sexta-feira, 10 de julho de 2026

 


memórias cantando

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«muitas vezes, as pessoas tentam explicar os outros a partir daquilo
que elas mesmas sentiriam.
mas nem sempre é assim.
algumas pessoas simplesmente são inquietas,
têm curiosidade sobre a vida, sobre os caminhos que as pessoas escolhem e sobre os padrões que se repetem ao longo do tempo.
talvez por isso eu sempre tenha me interessado mais pelo que está por trás das coisas do que pela superfície.
nunca me fascinou apenas o que aconteceu.
sempre me fascinou o porquê.
por que algumas pessoas mudam?
por que algumas permanecem as mesmas?
por que certos caminhos se cruzam?
por que certas histórias se repetem?
talvez eu nunca encontre todas as respostas.
mas continuo observando.
não para julgar.
não para competir.
mas porque a vida humana é um dos maiores mistérios que existem.
e cada pessoa carrega dentro de si um universo inteiro esperando para ser compreendido.»

scarlet seixas, filha de raul seixas.

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«o dom você o tem. nunca se esqueça.»

johnny cash

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o dom

minha mãe tinha fé em mim. queria que eu tivesse aulas de canto, então começou a lavar a roupa das professoras da escola para pagar pelas lições. um dia inteiro de trabalho lhe rendia três dólares, o valor de uma aula. eu não queria nada disso. mas, quando apareci para a primeira aula, encontrei uma boa razão para voltar na segunda: a professora era muito bonita.

porém, ela não era para mim. na metade da terceira aula, depois de me acompanhar em algumas baladas irlandesas, ela fechou a tampa do piano.

«ok, é o suficiente», ela disse. «agora quero que você cante para mim, sem acompanhamento, o que gosta de cantar.» cantei uma canção de hank williams para ela --- acho que foi «long gone lonesome blues».

quando terminei, ela disse: «nunca mais faça aulas de canto. não deixe que eu ou qualquer outra pessoa mude a sua maneira de cantar». então me mandou para casa.

isso me faz lembrar do dia em que minha voz mudou e minha mãe ouviu meus novos tons graves pela primeira vez. eu estava cantando quando entrei pela porta dos fundos. ela se virou do fogão, surpresa, e perguntou: «quem foi que cantou isso?».

cantei um pouco mais, explorando o meu novo alcance vocal, e quando descobri quão longe minha voz podia ir, seus olhos se encheram de lágrimas e ela disse: «você canta igual ao meu pai». depois falou: «deus pôs sua mão sobre você, filho. nunca se esqueça do dom».

cash - a autobiografia de johnny cash, p. 57.

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vela no breu
(escrito em 31 de março de 2021)

uma das situações mais difíceis que enfrentei, como instrutor teórico na auto-escola, foi quando tive que reverter uma voz de prisão dada por um juiz de direito em plena sala de aula.

esse curso era um curso misto (1ª habilitação e renovação de cnh). ou seja, estavam juntos, em sala de aula, candidatos a 1ª habilitação e condutores com a cnh por vencer ou já vencida.

na largada do curso, já levei uma chapuletada. antes de pedir para que cada aluno se apresentasse, que era o meu jeito de começar a aula, inventei de contar uma história. era uma história sobre uma situação de trânsito que eu tinha visto minutos atrás antes de chegar na auto-escola. enquanto contava a história, olhei para o aluno sentado na primeira fila, ele tinha a sua frente o código de trânsito e, enquanto eu contava a história, ele lia atentamente algo, que eu nunca soube o que era.

quando terminei de contar a história, fui direto nele.

— seu nome?

e ele:

— já se passaram mais de cinco minutos e a tua aula ainda não começou... meu nome é josé antônio dias da costa moraes.

bem, eu não sabia quem ele era e muito menos que era juiz... (segundo li agora há pouco o mais antigo juiz de direito do rs em atividade)

olhei para ele, e disse:

— sim, a aula já começou, o senhor é que não reparou.

depois que todos alunos se apresentaram, voltei à história que tinha contado e, a partir dela, desenvolvi minha aula aquela noite.

lá pelas tantas, explicando o significado das placas e a diferença entre parada e estacionamento, um magrão, lá no fundo da sala, (1ª habilitação), sai-se com essa:

— na frente do fórum, que era pra ser exemplo, pois tem um monte de juiz e advogado que trabalha lá, NINGUÉM respeita essas placas...

ato contínuo, dr. josé antônio dias da costa moraes se vira pro fundo da aula e exige que o rapaz retire o que disse:

— o senhor retire já o que disse, pois sou juiz de direito, nunca desrespeitei placa nenhuma... muito menos na frente do fórum.

o rapaz, atrevido e impetuoso, não se calou, e manteve o que havia dito. seguiu-se, então, uma discussão acalorada, até que... voz de prisão (por desacato a autoridade).

entrei em cena e dei o intervalo.

fui direto na direção e expliquei o que estava acontecendo...

e a cris:

— o pior tu não sabes, ele é sogro do meu filho...

perguntei se, por ventura, ela não queria interceder, pois a coisa tava muito complicada... já quase fugindo do meu controle.

ela disse:

— vai lá, te vira, dá o teu jeito... confio em ti...

15 minutos de intervalo (era pra ser 10) entro em sala de aula...

— quando me inscrevi, me disseram que eram 10 minutos de intervalo... já se passaram cinco minutos e a tua aula ainda não recomeçou...

dessas coisas que não tem explicação, fui levando a aula, levando, levando, até que me deu um estalo: disse pra mim mesmo, vou acender o cachimbo da paz entre esses dois (o juiz de direito e o magrão da 1ª habilitação)...

mas como?

enquanto eu desenvolvia o conteúdo, eu pensava em como criar uma situação para acabar com aquele mal-estar... mal-estar, diga-se de passagem, não só com o magrão da 1ª habilitação como comigo também.

comigo foi fácil. não lembro exatamente como foi que fiz, mas lembro que em questão de minutos eu arranquei duas ou três gargalhadas daquele sisudo e, aparentemente intransponível, juiz de direito.

restava agora criar o ambiente para o acordo de paz entre os dois desafetos. um deles, um rapaz de 18 anos de idade, atrevido e impetuoso, que não tinha títulos, nem diplomas, nem carteira de motorista, e o outro, um senhor de idade, juiz de direito, cheio de títulos e honrarias, que estava fazendo um curso de renovação da cnh, pois estava com a mesma por vencer.

mas como?

foi então que me deu mais um estalo: vou ensinar a regra do cruzamento sem sinalização. essa era uma regra de difícil explicação, contudo eu tinha criado um modo muito particular de ensiná-la, qual seja, depois de explicá-la eu perguntava para os alunos se todo mundo tinha entendido e como a maioria quase nunca entendia eu chamava dois alunos para a frente da sala de aula, desenhava no quadro um cruzamento sem sinalização e quatro carros, carro (a), carro (b), carro (c) e carro (d), cada carro, obviamente, numa esquina (vide foto), colocava os alunos na posição dos carros e perguntava para a turma qual dois dois estava à direita do outro. sim, a regra é esta: num cruzamento sem sinalização, a preferência é para os veículos que vierem à direita do condutor.

bem, deixa pra lá a regra, se quando eu era instrutor, e dava aula de manhã, de tarde e de noite, já era difícil de explicar, imagina agora...

voltando ao cachimbo da paz: eu decidi explicar a regra do cruzamento sem sinalização, chamando os dois desafetos para a frente da sala de aula, um deles, um juiz laureado e renomado e o outro, um rapaz de 18 anos, impetuoso e debochado.

na verdade, eu resolvi brincar com o fogo, pois tudo podia acontecer, inclusive eles não aceitarem meu convite e eu ficar com cara de tacho lá na frente. mas, modéstia a parte, em situações assim, não tenho medo de ser feliz, escolho sempre o risco ao invés do conforto.

sendo assim, fui em frente.

e deu certo. eles aceitaram, eu expliquei, brinquei, eles riram, todo mundo entendeu, a turma bateu palmas e os dois, no final, fumaram o cachimbo da paz. isto é, se abraçaram.

digo isso, pois ontem à tarde recebi a notícia que a covid 19 segue sua sina de morte. dr. josé antônio dias da costa moraes, infelizmente, morreu.

é tudo muito triste, a sensação que tenho é que esse caminho é sem volta. olho pra frente e não vejo nada. nada, nada, nada. apenas uma estrada, estreita, sinuosa e esburacada. luz no fundo do túnel? só se acender a vela no breu.

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esperança?
sempre há
ouço
agora
o canto de um passarinho
o canto é lindo
mas
parafraseando o poeta
o passarinho é um fingidor
ele chora rindo
dizem lá no morro
que fala sozinho

grill

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ama e lança chamas
assovia quando bebe
canta quando espanta
mal olhado, azar e febre
sonha colorido
adivinha em preto e branco
anda bem vestido
de cartola e de tamanco
dorme com cachorro
com um gato e um cavaquinho
dizem lá no morro
que fala com passarinho
desde pequenino
chora rindo olha pra nada
diz que o céu é lindo
na boca da madrugada

vela no breu | paulinho da viola / sérgio natureza, 1976

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juiz e esposa morrem vítimas da covid 19
(clique no link)

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a pessoa é para o que nasce

em 1997, quando o américas estava no auge e eu tinha uma estrada aberta à minha frente, as circunstâncias financeiras me levaram a dar uma virada radical na vida.

apesar de reconhecido e valorizado --- com apenas dois anos de programa já havia entrevistado dois ídolos máximos, mercedes sosa e león gieco, além de ter participado do programa «primeira pessoa» da jornalista ivete brandalise (tve poa)---, nunca consegui traduzir isso em dinheiro.

e no mundo como ele é, sendo as coisas como são, não há relação que se sustente quando um ganha dinheiro e o outro «vive de poesia».

«a questão da felicidade não é tão complicada e é pessoal.
da pra ser feliz com bem pouca coisa.
o problema é querer que o outro também seja feliz junto contigo,
e não só tu.»

sendo assim, fui à luta.

manhãs e tardes perdidas, batendo perna na rua pedindo emprego.

uma manhã de domingo, lendo os classificados, encontrei um anúncio de um curso no senac para instrutores de trânsito.

o processo para tirar carteira de motorista estava em plena mudança.

olhei pra minha companheira, na época, e disse: --- taí uma coisa que acho que sou capaz de saber fazer... ensinar as pessoas a dirigir...

segunda-feira, 8 da manhã, toquei o telefone pro senac (pelotas) buscando informações a respeito do curso.

— as turmas já estão completas, não há mais vagas.

eu estava entusiasmado... insisti...

a moça, sem saber mais o que fazer, disse o que eu precisava ouvir:

— em rio grande está por abrir um curso...

dito e feito, me inscrevi para o curso em rio grande (60 km de pelotas).

só havia vagas no período noturno.

de segunda a sexta, pegava o ônibus às 5 da tarde, chegava às 6, o curso começava às 7, terminava ás 10 e meia, eu pegava o ônibus das 11 e chegava à meia hora em casa.

com uma semana de curso, cheguei à conclusão que ensinar as pessoas a dirigir não era coisa pra mim.

descendo as escadas, comentei com um colega a minha decisão de cair fora, de partir pra outra...

atrás de mim, vinha o mendes, um dos instrutores do curso... foi ele que me convenceu a não desistir.

ele disse que tinha uma promessa de emprego como instrutor no cfc senna, mas que não poderia arcar com o horário integral dos cursos... que precisava de alguém junto com ele e que eu era a pessoa certa.

quando abri o sorriso, ele deu o xeque-mate:

— aguenta mais um pouco, vai dar tudo certo...

e deu mesmo...

mas por vias tortas.

eu nunca me imaginei dando aula teórica, eu me imaginava dando aula prática...

daí pra frente
muita coisa aconteceu
muita água rolou
foram dez anos de história
e dez anos não são dez dias
nem dez meses
cheguei com 30
saí com mais de 40
hoje tenho 61
corre o vento
o rio passa
mas determinadas coisas na vida
a gente nunca esquece
como dizia o poeta
«o que entra na cabeça
da cabeça logo vai;
o que entra no coração
fica e não sai nunca mais.»

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lo que dentra a la cabeza
de la cabeza se va
lo que dentra al corazón
se queda y no se va mas

tu quieres saber por qué?
escúchalo bien, escúchalo bien:
al corazón sólo dentra la pura verdad
¡que al corazón solo dentra la pura verdad!

la pura verdad | atahualpa yupanqui / pablo del cerro (1974)
última canção gravada por atahualpa yupanqui, em água escondida, cerro colorado, província de córdoba, argentina. retiro rodeado de natureza onde compôs várias de suas obras. seus restos mortais estão enterrados na propriedade, sob um carvalho.

na introdução, don atahualpa recita os versos do poeta espanhol león felipe: «mi voz es opaca y si brillo, no servirá jamás para reforzar un coro, sólo a mí me sirve para poder decir aquello que me alegra, aquello que me duele, aquello que me revela, aquello que me enmudece. sólo yo puedo decirlo, a veces sentirlo, talvez jamás pronunciarlo. mi voz no servirá jamás para reforzar un coro, es opaca sin brillo sólo para uno, sólo para mí, pido perdón...»

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batendo na porta do céu

escrevi sem saber escrever
ensinei sem saber ensinar
falei sem saber falar
fui até onde minhas pernas puderam me levar
quase cheguei lá
mas ainda estou aqui
ainda me falta voar

grill

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antes de me despedir, mais uma sobre o dom.

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o valor do dom

fui muito feliz, reconhecido e valorizado como instrutor teórico e prático. mas não nasci com o dom de ganhar dinheiro, essa é a pura verdade. eu era instrutor e os alunos me chamavam de mestre. teve um, porém, que uma vez foi além: convidou-me para ser pastor. repito: PASTOR! verdade... juro que é verdade. o aluno olhou para mim e disse: «irmão, com esse dom que deus te deu, tu podias ganhar muito dinheiro». o que dizer numa situação dessas? eu apenas sorri e agradeci.

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mil graças, sim senhor
da vida e da morte,
por ser apenas isto:
um sopro efêmero e leve.
e o de passar meus dias
finais neste mundo,
com as mãos vazias
e o coração profundo.

testimonio final | j. e. seri / atahualpa yupanqui (1979)

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#américas

quinta-feira, 9 de julho de 2026

 

luz andaluz

(a vida é como um flash)

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«nietzsche está saindo de um hotel em turim. vê diante de si um cavalo e um cocheiro lhe dando chicotadas. nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço sob o olhar do cocheiro e explode em soluços. isso aconteceu em 1889. foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. mas, para mim, é justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por descartes. sua loucura começa no instante em que chora pelo cavalo. é esse nietzsche que amo...»

milan kundera | a insustentável leveza do ser, pág. 284.

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nota: milan kundera afirma que nietzsche veio pedir perdão por descartes porque o filósofo francês rené descartes foi o grande responsável por consolidar a ideia de que os animais não possuem alma, sentimentos ou consciência, sendo meras «máquinas biológicas».

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o cavalo de turim
(o filme)

o filme retoma hipoteticamente o percurso do cavalo e do cocheiro após o episódio famoso.

a primeira cena é das mais impressionantes do cinema mundial pela beleza, pela plasticidade, pela maestria, pelo que ela comporta de trágico e de sublime.

é um plano sequência de mais de cinco minutos do cavalo puxando a carroça com o cocheiro numa paisagem árida, sob um vento impiedoso que levanta uma poeira diáfana e deixa a luz do sol ainda mais difusa.

no fundo uma música crescente faz o contraponto à imagem em movimento com uma melodia que se repete sem parar, envolvendo toda a cena num ambiente onírico, mas ao mesmo tempo hiperrealista.

o cocheiro vive com sua filha e com o cavalo em um tempo indefinido num ambiente inóspito que consiste em uma velha casa de pedras com um estábulo e uma cisterna de onde conseguem o pouco de água para o dia-a-dia.

o local, provavelmente no interior da hungria, poderia ser um lugar isolado em tantas outras partes do mundo onde há solo árido, escassez de água e de alimento.

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o cavalo de turim • trailer original • (2:30)

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«cuidado que a cidade na penumbra não é mais a mesma»

omar dib

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«apenas siga caminhando. da forma que tens caminhado. sempre aqui te lendo e aplaudindo.»

luciano oxley

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a vida é como um flash

em 2007
quando eu saí do ar
e fiquei sem ter onde morar
um amigo foi me resgatar
foi tudo muito rápido
questão de minutos
quando entramos em sua caminhonete
uma caminhonete importada
com motor de centenas de cavalos
ele me olhou e disse:
«que tristeza, tu não tem nada»
verdade
nem um «mísero» cavalo eu tinha
nem louça
nem mesa
nem sofá
nem cadeira
tudo o que eu tinha
(e ainda tenho)
além de uns quadros na parede
e um pôster do che
eram discos e livros
o resto era nada
ou quase nada
cabia numa sacola furada
enguli em seco
não falei nada
olhei pro lado
contemplei a casa
uma velha casa
que não era minha
nem alugada
era uma casa emprestada
e disse: «podemos ir, não tem mais nada»
ele girou a chave
acionou o arranque
engatou a primeira
depois a segunda
a terceira...
chovia aquele dia
eu olhava pela janela,
procuravava alguma coisa
qualquer coisa
e nada
não via nada
só aquela frase a martelar na minha cabeça:
«tu não tem nada! tu não tem nada!»
e eu olhava pro nada e pensava: «sinta mais, pense menos»
quem pensa que sabe tudo não sabe nada!

.

13 de novembro de 2007
convidado por um amigo
um irmão de alma que conheci no aa
fiz a fala de abertura para a apresentação de pedro munhoz no minifúndio café
depois de meses sem ver o sol e a lua
eu me sentia apto de novo a enfrentar as ruas
as ruas
os bares
a fumaça
os copos
as garrafas
o microfone
tudo ia dar certo
minha confiança em mim mesmo era tanta
que cometi o pecado de convidar a vivi
«ilusão, ilusão
veja as coisas como elas são»
na época
eu desconsiderei o fato de que
naquele momento
o único solteiro ali era eu
ou seja
vivi não podia
ela jamais iria
ela estava casada
daí pra frente
por motivos vários
baixei às profundezas
quando levantei a cabeça
e me olhei no espelho
estava em são luís do maranhão
de onde só voltei
movido pelo amor
pelo amor fati e
acima de tudo
pelo amor por mim mesmo

.

falando em 2007
o natal daquele ano
passei na casa do vitor, do alisson, da dona eli e da cris

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[às vezes, o que sentimos é tão profundo que a gratidão deixa de ser apenas uma palavra e passa a ter nome, endereço e rostos.]

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«graças à vida que me deu tanto
deu-me a marcha de meus pés cansados
com eles andei cidades e charcos
praias e desertos, montanhas e planícies
e tua casa, tua rua e teu pátio»

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em 1983, ano em que foi registrada a menor temperatura no mundo — -89,2 °c, em vostok, na antártida —, fomos embora do rio grande do sul para o maranhão. meu pai estava cansado daqui e nos levou para lá. sem querer, esse foi o maior presente que ele me deu. são luís foi um capítulo especial na formação do meu ser. para dizer a verdade, foi mais que especial: minha passagem pela ilha foi o destino necessário para que eu me tornasse quem eu sou.

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mas o tempo passa e as coisas não são mais como eram. a pós-modernidade trouxe com ela a fluidez do líquido - ninguém mais é, todo mundo está. nada é para sempre, tudo se desfaz. os sonhos, no entanto, permanecem. quem viveu o que eu vivi, jamais esquece.

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um dia, minha vida deu uma guinada. eu perdi o rumo da estrada. fui longe, e o longe era nada. é como diz o poeta: «o pobre que anda sin copla por esta vida prestada, mais que pobre é um fantasma e mais que fantasma é nada.»

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martim matou a charada, e me escreveu uma balada.

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«moeda que está na mão, quiçá se deva guardar. moeda que está na alma, se perde se não se dá».

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luz, quero luz
depois de me aventurar no escuro
encontrei a luz

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o pampa delira nos versos de borges
onde o tempo circula e o que foi voltará
artigas traído cavalga ao exílio
e o brilho de halley se faz lua no olhar

a carreta que cruza uma estrada sem fim
vê o primeiro avião navegando no céu
um visionário constrói seu castelo no campo
e neruda povoa de magia o papel

luz andaluz
estrela cadente brilhando pra sempre
nas noites do sul

luz andaluz | martim césar / hélio ramirez 2004

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e a balada?

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poderia dizer muita coisa sobre «balada para johnny cash»
poderia dizer
por exemplo
que eu pedi que fosse um dos dois
paulo timm ou hélio ramirez
que fizesse a música
mas não vou dizer nada
martim já disse tudo

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eu tenho uma balada
para johnny cash…
e já sei que é muito tarde
porque a vida é como um flash
mas, johnny, tu bem sabes
que o tempo pouco importa...
e ninguém sabe o que haverá
nos esperando além da porta
eu tenho uma balada
para johnny cash…
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
e também um grande amigo
que ao ouvir tua canção
me diz que ser feliz
é dar moeda ao coração
e que atahualpa e bob dylan
estão comigo, meu irmão
pois tive um norte aí no sul
e tenho o sul no maranhão
eu tenho uma balada
para johnny cash… eu tenho
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
mas, johnny, tu bem sabes
que a canção não tem país
e que a américa é bem maior
que o tio sam e o tenessee
de ushuaia ao maranhão
de jaguarão a são luís
qualquer instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
eu tenho uma balada
para johnny cash...
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
e também um grande amigo
que ao ouvir tua canção
me diz que ser feliz
é dar moeda ao coração
e que atahualpa e bob dylan
estão comigo, meu irmão
pois tive um norte aí no sul
e tenho o sul no maranhão
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
eu tenho uma balada
para johnny cash...

balada para johnny cash | martim césar/paulo timm 2014

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«👏👏👏 para todos os posts!!!
adoro o jeito como escreves! és um grande contador de histórias!»

flávia maurício

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enfim
tudo passa...
só as palavras ficam

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«a palavra é um vírus. o homem moderno não conhece mais o silêncio. tente deter o discurso subvocal. experimente dez segundos de silêncio interior. você vai se deparar com um organismo resistente que te obriga a falar. esse organismo é a palavra.»

william burroughs | the ticket that exploded (1962)

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«falaria mesmo se me calasse, porque agora não sou senão uma única palavra.»

franz kafka, em «cartas a milena»

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[às vezes, o que sentimos é tão profundo que transcende a linguagem. não importa se falamos ou permanecemos em silêncio: nossas atitudes, nosso olhar e nossa presença acabam revelando aquilo que somos. quando uma verdade nos atravessa por completo, ela se torna parte da nossa própria existência.]

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«você não está cansado, mas inquieto;
simplesmente tem medo de dar um passo nesta terra cheia de armadilhas.»

franz kafka, em «cartas a milena»

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[às vezes, o que sentimos é tão profundo, que tudo parece uma armadilha, cada decisão se torna pesada, e até o simples ato de seguir em frente desperta insegurança.]

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«a grandeza não é alcançada quando tudo vai bem, mas sim quando a vida nos testa, quando tropeçamos, quando nos decepcionamos, quando a tristeza nos domina. porque só estando no fundo do vale é que se pode saber quão magnífico é estar no topo de uma montanha.»

anthony hopkins

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[às vezes, o que sentimos é tão profundo que o topo de uma montanha nada mais é que uma pequena casa perdida no meio de uma avenida de grandes luzes. só quem conheceu a escuridão profunda do vale consegue enxergar o brilho das luzes e valorizar a solidez de um refúgio.]

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«se podes olhar, vê. se podes ver, repara»

josé saramago

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casi casi nada me resulta pasajero
todo prende de mis sueños
y se acopla en mi espalda
y así subo muy tranquilo la colina
de la vida

la colina de la vida | león gieco (1974)
(legendado)

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#américas

quarta-feira, 8 de julho de 2026


no rastro da lua cheia

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meus super-heróis

por fausto wolff

1. edgar allan poe

o homem era alto, magro, cabeça enorme. pobre, órfão de pai e mãe, criado por um tutor militarista. escreveu, entre outras obras-primas, o primeiro romance de detetive. ignorado no seu país, foi traduzido por baudelaire. em 1839, já havia publicado dez livros que lhe rendiam menos do que me rendem os meus. num cubículo da filadélfia editou o graham's magazine. ganhava US$ 800 por ano e conseguiu aumentar a tiragem da revista de cinco mil para 45 mil exemplares. em 1842 sua mulher morreu de tuberculose. ele desmoronou. foi despedido. ninguém lhe dava um emprego decente. foi largado nu em uma sarjeta pedindo que lhe dessem um tiro nos miolos. morreu dois dias depois, aos 38 anos. no seu túmulo, apenas o número 80. trinta anos depois, já reconhecido como o melhor escritor nascido em solo americano, os cidadãos de boston recolheram dinheiro para lhe dar uma sepultura digna onde inscreveram a frase «and the raven said never more« (e o corvo disse: nunca mais).

2. vincent van gogh

o homem era alto, magro, cabeça enorme, mas não era feio, como se diz hoje em dia. usava uma barba ruiva porque quando menino uma garota lhe dissera que tinha o queixo pequeno. todo emoção e timidez, a vida lhe doía. aos 20 anos, todos os domingos caminhava 40km só para ver de longe uma jovem que amava. um dia, ela lhe disse da janela que era noiva. trabalhou numa galeria, foi professor elementar, pastor, lavrador e levou seu cristianismo ao extremo, trabalhando de sol a sol e dormindo no chão. embora só começasse a pintar em 1881, fez 900 telas e 1.100 desenhos sem que tenha conseguido vender um em vida. tinha crises de loucura e numa delas, em arles, atacou gauguin com uma navalha. depois cortou o lóbulo da própria orelha e deu-o a uma prostituta. foi internado na clínica do dr. gachet, mais louco do que ele. o retrato que fez do dr. gachet, uma obra menor, foi vendido há alguns anos por US$ 84 milhões.

3. lima barreto

o homem era baixo, magro, doente, mulato claro. certa vez o gerente de uma livraria no centro do rio pediu firme, mas delicadamente, que se retirasse, pois seu cheiro de cachaça perturbava os clientes. era odiado pelos esnobes por ser anarquista e pelos militares porque, quando membro do júri, acusou um deles da morte de um estudante. expulso da livraria, voltou para casa o grande escritor brasileiro. lá morreu de enfarte em 1922, aos 41 anos.

4. auguste rodin

o homem era alto, magro, barbudo. passou de 1914 a 1917 perambulando pelas repartições públicas de paris, pedindo ao governo uma quantia que julgava lhe ser devida para poder se manter. havia sido o artista mais prestigiado, premiado e querido da frança e uma unanimidade mundial. no verão de 1917, aos 77 anos, pediu ao governo que lhe cedesse um quartinho, o que foi recusado. morreu de frio num parque alguns dias depois. todas as esculturas e estátuas que doara ao governo estavam abrigadas no calor dos museus.

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como nossos pais

leio teses e mais teses a respeito das redes sociais e sua influência sobre nós.

a principal delas, ou uma das mais citadas, é a de umberto eco.
nela, o escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano diz, textualmente:

«as mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do prêmio nobel.»

não discordo. quem sou eu pra discordar do grandioso umberto eco.

mas me pergunto: quem serão os imbecis a que ele se refere (já que não sou ganhador de prêmio nobel, e passei mais da metade da minha vida falando só em bar, depois de muitos copos de plástico de vinho barato, sem nunca ter causado dano a ninguém, a não ser a mim mesmo).

pergunta imbecil, feita por um imbecil.
os imbecis nunca somos «nós», são sempre «eles»

e assim caminha a imbecilidade...

gasta-se muito latim para tentar entender por que a tecnologia tem nos deixado mais tristes e solitários. é verdade. não discordo. mas o pensamento simplista pode nos levar a crer que a culpa - por não sermos mais sensíveis, mais humanos, mais solidários e mais felizes - é da internet. pode ser... talvez antigamente as coisas fossem diferentes... vai ver dostoiévski --- sua vida foi marcada por pobreza, prisão, epilepsia e um vício severo em jogos --- era feliz e não sabia. pode ser... quem sou eu pra dizer que não?

quando fui - com meu pai, com minha mãe e com meus irmãos - morar em santa vitória, a cidade nos foi acolhedora, não tinha tv, nem telefone residencial, o carro ficava aberto com a chave dentro, as pessoas tomavam mate na frente de casa, os vizinhos se visitavam e conversavam sobre tudo e sobre todos. tudo era lindo e maravilhoso... menos o bullyng que eu sofria por usar óculos e ter nascido em pelotas.

moral da história:

nosso problema não é o facebook
nosso problema não é a televisão
nosso problema não é o rádio
nosso problema somos nós mesmos

não estou com isso querendo dizer que é melhor ficar na internet e/ou vendo televisão do que jogar bola e/ou visitar alguém e/ou tomar mate na praça enquanto seu lobo não vem. sou imbecil mas não é pra tanto, também.

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el problema no es
si te buscas o no más problemas.
el problema no es
ser capaz de volver a empezar.
el problema no es
vivir demostrando
a uno que te exige
y anda mendigando.
el problema no es
repetir el ayer
como fórmula para salvarse.
el problema no es jugar a darse.
el problema no es de ocasión.
el problema, señor,
sigue siendo sembrar amor.

el problema | silvio rodríguez (1991)
(com letra)

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o vazio existencial

a canção «el problema» foi composta pelo cubano silvio rodríguez no ano de 1991.

o ano de 1991 foi um dos períodos mais transformadores da história moderna, marcado pelo fim de uma era geopolítica, o nascimento da internet pública e grandes marcos culturais.

em 26 de dezembro, a união sovética chegou oficialmente ao fim.

em janeiro, uma coalizão liderada pelos estados unidos iniciou os bombardeios contra o iraque (operação tempestade no deserto).

em agosto, o cientista tim berners-lee lançou o primeiro website da história, permitindo que a internet começasse a se espalhar pelo mundo.

em 24 de novembro, o mundo perdeu freddie mercury, o icônico vocalista da banda queen, em decorrência de complicações da aids.

o filme «o silêncio dos inocentes» estreou nos cinemas, tornando-se um clássico absoluto do suspense.

de volta ao começo

em 1976, em um mundo analógico regido por cartas e discos de vinil, belchior já cantava em «como nossos pais» o peso esmagador do isolamento e da estagnação, provando que a frustração geracional e a melancolia independem de conexões de internet.

vida que segue...

quase cinco décadas depois, em 2022, almir sater atualiza esse mesmo cenário em «verdade absoluta», ao pedir perdão aos novos tempos e seus «reinos virtuais».


antes do fim

a verdade é que a velocidade e o alcance das redes sociais mudaram apenas a escala, e não a essência, desse vazio. trata-se de uma evolução proporcional à mudança dos tempos: assim como o telefone silenciou o hábito das cartas e a televisão esvaziou as conversas de calçada, as telas de cristal de hoje apenas mudaram o endereço das velhas angústias humanas.

enfim

«desde que a roda girou
e o mundo acelerou
nesse bom e velho império
tem um só problema sério
que é salvar o que restou»

ao vento

ainda cego
do pó da estrada
na cidade vim parar
de volta à civilidade
tive que tatear
pisando em areia movediça
entre postes de luz
feito folha solta no ar
ainda não clareou
mas vai

grill

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ah, o tempo faz
tempo desfaz
e vai além sempre

a vida vem lá de longe
é como se fosse um rio
pra rio pequeno, canoa
pros grandes rios, navios

e bem lá no fim de tudo
começo de outro lugar
será como deus quiser
como o destino mandar

no rastro da lua cheia
se chega em qualquer lugar

no rastro da lua cheia | almir sater - renato teixeira (2007)
(com imagens)

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e a verdade absoluta?

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a verdade absoluta
nem jesus nos revelou
mesmo crenças ou ciências
nem a arte nos salvou
as pessoas se contentam
com migalhas que sustentam
tão estranhos rituais

se houver seres humanos
nesse estranho amanhã
para eles deixaremos
já mordida essa maçã

verdade absoluta | almir sater - paulo simões (2022)

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#américas

terça-feira, 7 de julho de 2026

os devaneios do caminhante solitário

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«o homem rende o máximo de sua capacidade quando adquire plena consciência de suas circunstâncias. por elas se comunica com o universo».

josé ortega y gasset | reflexões do quixote, p. 52

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por hélida carvalho*

barreiro, 4 de outubro de 1967
(sexta-feira)

hoje nos apareceu um professor novo de organização política. dizem que ele veio corrido de um liceu de coimbra por causa de política e que é um poeta famoso. diferente dos outros professores ele é, com certeza: entrou pela sala adentro, todo despenteado, com uma gabardine na mão, atirou-a para cima da mesa e nos disse: «desculpem o atraso, mas me enganei de turma...»

depois, sentou-se na mesa e ficou uns cinco minutos, em silêncio, olhando o pátio vazio; nós começamos a cochichar numa algazarra que qualquer outro professor já teria nos dado uma bronca, mas ele não disse nada, como se não se importasse. quando recomeçou a falar conosco, já tinha ganho o primeiro round de simpatia, e veio o mais surpreendente: «eu sou o novo professor de vocês de organização política, mas devo dizer que não entendo nada disso. não tenho culpa que tenham me colocado aqui, para dar uma matéria que não conheço, nem me interessa.»

«as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral», continuou ele, «nós temos que aprender a não ser autômatos, a pensar pela nossa cabeça; vou ensinar a vocês que, além-fronteiras, há outros mundos que não se moldam a essa ditadura de miséria social e cultural.» quando ele terminou, estava todo mundo de boca aberta, sem palavras. «que fenômeno é esse que aterrissou em setúbal?»

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*hélida carvalho foi aluna de zeca afonso no liceu nacional de setúbal durante cerca de dois meses, até o seu professor de organização política ser preso pela pide - polícia internacional e de defesa do estado. após a revolução dos cravos, em 25 de abril de 1974, esta organização foi extinta e vários dos seus elementos foram presos.

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cfc senna

das coisas que já fiz na vida, e que mais me orgulho, foi ter dado aula de direção defensiva e legislação de trânsito no cfc senna. cfc (centro de formação de condutores). e creiam! recebi mais elogios do que críticas. uma vez, no entanto, fui informado pela direção de que uma aluna teria dito que minhas aulas seriam melhores não fossem meus devaneios. não fiquei triste, nem zangado e muito menos incomodado. ela tinha razão: «nunca acreditei que a liberdade do homem consistisse em fazer o que quisesse, mas sim nunca fazer o que não quisesse...»

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em 1997, no auge do américas, dei uma guinada radical na minha vida. eu era radialista e fiz curso no senac pra instrutor de cfc. não porque eu quisesse, mas porque foi preciso. nunca me imaginei instrutor de cfc, nunca me imaginei explicando o «triângulo dos três "es"» (educação, engenharia de trânsito e esforço legal), nunca me imaginei com um apito na boca explicando a diferença entre um silvo breve e um silvo longo, nunca me imaginei explicando que os gestos do agente de trânsito são ordens que prevalecem sobre as regras de circulação, e que tudo isso está previsto tanto no anexo ii, quanto no artigo 89 do código de trânsito brasileiro. eu odeio regras. eu odeio me ver obrigado a fazer algo que eu não queira. enfim, eu não tinha nada a ver com aquele mundo e nem com aquela linguagem. mas vai entender, o que tinha tudo pra dar errado, deu certo. como? simples: «nunca acreditei que a liberdade do homem consistisse em fazer o que quisesse, mas sim nunca fazer o que não quisesse...»

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entre os anos 2003 e 2005, dos 38 aos 40 anos, vivi meu auge como instrutor de cfc. modéstia à parte, eu tava voando. minha interação com os alunos era quase perfeita. digo quase, porque sempre tinha um ou outro que não gostava da minha didática. explico: minhas aulas eram puro improviso, eu linkava o conteúdo do curso com o que eu via na rua ou com o que alguém dizia em sala de aula. de modo geral, acho que os alunos gostavam. mas é impossível agradar a todos. sempre tinha alguém que não gostava. as reclamações eram porque --- segundo os descontentes --- eu falava coisas que não tinham a ver com trânsito e ou com o conteúdo que ia cair na prova. por exemplo, recitar poemas em sala de aula. sim, uma das reclamações, é que eu dizia poesia em meio ao curso. e dizia mesmo. um dos poemas que eu dizia era este (autoria de mario benedetti):

quando éramos crianças
os velhos tinham como trinta
uma poça era um oceano
a morte simplesmente
não existia.

em seguida quando jovens
os velhos eram gente de quarenta
um açude era um oceano
a morte apenas
uma palavra

já quando nos casamos
os anciãos estavam com cinquenta
um lago era um oceano
a morte era a morte
dos outros.

agora veteranos
demos espaço para a verdade
o oceano é por fim o oceano
mas a morte começa a ser
a nossa.

o intuito era de que os alunos, sobretudo os mais jovens, refletissem sobre o valor da vida... e que tirassem o pé do acelerador... e que usassem o cinto de segurança... e que se fossem dirigir não bebessem. mas nem todos compreendiam. fazer o quê?! nunca me acreditei capaz de mudar o mundo, mas sim sempre me acreditei capaz de mudar a mim mesmo.

a verdade é que as minhas aulas eram uma luta ferrenha
minha comigo mesmo
ou seja
para desempenhar satisfatoriamente
tinha que matar um leão/dia
nunca tive o domínio pleno e total do conteúdo
as palavras me saíam meio que de improviso
era mais intuição que conhecimento
entrava em sala de aula
mais disposto a aprender
do que a ensinar
e creiam
foi assim que venci
vitória conquistada
pe(r)di o boné
e parti

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de volta ao começo

(foi dando aula no cfc
que conheci a vivi)

satolep
7 de julho

num dia como hoje
há 14 anos
nossos destinos
traçavam novos caminhos
rumavam para outros ares
pelotas fazia 200 anos
eu estava desempregado
recém havia saído do cfc
vivi era secretária num consultório médico
e nos horários livres confeccionava cupcakes
em virtude da data
surgiu o cupcake laranjal
montamos um blog
divulgamos a cria
a iniciativa foi um sucesso total
surgiram novos cupcakes
deu no diário popular
da matéria no jornal
surgiram novos clientes
o fogão ficou pequeno
a cozinha ficou pequena
a casa ficou pequena
foi nessas circunstâncias
que o repecho cresceu e apareceu
no entanto
a pergunta que não quer calar é
por que eu saí do cfc?
talvez um dia eu conte
ou não

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antes do fim

se eu não tivesse caído de para-quedas no cfc
não teria conhecido a vivi
se eu não tivesse conhecido a vivi
provavelmente não estivesse mais aqui

vida que segue...

fim de mais uma história,
e recomeço de outra.

quando dei vida ao américas,
eu tinha 20 e poucos anos.

quando vivi e eu nos casamos,
eu tinha 40 e poucos anos.

17 anos depois,
mais um fim de história.

vivi vai seguir a dela
e eu a minha.

a de vivi vai ser o que será,
e a minha o que sempre foi

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assim os dias passarão
virão as novas gerações
outras perguntas, prováveis canções
outro mundo, outra gente, outras dimensões
e na hora marcada, em algum lugar
uma estrela virá pra lhe acompanhar

assim os dias passarão | almir sater - renato teixeira - paulo simões (1991)
[com letra e imagens]

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#américas