galopeador contra o vento
(para eduardo bascke pinto - galego)
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«os pássaros de mesma plumagem procuram voar juntos»
martim césar
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«a criação é um pássaro sem plano de voo,
que jamais voará em linha reta.»
violeta parra
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«quero descrever o voo de um pássaro
escrevendo com a pena de uma asa.»
guimarães rosa
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pressupor que todas as formas de vida sobre a crosta terrestre estão sob ameaça de extinção é assinar a confissão da nossa própria culpa.
quem sabe se, uma vez por outra, não nos seria saudável presenciar o pôr-de-sol do banhado, ao som da própria natureza, para que, precária ou totalmente, encontrássemos o elo perdido com as tantas outras formas de vida.
pode até que um dia, uma gaivota em voo livre e solitário não precisasse se assustar de nós, como se fôssemos aves de rapina.
deogar soares | voo livre, p. 82, 83.
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gaivota, te amo e gaivotaria sempre em ti
gaivotar seria poder te eleger para mim
eu te quero, e se fosse o caso, quereria mais ainda
ser, eu mesmo, gaivota sobre mim
sobrevoar meus temores, meus amores
e alcançar o alto, alto, o mais alto dos teus sonhos
dos teus sonhos de subir
de subir aos ares
gaivota querida
gaivota menina
pousa perto de mim
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(gilberto gil, 1972)
ao vivo na escola politécnica da usp
maio de 1973
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– mas calma, não vou perguntar a sua idade.
– não se preocupe. posso dizer a minha idade.
– que bom! quantos anos você tem?
– ai! não me lembro.
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(trailer legendado em português)
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recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração
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o estudante universitário (1953 - 1956)
depois de receber meu grau de bacharel, saí de jabalpur porque um dos professores da universidade de sagar, s. s. roy, procurou-me persistentemente, escrevendo e telefonando para pedir que eu fizesse minha pós-graduação em sagar.
eu costumava ir à universidade de sagar para a competição interuniversitária de debates. durante quatro anos seguidos, venci a competição e recebi o troféu. ele era um dos juízes. no quarto ano, ele me convidou para ir a sua casa e disse: «olhe, eu espero por você todos os anos. sei que daqui a um ano, quando houver a próxima competição, você estará aqui. a maneira como apresenta seus argumentos é estranha. às vezes, é tão esquisita que fico imaginando como você conseguiu olhar o assunto por tal ângulo. impressiona-me vê-lo desistir de qualquer aspecto que possa ocorrer à mente comum e escolher o aspecto mais improvável.»
eu adorava aquele lugar e disse ao professor: «não se preocupe, eu virei, mas o senhor só me viu nas competições de debate. não sabe muito a meu respeito. posso me tornar um problema para o senhor, um estorvo. gostaria que soubesse tudo a meu respeito antes de decidir.» o professor s. s. roy disse: «não quero saber nada sobre você. o pouquinho que sei só de vê-lo, ver seus olhos, sua maneira de dizer as coisas, sua maneira de abordar a realidade, já é suficiente.»
no primeiro dia em que estive em sua aula, o professor s. s. roy estava explicando o conceito do absoluto. ele era uma autoridade em bradley e shankara, ambos pensadores que acreditavam no absoluto. esse é o nome que davam a deus.
perguntei-lhe uma coisa que me tornou muito íntimo dele, pois ele abriu todo o seu coração para mim. perguntei-lhe apenas: «seu absoluto é perfeito? ele chegou a um ponto final ou ainda está em desenvolvimento? se ainda está se desenvolvendo, então não é absoluto, é imperfeito, pois só assim ele pode se desenvolver. se estiver completo, totalmente completo, e esse é o significado da palavra absoluto, então não há possibilidade de desenvolvimento. ele está morto.» então, lhe disse: «seja claro, porque o absoluto representa deus para bradley e shankara. esse é o nome filosófico que dão a deus. deus está vivo ou morto? você tem de responder a esta pergunta.»
