sexta-feira, 28 de agosto de 2026


words

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«o amor às palavras está completamente cravado no meu peito. é irreversível e sem ele não viveria. mas sou um disperso. meus olhos procuram milhares de fragmentos, alguns deles mundanos, banais, descartáveis. de tudo procuro tirar elementos... para a minha felicidade estética e emocional. às vezes descubro nesse mundaréu certos alguéns, livros, canções, poemas ou situações que acabam me somando importâncias e me ajudam a descobrir emoções, olhos e palavras.»

celso borges (cb)

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vim pelo caminho difícil
a linha que nunca termina
a linha bate na pedra
a palavra quebra uma esquina

mínima linha vazia
a linha, uma vida inteira
palavra, palavra minha
palavra, palavra minha


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ao vento

por enilton grill

é conhecido o diálogo entre charles chaplin e albert einstein no primeiro encontro dos dois. o gênio da física diz ao gênio do cinema mudo: «o que mais admiro na sua arte é a universalidade. você não diz uma palavra e, ainda assim, todo o mundo o entende». a resposta: «é verdade. mas sua fama é ainda maior: o mundo admira você sem entender uma palavra do que você fala».

noutras palavras: vivemos uma vida de dores caladas, de dores não faladas, de dores escondidas. quando as pessoas começarão a ser e deixarão de não ser?

hamlet é o personagem que mais fala na peça de shakespeare; recita 1.507 linhas. suas últimas palavras são: «o resto é silêncio».

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el silencio no es una palabra
escrita sobre una pared
es una canción solitaria por el viento
que no se detiene en el medio de un infierno

es una canción solitaria por el viento
que no se detiene
en el medio de un infierno

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[do álbum: el fantasma de canterville]

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calesita: carrossel
sortija: jogo que consiste em adivinhar a quem foi dado o anel que um dos participantes leva entre as mãos.
hamaca: rede
bostejo: bocejo.

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ao vento

ando contra o vento
e de peito aberto
minha vida não é um filme
é um livro aberto

grill

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esse teto frágil sustentando a lua
esse livro aberto como uma saída
o tapete e seu plano de vôo
o lençol revolto antecipando o gozo
essa velha casa de coral
essa concha muda que o meu sonho habita
a paixão invicta que não vai passar
se você vier

esse rádio doido de olhos valvulados
esse livro aberto como uma sangria
esse poema novo sem papel
o papel que cabe aos meus sapatos rotos
o meu rosto que o espelho não vê
a janela imóvel em seu desatino
esse meu destino que não vai passar
se você vier
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do álbum: foi no mês que vem
marcos suzano & orquestra de câmara do theatro são pedro

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oh mercy

por bob dylan

era 1987, e minha mão, que tinha sofrido um ferimento medonho em um acidente maluco, estava em recuperação. ela fora rasgada e estraçalhada até os ossos e ainda se encontrava no estágio agudo --- eu nem a sentia como se fosse minha. não sabia o que havia acontecido comigo, e era uma guinada bizarra na sorte. todas as potencialidades tinham se despedaçado. com uma centena de shows marcados para mim a partir da primavera, não era certo que eu fosse capaz de me apresentar. foi uma experiência grave. ainda estávamos em janeiro, mas minha mão precisaria de um bocado de tempo para se curar e se reabilitar. olhando através da janela para um jardim crescido demais, com uma tala que ia da mão quase até o cotovelo, percebi que meus dias como instrumentista poderiam ter acabado. em certo sentido, teria sido adequado, pois até então eu estivera folgando comigo mesmo, explorando o que quer que eu possuísse de talento além do ponto de ruptura. eu já sabia disso há um tempo. recentemente, porém, o cenário havia mudado, e agora as implicações históricas da situação me preocupavam.

o público fora alimentado com uma dieta constante de minhas gravações em disco durante anos, mas minhas apresentações ao vivo jamais pareceram capturar o espírito interno das canções --- haviam fracassado na hora de turbiná-las. a intimidade, entre muitas outras coisas, tinha ido embora. havia muitos motivos para isso, motivos para o caldo ter entornado. sempre prolífica, mas nunca exata, minha trilha musical transformara-se em uma selva de trepadeiras por causa do excesso de distrações. eu estivera seguindo meus próprios instintos, e eles não estavam mais funcionando. as janelas haviam ficado tampadas durante anos e recobertas por teias de aranha, e não que não soubesse.

eu estivera numa turnê de dezoito meses com tom petty e os heartbreakers. seria a minha última. eu não estava conectado a nenhum tipo de inspiração. para começar, o que quer que tenha estado ali antes havia sumido e encolhido por completo. tom estava no topo do lance dele, e eu no fundo do meu. eu não conseguia superar as adversidades. estava tudo despedaçado. minhas próprias canções haviam se tornado estranhas para mim, eu já não tinha habilidade para tocar seus nervos expostos, não conseguia penetrar além das superfícies. não era mais o meu momento na história. o que eu cantava tinha se tornado vazio e sem coração, e eu não aguentava mais esperar para desmontar o acampamento e me recolher. eu era o que chamavam de maduro demais. se não tomasse cuidado, acabaria esbravejando aos berros com as paredes. o espelho havia girado ao contrário, e eu podia ver o futuro -- um velho ator furungando em latas de lixo do lado de fora do teatro de seus triunfos do passado.

