segunda-feira, 7 de setembro de 2026


pátria mãe


«o brasil não tem povo, apenas público. povo luta por seus direitos, público assiste de camarote»

lima barreto

sabe a sensação de que nunca essa porra vai dar certo?
é feita pra dar defeito
pra ficar em aberto
a coisa de dar um jeito
a edição de um decreto
a mancha do preconceito
a falta de um papo reto

(celso viáfora e pedro viáfora, 2026)

«no cemitério dos vivos
lima barreto passa dias e noites
chamando os lobos
para não dormir sozinho»

celso borges

e agora o que faremos?
oosição. a posição da poesia
é oposição. o poeta que o diga.

revestres: você ainda acredita que a posição da poesia, como expressou em performance pelo brasil, é realmente a oposição?

celso borgs: sim, cada vez mais. o sentido da oposição poética é muito mais amplo. para mim, a posição da poesia é de enfrentamento político, de luta como cidadão e criador, não apenas partidária. a estrutura não gosta da gente, às vezes finge que gosta ou nos tolera. na verdade, prefere «poetinhas civilizados», domados, acadêmicos, e eu procuro na contramão disso.

pra não dizer que não falei de flores


circula pela internet um texto de martha medeiros que me foi enviado recentemente. gostei do que li. penso ser fundamental que escritores com espaço na grande mídia se posicionem a favor de lula e contra bolsonaro. ademais, trata-se de um texto politicamente correto e extremamente bem escrito, como é a maioria da obra da escritora gaúcha.


ponto.
nova linha.


brasil, 13 de dezembro de 1968

nesse dia é decretado o ato institucional nº 5 – o famoso e temido ai 5 – medida extrema do regime militar que lança o país numa longa e escura noite. vinicius de moraes está em lisboa para uma apresentação. os repórteres portugueses, embaralhando nomes e informações, conseguem lhe dizer o essencial. vinicius fica sem reação. o olhar é distante.

à noite, mesmo abatido, cumpre seu papel no teatro. portugal ainda está sob o regime férreo de marcelo caetano. a rádio e televisão portuguesa manda uma equipe para o teatro para fazer uma gravação do show. vinicius não se intimida.

no final, antes de dizer o último poema e cantar a última música, o poeta interrompe o show: «eu hoje gostaria de dizer a vocês umas palavras de muita tristeza. no meu país foi instaurado, hoje, o ato institucional nº 5. pessoas estão sendo perseguidas, assassinadas, torturadas. por isso, quero ler um poema.»

o poeta abre um exemplar de sua antologia poética, guardado sob a garrafa de uísque e, enquanto baden powell começa a dedilhar o hino nacional brasileiro, vinicius lê: «a minha pátria é como se não fosse, é íntima/ doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo/ é minha pátria. por isso, no exílio/ assistindo dormir meu filho/ choro de saudades da minha pátria».

trata-se do magnífico «pátria minha», um dos mais belos poemas escritos por vinicius de moraes. a plateia se extasia diante de versos como esses: «não te direi o nome, pátria minha/ teu nome é pátria amada, é patriazinha/ não rima com mãe gentil/ vives em mim como uma filha que és/ uma ilha de ternura: a ilha/ brasil, talvez».

a leitura de «pátria minha» ficará na memória dos portugueses como uma das mais bem acabadas expressões que puderam conhecer do amor à liberdade.


porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
pátria, eu semente que nasci do vento
eu que não vou e não venho, eu que permaneço
em contato com a dor do tempo, eu elemento
de ligação entre a ação e o pensamento
eu fio invisível no espaço de todo adeus
eu, o sem deus!

tenho-te no entanto em mim como um gemido
de flor; tenho-te como um amor morrido
a quem se jurou; tenho-te como uma fé
sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
nesta sala estrangeira com lareira
e sem pé-direito.

(vinicius de moraes, 1968)
naquela noite, em lisboa, à saída do show, vinicius tem que enfrentar uma pequena mas barulhenta manifestação de salazaristas indignados com seus discursos contra os horrores da ditadura. os manifestantes fecham a saída dos fundos do teatro. vinicius chega à porta e os encara. alguém lhe sussurra o óbvio: «vamos voltar e sair por um outro lado». o poeta responde em tom seco: «não».

vinicius fica algum tempo em silêncio. depois, erguendo a voz e ainda encarando o pequeno grupo de direitistas, começa a recitar: «de manhã escureço/ de dia tardo/ de tarde anoiteço/ de noite ardo». são os versos de seu primoroso «poética 1», poema que escreveu no distante ano de 1950, em nova york.

o poeta vai prosseguir, quando um sotaque brasileiro, escondido por detrás dos manifestantes, toma a palavra e prossegue: «a oeste a morte/ contra quem vivo/ do sul cativo/ o este é meu norte».

aquele estudante brasileiro, solitário em sua revolta, o salva. os jovens salazaristas portugueses cedem à força da poesia. os manifestantes, agora, já não podem mais gritar. um ou outro tenta ainda emitir uma palavra de ordem sem sentido, mas a maioria silencia para ouvi-lo terminar: «os outros que contem/ passo por passo:/ eu morro ontem/ nasço amanhã». e, elevando a voz ao máximo, vinicius conclui: «ando onde há espaço:/ meu tempo é quando».

um primeiro estudante, mais corajoso, tira o casaco e o estende no chão. outros fazem o mesmo. e então vinicius sai de cabeça erguida – e coração estraçalhado – sobre aquele tapete de casacos. 
a poesia acabara de colocar cada um em seu devido e merecido lugar.

sérgio sampaio
(tem que acontecer, 1976)


e agora, qual a saída?
a saída é pela esquerda
não a esquerda institucional e conformista
mas a esquerda radical e anticapitalista
a historiadora raquel varela que o diga

«há uma esquerda profundamente institucional e simultaneamente fanática», afirma a historiadora raquel varela na entrevista a seguir, concedida à «carta capital» durante uma rápida passagem por são paulo.

carta capital
(fragmento )


de volta à poesia


não posso
não é possível
digam-lhe que é totalmente impossível
agora não pode ser
é impossível
não posso.

digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.

(vinicius de moraes, 1949)


eu, um teo-poeta
quem foi estudante na época da ditadura militar dificilmente escapou de participar dos desfiles de 7 de setembro como atividade escolar. é o meu caso. não que eu gostasse daquilo, longe disso, participava porque era OBRIGADO. na verdade, eu ODIAVA ter que participar daquela pantomima. a OBRIGAÇÃO de ter que PARTICIPAR de algo que eu não gostava e não ACREDITAVA criou, dentro de mim, uma verdadeira AVERSÃO a todo e qualquer tipo de IMPOSIÇÃO. eu sou um libertário. se quiser ir pra paris, vá! faça o que tu queres pois é tudo da lei. assim sendo, conforme fui crescendo, fui perdendo o medo de ser feliz. hoje sou um teo-poeta, só me dedico àquilo que realmente ACREDITO.

«teo-poeta é aquele que escreve com paixão, posto que a paixão e o desejo são as forças que lhe movem. trata-se de paixão pelo desconhecido, com os ouvidos atentos aos sopros do vento sempre imprevisíveis e sacudidores em vez da estabilidade da rocha eterna.»

«e os meus pensamentos são todos sensações.
penso com os olhos e com os ouvidos
e com as mãos e os pés
e com o nariz e a boca.
pensar uma flor é vê-la e cheira-la
e comer um fruto é saber-lhe o sentido.»

os teólogos constroem barreiras para estabelecer quem está dentro ou fora de suas comunidades por meio de confissões de fé. os teo-poetas também confessam a fé. dessa forma, seguem o conselho de mario quintana: «eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão».

a rua dos cataventos
(soneto xvii)

da vez primeira em que me assassinaram,
perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
depois, a cada vez que me mataram,
foram levando qualquer coisa minha.

hoje, dos meu cadáveres eu sou
o mais desnudo, o que não tem mais nada.
arde um toco de vela amarelada,
como único bem que me ficou.

vinde! corvos, chacais, ladrões de estrada!
pois dessa mão avaramente adunca
não haverão de arrancar a luz sagrada!

aves da noite! asas do horror! voejai!
que a luz trêmula e triste como um ai,
a luz de um morto não se apaga nunca!

mario quintana


recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração.


«eu me visto de preto pelos pobres e oprimidos / que vivem do lado faminto e sem esperança da cidade / eu me visto assim pelo prisioneiro, que há muito tempo já pagou por seu crime / mas que de nada adiantou, pois é uma vitima dos tempos.»

johnny cash


ah, eu adoraria vestir um arco-íris todos os dias,
e dizer para o mundo que tudo está ok,
mas talvez eu possa carregar um pouco da escuridão em mim
até as coisas serem brilhantes, eu sou o homem de preto.

(johnny cash, 1971)


verdade verdadeira, de lembrança, mesmo, do 7 de setembro, eu tenho de um desfile na cidade de pelotas, acho que em 76, em que desfilávamos com um catavento verde-amarelo na mão. o meu não voltou pra casa, foi devidamente amassado, rasgado e jogado no chão.


uma a narrativa da história viva deste país
uma palavra ingênua, tal como a gema da massa ali
com outros meninos ricos, a outra história deste país
lembro de um desfile da mocidade marchando aqui
aquele amor à pátria, nas bicicletas, no coração
e a gente ficava olhando aqueles tanques, os aviões
vinham, davam rasantes, olha os infantes, oh pátria mãe

ainda sobre essa coisa, sobre essa transa, oh pátria mãe
hoje vejo quizumba, me passa uma paixão por ti,
loucos estamos todos, estamos todos a fim de ti,
por mais que outros caras, de outras línguas te neguem a nós,
está pintando um dia, daí meu nego, vâmo treme!

nelson coelho de castro
(força d'água, 1985)