ele era realmente um homem honesto e pediu tempo para pensar. ele tinha um doutorado sobre bradley, feito em oxford, e outro doutorado em shankara, feito em benares, e era considerado a maior autoridade nesses dois filósofos por sua tentativa de provar que bradley, no ocidente, e shankara, no oriente, chegaram à mesma conclusão.
eu disse: «durante toda a sua vida, o senhor escreveu sobre bradley, shankara e o absoluto. eu li seus livros. li sua tese. e o senhor tem ensinado aqui a vida inteira. nunca ninguém lhe fez essa pergunta tão simples?» ele me disse: «ninguém jamais me perguntou e eu jamais pensei sobre isso, mas, certamente, se algo é perfeito, então tem de estar morto. qualquer coisa viva tem de ser imperfeita. esta ideia nunca me ocorreu. então, por favor, dê-me tempo.»
eu disse: «o senhor pode ter o tempo que quiser. eu virei aqui todos os dias e lhe farei a mesma pergunta.» e isso continuou por cinco, seis dias. todos os dias, eu entrava na classe, e ele se aproximava agitado, e eu levantava e dizia: «a minha pergunta.» no último dia, ele disse: «por favor, perdoe-me, mas não consegui decidir. com ambos os lados há uma dificuldade. não posso dizer que deus é imperfeito e não posso dizer que deus está morto. mas você conquistou meu coração.»
morei com ele durante quase seis meses até ele ser transferido para outra universidade.
certa vez, ele me disse: «agora estou recebendo um salário melhor e tudo é mais confortável mas sinto sua falta. a classe parece morta. ninguém faz perguntas como você, perguntas que não podem ser respondidas.» e eu lhe disse: «este é um acordo entre o senhor e eu, que só acho que uma pergunta é uma pergunta quando ela não pode ser respondida. se puder ser respondida, que tipo de pergunta é?»
osho
autobiografia de um místico espiritualmente incorreto,
p. 114 a 119.
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a veces yo me pregunto para que sirve la decencia
a veces yo me pregunto para que sirve la decencia
si para engordar al vecino o pa aguantar la miseria
si para engordar al vecino o pa aguantar la miseria
a veces yo me pregunto cuando no hay pan en la mesa
a veces yo me pregunto cuando no hay pan en la mesa
quien fue el que le dio sombrero al que no tiene cabeza
quien fue el que le dio sombrero al que no tiene cabeza
a veces yo me pregunto pa que aprendí a dividir
a veces yo me pregunto pa que aprendí a dividir
si el que suma y multiplica es el que vive de mi
si el que suma y multiplica es el que vive de mi
a veces yo me pregunto quien es mas ladrón hermano
a veces yo me pregunto quien es mas ladrón hermano
si los que roban un banco o aquellos que lo fundaron
si los que roban un banco o aquellos que lo fundaron
a veces yo me pregunto pa que me pregunto tanto
a veces yo me pregunto pa que me pregunto tanto
si pregunte o no pregunte el mundo sigue andando
si pregunte o no pregunte el mundo sigue andando
y por lo tanto cambiando.
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(facundo cabral, 1972)
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tudo outra vez
por deogar soares
(o título e a citação musical são livres associações minhas)
até hoje continuo sem saber seu nome. tem cabelos encarapinhados, corpo bem feito, um olhar atento e uma permanente vontade de fazer perguntas. às vezes faz, outras não, sem que eu saiba por quê. não é sempre, mas de quando em vez, que nos encontramos no ônibus. começamos num «olá, que tal?» hoje conversamos bastante. coisas comuns aos dois, ou até mais, e é isso que me espanta. essa jovem estudante, aluna do instituto de letras e artes, pode não representar a média dos pensamentos de sua turma, mas anda perto. se for certa essa minha impressão, fica bem.
