terça-feira, 4 de agosto de 2026

 

o arado, a palavra e a propriedade privada

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«aperto firme a minha mão
e afundo o arado na terra.
há anos que vivo nela,
como não estar esgotado?»

victor jara

.

«a propriedade é um roubo.»

pierre-joseph proudhon

.

«voam borboletas, cantam grilos,
a pele me fica negra
e o sol brilha, brilha, brilha.
o suor me abre sulcos,
eu abro sulcos na terra
sem parar.»

victor jara

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caros amigos, 
estava lendo uma crônica do luis fernando verissimo
que me fez lembrar de um amigo
um amigo de infância
um amigo que há quase 50 anos não encontrava
nos perdemos por el mundo
nos volvemos a encontrar
(lá pelas bandas do facebook)
refizemos a amizade
mas nossa amizade
amizade facebookiana
felizmente
ou infelizmente
foi uma amizade passageira
sim
durou muito pouco
acontece que o cara é bolssonaro doente
o que pra mim não teria maiores problemas
verdade
acreditem ou não
não me incomoda que as pessoas pensem diferente de mim
o que me incomoda
e muito
é as pessoas se incomodarem por eu pensar diferente delas
que foi o caso desse hoje ex-amigo
mas passa
tudo passa
já passou
ademais
a questão não é essa
a questão é que eu o considero uma pessoa inteligentíssima
e é isso que me intriga
pois
mesmo sabendo que há pessoas inteligentíssimas na direita
penso exatamente como luis fernando verissimo
«não entendo como uma pessoa que enxerga o país à sua volta pode não ser de esquerda»
e é aí que entra a relação da crônica com a lembrança do meu ex-amigo
sim
pelo que sei
e não sei muito
mas um dia quis saber
e perguntei
não para o ex-amigo
mas para a amiga
mais que amiga
irmã
irmã de alma da mãe do meu ex-amigo
e ela me contou que
durante os primeiros governos do pt
as terras dele e da família dele foram consideradas improdutivas
sendo assim desapropriadas para reforma agrária
e ainda que eles tenham recebido um significativo valor em troca
as feridas ficaram abertas
penso eu
então
que daí o antipetismo
não só do meu ex-amigo
mas da família dele como um todo
mas vamos à crônica

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falando sério

ele disse:
— ora, reforma agrária...
ela disse:
— vai dizer que você é contra?
ele tentou cair fora:
— o assunto é muito complexo.
ela insistiu:
— espera um pouquinho.
— dá um beijo, vai.
— espera, isto é importante. eu quero saber.
— o quê?
— a reforma agrária. você é contra?
— por quê? você é a favor?
— mas só sou.
— você quer que o velho divida as terras dele?
— teu pai é latifundiário?
— tremendo lati.
— eu não sabia!
— tem muita coisa a meu respeito que você ainda não sabe, boneca. vem cá que eu te mostro...
— espera. falando sério.
— dá uma beijoca.
— falando sério, pomba.
— está bem. o que você quer saber?
— seu pai. quantos hectares ele tem? ou acres? é acres ou hectares?
— e eu sei? nunca fui lá.
— quantos?
— um monte.
— mais ou menos?
— olha, eles pegam o jipe da fazenda e, num dia, não conseguem chegar ao fim das nossas terras.
— meu deus do céu!
— é que o jipe quebra sempre. dá um beijo, poxa.
— para.
— vem cá, mulher!
— não vou. olha, nunca pensei, viu?
— o quê? que meu velho fosse fazendeiro? como é que você pensa que eu tô pagando a faculdade? e o carro? e o apartamento? e as nossas alianças de noivado?
— ele tem terra improdutiva?
— tem. exatamente a parte que ele está guardando pra me dar quando eu casar. a nossa terra, amor.
— mas e o seu discurso?
— bom...
— até eu achava radical. e olha que eu sou meio pt.
— não vamos brigar por causa disto.
— tudo o que você vive dizendo... justiça social...
— confere.
— a insensibilidade dos ricos no brasil...
— mantenho.
— os escândalos dos sem-terra num país deste tamanho...
— sustento.
— vem cá. outra noite, aqui mesmo, neste bar, você disse que toda a propriedade é um roubo. eu achei bacanérrimo.
— foi uma frase que me ocorreu na hora. mas escuta...
— e agora vem dizer que é contra a reforma agrária?
— eu não sou contra a reforma agrária. teoricamente, sou a favor.
— e então?
— você não entende? agora não é teoria. agora são as terras do velho!

verissimo

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– seu pai falava muito de você.
– é?
– dizia que você não tinha ambição.
– tinha razão.
– é mesmo?
– minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
– você é estranho.

bukowski

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la marea – quando leio algo seu, digo a mim mesmo: «lemaitre tem um problema com a autoridade». você ridiculariza os homens de poder o tempo todo. você era rebelde quando criança ou era um aluno dócil?

pierre lemaitre – eu era um aluno muito ruim. não porque tive uma infância miserável ou porque fui rebelde. na verdade, o que estava acontecendo comigo é que fui esmagado pelas imposições da sociedade. há jovens que falham muito cedo devido à incapacidade de corresponder às expectativas dos pais. acho que não me afasto muito desse padrão.

marzo - abril/2023

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ao vento

para que perder tempo com bobagens como fama, sucesso e sorte se tudo que se precisa para viver está dentro de nós? basta descobrir o amor à vida e cultivá-lo. como? não sei. não tem fórmula. os que encontram, encontram à sua maneira. foi o meu caso. larguei tudo sem pensar em nada... e é por aí que os meus pés caminham e a minha cabeça voa.

porque não sou dono de nada
tenho tudo
não me sinto estrangeiro
(em nenhum lugar)
a terra é minha casa
o universo é meu lar
vivo em guerra e paz
em guerra com o mundo
em paz comigo mesmo
nada é meu
tudo é nosso
e o arado?
o arado não é(ra) nosso
é(ra) de um amigo
e a propriedade?
não é minha
nada é meu
«yo no vendo, yo no compro»
hoje é de quem a comprou
ontem era de quem a vendeu

grill

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«se puderes olhar, vê; se puderes ver, repara»

saramago

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«é a ceguera de dexá
um dia de ser pião
de nun comprá nem vendê
robá isso tomém não
de num sê mais impregado
i tomém num sê patrão»

elomar

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«eu não vendo, eu não compro
eu não mudo, eu não impeço
eu não empresto, eu não escondo
e por isso sou feliz»

facundo cabral

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«a vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. a vida serve para você se criar e criar coisas».

bob dylan

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traduzir-se

explicando o processo criativo. mas antes abro um parêntese: alguns hão de dizer que não há processo criativo algum aqui, pois os versos acima não são meus, isto é, parto do que outros dizem para dizer o que quero dizer. e é isso mesmo: é assim que faço, sempre fiz e sempre vou fazer — seja para concordar, seja para discordar —, até porque, se bem me lembro, quando nasci, não sabia caminhar, não sabia ler, não sabia escrever, não sabia falar. só sabia sorrir e chorar.

sobre o processo criativo? acabei de explicar. mas vou explicar de novo: comecei pensando em fazer uma coisa e acabei fazendo outra.

moral da história:

«não sou eu quem me navega / quem me navega é o mar»

«caminante, no hay camino / se hace camino al andar»

«tudo flui, nada permanece»

«a rota para cima e para baixo é uma e a mesma»

já não sou o mesmo / mas sou igual.

aqui abro outro parêntese. não sei se ponho aspas na última citação ou não. por quê? porque de tanto dizê-la, não sei mais de quem ela é. aliás, penso que se as palavras pudessem dizer de quem elas são, elas diriam que as palavras são de quem as diz.

grill

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se perdi a vida, o tempo
tudo joguei como um anel na água
se perdi a voz na profusão do mato
resta-me a palavra

se sofri a sede, a fome,
tudo o que era meu e acabou sendo nada.
se cruzei as sombras em silêncio,
resta-me a palavra.

se abri os olhos para ver o rosto
puro e terrível de minha pátria.
se abri os lábios até rasgá-los,
resta-me a palavra.

me queda la palabra | blas de otero / aguaviva 1971

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antes do fim

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«não me esperem para a colheita, estarei sempre a semear»

guevara

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«morrer semente é continuar lutando
mesmo sabendo que serão as próximas gerações
que participarão da colheita»

autor desconhecido

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afirmo bien la esperanza
cuando pienso en la otra estrella;
nunca es tarde me dice ella
la paloma volará.

vuelan mariposas, cantan grillos,
la piel se me pone negra
y el sol brilla, brilla, brilla.
y en la tarde cuando vuelvo
en el cielo apareciendo
una estrella.

nunca es tarde, me dice ella,
la paloma volará, volará, volará,
como el yugo de apretado
tengo el puño esperanzado
porque todo
cambiará.

el arado | victor jara 1965

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#reformaagráriajá
#américas

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 

pra não dizer que não falei de luiz inácio

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«eu olho pra ver o pessoal que está me governando e ditando minhas regras -- eles não têm nenhum cabelo na cabeça.»

bob zimmerman

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«lula sempre foi um grande conciliador. mas um conciliador perde o seu maior poder quando não há conflitos. e uma das raízes da nossa pasmaceira, desta letargia, é justamente a ausência de conflitos, de contrapontos. não tem nada para conciliar. mais do que conflitiva, a sociedade está anestesiada, quase em coma induzido. o que faz um pacificador quando não há o que pacificar?»

maria da conceição tavares 

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«há quem diga que essa história de desobediência civil e revolução não tá com nada. isto é, já era. "não tá com nada", pode ser que sim; "já era", penso que não. por quê? porque aqui no brasil, salvo uma ou outra exceção — vide a balaiada no maranhão —, isso jamais aconteceu. portanto, não se pode dizer "já era" para uma coisa que nunca foi.»

autor desconhecido

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«estou no brasil desde 1954 e jamais vi tamanho estado de letargia. na ditadura, havia protesto. hoje, mal se ouve um sussurro.»

maria da conceição tavares

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a pessoa é para o que nasce
[vai, carlos, ser gauche na vida]

por enilton grill

sou um injusto com lula, gostaria que ele fosse mais corajoso, mais insolente, que tivesse deixado os banqueiros à míngua, que tivesse encarado os empresários de frente, que tivesse dito não à rede globo de televisão, que tivesse feito a reforma agrária, que tivesse implantado o método paulo freire em todas as escolas públicas do país, que, ao invés do bolsa-família, tivesse instituído o fome zero, projeto idealizado por betinho, irmão do henfil, que tivesse ouvido mais as bases e menos os puxa-sacos, enfim, que lula fosse o que eu, na adolescência, pensei que ele era, um radical. mas lula não é, nem nunca foi, um radical. lula é um conciliador. e isso não é pecado, pecado é não ser feliz. e feliz acho que lula é. razões pra isso, pelo menos, não faltam. o povo brasileiro que o diga.

guardadas todas as proporções, é o mesmo meu caso. soy feliz, soy un hombre feliz. com uma pequena grande diferença: lula é feliz sendo conciliador e eu sou feliz sendo radical.

antes, porém, que alguém diga, que é fácil ser radical atrás de um computador e escrevendo no facebook, digo que fácil não é. mas alguns são, outros não. eu sou. se você não é, não posso fazer nada. fazer o quê? ninguém tem culpa de ser o que é. aliás, pelo contrário, torna-te quem que tu és, diria um poeta e filósofo alemão.

e foi o que luiz inácio e eu fizemos: tornamo-nos quem somos. enquanto lula lutou contra todas e as maiores dificuldades, para tornar-se o que é, eu abandonei todas as facilidades, para tornar-me o que sou, enquanto lula tornou-se um gigante, eu tornei-me um zé-ninguém.

aliás, lula é mesmo um gigante, já foi presidente por três vezes e elegeu dilma rousseff outras duas.

em 2018, impedido de se candidatar, lula pegou fernando haddad pela mão, e saiu em caravana pelo brasil. resultado: fernando haddad, um homem digno e honrado, mas totalmente desconhecido para a grande maioria dos brasileiros, fez mais de 47 milhões de votos e, com dez milhões de votos a mais, teria sido eleito presidente do brasil.

enfim, eu acredito na rapazida. se eu fosse lula, em 2026 daria carona para renato freitas. mas não sou. lula é lula. eu sou um zé ninguém.

e é assim que as coisas são: a pessoa é para o que nasce.
eu, pra desafinar o coro dos contentes, e lula pra ser presidente.

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quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes

let's play that | jards macalé/torquato neto, 1983

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antes de seguir falando de luiz inácio
permitam-me que eu relembre uma autocrítica

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facebook, 2019

tem quem defenda o diálogo olho no olho para dissuadir antipetistas bolsonaristas de seu aparente estado de catatonia. eu também. por isso fui a campo — o que, aliás, já havia feito antes.

depois de 100 dias de (des)governo bolsonaro, será que algum antipetista bolsonarista mudou de ideia ou de opinião? quer dizer: será que os 100 dias de um idiota no poder foram suficientes para que chegassem à conclusão de que, se era ruim com o pt, ficou pior sem ele? não sei, mas acho que não.

aqui onde moro --- ponte cordeiro de farias, 5º distrito de pelotas --- o que mais tem é antipetista bolsonarista. eles até concordam que o brasil vai de mal a pior. mas quando pergunto o porquê, todos, sem exceção, dizem que a culpa é do pt.

então eu insisto. procuro mostrar como as coisas eram e como estão, mas não adianta: não há o que eu diga que os faça mudar de opinião.

chego à conclusão, então, de que a culpa é minha — tenho muita vontade, mas me falta poder de persuasão.

(republicação de 2019)

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a verdade é pra ser dita
já dizia a minha vó

«há muita dor, mas existe a raiva. e a raiva é energia para lutar.»

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«nós não somos da elite dominante, meus filhos. sei que alguns de vocês até tem a pretensão de ser. eu não tenho, então não ofereço chá e simpatia. isto é um curso rebelde.

nós perdemos! nós somos os derrotados. e se vocês não fossem derrotados não estariam nem nesta universidade, mas na usp, na puc ou em outra qualquer...

estamos lutando por hegemonia? imagine! estamos lutando para não enlouquecer. para não falar besteira demais, para não contribuir com uma gota de fel para o veneno alheio. tomemos nossa cicuta com tranquilidade.»

«estamos lutando para não enlouquecer...»

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me declaro culpado

em homenagem a maria da conceição tavares, de quem sou e sempre fui profundo admirador, aproveito o final de sua fala — ali onde ela diz «para não falar besteira demais, para não contribuir com uma gota de fel para o veneno alheio, tomemos nossa cicuta com tranquilidade» — para esclarecer algumas coisas a meu respeito.

para que não fiquem dúvidas, o farei no bom e velho português.

os motivos que me afastaram do pt não são os mesmos que fazem alguns odiarem o pt. os meus estão mais à esquerda; os deles, mais à direita. antipetistas sentem raiva, ódio, rancor, eu sinto tristeza, desapontamento, dissabor. há um abismo entre nós. só não vê quem não sabe, não pode ou não quer.

não nutro ódio por nada nem por ninguém. tampouco participo dessa seita chamada antipetismo, que move a direita raivosa. minhas posições são claras — e me orgulho delas. sou e sempre serei um homem de esquerda.

sonhador? com certeza. recuso-me a aceitar que a condição humana esteja condenada ao egoísmo, ao consumismo e ao individualismo, sinônimos do capitalismo. ou à arrogância e à prepotência, sinônimos do imperialismo. continuo acreditando — e cada vez mais — no socialismo como sinônimo de solidariedade e liberdade.

se não há nem nunca houve liberdade nos países que se diziam ou se dizem socialistas, problema deles, não do socialismo. o socialismo em que acredito simplesmente ainda não aconteceu. talvez seja uma utopia. se for, que seja. «se as coisas são inatingíveis... ora! não é motivo para não querê-las... que tristes os caminhos, não fora a presença longínqua das estrelas.»

eu não sou petista
eu não sou socialista
eu não sou comunista.
eu sou antes de tudo anticapitalista
e mais que nada contra a propriedade privada
eu sou anarquista

noutras palavras: 

eu sou de esquerda e a esquerda não tem nada a ver com o governo lula e me arrisco a dizer com governo algum em lugar algum até porque a esquerda não tem nada a ver com governo porque governo tem a ver com poder e poder com hierarquia e hierarquia com submissão

e assim andamos... uns a caminho do sol; outros com uma estrela no coração; outros com a foice e o martelo na mão. cada um ao seu jeito. eu, com a bandeira preta no ar e a letra A no peito.

eis a minha confissão. com ela morro abraçado e dela me declaro culpado.

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y que la pena por mí no tenga pena
por cada explicación que me castiguen
porque el pueblo en mi patria fue inocencia
algún exilio y otras consecuencias

me declaro culpable | piero (1984)

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os tempos mudaram e eu não vi 

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«"quando ele abrirá os olhos?"
"quem é ele? você não sabe? ele é um louco,
nunca abre os olhos."
"mas com certeza vai sentir falta do mundo lá fora."
"não! ele vive no próprio mundo."
"nossa, então ele deve ser mesmo um louco."
"é, ele é um louco."

e assim, em ruas cintilantes
e estradas rurais,
ouço sinos de trenó
tilintarem,
garotas virgens cantarem e rirem
ao longe, no campo, com vozes trêmulas que se apagam suavemente.eu paro, sorrio e descanso um pouco, observando as velas do pôr do sol se apagarem despercebidas , pois meus olhos estão fechados.»

dos 11 epitáfios esboçados por bob dylan

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well, estive em londres e na alegre paris
segui o rio até chegar ao mar
fui ao fim de um mundo cheio de mentiras
não procuro nada nos olhos de ninguém
às vezes meu fardo é maior do que posso suportar
não escureceu ainda, mas não vai demorar

https://www.youtube.com/watch?v=fwnS693y1HE&list=RDfwnS693y1HE&start_radio=1
not dark yet | bob dylan (1997)
vídeo oficial
(legendado em português)

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das dores do mundo

a mais eficaz consolação em toda a desgraça, em todo o sofrimento, é voltar os olhos para aqueles que são ainda mais desgraçados do que nós: este remédio encontra-se ao alcance de todos. mas que resulta daí para o conjunto? semelhantes aos carneiros que saltam no prado, não sabemos, nos nossos dias felizes, que desastre o destino nos prepara precisamente a essa hora, – doença, perseguição, ruína, mutilação, cegueira, loucura, etc. tudo o que procuramos colher resiste-nos; tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer. na vida dos povos, a história só nos aponta guerras e sedições: os anos de paz não passam de curtos intervalos de entreatos, uma vez por acaso. e da mesma maneira a vida do homem é um combate perpétuo, não só contra males abstratos, a miséria ou o aborrecimento, mas também contra os outros homens. em toda a parte se encontra um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as armas na mão.

arthur schopenhauer

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mãe, ponha minhas armas no chão
não vou mais dispará-las
aquela enorme nuvem negra está descendo
acho que estou batendo na porta do céu

https://www.youtube.com/watch?v=YrYBuhB2FkM&list=RDYrYBuhB2FkM&start_radio=1
knockin' on heaven's door | bob dylan (1973)
[vietnam's war videoclip/short film for the amazing cover conner]
gracias a airsoft bizkaia y al ayuntamiento de belorado (burgos) por hacer el videoclip posible. gracias también a luis jorge del barco, juan pedro ramos (padre e hijo) y a jose antonio tudanca.
una producción de eleria films

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#américas 

domingo, 2 de agosto de 2026

 

pensei, pensei, pensei

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em 2007, quando cheguei a são luís, recém-saído de mais uma recaída, minha mãe e meu pai moravam num apartamento pequeno, no condomínio barra-mar. por isso, pedi para ficar na casa da minha irmã e do meu cunhado, o josé lino. lembro como se fosse hoje: apesar do tratamento carinhoso, afetuoso e generoso com que fui recebido, custei a me restabelecer e a querer sair e ver gente. mas tudo muda. depois da noite escura vem um dia claro — e um belo dia eu acordei com uma vontade danada de me reencontrar comigo mesmo. lembrei então de uma poeta — uma poeta de verdade — que a ilha do amor havia me apresentado — há dez mil anos atrás. não me lembro como achei seu contato. não me lembro se havia celular na época; se havia, minha irmã certo que tinha e claro que resolveria — como sempre resolve — mais essa parada para mim.

— oi...
— e aí, tchê...

combinamos o (re)encontro para o final da tarde, início da noite. havia anos que não nos víamos. mas quando nossos olhos se cruzaram, o tempo sumiu e a distância desapareceu. olhos nos olhos, mãos nas mãos, corações a mil. bocas próximas uma da outra...

coisas da vida, quis o destino que o nosso reencontro fosse na véspera da minha volta para o rio grande do sul. passagem de volta marcada para a noite do dia seguinte, deu tempo de nos vermos mais uma vez. foi uma despedida tocante e emocionante. na hora do beijo, recebi um livro — nietzsche, além do bem e do mal. estou com ele agora aqui diante dos meus olhos e nas minhas mãos. estava arrumando minha estante, procurando algo que falasse de mim, quando dei de cara com o filósofo e poeta alemão. mas não é ele que fala de mim, e sim a dedicatória escrita pela poeta para mim.

antes da dedicatória, deixemos que o nosso poeta fale do beijo.

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o beijo que eu não dei

o beijo | nelson coelho de castro (1981)

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«enilton,

como eu tinha que passar a noite no hospital com minha filha, resolvi ir à banca de revistas procurar algo pra ler e (re)encontrar nietzsche — brasil, esse país gigantesco, de contradições não menores com seus milhões de analfabetos, porém único onde se compra filosofia no mesmo lugar em que se compra cigarros.

tentei reler «além do bem...» mas meu pensamento se desviava sempre para ti. acho que era porque eu queria te ligar ontem à noite. acho que era porque o texto lembra do que nós fomos. acho que era porque parece contigo. acho...

a verdade é que desde nosso reencontro tenho pensado mais em ti do que seria aconselhável pra nós dois. posso te falar da alegria de pela primeira vez em sei lá quantos anos de amizade conversar contigo e ouvir de ti frases e pensamentos completos, articulados. acho que eu nunca tinha te visto sem álcool e sem ressaca. foi bom. continua assim!

posso te falar também do meu orgulho em constatar tua fidelidade aos teus princípios, teu amor-próprio, tua altivez, tua sinceridade, tua abertura. me fez muito bem te ouvir.

fiquei tão feliz em reencontrar imagens e texturas — tua voz, teu cabelo, teus olhos, tua boca e seu movimento, tua barba de cobre. teus pés na areia, mesmos calçados, mesmos chinelos de dedo. tuas mãos nervosas, úmidas, tensas, as mais lindas interjeições pra tuas sentenças!

na verdade, quando fui te buscar aquela noite, foi preciso só um relance lá da esquina na penumbra pra eu te reconhecer. tua voz tá mais madura e a vida mapeou lindamente teu rosto. é tudo!

espero que tu gostes do livro que fala da busca de verdades, escrito pelo filósofo que elegi há tempos como o poeta de minha alma.

o que nos une — a mim e a ti — foi ele quem expressou melhor:

«somente os que trazem o caos dentro de si podem gerar estrelas dançantes».

são luís, 24.07.07 — POETA»

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zeca baleiro fala sobre o tchê
0:00 até 01:00


a lua que manda sua cara
que plena cara boa
outro mar, outro verão
e uma luz de lua
e o azul, do azul, da barra
que nem é mais da barra
nem do céu, nem do avião

ali, além, após aurora
mais que plena hora
será você, recordação
ajude-me a dizer que não
lá vem você, cabeça, perna
que perna muita perna
tudo bronze, seu deus é bom

ah, meu amor, agora nada resta
meu amor, cantar essa canção que manhã
ah, meu amor, trena toda pressa
meu amor, guarda meu coração e vem
não quero mais ninguém
intacta cena quem
que já pleno sol
que chama outro sol

zeca baleiro - o amor no caos - música de nelson coelho de castro

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repecho, 2025

acordei. levantei. fiz xixi, escovei os dentes, tomei um café preto, fiz o mate e, quando o sol nasceu, eu já tava no aviário. limpei o chão, pus palha nos ninhos e voltei pra casa. vivi acordou. tomamos café, botamos a louça na pia. vivi ficou se arrumando para o trabalho e eu voltei pra rua, pro aviário. 10 e meia nos despedimos. vivi foi pra cidade.

meio-dia

aqueço a comida. almoço. tomo um café preto. preparo o mate. me sento na frente do computador. abro o face e qual não é a minha surpresa... havia uma mensagem... a mensagem não dizia nada além disso:

e aí, tchê...

pensei, pensei, pensei
e achei melhor não responder.

vivi voltou. jantamos. deitamos e eu custei a dormir
na verdade, dormi muito pouco
quando acordei, ainda estava no mesmo dia
vi a passagem de um dia para o outro na frente do computador
pensando, pensando, pensando
pensando se respondia
ou não

pensei, pensei, pensei
e achei melhor não

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vivi e eu nos conhecemos no cfc. namoramos pela internet. noivamos. sim, noivamos. cerimônia íntima. reservada apenas para nós dois. estávamos em estado de graça. casamos em 24 de outubro de 2009. há quem diga que foi o casamento mais bonito que viu. sou suspeito pra falar... mas também acho. sempre achei e pra sempre vou achar. a verdade é que juramos fidelidade. e cumprimos. sim, eu sei, posso falar apenas por mim. mas não tenho dúvidas em relação a vivi. tem coisas que a gente não precisa saber pra saber que sabe.

«se eu não sei que não sei
penso que sei.
se eu não sei que sei
penso que não sei.»

r. d. laing

portanto, não me arrependo. fiz o que queria fazer. se quisesse fazer diferente tinha feito. não respondi porque não quis. amor é tudo o que move. não sou movido pela razão. sou todo coração.

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oh, meu amor, pela primeira vez na minha vida
minha mente está completamente aberta
oh, minha amada, pela primeira vez na minha vida
minha mente pode sentir

oh my love | john lennon / yoko ono (1971)
[letra em português]

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pelotas, 2026

vivi e eu nos separamos. tudo numa boa. sem estresse. somos ótimos amigos. ela foi viver a vida dela e eu tô vivendo a minha. acordo, levanto, faço xixi, escovo os dentes, tomo um café preto, preparo um mate, ligo o computador e escrevo, escrevo e escrevo. só paro de escrever quando acho um livro para ler.

dias atrás, tava querendo me lembrar de algo referente a nietzsche e comecei a folhear os livros que possuo do filósofo alemão. não são muitos, pelo contrário. foi fácil, portanto, chegar a este que está em minhas mãos, em cujo prefácio diz:

«admitindo-se que a verdade seja feminina --- não haveria alguma verossimilhança ao afirmar que todos os filósofos, enquanto forem dogmáticos, não sabem como lidar com mulheres? que a trágica seriedade, a indiscreção inoportuna com que até agora estavam acostumados a conquistar a verdade não eram meios pouco adequados para cativar o coração de uma mulher? o que é certo é que essa não se deixou cativar --- e todos os dogmáticos têm hoje um semblante desencorajado. se é que têm um semblante qualquer?» 

bem, essa história está se alongando e a ideia não é falar do livro, mas da dedicatória que uma POETA escreveu para mim.

eu até ia falar o nome dela
mas pensei
pensei
pensei
e achei melhor não

explico
quando pensei em escrever 
disse pra mim mesmo
só vou revelar o nome se ela disser que sim
enviei uma mensagem por instagram
e até agora nada 
nada, nada
nada, absolutamente nada 

no pasa nada 
eu só queria contar a história 
e saber dela
que anda pelo mundo
frança bahia e oropas

(eu sou só um cara solitário
esperando..)

se ela preferia 
que eu revelasse seu nome 
ou que eu a chamasse
de POETA

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a esperança é a última que morre
continuo esperando 
esperar (do latim sperare)
(ter esperança em;)

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hay medio mundo esperando
con una flor en la mano
y la otra mitad del mundo
por esa flor esperando

con una flor en la mano | facundo cabral (1972)

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carpediem
chove em satolep
bom domingo

sábado, 1 de agosto de 2026


beleza e estranheza

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«a vida é arte do encontro,
embora haja tanto desencontro pela vida.»

vinicius de moraes

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no final de 1996
por ocasião do ramilonga
com o américas a pleno
tendo entrevistado
entre outros
antonio tarragó ros
mercedes sosa
e león gieco
vitor ramil foi recebido por mim
no apê do aldeia
para uma charla
que tinha como mote
a milonga
de onde ela vinha
pra onde ela vai
seus principais intérpretes e compositores
enfim
isso foi num sábado pela manhã
vitor toca a campainha
eu atendo
cuia de chimarrão na mão
mate vai, mate vem
— enilton, tô preparando um disco só de milongas
queria ver contigo alguma coisa nessa área
na área da milonga
— cara, podemos começar por larralde...
— elizalde?! tu tem felipe elizalde?!
da milonga passamos pra mpb
— vitor, tua proximidade com caetano...
— minhas fontes de elaboração são egberto gismonti e chico buarque, que foi quem me mostrou que a letra poderia ser lapidada. caetano é mais lírico e caótico, há letras dele que nunca consegui entender
e por aí transcorreu nosso primeiro encontro
mas não vão me entender mal
vitor e eu nos entendemos perfeitamente bem
algum tempo depois
não sei precisar quanto
toca o telefone
— enilton, o ramilonga tá na mão... gostaria de te entregar em mãos...
— bah, que baita notícia, que honra... quando posso passar aí pra pegar?
— quando tu quiseres, mas hoje estou o dia todo em casa...
bato a campainha
vitor me recebe com a cuia de chimarrão na mão
mate vai, mate vem...
— já vivi em porto alegre e no rio, ficar em pelotas foi uma opção minha. mas meu interesse maior é compor e escrever, nunca fui chamado a essa profissão pela fama. não sou uma pessoa de relações, e embora ache isso importante, não é prioridade para mim. moro numa casa de cem anos, vou de carro a buenos aires, é em coisas assim que encontro inspiração para compor e escrever
e por aí ficamos
a charla não se estendeu muito
já era hora do almoço
quando chego em casa
boto o cd pra escutar
folheio o encarte e
na última folha
nos agradecimentos
ao lado de felipe elizalde
leio o meu nome
com lágrima nos olhos
escuto pela primeira vez o ramilonga
mais tarde
toco o telefone pro vitor
pra agradecer o agradecimento
e falo da sensação que o disco me causou
beleza e estranheza
do outro lado da linha
— a estranheza é o caetano, enilton
não entendi nada...
mas fiquei na minha
anos mais tarde
numa coluna da folha de são paulo
escrita por pedro alexandre sanches
veio a explicação
«no "ramilonga", fiz de propósito esse viés do caetano, que na verdade é o da bossa nova. o canto regional do sul, grosseiro e gritado, de gaúcho macho, me incomodava muito. por que não posso cantar de forma leve, delicada? forcei a barra de cantar "joãogilbertamente", e mantenho isso em "tambong"»

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você pode ser rei no país do futebol
pode ser viciado em bingo e nunca ver a luz do sol
você pode ser um mago e vender livros de montão
pode ser uma socialite, enriquecer vendendo pão

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém

pode ser incendiário e fazer um índio arder
você pode ser o índio vendo a chama acender
pode ser um bom ladrão, pode ser um mau juiz
pode ter um passado limpo, pode ter uma cicatriz

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém

você pode estar na mídia sem saber porque
você pode ser dono de uma rede de tv
você pode dar o fora tendo tudo pra ficar
adotar um nome diferente, você pode mesmo se isolar

mas um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

gotta serve somebody | bob dylan (1979)
(versão: vitor ramil)

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«nosso primeiro encontro foi inteiramente imprevisto. como ele, eu não tinha sofrido nenhum tipo de preparação anterior. esperava um homem profundamente revoltado. encontrei um consciente complicado. existe sobretudo uma preocupação evidente em ser entendido. nenhum assunto é brincadeira, tudo é muito sério e sujeito a várias indagações. vandré não gosta de piadas, não é simpático, mas também não é "estrela" de coisa nenhuma.
- minha função é fazer canções e é apenas disso que eu vivo. não pretendo levantar o povo contra uma estrutura já estabelecida. mas acredito que através da musica ele possa tomar consciência do mundo mais depressa.
muita gente já chamou vandré de festivo, de demagogo e outros bichos. não é isso não.
é, acredito, um conflito formado entre a inteligência e o conhecimento, a cultura.»

zélia prado | revista JOIA – novembro de 1968

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band: a primeira pergunta é uma que todos se fazem: por que há 50 anos você parou de cantar e de compor?
vandré: talvez porque não haja mais motivo para compor e para cantar...
band: porque não tem mais motivo...
vandré: é, deve ser por isso...
band: mas houve um motivo? houve alguma coisa que te fez parar?
vandré: não... especificamente, não.
band: se não houve mais motivo para você cantar e compor... quando você cantava e compunha, havia motivo. quais eram os motivos?
vandré: ah, faz muito tempo, não dá para lembrar... era da época... motivos da época.
band: qual era a demanda da época?
vandré: era muita coisa, não tinha nada específico.
band: ao escutar «pra não dizer que não falei das flores», é impossível não pensar em você. o que essa música significou para você?
vandré: significou o fim de uma carreira artística.
band: o fim?! mas não é o apogeu de sua carreira?
vandré: por um lado... mas o apogeu também é o fim, não é?
band: quer dizer, você se surpreendeu, então, com o efeito, com a recepção que essa obra teve?
vandré: de algum modo, sim.
band: ela é entendida — não é, vandré?
vandré: de algum modo..
band: o que você pensou quando a compôs?
vandré: não pensei em nada.

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ed bradley: as pessoas iam à sua casa?
bob dylan: sim.
ed bradley: para fazer o quê?
bob dylan: para discutir política, filosofia, agricultura orgânica, e coisas do tipo...
ed bradley: e o que você sabe de agricultura orgânica?
bob dylan: nada.

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— seu pai falava muito de você.
— é?
— dizia que você não tinha ambição.
— tinha razão.
— é mesmo?
— minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
— você é estranho.

bukowski

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«todas as minhas utopias foram embora. eu até termino o «longes» dizendo assim: "deixo ao vento que quiser levar, minhas folhas secas de utopia". hoje em dia eu sou assim, eu não tenho utopias.»

vitor ramil

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eu não faço nada
tô sem movimento
tô virando estátua
tô embrutecendo


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new morning

eu acabara de voltar para woodstock vindo do meio-oeste — do funeral de meu pai. havia uma carta de archibald macleish à minha espera em cima da mesa. macleish, poeta laureado da américa — um deles.
a semana anterior me deixara exaurido. havia voltado à cidade de meus primeiros anos de uma forma que jamais havia imaginado — para ver meu pai ser sepultado. agora não haveria jeito de dizer o que nunca fui capaz de dizer antes. enquanto eu crescia, as diferenças culturais e de geração haviam sido intransponíveis — nada além dos sons das vozes, uma conversa artificial e sem graça. quando um de meus professores disse a ele que o filho tinha uma natureza de artista, meu pai, que falava direto e sem rodeios, perguntou: «artista não é um sujeito que pinta?». parecia que eu sempre havia estado no encalço de alguma coisa, qualquer coisa que se movesse — um carro, um pássaro, uma folha soprada pelo vento ---, o que quer que pudesse me levar para um lugar mais luminoso, alguma terra desconhecida rio abaixo. eu não tinha a mais vaga noção do mundo despedaçado em que vivia, do que a sociedade podia fazer com você.
quando saí de casa, foi como se fosse um colombo partindo para o atlântico desolado. parti e fui para os confins da terra — até o abismo onde a água despencava.

bob dylan | crônicas volume um, p. 1119, 120.

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«um dos meus amigos tem cicatrizes de navalha ao longo de todo o seu braço esquerdo. o outro enfia baldes de comprimidos pra dentro de uma massa de barba preta. ambos escrevem poesia. tem qualquer coisa em escrever poesia que leva o homem pra beira do abismo.»

bukowski

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«louco, joquim louco,
o louco do chapéu azul.»

vitor ramil

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«o curioso é que absolutamente não me sinto inclinado a me considerar louco e vejo até, com toda evidência, que não estou louco: todas essas mudanças dizem respeito aos objetos. pelo menos é disso que gostaria de ter certeza.»

jean-paul sartre

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«estranho, estranho mesmo era alguma coisa que eu não via, uma coisa que faltava em toda parte, e de noite eu perdia o sono matutando nisso; era dessas adivinhas difíceis de decifrar e que quando decifra a gente exclama: é claro!»

chico, bambino a roma, p 7

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«era estranho ver no bonde tantos homens de muletas? sim, mas não era a isso que eu me referia. era estranho ver na feira tantas mulheres de luto fechado? sim, mas não era disso que se tratava. era um pouco estranho não ter feijão com arroz, mas logo tomei gosto pelas massas que a cozinheira servia todo dia no almoço.»

chico, bambino a roma, p. 9

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«não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; ao contrário, me sinto esmagado. só que meu objetivo foi atingido: sei o que desejava saber; compreendi tudo o que me aconteceu a partir do mês de janeiro. a náusea não me abandonou e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença. nem de um acesso passageiro: a náusea sou eu.»

sartre, a náusea, p.169

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«agarrado à bola de futebol, olhei para trás ao sair de casa na rua haddock lobo 1625, são paulo, assim que partiu o caminhão de mudança. vendo a casa tão vazia, com manchas de mobília no chão e de quadros na parede, entendi que a ausência seria longa, talvez para sempre. zarpamos do rio, e no convés do giulio cesare passageiros se abraçavam e brindavam vendo a cidade se afastar na baía de guanabara. eu não olhava a baía, mas sim a espuma que o transatlântico fazia no mar, como que desarranjando o caminho de volta. durante duas semanas num oceano sem fim, havia muita festa a bordo e jogos no tombadilho, mas se me perguntarem do que mais me lembro, direi francamente que só me lembro de um mar de vômito. vomitei no mar, no tombadilho, na piscina, no camarote de segunda classe, vomitei amarelo na toalha do restaurante, vomitei no sapato do garçom, eu vomitava os remédios e vomitava em cima do meu vômito com nojo de mim.

vomitei do rio a gênova com escalas nauseantes em portos que mal vi, na certeza de que aquele gosto nunca mais ia sair da minha boca.»

chico, bambino a roma, p.7

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«eis o que pensei: para que o mais banal dos acontecimentos se torne uma aventura, é preciso e basta que nos ponhamos a narrá-lo. é isso que ilude as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias [...] e procura viver sua vida como se a narrasse.»

sartre, a náusea, p. 58

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«segunda-feira, 29 de janeiro de 1932

algo me aconteceu, não posso continuar a duvidar. eu me senti um pouco estranho, nada mais. não sei. houve uma mudança nestas últimas semanas. acho que fui eu que mudei: essa é a solução mais simples. a mais desagradável também. mas tenho que reconhecer que sou sujeito a mudanças súbitas.»

sartre, a náusea, p. 16

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«o que acaba de ocorrer é que a náusea desapareceu. quando a voz se elevou no silencio, senti meu corpo se enrijecer e a náusea se dissipou. estou na música.»

sartre, a náusea, p. 39

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a música

era um mago da harpa. nos altiplanos da colômbia, não havia festa sem ele. para que a festa fosse festa, mesé figueredo tinha de estar ali, com seus dedos bailarinos que alegravam os ares e alvoroçavam as pernas.
certa noite, num caminho deserto, os ladrões o assaltaram. ia mesé figueredo, em lombo de mula, a uma festa de casamento. numa das mulas ia ele, na outra a harpa, quando os ladrões o atacaram e o moeram a bordoadas.
no dia seguinte, alguém o encontrou. estava atirado no chão, um trapo sujo de barro e sangue, mais morto do que vivo. e então aquele farrapo humano disse, com um fiapo de voz:
- levaram as mulas.
e disse:
- levaram a harpa.
e respirou fundo, acrescentando:
- mas não levaram a música.

eduardo galeano

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«a bem dizer, essa impressão de estar sendo abandonado já vinha de outras estadias em outros hotéis de roma, e outros e outros, mas o verdadeiro mal-estar que então me perseguia devia remontar aos escuros tempos de ditadura em que me exilei por mais de um ano na cidade. e já me revejo na recepção do hotel raphael atendendo a um telefonema urgente do brasil: o que houve?; como assim?; o ascensorista ainda não apareceu?; a filha do mágico continua doente? as ligações já não eram tão precárias quanto outrora, mas os diálogos pareciam evasivos porque havia palavras e nomes que não convinha pronunciar. mesmo assim, acredito que o mais profundo mal-estar vinha de antes ainda, e me intriga que durante o longo tempo ocioso que vivi adulto em roma, nunca me tenha ocorrido visitar os lugares da minha infância. pode ser que na via san marino eu descobrisse finalmente a origem de todo o meu mal-estar. mas também é possível que esse mal-estar nunca tenha existido, só existe agora que me lembro dele.»

chico, bambino a roma, p. 112

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«um romance. e haveria pessoas que leriam esse romance e diriam: «foi antoine roquentin que o escreveu, era um sujeito ruivo que estava sempre nos cafés». e pensariam em minha vida, como eu penso na dessa preta [em referência à cantora da sua canção preferida]: como em algo precioso e meio lendário. um livro.

talvez um dia, pensando precisamente nesta hora, nesta hora sombria em que estou à espera, de costas curvadas, que sejam horas de saltar para o comboio, talvez sentisse bater-me mais depressa o coração e dissesse para comigo: "foi nesse dia, a essa hora, que tudo começou."»

sartre, a náusea, p. 222

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aqui nessa hora é que ele nasceu
segundo o que contaram pra mim

joquim | bob dylan / jaques levy (1976)
versão: vitor ramil (1987)

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«cai a noite. no 1º andar do hotel printania acabam de se iluminar duas janelas. das obras da estação nova sai um cheiro intenso a madeira húmida: amanhã vai chover sobre bouville.»

sartre, a náusea, p. 222

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«nascer leva tempo»

vitor ramil

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«não preciso do fim para chegar.
do lugar onde estou já fui embora.»

manoel de barros

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chove na tarde fria de porto alegre
trago sozinho o verde do chimarrão
olho o cotidiano, sei que vou embora
nunca mais, nunca mais

ramilonga | vitor ramil (1997)
programa encuentro en el estudio con vitor ramil.
canal encuentro.
ministerio de educación de la nación.
república argentina.
dirección ariel hassan.

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porque hoje é sábado
continua amanhã
que é domingo