domingo, 12 de julho de 2026


causas e «azares»

(ainda estou aqui)

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »
maria elizabeth gastal fassa

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«vivências que constroem história... título: VIDA!»

cris valente

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«são muito poucos os que ainda qurem ser rebeldes»

celso borges

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cafés com história

no café el cairo, que não está no egito e sim na cidade argentina de rosário, roberto fontanarrosa, desenhista e escritor, tem sua mesa. ele morreu faz anos, mas jamais deixou de comparecer. e sempre acompanhado por seu cão mendieta e seu amigo inodoro pereyra, criados por ele.

no café tortoni, de buenos aires, foi fundado o primeiro grupo de artistas e escritores argentinos.

a academia brasileira de letras, presidida pelo romancista machado de assis, se reunia no café colombo, do rio de janeiro.

no café paraventi, na cidade de são paulo, olga benário e luiz carlos prestes imaginavam a revolução brasileira.

nos tempos do exílio, trotski e lênin discutiam a revolução russa no café central, em viena.

algumas obras primas do poeta português fernando pessoa foram escritas no café a brasileira, de lisboa.

enquanto nascia o século vinte, pablo picasso fez a exposição de suas obras no café els quatre gats, de barcelona.

em 1894, o escritor ferenc molnár jogou nas águas do danúbio, as chaves do café new york, de budapeste, para que ninguém trancasse a porta.

em 1921, foi inaugurado em chicago o sunset café, onde louis armstrong e benny goodman abriram as asas da sua música.

eduardo galeano | o caçador de histórias, p. 57 e 58.

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qual é a relação que as causas e os «azares» (acasos) têm para você? existe destino para você? existe casualidade?

silvio rodríguez: – a casualidade e a «causalidade», as duas coisas. eu acredito em ambas. em última análise, e em grande medida, são elas que movem a todos nós, não é? ou seja, um segundo que você demora para se barbear ou para pegar algo e olhar, é um segundo que passa, é uma chance que você usou ou desperdiçou. cada instante está cheio disso, cada instante da vida é um pouco isso, não é? é como a urdidura completa que faz todo o tecido da existência.

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*urdidura: fios longitudinais de um tear.

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«a casualidade não existe, o que nos é apresentado como acaso surge das fontes mais profundas»

friedrich schiller

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a causalidade é bem conhecida do pensamento cartesiano de causa e efeito.
entretanto alguns acontecimentos em nossas vidas escapam dessa lei.
são aqueles fenômenos que por vezes tomamos por simples coincidência, mas que escapam de qualquer explicação lógica.
a esses fenômenos carl jung vai chamá-los de sincoronicidade.

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«sincronicidade é a união de eventos internos e externos de uma maneira que não pode ser explicada por causa e efeito e que seja significativa para o observador.»

carl jung

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«enilton, irmão lindo da alma!

tu és um desses rebeldes, e como!

são oportunidades que vêm por períodos e momentos — quiçá, às vezes, predestinados ou seriam sincronicidades? essas de te encontrar vez ou outra por aqui e sempre me inspirares e me remeteres a reflexões.

caminho pouco por aqui. a juliana diz que não sei me divertir no facebook (e cumprir a função a que ele se destina). é que, quando entro, tropeço em tantas estupidezes que sempre decido sair... mas fico. acho que é também para te encontrar, ver e ler...

tchê, como diz um poeta alemão, tu és um cara realmente imprescindível e necessário para todos nós que lutamos por «um outro mundo possível».

obrigado por me inspirares a ter fé na eterna rebeldia.»

ubirajara cunha

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ao vento

não sei nada de campo e cidade
sei de prantos e reciprocidades
sei de santos e sincronicidades

grill

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quando acabar este verso que canto
eu não sei ― yo no sé, madre mía ―
se me espera a paz ou o espanto,
se o agora ou se o ainda.
pois as causas estão me cercando
cotidianas, invisíveis.
e o acaso vem se enredando em mim
poderoso, invencível.

causas y azares | silvio rodríguez (1986)

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«nada é coincidência...
ninguém cruza o seu caminho por acaso.
alguns chegam como espelhos.
outros como remédio.
outros como mensageiros que você só reconhecerá quando a lição finalmente se revelar.
cada encontro transforma alguma coisa: uma crença, um limite, uma versão de você que precisava morrer para que outra pudesse renascer.
o momento nunca é aleatório.
a alma orquestra aquilo que a mente não consegue explicar.
por isso, preste atenção em quem aparece quando você acha que já terminou de crescer.
essa pessoa pode ser o lembrete, o gatilho ou a chave que abrirá a próxima porta.»

scarlet seixas

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«quantas vezes a gente, em busca da ventura,
procede tal e qual o avozinho infeliz:
em vão, por toda parte, os óculos procura,
tendo-os na ponta do nariz!»

mario quintana

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«nada posso lhe oferecer que não exista em você mesmo. não posso abrir-lhe outro mundo além daquele que há em sua própria alma. nada posso lhe dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave.»

hermann hesse

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«e de repente
o resumo de tudo é uma chave.
a chave de uma porta que não abre
para o interior desabitado
no solo que inexiste,
mas a chave existe.»

carlos drummond de andrade

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«eu sinto como que se tudo que eu tivesse feito na vida
foi pra encontrar um caminho
pra chegar até aqui
e te conhecer.»

de clint eastwood para meryll streep | em «as pontes de madison»

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dói na alma
por isso choramos,
mesmo depois de termos visto essa cena (link abaixo) infinitas vezes.

a gente sempre espera que dessa vez a chave funcione
que a maçaneta gire na caminhonete sob a chuva forte,
que francesca finalmente abra a porta e mude o destino.

et à la fin... sur la route de madison │ tcm cinéma
(clique no link acima)

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caminhos de si

«a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida», dizia o poeta. por isso, é preciso que estejamos receptivos e atentos ao mundo ao nosso redor, pois «a todo instante rola um movimento, que muda o rumo dos ventos». de repente, do nada, o amor bate à porta. e descobrimos que ele é a chave. a chave de tudo? o amor-próprio. a chave para si mesmo.

no entanto, contudo, todavia...

«é preciso viver para ver
como soube crescer
tanto mistério na flor

é preciso viver para ver
como é difícil saber
que signo carrega o amor»

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jungianas

dos sinais:
guias.

dos símbolos:
definições.

da vida:
estrada aberta.

da morte:
verdade absoluta.

grill

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há uma canção que se vai quando chego
suspeito que seja um tema total
uma chave-mestra de todos os jogos
um pássaro eterno e um sol colossal

há uma canção que me esconde seu fogo
há uma canção que será meu final

que signo lleva el amor | silvio rodríguez (1984)

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fotos:

casa edmundo berchon
pelotas, janeiro de 2009

minifúndio café
pelotas, novembro de 2007

condomínio caravelas
são luís, novembro de 2008

ubirajara cunha e eu
minifúndio café
novembro de 2007

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sua respiração é doce
seus olhos são como duas jóias no céu
sua postura é ereta, seu cabelo é macio
no travesseiro onde você repousa
mas eu não sinto afeição
nem gratidão nem amor
sua lealdade não é por mim
mas para as estrelas do céu

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

seu pai é um foragido e um traficante
ele te ensinou como selecionar e escolher e atravessar uma faca
ele supervsiona seu reino e assimnenhum estranho se intromete
sua voz treme e ele reclama por mais um prato de comida

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

sua irmã prevê o futuro assim como você e sua mãe
você não sabe ler nem escrever
não há livros na sua estante
e seu prazer não conhece limites
e sua voz soa como a de uma cotovia
mas seu coração é como um oceano
misterioso e sombrio

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

one more cup of coffee | bob dylan (1975)

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#carpe diem
#bom domingo

sábado, 11 de julho de 2026

 


te mando notícia de mim

(ainda estou aqui)

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morrer

tenho morrido muitas vezes.
depois, respiro fundo,
lavo o rosto, sigo em frente.
não é fácil morrer,
difícil é renascer,
fingir-se de sol,
cegar a lua,
beber o mar.
detestável seria ter a covardia
dos que me mataram.
eu sigo renascendo,
eles seguem covardes.

pedro munhoz

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filme de mim mesmo

depois de um período de desintoxicação em são luís, aos cuidados da família, onde fui tratado com todo amor e carinho, retornei a pelotas. voltei com a cara e a coragem. não sabia onde ia ficar e nem o que ia fazer. tinha tudo pra dar errado. mas sabia que ia dar certo.

pouca gente sabe, mas quando voltei, tinha gente que esfregava os olhos quando me via na rua.

só mais tarde vim a saber o porquê: espalharam um boato aqui onde moro que eu havia morrido.

quando fiquei sabendo, primeiro levei um susto, depois, sabendo dos detalhes de como o boato se espalhou, fiquei incrédulo. não podia acreditar. eu havia morrido de várias formas.

uns, disseram que eu morri numa briga de bar, outros, que me viram embaixo das rodas de um carro, outros, que me viram cair de bêbado e bater com a cabeça no chão, outros, que me viram sumir dentro de um camburão, outros, que me viram pedindo esmola com uma lata vazia na mão, outros, que me viram dormindo na rua, morrendo de frio, abraçado a um cão.

e todos tinham razão.

morrer é fácil. morre-se de várias formas e todos os dias. viver sem se deixar morrer é que é difícil. por quê? porque a única forma de viver sem se deixar morrer é viver em paz --- em paz consigo mesmo. paz interior. paz que eu sabia que existia, mas que não encontrava.

por quê? porque eu procurava fora o que está dentro.

grill


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«diógenes, toda vez que passava pelo mercado, ria porque achava muito engraçado e, ao mesmo tempo, ficava muito feliz em ver quantas coisas tinha no mercado que ele não necessitava.»

facundo cabral

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«toda vez que passo pelo corredor de bebidas do supermercado, sorrio por dentro. fico muito feliz em ver a quantidade de coisas que existe ali que eu simplesmente não preciso mais.»

(inspirado na reflexão de facundo cabral sobre diógenes de sinope)

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o tempo tá feio na fronteira
tem vento e polvadeira, vai chover
ouvi na rádio uruguaia, o boletim não falha
vem água no anoitecer

nesta longa avenida
eu transito minhas mágoas
entre dois mundos
nestas calçadas vazias
eu divido os meus dias
numa fronteira absurda

assim mesmo, procuro os teus olhos
na visão de quem olha, apenas por ver
meu desespero é às avessas
depois das promessas que prometemos
por prometer

e o outro lado do mundo
é o mesmo lado da rua
pelo menos por aqui
mouros, morenos, mulatos, ciganos
gente de fato, querendo ser feliz

prometo: te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
eu prometo

pra semana, arrumo minha mochila
dou de mão na viola, é hora de partir
compro passagem pra trienta y três
jaguarão fica mais perto da gente ir

faço planos pra volta
vontade não falta de acertar
aos olhos de minha filha
sou o mesmo herói, que eu queria
que fosse meu pai

no mais eu vou indo, quem sabe, qualquer dia desses
a gente se encontra
como diria o amigo plínio
lá por franças, bahias e europas

e o outro lado do mundo
é o mesmo lado da rua
pelo menos por aqui
mouros, morenos, mulatos, ciganos
gente de fato, querendo ser feliz

prometo: te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
eu prometo

te mando notícia de mim | pedro munhoz (1997)

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raul vive
(por enilton grill)

um dia a terra parou. raul fingiu que não viu e seguiu. o tempo passou e raul ficou. em 1989, ele deu adeus, embarcou num disco voador e voou.

raul sempre leu muito. começou explorando os livros da biblioteca de seu pai, onde ficava horas viajando por galáxias e estrelas distantes nos livros de astronomia.

depois de sair de salvador e passar fome na cidade maravilhosa, raul resolveu fazer terapia e cursar filosofia. só mais tarde é que foi viver de cantoria.

raul se recusou, terminantemente, a aceitar o determinismo enquanto viveu: «eu que não me sento / no trono de um apartamento / com a boca escancarada / cheia de dentes / esperando a morte chegar».

para ele o hoje era apenas um furo no futuro, por onde o passado começava a jorrar. viveu como quis. morreu quando cansou deste lugar, onde jamais conseguiu se encontrar.

há dez mil anos atrás raul havia começado a sonhar em ser cantor e compositor. mas para ele a passagem do tempo parecia não importar tanto assim. se tempo presente ou futuro tanto faz quanto fez. e assim ele se fez.

tempos depois ele declarava: «eu sou tão bom ator que me finjo de poeta e profeta e todo mundo acredita».

«se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou / se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor». era chato chegar a um objetivo num instante. ele se transmutava a todo instante. e o ritmo que isso acontecia era tão alucinante era tão estonteante que raul tornou-se «metamorfose ambulante».

mas com o passar do tempo ficou difícil ordenar o pensamento. seu tempo era ao mesmo tempo perto e distante. nesse instante o álcool entra em sua vida. uma anestesia para a monotonia do dia-a-dia.

no final, já estava cansado de viver drogado. tarde demais. quando quis dizer não, o álcool e a droga já o haviam jogado ao chão. então raul disse: «eu não morri de overdose; eu morri foi de tédio».

o diretor do documentário, raul: o início, o fim e o meio, walter carvalho, disse que raul morreu de amor.

«do passado me esqueci / no presente me perdi / se chamarem diga que eu saí, para o futuro não estou nem aí».

o maluco vivia a esmo. fugia de si mesmo. não que fosse um frustrado ou fracassado, apenas tinha um universo inteiro a rodar em seu costado. outro dia, disse: «o universo me espanta e não posso imaginar que esse relógio exista e não tenha relojoeiro».

raul nunca conseguiu ficar sozinho. ao mesmo tempo, nunca conseguiu ficar com ninguém por muito tempo: «como poeta e cantor, sou o homem ideal; como marido, sou uma merda total».

um turbilhão de ideias e um copo sempre à mão. uma profusão de imagens e possivelmente uma confusão na mente. mas antes do álcool lhe derrubar de vez, deixou a semente. «eu não sou louco, é o mundo que não entende minha lucidez».

lúcido o bastante para não entrar em toda e qualquer luta. com onze anos de idade já desconfiava da verdade absoluta: «tem gente que passa a vida inteira / travando a inútil luta com os galhos / sem saber que é lá no tronco / que está o coringa do baralho».

tal qual um fora da lei, raul viveu de lutar contra o rei. mas o mundo é um moinho, e raul morreu sozinho.

e assim é a vida: o caminho do acaso é o azar ou a sorte. e o caminho da vida, seja no início no fim ou no meio, é a morte.

mas, antes da morte, raul nos deixa um mote: «jogue as cartas, leia a minha sorte / tanto faz a vida como a morte / o pior de tudo eu já passei».

morte? que morte?

raul não morreu, isso sabe ele e sei eu.

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veja quanto livro na estante
dom quixote, o cavaleiro andante
luta a vida inteira contra o rei


as minas do rei salomão | raul seixas / paulo coelho (1973)

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ao vento

ontem
depois de um bom tempo
cabelo ao vento
saí e não me perdi
(ainda estou aqui)

grill

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quem vai chorar, quem vai sorrir?
quem vai ficar, quem vai partir?
pois o trem está chegando
tá chegando na estação
é o trem das sete horas
é o último do sertão

o trem das sete | raul seixas, 1974
(clipe oficial)

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foto: minifúndio café
satolep, 2007

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#raulpresente
#choveemsatolep
#américas


sexta-feira, 10 de julho de 2026

 


memórias cantando

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«muitas vezes, as pessoas tentam explicar os outros a partir daquilo
que elas mesmas sentiriam.
mas nem sempre é assim.
algumas pessoas simplesmente são inquietas,
têm curiosidade sobre a vida, sobre os caminhos que as pessoas escolhem e sobre os padrões que se repetem ao longo do tempo.
talvez por isso eu sempre tenha me interessado mais pelo que está por trás das coisas do que pela superfície.
nunca me fascinou apenas o que aconteceu.
sempre me fascinou o porquê.
por que algumas pessoas mudam?
por que algumas permanecem as mesmas?
por que certos caminhos se cruzam?
por que certas histórias se repetem?
talvez eu nunca encontre todas as respostas.
mas continuo observando.
não para julgar.
não para competir.
mas porque a vida humana é um dos maiores mistérios que existem.
e cada pessoa carrega dentro de si um universo inteiro esperando para ser compreendido.»

scarlet seixas, filha de raul seixas.

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«o dom você o tem. nunca se esqueça.»

johnny cash

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o dom

minha mãe tinha fé em mim. queria que eu tivesse aulas de canto, então começou a lavar a roupa das professoras da escola para pagar pelas lições. um dia inteiro de trabalho lhe rendia três dólares, o valor de uma aula. eu não queria nada disso. mas, quando apareci para a primeira aula, encontrei uma boa razão para voltar na segunda: a professora era muito bonita.

porém, ela não era para mim. na metade da terceira aula, depois de me acompanhar em algumas baladas irlandesas, ela fechou a tampa do piano.

«ok, é o suficiente», ela disse. «agora quero que você cante para mim, sem acompanhamento, o que gosta de cantar.» cantei uma canção de hank williams para ela --- acho que foi «long gone lonesome blues».

quando terminei, ela disse: «nunca mais faça aulas de canto. não deixe que eu ou qualquer outra pessoa mude a sua maneira de cantar». então me mandou para casa.

isso me faz lembrar do dia em que minha voz mudou e minha mãe ouviu meus novos tons graves pela primeira vez. eu estava cantando quando entrei pela porta dos fundos. ela se virou do fogão, surpresa, e perguntou: «quem foi que cantou isso?».

cantei um pouco mais, explorando o meu novo alcance vocal, e quando descobri quão longe minha voz podia ir, seus olhos se encheram de lágrimas e ela disse: «você canta igual ao meu pai». depois falou: «deus pôs sua mão sobre você, filho. nunca se esqueça do dom».

cash - a autobiografia de johnny cash, p. 57.

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vela no breu
(escrito em 31 de março de 2021)

uma das situações mais difíceis que enfrentei, como instrutor teórico na auto-escola, foi quando tive que reverter uma voz de prisão dada por um juiz de direito em plena sala de aula.

esse curso era um curso misto (1ª habilitação e renovação de cnh). ou seja, estavam juntos, em sala de aula, candidatos a 1ª habilitação e condutores com a cnh por vencer ou já vencida.

na largada do curso, já levei uma chapuletada. antes de pedir para que cada aluno se apresentasse, que era o meu jeito de começar a aula, inventei de contar uma história. era uma história sobre uma situação de trânsito que eu tinha visto minutos atrás antes de chegar na auto-escola. enquanto contava a história, olhei para o aluno sentado na primeira fila, ele tinha a sua frente o código de trânsito e, enquanto eu contava a história, ele lia atentamente algo, que eu nunca soube o que era.

quando terminei de contar a história, fui direto nele.

— seu nome?

e ele:

— já se passaram mais de cinco minutos e a tua aula ainda não começou... meu nome é josé antônio dias da costa moraes.

bem, eu não sabia quem ele era e muito menos que era juiz... (segundo li agora há pouco o mais antigo juiz de direito do rs em atividade)

olhei para ele, e disse:

— sim, a aula já começou, o senhor é que não reparou.

depois que todos alunos se apresentaram, voltei à história que tinha contado e, a partir dela, desenvolvi minha aula aquela noite.

lá pelas tantas, explicando o significado das placas e a diferença entre parada e estacionamento, um magrão, lá no fundo da sala, (1ª habilitação), sai-se com essa:

— na frente do fórum, que era pra ser exemplo, pois tem um monte de juiz e advogado que trabalha lá, NINGUÉM respeita essas placas...

ato contínuo, dr. josé antônio dias da costa moraes se vira pro fundo da aula e exige que o rapaz retire o que disse:

— o senhor retire já o que disse, pois sou juiz de direito, nunca desrespeitei placa nenhuma... muito menos na frente do fórum.

o rapaz, atrevido e impetuoso, não se calou, e manteve o que havia dito. seguiu-se, então, uma discussão acalorada, até que... voz de prisão (por desacato a autoridade).

entrei em cena e dei o intervalo.

fui direto na direção e expliquei o que estava acontecendo...

e a cris:

— o pior tu não sabes, ele é sogro do meu filho...

perguntei se, por ventura, ela não queria interceder, pois a coisa tava muito complicada... já quase fugindo do meu controle.

ela disse:

— vai lá, te vira, dá o teu jeito... confio em ti...

15 minutos de intervalo (era pra ser 10) entro em sala de aula...

— quando me inscrevi, me disseram que eram 10 minutos de intervalo... já se passaram cinco minutos e a tua aula ainda não recomeçou...

dessas coisas que não tem explicação, fui levando a aula, levando, levando, até que me deu um estalo: disse pra mim mesmo, vou acender o cachimbo da paz entre esses dois (o juiz de direito e o magrão da 1ª habilitação)...

mas como?

enquanto eu desenvolvia o conteúdo, eu pensava em como criar uma situação para acabar com aquele mal-estar... mal-estar, diga-se de passagem, não só com o magrão da 1ª habilitação como comigo também.

comigo foi fácil. não lembro exatamente como foi que fiz, mas lembro que em questão de minutos eu arranquei duas ou três gargalhadas daquele sisudo e, aparentemente intransponível, juiz de direito.

restava agora criar o ambiente para o acordo de paz entre os dois desafetos. um deles, um rapaz de 18 anos de idade, atrevido e impetuoso, que não tinha títulos, nem diplomas, nem carteira de motorista, e o outro, um senhor de idade, juiz de direito, cheio de títulos e honrarias, que estava fazendo um curso de renovação da cnh, pois estava com a mesma por vencer.

mas como?

foi então que me deu mais um estalo: vou ensinar a regra do cruzamento sem sinalização. essa era uma regra de difícil explicação, contudo eu tinha criado um modo muito particular de ensiná-la, qual seja, depois de explicá-la eu perguntava para os alunos se todo mundo tinha entendido e como a maioria quase nunca entendia eu chamava dois alunos para a frente da sala de aula, desenhava no quadro um cruzamento sem sinalização e quatro carros, carro (a), carro (b), carro (c) e carro (d), cada carro, obviamente, numa esquina (vide foto), colocava os alunos na posição dos carros e perguntava para a turma qual dois dois estava à direita do outro. sim, a regra é esta: num cruzamento sem sinalização, a preferência é para os veículos que vierem à direita do condutor.

bem, deixa pra lá a regra, se quando eu era instrutor, e dava aula de manhã, de tarde e de noite, já era difícil de explicar, imagina agora...

voltando ao cachimbo da paz: eu decidi explicar a regra do cruzamento sem sinalização, chamando os dois desafetos para a frente da sala de aula, um deles, um juiz laureado e renomado e o outro, um rapaz de 18 anos, impetuoso e debochado.

na verdade, eu resolvi brincar com o fogo, pois tudo podia acontecer, inclusive eles não aceitarem meu convite e eu ficar com cara de tacho lá na frente. mas, modéstia a parte, em situações assim, não tenho medo de ser feliz, escolho sempre o risco ao invés do conforto.

sendo assim, fui em frente.

e deu certo. eles aceitaram, eu expliquei, brinquei, eles riram, todo mundo entendeu, a turma bateu palmas e os dois, no final, fumaram o cachimbo da paz. isto é, se abraçaram.

digo isso, pois ontem à tarde recebi a notícia que a covid 19 segue sua sina de morte. dr. josé antônio dias da costa moraes, infelizmente, morreu.

é tudo muito triste, a sensação que tenho é que esse caminho é sem volta. olho pra frente e não vejo nada. nada, nada, nada. apenas uma estrada, estreita, sinuosa e esburacada. luz no fundo do túnel? só se acender a vela no breu.

.

esperança?
sempre há
ouço
agora
o canto de um passarinho
o canto é lindo
mas
parafraseando o poeta
o passarinho é um fingidor
ele chora rindo
dizem lá no morro
que fala sozinho

grill

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ama e lança chamas
assovia quando bebe
canta quando espanta
mal olhado, azar e febre
sonha colorido
adivinha em preto e branco
anda bem vestido
de cartola e de tamanco
dorme com cachorro
com um gato e um cavaquinho
dizem lá no morro
que fala com passarinho
desde pequenino
chora rindo olha pra nada
diz que o céu é lindo
na boca da madrugada

vela no breu | paulinho da viola / sérgio natureza, 1976

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juiz e esposa morrem vítimas da covid 19
(clique no link)

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a pessoa é para o que nasce

em 1997, quando o américas estava no auge e eu tinha uma estrada aberta à minha frente, as circunstâncias financeiras me levaram a dar uma virada radical na vida.

apesar de reconhecido e valorizado --- com apenas dois anos de programa já havia entrevistado dois ídolos máximos, mercedes sosa e león gieco, além de ter participado do programa «primeira pessoa» da jornalista ivete brandalise (tve poa)---, nunca consegui traduzir isso em dinheiro.

e no mundo como ele é, sendo as coisas como são, não há relação que se sustente quando um ganha dinheiro e o outro «vive de poesia».

«a questão da felicidade não é tão complicada e é pessoal.
da pra ser feliz com bem pouca coisa.
o problema é querer que o outro também seja feliz junto contigo,
e não só tu.»

sendo assim, fui à luta.

manhãs e tardes perdidas, batendo perna na rua pedindo emprego.

uma manhã de domingo, lendo os classificados, encontrei um anúncio de um curso no senac para instrutores de trânsito.

o processo para tirar carteira de motorista estava em plena mudança.

olhei pra minha companheira, na época, e disse: --- taí uma coisa que acho que sou capaz de saber fazer... ensinar as pessoas a dirigir...

segunda-feira, 8 da manhã, toquei o telefone pro senac (pelotas) buscando informações a respeito do curso.

— as turmas já estão completas, não há mais vagas.

eu estava entusiasmado... insisti...

a moça, sem saber mais o que fazer, disse o que eu precisava ouvir:

— em rio grande está por abrir um curso...

dito e feito, me inscrevi para o curso em rio grande (60 km de pelotas).

só havia vagas no período noturno.

de segunda a sexta, pegava o ônibus às 5 da tarde, chegava às 6, o curso começava às 7, terminava ás 10 e meia, eu pegava o ônibus das 11 e chegava à meia hora em casa.

com uma semana de curso, cheguei à conclusão que ensinar as pessoas a dirigir não era coisa pra mim.

descendo as escadas, comentei com um colega a minha decisão de cair fora, de partir pra outra...

atrás de mim, vinha o mendes, um dos instrutores do curso... foi ele que me convenceu a não desistir.

ele disse que tinha uma promessa de emprego como instrutor no cfc senna, mas que não poderia arcar com o horário integral dos cursos... que precisava de alguém junto com ele e que eu era a pessoa certa.

quando abri o sorriso, ele deu o xeque-mate:

— aguenta mais um pouco, vai dar tudo certo...

e deu mesmo...

mas por vias tortas.

eu nunca me imaginei dando aula teórica, eu me imaginava dando aula prática...

daí pra frente
muita coisa aconteceu
muita água rolou
foram dez anos de história
e dez anos não são dez dias
nem dez meses
cheguei com 30
saí com mais de 40
hoje tenho 61
corre o vento
o rio passa
mas determinadas coisas na vida
a gente nunca esquece
como dizia o poeta
«o que entra na cabeça
da cabeça logo vai;
o que entra no coração
fica e não sai nunca mais.»

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lo que dentra a la cabeza
de la cabeza se va
lo que dentra al corazón
se queda y no se va mas

tu quieres saber por qué?
escúchalo bien, escúchalo bien:
al corazón sólo dentra la pura verdad
¡que al corazón solo dentra la pura verdad!

la pura verdad | atahualpa yupanqui / pablo del cerro (1974)
última canção gravada por atahualpa yupanqui, em água escondida, cerro colorado, província de córdoba, argentina. retiro rodeado de natureza onde compôs várias de suas obras. seus restos mortais estão enterrados na propriedade, sob um carvalho.

na introdução, don atahualpa recita os versos do poeta espanhol león felipe: «mi voz es opaca y si brillo, no servirá jamás para reforzar un coro, sólo a mí me sirve para poder decir aquello que me alegra, aquello que me duele, aquello que me revela, aquello que me enmudece. sólo yo puedo decirlo, a veces sentirlo, talvez jamás pronunciarlo. mi voz no servirá jamás para reforzar un coro, es opaca sin brillo sólo para uno, sólo para mí, pido perdón...»

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batendo na porta do céu

escrevi sem saber escrever
ensinei sem saber ensinar
falei sem saber falar
fui até onde minhas pernas puderam me levar
quase cheguei lá
mas ainda estou aqui
ainda me falta voar

grill

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antes de me despedir, mais uma sobre o dom.

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o valor do dom

fui muito feliz, reconhecido e valorizado como instrutor teórico e prático. mas não nasci com o dom de ganhar dinheiro, essa é a pura verdade. eu era instrutor e os alunos me chamavam de mestre. teve um, porém, que uma vez foi além: convidou-me para ser pastor. repito: PASTOR! verdade... juro que é verdade. o aluno olhou para mim e disse: «irmão, com esse dom que deus te deu, tu podias ganhar muito dinheiro». o que dizer numa situação dessas? eu apenas sorri e agradeci.

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mil graças, sim senhor
da vida e da morte,
por ser apenas isto:
um sopro efêmero e leve.
e o de passar meus dias
finais neste mundo,
com as mãos vazias
e o coração profundo.

testimonio final | j. e. seri / atahualpa yupanqui (1979)

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#américas

quinta-feira, 9 de julho de 2026

 

luz andaluz

(a vida é como um flash)

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«nietzsche está saindo de um hotel em turim. vê diante de si um cavalo e um cocheiro lhe dando chicotadas. nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço sob o olhar do cocheiro e explode em soluços. isso aconteceu em 1889. foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. mas, para mim, é justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por descartes. sua loucura começa no instante em que chora pelo cavalo. é esse nietzsche que amo...»

milan kundera | a insustentável leveza do ser, pág. 284.

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nota: milan kundera afirma que nietzsche veio pedir perdão por descartes porque o filósofo francês rené descartes foi o grande responsável por consolidar a ideia de que os animais não possuem alma, sentimentos ou consciência, sendo meras «máquinas biológicas».

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o cavalo de turim
(o filme)

o filme retoma hipoteticamente o percurso do cavalo e do cocheiro após o episódio famoso.

a primeira cena é das mais impressionantes do cinema mundial pela beleza, pela plasticidade, pela maestria, pelo que ela comporta de trágico e de sublime.

é um plano sequência de mais de cinco minutos do cavalo puxando a carroça com o cocheiro numa paisagem árida, sob um vento impiedoso que levanta uma poeira diáfana e deixa a luz do sol ainda mais difusa.

no fundo uma música crescente faz o contraponto à imagem em movimento com uma melodia que se repete sem parar, envolvendo toda a cena num ambiente onírico, mas ao mesmo tempo hiperrealista.

o cocheiro vive com sua filha e com o cavalo em um tempo indefinido num ambiente inóspito que consiste em uma velha casa de pedras com um estábulo e uma cisterna de onde conseguem o pouco de água para o dia-a-dia.

o local, provavelmente no interior da hungria, poderia ser um lugar isolado em tantas outras partes do mundo onde há solo árido, escassez de água e de alimento.

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o cavalo de turim • trailer original • (2:30)

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«cuidado que a cidade na penumbra não é mais a mesma»

omar dib

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«apenas siga caminhando. da forma que tens caminhado. sempre aqui te lendo e aplaudindo.»

luciano oxley

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a vida é como um flash

em 2007
quando eu saí do ar
e fiquei sem ter onde morar
um amigo foi me resgatar
foi tudo muito rápido
questão de minutos
quando entramos em sua caminhonete
uma caminhonete importada
com motor de centenas de cavalos
ele me olhou e disse:
«que tristeza, tu não tem nada»
verdade
nem um «mísero» cavalo eu tinha
nem louça
nem mesa
nem sofá
nem cadeira
tudo o que eu tinha
(e ainda tenho)
além de uns quadros na parede
e um pôster do che
eram discos e livros
o resto era nada
ou quase nada
cabia numa sacola furada
enguli em seco
não falei nada
olhei pro lado
contemplei a casa
uma velha casa
que não era minha
nem alugada
era uma casa emprestada
e disse: «podemos ir, não tem mais nada»
ele girou a chave
acionou o arranque
engatou a primeira
depois a segunda
a terceira...
chovia aquele dia
eu olhava pela janela,
procuravava alguma coisa
qualquer coisa
e nada
não via nada
só aquela frase a martelar na minha cabeça:
«tu não tem nada! tu não tem nada!»
e eu olhava pro nada e pensava: «sinta mais, pense menos»
quem pensa que sabe tudo não sabe nada!

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13 de novembro de 2007
convidado por um amigo
um irmão de alma que conheci no aa
fiz a fala de abertura para a apresentação de pedro munhoz no minifúndio café
depois de meses sem ver o sol e a lua
eu me sentia apto de novo a enfrentar as ruas
as ruas
os bares
a fumaça
os copos
as garrafas
o microfone
tudo ia dar certo
minha confiança em mim mesmo era tanta
que cometi o pecado de convidar a vivi
«ilusão, ilusão
veja as coisas como elas são»
na época
eu desconsiderei o fato de que
naquele momento
o único solteiro ali era eu
ou seja
vivi não podia
ela jamais iria
ela estava casada
daí pra frente
por motivos vários
baixei às profundezas
quando levantei a cabeça
e me olhei no espelho
estava em são luís do maranhão
de onde só voltei
movido pelo amor
pelo amor fati e
acima de tudo
pelo amor por mim mesmo

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falando em 2007
o natal daquele ano
passei na casa do vitor, do alisson, da dona eli e da cris

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[às vezes, o que sentimos é tão profundo que a gratidão deixa de ser apenas uma palavra e passa a ter nome, endereço e rostos.]

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«graças à vida que me deu tanto
deu-me a marcha de meus pés cansados
com eles andei cidades e charcos
praias e desertos, montanhas e planícies
e tua casa, tua rua e teu pátio»

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em 1983, ano em que foi registrada a menor temperatura no mundo — -89,2 °c, em vostok, na antártida —, fomos embora do rio grande do sul para o maranhão. meu pai estava cansado daqui e nos levou para lá. sem querer, esse foi o maior presente que ele me deu. são luís foi um capítulo especial na formação do meu ser. para dizer a verdade, foi mais que especial: minha passagem pela ilha foi o destino necessário para que eu me tornasse quem eu sou.

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mas o tempo passa e as coisas não são mais como eram. a pós-modernidade trouxe com ela a fluidez do líquido - ninguém mais é, todo mundo está. nada é para sempre, tudo se desfaz. os sonhos, no entanto, permanecem. quem viveu o que eu vivi, jamais esquece.

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um dia, minha vida deu uma guinada. eu perdi o rumo da estrada. fui longe, e o longe era nada. é como diz o poeta: «o pobre que anda sin copla por esta vida prestada, mais que pobre é um fantasma e mais que fantasma é nada.»

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martim matou a charada, e me escreveu uma balada.

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«moeda que está na mão, quiçá se deva guardar. moeda que está na alma, se perde se não se dá».

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luz, quero luz
depois de me aventurar no escuro
encontrei a luz

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o pampa delira nos versos de borges
onde o tempo circula e o que foi voltará
artigas traído cavalga ao exílio
e o brilho de halley se faz lua no olhar

a carreta que cruza uma estrada sem fim
vê o primeiro avião navegando no céu
um visionário constrói seu castelo no campo
e neruda povoa de magia o papel

luz andaluz
estrela cadente brilhando pra sempre
nas noites do sul

luz andaluz | martim césar / hélio ramirez 2004

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e a balada?

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poderia dizer muita coisa sobre «balada para johnny cash»
poderia dizer
por exemplo
que eu pedi que fosse um dos dois
paulo timm ou hélio ramirez
que fizesse a música
mas não vou dizer nada
martim já disse tudo

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eu tenho uma balada
para johnny cash…
e já sei que é muito tarde
porque a vida é como um flash
mas, johnny, tu bem sabes
que o tempo pouco importa...
e ninguém sabe o que haverá
nos esperando além da porta
eu tenho uma balada
para johnny cash…
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
e também um grande amigo
que ao ouvir tua canção
me diz que ser feliz
é dar moeda ao coração
e que atahualpa e bob dylan
estão comigo, meu irmão
pois tive um norte aí no sul
e tenho o sul no maranhão
eu tenho uma balada
para johnny cash… eu tenho
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
mas, johnny, tu bem sabes
que a canção não tem país
e que a américa é bem maior
que o tio sam e o tenessee
de ushuaia ao maranhão
de jaguarão a são luís
qualquer instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
eu tenho uma balada
para johnny cash...
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
e também um grande amigo
que ao ouvir tua canção
me diz que ser feliz
é dar moeda ao coração
e que atahualpa e bob dylan
estão comigo, meu irmão
pois tive um norte aí no sul
e tenho o sul no maranhão
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
eu tenho uma balada
para johnny cash...

balada para johnny cash | martim césar/paulo timm 2014

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«👏👏👏 para todos os posts!!!
adoro o jeito como escreves! és um grande contador de histórias!»

flávia maurício

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enfim
tudo passa...
só as palavras ficam

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«a palavra é um vírus. o homem moderno não conhece mais o silêncio. tente deter o discurso subvocal. experimente dez segundos de silêncio interior. você vai se deparar com um organismo resistente que te obriga a falar. esse organismo é a palavra.»

william burroughs | the ticket that exploded (1962)

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«falaria mesmo se me calasse, porque agora não sou senão uma única palavra.»

franz kafka, em «cartas a milena»

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[às vezes, o que sentimos é tão profundo que transcende a linguagem. não importa se falamos ou permanecemos em silêncio: nossas atitudes, nosso olhar e nossa presença acabam revelando aquilo que somos. quando uma verdade nos atravessa por completo, ela se torna parte da nossa própria existência.]

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«você não está cansado, mas inquieto;
simplesmente tem medo de dar um passo nesta terra cheia de armadilhas.»

franz kafka, em «cartas a milena»

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[às vezes, o que sentimos é tão profundo, que tudo parece uma armadilha, cada decisão se torna pesada, e até o simples ato de seguir em frente desperta insegurança.]

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«a grandeza não é alcançada quando tudo vai bem, mas sim quando a vida nos testa, quando tropeçamos, quando nos decepcionamos, quando a tristeza nos domina. porque só estando no fundo do vale é que se pode saber quão magnífico é estar no topo de uma montanha.»

anthony hopkins

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[às vezes, o que sentimos é tão profundo que o topo de uma montanha nada mais é que uma pequena casa perdida no meio de uma avenida de grandes luzes. só quem conheceu a escuridão profunda do vale consegue enxergar o brilho das luzes e valorizar a solidez de um refúgio.]

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«se podes olhar, vê. se podes ver, repara»

josé saramago

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casi casi nada me resulta pasajero
todo prende de mis sueños
y se acopla en mi espalda
y así subo muy tranquilo la colina
de la vida

la colina de la vida | león gieco (1974)
(legendado)

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#américas