segunda-feira, 31 de agosto de 2026


jogos de armar

«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

maria elizabeth gastal fassa


«a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»

manoel de barros

boi, boi, boi cara de louça
pega o toim zé que ele tem medo de moça
boi, boi, boi cara de lua
toim zé ainda chora
quando vê moça nua

👇

spotify (letra na descrição)

gênio

tem quem diga que é
e tem quem seja
eu não sou
nem digo que sou
quem diz que é
que seja
o que não é o caso de tom zé
tom zé diz que não é
mas é

e chico?

não fode
chico é chico
chico é pra quem pode

grill

tom zé, o gênio de irará
[vira lata da via láctea]

de onde veio essa ideia de vira-lata da via láctea?
tom zé - começou com caetano me pedindo uma letra. tive a ideia de falar sobre o planeta terra ainda bem jovem, quando tudo começou mesmo, e existia uma promessa de que um dia haveria vida aqui. o ser humano, nesse tempo, era uma coisa impensável. escrevi a letra como se fosse essa criatura. e depois, como não poderia deixar de ser, eu sorri de mim mesmo. eu virei o vira-lata no meio de todos esses artistas. quem não ri está perdido.
— por que vira-lata?
tom zé - posso dizer que gil e caetano são gênios porque convivi com eles de perto. eu, na verdade, sou um trabalhador contumaz, sou obsessivo, não tenho nenhuma das capacidades que eles têm. para tirar meia-dúzia de palavras e compassos eu trabalho 14 horas por dia, não tenho aquela compreensão instantânea. eu não sou um gênio. reivindico o direito de informar que não sou um gênio. e não é humildade. para viver de música no brasil, é preciso ser muito pretensioso. ave-maria, com chico buarque, roberto carlos, erasmo carlos… não vou lembrar de um terço desses que assombram a gente. vi paul mccartney, que fez shows no brasil em novembro. você viu o paul? nunca tinha visto um artista tão grande.quelas moças que a câmera mostrava, elas estavam chorando. e eu também estava chorando aqui em casa. não é possível ver uma criatura daquelas e não chorar. é de outro mundo. ele vem com uma simplicidade, cantando coisas inacreditáveis…




é elevando sinhá inácia
melânia, pedro piroca
que irará chegará lá lá
irará, irá lá, irá lá

👇

spotify (letra na descrição)

aí ai
meu bem
tire a calcinha,
aí ai
galope meu laptop,
hum hum,
me clone
aí no seu smartphone
me bote on line não me largue
ipad, ipad, ipod, aípode.
vem depressa, porque
meu bem, meu bem, meu bem,
daqui a alguns anos
vamos ter de governar – ah, ah!
daqui a alguns anos
vamos ter de governar – ah, ah!
daqui a alguns anos,
infelizmente governar.
oh, e os nossos ideais, ai, quem diria
no mesmo camburão da burguesia.
uma renca de parentes atender
nos ritos e delitos do poder
PUTA, QUE TRAGÉDIA!
desaba sobre nós,
logo depois que a ilusão tem voz.
oh oh yes!
wireless
um et
dentro do hd,
mas, além disso,
o ambiente é compromisso
porque já somos o pós-humano
e o novo antropomórfico bando ô
vem depressa, porque
meu bem, meu bem, meu bem...

👇

[do álbum: vira lata na via láctea]
*grifo do autor


vem depressa, querido... trabalhando bem cedo, fones no ouvido, tom zé a todo volume, quando escuto ao fundo a voz da vivi. — vem depressa, querido, acho que os vizinhos estão brigando. a briga era feia. não deu dois minutos e a vizinha bateu na porta. abrimos e ela entrou correndo. o homem ficou na rua, alterado. fechei a cara, abri a porta: — o que foi? ele baixou a cabeça e foi saindo de fininho. entrei e vi a mulher contando pra vivi. hematomas nos braços, no pescoço, o olho roxo. apavorada. vivi e eu nos olhamos: polícia, boletim de ocorrência, maria da penha. a vizinha concordou com a cabeça. naquela manhã, vi um homem algemado ser levado no camburão. grill


de volta a tom zé


5 grandes músicas sobre mulheres

👇

[arte 1]


aproveitando que tom zé lembrou «mulheres de atenas»...


«o que quer a mulher?» (was will das weib?) - a pergunta irrespondida que se fez freud, em carta a maria bonaparte, ressoa singularmente na alta poesia de chico buarque. não que se pretenda que a resposta tenha sido dada, pois, como já cantou caetano veloso, «ninguém sabe mesmo o que quer uma mulher».

mas as canções de chico, como as de poucos na música popular brasileira, tematizam a mulher e seu desejo.

adélia bezerra de meneses | figuras do feminino na canção de chico buarque, p. 15.