#bolsonaronuncamais
#nuncamais #nuncamais

domingo, 6 de setembro de 2026


paisagem da janela
[clique nos títulos para ver/ouvir]


tudo é circular
(e isso o sol sabe melhor do que ninguém)

facundo cabral


todo dia o sol levanta 
 e a gente canta 
 ao sol de todo dia

caetano veloso


sinto hoje em satolep
o que há muito não sentia
o limiar da verdade
roçando na face nua

vitor ramil


a invenção de morel

passei toda a manhã expondo-me a ser descoberto por qualquer pessoa que tivesse a coragem de se levantar antes das dez. ao que parece, tão modesto requisito para a calamidade não se cumpriu. durante o trabalho de juntar as flores, vigiei o museu e não vi nenhum de seus ocupantes; isso me permite supor que tampouco me viram. 
as flores são muito pequenas. terei que plantar milhares e milhares, se não quiser um jardinzinho ínfimo (seria mais bonito e mais fácil de fazer; mas há o perigo de que ninguém o veja).

apliquei-me a preparar os canteiros, a quebrar a terra (está dura, as superficies que planejei são muito vastas), a regar com água de chuva. quando tiver acabado de preparar a terra, terei que buscar mais flores. farei o possível para que não me surpreendam, sobretudo para que não interrompam o trabalho ou o vejam antes que esteja pronto. esqueci que, para os traslados de plantas, há exigência cósmicas. não posso crer que, depois de tanto perigo, de tanto cansaço, as flores não cheguem vivas até o pôr-do-sol.
careço de estética para jardins; de qualquer maneira entre a relva e os capinzais, o trabalho parecerá comovente. será uma fraude, naturalmente; de acordo com meu plano, hoje à tarde será um jardim cuidado, amanhã talvez esteja morto ou sem flores (se houver vento).

adolfo bioy casares


que fim levaram todas as flores?
que o preto velho me contava
que fim levaram todas as flores?
que a rainha louca não gostava
que a lapela morta carregava
que o olhar de todos me lembrava
que fim levaram todas as flores?
que qualquer coisa não estragava
em qualquer dia que podia
com grande amor e alegria
que fim levaram todas as flores?
que a criança às vezes me pedia

(secos & molhados, 1974)


grande sertão: veredas

sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso. o que queria e o que não queria, estória sem final. o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. o que ela quer da gente é coragem. o que deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito. por coragem. será? era o que eu às vezes achava. ao clarear do dia.
joão guimarães rosa 


«não posso continuar. vou continuar.»

samuel beckett


amanhã há de ser outro dia?
tomara que sim
mas acho que não
(a palavra diz não
mas a obra diz sim)
esperança
pra mim
só pra depois de amanhã
lá por 2050
2060
2070
quando muitos de nós já não estaremos mais aqui
aliás
melhor assim
espero que os que venham depois de nós
temam menos a morte
e mais a vida insuficiente
na nossa passagem por aqui
tivemos alguns assim
mais corajosos e determinados que nós
mas foram muito poucos
infelizmente


«criar é viver duas vezes.»

 albert camus

.
a noite de 12 anos
(e nós queríamos mudar o mundo)

o filme se concentra na história de três de nove guerrilheiros tupamaros presos e postos como «reféns» pelo regime ditatorial uruguaio: pepe mujica, mauricio rosencof e eleuterio fernández huidobro.

em uma palavra, o tema central de uma noite de 12 anos pode ser definido como resiliência – a capacidade emocional do indivíduo de resistir a eventos traumáticos.

é muito difícil imaginar que uma pessoa possa resistir por 12 longos anos sem poder se comunicar, preso em uma cela em condições cruéis, isolado em um cubículo apartado dos companheiros (cada um na sua solitária), com pouquíssima comida, água e nenhuma luz do sol. 
enfim, o filme, que não é um filme de ficção, é uma história real, é mais um exemplo de como certas pessoas, quando imbuídas de ideal e determinação, mesmo massacradas sob a extrema violência de estado e ou sufocadas sob a hipocrisia da sociedade e ou extremamente sensíveis às injusitças e crueldades do mundo, como ele é, acham alternativas para manter acesa a chama da esperança e da vida, sendo o que são. 


 (trailer oficial 1)

.

(trailer oficial 2)



ave pepe
ave ruso
ave ñato


o último poema para pepe mujica

«tu te lembras daqueles dias, pepe? vivemos onze anos isolados sob a terra, sem nos ver,
sem livros. reinventamos o código morse batendo com os dedos abrindo uma janelinha para
a vida nas paredes. se este fosse meu último poema, rebelde e triste, desgastado mas
inteiro, eu escreveria apenas uma palavra: companheiro»

maurício rosencof


«mais cadê meus cumpanhero cadê
qui cantava aqui mais eu, cadê
na calçada no terrero, cadê
cadê os cumpanhero meu cadê»

elomar


«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges


tudo é circular
e a roda é viva


outro dia eu tava assistindo um roda viva das antigas com o brizola. o seu antipetismo era tanto e tão pequeno que eu me senti reconfortado por jamais ter votado nele. meus votos para presidente foram sempre em lula. mas lula e o pt envelheceram...


«nossos ídolos ainda são os mesmos
e as aparências
não enganam não
você diz que depois deles
não apareceu mais ninguém
você pode até dizer
que eu 'tô por fora
ou então que eu 'tô inventando
mas é você que ama o passado
e que não vê
é você que ama o passado
e que não vê
que o novo sempre vem»


- quantos anos você tem, clint?
- 96.
- de que signo você é?
- gêmeos.
- que dia você nasceu?
- 31 de maio de 1930.
- o que você vai fazer?
- vou começar um novo filme.
- o que te faz continuar?
- eu me levanto todos os dias e não deixo o velho entrar.
- que horas você se levanta?
- antes do sol nascer.


pode ser até amanhã, sendo claro feito o dia
mas nada do que me dizem
me faz sentir alegria
só queria ter do mato um gosto de framboesa
pra correr entre os canteiros
e esconder minha tristeza

e eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
e deixemos de coisa, cuidemos da vida
pois senão chega a morte ou coisa parecida
e nos arrasta, moço, sem ter visto a vida

(manera fru fru, manera, 1973)


e a paisagem da janela?


com a palavra, robertinho brant: 

«fernando brant escreveu a letra dessa icônica música olhando através da paisagem da janela do escritório do seu pai e meu avô, dr. moacir pimenta brant. de lá ele viu o mundo. o escritório ficava no segundo andar da casa dos brant, na rua grão pará, 1092. lugar aonde inúmeras vezes eu visitei sorrateiramente quando criança. e onde eu passava inúmeras tardes mágicas e silenciosas, observando cada objeto, sentindo de perto a doce magia daquele ambiente misterioso. da janela daquele escritório eu também sonhei.»


da janela lateral do quarto de dormir
vejo uma igreja, um sinal de glória
vejo um muro branco e um voo pássaro
vejo uma grade, um velho sinal

(clube da esquina, 1972)


ao vento

o lugar não importa
casa de poeta não tem porta
se uma chave tranca
outra destranca

a chave é o amor
o amor é a chave
qual amor? 
o amor fati


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

sábado, 5 de setembro de 2026


canção de mim mesmo
[clique nos títulos para ver/ouvir] 

mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

carlos drummond de andrade 

«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

bebeth

«eu sei que tenho o melhor do tempo e do espaço, e nunca fui medido e nunca serei medido. empreendo uma jornada perpétua... ninguém, nenhum outro pode percorrer essa estrada por você, você mesmo deve percorrê-la. não é longe, está ao seu alcance, talvez você esteja nela desde que nasceu e não sabia...»

walt whitman

quando começamos a nascer

quando começamos a nascer, é o ponto de partida de uma jornada pessoal, o instante em que a autoconsciência germina e começa a florescer. à medida que a música avança, a mente compreende o choque entre a vertigem e a rotina. revelam-se então as mentiras do mundo, mas também a teimosia de andar. nesse contexto, sonhar e buscar o amor não são meros atos românticos ou de fuga; tornam-se verdadeiras ferramentas de rebeldia. o final da música, com a repetição de «é a minha vida», transmite uma mistura de aceitação melancólica e determinação pessoal. apesar de reconhecer as «derrotas» e «decepções», o indivíduo opta por ficar, opta por viver sua vida do seu jeito. é a minha vida. e eu fico.

quando começamos a nascer
a mente começa a compreender
que vos sos vos e tenés vida
quão pouco é a realidade 
melhor seguir, melhor sonhar
pois o que vale não é o dia
mas o sol, o sol é 
não é de papel, é de verdade 

você tem boca para falar
e começa a perguntar
e conhece a mentira
com suas pernas vai andar
então começam a lhe confinar
e fica aí com sua rotina
¿y qué vas (y que vas) a hacer?
um se cansa de correr

enche suas malas de amor e vai embora
em busca do corpo de uma mulher
e descobre que o amor é mais do que uma noite e ver o amanhecer juntos
aos poucos você se conforma
se não for amor, ela é sua mesmo assim
e você dá a ela o que ela pedir
ma se lhe oferecerem o fim, você dirá
agradeço, mas vou ficar
porque sou eu, porque é minha vida

(sui generis, 1972)

talvez devesse ficar por aqui
quem sabe ganharia mais leitores 
melhor seguir, melhor sonhar

pouca gente por aqui sabe tudo que já fiz na vida. houve um tempo em que minha ex-mulher e eu inventamos de vender cupcakes para ganhar a vida — por encomenda e de porta em porta. dava trabalho, mas deu certo. só por um tempo. pudera: não sou negociante, sou caminante.

hay un español errante 
y hay otro que no camina.
yo soy de los caminantes.

(olympia de paris, 1969)

outra das coisas que já fiz na vida, e que quase todo mundo por aqui já sabe, foi trabalhar no cfc senna. sim, fui instrutor de trânsito. profissão que exerci, com entrega, prazer e orgulho por exatos dez anos da minha vida. e creiam: recebi mais elogios do que críticas. não vou falar dos elogios, prefiro falar das críticas. uma vez fui informado pela direção de que um aluno teria dito que minhas aulas seriam melhores não fossem meus devaneios. não fiquei zangado, nem triste, nem incomodado. fiquei feliz.

é melhor ser alegre
que ser triste 
alegria é a melhor coisa que existe
é assim como a luz no coração

(afrosambas, 1966)

quando cansei de devanear no cfc
fui devanear na rua. 
bebi, caí e apanhei. 
um dia cansei e voltei. 
voltei porque quis.

eu quero uma casa no campo
onde eu possa compor muitos rocks rurais 
e tenha somente a certeza dos amigos do peito 
e nada mais

(elis, 1972)

outra coisa que fiz e que não sei se vocês sabem foi plantar horta no repecho. a horta tava indo... um dia, porém, uma vizinha foi nos visitar e, com sorriso nos lábios e olhar maroto, disse: — o canteiro tá torto...

olhei pro canteiro e vi a estrada,
lembrei da vida e dei risada.

«o saber a gente aprende com os mestres e os livros. a sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes».

cora coralina


eu tinha apenas 17 anos
no dia em que saí de casa
e não fazem mais de 4 semanas
que eu estou na estrada

(sá, rodrix & guarabyra, 1972)



o pó da estrada gruda no meu rosto
como a distância, matando as palavras
na minha boca sempre o mesmo assunto
o pó da estrada

(sá, rodrix & guarabyra, 1973)

(10 anos juntos, 1983)


«tento ler através da poeira. pra mim o futuro já é coisa do passado.»

bob dylan

eu ainda sou
aquele sonhador
desculpe se o que eu sinto
é muito antigo

(sá & guarabyra, 1982)

ao vento

o presente é como o vento quando vê já passou
o passado já era tá tudo lá

lá onde?

eu me repito? pois bem, eu me repito.
sou imenso, contenho a mim mesmo.

grill 

de volta ao começo

eu nasci remediado
criado solto no mundo 
se viver fosse reisado 
se eu me chamasse raimundo 
andorinha no inverno 
beijo terno alma boa 
escrevi no meu caderno 
não passei a vida à-toa

(ceumar e zeca baleiro, 1999)

e o navio?
que navio? 
da pintura 
que pintura? 
de jim daly

há de vir um tempo de vento veloz,
quando a brisa não vai respirar.
como a calma que vem antes do furacão,
na hora em que o navio chegar.
e o mar que se abriu vai se fechar,
fazendo a areia da praia tremer.

e o som da maré vai romper na manhã,
na claridade de um novo dia.
os peixes no ar darão uma cambalhota,
e as gaivotas vão gargalhar.
e até as rochas vão rolar para o mar,
na hora em que o navio chegar.

as palavras ditas
para confundir a tripulação
não farão mais sentido.
pois as correntes do mar
vão se quebrar na noite
e afundarão no chão do oceano.

uma canção será ouvida 
quando a vela for descida 
e o navio por fim aportar.
e o sol respeitará
cada rosto no convés
na hora em que o navio chegar.

oh, os inimigos vão despertar com o sono ainda nos olhos.
saltarão da cama pensando que estão sonhando, 
mas vão se beliscar e gritar, 
e saberão que é verdade 
na hora em que o navio chegar.

então as areias estenderão
um tapete de ouro
para seus pés cansados tocarem,
e os sábios do navio
vão lhe lembrar mais uma vez
que o mundo inteiro está assistindo.

então eles erguerão as mãos, dizendo: «estamos entregues!»
gritaremos então da proa: «seus dias estão contados!»
e como a tribo do faraó, eles serão afogados pela maré. 
e como golias, serão derrubados.

(bob dylan, 1963)

e nelson? que nelson? nelson coelho de castro.

bom, acho que quase todos aqui já sabem, mas não custa nada repetir. sigo seus passos, versos e notas desde quando surgiu na cena musical do rio grande do sul. levei-o comigo, numa fita-cassete, quando fui para são luís do maranhão. um dia a fita caiu nas mãos de zeca baleiro. o resto é história. história que já contei e poderia contar de novo, mas deixemos que o próprio zeca a conte nas páginas de seu livro que está por vir. 

corre o vento, o rio passa..

em 2011, na fábrica cultural em pelotas, encontrei nelson, num único e brevíssimo encontro. contei a ele de minhas andanças com seus discos pelas ruelas e becos da ilha do amor. ele olhou pra mim e sorriu. não era um sorriso qualquer — era um sorriso aberto, como quem diz: mesmo longe estamos perto. nelson estava certo.

não resta mais nada
que duvide da real felicidade

(nelson coelho de castro, 1981)

antes do fim

falta pouco tempo eu sei
mas quando a gente é pequeno 
o tempo custa pra passar 
também a gente pode crescer

(nelson coelho de castro, 1981)

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

sexta-feira, 4 de setembro de 2026


balada para os de fé e alma
[clique nos títulos para ver/ouvir]

tenho um amigo que disse que tinha um amigo que dizia que os pássaros de mesma plumagem procuram voar juntos. e que isso vale, justamente para os amigos. não conhecia a frase, mas concordei no ato. boêmios, poetas, músicos e filósofos de botequim concordam. hoje esse amigo que tinha um amigo que dizia isso, tem um amigo que sempre repete essa frase. é fato. os pássaros de mesma plumagem procuram voar juntos.

martim césar

ao vento

o presente é como o vento quando vê já passou
o passado já era
tá tudo lá

lá onde?

grill

quantos anos já se passaram e se foram e quantas apostas foram perdidas e ganhas quantos caminhos trilhados por tantos amigos e a cada um deles eu nunca mais vi de novo

[the freewheelin', 1963]

o homem de preto

para muitas pessoas com mais de sessenta anos o passado parece um sonho enquanto o futuro definha e os fantasmas se proliferam disputando a atenção. o compositor warren zevon, a quem dylan admirava, morreu de um câncer agressivo nos pulmões e no fígado no dia 7 de setembro. ele tinha 56 anos.

cinco dias após a morte de zevon, johnny cash faleceu num hospital em nashville por complicações da diabetes. irmão maior de dylan na arte, cash era o cantor que – ao longo dos anos – veio representar uma unidade entre lenda e humanidade humilde. quando dylan era um garoto ouvindo rádio em 1955, cash já era uma lenda viva, o homem de preto cantando «i walk the line». apenas sete anos depois, cash escreveu para dylan uma carta, parabenizando-o por ter feito um grande disco no espírito de jimmie rodgers e vernon dalhart. johnny referia-se a the freewheelin'.

cash esteve ao seu lado e segurou sua mão em cada mudança artística e pessoal de dylan. defendeu o amigo contra executivos hostis na columbia quando o selo tentou dispensá-lo. apoiou-o em 1969 quando ele virou country com nashville skyline e depois no controverso período gospel. um irmão verdadeiro desde os bastidores do gaslight em 1963. por isso quando a imprensa pediu a dylan um tributo após a morte de cash ele não respondeu com apenas algumas frases mas com um ensaio de quatrocentas palavras publicado na rolling stone de outubro de 2003.


cash é rei
rolling stone, outubro de 2003

fui convidado a dar uma declaração sobre o falecimento de johnny e pensei em escrever um artigo intitulado «cash é rei», porque é assim que realmente o sinto. em termos simples, johnny era e é a estrela guia; você podia se guiar por ele — o maior dos maiores, tanto naquela época quanto agora. eu o conheci em 1962 ou 1963 e o vi muito durante aqueles anos. não tanto recentemente, mas de certa forma ele esteve mais presente na minha vida do que as pessoas que vejo todos os dias.

no início dos anos 60, não havia muitos meios de comunicação dedicados à música, e a revista sing out! era a que cobria tudo relacionado ao folk. os editores publicaram uma carta me criticando pela direção que minha música estava tomando. johnny respondeu à revista com uma carta aberta dizendo aos editores para calarem a boca e me deixarem cantar, que eu sabia o que estava fazendo. isso foi antes mesmo de eu conhecê-lo, e a carta significou muito para mim. guardo a revista até hoje. é claro que eu já o conhecia antes mesmo que ele ouvisse falar de mim. em 1955 ou 1956, «i walk the line» tocou o verão inteiro no rádio, e era diferente de tudo que você já tinha ouvido. a música soava como uma voz vinda do centro da terra. era tão poderosa e comovente. era profunda, assim como seu tom, cada verso; profundo e rico, impressionante e misterioso ao mesmo tempo. «i walk the line» tinha uma presença monumental e um certo tipo de majestade que nos deixava humildes. até mesmo um verso simples como «acho muito, muito fácil ser verdadeiro» pode nos medir. podemos nos lembrar disso e ver o quanto ainda estamos longe de alcançar esse nível.
johnny escreveu milhares de versos como esse. ele é verdadeiramente a essência da terra e do país, a personificação de sua alma e do que significa estar aqui; e ele disse tudo isso em inglês simples. acho que podemos ter lembranças dele, mas não podemos defini-lo, assim como não podemos definir uma fonte de verdade, luz e beleza. se quisermos saber o que significa ser mortal, não precisamos procurar além do homem de preto. dotado de uma imaginação profunda, ele usou esse dom para expressar todas as diversas causas perdidas da alma humana. isso é algo milagroso e humilhante. ouça-o, e ele sempre o fará recobrar o juízo. ele se eleva acima de tudo, e jamais morrerá ou será esquecido, nem mesmo por aqueles que ainda não nasceram — especialmente por aqueles que ainda não nasceram — e isso é para sempre.

enfim poderia ter resumido a carta de dylan talvez devesse se levasse em conta os tempos atuais e as coisas como são se o fizesse diria apenas dylan não via cash há algum tempo mas de certa forma ele sentia que o amigo estava mais presente em sua vida do que as pessoas que via todos os dias


se eu pudesse recomeçar,
a um milhão de quilômetros de distância,
eu continuaria o mesmo
eu daria um jeito.

hurt
johnny cash
[american iv: the man comes around, 2002]


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quinta-feira, 3 de setembro de 2026


a poesia é maior que a morte 
[clique nos títulos para ver/ouvir]


um planalto de lama
um congresso de urubus
uma catedral de lama
sobre os homens nus 

uma brasília sem asa
uma família sem casa
um país no abate
uma família em mate 

mate, arrremate
empenhe seu couro
praga, peste, agrura, agouro
sanha, isônia, suadouro

no curtume dos sonhos
a vida resiste
no inferno triste
deste matadouro

poema de paulinho lopes
cia. circense, são luís ma
a vida é uma festa (15 anos)
imagem: manilo macchiavello


composição: paulinho lopes. 
participação especial e vocal: rapper marcos costelo. 
flauta e direção musical: zezé alves. 
arranjo: beto ehongue. 
apoio cultural: lucinha lopes. 
imagens: são luís do maranhão


precaução

gasto minha primeira vida
no dia-a-dia
as outras seis, guardo no
fundo do bolso
(pra alguma emergência).
às vezes
me chamam de gata

suzy fernandes


a certeza 
de que sempre pularei
para o lado de dentro da janela
é minha única desculpa
pra subir tantas paredes

mara fernandes 


por ali
dizem
não ligo
sigo
por aqui


pela ilha

[para mara, zeca e suzy
para paulinho
para cb in memoriam] 

no princípio era paulinho
foi ele quem me acendeu as velas
no breu da ilha
sem ele não haveria
nem mara, nem zeca, nem suzy
nem cb, nem os párias
na minha vida 

mara e zeca
nunca mais vi
nem falei

com suzy nos vimos em 2015
numa pizzaria em são luís
nos falamos pelo face e whats
mais que isso:
somos pássaros de mesma plumagem
amigos de fé
irmãos de alma

com os párias e paulinho
a última vez que nos vimos
que me lembro
foi em brasília
no flaac
em 1987
na casa de haroldo saboia
na época
deputado federal pelo maranhão

e aí?
rapaz, nem te conto.
não conto mesmo:
não lembro de nada
ou quase nada.
e o pouco que lembro
é melhor não contar.

e cb?
sobre cb 
daria um poema
o que tenho pra contar

grill 

     
história do tempo - aquilo que o vento - traz contigo do mar
venha depressa - minha conversa - tenho que te escutar
ai, tanta rima - coisa do clima - pira o meu coração
antes de tudo - nada ao futuro - amo aquela ilusão
estou excitado - todo estado - deve o pão repartir.

eu não posso me esquecer 
de nada do que está acontecendo agora, nesse momento...
nesta cidade, neste estado, neste país, neste planeta -
do que estamos fazendo
e o que estamos fazendo para a narrativa da história
eu quero ver se consigo trazer tudo isto
sempre acordado dentro de mim:
este êxtase, esta fotografia
esta música, este cinema
este agora, recém-parido
porque é saber isto tudo agora
e será saber isto tudo, em outro agora
a minha única e verdadeira arma
e isto me excita

composição, voz e violão: nelson coelho de castro
participação especial: liane friedrich (lica)
(nelson coelho de castro, 1983)


e pensar
que tudo
o de hoje 
começou 
ali
embaixo
com bruna e zeca
não 
sem antes 
dizer que 
ainda estou aqui
com bethâna e josé régio 

[clipe de 1982]


eu nem ligo
nem esquento a cabeça
vou com força nas coisas
que eu quero e devo fazer
eles querem que eu
me aborreça, estremeça
e me prenda nas cercas
do seu circo mortal

eu prossigo
e não perco a cabeça
vou traçando as palavras
como eu quero e devo traçar
eles querem que eu
me afobe e confunda
mas eu ponho nas sombras
do seu circo mortal

tem que ser
da largura do arame
o elemento é preciso
estrutura é vital
eu sou
da largura do arame
o elemento é preciso
estrutura é vital

bruna caram canta gonzaguinha
participação especial: zeca baleiro
(afeto e luta, 2020)


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026


artigo 5º
[de verdades e de mentiras]


dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações

chico buarque do brasil


«a rede globo de televisão, mãe e guia da imprensa corporativa, deu claras mostras de seu lado dissimulado, onde o tratamento a tudo e a todos sempre parece equitativo, equilibrado, mas não o é. nas entrevistas dos candidatos à presidência da república, ontem (27 de agosto), um filho que sequer é indiciado por qualquer atitude criminosa foi o motivo central de colocarem contra a parede o pai, atual presidente da república; hoje (28 de agosto), ao contrário, um pai que se encontra preso pelo cometimento de diversos crimes, e que, igualmente, foi presidente da república, não foi minimamente lembrado nas inquirições feitas ao filho. na verdade, lamento por ambas as entrevistas, por não haverem questionado praticamente nada sobre os planos de governo dos dois (assuntos que mais interessariam ao país), mas, antes, deploro a nunca abandonada condição enganadora e perversamente astuciosa dessa emissora. golpistas não se perdem do método e nem da direção do autoritarismo. mesmo que, na maioria das vezes, essa condição fique sempre escondida sob a relva, como minas a explodir noutro tempo! certas atividades traiçoeiras são diferidas, não se mostram ao primeiro olhar.
lula haverá de vencer, contra muitos e contra tanto!»
— pedro moacyr pérez da silveira


«o "tribunal penal" da globonews, reunido com seus jornalistas e especialistas, já julgou e condenou alexandre de moraes ao cadafalso moral e ético — postura que vem sendo acompanhada por toda a mídia: cnn, jovem pan, record, band e sbt.
​certamente, essa condenação se estenderá ao pgr paulo gonet. tudo isso graças à covardia do advogado-geral da união, jorge messias — a quem lula insiste em bancar como ministro do stf —, que não tomou atitude para conter a sanha investigatória, policialesca e vazadora de andré mendonça, denunciado pelo diretor da polícia federal por invasão de competência.
espero que o lula esteja satisfeito com seu pupilo.»
— luiz alberto franca


tudo isso é verdade
no país de mentira


a propósito


estou mais envolvido com meu blog pessoal do que com as redes sociais e não vejo televisão. peguei o bonde andando na crise do stf, mas ela não me surpreende. fiz vários posts sobre alexandre de moraes, o «herói» da esquerda liberal e burguesa; o mais recente é de 7 de março. veja abaixo:


xandão

não me admira que xandão esteja envolvido com daniel vorcaro
tampouco me admira a pressa com que setores da esquerda saem em sua defesa
não me admiram também as justificativas da outrora combativa esquerda
que o estadão isso
que a globo aquilo
convenhamos
«o jogo é jogado e o "ministro" é pescado»
mas não precisa confiar na malu gaspar
para desconfiar do xandão
grill


bom, por causa de dezenas de posts como esse, em que critico a esquerda liberal e burguesa, representada na figura de luiz inácio lula da silva, tacharam-me no tribunal penal do facebook, entre outras coisas: traidor, fariseu, infantil e golpista... até de bolsonarista já me chamaram. militante de sofá, militante de facebook, utópico, distópico, homem das montanhas, ermitão, fanfarrão, charlatão, futurólogo, delirante, niilista, pessimista, ingênuo, inocente, azedo, amargo, inconsequente... 


tudo isso é mentira
no país de verdade


vandré que o diga


globonews: a pergunta que todos gostariam de fazer é a mais simples possível: o que foi que aconteceu com geraldo vandré?
geraldo vandré: ficou fora dos acontecimentos (risos). ficou fora dos acontecimentos. acho melhor para ele. tenho outras coisas para fazer. estudei leis. quando terminei meu curso de direito aqui no rio e fui me dedicar a uma carreira artística, já sabia que arte é cultura inútil. mas hoje consegui ser mais inútil do que qualquer artista. sou advogado num tempo sem lei. quer coisa mais inútil do que isso?

globonews: em que país vive geraldo vandré?
geraldo vandré: vive num brasil que não está aqui. geraldo vandré vive no brasil. eu até me atreveria a dizer que quem não vive no brasil é a maioria dos brasileiros. a quase totalidade dos brasileiros não vive mais no brasil. vive num amontoado.

globonews: por que você tomou esta decisão tão drástica – de interromper uma carreira de tanto sucesso?
geraldo vandré: decidi sair do brasil naquele ano de 1968. eu tinha uma programação para fazer fora do brasil. tinha um contrato com a televisão bavária, na alemanha, para fazer um filme sobre geraldo vandré. fui fazer.

narrador alemão conta sobre vandré

👇 

(legendas em pt-br)
geraldo vandré: passei um ano e meio pela europa. depois, voltei para o chile, para onde eu tinha ido do brasil. havia muitos brasileiros lá ainda. de lá, fui para o peru. ganhamos um festival em lima em 1972 com uma canção que era a única não cantada em espanhol. era cantada em «brasileiro» mesmo. o brasil não conhece a canção. chama-se «pátria amada idolatrada, salve, salve – canção terceira».

globonews: você se lembra da letra ?
geraldo vandré: eu me lembro. é uma canção que foi feita para ser cantada por um homem e uma mulher. existe de caso pensado – coincidentemente – uma confusão de sentimentos entre a ideia da pátria e a ideia da mulher amada. o homem canta:

«se é pra dizer-te adeus / pra não te ver jamais / eu – que dos filhos teus fui te querer demais - / no verso que hoje chora para me fazer capaz da dor que me devora / quero dizer-te mais / que além de adeus / agora eu te prometo em paz levar comigo afora o amor demais».

e a mulher, cuja imagem se confunde com a noção da pátria, responde:

«amado meu sempre será quem me guardou no seu cantar / quem me levou além do céu / além dos seus / e além do mais / amado meu / que além de mim se dá / não se perdeu nem se perderá».

os dois cantam juntos um para o outro. é um contraponto.

entrevista a geneton moraes neto
dossiê globo news, 25 set 2010


pois é...

é triste que ainda haja brasileiro
que não saiba quem ele é.
pátria amada idolatrada, salve, salve
seu nome é geraldo vandré.

grill


se é pra dizer adeus
pra não te ver jamais
eu, que dos filhos teus
fui te querer demais
no verso que hoje chora
pra te fazer capaz
da dor que me devora
quero dizer-te mais
que além de adeus agora
eu te prometo em paz
levar comigo afora
o amor demais 

👇

[canção terceira]
manduka / geraldo vandré 1972
participação: soledad bravo


e o artigo 5°?


todos são iguais perante a lei
sem distinção de qualquer natureza
garantindo-se ao brasileiros e estrangeiros residentes no país
a inviolabilidade do direito
à vida
à liberdade
à igualdade
à segurança e à propriedade
mas, você se quiser
pode cagar nesse artigo
e, se tiver poder
pode cagar nessa constituição
que dá nada

👇

artigo 5° | leo aprato/ian ramil
com gutcha ramil
[derivacivilização, 2015]


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas