a casa dos aedos 

nessas condições, se nos perguntassem qual o benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz. só os pensamentos e as experiências sancionam os valores humanos. ao devaneio pertencem valores que marcam o homem em sua profundidade. o devaneio tem mesmo um privilégio de autovalorização. ele usufrui diretamente de seu ser. toda pessoa deveria, portanto, falar de suas estradas e encruzilhadas, de seus sucessos e fracassos.

gaston bachelard, em a terra e os devaneios do repouso

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tarso de castro
[por tom cardoso]

tarso de castro, recém-chegado a salvador, liga para o amigo de copo joão ubaldo ribeiro:

- o que manda, tarso?
- tô aqui, vem cá me ver!
- onde você está?
- no hotel meridien.
- porra, então vem você pra cá, é perto.
- não posso. estou aqui com a (falando baixinho)...candice bergen.
- com quem? não ouvi.
- estou aqui com a (sussurando).. candice bergen.
- tarso, vou abaixar o som e você me diz com quem você está.
- vai logo.
- pronto, diga.
- estou aqui com a can-di-ce ber-gen.

joão ubaldo conta: «eu resolvi ir, com a certeza de que o tarso estava aprontando alguma escrotidão. mas eu adorava ele, peguei o meu fusca e fui até o meridien. quando eu cheguei lá a candice estava sentada, com as pernas esticadas, despojada, sem maquiagem, mas bonita como sempre foi, uma mulher enorme. me lembro que ela tinha um pezão imenso, porque foi a primeira coisa que eu vi: ela relaxada, com o pé pra cima de uma cadeira e o tarso atrás, radiante, andando de um lado para o outro, com os braços abertos, em transe absoluto»

descobertos pelos colunistas sociais de salvador, tarso e candice deixaram de ir à praia e passaram o resto da «lua-de-mel» trancados no meridien.
jantaram lagosta e camarão todos os dias, acabaram com o estoque de vinho, uísque e champagne do hotel.
no dia de encerrarem a conta, candice chamou joão ubaldo, que estava lá para levá-los ao aeroporto, e fez um pedido ao escritor:

- ubaldo, eu sei que o tarso gosta muito de você e tenho certeza que ele vai te ouvir.
- me diga, candice, o que houve?
- eu sei que o tarso é duro. e sei também que ele não vai me deixar pagar a conta do hotel. é muito orgulhoso. quero que você o convença de que isso tudo é bobagem, que eu sou rica e pago tudo sem problema nenhum. faz isso por mim?
ubaldo foi falar com tarso, já caminhando em direção ao guichê do hotel.
- tarso, a moça faz questão de pagar a conta...
- nada disso. eu pago essa merda!!!

a conta era um absurdo, algo equivalente a um mês de bebedeira no antonio’s.
tarso não perdeu a pose. puxou a carteira do bolso e, quando estava preparando para assinar mais um cheque sem fundo para a sua coleção, foi interrompido pelo gerente do hotel:

- senhor. em nome do hotel meridien queria agradecer a presença do senhor e da senhorita candice bergen. ficamos gratos pela preferência. as despesas são por nossa conta.
tarso, para desespero de joão ubaldo, ainda fez charme:
- não senhor. eu faço questão de pagar tudo. fomos muito bem tratados aqui.
- meu senhor, aceite a nossa gentileza em nome da boa hospitalidade baiana.
- se o senhor faz questão...

a atriz, completamente apaixonada, bancou todas as viagens de tarso a nova york.
o jornalista, porém, se queixara aos amigos que, por mais que tentasse, não conseguia dedicar-se apenas a uma grande paixão.
candice cansou de ser esnobada e casou anos depois com o cineasta francês louis malle, baixinho, porém atencioso.
tom jobim tentou consolar tarso:
«não fique assim, meu caro, dos malles, o menor!».

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há várias versões sobre a noite em que tarso conquistou candice na varanda do antonio's. alguns juram ter visto o jornalista entrar correndo no restaurante, ajoelhar-se aos pés da atriz e beijá-la dos pés à cabeça sem a menor cerimônia. outros dizem que a abordagem foi um pouco mais sutil: com um buquê na mão esquerda e um urso de pelúcia na direita (doado na última hora pela mãe da promoter ana maria tornagui), o jornalista disse meia dúzia de palavras em inglês e conquistou a moça.
uma terceira versão é sustentada por amigos mais próximos a tarso. candice interessou-se por ele no antonio's mas só se apaixonou de verdade depois que viu o seu retrato ao lado de che guevara, tirado durante a cobertura da conferência econômica e social da oea, em punta del este, em 1961. rápido no gatilho, o jornalista teria dito à atriz que lutara ao lado de guevara e fidel castro durante a revolução cubana --- contou (provavelmente fazendo gestos) os apuros que ele e os dois líderes comunistas passaram juntos nas montanhas de sierra maestra, semanas antes de entrarem triunfantes para tomar havana do ditador fulgêncio batista. candice teria ouvido a história com lágrimas nos olhos e se apaixonado perdidamente.

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- e o teu pai?
- meu pai era um aedo. um homem sem medo.
herdei dele, além do nome, o gosto pelas viagens.

nas viagens que fazíamos - e fizemos muitas juntos - meu pai, um brizolista de quatro costados, sempre contava da vez que foi a punta del este para ver e ouvir o che. eu adorava.

às vezes ele esquecia
mas eu sempre lembrava
e pedia

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papá cuéntame otra vez esa historia tan bonita
de aquel guerrillero loco que mataron en bolivia

papá cuéntame otra vez | daniel serrano / ismael serrano, 1997

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acho que já contei essa história. mas vou contar de novo. não custa nada --- pelo contrário, é uma forma de recordar. do latim re-cordis: voltar a passar pelo coração.

passei a vida ouvindo meu pai contar da vez que esteve com o che em punta del este, junto com brizola e flávio tavares, durante a conferência pan-americana promovida no uruguai, em 1961.

é uma pena que eu não seja bom o suficiente com as palavras para descrever o brilho nos olhos do meu pai cada vez que me contava a mesma história. o brilho era tanto que eu pensava que aquilo era verdade, não podia ser mentira.

até que um dia resolvi comentar com minha mãe sobre o encontro do meu pai com o che. minha mãe ficou surpresa, disse que não sabia de nada. falou com os familiares e ninguém se lembrava de nenhuma viagem.

no dia seguinte, no café da manhã, minha mãe perguntou:

- enilton, que história é essa da tua viagem ao uruguai pra encontrar o che guevara? falei com todo mundo e ninguém sabe nada dessa tal viagem...

meu pai respondeu:

- ninguém sabe de nada porque não era pra saber mesmo. foi uma viagem clandestina...

meu pai faz falta, muita falta. e não só para mim, mas para o mundo. as pessoas, hoje em dia, ou estão agarradas às suas verdades ou entregues às suas mentiras.

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aquí se queda la clara
la entrañable transparencia
de tu querida presencia
comandante che guevara

hasta siempre | carlos puebla (1965)
canta: nathalie cardone
[con letra e imagens]

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poema-carta de ernesto che guevara a sua esposa aleida march

amor: chegou o momento de te enviar um adeus com aroma a campo santo (a hojarasca, a algo distante e não utilizado). queria fazê-lo com estas folhas que caem e são frequentemente chamadas de poesia, mas fracassei; eu tenho tantas coisas íntimas para teu ouvido mas a palavra torna-se carcereira e a poesia não é o meu forte. eu não sou poeta. eu não sirvo para o nobre ofício de escrever poemas. não que eu não tenha coisas doces. se você soubesse das que se agitam dentro de mim. mas é tão longo, cheio de voltas e estreito o caracol que as contêm, que saem cansadas da viagem, mal humoradas, esquivas, e as mais doces são tão frágeis! saem despedaçadas no caminho, vibrações dispersas, nada mais. careço de condução, teria de desintegrar-me para te dizer de uma só vez. usemos as palavras com um sentido cotidiano e fotografemos o momento.

acabaram-se os cantos das sereias e os embates interiores; se ergue a fita para minha última corrida. a velocidade será tanta que escapará todo grito. o passado acabou; eu sou um futuro a caminho. não me chame, não te escutaria; só posso ruminar-te (no sentido de pensar profundamente em alguém) em dias de sol sob a renovada carícia de balas […] lançarei um olhar em espiral, como a volta que o cão dá para descansar, e lhes tocarei com meu olhar, um a um e todos juntos. se um dia você sentir a imposição de um forte olhar, não se vire, não quebres o encanto, continue coando meu café e deixe-me viver para sempre no momento perene.

não obstante,
no labirinto mais fundo do caracol taciturno
se unem e repelem os pólos do meu espírito:
tu e todos.

os todos me exigem a entrega total,
que a minha solitária sombra escureça o caminho!
mas, sem burlar as normas do amor sublimado,
te guardo escondida no meu alforge de viagem.

(te levo no meu alforge de viajante insaciável
como o pão nosso de todos os dias.)

saio para edificar as primaveras de sangue e argamassa
e deixo, no vão da minha ausência,
este beijo sem domicílio conhecido.
mas não me anunciaram o lugar reservado
no desfile triunfal da vitória
e a vereda que conduz ao meu caminho
está cercada de sombras agourentas.

se me destinam ao escuro lugar dos cimentos,
guarda-o no arquivo nebuloso da lembrança;
usa-o em noites de lágrimas e sonhos...

adeus , minha única,
não temas ante a fome dos lobos
nem no frio estepario da ausência;
do lado do coração te levo
e juntos seguiremos até que o caminho se desvaneça.

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já ia embora, mas me lembrei de mais uma

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quando eu ainda era jovem, meu pai me imaginava hermano henning --- hermano henning, o correspondente internacional da globo ---, sim, estamos nos anos 80. naquela época, eu não me imaginava escritor, eu me imaginava jornalista. ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são: gosto de escrever mas não sou jornalista --- comecei a faculdade mas não terminei.

em cada esquina tinha um bar,
tinha um bar em cada esquina

mas nem tudo se perde, alguma coisa sempre fica. livros, por exemplo. quem tem um livro é como se tivesse sempre um mestre ao alcance de sua mão. o mestre em questão chama-se «comunicação, memória & resistência», de pedro g. gomes / linda bulik / c. piva (orgs.). foi com ele que aprendi, por exemplo, o significado da sigla «aida»:

a (atenção),
i (interesse),
d (desejo),
a (adquirir).

a sigla por si só já diz tudo,
mas amor é tudo o que move
e o que me move é ir além...

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hoje existe tanta gente que quer nos modificar
não quer ver nosso cabelo assanhado com jeito
nem quer ver a nossa calça desbotada, o que é que há?
se o amigo está nessa ouça bem, não tá com nada!

só tem amor quem tem amor pra dar | sá, rodrix & guarabyra (1973)

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o processo da publicidade, sintetizado pela sigla «aida», implica em:

captar a atenção (a)
despertar o interesse (i)
provocar o desejo (d)
vontade de adquirir (a)

no brasil há um aparelho de tv por habitante.

mais de 90% das redes de tv no brasil são controladas por consórcios de publicidade.

a publicidade não busca apenas convencer, ela busca - e invariavelmente consegue - distorcer a realidade do mundo em que se vive.

ou seja, ela cria pseudopersonalidades, e o homem as assume usando as máscaras simbólicas que são os produtos:

a casa, o automóvel, a roupa, o alimento, a bebida, o shampoo

tudo o que lhe é imposto e que dá ao indivíduo uma imagem de si mesmo de acordo com o que ele desejaria ser
ou o que os outros gostariam que ele fosse
ou o que a sociedade exige que ele seja
mas que ele não é e nem pode ser
e é por essas e outras
que tem muita poeira que vira ouro
e muito ouro que vira pó