seu primeiro espanto (disse-me há pouco) foi ter-me identificado visualmente, fora dos parâmetros que sua imaginação havia traçado. afinal, pensava, eu deveria ser um circunspecto e conservador cidadão da pátria, homem dado à gravata e bem sucedido proprietário de automóvel.
ao saber quem eu era, custou a crer. um cronista não anda de ônibus; não veste calça e jaqueta de brim, nem carrega marmita. imaginação e realidade não coincidiram na mente da universitária.
por que, obrigatoriamente temos de nos curvar às clicherias do mundo? não sei. o que não tenho dúvidas, é que essa amiga de identidade não sabida vive, também, as regras impostas pela sociedade.
ela, como a maioria das pessoas, acha (ou achava) que homens e ideias têm que residir nos catálogos.
meu compromisso, ultimamente, tem sido provar-lhe que isso só funciona quando a gente sucumbe às mesmices. dispensável mau hábito que segrega ou desagrega, porque, ao se completar uma certa idade, ou assumir um determinado compromisso funcional, cada um devesse falar, vestir, andar, comer, amar ou viver de forma supostamente adequada, então ampliaríamos os guetos sociais, econômicos, profissionais, classistas e outros criados através de conceitos errôneos.
interessante é notar que essa mulher desconhecida não está fazendo ideia errada, porque lamentavelmente o procedimento popular é esse mesmo. o que talvez a tenha surpreendido, é justamente a minha alienação a ele.
daí, quem sabe, tenhamos nos identificado, eu e ela, num ponto comum: a rebeldia ao contexto. quando penso nessas coisas, volta-me da memória uma antiga expressão do gil, há alguns anos, dizendo que, estranhamente, eu não tenho idade.
pode que sim, mas, naturalmente, o que me faz tremer de medo é a sensação de que, por distração ou imprudência, me fiz um cara de todas as idades. é por isso que percebo, claramente, que coisas se passam debaixo dos caracóis de seus cabelos, tanto quanto adivinho as elucubrações maquinadas no lado de dentro da cabeça careca do «seu»... não vem ao caso.
hoje eu penso nessas coisas, porque acordei interessadíssimo nelas. quem tem de escrever todos os dias precisa viver em dobro, experimentar a vida e deduzir em torno dela. se é o que me incumbiram, então, não tenho o direito de escolher o «modo vivendis» da minha infeliz geração. e escrever apenas para ela, como se me obrigassem a seguir o figurino.
posso ser petulante, mas devo confessar que detesto limitações de qualquer espécie. tanto posso descrever o adolescente que ainda sou, como o neurastênico homem maduro que reiteradamente insiste em brotar do meu consciente.
e sigo por aí, de barba branca e calça jeans, pelos ônibus da vida, ora insensato, ora medroso.
de qualquer forma, pretensamente livre, como estes meus voos crônicos. de resto, é só apertar o cinto, eis que vamos aterrizar.
deogar soares | voo livre, p. 111, 112 e 113.
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até parece que foi ontem, minha mocidade
com diploma de sofrer de outra universidade
minha fala nordestina
quero esquecer o francês
e vou viver as coisas novas que também são boas
o amor, humor das praças
cheias de pessoas
agora eu quero tudo, tudo outra vez
minha rede branca
meu cachorro ligeiro, sertão, olha o concorde
que vem vindo do estrangeiro
o fim do termo saudade
como o charme brasileiro de alguém sozinho a cismar
gente de minha rua como eu andei distante
quando eu desapareci ela arranjou um amante
minha normalista linda
ainda sou estudante
da vida que eu quero dar
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(belchior, 1979)
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voo livre
as crônicas... ah, as crônicas do deogar!... a voz grave e suave descrevia um mundo a partir do princípio simplíssimo de que a melhor forma de descrever o mundo é descrever sua própria aldeia naquilo que ela tem de universal: os sentimentos humanos, que são iguais em qualquer parte. com pitadas de ironia e de fino sarcasmo, deogar falava sobre política; com tristeza e consternação, sobre as tragédias humanas do dia-a-dia; com alegria discreta sobre as coisas boas da vida; com contida indignação, sobre as injustiças de sempre.