eu tinha escrito e gravado muitas canções, mas não tocava muitas delas. acho que só estava habilitado em relação a umas vinte. as restantes eram críticas demais, tinham um ar sombrio demais, e eu não era mais capaz de fazer nada de radicalmente criativo com elas. era como carregar uma carga de carne putrefata. não podia entender de onde elas tinham vindo. a luminosidade se fora, e o fósforo havia queimado até o fim. eu ia fingindo. tentava de tudo, mas o motor não dava partida.

benmont tench, um dos músicos da banda de petty, sempre me sondava, quase em tom de súplica, sobre a inclusão de números diferentes no show. «chimes of freedom» --- podemos tentar essa? e que tal «my back pages»? ou «spanish harlem incident»? e eu sempre dava uma desculpa esfarrapada. na verdade, não sei quem dava a desculpa, pois eu havia fechado a porta para o meu próprio eu. o problema era que, depois de contar por tanto tempo com o instinto e a intuição, eles haviam se transformado em abutres e estavam me sugando até a última gota. até mesmo a espontaneidade havia se tornado uma cabra cega. meu monte de feno não estava amarrado, e eu comecei a temer o vento.

bob dylan | crônicas: volume um, p. 161 a 166.

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mãe, guarde minhas armas
minha camisa e meu chapéu
aquela enorme nuvem negra está descendo
acho que estou batendo na porta do céu

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knockin' on heaven's door | bob dylan | 1973
[from the hard to handle concert film.
bob dylan, backed by tom petty and the heartbreakers during their australian tour in 1986.]

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ao vento

um dia olhei pro céu
e vi montevidéu
hoje eu até tento
mas nem inventar mais eu invento

grill

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vento
que joga na mala
os móveis da sala
e a sala também

leva
um beijo bandido
um verso perdido
um sonho refém

que eu não possa ler, nem desejar
que eu não possa imaginar

oh, vento que vem
pode passar
inventa fora de mim
outro lugar

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do álbum: satolep sambatown
[clipe oficial]

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de volta ao começo
no princípio era a «palavra»

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«“words” é a primeira música que revela um pouco dos meus dilemas existenciais. eu era jovem quando percebi os jogos mentais que os outros tentavam fazer comigo. havia tantas pessoas por perto o tempo todo, falando e falando, sentadas em um círculo fumando cigarros na minha sala de estar. nunca tinha sido assim antes. sou uma pessoa muito só e reservada. a paz estava indo embora. estava mudando muito rápido. eu me lembro de ter pulado pela janela da sala de estar para o gramado para sair de lá - eu não podia esperar o suficiente para abrir a porta!»

neil young

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fulano e sicrano estavam perto do lago
procurando algo para plantar no gramado
lá fora, nos campos, eles estavam virando a terra
estou sentado aqui esperando que a água ferva
quando olho para a estrada através da janela
estão me trazendo presentes e me cumprimentando

cantando palavras, palavras entre as linhas do tempo
palavras, palavras entre as linhas do tempo

se eu fosse um ferro velho vendendo carros
lavando suas janelas e brilhando suas estrelas
pensando que sua mente era a minha em um sonho
o que você se perguntaria e como isso pareceria?
vivendo em castelos um pouco de cada vez
o rei começou a rir e a falar em rima

cantando palavras, palavras entre as linhas do tempo
palavras, palavras entre as linhas do tempo

[clipe / masterpiece]

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e benjamín, o pastor?

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jamás has notado
que liviano caen los sueños
de los pájaros
en silencio

jamás has notado
que tenerle miedo a la gente
es irse de cabeza
hacia el centro de la tierra

benjamín era casi un pastor
pero le faltaba saber
que por el mundo había
muchas ovejas muertas

jamás has notado
que los árboles sencillos
pueden crecer y levantarse
en cualquier sitio

jamás has notado
que pocas palabras quedan
en la cabeza
de los poetas

👇

do álbum: el fantasma de canterville

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#choveemsatolep
#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quinta-feira, 27 de agosto de 2026


ave rara! ave rada!
[morrendo e aprendendo] 

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«aprendi a cantar atrás dos tambores»

rubén rada 

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entrevista com rubén rada 

por: ariel fagundes
para: revista noize

8 de novembro, 2023

noize: como o público negro uruguaio recebeu seu som, o que achou de misturar o candombe com outras musicalidades?

rubén rada: é porque o candombe, como todos os ritmos do mundo, como o samba, o frevo, tudo, não tem música, é um ritmo. e nós, os músicos, roubamos o ritmo para fazer música. mas o ritmo na rua não precisa de música. você pode cantar o que quiser. eu aprendi a cantar atrás dos tambores. ali eu aprendi a entender o ritmo e a gostar disso. quando eu era muito pequeninho, tinha a banda policial, a banda da marinha, e eu ia atrás, sem sapatos, nada. descalço, atrás da banda.

noize: mas as pessoas entenderam quando surgiu o chamado «candombe-beat»?