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o pó da estrada gruda no meu rosto,
como a distância, matando as palavras,
na minha boca sempre o mesmo assunto,
o pó da estrada.

https://www.youtube.com/watch?v=mggILxtBBzQ&list=RDmggILxtBBzQ&start_radio=1
o pó da estrada | sá, rodrix e guarabyra 1973

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enfim, a verdade é que o tempo não para. as coisas acontecem muito rápido na vida da gente. mas as pegadas para estarmos onde estamos e sermos o que somos estão por aí... desenterrá-las e decifrá-las depende de muita coisa... uma delas é saber onde procurá-las.
pra quem tem mais de 60, como eu, talvez seja mais fácil
pois antigamente tudo marcava e deixava marca
que o digam as calças desbotadas
que usei e ainda uso
e os mortos e desaparecidos
que chorei e ainda choro

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olá, como vai?
eu vou indo, e você, tudo bem?
tudo bem, eu vou indo correndo
pegar meu lugar no futuro, e você?
tudo bem, eu vou indo em busca
de um sono tranquilo, quem sabe?

quanto tempo, pois é, quanto tempo

me perdoe a pressa
é a alma dos nossos negócios
pô, não tem de quê
eu também só ando a cem

quando é que você telefona?
precisamos nos ver por aí
pra semana, prometo
talvez nos vejamos, quem sabe?

quanto tempo, pois é, quanto tempo

tanta coisa que eu tinha a dizer
mas eu sumi na poeira das ruas
eu também tenho algo a dizer
mas me foge à lembrança
por favor, telefone, eu preciso beber
alguma coisa rapidamente

pra semana, o sinal
eu procuro você, vai abrir, vai abrir
prometo, não esqueço
por favor não esqueça, não esqueça
não esqueço, adeus

sinal fechado | paulinho da viola (1969)
canta: chico buarque

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por falar em sinal fechado, é preciso que os doutores e mestres, formados em sociologia nas universidades brasileiras, saibam que há coisas que a universidade não ensina.
uma delas, por exemplo, é a sequência de luzes e cores do semáforo. você sabia que antes do verde vem o vermelho e que o amarelo vem antes do vermelho e o vermelho depois do amarelo?
outra é o tempo em que as luzes ficam acesas, definido por um técnico de tráfego de acordo com o movimento de cada rua. a luz verde, por exemplo, fica mais tempo acesa na rua de maior movimento e menos tempo na rua de menor movimento...

- entendeu?
- não.
- eu também não.
meu negócio é outro
preciso de campo aberto
pra dar certo

sim, era assim que eu pensava quando tinha uns 17, 18 anos de idade. naquela época, eu tinha desistido de estudar e meu pai me deu uma lavoura de arroz pra cuidar. tinha tudo pra dar errado... e deu mesmo. meu pai me deu um calhamaço de notas pra organizar e eu passava o dia na lavoura, atrás de uma pá pra cavar. pra completar, na hora de voltar pra casa:

tinha um bar no meio do caminho,
no meio do caminho tinha um bar.

e a pergunta que não quer calar: e a lavoura? a lavoura a água levou. o que restou daquela lavoura, foi a canoa que salvou. e a canoa? não sei. ninguém nunca mais viu, nunca mais voltou.

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canoa foi rio acima
canoa não volta mais
foi só um sonho bonito
e a vida não volta atrás

canoa | almir sater - renato teixeira (1989)

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- fala sério...
- tô falando.
- então conta mais da faculdade
- da faculdade ficaram os livros
- só os livros? e o resto?
o resto foi passageiro
se perdeu pelo caminho
sumiu no pó da estrada
quando peguei carona com jesus numa moto

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sob a luz da lua
mesmo com sol claro
não importa o preço que eu pague
o meu negócio é viver

jesus numa moto | sá rodrix guarabyra (2000)
(legendado)

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ah, conta outra...
tá bem, vou contar
conta galeano que, quando era criança
sua avó lhe contou a fábula dos cegos e o elefante.
três cegos estavam diante do elefante.
um deles apalpou a cauda do animal e disse:
- é uma corda.
outro acariciou uma pata do elefante e opinou:
- é uma coluna.
o terceiro cego apoiou a mão no corpo do elefante e adivinhou:
- é uma parede.
assim estamos: cegos de nós, cegos do mundo.
desde que nascemos somos treinados para ver o mundo como dizem que ele é, não como queremos ou imaginamos que ele possa ser.

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- não entendi.
- tá bem, vou explicar

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quando eu era guri,
vivia pedindo para o meu pai contar história.
história de criança.
mas ele não contava.
acho que não gostava.
ou não queria.
ou não sabia.
hoje eu até entendo:
acho que ele não achava graça.
graça ele achava contando história do che e do brizola.
dizia que o brizola não teria perdido para o collor
do jeito que o lula perdeu.
hoje, lembrando uma e outra discussão,
me dói o coração.
digo agora o que não disse antes:
que talvez meu pai tivesse razão.
agora é tarde.
tá vendo essa foto em que estou tocando gaita de boca?
o sopro sai,
mas a cena é muda.
meu pai já não pode escutar.
o che está morto e a mim não me resta mais que o silêncio.
calo-me então.

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de volta ao título
[só tem amor quem tem amor pra dar]

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fiz um relato da foto
e enviei as quatro linhas finais para o gemini (ia)
a resposta da ia (inteligência artificial) para o significado da falta de esperança é a seguinte:

«não ter esperança pode ser uma resposta natural a situações pessoais e mundiais, mas não precisa ser permanente. a falta de esperança pode levar a sentimentos de desânimo, apatia, medo e ansiedade, que podem culminar em depressão.
esperança é um sentimento importante que contribui para a saúde mental.
pessoas esperançosas têm um humor mais positivo e uma atitude otimista, o que melhora a qualidade de vida.»

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só tem esperança quem tem esperança pra dar

a resposta da ia acabou com o fio de esperança que eu tinha. aliás, ao contrário do que diz a «ia» e do que pensa a maioria das pessoas, não creio que ter esperança seja algo saudável, pelo contrário, quanto menos esperança eu tenho, mais eu escrevo, e quanto mais eu escrevo, menos eu durmo, e quanto menos eu durmo, mais coisas eu faço, e quanto mais coisas eu faço, menos eu morro, e quanto menos eu morro, mais eu vivo, e quanto mais eu vivo, menos esperança eu tenho.

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tenho

tenho, vamos ver,
que já aprendi a ler,
a contar,
tenho que já aprendi a escrever
e a pensar
e a rir.
tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
tenho, vamos ver,
tenho o que tinha que ter.

nicolás guillén, 1964

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vivemos a ditadura da esperança. somos escravos da esperança. o sistema se alimenta de esperança. só tem esperança quem tem esperança pra dar. não devemos dar esperança. se algum dia vencermos terá sido porque acordamos e levantamos, não porque dormimos e esperamos.

grill

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agora escrevo pássaros

agora escrevo pássaros.
não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe, o amor.

cortázar

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cortázar comenta a morte do che, em 1967

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paris, 29 de outubro de 1967,
roberto, adelaida, meus muito queridos:

quero dizer-te isto: não sei escrever quando algo me dói tanto, não sou, não serei nunca o escritor profissional pronto a produzir o que se espera dele, o que lhe pedem ou o que ele pede a si mesmo desesperadamente. a verdade é que a escrita, hoje e diante disto, parece-me a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de dissimulação quase, a substituição do insubstituível.

o che está morto e a mim não me resta mais que silêncio.

calo-me então.

recebeste, espero, a mensagem que te enviei. era minha única maneira de abraçar-te, a ti e a adelaida, a todos os amigos da casa. e para ti também é isto, o único que fui capaz de fazer nestas primeiras horas, isto que nasceu como um poema e que quero que tenhas e que guardes para que estejamos mais juntos.

che

eu tive um irmão.
não nos vimos nunca
porém não importava.
eu tive um irmão
que ia pelos montes
enquanto eu dormia.
quis-lhe a meu modo,
tomei-lhe sua voz
livre como a água,
caminhei às vezes
próximo de sua sombra.
não nos vimos nunca
porém não importava,
meu irmão acordado
enquanto eu dormia,
meu irmão mostrando-me
por trás da noite
sua estrela eleita.

logo nos escreveremos.
abraça forte a adelaida.
até sempre, julio

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de volta ao começo

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«que tenho eu que hablarte comandante
se o poeta és tu»

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historia de un hermano 
por julio cortázar

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#américas

segunda-feira, 27 de julho de 2026


era uma vez um homem e seu tempo
(infinito de mim mesmo)
 
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celebração aos poetas loucos

dou vivas a essa rebeldia que as folhas vazias
não podem domar
a esse voo incerto a um lugar tão perto
de nenhum lugar
à incontrolável febre daquele que escreve
poemas ao vento
e - do inferno ao céu - derrama no papel
rios de sentimento

celebro os doidos da arte e o seu mundo à parte
sem regras cabais
que navegam sozinhos por um mar de vinho
sem buscar um cais
que, mesmo sem vê-las, acendem estrelas 
nas almas feridas
e vivem sem medo, que é o maior segredo
dessa nossa vida

dou graças aos poetas loucos que não fazem pouco
das palavras vãs
que rompem as grades para a claridade 
do sol das manhãs
que cultuam versos nesse universo
do céu interior
que vivem de sonhos e, às vezes, tristonhos
   se matam de amor!!!!

martim césar

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges 

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belchior

um cidadão do bem
um erudito de disciplina monástica
um hippie vivendo num prédio em construção
um poeta fá de joão cabral e bob dylan
um músico experimental
um incorrigível don juan
um pintor de retratos
um outsider
um andarilho
um desaparecido

jotabê medeiros

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«fugitivo de si e do mundo, belchior personificou a própria arte da fuga, transformando o silêncio de sua partida em poesia pura.»

autor desconhecido

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«vivo sem viver em mim
e tão alta vida espero
que morro porque não morro»

belchior

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«ele tinha um lado são francisco misturado com uns diabinhos», brinca o amigo fausto nilo. é uma necessidade que o ser humano tem, de que esse real da vida possa se dar um tempo e imaginar as coisas de outra maneira. essa é a função dos artistas. eles precisam disso. e o povo também precisa disso. «acredito, como scott fitzgerald, que a melhor fuga é sem volta», diz o maranhense zeca baleiro, endossando a ruptura definitiva de belchior.»

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«sob o ponto de vista poético, belchior celebrou o desespero — o que era moda em 1976 — e o que se sobrepôs a isto, atravessando corações e mentes, por gerações e gerações. nunca se furtou em traduzir em poesia, numa voz marcante com interpretação de quem quase declama ao invés de cantar, todos os recantos obscuros do desespero do homem de seu tempo.»

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«foi um apaixonado, um indignado, um sedutor. mas, principalmente, tocou fundo na solidão da condição humana, antecipando em décadas o isolamento nosso de cada dia, retidos numa tela de smartphone. estamos conectados com o mundo e chorando de solidão.»

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«autobiográfica, sua obra retrata suas diversas fases de vida, com um tipo de nuance romanceada, mas não inventada e jamais amenizada. não há lições de moral ou aprendizados fáceis na obra poética do cantor. não há autoajuda, tampouco salvação. há vida, e a vida às vezes dói.»

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textos do jornalista jotabê medeiros,
extraídos de sua biografia sobre belchior e de ensaio para a revista bula.

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

maria elizabeth gastal fassa

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viver é melhor que sonhar - os últimos caminhos de belchior

por chris fuscaldo e marcelo bortoloti

em algum momento, belchior e edna estiveram em montevidéu, pois foi de lá que o casal fez contato com martim césar, um poeta da cidade de jaguarão, que eles não conheciam até ali, mas para quem decidiram pedir ajuda depois da indicação de seu nome por um amigo em comum que não foi revelado. o e-mail, escrito por edna, chegou no dia 10 de outubro de 2010, e era dirigido a ele e à esposa, com os seguintes dizeres:

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«prezados martim e elisangela

a casa de cultura belchior é uma fundação sem fins lucrativos que desenvolve um trabalho muito especial de arte e cultura social especialmente no nordeste, as atividades vão desde as aulas de música no sertão até atividades com artistas de longo caminho, em vários lugares.
existe um projeto atual que pretende expandir as atividades no sentido da unidade latino-americana.
os sócios não têm obrigatoriedade de pagar mensalidades, porque cada um contribui como pode, muitas pessoas atuam organizando os cursos e em diversas atividades.
haverá eleições para a coordenação e vocês estão sendo indicados para fazer parte da suplência do conselho fiscal.
gostaria de saber se vocês aceitam o convite e, números de r.g.
enviamos também um convite para o paulo timm.

casa de arte e cultura belchior»

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martim césar se prontificou a encontrá-los assim que foi solicitado. junto ao músico paulo timm, dirigiu até montevidéu para uma conversa. no café tribunales, o casal escolheu uma mesa de canto e se comportou como se estivesse se escondendo. edna quase não deixou belchior falar. eles não disseram o hotel que estavam, mas deram uma dica da direção, que não era das mais nobres da cidade. o papo estava estranho e eles logo perceberam que o casal parecia passar alguma dificuldade. por ser um artista que admiravam, resolveram ajudar assim que voltaram para jaguarão.

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martim conseguia pouco espaço de conversa com o artista, mas, quando possível, debatiam literatura, assunto caro aos dois. belchior lhe declamava poemas de baudelaire. chegou a comentar que tinha composto vinte canções novas e que as apresentaria na hora certa. «ele pediu livros, eu levei alguns, mas ela se incomodava quando conversávamos sobre literatura», conta martim. o jaguarense viu a companheira dele fechar a cara enquanto os dois falavam da trama de um deles. certo dia, recebeu um e-mail da casa de arte e cultura belchior, colocando fim à relação, de uma forma tão misteriosa como começou. a mensagem informava que o casal havia saído da residência e deixado a chave e os livros em um hotel vizinho.

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«prezado martim,

falei com a edna e com o belchior e eles me pediram para te enviar este e-mail:
agradecem pelo empréstimo dos livros e dvds
os seus pertences estão na casa da sra. helen.
no entanto, outros 2 livros seus e o livro e canetas da sra. helen ficaram no hotel em seu nome, onde eles disseram que jantaram com vocês uma noite.

até,
rafael.»

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nunca se ouviu falar no tal rafael. todos que conviveram com o casal sabiam que era edna a responsável pelas trocas digitais do cantor e de sua instituição cultural. até hoje martim e paulo não sabem o porquê da mudança de comportamento, mas de entrevista em entrevista fomos percebendo que isso acontecia recorrentemente por onde passavam. como uma espécie de autossabotagem, afinal, dispensar o conforto que os fãs lhe davam não parecia algo inteligente. ou seria uma estratégia de fuga, o que, também, não fazia sentido nesses lugares onde conseguiram passar despercebidos.

já era novembro e o casal conseguira ajuda de thiara gimenez, uma estudante de história eleita vereadora pelo partido dos trabalhadores (pt) em 2008, empossada presidente da câmara municipal de jaguarão, que tinha menos de 30 anos e um filha recém-nascida. edna vinha frequentando a loja de produtos naturais de reinaldo, sogro dela, localizada em jaguarão, próximo de lago merín. acabaram estabelecendo uma relação, e thiara lhe foi apresentada. a vereadora ouvia edna dizer que o casal estava sendo perseguido pela tv globo...

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https://www.youtube.com/watch?v=QdqIngMqwqk 
belchior: um homem procurado
[onde está belchior?]
fantástico (rede globo) - 30 de agosto de 2009

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por que belchior agiu assim?

qualquer explicação única para o gesto de belchior seria uma explicação medíocre. estávamos diante de um drama humano, mas também de um drama poético. na ontolgia da música popular brasileira, seu desparecimento foi algo imenso e surgiu em sua vida de forma tão inexplicável quanto o corvo no quarto do poeta edgar allan poe. um pássaro preto que simplesmente entrou pela janela para lhe dizer: «nunca mais, nunca mais». apenas uma porta que se fechava, deixando a falta de sentido no ar.

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você não sente, não vê mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
que uma nova mudança em breve vai acontecer
o que há algum tempo era novo, jovem
hoje é antigo
e precisamos todos rejuvenescer


https://www.youtube.com/watch?v=96Ke5TPILF0&list=RD96Ke5TPILF0&start_radio=1 
velha roupa colorida | belchior, 1976
(última gravação conhecida de belchior)
artigas - uruguai - 2011

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da inglória tarefa de compreender como jornalistas e pesquisadores a razão desta mensagem enigmática, nos restou uma envergonhada alegria. reviramos as gavetas que ninguém havia revirado, tocamos em lugares doloridos em busca de uma verdade que no final não existia. e, depois de tanta intimidade exposta, não estávamos tão longe assim do ponto de partida. mas já não éramos os mesmos. ficamos mais íntimos de belchior, compreendemos melhor a natureza do seu gesto e, de alguma maneira, este esforço ajudava a refletir sobre ele, talvez até engrandecê-lo. muito provavelmente, belchior não ficaria feliz com tamanha exposição pessoal. mas se percebesse que houve em nossa atitude mais admiração do que deboche, mais gratidão do que interesse, talvez nos perdoasse por isso. se como jornalistas sonhamos encontrá-lo ainda vivo, como pesquisadores, acabamos vivendo essa história que passou a ser de alguma forma nossa também. viver é melhor que sonhar.

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textos dos jornalistas chris fuscaldo e marcelo bortoloti
extraídos do livro viver é melhor que sonhar - os últimos caminhos de belchior.

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não quero lhe falar, meu grande amor
das coisas que aprendi nos discos
quero lhe contar como eu vivi
e tudo o que aconteceu comigo

do álbum alucinação

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bangalôs, charqueadas e acampamentos
o sumiço de belchior

[da revista trip]

belchior começou a desaparecer em 2007. as evidências de que seu sumiço era inusitado e «misterioso» foram sendo levantadas pela imprensa e por alguns vestígios que corroboravam a tese de uma fuga doida.

«quando eu soube que ele tinha sumido por causa de umas dividazinhas, comecei a procurá-lo. nós podíamos arrumar dois ou três shows e pagar tudo. era coisinha. mas não consegui achá-lo. ele não quer ser ajudado», contou um desolado ciro gomes, ex-governador do ceará, ex-ministro da fazenda e candidato eterno à presidência da república, logo após um debate político em são paulo, em 2016.

dez anos mais novo que belchior, ciro estudou em sobral, cidade natal do cantor, no colégio sobralense, mas só veio a conhecê-lo em fortaleza, quando já era famoso e cantava em festivais, em meados dos anos 1970. ciro era amigo de fagner e ednardo, e, por tabela, acabou fazendo amizade também com belchior. a última vez que se encontraram foi em 2008, depois do início do sumiço «oficial», em 2007. passaram a noite cantando e bebendo, como sempre fizeram, e ciro conta que ele lhe pareceu «centrado e criativo» como sempre.

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corre o vento, o rio passa...

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«não podemos escolher onde nascemos. podemos, no entanto, escolher onde viver e até mesmo onde vamos morrer», disse o professor ubiratan trindade, o bira, que o hospedou em santa cruz do sul. belchior não escolheu onde morrer, mas escolheu viver os últimos anos conforme as palavras de dante alighieri em a «divina comédia»: «a fama que se adquire no mundo não passa de um sopro de vento, que ora vem de uma parte, ora de outra, e assume um nome diferente segundo a direção de onde sopra».

deixando a profundidade de lado, o fato é que o ceará e o brasil reservaram alguns dias atentos (e talvez alguns anos, e talvez até algumas décadas, e quem sabe quanto mais?) para ouvir de novo as canções daquele rapaz educado e de sorriso falsamente tímido que se despedia das pessoas que lhe pediam autógrafos com um verso cúmplice e um texto ao qual sempre acrescentava, no fim:

«abrazos & canções. belchior.»

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ponto
nova linha

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meu infinito sou eu

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«veloso,
o sol não é tão bonito
pra quem vem do norte
e vai viver na rua»

belchior

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«olha pra mim, não há nada mais triste
que um homem morrendo de frio»

vitor ramil

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ao vento

não deve ser fácil
acordar e ver o dia amanhecer
gris, nublado e chuvoso.

pior é o frio
pior que o frio
é a frieza do ser humano

essa história de que o sol brilha para todos
não é bem assim.

para alguns — mais iluminados —
ele até brilha
mas o brilho
tem prazo limitado

é a vida
num dia você está vivo
no outro
morreu

grill

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e as paralelas dos pneus n' água das ruas
são duas estradas nuas em que foges do que é teu
no apartamento, oitavo andar, abro a vidraça e grito
grito quando o carro passa: meu infinito sou eu
sou eu, sou eu, sou eu

paralelas | belchior (1977)
imagem em movimento
(dentro do carro)

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de volta ao futuro

«ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro»

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«você me pergunta pela minha paixão
digo que estou encantado
como uma nova invenção
eu vou ficar nesta cidade
não vou voltar pro sertão
pois vejo vir vindo no vento
cheiro de nova estação
eu sei de tudo na ferida viva
do meu coração»

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quero desejar, antes do fim,
pra mim e os meus amigos,
muito amor e tudo mais;
que fiquem sempre jovens
e tenham as mãos limpas
e aprendam o delírio com coisas reais.

https://www.youtube.com/watch?v=PXDUR9nLf_s&list=RDPXDUR9nLf_s&start_radio=1 
antes do fim | belchior (1976)

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foto belchior: mario luiz thompson

tela gas: edward hopper, 1940

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#belchiorpresente

domingo, 26 de julho de 2026


coração selvagem 

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«aqui estão os loucos. os desajustados. os rebeldes. os criadores de caso. os pinos redondos nos buracos quadrados. aqueles que vêem as coisas de forma diferente. eles não curtem regras. e não respeitam o status quo. você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. porque eles mudam as coisas. empurram a raça humana para a frente. porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam.»

jack kerouac

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«se alguém por mim perguntar, avisem que fui por ai passear, bicicletar, arvorar, poemar, escrevinhar, espreguiçar, admirar, aproveitar, adocicar, catar flores, cantarolar, palavrear e amorar.
e começar tudo de novo.»

ita portugal

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ita portugal é maranhense, pedagoga e, por teimosia, desde cedo começou a escrever. esse hábito a persegue há anos. ao mesmo tempo em que escreve compulsivamente, lê. viciada em caio fernando abreu, rubem alves, cora coralina, clarice lispector, aprendeu a não ter vergonha de seus sentimentos. começou a publicar seus textos na internet e logo surgiram leitores e pedidos para que esse material fosse transformado em livro. e assim nasceu certas incertezas, o primeiro livro desta contadora de sentimentos.

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«sinta mais, pense menos»

charles bukowski 

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«se as portas da percepção estivessem livres, tudo se mostraria ao homem como é, infinito.»

william blake

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«que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure.»

vinicius de moraes

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vinicius de moraes é carioca, diplomata de profissão e, por irresistível paixão, desde cedo começou a escrever. esse hábito o perseguiu até o fim dos dias. ao mesmo tempo em que escrevia compulsivamente, amava. viciado no amor, na bossa, na vida e nos encontros, aprendeu a não ter vergonha de seus sentimentos. começou a cantar e publicar seus textos e logo o brasil inteiro tomou seus versos como oração. e assim escreveu o soneto de fidelidade, definição mais que perfeita do que é o amor para este poeta da paixão.

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«uma vez chamaram-me poeta materialista,
e eu admirei-me, porque não julgava
que se me pudesse chamar qualquer coisa.
eu nem sequer sou poeta: vejo.
se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
o valor está ali, nos meus versos.
tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.»

alberto caeiro, 1925

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«há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?»

charles bukowski

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«ninguém é livre, até os pássaros estão presos ao céu.»

zimmerman

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«se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando sábio.»

blake

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ando contra o vento
amo mais o longe que o perto

grill

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pássaros de mesma plumagem

tenho um amigo que disse
que tinha um amigo que dizia
que os pássaros de mesma plumagem
procuram voar juntos.
e que isso vale,
justamente para os amigos.
não conhecia a frase, mas concordei no ato.
boêmios, poetas, músicos e filósofos de botequim concordam.
hoje esse amigo que tinha um amigo que dizia isso,
tem um amigo que sempre repete essa frase.
é fato.
os pássaros de mesma plumagem procuram voar juntos.

martim césar

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pato selvagem

por rubem alves

era uma vez um bando de patos selvagens que voava nas alturas. lá de cima se via muito longe, campos verdes, lagos azuis, montanhas misteriosas e os pores de sol eram maravilhosos. mas, voar nas alturas era cansativo. ao final do dia os patos estavam exaustos. aconteceu que um dos patos, quando voava nas alturas, olhou para baixo e viu um pequeno sítio, casinha com chaminé, vacas, cavalos, galinhas… e um bando de patos deitados debaixo de uma árvore. como pareciam felizes! não precisavam trabalhar. havia milho em abundância. cansado, o pato selvagem teve inveja deles. disse adeus aos companheiros, baixou seu voo e juntou-se aos patos domésticos. ah! como era boa a vida, sem precisar fazer força. ele gostou e fez amizades. o tempo passou. primavera, verão, outono, inverno… chegou de novo o tempo da migração dos patos selvagens. e eles passavam grasnando, nas alturas… de repente, o pato que fora selvagem começou a sentir uma dor no seu coração, uma saudade daquele mundo selvagem e belo, as coisas que ele via e não via mais, campos, lagos, montanhas, pores de sol. aqui embaixo a vida era fácil, mas os horizontes eram tão curtos! só se via perto. e a dor foi crescendo no seu peito até que não aguentou mais. resolveu voltar a juntar-se aos patos selvagens. abriu suas asas, bateu-as com força, como nos velhos tempos. ele queria voar! mas, caiu e quase quebrou o pescoço. estava pesado demais para o voo. havia engordado com a boa vida… e assim passou o resto de sua vida, gordo e pesado, olhando para os céus, com nostalgia das alturas…

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passa
tudo passa 
até o condor passa 

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mochileira deite comigo essa noite
e conte aquela boa velha história
de como as noites são claras em machu pichu
e os dias dourados na califórnia

moça eu não vou precisar ler na sua mão
pra saber que você não vai voltar
pra vida maluca das pessoas
do mundo
das formigas tentando se esconder da chuva

dance mochileira que eu toco a guitarra

mochileira | geraldo roca (1997)
canta: almir sater 

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há uma cidade no norte de ontario
com conforto e sonhos e memória e desamparo
e na minha cabeça, eu ainda preciso de um lugar para ir

azuis, janelas azuis atrás das estrelas
a lua amarela vai subindo
grandes pássaros cruzam o céu

meu bem, agora você me ouve?
as correntes estão trancadas e presas sobre as minhas portas
meu, bem, meu bem, dê um jeito, mas cante comigo

helpless | neil young (1970)

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la la la la la la la
la la la la la la la

wigwam | bob dylan (1970)

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e eu te vejo assim
como uma vela que acende
ou como disse elton john
(like a candle in the wind)

para dylan | zé ramalho (2008)

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wigwam

1. cabana, barraca ou tenda dos índios norte-americanos, feita de peles de animais


2.habitação ameríndia de cobertura oval, típica dos índios do nordeste dos estados unidos da américa

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terra mar e ar

não nasci 
para morrer 
e ficar preso 
às raízes 

meu lugar 
quando eu viajar
e não voltar 
é terra, mar e ar

grill 

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você está comigo quando eu sonho
em toda a minha vida terra, mar e ar

você está presente no que eu penso
nas decisões, nos atos, no que eu sinto
em toda a minha vida terra, mar e ar

eterna viajante do meu peito
eu sei você existe um dia eu vou te achar
e nesse dia claro todas as vontades
virão para te festejar

eu sou só um cara
solitário, caminhando, desejando
esperando por você

levo no meu peito bem guardado
um lugar desocupado
esperando por você

terra, mar e ar | renato teixeira (1994)

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sobre que eu nem sei quem sou

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- quem é você?
- essa é uma boa pergunta
- então responda
- alias
- alias ​​o quê?
- alias, qualquer coisa que você quiser

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as guitarras vão tocar no seu grand finale
lá em algum beco de tularosa
talvez no vale do rio pecos
billy, você está tão longe de casa

https://www.youtube.com/watch?v=38rDhjjSZcA&list=RD38rDhjjSZcA&start_radio=1
billy 1 | bob dylan, 1973
(tradução inglês/espanhol)

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«às vezes o você em minhas canções sou eu falando comigo. em outras vezes, posso estar falando com outra pessoa. se eu estiver falando comigo numa música, não vou parar tudo no meio e dizer: ok, estou falando comigo. você é que tem de adivinhar quem é quem. uma porção de vezes, é você falando com você. o eu também muda. pode ser eu, ou poderia ser o eu que me criou. e, ainda poderia ser outra pessoa que está dizendo eu. quando digo eu neste momento não sei de quem estou falando.»

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prefiro ser um pardal do que um caracol
sim, eu preferiria; se pudesse, com certeza preferiria

prefiro ser um martelo do que um prego
sim, eu preferiria; se pudesse, com certeza preferiria


para longe, prefiro navegar para longe
como um cisne que passa e já se foi
um homem que fica preso ao chão
ele dá ao mundo
sua canção mais triste
sua canção mais triste

prefiro ser uma floresta do que uma rua
sim, eu preferiria; se pudesse, com certeza preferiria

prefiro sentir a terra sob meus pés
sim, eu preferiria; se ao menos pudesse, com certeza preferiria

para longe, prefiro navegar para longe
como um cisne que passa e já se foi
um homem que fica preso ao chão
ele dá ao mundo
sua canção mais triste
sua canção mais triste

https://www.youtube.com/watch?v=QqJvqMeaDtU&list=RDQqJvqMeaDtU&start_radio=1
el condor pasa | daniel robles - julio de la paz (1913)
por simon & garfunkel (com cenas em machu pichu)

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«se souberem onde olhar, é possível saber tudo sobre mim através das minhas canções.»

bob dylan

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procura-se
procura-se na califórnia, procura-se em buffalo
procura-se em kansas city, procura-se em ohio
procura-se no mississippi, procura-se no velho cheyenne
onde quer que você olhe hoje à noite, você pode me encontrar
eu posso estar no colorado ou na geórgia, à beira-mar
trabalhando para um homem que talvez nem saiba quem eu sou
se você me vir vindo, fique na sua, não diga pra ninguém
que estou fugindo e que você sabe quem eu sou
procurado por lucy watson, procurado por jeannie brown
procurado por nellie johnson, procurado na próxima cidade
mas eu tinha tudo o que queria com tudo que tinha
e muito mais do que precisava de algumas coisas que acabaram mal
fui desviado em el paso, parei para pegar um mapa
fui no caminho errado em juarez com juanita no meu colo
depois fui dormir em shreveport, acordei em abilene
me perguntando por que diabos sou procurado nas cidades por onde passo
procurado em albuquerque, procurado em siracusa
procurado em tallahassee, procurado em baton rouge
tem sempre alguém me perseguindo nos lugares por onde vou
e para onde quer que você olhe hoje à noite, você pode me enxergar
procurado na califórnia, procurado em buffalo
procurado em kansas city, procurado em ohio
procurado no mississippi, procurado no velho cheyenne
onde quer que você me procure hoje à noite, você pode me encontrar

bob dylan © 1969 by big sky music
bob dylan / johnny cash - wanted man (take 1)

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canto de mim mesmo

casas e quartos se enchem de perfumes.... as estantes estão entulhadas de perfumes, respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o reconheço, perfumes poderiam me intoxicar também, mas não deixo.

a fumaça de minha própria respiração, ecos, ondulações, zunzuns e sussurros.... raiz de amaranto, fio de seda, forquilha e videira, minha respiração minha inspiração.... a batida do meu coração.... passagem de sangue e ar por meus pulmões, o aroma das folhas verdes e das folhas secas, da praia e das rochas marinhas de cores escuras, e do feno na tulha, o som das palavras bafejadas por minha voz.... palavras disparadas nos redemoinhos do vento, jogo de luz e sombra nas árvores enquanto oscilam seus galhos sutis, delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos campos e encostas de colina, sensação de bem-estar .... apito do meio-dia .... a canção de mim mesmo se erguendo da cama e cruzando com o sol.

walt whitman

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uma vez, me perguntaram quais eram meus três poetas favoritos.
a resposta: whitman, whitman, whitman.

whitman é o xamã da américa — e, como todo xamã, é necessariamente conflituado, necessariamente ambíguo e difícil de compreender.

grill

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«eu me contradigo?
pois muito bem, eu me contradigo,
sou amplo, contenho multidões.»

whitman

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«eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes
eu prefiro ser essa metamorfose ambulante»

raul

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«...é que há uma linha muito tênue
entre o que chamamos sanidade e
o que chamamos loucura
e que o esforço que fazemos para
permanecer no lado são
só é feito para que não sejamos
punidos pela
sociedade.
senão, iríamos
frequentemente cruzar essa linha e
as coisas seriam muito mais
interessantes.»

bukowski

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enquanto você se esforça pra ser
um sujeito normal e fazer tudo igual
eu do meu lado aprendendo a ser louco
um maluco total, na loucura real
controlando a minha maluquez
misturada com minha lucidez
vou ficar
ficar com certeza
maluco beleza

metamorfose ambulante / maluco beleza
por belchior

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muda
tudo muda
e se tudo muda
eu também vou mudar

o mundo gira
o vento vira
tudo muda

as casas ficam para trás
o condor passa
os amores passam

tudo passa
e eu continuo aqui

sendo este que sou
sem porquê
nem para quê

apenas sendo

minha maior loucura
foi mudar a mim mesmo

e continua sendo
vai vendo

grill

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meu bem, talvez você possa compreender
a minha solidão
o meu som e a minha fúria
e esta pressa de viver
e este jeito de deixar
sempre de lado a certeza
e arriscar tudo de novo
com paixão
andar caminho errado
pela simples alegria de ser

coração selvagem | belchior (1977)
[legendado]

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sobre que eu nem sei quem sou
(a imagem do post)

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self portrait (junho de 1970)

a capa deste álbum duplo é uma pintura impressionista/expressionista feita pelo próprio bob dylan.

a arte: retrata um rosto simplificado, com pinceladas largas e cores brutas (tons de rosa, azul e cinza), sem a precisão de um retrato realista.

o conceito: o disco foi recebido pela crítica com bastante controvérsia — a famosa resenha de greil marcus na rolling stone começava com «what is this shit?» («que merda é essa?»).

a capa traduz o espírito da obra: dylan desconstruindo a própria imagem de «poeta e profeta» da geração para se redefinir apenas como um artista em busca de experimentação.

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carpe diem
bom domingo