como sempre ocorre nesses casos, lhe era impossível ter a dimensão da influência do seu verbo. ele sabia que do outro lado alguém lhe escutava, mas não sabia quem, nem como, nem ao menos se escutavam suas palavras em acordo com o significado que ele pretendia dar a elas. por isto, sua rotina singular e solitária: levantar ainda de madrugada, tomar chimarrão, trancar-se no pequeno quarto feito escritório, ouvir as notícias no rádio, ler o jornal e então, escrupulosamente, arrancar da máquina de escrever as palavras que deveriam flutuar pelo ar no final de cada manhã.
antônio cruz (maneca)
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antes do fim
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rosto é rosto
cada um se vê como quer.
uns se veem como brad pitt,
eu me vejo como jorge cafrune.
parei diante do espelho
me olhei e pensei:
ainda não cheguei.
falta pouco tempo eu sei
mas quando a gente é pequeno
o tempo custa pra passar
também a barba pode crescer
parafraseando o poeta da aldeia
lembrei do poeta universal
«o tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, porque o tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.»
enfim
cada um é como é
lembrei agora de um poeta amigo meu
que sempre que me vê, diz:
«os pássaros de mesma plumagem procuram voar juntos»
grill
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de volta ao começo
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«escreva como quiser, use qualquer ritmo, experimente instrumentos diferentes, sente-se no piano, destrua a métrica, grite em vez de cantar, toque violão e toque corneta. o canto é um pássaro sem plano de vôo que nunca voará em linha reta.»
violeta parra
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«quem é essa garota que parece uma empregada?», perguntou o apresentador do festival de cosquín ao ver mercedes sosa convidada a subir no palco por um cantor atrevido que saiu do roteiro previsto. mercedes, que havia chegado com um vestido emprestado e seu primeiro filho nos braços. naquele dia 31 de janeiro de 1965, nascia uma lenda. o músico que a convidou a subir ao palco, sem a permissão dos organizadores, foi ninguém menos que jorge cafrune.
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«yo me voy a atrever, porque es un atrevimiento lo que voy a hacer ahora, y me voy a recibir un tirón de orejas por la comisión, pero que le vamos a hacer -siempre he sido así, galopeador contra el viento»
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jorge cafrune y mercedes sosa
ministerio de cultura de la nación
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«sempre tive problemas com as autoridades, não sei por quê... naquela época, porque era comunista — continuo sendo, mas naquela época isso era visto como algo ruim — e continua sendo...»
mercedes sosa
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mandaram-me uma carta
pelo correio bem cedo.
nessa carta me dizem
que meu irmão foi preso;
e sem dó, com seus grilhões,
pela rua o arrastaram, sim.
a carta diz o motivo
do que cometeu roberto:
ter apoiado uma greve
que já se havia resolvido.
se isso é crime ou motivo,
presa eu vou também, sargento, sim.
eu que me encontro tão longe,
esperando uma notícia,
vem dizer-me esta carta
que en mi pátria no hay justicia:
os famintos pedem pão,
chumbo lhes dá a milícia, sim.
desta maneira pomposa
querem manter o seu assento
os de leque e de casaca,
sem ter nenhum merecimento.
vão e vêm da igreja
e esquecem os mandamentos, sim.
quem já viu tal insolência,
barbárie e covardia,
apontar o seu trabuco
e matar a sangue-frio
a quem defesa no tiene,
com as duas mãos vazias, sim?
a carta que recebi
me pede uma resposta.
e eu peço que se espalhe
por toda a população:
que «o leão» é sanguinário
em qualquer geração, sim.
por sorte tenho guitarra
para chorar minha dor;
também tenho sete irmãos
fuera del que se engrilló
todos revolucionários
com o favor de mi dios, si.
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(violeta parra, 1963)
mercedes sosa
ao vivo no brasil
1980
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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas