domingo, 16 de agosto de 2026

 

tributo a um rei esquecido  

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«minha reputação de mulherengo foi uma piada que me fez rir com amargura nas dez mil noites que passei sozinho»

leonard cohen

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«gostaria de ler
um dos poemas
que me levaram à poesia
não consigo me lembrar de um único verso
não sei para onde olhar;
o mesmo
aconteceu comigo em relação ao dinheiro,
às mulheres e às tardes de charla
onde estão os poemas
que me afastaram de tudo o que amei
para que eu ficasse aqui
desnudo com a ideia de te encontrar»

(idem)

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¿adónde está la calle
en donde los domingos
llegaban con la banda?
¿adónde la guitarra
y aquellos marineros
que lo incendiaban todo?
¿adónde las muchachas
que nunca consiguieron
disimular sus ganas?
¿adónde las abuelas
que criticaban todo
detrás de las ventanas?
el sol caía
sobre la plaza
desnuda y vacía
como la nostalgia
y yo me tendía
en la siesta larga
soñando contigo
que nunca llegabas
magdalena, trenzas largas
ojos negros, manos blancas
ojos negros, trenzas largas
magdalena
¿adónde están los niños
que daban vuelta a todo
en el viejo mercado?
¿adónde el cura pedro
que nos metió jugando
en el libro sagrado?
¿adónde está la casa
en donde las palomas
llegaban a mi cama
y el viejo boticario
que lo sabía todo
y no decía nada?
el sol caía
sobre la plaza
desnuda y vacía
como la nostalgia
y yo me tendía
en la siesta larga
soñando contigo
que nunca llegabas
magdalena, trenzas largas
ojos negros, manos blancas
ojos negros, trenzas largas
magdalena

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[buenas y santas]

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«já que a vida é uma comédia, prefiro ser o autor das minhas próprias piadas antes que os outros as façam por mim.»

oscar wilde

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«se eu não risse de mim mesmo, passaria o dia chorando pelos meus fracassos.»

mark twain

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«rir de si mesmo é uma forma de nos tornarmos invulneráveis.»

woody allen
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«o homem que sabe rir de si mesmo está livre do maior peso da vida: a necessidade de se levar a sério.»

friedrich nietzsche
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«a autoironia é a última dignidade do vencido.»

emil cioran

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«sei rir de mim mesmo melhor do que ninguém, porque conheço meus defeitos mais intimamente do que qualquer crítico.»

george bernard shaw

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«o meu humor é o de quem se sabe ridículo e faz disso a sua única coroa.»

fernando pessoa

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«viver no mundo como se não fosse o mundo, respeitar a lei e no entanto colocar-se acima dela, possuir uma coisa "como se não a possuísse", renunciar como se não tratasse de uma renúncia, todas essas proposições favoritas e formuladas com freqüência, todas essas exigências de uma alta ciência da vida somente pode realizá-las o humor.»

hermann hesse

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«andar pelas ruas despercebido e escutar duas ou três frases soltas das pessoas que passam conversando. isso pode ser muito rico. de uma migalha recolhida é possível escrever algo interessante, criando um universo a partir do mísero farelo.»

caco belmonte

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dos tempos do facebook

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diálogos 3

- por que essa cara?
- tô me sentindo sozinho...
- e os teus amigos?
- não dão sinal de vida faz tempo.
- faz o seguinte: escreve um texto falando bem do lula e mal do bolsonaro.
- por que isso?
- porque sim, quando escrevemos obviedades as pessoas se aproximam na mesma hora

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diálogos 4

- quanto mais escrevo menos leitores tenho...
- alguma explicação?
- não sei, mas deve ter...
- mas os que leem curtem?
- nem curtem, nem descurtem

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diálogos 7

- tu já pensou em cobrar por teus textos?
- como assim?
- colocar essa produção literária numa plataforma para assinantes que pagam.
- a ideia é boa, tem tudo para dar errado
- nada a ver, te informa a respeito.
- é mesmo? tu, por exemplo, já compraste algum dos meus livros?
- não, ainda não.
- tá bom. agradeço a gentileza do conselho.

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diálogos 12

- bom dia
- bom tarde
- o que tu anda fazendo?
- escrevendo
- onde?
- no facebook
- tá monetizando?
- não
- tá viralizando?
- não
- tem algum tipo de retorno?
- só dos raros
- e tu escreve para quem, então?
- para os raros e para os loucos... para quem mais seria?

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diálogos 13

- em que país vive geraldo vandré ?
- vive num brasil que não está aqui. geraldo vandré vive no brasil. eu até me atreveria a dizer que quem não vive no brasil é a maioria dos brasileiros. a quase totalidade dos brasileiros não vive mais no brasil. vive num amontoado.

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todos os diálogos são de autor desconhecido, exceto o 13.