rada: não, eles não entendiam, especialmente os negros. a gente sabe que, no mundo inteiro, as raças, ainda que sejam a mesma, todas pensam diferente. então a maioria dos negros não gostava. mas outros, que eram mais modernos, entendiam e gostavam dessa música. mas tem muito mais brancos no uruguai. nós éramos, na época, nos anos 1950 ou 1960, uns 10% da população. e depois os militares [na ditadura de 1973-1985] derrubaram os cortiços, que eram como se fosse o harlem, onde moravam todos os negros, e todo mundo fazia a sua música. em uma festa de negros, você entra e já tem festa. em uma festa de brancos, ninguém fala, até que comece o álcool ou o baseado, e as pessoas comecem a ficar à vontade. em uma festa de negros, chega um negro com uma roupa toda azul e com uma boina verde, por exemplo, e todo mundo: «olha, parece um passarinho», e aí começa a festa. 

noize: hoje não há dúvidas de que você é uma das pessoas mais importantes para a cultura afro-uruguaia, se não a mais importante.   

rada: sim. eu trabalhei muito para isso. sofri muito também.  

noize: que tipo de sofrimento?

rada: de racismo. todo mundo critica todo mundo. e nós, negros, criticamos também. quando eu tive uma namorada branca, minha mãe disse: «não, ela vai rir de você. deixa isso. quando tiverem um filho, ele vai ser diferente na escola». todos somos racistas, o negro também. se você for à áfrica, e for uma mulher branca, a família do negro prefere que você se case com uma mulher negra. e isso é uma coisa que eu não tinha a consciência que agora eu tenho. 

noize: essa questão vem avançando no uruguai?

rada: sim, mudou no mundo. eu me lembro do primeiro casamento do sammy davis jr., que se casou com uma mulher branca e judia. a minha esposa é branca e judia. mas naquele momento foi uma coisa que as pessoas não conseguiam entender, que nem quando o john lennon se apaixonou pela yoko. o pobre inglês odiava aquela mulher, e fizeram muito mal a ela somente porque era japonesa. o mundo foi muito cruel e é muito cruel agora também. então, o importante é o que minha mãe falou pra mim: «você não está mal, não está doente, os doentes são eles». então aprendi isso, se tem uma pessoa que não gosta de mim porque eu sou negro, bom, que siga seu caminho. eu sigo o meu. devo isso à minha mãe. como falava malcolm x, eu não posso esperar que o branco entenda que o preto é igual a ele. era isso o que propunha o martin luther king: paciência com o branco. e o malcolm x dizia: «eu tenho uma vida só, não tenho tempo de vida pra ter paciência e esperar que o branco me entenda, eu quero viver agora».

noize: e além do racismo, você teve também que enfrentar a ditadura no uruguai.

rada: sim! mas era tão ignorante a polícia do uruguai. eu havia gravado uma canção que dizia: «si te gusta comer manzanas/ son más frescas por la mañana» [«se você gosta de comer maçãs/ são mais frescas pela manhã»]. então eu era muito conhecido como um homem divertido. e aí nós vínhamos em um táxi, cinco pessoas, e os militares nos pararam. e eu havia gravado com totem: «dedos son dedos, días son días/ madres son madres, hijos son crías/los pensamientos son todos míos/ pero mi lengua ya no es tan mía» [«dedos são dedos, dias são dias/ mães são mães, filhos são crias/ os pensamentos são todos meus/ mas minha língua já não é tão minha»]. porque você não podia falar. mas eles não entendiam essa letra, eles pensavam que o rada era um negrinho que cantava «las manzanas». «ah, vocês estão com o negro rada! canta pra mim!», e nos deixaram passar. mas eu era de esquerda, estava contra eles. apesar de que eles mataram muita gente de esquerda, eu pensava que os comunistas eram inteligentes, por isso que [os militares] iam e queimavam os livros, os quadros e tudo da gente. eles não eram bobos, sabiam que havia gente capaz. e bom, assim foi sempre. foi duro chegar aos 80 anos. e agora todo mundo me quer, todo mundo me respeita. mas politicamente sempre estou do lado do povo. sempre. 

noize: e como você vê a ascensão da extrema direita no uruguai e aqui no brasil?

rada: bom, eu não gosto, mas não posso falar mais nada. porque, quando você fala fora do país, eu jamais falo «eles, os uruguaios». não, eu falo «nós, os uruguaios». eu sou culpado de tudo o que acontece no meu país, de mau e de bom. então, eu não gosto, mas tampouco saio apontando dedos, nada disso [«antes de apontar o dedo para alguém, lembre-se de que três dedos apontam para você»]. eu luto com a cultura.  

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ay, ay, ay, que se va la vida
mas la cultura se queda aquí

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rubén rada y león gieco
80 años
en vivo 

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ave rara! ave rada!

em 1996, com apenas um ano de américas, viajei para porto alegre para o cantamérica e entrevistei, entre outros, mercedes sosa, león gieco e rubén rada. com relação a este último, a única referência que eu tinha, na época, era a gravação de nei lisboa para «candombe para gardel». quanta ignorância! apesar de ter praticamente furado o vinil pensar en nada, de gieco, eu nunca tinha atentado para o fato de que, em «la cultura es la sonrisa», a percussão e a bateria eram obra e graça do negro rada. vai vendo... negro rada voando e a gente aqui: morrendo e aprendendo.

grill

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la cultura es la sonrisa con fuerzas milenarias
ella espera mal herida, prohibida o sepultada
a que venga el señor tiempo y le ilumine otra vez el alma

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león gieco : voz e violão
rubén rada: bateria e percussão
dino saluzzi: bandoneón
osqui amante: backing vocals

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#salacheguevara
#casadosaedos
#averada
#américas 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

milonga de andar longe

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adote um banqueirinho!

no ano de 2008, a bolsa de nova york foi a pique.

dias histéricos, dias históricos: os banqueiros, que são os mais perigosos assaltantes de bancos, haviam despojado suas empresas, embora jamais tenham sido filmados pelas câmaras de vigilância e nenhum alarme tenha disparado. e não houve maneira de evitar a derrocada geral. o mundo inteiro desmoronou, e até a lua teve medo de perder o emprego e se ver forçada a procurar outro céu.

os magos de wall street, especialistas em vender castelos no ar, roubaram milhões de casas e de empregos, mas um único banqueiro foi preso. e quando imploraram aos berros uma ajudinha pelo amor de deus, receberam, pelo mérito de seu labor, a maior recompensa jamais concedida na história humana. essa dinheirama teria bastado para alimentar todos os famintos do mundo, com sobremesa e tudo, daqui até a eternidade. ninguém pensou nisso.

eduardo galeano | os filhos dos dias (um calendário histórico sobre a humanidade), página 295


👇


[de: os dias de galeano]
canal encuentro 

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«muito faz o dinheiro, muito se há de amar;
do tolo faz discreto, homem de respeitar,
faz o coxo correr e ao mudo faz falar;
e o que não tem mãos bem o quer pegar.

também ao homem tolo e rude lavrador
dinheiros o convertem em fidalgo doutor;
quanto mais rico alguém é, maior é seu valor,
e quem não tem dinheiro não é de si senhor.

e se tens o dinheiro terás consolação,
prazeres e alegrias e do papa a concessão,
comprarás o paraíso, terás a salvação:
onde há muito dinheiro reina a «bendição».

em resumo o digo, para que entendas melhor:
o dinheiro é do mundo o grande motor,
faz do servo senhor e e servo do senhor
e tudo quanto existe se faz por seu amor.»

acipreste de hita
[de: o livro do bom amor,
também conhecido como livro de arcipreste ou livro dos cantares
primeira metade do século xiv]

•••••••••••••• paco ibáñez musicou este fragmento do livro do bom amor

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canta: paco ibánez
[con letra]

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«e tudo quanto existe se faz por seu amor.»
tudo não digo
tem duas coisa na vida
que não têm preço
uma, o amor
(o amor de verdade)
a outra é a solidariedade

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no final de 2008, depois de um ano em são luís, voltei para pelotas. quando cheguei, não tinha onde morar. com poucos dias na cidade, tive a sorte de cruzar com roger peres, um velho amigo da rádiocom. foi num domingo pela manhã. lembro como se fosse hoje.
  
 – bah, cara, quanto tempo... por onde tu anda? o que tu anda fazendo?
 – tô de volta... andei por são luís e tô atrás de uma casa pra morar.
 – tenho uma casa a meia quadra da avenida... o glenio tá morando nela, mas quer sair... preciso de alguém para ocupar o espaço.

(um pequeno grande parêntese:
na época, eu estava desempregado.
sempre tive ajuda da família, mas meu histórico recente não me ajudava muito.
todos achavam que minha volta era mais uma aventura, um devaneio...
e a casa — pra ser habitada por um casal cheio de planos e de sonhos — necessitava, digamos assim, de algumas pequenas reformas.
foi então que bati na porta do cfc senna e pedi mais uma chance.
a vida é engraçada: leva-se dez anos para construir uma imagem e menos de um para destruí-la.
meus últimos meses no cfc senna foram vergonhosos e deprimentes.
portanto, quando bati na porta, tinha tudo pra ouvir um não.
mas ouvi um sim.)

poucos meses depois.

– e aí, grill? o que tu anda fazendo?
– voltei a trabalhar no cfc.
– cara, esse ano o sindicato tá completando 80 anos...

foi assim que criamos — junto com a maria bonita comunicação — o documentário dos 80 anos do sindicato dos bancários de pelotas.

de tudo que já fiz, foi uma das coisas que mais me deu orgulho de realizar.

(o registro desse trabalho tá no link abaixo)

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roteiro, texto, trilha sonora e voz: enilton grill
imagens, entrevistas, concepção e direção: maria bonita comunicação
realização: ima / sindicato dos bancários

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segundo ouvi falar
o sindicato seguiu por outro caminho
não sei..
eu sigo no meu

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que longe está minha terra
e, no entanto, que perto
ou será que existe um território
onde os sangues se misturam

tanta distância e caminho
tão diferentes bandeiras
e a pobreza é a mesma
os mesmos homens esperam

eu quero romper meu mapa
formar o mapa de todos
mestiços, negros e brancos
traçá-lo ombro com ombro

os rios são como veias
de um corpo inteiro estendido
e é a cor da terra
o sangue dos caídos

não somos os estrangeiros
os estrangeiros são outros
são eles os mercadores
e os escravos nós outros 

eu quero romper a vida
como quisera mudá-la
ajude-me  companheiro
ajude-me não demore
que uma gota sendo pouco
com outra faz aguaceiro

👇

preguntas al azar (1) / milonga de andar lejos
daniel viglietti · mario benedetti
a dos voces

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«a bola que lancei quando brincava no parque ainda não tocou o chão.»

dylan thomas

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água de torneira

um dia, quando ainda era pequeno e brincava no chão de casa, a minha mãe se agachou na minha frente, colocou a sua mão em meu rosto e disse:

«meu filho, você vai passar por muitas coisas nessa vida, vai passar por momentos de tristeza e de desespero, mas vai sobreviver a todos eles, você vai ter momentos de muita alegria também e vai saber apreciá-los.

você vai carregar consigo algumas coisas que vai amar como poucas outras coisas, e, acredite, isso poderá ajudar algumas pessoas, até mesmo salvá-las de alguma forma.

mas sabe o que me preocupa?

meu receio é que não consiga salvar a si mesmo.

você vai viver no seu mundo, e, às vezes, ele vai pesar muito.»

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o diabo foi ao mar
escrever a história do mundo
mas não havia água
deus a tinha bebido

juan comodoro
buscando água, encontrou petróleo
mas morreu de sede

eu não sei quem vai mais longe
a montanha ou o caranguejo

pobrezinho meu patrão
pensa que o pobre sou eu

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[letra na descrição do vídeo]

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em março de 2020, passamos por circunstâncias complicadas no repecho, a seca castigou o rio grande do sul e a dificuldade para conseguir água foi imensa. o maior problema nem foi conseguir água potável, pois trazíamos do supermercado. o maior problema foi conseguir água para manter o aviário, um aviário com cerca de 100 galinhas, que recém tínhamos levantado. no início, eu subia o repecho e trazia água do poço. até que o poço secou. a solução, então, foi atravessar a estrada e trazer água do arroio. as galinhas começaram a morrer. a água era contaminada. quase perdemos tudo. ficamos com medo. mas agimos rápido e salvamos o aviário. diria o «filósofo»: «coragem não é ausência de medo; coragem é a capacidade de enfrentar o medo». 

em outras palavras: na beira do caminho sempre haverá cadeiras que nos convidem a parar. parar é fácil, difícil é continuar. 

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eu sou apenas um rapaz latino-americano
sem dinheiro no banco sem parentes importantes
e vindo do interior

mas trago de cabeça uma canção do rádio
em que um antigo compositor baiano me dizia
tudo é divino tudo é maravilhoso 

👇

[do álbum alucinação]
vídeo original

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em junho de 2026, com cinco cachorros. duas gatas e uma hérnia de disco, separado da vivi, voltei a morar na cidade. depois de procurar por parentes importantes, encontrei no amigo de longa data a solução para um problema que já há muito me acompanhava e que, em vez de diminuir, só aumentava. 

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quem tiver uma canção terá tempestade
quem tiver companhia, solidão
quem seguir o bom caminho terá cadeiras
perigosas que o convidam a parar
mas vale a canção a tempestade
e a companhia vale a solidão
vale sempre a agonia da pressa
mesmo que de cadeiras se encha a verdade

👇

[letra na descrição do vídeo]

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e as fotos e os cartazes?

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ainda em 2009, entrei em contato com daniel viglietti e realizamos, na bibliotheca pública pelotense, um tributo a mario benedetti. o lendário poeta uruguaio recém havia falecido. vivi trabalhava de secretária em um consultório médico, e eu andava pelas ruas de satolep, divulgando o evento. naquela época, já havia internet e redes sociais, mas eu, burro velho, ainda não havia me rendido aos seus encantos. a divulgação, portanto, foi feita através de jornais, rádio e pequenos panfletos distribuídos de mão em mão. panfletar, aliás, foi coisa que muito fiz na vida. o panfleto, pra quem não sabe, já foi uma das principais armas dos políticos. neste caso, porém, era para chamar atenção para um recital de música e poesia. nada melhor, então, que o pequeno papel contivesse um poema. e o poema foi escolhido a dedo. o trabalho de divulgação durou mais ou menos duas semanas. até que chegou o grande dia. depois de passar o dia divulgando o recital, fui buscar vivi no trabalho. o pôr do sol estava lindo aquele dia. quando cheguei, dei de cara com o patrão dela, dono da clínica e aproveitei para convidá-lo para o recital. eu já sabia que ele ia dizer não. mesmo assim, na tentativa de despertar nele algum interesse por poesia, recitei o poema que estava impresso no panfleto. com cara de quem não entendeu nada, ele olha pra mim e pergunta: -- de onde tu tira essas coisas, tchê?

o poema dizia

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e o céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos en la gente
e porque venceremos a derrota

grill

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cómo me cuesta afinar la guitarra,
organizar las seis cuerdas unidas
y de la lucha de sones contrarios
abrir camino cantando a la vida.

y tanto y tanto que hemos cantado,
y sin embargo poco, poco,
si se piensa el silencio que nos acecha.

bajo las cuerdas mi cuerpo desnudo,
vestido apenas de amor y preguntas.
no es el sonoro cantor de protestas,
es cuerpo en partes que nunca se juntan.

y tanto y tanto que hemos llorado,
y sin embargo poco, poco,
si se piensa en los muertos que nos dan vida.

contra el dolor, el olvido y el miedo
nuestra certeza porfiando en el alma;
quienes compartan la loca esperanza,
brújula o flecha de nuevo hacen falta.

y tanto y tanto que hemos luchado,
y sin embargo poco, poco,
si se miran los cuerpos que trae el río.

cuánto me cuesta esta nueva canción,
de la derrota crear primavera
en estas noches de ojos sin sueño,
en estos sueños de noches sin ojos
en que los buitres enormes abusan
de las parciales heridas del pueblo.

vamos haciendo la nueva canción,
de la derrota crear primavera.

y tanto y tanto que hemos perdido,
y sin embargo poco, poco,
y sin embargo mucho, mucho,
si se miran los ojos de un hombre digno.

vamos haciendo la nueva canción,
de la derrota crear primavera.
vamos haciendo la nueva canción,
crear primavera.

👇

daniel viglietti · mario benedetti
a dos voces
℗ 2000 ediciones tacuabe srl

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 25 de agosto de 2026


levantado do chão

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terras raras

[por cesar benjamim] 

há pouco tempo, lula e trump encontraram-se pessoalmente durante três horas, acompanhados apenas pelo intérprete. lula disse que trataram de tarifas.

era mentira.

agora, falaram por telefone durante uma hora e meia. lula voltou a dizer que trataram de tarifas.

é mentira.

dado o volume e a composição do comércio bilateral entre brasil e estados unidos, não há tanto a tratar desse assunto por dois presidentes. é algo menor. as equipes técnicas existem para isso.

outro assunto é decisivo: o destino das terras raras brasileiras.

os estados unidos dependem da china para obter esses minerais estratégicos, sem os quais não se fabricam equipamentos eletrônicos de uso civil e militar. o brasil detém as segundas reservas do mundo, praticamente inexploradas.

lula quer nos fazer crer que os dois presidentes se encontram e se falam e não tratam disso.

está nos chamando de trouxas, parece que com razão. no século xxi, as terras raras têm a mesma importância que o petróleo teve no século xx.

* * *

flávio bolsonaro oferece aos estados unidos uma vassalagem total e explícita. se puder, transformará o brasil na 52a estrela da bandeira americana.

lula oferece uma vassalagem ambígua. tudo em lula é ambíguo, pois sempre há um abismo entre o que diz e o que faz.

o império prefere a primeira opção, mas pode se ajustar perfeitamente à segunda.

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«diga ao seu patrão que estão aqui umas pessoas que vêm saber o que é que ele faz, já caíram as primeiras águas, é tempo de semear, e tendo a criada ido saber a resposta ficamos na porta, que a nós não nos mandam entrar e nisto volta a criada, e diz, o patrão manda dizer que não têm nada com isso, a terra é dele, e se voltarem aqui ele vai chamar a polícia»

josé saramago | levantado do chão, p. 234

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chame o ladrão
chame o ladrão

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[do álbum: sinal fechado]

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falando em brasil

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antonio – o senhor mandou me chamar, doutor rocha?

dr. rocha – mandei, antonio. infelizmente, devido à crise do mercado, muito a contragosto, terei de demiti-lo.

antonio – doutor rocha, eu estou no meio de um trabalho. será que não poderíamos conversar sobre isso na hora do almoço?

dr. rocha – é claro que podemos, mas infelizmente nada do que você disser poderá modificar a situação.

(na hora do almoço, antonio estava novamente na frente do dr. rocha.)

antonio – doutor rocha, como trabalho aqui há mais de oito anos, tenho mais de 50...

dr. rocha – você não é o único, antonio, a situação está ruim para todos.

antonio – o senhor não entendeu, doutor rocha. quis dizer que pelos anos de dedicação à firma, achava que tinha direito a lhe fazer algumas perguntas.

dr. rocha – pois faça-as.

antonio – o senhor gosta de coisas singelas como flores, pássaros, o orvalho nas plantas, riso de crianças pequenas? 

(antes que o patrão pudesse responder, antonio continuou) 

gosta de fazer amor com uma bela mulher, de cavalos correndo no prado, de ver o nascer do sol, de olhar para as estrelas?

dr. rocha – claro que gosto, antonio, só não estou entendendo...

antonio – só mais uma pergunta.

dr. rocha – está bem, mas seja breve, pois tenho uma reunião de diretoria e ainda preciso examinar alguns papéis.

antonio – o senhor acredita em deus, doutor rocha?

dr. rocha – claro que acredito.

antonio – pois está na frente dele.

dr. rocha – você enlouqueceu, antonio?

antonio – não enlouqueci, não. até duas horas atrás eu não era deus. era apenas antonio pinto, contador, casado, mulher e quatro filhos, um deles autista, com dívidas para pagar e muito medo de perder o emprego, pois dificilmente encontraria outro depois dos 50 anos. aí, quando saí do seu escritório, fui até em casa, peguei este revólver e me transformei em deus. 

(neste momento, antonio tirou do bolso um smith&wesson calibre 38 e apontou-o para a testa do dr. rocha)

o senhor é um dos homens mais ricos de são paulo, tem mulher, amantes, viaja várias vezes ao ano à europa, uma vida muito boa. já a minha é triste e monótona. lembra-se daquela história de estrelas, nascer do sol, flores e pássaros? 

(o dr. rocha, mudo de terror, olha para o revólver)

será que vale a pena perder a sua vida para me desempregar? pense bem, se eu morrer, não perco nada. se o senhor morrer, perde tudo. e quem vai decidir isso sou eu, pois virei deus. 

(o doutor rocha ajoelha-se diante de antonio)

dr. rocha – não faça uma loucura dessas, seu antonio. diga o que o senhor quer que terei o maior prazer em atendê-lo, o que quiser. por favor, tenha piedade. diga o que quer!

antonio – gostaria de deixar de ser deus e voltar a ser o seu escravo. que tal? posso?

fausto wolff

(publicado no livro “a milésima segunda noite”, 2005)

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como na peça de ionesco, tornamo-nos uma nação de rinocerontes exatamente porque não temos coragem de nos reconhecer como rinocerontes. no brasil encenam uma realidade para encobrir a verdade, e a verdade está na nossa bandeira. o verde representa os que vivem com menos de dez reais por mês; o amarelo, os que vivem com menos de cem; o azul, os que vivem com menos de mil. e os pontos brancos são os tiranos que, sendo tão poucos, nos esmagam com tanta facilidade. 

o país tem solução? tem e precisa ser drástica. se não quisermos que, pela dor da fome, o povo desça e o resto dance. 

(idem)

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para todos e para ninguém

não ignoro bolsonaro e o «nazifascismo» — muito pelo contrário. lembro apenas que, para fiéis seguidores de lula, o nazifascismo muda de rosto a cada quatro anos. em 2002, por exemplo, era josé serra. naquele ano, lula fez um movimento semelhante ao da escolha de alckmin como vice: convidou para ser seu companheiro de chapa o megaempresário mineiro josé alencar (pl), que chegou a ser vaiado pela militância petista. a escolha do vice não foi o único movimento rumo ao centro político — ficou famosa a «carta ao povo brasileiro». em 2006, o «nazifascismo» atendia pelo nome de neoliberalismo, e o bolsonaro da vez era geraldo alckmin. em 2010, serra; e em 2014, aécio. e do final desse filme, tenho certeza de que todos nos lembramos. 

grill 

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a certeza já me corrói
levo bronca do patrão
mas, sonhei e fiz a fé no avestruz
que vai me dar uma luz...

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[moleque gonzaguinha]

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falando em avestruz

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falam muito mal das avestruzes, injustamente. seus detratores, movidos por motivos inconfessáveis, declaram que aquelas aves são de estupidez sem paralelo. dizem que elas, ao se defrontar com um leão, enterram suas cabeças na areia. se assim elas se comportam, é porque devem ser adeptas de uma antiga filosofia que afirmava que «ser é perceber». raciocinam as avestruzes: se não percebo o perigo, o perigo não existe para mim. (traduzido popularmente: «aquilo que os olhos não veem o coração não sente».) continua o pensamento das avestruzes: «posso, assim, me comportar como se ele não existisse, desde que continue com a cabeça enterrada na areia». tudo estaria bem se o leão não fosse de verdade. e o resultado é que a avestruz acaba na barriga do leão... mas, como disse antes, eu não acredito que as avestruzes sejam assim tão estúpidas. estupidez igual somente encontrei em exemplares da espécie homo sapiens, a que pertencemos. acham que, não percebendo, a coisa não existe. o leão existe mesmo quando fechamos os olhos...

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 54

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falando em fechar os olhos

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quem não tem colírio
usa óculos escuros
a formiga só trabalha
porque não sabe cantar

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[com letra e ilustração]

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lançada em 1974, «como vovó já dizia» foi a primeira canção de raul a incomodar a censura --- teve dois versos considerados subversivos substituídos: «quem não tem papel dá recado pelo muro» e «quem não tem presente se conforma com o futuro», trocados por «quem não tem filé come pão com osso duro» e «quem não tem visão bate a cara contra o muro».

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falando em muro...

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paulo césar pinheiro, um dos maiores letristas da música popular brasileira — infelizmente, um ilustre desconhecido dos brasileiros em geral —, propôs a maurício tapajós que compusessem uma canção sem rodeios e metáforas. foi assim que nasceu «pesadelo». 

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quando o muro separa, uma ponte une
se a vingança encara, o remorso pune
você vem me agarra, alguém vem me solta
você vai na marra, ela um dia volta

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do álbum: «o importante é que nossa emoção sobreviva nº 2»
márcia, eduardo gudim e paulo césar pinheiro
gravado ao vivo no teatro ginástico - rio de janeiro, em fevereiro de 1976

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antes do fim

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é preciso que a justiça e a igualdade
sejam mais que palavras de ocasião
é preciso um novo tempo
em que não seja só promessa repartir a terra e o pão

link

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poema: martim césar 
música: pedro munhoz
do cd 1º festival nacional da reforma agrária

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enfim, há quem passe o dia na internet e faça dos blogs pessoais e das redes sociais trincheira contra tudo e contra todos, e por causa disso seja criticado, desvalorizado e menosprezado. não é o meu caso. eu, particularmente, não critico nada nem ninguém — muito pelo contrário: as armas são muitas e cada um escolhe e utiliza aquelas com as quais pensa obter melhores resultados. já participei de reuniões presenciais e de manifestações de rua; hoje em dia escrevo só para os raros, só para os loucos, e não vejo diferença nenhuma entre uma arma e outra... com qualquer delas me sinto desarmado e derrotado. 

trocando em miúdos: nosso discurso é velho e ultrapassado; nossa forma de atuar e de lutar não diz mais nada, nem a nós nem a ninguém. na minha opinião, é preciso passar o bastão — estamos desgastados e desacreditados. o problema é passá-lo para quem... não vejo nada nem ninguém. 

não nego
posso estar enganado
meu tempo passou
estou velho e superado
mas vou assim
até o fim
quanto mais velho
mais cego

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é a ceguêra de dexá
um dia de sê pião
num dançá mais amarrado 
pru pescoço cum cordão

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canta: dércio marques
[«pinhão» é uma variante dialetal e regional para a palavra «peão»]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

el tiempo, el implacable, el que pasó 

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o peso dos dias não é o mesmo peso
da pedra

a pedra, pelo menos,
tem a decência de ficar no chão

o dia não
o dia sobe nas costas
e ainda pergunta
por que eu ando empenada

tenho dívidas que não cabem em papel
cobranças sem cobrador
promessas que eu nunca fiz
e mesmo assim me seguem
que nem cachorro atrás de carteiro

tem uma conta antiga
morando no peito

não sei quem fez
não sei quando venceu
só sei que todo dia
acorda primeiro que eu

e eu pago

pago com insônia
pago com silêncio
pago com aquele pedaço de alegria
que eu estava guardando pra depois

afeto também pesa

quem ama, carrega

carrega o retrato de quem foi
o nome de quem ficou
a voz de quem não disse nada
o rosto de quem disse demais

carrega até o que queria esquecer
e por injustiça ou desatino
é justamente o que mais pesa

meu coração é um jumento teimoso

bota o mundo em cima
e ele vai

mais uma saudade
ele vai

mais uma dívida
mais uma decepção
mais uma esperança besta
e ele dá aquele passinho miúdo
na estrada quente

até que um dia para

fica ali
com a carga nas costas
o sol no lombo
a poeira subindo pelas canelas

a dívida vencida
a estrada comprida
e o mundo não tira nada de cima dele

ele para
levanta a cabeça
o céu não ajuda
mas está lá

ele olha pra cima
como se fosse reclamar

mas desiste

vai que deus
também está devendo.

simone bacelar

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juventud, divino tesoro
decía mi viejo
y uno pensaba que los años 
no iban a pasar

grill

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«ontem, passava pela galeria zaballeta e cruzei com um cara que não via há uns 33 anos. era um inimigo mortal que eu tinha no colégio. éramos iguais a cão e gato, bastava um encontro e a briga comia. claro, uma briga de merda, devíamos ter uns 9 ou 10 anos. acho que deve estar morando em outra cidade, mas o curioso de tudo, é que ele vinha com duas crianças pequenas e quando me enxergou fez uma cara de surpresa e espanto. demorei para conhecê-lo, mas por incrível que pareça, demos uma balançada de cabeça meio tímida e cada um seguiu seu caminho, talvez para nunca mais acontecer algum encontro ou conversa. conto isso, pois o tempo acaba dando entendimento para tudo. não sei o que ele passou nesse tempo, ele também não sabe o que passei, mas ambos talvez saibamos que a vida é dura, corrida, com perdas e ganhos. sabemos que o tempo é implacável, pessoas que amamos nascem, pessoas que amamos vão, e o mundo segue correndo não dando a mínima pra ti.»

luciano oxley

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juventud, divino tesoro,
¡ya te vas para no volver!
cuando quiero llorar, no lloro...
y a veces lloro sin querer.

en vano busqué a la princesa
que estaba triste de esperar.
la vida es dura. amarga y pesa.
¡ya no hay princesa que cantar!

a pesar del tiempo terco,
mi sed de amor no tiene fin;
cabello gris, así me acerco
a los rosales del jardín...

link

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canta: paco ibáñez

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médicos

dia desses, ao ler um texto meu, um amigo que não vejo (pessoalmente) há uns 43 anos, deu um telefonema para um amigo seu, o amigo deu um telefonema para não sei quem, não sei quem orientou um caminho, meu amigo falou comigo de novo, pediu que eu falasse com o amigo dele, eu falei, o amigo dele me indicou o caminho certo, esperei na fila como todo mundo espera, marquei uma hora, e agora vou resolver um problema que me incomoda e muito desde que voltei para a cidade. detalhe: a vida, tanto para o meu amigo quanto para o amigo dele, é pra lá de corrida. ambos são médicos e pessoas muito bem-sucedidas na profissão que exercem. nenhum deles é da minha família — que, por sinal, está cheia de médicos.

grill

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en este breve ciclo en que pasamos
cada paso se da porque se siente.
al hacer un recuento ya nos vamos
y la vida pasó sin darnos cuenta.

cada paso anterior deja una huella
que lejos de borrarse se incorpora
a tu saco tan lleno de recuerdos
que cuando menos se imagina afloran.

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canta: mercedes sosa

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foto: mercedes sosa e eu
autor: antonio soler
cantamérica
porto alegre
1996

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#américas