sexta-feira, 9 de outubro de 2026

 

fábulas do mar
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«con lo poco que yo sé
antes de llegar a brasil sé que me perderé»

piero

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hoy tengo nublada la sonrisa
país de cielo, país de tiza
piden las paredes libertades
la calle espera, la gente sabe

es que hay un juramento y hay silencio
y hay un hombre, amor, que resucita
somos territorio de violencia
mi pueblo habla, mi pueblo grita

somos territorio de violencia
mi pueblo habla, mi pueblo grita
¡basta de muerte, basta, basta!
¡basta de morir, morir, morir!

que se vayan ellos
que se vayan ellos
los que no dejaron
nacer y vivir

que se vayan ellos
que se vayan ellos
los que encarcelaron
los que torturaron
los que te mataron

que se vayan ellos
que se vayan ellos
los que te prohibieron
gritar ¡libertad!

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piero, 1973

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buenos aires, julho de 1976:
longa viagem sem nos movermos
ritmo de pulmões da cidade que dorme. fora, faz frio. 
de repente, um barulho atravessa a janela fechada. você aperta as unhas em meu braço. não respiro. escutamos um barulho de golpes e palavrões e o longo uivo de uma voz humana. depois, silêncio.
— não peso muito? 
nó marinheiro.
formosuras e dormidezas, mais poderosas que o medo. 
quando entra o sol, pestanejo e espreguiço com quatro braços. ninguém sabe quem é o dono deste joelho, nem de quem é este cotovelo ou este pé, esta voz que murmurou bom-dia.
então o animal de duas cabeças pensa ou diz ou queria:
— para gente que acorda assim, não pode acontecer nada ruim. 
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para el pueblo lo que es del pueblo
porque el pueblo se lo ganó.
para el pueblo lo que es del pueblo;
para el pueblo liberación.

comer bien era muy raro; comer poco era normal.
comer era subversivo para el señor militar.
eran actos de violencia, la alegría popular;
«el pueblo tiene paciencia» dijo un señor general.

estudiar era pecado; clandestino era saber,
porque cuando el pueblo sabe, no le engaña un brigadier.
prohibiremos la esperanza y prohibido está nacer.
«¿no será mucho, almirante?» «faltaba más, coronel.»

y al país lo remataron, y lo remataron mal.
lo partieron en pedazos, ahora hay que volverlo a armar.
y ahora el pueblo está en la calle a cuidar y a defender.
esta patria que ganamos liberada debe ser.

pra el pueblo lo que es del pueblo
porque el pueblo se lo ganó.
para el pueblo lo que es del pueblo;
para el pueblo liberación.

liberación, liberación, liberación.

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(piero, 1973)
microestadio de atlanta
en vivo
inédito

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buenos aires, julho de 1976:
quando as palavras não podem ser mais dignas que o silêncio, mais vale ficar calado

1
somos obrigados a entregar, na casa rosada, as provas das páginas da revista, vindas da gráfica.
— isto, não. nem isto — nos dizem.
a última reunião com os militares foi assim:
tínhamos ido vicente e eu. 
depois de discutir durante uma hora sobre o material da revista, falamos de haroldo conti. 
— ele é um redator de crisis — dissemos — e foi sequestrado. não se sabe nada. os senhores nos dizem que ele não está preso e que o governo não tem nada com este assunto. por que não nos deixam publicar a notícia? a proibição pode se prestar a interpretações torcidas. os senhores sabem que no exterior há pessoas que pensam mal, pessoas mal-intencionada que...
— vocês têm alguma queixa contra nós? — perguntou-nos o capitão. — foram tratados sempre com correção. recebemos vocês, os escutamos. para isso estamos aqui e esta é a nossa função no governo. mas lhes advertimos: este país está em guerra, e se nós nos encontrássemos em outro terreno, o tratamento seria bem diferente.
toquei o joelho em meu companheiro.
— vamos, vicente, está ficando tarde — disse.
caminhamos, devagar, pela plaza de mayo.
no meio da praça ficamos parados um longo tempo sem nos olharmos. havia um céu limpo e um ruído de gente e pombas. o sol arrancava brilhos nas cúpulas de cobre esverdeadas.
não falamos nada.
entramos em um café, para tomar alguma coisa, e nenhum dos dois se animava a dizer:
— isso significa que haroldo está morto, não é?
de medo que o outro dissesse:
— sim.
2
a revista não dá mais.
de manhã. reúno os companheiros e falo com eles. quero mostrar-me firme e dizer esperanças, mas a tristeza escapa por meus poros. explico que nem fico, nem vicente nem eu tomamos a decisão: que as circunstâncias decidem. não aceitamos a humilhação como epílogo da linda aventura que nos reuniu durante mais de três anos. crisis não seria agachada por ninguém: vamos enterrá-la em pé; como viveu.
3
esvazio as gvetas da escrivaninha, repletas de papéis e cartas. releio, ao azar, palavras de mulheres que amei e de homens que foram meus irmãos. acaricio com o dedoo telefone que me transmitiu vozes amigas e ameaças.
caiu a noite. os companheiros partiram há um par de hora e de meses. os escuto, os vejo; seus passos e suas vozes, a luz que cada um irradia e a fumacinha que deixa quando vai embora.
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eduardo galeano | dias e noites de amor e de guerra, p. 178 - 181