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o que foi que fizeram com ele? não sei
só sei que esse trapo, esse homem foi um rei
o que foi que fizeram com ele? não sei
só sei que este trapo, esse homem foi um rei

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[ao vivo]

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sobre o título

«faça humor, não faça a guerra» foi um programa humorístico produzido pela tv globo e exibido entre 1971 e 1973, que contava com textos de max nunes, haroldo barbosa, renato corte real e jô soares, entre outros. o programa ia ao ar semanalmente às 21h, logo depois da telenovela das oito. o nome era uma alusão jocosa à frase de efeito, muito popular na época, «faça amor, não faça a guerra».

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sobre a foto

tirada da janela da sala che guevara da casa dos aedos
numa tarde de domingo de chuva em satolep

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#américas

 

canção da flor que nasce 

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a flor e a náusea

uma flor nasceu na rua! passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.
sua cor não se percebe. suas pétalas não se abrem. seu nome não está nos livros. é feia. mas é realmente uma flor.
sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura. do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se. pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. é feia. mas é uma flor. furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

drummond

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«há dez mil anos atrás», li num jornal da capital um artigo intitulado «a chegada da cavalaria». o artigo vinha assinado pelo escritor percival puggina e discorria, se bem entendi, sobre as desilusões de quem um dia acreditou nas utopias das teses esquerdistas. lá pelas tantas, já pro final, o incensado escritor afirma que «na ausência de qualquer coisa boa para apresentar aquém ou além da "tal utopia", pariu-se o coelho do aquecimento global». mais precisamente, disse o escritor que «isso de aquecimento global não existe, que isso é coisa de comunista», para se utilizar do argumento de que «se a cavalaria esquerdista não vier nos salvar, o capitalismo acabará com a humanidade». na mesma hora escrevi uma resposta e enviei para a zero hora. se receberam ou não, não sei. jamais obtive retorno. normal. o que não é normal é o aquecimento global.

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carta aberta a um tal percival

caro percival,
não me conheces. nunca me viste. eu também não te conheço. mas te vejo seguidamente. és figurinha repetida nos meios da rbs.

horas atrás, li teu artigo na zero hora sobre o aquecimento global e a tal utopia. mas que barbaridade, percival! pelo que entendi, trocando em miúdos, quiseste dizer que a esquerda tomou para si a bandeira da preservação do meio ambiente. ora, percival, deixa de troça, vocês é que estão, agora, querendo botar a mão numa bandeira que sempre foi nossa.

pois é, mas posso não ter te entendido muito bem. admito e reconheço minhas limitações em relação ao tema. mas acho que entendi pelo menos uma parte: a parte relativa às utopias. para ti e para os que pensam como tu, a tal utopia é algo absolutamente desnecessário. utopia pra quê, né, se ela é inatingível. sim, percival, quem acredita na utopia sabe, melhor que tu, que a utopia é inatingível... mas e daí, percival, qual o problema? das utopias, já disse um poeta: «se as coisas são inatingíveis... ora! não é motivo para não querê-las... que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas.»

bacana, né? se bem que não sei o que tu pensas a respeito de poesia, e tampouco sei se sabes quem é mário quintana. sei muito bem o que tu pensas a respeito da foice e do martelo e do sol e da estrela. por falar em estrelas, caro percival, fotos recentes da nasa mostram que o universo tem um novo tipo de buraco negro. as fotos das estrelas xz tauri e hh 30 revelam jatos de gás ejetados a milhares de quilômetros por hora. o interessante é a fonte de brilho próxima do centro da imagem. ela cresceu anos-luz de intensidade nos últimos meses.

sabias disso, percival? para quem escreveu o que escreveste, acho que não.

outra coisa, percival: segundo um relatório do painel intergovernamental sobre mudanças climáticas da onu, divulgado no final de março de 2012, o impacto do aquecimento global será «grave, abrangente e irreversível». o texto afirma que a quantidade de provas científicas do impacto do aquecimento global dobrou desde o último relatório, lançado em 2007. e diz mais o texto. diz que «ninguém neste planeta ficará imune aos impactos das mudanças climáticas.» presta atenção, percival: «NINGUÉM neste planeta ficará imune aos impactos das mudanças climáticas.»

mais uma pro teu arquivo, percival: o ano de 2016 foi o mais quente desde 1880, quando se iniciaram os registros, ultrapassando o último recorde, atingido em 2015.

pois é, percival... mas talvez nada disso seja verdade. talvez seja tudo mais um delírio esquerdista causado pela «tal utopia». não sei. pode ser que sim. mas, por via das dúvidas, talvez possas da próxima vez ocupar os espaços nobres que te são concedidos na rbs para nos esclarecer mais em relação às coisas do meio ambiente em vez de ficar vendo «diabo vermelho» onde não há. pois, caso contrário, alguém vai ter que vir «tocar a corneta» por todos nós; por mim, por ti, pelos teus filhos e netos — filhos e netos que eu não tenho, mas que tu talvez tenhas.

ah, e quanto à tua tese, me desculpa, percival, mas ela é totalmente sem pé nem cabeça. o aquecimento global não é coisa de esquerda ou de direita. o aquecimento global é um fato científico.

antes que eu me esqueça, percival: vai pro diabo que te carregue!

era isso... sem mais (e até nunca mais) nunca mais, nunca mais

enilton grill (radialista — produtor e apresentador do programa américas)

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falando em utopia
lembrei de eduardo galeano

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[legendado em português]

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falando em horizonte
lembrei de neil young

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há uma cidade no norte de ontário com sonho, conforto, memória, desespero e na minha mente ainda preciso de um lugar pra ir
tudo o que em mim mudou ficou lá

janelas azuis atrás das estrelas a lua amarela a despontar grandes pássaros cruzam o céu projetando sombras sobre os nossos olhos

desamparado, desamparado, desamparado meu bem, você me ouve agora? as correntes estão cruzadas trancando minha porta meu bem, meu bem, dê um jeito, mas cante comigo

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[live at farm aid 1993]

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nota: em uma entrevista de 1995 à revista «mojo», neil young explica que a cidade no «norte de ontario» citada na letra é um «não-lugar». entendedores entenderão.

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o escolhido

sofri de uma ilusão temporária. achava que eu era «o escolhido». de alguma forma, acreditava que era capaz de realizar o que mais ninguém havia conseguido.

às vezes, me apaixono tanto por uma meta que consigo me visualizar fazendo coisas inacreditáveis.

já cometi erros e esse foi um dos grandes — as coisas não saem do jeito que você quer só porque você acredita ou deseja que elas aconteçam de determinada maneira. e se fosse assim? o mundo seria um lugar mais seguro sem as guerras pelo petróleo, mais limpo e sem poluição, mas não foi desse modo que aconteceu. pelo menos, ainda não. mas tenho fé no espírito humano, na inovação, na criatividade e na determinação. alguém um dia vai descobrir uma solução.

neil young --- a autobiografia, p. 77, 78.

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de volta à estrada

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onde você esteve, meu filho de olhos claros?
onde você esteve, meu querido jovem?
tropecei pelas encostas de doze montanhas de névoa
caminhei e me arrastei por seis estradas tortuosas
pisei no meio de sete florestas tristes
estive diante de uma dúzia de oceanos mortos
andei dez mil milhas na boca de um cemitério
e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte
é uma chuva forte que vai cair

o que você viu, meu filho de olhos claros? o que você viu, meu querido jovem? vi um recém-nascido cercado de lobos selvagens vi uma estrada de diamantes sem ninguém nela vi um galho negro que pingava sangue vi um quarto cheio de homens com seus machados sangrando vi uma escada branca toda coberta de água vi dez mil oradores com as línguas quebradas vi armas e espadas afiadas nas mãos de crianças e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte é uma chuva forte que vai cair

e o que você ouviu, meu filho de olhos claros?
e o que você ouviu, meu querido jovem?
ouvi o som do trovão e era um aviso
ouvi o rugido de uma onda que poderia afogar o mundo inteiro
ouvi cem bateristas cujas mãos estavam em chamas
ouvi dez mil sussurrando e ninguém ouvindo
ouvi uma pessoa morrer de fome, e muitas rindo
ouvi a canção de um poeta que morreu na sarjeta
ouvi o som de um palhaço que morreu no beco
e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte
é uma chuva forte que vai cair

quem você encontrou, meu filho de olhos claros? quem você encontrou, meu querido jovem? encontrei uma criança ao lado de um pônei morto
encontrei um homem branco que andava com um cão negro encontrei uma jovem mulher com o corpo em chamas encontrei uma menina que me deu um arco-íris
encontrei um homem ferido pelo amor encontrei outro homem ferido pelo ódio
e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte, e é uma chuva forte é uma chuva forte que vai cair

e o que você vai fazer agora, meu filho de olhos claros? e o que você vai fazer agora, meu querido jovem? vou voltar lá fora antes que a chuva comece a cair
vou caminhar pelas profundezas da floresta mais escura onde as pessoas são tantas e as mãos tão vazias onde grãos de veneno inundam as águas
onde o lar no vale encontra a prisão suja e úmida onde o rosto do carrasco é sempre bem escondido onde a fome é feia, onde as almas são esquecidas
onde o preto é a cor, onde o nada é o número e eu possa contar e pensar e falar e respirar e refletir do alto da montanha para que todas as almas vejam
e ficarei de pé sobre o oceano até começar a afundar mas conhecerei bem minha canção antes de começar a cantar

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(live 1976)
[tradução ing/port]

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a chuva cai
o vento sopra
as pedras rolam
as águas mudam
as águas mudam
as pedras rolam
o vento sopra
a chuva cai
eu subo

eu subo
uma flor nasce

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no manatial
eu vi nascer
uma rosa
baguala

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carpe diem
chove em satolep
bom domingo

sábado, 15 de agosto de 2026


   todos estão surdos   

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«o ato de ouvir exige humildade de quem ouve. e a humildade está nisso: saber, não com a cabeça mas com o coração, que é possível que o outro veja mundos que nós não vemos. mas isso, admitir que o outro vê coisas que nós não vemos, implica reconhecer que somos meio cegos… vemos pouco, vemos torto, vemos errado.»

rubem alves

.

«outro dia, um cabeludo falou:
“não importam os motivos da guerra
a paz ainda é mais importante que eles.”
esta frase vive nos cabelos encaracolados
das cucas maravilhosas
mas se perdeu no labirinto
dos pensamentos poluídos pela falta de amor.»

roberto carlos

.

«amor é tudo que move»

gilberto gil

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se deus quiser
[escrito no auge pandemia]
26 de abril de 2020

por enilton grill

ontem (25 de abril de 2020) ao entardecer juntamos quase toda a família em volta não do fogo mas de um aplicativo que a internet disponibiliza e trocamos ideias como aliás há muito não fazíamos.
não fosse a internet possivelmente jamais fizéssemos. afinal, a família está espalhada pelo mundo todo. ontem, por exemplo, o repecho estava conectado com pelotas, porto alegre, campeche, brasília, são luís, estados unidos e canadá.
depois de nos situarmos sobre o que cada um estava fazendo, enveredamos pelos caminhos nebulosos do vírus, vírus que atormenta a todos nós --- quando digo a todos nós, digo ao mundo todo, obviamente.
pensamos todos (os que participaram dessa charla familiar) muito parecido. todos entendemos que, se há uma chance de o mundo em que vivemos vir a ser o mundo que sonhamos, a chance é agora, pós-pandemia.
a verdade é que a pandemia nos igualou a todos. estamos todos em risco. risco de perdermos a vida. e foi isso que nos colocou em quarentena, que fez com que parássemos e que invertêssemos o rumo de nossos passos.
a vida que vivíamos antes do coronavírus era uma espécie de uma crônica da morte anunciada. sabíamos disso, mas não tínhamos força para parar. salvo as exceções, é claro. viva mujica!
«eu não sou pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve. vivo com apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade».
«a vida escapa e se vai minuto a minuto e não podem ir ao supermercado comprar a vida. então lutem para vivê-la, para dar conteúdo a ela».
«aprendi que, se você não consegue ser feliz com poucas coisas, não conseguirá ser feliz com muitas coisas.»
pois bem, estamos todos nessa. estamos todos aprendendo a viver com menos, não dando importância ao que não tem importância e dando importância ao que realmente tem importância. e nada é mais importante para nós do que a nossa vida. ademais, ao preservarmos a nossa vida, preservamos a vida de todos. isso é nobre e nos faz bem.
até aí, salvo engano meu, concordamos todos.
a questão que ficou pendente, é sobre a capacidade ou não de mantermos esta chama acesa quando o risco de morte passar.
eu, pra não ficar em cima do muro, que não é o meu lugar, repito o que disse ontem — na reunião familiar — o que, aliás, já disse aqui — no face — várias vezes: não tenho grandes ilusões com a humanidade.
contudo, não custa lembrarmos mujica, uma vez mais: «o impossível custa um pouco mais, e derrotados são aqueles que cruelmente cruzam os braços e se entregam». o que absolutamente não é o meu caso. se fosse, não estaria aqui, preenchendo mais uma folha em branco. e amanhã outra e depois de amanhã outra. e assim até o fim...

se deus quiser.

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francisco

dos últimos papas
o mais próximo do ideal cristão
penso eu
foi o papa francisco

o papa morreu! viva o rei!

sinto muito se «decepciono» os meus leitores
mas sempre gostei do rei
aliás
muito antes de gostar de
caetano
chico
gil
milton
vitor
dylan
chico science
&
nação zumbi
eu já gostava de r. c.

grill

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se podes ouvir, escuta. se podes escutar, repara:

em 7 e 8 de agosto de 2021, vitor ramil gravou seu álbum avenida angélica no theatro sete de abril em pelotas, sem plateia e em formato intimista de voz e violão, bem no meio da pandemia de covid-19 e das obras de restauro do prédio.

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«a música "r.c." que vitor compôs numa van, assim que leu o poema, inspira-se no estilo de roberto carlos – em outros tempos faria sucesso nas rádios fm.»

juarez fonseca

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tanta gente se esqueceu
que a verdade não mudou
quando a paz foi ensinada
pouca gente escutou
meu amigo volte logo
venha ensinar meu povo
o amor é importante
vem dizer tudo de novo

canta: chico science & nação zumbi

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pra terminar

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todos estão surdos.
a natureza, contudo
não é muda.

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[a realidade pinta naturezas-mortas]
curta-metragem (3:15)
texto: eduardo galeano. leitura: eric nepomuceno.
música: uakti. assessoria de imprensa: cwea. (2020)

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«chove na tarde fria de porto alegre
trago sozinho o verde do chimarrão
olho o cotidiano, sei que vou embora
nunca mais, nunca mais»

vitor ramil

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foto: papa francisco sozinho, num dia chuvoso, dando a bênção, «urbi et orbi», para a cidade, para o mundo, na praça são pedro, durante a pandemia.

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#casadosaedos
#américas

sexta-feira, 14 de agosto de 2026


PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO REI
[eu que tanto tenho compartilhado canções suas]

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recado

anos atrás, envolvi-me — isto é, deixei-me envolver — em uma discussão no facebook por causa de caetano. o cidadão com quem travei um extenso e acalorado debate, cujo nome não vou revelar (mas adianto que é um nome americanizado), pensa ser o mais revolucionário dos revolucionários da esquerda brasileira. segundo ele, caetano é um alienado, um desbundado, um entreguista. mas o pior para esse cidadão — e para grande parte da inteligente e engajada esquerda nacional — é a admiração de caetano pelo rei. para os que pensam como ele, caetano já mandou seus recados há muito tempo. ou melhor, os avisos foram dados na mesma velocidade com que a sábia e hegemônica esquerda brasileira parou no tempo.

grill

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👉 recado1



👉 recado 2


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«entre o que penso, o que quero dizer, o que eu digo e o que você ouve, o que você quer ouvir e o que você acha que entendeu, há um enorme abismo.»

alejandro jodorowsky

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tente outra vez

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verdade tropical

no livro verdade tropical, caetano veloso conta que em 1969, recém-exilado em londres com gilberto gil, ele entrou em depressão. um dia, a mulher de gil disse a ele que roberto carlos estava na cidade e iria visitá-los! a presença do rei (expressão usada por ele) trouxe a lembrança de um brasil que eles queriam lembrar.

em 1966, em plena guerra entre a mpb dos violões e a jovem guarda das guitarras, bethânia recomendou a caetano ver o programa de roberto que, segundo ela, tinha a vitalidade perdida na mpb engajada, pós-bossa-nova.

caetano levou com gal as guitarras para a tropicália e abriu para o rei o respeito de um grupo de ouvintes — entre eles, eu —, que simplesmente o ignoravam por preconceito.

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de volta ao encontro

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com violão à mão, caetano mostrou ao rei, a música london london.

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estou vagando sem rumo, sem ter para onde ir me sinto sozinho em london, londres é tão linda assim atravesso as ruas sem medo todo mundo abre caminho eu sei, eu sei que não há ninguém aqui para me cumprimentar eu sei que todos abrem caminho me sinto sozinho em londres, sem medo estou vagando sem rumo por aqui, sem ter para onde ir enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu ah, domingo, segunda-feira, o outono passa por mim e as pessoas correm tão tranquilamente um grupo se aproxima de um policial ele parece tão feliz em atendê-los pelo menos é bom viver, e eu concordo ele parece tão satisfeito, pelo menos e é tão bom viver em paz e domingo, segunda-feira, anos, e eu concordo enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu não escolho nenhum rosto para olhar, não escolho nenhum caminho acontece que estou aqui, e tudo bem grama verde, olhos azuis, céu cinza deus abençoe a dor silenciosa e a felicidade vim até aqui para dizer sim, e eu digo grama verde, olhos azuis, céu cinza deus abençoe a dor silenciosa e a felicidade vim até aqui para dizer sim, e eu digo

mas meus olhos procuram discos voadores no céu sim, meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu ah, meus olhos procuram discos voadores no céu sim, meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu ah, meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu sim, meus olhos procuram discos voadores no céu

👇

[áudio oficial]

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impressionado, o amigo pediu para caetano escrever algo pra ele. por sua vez, o rei tocou algumas músicas que sairiam em seu disco no final do ano. caetano achou linda a música, sua estupidez. disse que ficaria bem na voz de gal costa.

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meu bem, meu bem use a inteligência uma vez só quantos idiotas vivem só sem ter amor
e você vai ficar também sozinha e eu sei porque sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo

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[gal costa e som imaginário - programa ensaio 1970]
precedida por depoimento de tom zé, uma explosiva declaração de amor

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quando o rei cantou as curvas da estrada de santos, caetano entrou em pranto. amparado por gil e todos que estavam presentes, ficava claro o desconforto e sofrimento que ele estava passando em não poder voltar pra casa.

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se você pretende saber quem eu sou eu posso lhe dizer entre no meu carro na estrada de santos e você vai me conhecer

👇

[áudio oficial]

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o encontro acabou algum tempo depois. a música pedida por roberto apareceu no disco do cantor que saiu em dezembro de 1971. apesar de linda, como dois e dois era uma das músicas com a letra mais pesada que ele já havia gravado.

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quando você
me ouvir cantar
venha não creia
eu não corro perigo
digo, não digo, não ligo
deixo no ar
eu sigo apenas
porque eu gosto de cantar

tudo vai mal, tudo
tudo é igual
quando eu canto
e sou mudo
mas eu não minto, não minto
estou longe e perto
sinto alegrias
tristezas e brinco

meu amor!
tudo em volta está deserto, tudo certo
tudo certo como dois e dois são cinco

quando você
me ouvir chorar
tente não cante
não conte comigo
falo, não calo, não falo
deixo sangrar
algumas lágrimas bastam pra consolar

tudo vai mal
tudo, tudo, tudo, tudo
tudo mudou
não me iludo e contudo
a mesma porta sem trinco
mesmo teto, mesmo teto
e a mesma lua a furar nosso zinco

meu amor!
tudo em volta está deserto, tudo certo
tudo certo como dois e dois são cinco

meu amor! meu amor! meu amor!
tudo em volta está deserto tudo certo
tudo certo como dois e dois são cinco
são cinco, são cinco

👇

[caetano & roberto]

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e os caracóis do cabelos:
o que havia debaixo deles?

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não sei se o povo brasileiro — que a inteligente e engajada esquerda nacional adora tratar como um eterno e ignorante analfabeto — entendeu o recado. o fato é que debaixo dos caracóis dos seus cabelos foi a segunda música mais executada do disco ao longo de 1972, ficando atrás apenas de «detalhes». terna e doce, a canção dizia...

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um dia a areia branca
teus pés irão tocar
e vai molhar seus cabelos
a água azul do mar
janelas e portas vão se abrir
pra ver você chegar
e ao se sentir em casa
sorrindo vai chorar

debaixo dos caracóis dos seus cabelos
uma história pra contar
de um mundo tão distante
debaixo dos caracóis dos seus cabelos
um soluço e a vontade
de ficar mais um instante

as luzes e o colorido
que você vê agora
nas ruas por onde anda
na casa onde mora
você olha tudo e nada
lhe faz ficar contente
você só deseja agora
voltar pra sua gente

👇

[caetano veloso ao vivo]

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alegria alegria

caetano e gil seriam autorizados a retornar em 1972. chico anysio negociou veladamente o retorno com as autoridades da época.
o resultado musical daquele encontro em londres entre gil, caetano e o rei, apesar de doído, foi musicalmente sensacional. coisas daquela época mágica em que músicas maravilhosas brotavam de sentimentos tanto de tristezas como de alegrias.

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caminhando contra o vento
sem lenço e sem documento
no sol de quase dezembro
eu vou

👇

[do documentário: uma noite em 67]

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ao vento

quem me acompanha
pelos meus textos
desde o facebook
sabe perfeitamente o que penso da esquerda brasileira
mas não custa repetir
a esquerda brasileira
sobretudo a hegemônica
é velha, burra e acomodada
por quê?
porque segue com o mesmo discurso
e a mesma prática do século passado
acreditando que
via institucional
isto é
através de eleições
num sistema de democracia representativa
é possível mudar o cenário caótico em que vivemos

não é de hoje que digo
que essa forma de fazer política
é velha e ultrapassada
que é preciso criar algo novo
que nos encante
que nos entusiasme
que nos apaixone
todavia
na esquerda brasileira
não são muitos os que comungam com essa forma de pensar
pelo contrário
a maioria faz pouco caso
como se eu vivesse num mundo de fantasia
e estivesse flanando
devaneando
fazer o quê?!

grill

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— e agora, o que faremos?
— poesia, esses canalhas não suportam poesia

rafael corrêa

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maiakóvski, o poeta da revolução

poeta hiperbólico, político e lírico ao mesmo tempo, foi defensor fervoroso da revolução, mas também acusado de ser incompreensível para as massas e excessivamente pessoal. maiakóvski era um escritor em guerra contra a vida cotidiana, cuja imaginação era tão larga que poderia redefinir a família como composta por um pai, «no mínimo o mundo», e uma mãe que fosse «no mínimo a terra».

larissa drigo agostinho, mestre e doutora em literatura pela universidade de paris iv-sorbonne.

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«amor é tudo o que move»

gilberto gil

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o amor

um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
vosso trigésimo século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
ressuscita-me!
quero viver até o fim o que me cabe!
para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
e que, ao primeiro apelo:
— camaradas!
atenta se volte a terra inteira.
para viver
livre dos nichos das casas.
para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o universo;
a mãe,
pelo menos a terra.

vladimir maiakóvski (1893 - 1930)

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em agosto de 1971, um ano antes de retornar definitivamente de seu exílio para o brasil, caetano veloso visitou o país para um encontro histórico. ao lado de gal costa e joão gilberto — uma de suas maiores influências musicais —, o artista participou de um especial realizado pela extinta tv tupi.

dez anos mais tarde, em 1981, essa parceria com o mestre se repetiu no álbum brasil, de joão gilberto. o disco foi lançado pela gravadora wea e contou também com as participações de gilberto gil e maria bethânia.

paralelamente ao lançamento do álbum, estreava a peça o percevejo, do poeta russo vladimir maiakóvski. o espetáculo trazia dedé veloso no elenco como atriz e contava com poemas traduzidos e adaptados pelo próprio caetano. um deles, a canção «o amor», tornou-se um grande sucesso na voz de gal costa.

[áudio oficial]

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de volta a caetano

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se podes olhar, vê; se podes ver, repara: caetano voltou ao brasil, há 54 anos, em 10 de janeiro de 1972, e até hoje a inteligente e engajada esquerda brasileira ainda não o entendeu.

lembrei de tom zé...

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veja que beleza
em diversas cores
veja que beleza
em vários sabores
a burrice está na mesa

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[com defeito de fabricação]

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📷 eu | minifúndio café | pelotas, 2007

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#américas


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

 

ato de fé — cuba agoniza mas não morre

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«condene-me, não importa, a história me absolverá.»

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«uma revolução não é um leito de rosas. uma revolução é uma luta até a morte entre o futuro e o passado.»

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«se queremos falar como queremos que sejam nossos combatentes revolucionários, nossos militantes, nossos homens, devemos dizer sem hesitação de nenhuma espécie: que sejam como o che!»

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«o que não nos perdoam os imperialistas é que tenhamos feito uma revolução socialista nas próprias barbas dos estados unidos.»

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«minha barba significa muitas coisas para o meu país. quando tivermos cumprido nossa promessa de um bom governo, farei a barba»

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«comecei a revolução com 82 homens. se tivesse que fazê-lo de novo, faria com 10 ou 15 e fé absoluta. não importa quão pequeno seja, se tiver fé e plano de ação.»

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todas as frases são de fidel

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creio em ti,
como creio quando cresce
quanto se sente e se sofre
ao olhar ao redor.

creio em ti ,
e fico feliz que o amanhã,
visto pela minha janela,
nunca seja igual a hoje.

creio em ti,
porque mesmo dando-me desgostos
o queriéndome mucho,
siempre vuelvo a ti.

creio em ti,
cheio de contradições,
pronto para soluções,
sempre creio em ti.

creio em ti,
porque nada é mais humano
do que prenderse de tu mano
e caminhar acreditando em ti.

creio em ti,
assim como creio em deus,
que és tu, que sou eu,
em ti, revolução.

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pablo milanés ao vivo no brasil
[com chico buarque de havana]
canecão rio de janeiro
novembro de 1983

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repecho, dezembro de 2016

havia pouco que eu tinha entrado no facebook quando meu camarada, eduardo menezes, me mandou uma mensagem. perguntou se eu podia escrever um artigo para o jornal o troco, do sindicato dos bancários, sobre os 90 anos de fidel. não precisei nem pensar. agradeci a lembrança e escrevi o texto de uma só vez.

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fidel não é deus
[deus não existe]

por enilton grill
jornal o troco
dezembro de 2016

há quem diga que, para nós da esquerda, fidel é deus.
há quem diga que, para nós da esquerda, cuba é um paraíso.
nós dizemos que nada disso é verdade.
fidel não é deus porque deus não existe;
e cuba não é um paraíso porque no paraíso não há guerra.

fidel não é deus, mas sobreviveu a 637 atentados; cuba não é um paraíso, mas tem o melhor sistema de educação e de saúde pública da américa latina e do caribe, e um dos melhores do mundo.

tudo isso, no entanto, não foi de graça: «não precisamos que o império nos dê nenhum presente», disse fidel após a visita de obama a cuba.

de 1959 até hoje, foram mais de 50 anos de bloqueio e de guerra — de guerra contra um império. durante esses anos todos, cuba sobreviveu a dez presidentes dos estados unidos. e isso não foi obra de deus. fidel não é deus. deus não existe.

poderia passar o resto dos meus anos escrevendo sobre os ataques dos estados unidos a cuba e de como fidel e os cubanos os enfrentaram e os derrotaram. mas não é o caso. não é hora e não há espaço.

não posso deixar de dizer, porém, que em cuba os ianques não só organizaram bandos mercenários, como também introduziram armas e explosivos, treinaram homens, fizeram sabotagens, impulsionaram a contrarrevolução por todos os meios, realizaram ataques piratas contra os portos e contra os barcos; durante anos, organizaram expedições mercenárias e levaram a cabo invasões e bombardeios.

mas fidel resistiu; e, em meio ao fogo cruzado, ainda encontrou tempo para mostrar ao mundo talvez sua faceta mais bonita: a solidariedade.

o que teria sido de angola sem os 50 mil cubanos que a defenderam contra os racistas da áfrica do sul a troco de nada? o que teria sido da nicarágua sem os médicos, os professores e os técnicos que, a troco de nada, foram de cuba para lá? «em quantos países os cubanos foram os primeiros a chegar, a troco de nada, na hora de enfrentar uma peste, um furacão ou um terremoto?», pergunta galeano.

e o que seria do mais médicos, aqui no brasil, não fosse o apoio dos médicos cubanos?, pergunto eu.

a verdade é que todos nós devemos muito do que somos a fidel.

fidel foi aquele que apontou o caminho e mostrou como se faz para chegar. e isto não é pouco; pelo contrário, é muito.

é muito, mas não é tudo.

a revolução de fidel não foi a revolução das liberdades. quem sabe um dia façamos nós aquilo que fidel não fez. quem se habilita?

no entanto, é bom lembrar: com um gigante a acossá-lo, fidel fez o que podia fazer. e tem mais: se não fizesse como fez, não faria tudo o que fez.

em cuba não existe nenhum descalço, nenhum analfabeto, nenhum faminto. cuba é hoje o que é: uma nação solidária, com o melhor sistema de saúde pública, com a melhor educação do continente, sem uma criança sequer dormindo na rua porque fidel foi o que foi, e fidel foi o que tinha de ser. «o homem é o homem e sua circunstância», diria ortega y gasset.

fidel não é deus, deus não existe. fidel é fidel:
para os cubanos, mel; para os ianques, fel.

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falando em deus
lembrei do deus de espinosa

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einstein, quando perguntado se acreditava em deus, respondeu:
— acredito no deus de spinoza que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no deus que se interessa em premiar ou castigar os homens.

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pra não dizer que não falei de flores

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tudo que aqui ele deixou
não passou e vai sempre existir
flores nos lugares que pisou
e o caminho certo pra seguir

(teria sido psicografada por chico xavier)
com letra e imagens

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pergunta que não quer calar:
e se cristo voltasse?

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«se cristo voltasse, nós o crucificaríamos novamente. mas desta vez, na televisão. por uma temporada, nós o transformaríamos em um astro, o maior fenômeno de massa já visto, e então o jogaríamos fora como um lenço de papel usado.»

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«se cristo voltasse, apareceria um judas que o trairia, um pedro que o negaria três vezes, um tomé que colocaria os dedos em sua ferida após sua morte, um pilatos que lavaria as mãos e um barrabás que, sem nenhum mérito, seria preferido a ele pela chusma (1) que todos nós somos. uma chusma veleta (2), que mais uma vez gritaria para que ele fosse crucificado.»

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JESÚS QUINTERO: SE CRISTO VOLTASSE
(legendado en español)
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1. conjunto o multitud de gente grosera o vulgar. la chusma.
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2. peça de metal, geralmente em forma de seta, que é colocada no topo de um edifício, de modo que possa girar em torno de um eixo vertical impulsionada pelo vento, e que serve para indicar a direção do mesmo.

© real academia española, 2024.

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canção de mim mesmo

o passado e o presente definham .... já os enchi e esvaziei,
passo a encher minha própria dobra do futuro.

vocês que me escutam aí em cima! você aí ....
algum segredo para me contar?
me encare enquanto assopro o discreto poente,
seja sincero, ninguém está te ouvindo,
só vou ficar mais um minuto.

eu me contradigo?
tudo bem, então .... me contradigo;
sou vasto .... contenho multidões.

me concentro nos que estão perto .... espero na porta.

quem terminou o batente e vai jantar mais cedo?
quem quer passear comigo?

você vai falar antes que eu vá embora?
ou virá quando já for tarde demais?

o falcão pintado dá uma rasante sobre mim e me acusa ....
reclama de minha conversa fiada, minha preguiça.

também não sou facilmente amestrado ....
também não sou facilmente traduzível,
solto meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo.

a última nuvem do dia se demora por mim.

lança minha semelhança após o resto,
fiel como todas nos ermos sombrios,
me incita para o vapor e para o crepúsculo.

vou-me feito vento .... agito meus cabelos brancos
contra o sol fugitivo,
esparramo minha carne em redemoinhos
e a deixo flutuar em retalhos rendados.

me entrego à terra pra crescer da relva que amo,
se me quiser de novo me procure sob a sola de suas botas.

vai ser difícil você saber quem sou
ou o que estou querendo dizer,
mas mesmo assim vou dar saúde,
vou filtrar e dar fibra a seu sangue.

se não me encontrarem logo, paciência,
se eu não estiver num lugar, procurem-me outro,
em algum lugar, estarei à espera.

walt whitman

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señor, señor, vamos desconectar estes cabos,
derrubar estas mesas.
este lugar já não tem nenhum sentido pra mim.
pode me dizer o que estamos esperando, señor?

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SEÑOR | BOB DYLAN | 1978
(letra ing / esp)

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não ao bloqueio
viva cuba
viva o povo cubano
viva fidel
viva a revolução

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#américas