«às vezes coloco a mulher numa posição submissa, justamente para denunciar, embora algumas feministas não gostem. vejo o movimento de minorias importante, mas dentro de um contexto geral. não acredito, entretanto, que a liberação da mulher sozinha, independente de todo o resto, resolva alguma coisa. é preciso estar aliada a um movimento geral de libertação do ser humano.»

chico buarque


mirem-se no exemplo daquelas mulheres de atenas
geram pros seus maridos os novos filhos de atenas
elas não têm gosto ou vontade
nem defeito nem qualidade
têm medo apenas
não têm sonhos, só têm presságios
o seu homem, mares, naufrágios
lindas sirenas
morenas

com depoimento de chico
do dvd à flor da pele


o beijo

anonio pujía escolheu, ao acaso, um dos blocos de mármore de carrara que vinha comprando ao longo dos anos.

era uma lápide. viera de alguma tumba, sabe-se lá de onde; ele não tinha a menor ideia de como tinha ido parar em seu ateliê.

antonio deitou a lápide sobre uma base de apoio, e começou a trabalhar. tinha alguma ideia do que queria esculpir, ou talvez nenhuma. começou por apagar a inscrição: o nome de um homem, o ano do nascimento, o ano do fim.

depois o cinzel penetrou no mármore. e antonio encontrou uma surpresa, que estava esperando por ele pedra adentro. o veio tinha a forma de duas caras que se juntavam, algo assim como dois perfis unidos frente a frente, o nariz grudado no nariz, a boca grudada na boca.

o escultor obedeceu à pedra. e foi escavando, suavemente, até que cobrou relevo aquele encontro que a pedra continha. no dia seguinte, deu o trabalho por concluído. e então, quando levantou a escultura, viu o que não havia visto antes. ao dorso, havia outra inscrição: o nome de uma mulher, o ano do nascimento, o ano do fim.

eduardo galeano | bocas do tempo, p. 29.


o beijo que eu não dei
o verso – azul – a cor
com quem eu vou pra lá?
espero abril – e tu
me dê – me dando – ri
morango - eu gosto – vem
saudade de quem for
de quem eu vou gostar
a magia sempre cria
luzes, luzes lá
o jeito dá um jeito
cruzes, cruzes lá
vejo um nada – feito nada
vejo – VEJO lá
( sempre vejo lá)
a morte vive aqui
o medo dela é meu
a mão - armada voz
angustia – é o não fazer

👇

do álbum: juntos (1981)
*grifo do autor



demanda de amor, busca de felicidade, elã de reintegrar uma completude para sempre perdida, necessidade de comunhão, ânsia insofrida por um objeto não nomeado. falando de desejo, diz octavio paz:

«más allá de ti, más allá de mí, por el cuerpo, en el cuerpo, más allá del cuerpo, queremos ver algo. no sabemos a ciencia cierta, lo que es, excepto que es algo más. más que la historia, más que el sexo, más que la vida, más que la muerte.» (além de você, além de mim, pelo corpo, no corpo, além do corpo, queremos ver algo. não sabemos ao certo o que é, exceto que é algo mais. mais do que a história, mais do que o sexo, mais do que a vida, mais do que a morte.»)

não só à mulher, também ao homem caberia a pergunta que se coloca freud. ela há de ser reformulada: «o que querem a mulher e o homem?»

adélia bezerra de meneses | figuras do feminino na canção de chico buarque, p. 159.


o que será que será
que todos os avisos não vão evitar
porque todos os risos vão desafiar
porque todos os sinos irão repicar
porque todos os hinos irão consagrar
e todos os meninos vão desembestar
e todos os destinos irão se encontrar
e mesmo o padre eterno que nunca foi lá
olhando aquele inferno, vai abençoar
o que não tem governo, nem nunca terá
o que não tem vergonha nem nunca terá
o que não tem juízo

👇

do álbum: meus caros amigos (1976)
spotify (letra na descrição)


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

domingo, 30 de agosto de 2026


só para os raros, só para os loucos
[para meu irmão]


antes do fim

recentemente, por ocasião do aniversário da minha mãe, ela e eu conversávamos sobre a minha rotina e os motivos que me levavam a escrever. falei que o meu dia a dia era pesado, de trabalho duro no repecho, e que, quando me sentava diante do computador, cansado de falar sobre a vida dos outros, descansava falando sobre a minha.

enfim,
assim tem sido
e assim será
até o fim.

grill


«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

«não estou minimamente interessado em salvar quem quer que seja. ninguém precisa ser salvo. a única coisa que posso fazer é falar de quem sou e do que me sucedeu. eu não carrego pesos, não levo às costas os males do mundo [...] apenas gosto de partilhar a minha experiência, e essa partilha traz-me uma grande alegria.»

osho

ao vento 

já disse isso aqui
e volto a repetir
quanto mais escrevo
menos leitores tenho
quanto menos leitores tenho
mais escrevo
mas escrevo para quem, então?
só para os raros, só para os loucos
ambos cada vez mais raros
cada vez mais loucos
e antes que alguém me acuse de «vitimização» e «coitadismo»
não estou advogando em causa própria
nem poderia
não sou advogado
aliás
diga-se de passagem
não sou advogado
não sou jornalista
não sou agricultor
não sou professor
não sou poeta 
não sou escritor
não sou autor
o melhor que faço
modéstia à parte
é falar de mim
da minha vida
sou um contador de histórias
histórias de mim mesmo
por quê? porque eu quero
será arte? não sei
aliás, falando em arte
não confunda arte com comercial de margarina
arte é sina
digo isso
pois há quem confunda o narrador com o autor
não é o meu caso
eu preferiria ser um condor
do que um artista ou escritor
sim
eu preferiria
se eu pudesse

grill

para longe, prefiro navegar para longe
como um cisne que passa e já se foi
um homem que fica preso ao chão
ele dá ao mundo
sua canção mais triste
sua canção mais triste

👇

simon & garfunkel
(com cenas em machu pichu)

«o que é um artista? é alguém que tem antenas, que sabe se ligar às correntes que estão na atmosfera, no cosmos; ele apenas tem facilidade para fisgar, por assim dizer. quem é original? tudo que fazemos, tudo que pensamos, já existe, e somos apenas os intermediários que usamos o que está no ar, só isso.»

henry miller

sobre o ouvir

o ato de ouvir exige humildade de quem ouve. saber, não com a cabeça mas com o coração, que é possível que o outro veja mundos que nós não vemos.

para sair do círculo fechado de nós mesmos, é preciso que nos coloquemos fora de nós mesmos. para se ouvir de verdade, é preciso colocar entre parênteses, ainda que provisoriamente, as nossas opiniões.

é norma de boa educação ficar em silêncio enquanto o outro fala. mas esse silêncio não é verdadeiro. é apenas um tempo de espera: estou esperando que ele termine de falar para que eu, então, diga a verdade.

rubem alves

«descendo das montanhas onde passara dez anos de solidão, zaratustra se encontra com um eremita que vivia numa floresta. passara por ele dez anos antes, quando subia. o eremita se espanta: "sim, reconheço zaratustra", ele diz. "seus olhos são puros, em sua boca não se esconde nenhum desgosto. e não anda ele como um dançarino?»

nietzsche

yo era el rey de este lugar
tenía cien capas de seda fina 
y estoy desnudo 
si quieren verme bailando 
a través de las colinas

charly garcía

👇

sui generis 
[con letra]

👇

[en el ch75 de hoy conocimos el detrás de escena de la canción de sui generis que está inspirada en la revolución francesa]

👇

charly garcia 
en vivo 
2005

👇

[videoclip oficial] 
por ia

«e aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música»

nietzsche

perdoname amor por tanto hablar
es que quiero ayudar al mundo a cambiar
que loco
si realmente se pudiera
y todo el mundo se pusiera alguna vez
a realizar

david lebón

👇

david lebon
(official video) ft. Fito Paez

👇

david lebón en vivo en el cck
con hilda lizarazu 

👇

mercedes sosa . ft. oveja negra

ao vento

nunca foi meu dever reconstruir o mundo todo
nem é minha intenção tocar um chamado à guerra 
sou vendedor de canções e arqueiro na fronteira do nada

autor desconhecido

«será que a loucura pode ser provocada por excesso de lucidez?»

ao vento 

acreditem ou não
no mundo como ele é 
é muito boa a sensação de 
lançar palavras ao vento 
e tão poucos voarem com elas 
é a comprovação 
de que a roda gira para um lado 
e nós para o outro

grill

«yo sigo siendo tan inocente que, me sigue alumbrando la bendita esperanza de que un día, los poetas gobernarán el mundo.»

la realidad duerme sola en un entierro
y camina triste por el sueño del más bueno.
la realidad baila sola en la mentira
y en un bolsillo tiene amor y alegrías,
un dios de fantasías,
la guerra y la poesía.

león gieco

👇

[legendado]

👇

porsuigieco . remasterizado

👇

mercedes sosa / león gieco / nito mestre 
 en vivo

👇

charly garcía & león gieco
video registrado durante los festejos de los 400 años de la universidad nacional de cordoba. 
(derechos reservados)

👇

leon gieco y nito mestre 
 acusticazo b.a.rock 
8 de junho de 2017

- quem estará nas trincheiras...
- e isso importa?
- mais do que a própria guerra.


fotos

1. eu, meu pai (ao fundo) e meu irmão
são luís, 1984
2. león gieco y charly garcía 
(do álbum: porsuigieco)
3. eu
4. meu irmão 

bom domingo

sábado, 29 de agosto de 2026


viagem interior urbana 

••••••••••••••

mande notícias do mundo de lá, diz quem fica
me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando
coisa que gosto é poder partir sem ter planos
melhor ainda é poder voltar quando quero

fernando brant 

••••••••••••••

o trem 

o trem não é apenas o veículo que desloca corpos entre a cidade e o interior; é o vetor da própria travessia íntima, onde «chegar e partir são dois lados da mesma viagem» — a mesma dupla dimensão geográfica e subjetiva de subtesur e subtemí.

••••••••••••••

subte 

em «subte», vitor ramil utiliza o metrô de buenos aires como cenário para explorar temas de introspecção e isolamento. o «subte», mais do que um meio de transporte, simboliza um mergulho interior, onde a escuridão dos túneis representa momentos de reflexão e afastamento do cotidiano. o verso «yo dejo el sol detrás de mí / y bajo hondo en la ciudad» («deixo o sol para trás / e mergulho fundo na cidade») mostra esse afastamento da superfície iluminada para um espaço subterrâneo, silencioso e anônimo...

a lua, que «me viene a buscar», surge como uma metáfora para a esperança ou luz que persiste mesmo nos períodos mais escuros. o sentimento de deslocamento aparece no trecho «hay tanta gente en el vagón / todos me miran sin parar» («há tanta gente no vagão / todos ficam me olhando sem parar»), indicando solidão e estranhamento mesmo em meio à multidão. 

as expressões «subtemoon» e «subtedream», que misturam inglês e espanhol, ampliam o caráter universal e onírico da experiência. já «yo viajo en el subtesur / yo viajo en el subtemí» («eu viajo no subtesur / eu viajo no subtemí») sugere que a viagem é tanto física (ao sul, em buenos aires) quanto subjetiva (um mergulho em si mesmo). 

o tempo que «pasa y siempre queda allá» («passa e sempre fica lá») e a vida «inmóvil» («imóvel») no trem reforçam a ideia de suspensão e reflexão, transformando o «subte» em um espaço simbólico de autoconhecimento em meio à rotina urbana.

••••••••••••••

yo dejo el sol detrás de mí
y bajo hondo en la ciudad
la lengua que hablan por aqui
es toda hierro y oscuridad
del tunel llega una luz
la luna me viene a buscar

👇

[do álbum: tambong]

••••••••••••••

«vento
que vem das esquinas
e ruas vazias
de um céu interior»

vitor ramil

••••••••••••••

ao vento

hoje em dia, milhões de brasileiros passam horas sob a terra, habitando a penumbra dos metrôs nas capitais e metrópoles. não é o meu caso. minha geografia é outra. o mais próximo que estive desse trânsito subterrâneo foi ao cruzar a superfície nos trilhos do trensurb, em porto alegre. contudo, a ideia desse subterrâneo fascinante veio ao meu encontro quando, conversando por whatsapp com um amigo radicado há anos em são paulo, ele me contava sobre sua rotina no metrô, a caminho do trabalho — e sobre o manancial vivo de histórias que brota desse contato diário com a infinidade de tipos humanos gerados pela megalópole. 

••••••••••••••

a franja da encosta cor de laranja, capim rosa chá
o mel desses olhos luz, mel de cor ímpar
o ouro ainda não bem verde da serra, a prata do trem
a lua e a estrela, anel de turquesa

os átomos todos dançam, madruga, reluz neblina
crianças cor de romã entram no vagão
o oliva da nuvem chumbo ficando pra trás da manhã
e a seda azul do papel que envolve a maçã

👇

  [caetano ao vivo 2012]

••••••••••••••

falando em maçã

••••••••••••••

«sorridente, rapaz
pela continuidade do sonho de adão»

gil

••••••••••••••

considere, rapaz
a possibilidade de ir pro japão
num cargueiro do lloyd lavando o porão
pela curiosidade de ver
onde o sol se esconde

👇

[ao vivo na usp 1973]

••••••••••••••

a propósito da foto, diz o próprio gil: «sempre que penso em londres, me vem o «london underground». nunca quis viver fora do brasil, mas londres é uma das cidades mais interessantes do mundo, e tenho sorte de ter vivido lá.»

••••••••••••••

downtown train

«trem do centro» é uma das sínteses mais bonitas da música sobre a melancolia noturna dos trens urbanos. a canção transforma o vagão do metrô/trem da cidade em um ambiente onírico e solitário, no qual o narrador observa o desfile anônimo dos passageiros enquanto busca um sentido para o seu próprio desejo na escuridão da metrópole.

••••••••••••••

lá fora tem outra lua amarela
rasgando a noite, sim
eu saio pela janela e desço pra rua
brilhando como uma moeda nova

os trens do centro estão lotados de garotas do brooklyn
elas estão sempre tentando fugir de seus mundinhos

você acena com a mão e elas voam como corvos
elas não têm nada que possa capturar seu coração
elas são apenas espinhos sem rosa
tenha cuidado com elas na escuridão

ah, se eu fosse aquele
que você escolheu pra ser seu único
ah, meu bem, você consegue me ouvir?
você consegue me ouvir?

será que vou te ver hoje à noite
num trem do centro?
toda noite é a mesma coisa
você me deixa só, e agora

sei qual é a sua janela e sei que está tarde
conheço suas escadas e sua porta
ando pela sua rua e passo pelo seu portão
paro sob a luz da rua na esquina

você os observa enquanto eles caem
todos eles com o peito em colapso
eles ficam nos parques de diversões
mas nunca te ganharão de volta

será que vou te ver hoje à noite
num trem do centro?
toda noite, toda noite é a mesma coisa
ah, meu bem
oh, baby

👇

[clipe legendado em português]

••••••••••••••

noutras palavras: o «trem» de tom waits e o «subte» de vitor ramil são o mesmo reservatório de almas anônimas e luzes vacilantes — convulsões de trilho e metal que cortam a cidade na penumbra.

••••••••••••••

hay tanta gente en el vagón
todos me miran sin parar
sus ojos sueñan mi visión
¿que hago yo en este lugar?
el tunel me hace comprender
la luna me puede llevar

👇

[mudras: canciones de a dos]

••••••••••••••

«"subte" é um poema de amor que vitor ramil dedica ao subterrâneo de buenos aires. ele é, como eu, um apaixonado por trens — especialmente os subterrâneos — e por toda a mística que eles carregam: essa atmosfera de lugar semioculto, meio labiríntico, profundamente borgiano. vitor vive um verdadeiro idílio com buenos aires e com a cultura rioplatense em geral. filho de pai uruguaio, cultor da milonga e do candombe, é um homem profundamente pampeano que teorizou com muita precisão sobre a irmandade cultural dos povos do rio da prata, incluindo o sul do brasil.»

pedro aznar 

••••••••••••••

         ao vento

           aquele
        labirinto
        sem portas 
        nem fim de 
      borges guarda
     na penumbra do 
     degrau um ponto 
        minúsculo
    onde o cosmos inteiro
        se condensa 
 a marca exata da travessia 
           para 
         um mundo 
       mais sólido, 
    perene e profundo

              grill

••••••••••••••

e as pessoas se curvaram e rezaram
ao deus de néon que criaram...
e o letreiro dizia: «as palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrô
e nos corredores dos cortiços»

👇

[live at central park, new york, ny - 19 september 1981] 

••••••••••••••

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026


words

••••••••••••••

«o amor às palavras está completamente cravado no meu peito. é irreversível e sem ele não viveria. mas sou um disperso. meus olhos procuram milhares de fragmentos, alguns deles mundanos, banais, descartáveis. de tudo procuro tirar elementos... para a minha felicidade estética e emocional. às vezes descubro nesse mundaréu certos alguéns, livros, canções, poemas ou situações que acabam me somando importâncias e me ajudam a descobrir emoções, olhos e palavras.»

celso borges (cb)

••••••••••••••

vim pelo caminho difícil
a linha que nunca termina
a linha bate na pedra
a palavra quebra uma esquina

mínima linha vazia
a linha, uma vida inteira
palavra, palavra minha
palavra, palavra minha


••••••••••••••

ao vento

por enilton grill

é conhecido o diálogo entre charles chaplin e albert einstein no primeiro encontro dos dois. o gênio da física diz ao gênio do cinema mudo: «o que mais admiro na sua arte é a universalidade. você não diz uma palavra e, ainda assim, todo o mundo o entende». a resposta: «é verdade. mas sua fama é ainda maior: o mundo admira você sem entender uma palavra do que você fala».

noutras palavras: vivemos uma vida de dores caladas, de dores não faladas, de dores escondidas. quando as pessoas começarão a ser e deixarão de não ser?

hamlet é o personagem que mais fala na peça de shakespeare; recita 1.507 linhas. suas últimas palavras são: «o resto é silêncio».

••••••••••••••

el silencio no es una palabra
escrita sobre una pared
es una canción solitaria por el viento
que no se detiene en el medio de un infierno

es una canción solitaria por el viento
que no se detiene
en el medio de un infierno

👇

[do álbum: el fantasma de canterville]

••••••••••••••

calesita: carrossel
sortija: jogo que consiste em adivinhar a quem foi dado o anel que um dos participantes leva entre as mãos.
hamaca: rede
bostejo: bocejo.

••••••••••••••

ao vento

ando contra o vento
e de peito aberto
minha vida não é um filme
é um livro aberto

grill

••••••••••••••

esse teto frágil sustentando a lua
esse livro aberto como uma saída
o tapete e seu plano de vôo
o lençol revolto antecipando o gozo
essa velha casa de coral
essa concha muda que o meu sonho habita
a paixão invicta que não vai passar
se você vier

esse rádio doido de olhos valvulados
esse livro aberto como uma sangria
esse poema novo sem papel
o papel que cabe aos meus sapatos rotos
o meu rosto que o espelho não vê
a janela imóvel em seu desatino
esse meu destino que não vai passar
se você vier
👇

do álbum: foi no mês que vem
marcos suzano & orquestra de câmara do theatro são pedro

••••••••••••••

oh mercy

por bob dylan

era 1987, e minha mão, que tinha sofrido um ferimento medonho em um acidente maluco, estava em recuperação. ela fora rasgada e estraçalhada até os ossos e ainda se encontrava no estágio agudo --- eu nem a sentia como se fosse minha. não sabia o que havia acontecido comigo, e era uma guinada bizarra na sorte. todas as potencialidades tinham se despedaçado. com uma centena de shows marcados para mim a partir da primavera, não era certo que eu fosse capaz de me apresentar. foi uma experiência grave. ainda estávamos em janeiro, mas minha mão precisaria de um bocado de tempo para se curar e se reabilitar. olhando através da janela para um jardim crescido demais, com uma tala que ia da mão quase até o cotovelo, percebi que meus dias como instrumentista poderiam ter acabado. em certo sentido, teria sido adequado, pois até então eu estivera folgando comigo mesmo, explorando o que quer que eu possuísse de talento além do ponto de ruptura. eu já sabia disso há um tempo. recentemente, porém, o cenário havia mudado, e agora as implicações históricas da situação me preocupavam.

o público fora alimentado com uma dieta constante de minhas gravações em disco durante anos, mas minhas apresentações ao vivo jamais pareceram capturar o espírito interno das canções --- haviam fracassado na hora de turbiná-las. a intimidade, entre muitas outras coisas, tinha ido embora. havia muitos motivos para isso, motivos para o caldo ter entornado. sempre prolífica, mas nunca exata, minha trilha musical transformara-se em uma selva de trepadeiras por causa do excesso de distrações. eu estivera seguindo meus próprios instintos, e eles não estavam mais funcionando. as janelas haviam ficado tampadas durante anos e recobertas por teias de aranha, e não que não soubesse.

eu estivera numa turnê de dezoito meses com tom petty e os heartbreakers. seria a minha última. eu não estava conectado a nenhum tipo de inspiração. para começar, o que quer que tenha estado ali antes havia sumido e encolhido por completo. tom estava no topo do lance dele, e eu no fundo do meu. eu não conseguia superar as adversidades. estava tudo despedaçado. minhas próprias canções haviam se tornado estranhas para mim, eu já não tinha habilidade para tocar seus nervos expostos, não conseguia penetrar além das superfícies. não era mais o meu momento na história. o que eu cantava tinha se tornado vazio e sem coração, e eu não aguentava mais esperar para desmontar o acampamento e me recolher. eu era o que chamavam de maduro demais. se não tomasse cuidado, acabaria esbravejando aos berros com as paredes. o espelho havia girado ao contrário, e eu podia ver o futuro -- um velho ator furungando em latas de lixo do lado de fora do teatro de seus triunfos do passado.

eu tinha escrito e gravado muitas canções, mas não tocava muitas delas. acho que só estava habilitado em relação a umas vinte. as restantes eram críticas demais, tinham um ar sombrio demais, e eu não era mais capaz de fazer nada de radicalmente criativo com elas. era como carregar uma carga de carne putrefata. não podia entender de onde elas tinham vindo. a luminosidade se fora, e o fósforo havia queimado até o fim. eu ia fingindo. tentava de tudo, mas o motor não dava partida.

benmont tench, um dos músicos da banda de petty, sempre me sondava, quase em tom de súplica, sobre a inclusão de números diferentes no show. «chimes of freedom» --- podemos tentar essa? e que tal «my back pages»? ou «spanish harlem incident»? e eu sempre dava uma desculpa esfarrapada. na verdade, não sei quem dava a desculpa, pois eu havia fechado a porta para o meu próprio eu. o problema era que, depois de contar por tanto tempo com o instinto e a intuição, eles haviam se transformado em abutres e estavam me sugando até a última gota. até mesmo a espontaneidade havia se tornado uma cabra cega. meu monte de feno não estava amarrado, e eu comecei a temer o vento.

bob dylan | crônicas: volume um, p. 161 a 166.

••••••••••••••

mãe, guarde minhas armas
minha camisa e meu chapéu
aquela enorme nuvem negra está descendo
acho que estou batendo na porta do céu

👇

knockin' on heaven's door | bob dylan | 1973
[from the hard to handle concert film.
bob dylan, backed by tom petty and the heartbreakers during their australian tour in 1986.]

••••••••••••••

ao vento

um dia olhei pro céu
e vi montevidéu
hoje eu até tento
mas nem inventar mais eu invento

grill

••••••••••••••

vento
que joga na mala
os móveis da sala
e a sala também

leva
um beijo bandido
um verso perdido
um sonho refém

que eu não possa ler, nem desejar
que eu não possa imaginar

oh, vento que vem
pode passar
inventa fora de mim
outro lugar

👇

do álbum: satolep sambatown
[clipe oficial]

••••••••••••••

de volta ao começo
no princípio era a «palavra»

••••••••••••••

«“words” é a primeira música que revela um pouco dos meus dilemas existenciais. eu era jovem quando percebi os jogos mentais que os outros tentavam fazer comigo. havia tantas pessoas por perto o tempo todo, falando e falando, sentadas em um círculo fumando cigarros na minha sala de estar. nunca tinha sido assim antes. sou uma pessoa muito só e reservada. a paz estava indo embora. estava mudando muito rápido. eu me lembro de ter pulado pela janela da sala de estar para o gramado para sair de lá - eu não podia esperar o suficiente para abrir a porta!»

neil young

••••••••••••••

fulano e sicrano estavam perto do lago
procurando algo para plantar no gramado
lá fora, nos campos, eles estavam virando a terra
estou sentado aqui esperando que a água ferva
quando olho para a estrada através da janela
estão me trazendo presentes e me cumprimentando

cantando palavras, palavras entre as linhas do tempo
palavras, palavras entre as linhas do tempo

se eu fosse um ferro velho vendendo carros
lavando suas janelas e brilhando suas estrelas
pensando que sua mente era a minha em um sonho
o que você se perguntaria e como isso pareceria?
vivendo em castelos um pouco de cada vez
o rei começou a rir e a falar em rima

cantando palavras, palavras entre as linhas do tempo
palavras, palavras entre as linhas do tempo

[clipe / masterpiece]

••••••••••••••

e benjamín, o pastor?

••••••••••••••

jamás has notado
que liviano caen los sueños
de los pájaros
en silencio

jamás has notado
que tenerle miedo a la gente
es irse de cabeza
hacia el centro de la tierra

benjamín era casi un pastor
pero le faltaba saber
que por el mundo había
muchas ovejas muertas

jamás has notado
que los árboles sencillos
pueden crecer y levantarse
en cualquier sitio

jamás has notado
que pocas palabras quedan
en la cabeza
de los poetas

👇

do álbum: el fantasma de canterville

••••••••••••••

#choveemsatolep
#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quinta-feira, 27 de agosto de 2026


ave rara! ave rada!
[morrendo e aprendendo] 

••••••••••••••

«aprendi a cantar atrás dos tambores»

rubén rada 

••••••••••••••

entrevista com rubén rada 

por: ariel fagundes
para: revista noize

8 de novembro, 2023

noize: como o público negro uruguaio recebeu seu som, o que achou de misturar o candombe com outras musicalidades?

rubén rada: é porque o candombe, como todos os ritmos do mundo, como o samba, o frevo, tudo, não tem música, é um ritmo. e nós, os músicos, roubamos o ritmo para fazer música. mas o ritmo na rua não precisa de música. você pode cantar o que quiser. eu aprendi a cantar atrás dos tambores. ali eu aprendi a entender o ritmo e a gostar disso. quando eu era muito pequeninho, tinha a banda policial, a banda da marinha, e eu ia atrás, sem sapatos, nada. descalço, atrás da banda.

noize: mas as pessoas entenderam quando surgiu o chamado «candombe-beat»?

rada: não, eles não entendiam, especialmente os negros. a gente sabe que, no mundo inteiro, as raças, ainda que sejam a mesma, todas pensam diferente. então a maioria dos negros não gostava. mas outros, que eram mais modernos, entendiam e gostavam dessa música. mas tem muito mais brancos no uruguai. nós éramos, na época, nos anos 1950 ou 1960, uns 10% da população. e depois os militares [na ditadura de 1973-1985] derrubaram os cortiços, que eram como se fosse o harlem, onde moravam todos os negros, e todo mundo fazia a sua música. em uma festa de negros, você entra e já tem festa. em uma festa de brancos, ninguém fala, até que comece o álcool ou o baseado, e as pessoas comecem a ficar à vontade. em uma festa de negros, chega um negro com uma roupa toda azul e com uma boina verde, por exemplo, e todo mundo: «olha, parece um passarinho», e aí começa a festa. 

noize: hoje não há dúvidas de que você é uma das pessoas mais importantes para a cultura afro-uruguaia, se não a mais importante.   

rada: sim. eu trabalhei muito para isso. sofri muito também.  

noize: que tipo de sofrimento?

rada: de racismo. todo mundo critica todo mundo. e nós, negros, criticamos também. quando eu tive uma namorada branca, minha mãe disse: «não, ela vai rir de você. deixa isso. quando tiverem um filho, ele vai ser diferente na escola». todos somos racistas, o negro também. se você for à áfrica, e for uma mulher branca, a família do negro prefere que você se case com uma mulher negra. e isso é uma coisa que eu não tinha a consciência que agora eu tenho. 

noize: essa questão vem avançando no uruguai?

rada: sim, mudou no mundo. eu me lembro do primeiro casamento do sammy davis jr., que se casou com uma mulher branca e judia. a minha esposa é branca e judia. mas naquele momento foi uma coisa que as pessoas não conseguiam entender, que nem quando o john lennon se apaixonou pela yoko. o pobre inglês odiava aquela mulher, e fizeram muito mal a ela somente porque era japonesa. o mundo foi muito cruel e é muito cruel agora também. então, o importante é o que minha mãe falou pra mim: «você não está mal, não está doente, os doentes são eles». então aprendi isso, se tem uma pessoa que não gosta de mim porque eu sou negro, bom, que siga seu caminho. eu sigo o meu. devo isso à minha mãe. como falava malcolm x, eu não posso esperar que o branco entenda que o preto é igual a ele. era isso o que propunha o martin luther king: paciência com o branco. e o malcolm x dizia: «eu tenho uma vida só, não tenho tempo de vida pra ter paciência e esperar que o branco me entenda, eu quero viver agora».

noize: e além do racismo, você teve também que enfrentar a ditadura no uruguai.

rada: sim! mas era tão ignorante a polícia do uruguai. eu havia gravado uma canção que dizia: «si te gusta comer manzanas/ son más frescas por la mañana» [«se você gosta de comer maçãs/ são mais frescas pela manhã»]. então eu era muito conhecido como um homem divertido. e aí nós vínhamos em um táxi, cinco pessoas, e os militares nos pararam. e eu havia gravado com totem: «dedos son dedos, días son días/ madres son madres, hijos son crías/los pensamientos son todos míos/ pero mi lengua ya no es tan mía» [«dedos são dedos, dias são dias/ mães são mães, filhos são crias/ os pensamentos são todos meus/ mas minha língua já não é tão minha»]. porque você não podia falar. mas eles não entendiam essa letra, eles pensavam que o rada era um negrinho que cantava «las manzanas». «ah, vocês estão com o negro rada! canta pra mim!», e nos deixaram passar. mas eu era de esquerda, estava contra eles. apesar de que eles mataram muita gente de esquerda, eu pensava que os comunistas eram inteligentes, por isso que [os militares] iam e queimavam os livros, os quadros e tudo da gente. eles não eram bobos, sabiam que havia gente capaz. e bom, assim foi sempre. foi duro chegar aos 80 anos. e agora todo mundo me quer, todo mundo me respeita. mas politicamente sempre estou do lado do povo. sempre. 

noize: e como você vê a ascensão da extrema direita no uruguai e aqui no brasil?

rada: bom, eu não gosto, mas não posso falar mais nada. porque, quando você fala fora do país, eu jamais falo «eles, os uruguaios». não, eu falo «nós, os uruguaios». eu sou culpado de tudo o que acontece no meu país, de mau e de bom. então, eu não gosto, mas tampouco saio apontando dedos, nada disso [«antes de apontar o dedo para alguém, lembre-se de que três dedos apontam para você»]. eu luto com a cultura.  

••••••••••••••

ay, ay, ay, que se va la vida
mas la cultura se queda aquí

👇

rubén rada y león gieco
80 años
en vivo 

••••••••••••••

ave rara! ave rada!

em 1996, com apenas um ano de américas, viajei para porto alegre para o cantamérica e entrevistei, entre outros, mercedes sosa, león gieco e rubén rada. com relação a este último, a única referência que eu tinha, na época, era a gravação de nei lisboa para «candombe para gardel». quanta ignorância! apesar de ter praticamente furado o vinil pensar en nada, de gieco, eu nunca tinha atentado para o fato de que, em «la cultura es la sonrisa», a percussão e a bateria eram obra e graça do negro rada. vai vendo... negro rada voando e a gente aqui: morrendo e aprendendo.

grill

••••••••••••••

la cultura es la sonrisa con fuerzas milenarias
ella espera mal herida, prohibida o sepultada
a que venga el señor tiempo y le ilumine otra vez el alma

👇

león gieco : voz e violão
rubén rada: bateria e percussão
dino saluzzi: bandoneón
osqui amante: backing vocals

••••••••••••••

#salacheguevara
#casadosaedos
#averada
#américas