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me estoy muriendo de frío.
tengo la bronca en la voz
porque a esta puerta del río
le apuñalaron el sol,
porque a esta puerta del río
le apuñalaron el sol.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

argentina tiene un nombre
desde el mar hasta la sierra.
cómo le cuento a mi gente
lo que pasa en esta tierra
pero cómo le cuento a mi gente
lo que pasa en esta tierra.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

no soy de muchas palabras.
hay muy poco que contar.
las cosas se cuentan solas.
sólo hay que saber mirar.
las cosas se cuentan solas.
sólo hay que saber mirar.

y después cuando yo canto
que me lo llaman protesta.
cómo contar lo que pasa
con mi gente y su pobreza.
pero cómo contar lo que pasa
con mi gente y su pobreza.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país de nubes,
lleno de humo y alcohol.
cómo le canto a mi gente
lo que yo pienso con vos,
pero cómo le canto a mi gente
lo que yo pienso de vos.

que a mi patria la fundaron
a golpes y cachetazos.
cuántas voces se callaron
a machete y a balazos.
pero cuántas voces se callaron
a machete y a balazos.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! hermanita perdida,
cómo te quiero abrazar.
pero sin guerra ni balas.
ni muertos para llorar.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

¡ay! país, país, país.
¡ay! país, país, país.

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(piero, 1972)
1982 b.a. rock 

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de volta ao começo

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«siempre habrá tiempo para volver
y cuántas naves, cuántas velas seguiré
por cada fábula de mar que aún no sé.»

piero

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em 3 de outubro de 2016, logo após o resultado das eleições municipais para a escolha de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, escrevi o texto abaixo, entre colchetes:

[que o anti-petismo, que a globo, que o tio sam, que a fiesp, que o mundo está contra nós... é verdade, está mesmo, sempre esteve e sempre estará. mesmo assim, conseguimos avançar: tiramos milhões de brasileiros da miséria, proporcionamos moradia e melhores condições de vida a outros tantos. e foi por isso, ou muito por isso, que nos deram um golpe e nos derrubaram.

tudo isso eu sei.

mas sei também que fracassamos em tantas e muitas outras coisas. cometemos alguns erros graves e outros (quase) imperdoáveis. abrimos a guarda e nos perdemos no caminho. com isso, deixamos o campo aberto e deu no que deu.

sinto muito, mas é assim que penso.

aliás, eu sou assim... quando penso em apontar o dedo para os outros, lembro sempre de apontá-lo antes para mim.

perdón, es mi manera de ser
si alguna gente no entiende qué le voy a hacer.]
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con lo poco que yo sé
antes de llegar a brasil sé que me perderé,
pero no importa, es mi manera de ser,
si alguna gente no entiende qué le voy a hacer.

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(piero, 1976)

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#nuncamais

quarta-feira, 7 de outubro de 2026


e se os idiotas formos nós

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«o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade»

umberto eco

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«a educação não transforma o mundo. a educação muda as pessoas. as pessoas transformam o mundo.»

paulo freire

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segundo márcia tiburi, há três tipos de idiotas

1 – ignorante orgulhoso: não se abre à experiência do conhecimento. repete clichês introduzidos no cotidiano. sua formação é «midiatizada». mas como o ignorante não sabe disso, ele se orgulha de ser o que é.

2 – «burro mesmo»: não há muito o que dizer. mesmo com informação por todos os lados, ele não consegue juntar os pontinhos. por exemplo: o «burro mesmo» faz uma manifestação «democrática» para defender a volta da ditadura.

3 – paranóico: o paranóico tem certezas, a falta de dúvida é o que o torna idiota. o idiota paranóico cria monstros que ele acredita combater a partir de suas certezas. o comunismo, o feminismo, os indígenas, os pobres, os negros, os homossexuais ...

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o vento leste do carcará

por ancelmo gois
o compositor pernambucano luís vieira conta que seu parceiro, o maranhense joão do vale, que era semianalfabeto, depois do sucesso de «carcará» achou que devia usar palavras difíceis nas letras. vieira discordou: «só escreva sobre o que você conhece!», ralhou.
até que joão surgiu com a letra da obra prima «na asa do vento»: «deu meia noite/a lua faz o claro/eu assubo nos aro/vou brincar no vento leste». vieira quis saber onde joão tinha encontrado aquele «vento leste». e o parceiro: «de noite, liguei o rádio na "hora do brasil" e ouvi: "aviso aos navegantes: vento leste soprando pra sudoeste"».

a história está em «mpbambas», de tarik de souza, e parece dar razão a um mestre da minha terra: «eu prefiro quem diz "nós vai" e vai, do que quem fala "nós vamos" e não vai».

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a lua é clara, o sol tem rastro vermelho
é o lago um grande espelho onde os dois vão se mirar.

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(joão do vale, 1981)

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«meia noite é a hora mais escura. precisamente nesta hora a lua apresenta sua luminosidade. do confronto com a obscuridade interior, o inconsciente, surge a luz.

outro ponto interessante é o jogo de opostos. a escuridão da meia noite, o claro da lua. o jogo de opostos se faz presente durante toda a letra da canção.

a aranha tece puxando o fio da teia
a ciência da abeia, da aranha e a minha
muita gente desconhece

abelhas, aranhas, flor, sol, lua, vento, ar, cheiro se apresentam enquanto símbolos. eis a ciência do compositor que, valendo-se de imagens de coisas simples da natureza extrai novos e profundos significados. seu trabalho é brincar com as palavras e seus infinitos sentidos. tal habilidade poética também é o que se espera do analista. se não for poeta, que ao menos tenha seu olhar e sua escuta abertas ao simbólico.»

ijrs | instituto junguiano do rio grande do sul

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os menores carregam o mundo
são os menores que o suportam
com seus caminhos parcos
e seus olhos

como algumas flores breves
como as que não duram mais que um dia
e nesse tempo urgentemente sonham 

assim os menores sonham no mundo
e avançam com um lírio amarelo no pensamento
e se erguem contra a noite longa
dentro de sua vida que é um sopro

quando por cinco vezes a terra cedeu
a pesadelos de fogo e de água
(naquela que tem sido a história das grandes extinções)
foram os frágeis que se alastraram tão quietos ─
 porque não tinham nome nem rosto
esconderam-se sem que os percebessem

foram para o escuro fundo, em
mares inconsoláveis
foram por entre vales de ossos imensos e
protegeram-se na curvatura da sombra
foram morar na última fenda do
último tronco ─
como se tudo insistisse num
último coração —
dentro da sequoia

são os vencidos que têm carregado o mundo
são lobas que há dias emagrecem, regurgitando
em bocas de ninhadas ainda cegas
são pássaros de asa quebrada, que
estremecem nas mãos
são algum pulso
e alguma lua
são homens e mulheres sem lugar, recurvados sobre
si como pendendo
a uma pergunta sem pronúncia

os menores é que rompem ao meio
o medo
e suspendem a vida num fio claríssimo de seda em que
a morte não toca

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(mar becker,  de outubro de 2026)
por antónio josé cravo

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(brecht revisitado)

os filhotes do fascismo sempre querem cruzar de novo com a cadela

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(marx revisitado)

a primeira vez como tragédia, a segunda vez como tragédia maior

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na foto do futuro do brasil 
aqueles que não tinham para pagar o fotógrafo
não eram fotografados 
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todos os poemas são de mar becker 

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¡qué pena si este camino fuera de muchísimas leguas
y siempre se repitieran
los mismos pueblos, las mismas ventas
los mismos rebaños, las mismas recuas!
(que pena se esse caminho tivesse muitas léguas
e se repetissem sempre
as mesmas vilas, as mesmas vendas,
os mesmos rebanhos, as mesmas caravanas!)

¡qué pena si esta vida tuviera
esta vida nuestra
mil años de existencia!
¿quién la haría hasta el fin llevadera?
¿quién la soportaría toda sin protesta?
¿quién lee diez siglos en la historia y no la cierra
al ver las mismas cosas siempre con distinta fecha?
los mismos hombres, las mismas guerras
los mismos tiranos, las mismas cadenas
los mismos farsantes
¡y los mismos, los mismos poetas!
(que pena se esta vida tivesse
esta nossa vida
mil anos de existência!
quem a tornaria suportável até o fim?
quem a suportaria por inteiro sem reclamar?
quem lê dez séculos de história e não a cierra
ao ver sempre as mesmas coisas com datas diferentes?
os mesmos homens, as mesmas guerras,
os mesmos tiranos, as mesmas correntes,
os mesmos impostores
e os mesmos, os mesmos poetas!)

¡qué pena, que sea así todo siempre
siempre de la misma manera!
¡qué pena!
¡qué pena!
¡qué pena!
que pena que seja sempre assim,
sempre da mesma maneira!
que pena!
que pena!
que pena!

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(los olimareños, 1972)
poema: león felipe

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tenho pena

por nelson barros

a mulher que apoia o inominável, é a mulher que foi ensinada a não gostar de mulher. ela foi ensinada a entender que mulheres são rivais históricas. ela foi treinada nas sociedades patriarcais, a entender que mulheres estão no mundo para disputar um homem pra chamar de seu. ela aprendeu a olhar para as outras mulheres como inferiores, como se ela não fizesse parte desse universo. ela acha que será a escolhida para ser bem tratada por aquele que tratou mal todas as outras. ela quer punir a mulher que, no fundo, odeia ser.

o gay que apoia o inominável é a mesma coisa. ele aprendeu a não gostar de gay. ele acha que é melhor que os outros gays por que não parece ser gay. ele considera isso um elogio. ele critica «as afeminadas». ele acha que será escolhido para ser bem tratado por quem trata mal todos os outros gays. ele quer punir o gay que ele, no seu íntimo, odeia ser.

o negro que apoia o inominável aprendeu que «black is not beautiful», como dona maria, uma negra que não quis se casar, para não ter que casar com um negro. ela achava bacana quando alguém dizia que ela era uma negra de modos finos, como as brancas, e colecionava perucas. ela acha que será tratada de modo diferenciado, por quem nunca a tratou bem, não por ela ser do jeito que era, mas pelo jeito que ela imaginava que era vista: «uma negra de alma branca».

o trabalhador que apoia o inominável tem um delírio. ele vai apoiar alguém que não tem nenhuma noção do que seja trabalhar.

tenho pena de todos.
e de você e de mim.

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que pena

por enilton grill

eu também. assim como nelson barros tenho pena. ao contrário de muitos de nós, eu não acho que os eleitores da extrema-direita terão, caso flávio bolsonaro seja eleito presidente desse país, o governo que merecem. eles não merecem. ninguém merece.

eles continuarão sendo vítimas de um sistema que ensinou, convenientemente, que ser mulher, ser gay, ser negro, ser pobre são moedas de menos valia.

só há uma forma de mudar isso: educação, educação e educação.

mas que educação? a educação que abre universidades, mas entrega diplomas que funcionam apenas como uma ilusão de ascensão social? não.

uma educação que foca no pragmatismo, em vez de ensinar a ler e transformar a realidade? não.

uma estrutura que trocou a formação da consciência política e a organização comunitária de base por comemorações estatísticas? não.

uma lógica que substitui o debate crítico e a filosofia por cursos rápidos voltados apenas para metas do mercado? não.

uma estrutura que financia a expansão do ensino privado com dinheiro público que deveria ir para os cieps e escolas de base? não.

um método que prepara o jovem para ser o trabalhador precarizado de aplicativo, em vez de ensiná-lo a combater a precarização? não.

precisamos da educação que liberta, não da que apenas qualifica para a exploração.

enquanto o pragmatismo institucional se contentar em governar para os índices e para os mercados, continuará pavimentando a estrada por onde passa a barbárie. se queremos um futuro diferente, precisamos de uma pedagogia que ensine a questionar o poder, e não apenas a obedecer a ele. só a consciência de classe e de direitos pode quebrar o feitiço que faz com que as vítimas escolham os seus próprios algozes.
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«enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto!»
belchior

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joão, o menino cantador
era uma vez um menino, um rio, um colégio, um campinho de terra e uma cidadezinha desse tamainho.
lá havia uma pedra grande, do tamanho de um prédio de seis andares, e por isso a cidade foi chamada de pedreiras.
um dia, o menino deixou de ir para a escola e passou a só vender os doces da mãe, a brincar no rio e a jogar bola.
ah, mas de cantar ele não cansava.
andréa oliveira

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seu moço quer saber, eu vou contar num baião
minha história pra o senhor, seu moço, preste atenção

eu vendia pirulito, arroz doce e mungunzá
enquanto eu ia vender doce, meus "colega" iam estudar
a minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar
a minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar

e quando era de noitinha, a meninada ia brincar
vixe, como eu tinha inveja, de ver o zezinho contar:
– o professor raiou comigo, porque eu não quis estudar
– o professor raiou comigo, porque eu não quis estudar

hoje todo são «doutô», eu continuo joão ninguém
mas quem nasce pra pataca, nunca pode ser vintém
ver meus amigos “doutô”, basta pra me sentir bem
ver meus amigos “doutô”, basta pra me sentir bem

mas todos eles quando ouvem, um baiãozinho que eu fiz,
ficam tudo satisfeito, batem palmas e pedem bis
e dizem: – joão foi meu colega, como eu me sinto feliz
e dizem: – joão foi meu colega, como eu me sinto feliz

mas o negócio não é bem eu, é mané, pedro e romão,
que também foram meus colegas, e continuam no sertão
não puderam estudar, e nem sabem fazer baião

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(o poeta do povo, 1965)

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#lula2026

terça-feira, 6 de outubro de 2026

 

ogodô ano 2000

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grandes horizontes
na escola da ponte não há programas. isso não quer dizer que a aprendizagem aconteça ao sabor dos desejos das crianças. imagine um homem do campo, que só conheça as comidas mais simples: polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne. imagine que ele venha à cidade e seja levado por um amigo a um restaurante. «que é que o senhor deseja?», lhe perguntaria o garçom. ele certamente responderia falando de polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne, pois esse é o seu repertório de pratos. aí, o amigo lhe diria: «quero sugerir que você experimente uns pratos diferentes.» assim acontece na relação entre professores e alunos. os professores sabem mais. é por isso que são professores. e uma de suas tarefas é «seduzir» as crianças para coisas que elas ainda não experimentaram. eles lhes apontam coisas que nunca viram e as introduzem num mundo desconhecido de arte, literatura, música, natureza, lugares, história, costumes, ciências, matemática. «a primeira tarefa da educação é ensinar a ver», dizia o filósofo nietzsche. não é obrigatório que elas gostem do que vêem. mas é importante que seus horizontes se alarguem.
rubem alves

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eu já fui rebelde. mas eu aprendi. então, por favor, cresça!»
lula

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1992

o sistema é cruel, injusto e desumano
para que uns poucos se deem bem
a imensa maioria tem que se dar mal
quem vê de fora
não entende como isso se dá
talvez seja difícil de entender
mas é fácil de explicar
junte a ganância de uns
com a ignorância de outros
e misture bem
até crescer
quando a massa estiver
veja bem
com a aparência de uma manada pastando conformada
leve ao forno a uma temperatura tropical e deixe assando por 500 anos
no final
terá um país rico por fora
e pobre por dentro

grill

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eram só três caravelas e valeram mais que um mar quanto aos índios que mataram ah! ninguém pôde contar quando esses homens fizeram o mundo novo e bem maior por onde andavam nossos deuses com seus andes, seu condor?

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(belchior, 1993)

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«no crezca mi niño, no crezca jamás
los grandes al mundo le hacen mucho mal
el hombre ambiciona cada día más
y pierde el camino por querer volar»

facundo cabral

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anos 90

por eduardo galeano
a injustiça, motor de todas as rebeliões que ocorreram na história, não só não diminuiu no século 20, como multiplicou-se até extremos que nos pareceriam incríveis se não estivéssemos adestrados para aceitá-la como costume e obedecê-la como destino. mas o poder não ignora que a injustiça está se tornando cada vez mais injusta e que o perigo está se tornando cada vez mais perigoso.

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e então? vencemos o crime?
já ninguém mais nos oprime
pastores, pais, lei e algoz?
que bom voltar pra família!
viver a vidinha à pilha!
yuppies sabor baunilha
era uma vez todos nós! 

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(elogio da loucura, 1988)

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passaram-se os anos, o século vinte está morrendo. que mundo ele nos deixa? um mundo sem alma, desalmado, que pratica a superstição das máquinas e a idolatria das armas: um mundo ao avesso, com a esquerda à direita, o umbigo nas costas e a cabeça nos pés.

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nos anos da guerra fria, cada metade do mundo podia encontrar na outra metade as justificativas de seus crimes e de seus horrores cada um dizia ser melhor, porque a outra era pior. hoje (final dos 90), subitamente órfão do inimigo, o capitalismo celebra sua hegemonia e dela usa e abusa sem limites. mas certos sinais indicam que começa a se assustar de seus próprios atos. descobre, então, a dimensão social da economia, como um exorcismo contra os demônios da ira popular. o capitalismo tinha resolvido chamar-se economia de mercado, mas agora tornou mais abrangene o apelido e viaja aos países pobres com um passaporte onde figura seu novo nome completo: economia social de mercado.
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ôôô ogodô ogodô ogodô, ogodô ogodô ôôô ogodô ogodô ogodô ogodô ogodô ttalac-tac-tac-tac tamborim teleco-teco-teco-teco violão toloc-toc-toc-toc agogô tô-lôc-tô twenty 00, twenty 00 a ciência excitada fará o sinal da cruz e acenderemos fogueiras para apreciar a lâmpada elétrica. the science in her trance will make the sign of cross and we will light bonfires to appreciate the eletric bulb. talac-tac… ogodô…

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(the hips of tradition, 1992)

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o pirulito da ciência

por enilton grill
a  «economia social de mercado» à brasileira é uma obra de arte da conciliação: o mercado fica com o lucro, o social fica com a contaminação, e a ciência fica chupando o pirulito.

a receita é simples e foi votada no congresso nacional. o presidente lula (pt) até tentou colocar um verniz de bom comportamento com 14 vetos à flexibilização dos agrotóxicos. mas no teatro da governabilidade, a bancada ruralista deu o veredito e derrubou tudo. o «rei da soja» passou a coroa para o ministério da agricultura, que agora é quem manda no balanço das substâncias. anvisa e ibama, coitados, foram rebaixados a meros espectadores de bula.

é o «capitalismo humanizado» em sua potência máxima: as exportações batem recordes na faria lima, o plano safra injeta bilhões no latifúndio, e o povo ganha o direito constitucional de consumir, em média, algumas gramas de glifosato por refeição. tudo estritamente regulado pelas forças da oferta e da demanda de oxigênio.

diante do absurdo de ver substâncias cancerígenas proibidas no exterior virarem tempero nacional, os pesquisadores da fiocruz — que ainda insistem na mania de estudar dados — soltaram a pergunta definitiva, aquela que deveria estar em um refrão de tom zé:

«a ciência está errada e o agro está certo?»
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falando em tom zé

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✍️ texto de guto ruocco

(via #repost @tomzeoficial)
tom zé mal começou o show e já estava saudando a saga do reitor edgar santos da universidade federal da bahia que deu ao alemão koellreutter plenos poderes para organizar a renomada escola de música da ufba, que o formou, além de toda uma geração de artistas contemporâneos da melhor música brasileira. depois citou paulo freire e a triste confusão do oprimido que conquista direitos e se torna opressor quando a educação não é transformadora antes de interpretar «esquerda, grana e direita».

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quando um trabalhador cresce na sociedade
e tem oportunidade de ser protagonista da história
ele pratica o método do opressor
porque foi o único método que aprendeu
então ele só sabe agir como o opressor

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(vira lata na via láctea, 2014)

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depois, emendou seus clássicos, alguns urrados por uma plateia ávida de canção inteligente e coragem artística. terminou o show saculejando o decadente teatro municipal «caindo aos pedaços» de mococa para forrozear ao som de xique-xique e com a plateia hipnotizada pelo amor e pela generosidade de tom zé. o artista de irará mostrou aos 82 anos que continua com vitalidade do menino tropicalista que mantém a sua mensagem política-libertária nos cascos. obrigado, te amo.

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 eu vi o cego dando nó cego na cobra
vi cego preso na gaiola da visão
pássaro preto voando pra muito longe
e a cabra cega enxergando a escuridão

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(com defeito de fabricação, 1998)

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#lula2026

segunda-feira, 5 de outubro de 2026


como nossos pais

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os filhos
pena
herdaram dos pais
o extintor de incêndio
e o medo do poema

grill

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«os jovens de todas as épocas e de todos os países sempre se entusiasmaram com as grandes idéias de transformação, eram revolucionários, mas se mantinham dentro do famoso esquema "todos nascemos incendiários e morremos bombeiros".»
umberto eco

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ocaso

o caso
se o caso é chorar
choremos com tom zé
(no jardim da política)

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rádio brasil de fato
1 de setembro de 2018
brasil de fato: como surgiu a ideia de fazer o álbum «no jardim da política», em 1984?

tom zé: foi um momento em que os militares tinham compreendido que era necessário sair do poder, porque o exército sempre teve um cuidado com a sua decência moral. eles perceberam que a corrupção estava em toda parte, roendo as expectativas e o próprio exército. «no jardim da política» surge nesse período. a música «classe operária» é um banho, um «reductio ad absurdum» (do latim, redução ao absurdo). vou dizer algo tão absurdo que você vai perceber que estou falando ao contrário. «sobe no palco o cantor engajado tom zé, que vai falar dos operários, tratar dos operários, mas não há nenhum operário no palco. mas tom zé e seus amigos sabem o que é bom para os operários». qualquer pessoa de raciocínio médio vai dizer «como esse cara é louco, como a gente é metido besta, pensando que vai resolver o problema dos operários sem consultá-lo». pois teve amigo meu engajado politicamente que virou a cara pra mim. e no jardim da política tem «marcha partido», «dólar» e «vá tomar»: «meta sua grandeza no banco da esquina/ vá tomar no verbo seu filho da letra/ meta sua moral, regras e regulamentos, escritórios e gravatas, sua sessão solene/ pegue junte tudo, passe vaselina, enfie só que meta, no tanque de gasolina». isso é fazer política ou não é? era o que nós podíamos falar porque a censura havia afrouxado um pouco.

brasil de fato: ainda que sem intencionalidade, esse álbum reflete o posicionamento esperado pelo público de um artista sobre determinado momento político?

tom zé: eu fiz várias canções sobre o cenário que se tinha durante a ditadura. tem aquela que diz assim: «todo compositor brasileiro é um complexado, porque então essa mania de falar tão sério, de sorrir tão sério, de trepar tão sério! ah, meu deus, vá ser sério assim no inferno». essa música está no álbum «todos os olhos», de 1973. me inspirei no general ernesto geisel e na fala dele sobre termos uma «democracia relativa», além de falar sobre a liberdade que buscávamos. «a liberdade é uma graça, todo dia se decifra, todo dia se disfarça…» era uma informação comprimida, uma bomba comprimida.

brasil de fato: sobre a atualidade, como você tem visto o cenário político do brasil?

tom zé: o brasil é comandado por grupos que têm interesses particulares. é por isso que não se pode eleger ninguém que está na câmara dos deputados ou no senado. temos que eleger outras pessoas e tentar algo diferente. nós estamos com o país atravancado por interesses pessoais, então é preciso eleger um governo completamente novo. temos um presidente da república que, para se manter no poder, distribuiu uma fortuna a deputados para não ser processado. hoje estou com 81 anos, mas um dia tive 17, e tive que procurar esperança na música, no livro, na escola. os meninos de hoje podem procurar esperança em algum lugar?
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e diante desta contradição ideológica
te ofereço a rosa comemorativa
desta tua democracia relativa.

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se continuarem assim,
todos os operários vão ser demitidos,
talvez até presos,
porque ficam atrapalhando
tom zé e o seu público, que estão cuidando
do paraíso da classe operária.

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(tom zé, 1984)

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«música de protesto é um método jesuítico, como o que (o educador) paulo freire chama de "hospedar o opressor". eu faço "classe operária" como se fosse o opressor hospedado no cantor»
tom zé

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falando em paulo freire

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✍️ texto de guto ruocco
(via #repost @tomzeoficial)
tom zé mal começou o show e já estava saudando a saga do reitor edgar santos da universidade federal da bahia que deu ao alemão koellreutter plenos poderes para organizar a renomada escola de música da ufba, que o formou, além de toda uma geração de artistas contemporâneos da melhor música brasileira. depois citou paulo freire e a triste confusão do oprimido que conquista direitos e se torna opressor quando a educação não é transformadora antes de interpretar «esquerda, grana e direita».

depois, emendou seus clássicos, alguns urrados por uma plateia ávida de canção inteligente e coragem artística. terminou o show saculejando o decadente teatro municipal «caindo aos pedaços» de mococa para forrozear ao som de xique-xique e com a plateia hipnotizada pelo amor e pela generosidade de tom zé. o artista de irará mostrou aos 82 anos que continua com vitalidade do menino tropicalista que mantém a sua mensagem política-libertária nos cascos. obrigado, te amo.
#reposttomzé
#repostgutoruocco

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de volta ao ocaso

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se o caso é chorar
te faço chorar
se o caso é sofrer
eu posso morrer de amor.

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tom zé, 1972

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#alutacontinua
#nãopassarão
#venceremos

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#lula2026

domingo, 4 de outubro de 2026


semiótica

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«seja eu amanhã. porque eu já fui você ontem. eu já fui rebelde. mas eu aprendi. então, por favor, cresça!»
lula, flow podcast, quinta-feira, 1º de outubro de 2026

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já chorei sentido
de desilusão
hoje estou crescido
já não choro não

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(chico buarque do brasil, 1971)

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meu refrão
foi ouvindo chico buarque que aprendi «gente humilde» foi ouvindo chico buarque que aprendi a ser cidadão foi ouvindo chico buarque que aprendi o «meu refrão» foi ouvindo chico buarque que aprendi a ser sem patrão
grill

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o refrão que eu faço
é pra você saber
que eu não vou dar braço
pra ninguém torcer
deixa de feitiço
que eu não mudo não
pois eu sou sem compromisso
sem relógio e sem patrão

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(chico, 1965)

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#lula2026

sexta-feira, 2 de outubro de 2026


domingo no parque

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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lula ontem no flow sobre a juventude:
«eu tenho 5 filhos. eu sei que a juventude é muito rebelde. tem o cara com 16 anos, 17 anos... não acredita em nada, xinga todo mundo, todo mundo é ladrão, ninguém presta. é por isso que o bolsonaro cresceu. porque a ignorância leva a gente à fazer coisas erradas. o país não tem saída se a gente não investir em educação, e não tem saída se você não acreditar nisso. eu já fui você ontem, eu já fui rebelde.» 
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clique no link abaixo
para ver e ouvir trecho na íntegra

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(pt do piauí 13)

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segundo entendi
para lula
que tem cinco filhos
que diz já ter sido rebelde
que traz como exemplo de rebelde
jovens que não acreditam em nada
que xingam todo mundo
que chamam todo mundo de ladrão
ser rebelde é ser ignorante

pra mim
tá tudo explicado
não precisava dizer mais nada

mas vou dizer
como um rebelde que sempre gostou de ler, estudar, debater e conversar sobre política, o atual momento me deixa particularmente mais rebelde. não há nada nem ninguém que se salve. é só estupidez como arma e ignorância como orgulho. eu continuo na luta, esperneando não sei por quê. o rebelde que lula diz ter sido devo ser eu.
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sobre a ignorância
a ignorância se refere à falta de conhecimento. a palavra ignorante descreve o estado de consciência de quem desconhece fatos importantes — ou de quem, deliberadamente, os ignora ou desconsidera.

a ignorância manifesta-se em três tipos: factual (ausência de conhecimento de algum fato), objetual (desconhecimento de algum objeto) e técnica (ausência do conhecimento de como fazer alguma coisa).

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três exemplos 

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golpe
no 8 de janeiro, diante do caos em brasília, lula esteve prestes a aceitar a sugestão de decretar a garantia da lei e da ordem (glo), cedendo a uma medida que entregaria a segurança federal ao comando militar — exatamente o objetivo dos golpistas.

o erro só foi evitado pela intervenção direta e enfática da primeira-dama, janja. com preparatório técnico na escola superior de guerra e participação nas equipes de transição, ela alertou imediatamente: «glo não, glo é golpe». a análise fundamentada de janja sobre segurança nacional foi decisiva para que lula recuasse, rejeitasse a tutela militar e optasse pela intervenção civil no distrito federal.
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bets
no flow podcast, igor perguntou por que lula tomou a decisão de restringir as bets faltando poucos dias para as eleições. lula respondeu que não tinha noção da gravidade do problema e que, ao conversar com as pessoas, percebeu que era urgente agir.
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feminicídio
no mesmo podcast, lula agradeceu publicamente à primeira-dama por alertá-lo com insistência sobre a gravidade da violência contra a mulher no país. ele afirmou que, se não fosse pelo aviso dela, poderia ter se limitado a emitir apenas uma nota de solidariedade institucional em vez de articular ações governamentais concretas.
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antes do fim eu queria deixar um recado para o presidente lula

meu caro presidente lula

apesar dos pesares eu espero que a maioria do povo brasileiro faça como eu e vote em você

porque ao contrário de você eu continuo rebelde

um rebelde que não precisa que ninguém lhe diga que ninguém lhe lembre que ninguém lhe alerte de que o que está em jogo nestas eleições é o pouco que ainda nos resta de democracia e soberania

e de que mesmo que você ganhe — tomara que ganhe — se depender de você do congresso e do povo brasileiro (que você, em anos de governo, só fez despolitizar) não sei quanto tempo essa democracia ainda vai durar

e para ela durar não esqueçamos de votar

ponto
nova linha

tava assistindo ontem o flow
quando no final
lula faz essa declaração
«o político honesto que você quer, está dentro de você, cara. ao invés de você ficar protestando, entra na política. seja candidato a alguma coisa. participe de um partido político. participe da comunidade do seu bairro. não fique paralisado, não fique achando que ninguém presta. SEJA EU AMANHÃ. PORQUE EU JÁ FUI VOCÊ ONTEM.»

nesse momento
não pude não lembrar de deogar
«o velho» era um homem honesto
dos mais honestos que conheci
era um homem de partido
seu partido era o pt
«o velho» era um animal político
se candidatou a vereador
se elegeu
foi um excelente vereador
mas
por alguma razão
disse não à reeleição

segundo li por aí
o jornalista e radialista deogar soares decidiu não concorrer à reeleição para o cargo de vereador em pelotas (pleito de 2000, após o mandato conquistado em 1996) devido a uma profunda desilusão com o ambiente político. 
deogar, conhecido por sua atuação marcante na comunicação local e em programas tradicionais como o treze horas, entrou para a política institucional com um forte idealismo romântico e transformador. no entanto, conforme recordam amigos próximos e cronistas da política pelotense, ele se deparou com as barreiras e a rigidez do sistema político tradicional. 
essa experiência gerou o que seus pares descreveram como uma frustração, o que o levou a cumprir apenas um único mandato e a se afastar voluntariamente das urnas para retornar integralmente à crônica e ao jornalismo.
«o velho»
pra mim
era um mestre
«uma grande figura humana que foi também um dos maiores e melhores comunicadores que pelotas gerou. além de jornalista e radialista, deogar foi também um talentoso fotógrafo. as fotos, em preto e branco, traduziam seu mundo, de poética e rara inspiração. "o velho" – como era chamado entre amigos marcou com o seu programa na rádio alfa-fm "vôo livre". em pequenas crônicas, lidas por ele mesmo, cuja voz era sonora e bem timbrada, deogar a todos emocionava com sua verdade, ironia e transcendência. seus textos eram carnações nervosas e poéticas, traduzindo o seu e o nosso cotidiano. no fim da vida, o velho tinha no olhar emanações tristes, talvez por ter tido o impulso de mudar coisas que são imutáveis, e ele soube disso tardiamente.»
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domingo no parque

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5055 deputado federal: jurandir silva
50999 deputada estadual: fernanda miranda
500 senadora: manuela d'ávila
131 senador: paulo pimenta
12: governadora: juliana brizola
13 presidente: lula

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foto 1: deogar
nauro júnior

foto 2: enilton
vivi valente

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas