quinta-feira, 10 de setembro de 2026


de serra. de mar e de terra
(sem medo de ser feliz) 


eu sempre quis ser contente
eu sempre quis só cantar 
trazendo pra toda gente
vontade de se abraçar

eu tinha no sol mais quente
a terra pra me alegrar
e a serra florando em frente
lavava os seus pés no mar

mas um dia tudo mudou
a vida se transformou
e a nossa canção também

geraldo vandré


«diante do avanço do bolsonarismo, lula abraça destruidores da amazônia em busca da reeleição»

«alianças do pt no norte incluem uma intervenção em rondônia, que tentou sacrificar a candidatura da ativista neidinha suruí, e o apoio a candidatos que colaboraram para arruinar o licenciamento ambiental»

rafael moro martins
córrego do urubu, cerrado, brasília
27 de agosto de 2026

a força do bolsonarismo e a debilidade do partido dos trabalhadores na amazônia levam a campanha de reeleição do presidente luiz inácio lula da silva a abraçar candidatos e alianças com uma pauta inimiga da floresta. no caso mais extremo, em rondônia, a pressão por uma aliança com o pt fez o comando nacional do partido socialista brasileiro, o psb, intervir no diretório estadual e tentar ceifar a candidatura ao senado da ativista neidinha suruí, doutora em geografia que há mais de 40 anos atua na defesa dos povos originários amazônidas.

na quinta-feira, 13 de agosto, três dias antes do prazo final para o registro de candidaturas, um email chegou à noite ao diretório de rondônia. miguel só foi abri-lo na manhã seguinte. ele trazia anexada uma resolução, assinada por joão campos, «informando a dissolução do diretório, a anulação parcial da convenção, dizendo que a gente não lançaria nenhuma candidatura [para a eleição] majoritária [que escolhe governador e senadores], e determinando que a gente coligaria com o pt”, relata o presidente afastado da legenda. «a gente foi pego de surpresa», reforça neidinha suruí. 


para ler a íntegra 
clique no título

eleições 26
[direto do centro do mundo]


ao vento

tudo passa
só o passado não passa
preparar apontar fogo
sem fogo não há fumaça

grill


o trem

em 2005, eu trabalhava no cfc. lembro-me bem...memória que vai, memória que vem... vem daí a metáfora do trem. naquela época, sem as limitações da idade, eu caminhava pelas ruas da cidade, parava um pouco aqui, outro tanto ali, e a ladainha era uma só: mensalão, mensalão, mensalão. como eu sempre fui muito identificado com o pt, as pessoas esfregavam o jornal na minha cara: «explica aí, o que tu me diz disso aqui?».

digo aqui 
o que disse lá

certa vez me perguntaram o que eu achava do governo lula.
faz tempo, foi na época do mensalão.
enquanto pensava o que responder,
lembrei de uma entrevista de eduardo galeano.

nela, o escritor uruguaio relaciona governos progressistas da américa latina
— especificamente brasil e uruguai (antes de mujica) —
com um filme de groucho marx.

no filme,
groucho marx persegue um delinquente em um trem.
o trem vai ficando sem lenha.
ele persegue o delinquente e alimenta o forno da locomotiva.

em um dado momento, a lenha acaba.
com um machado,
ele começa a quebrar os vagões de madeira,
um atrás do outro,
para alimentar o forno.

o importante era chegar.
chegar, chegar ou chegar.

no final,
a lembrança de galeano é que groucho marx consegue chegar.
mas só a locomotiva chega.
todos os vagões foram sacrificados.

quando o trem chega,
chega sem trem.


falando em trem

o trem percorria um pedaço daquela província fria desde temuco até carahue. atravessava extensões imensas e desabitadas, sem cultivo, atravessava os bosques virgens, soava como um terremoto por túneis e pontes. as estações estavam ilhadas no meio do campo, entre acácias e madeiras floridas. os índios araucanos, com seus trajes rituais e sua majestade ancestral, esperavam nas estações para vender aos passageiros carneiros, galinhas, ovos e tecidos. meu pai sempre comprava algo com interminável regateio. com sua barbicha loura, erguia uma galinha em frente a uma araucana impenetrável que não baixava nem meio centavo o preço de sua mercadoria.

cada estação tinha um nome mais bonito, quase todos herdados das antigas possessões araucanas. essa foi a região dos combates mais encarniçados entre os invasores espanhóis e os chilenos nativos, filhos profundos daquela terra.

os araucanos, na guerra pela sua pátria, inventaram a tática da terra arrasada. não deixaram pedra sobre pedra de imperial, cidade descrita pelo poeta dom alonso de ercilla como bela e soberba.

pablo neruda | confesso que vivi, p. 14

já ressoam as votações,
são ouvidas sem parar,
mas o gemido do índio,
por que não se escutará?»

legendas + ilustração

[clique no título para ver e ouvir]

(violeta parra, 1961)

da contracapa de canto geral
(disco de geraldo vandré)

«desses tempos em que falar de árvores é quase um crime, pois implica em silenciar sobre tantos erros — aos que virão depois de mim.»

bertolt brecht

.

construindo casas ou pontes, igrejas ou hospitais, pintando, curando doentes, voando ou varrendo as ruas, fazendo política ou amor, morrendo e, porque não, matando, a vida importa somente pela doação que se faz dela, pelo sentido e pela direção. às vezes penso que cantando mereço um pouco a vida. saldo em parte os meus compromissos e tenho então, cada vez mais forte, a impressão da liberdade. por isso aprendo a cantar e canto.

neste disco a palavra geral tem de mim somente uma vontade muito grande de colocar-me sem pudores com o instrumento da comunicação de tudo que aprendi a ver, ouvir, pensar e sentir a respeito do meu tempo, do meu lugar e da gente que vive neles.

o sentido da palavra geral depende, afinal, do acerto no trabalho. das notícias e das emoções que ele possa trazer a cada um de nós e principalmente do uso que faremos delas.

é possível que este disco tenha custado a mim mesmo e a outras pessoas mais do que esperávamos, do que gostaríamos ou do que seria justo que custasse. mas eu tenho uma boa explicação: os critérios de justiça do mundo em que vivemos ainda estão muito longe de poder dar-nos uma certeza e uma garantia mínima do que seja verdadeiramente justo ou injusto.
geraldo vandré – março de 1968.

.

ps: «– vós que vireis na crista da onda em que nos afogamos, quando falardes de nossas fraquezas pensai também no tempo sombrio a que haveis escapado.»

bertolt brecht


meio e mensagem

quem me acompanha aqui pelo américas, deve ter percebido que, em cem por cento dos casos, meus posts vêm acompanhados de texto, imagem e música. obviamente que os três elementos estão intrinsecamente ligados, ou seja, um explica e complementa o outro.

é o caso deste post

na capa original do disco «canto geral», gravado pela emi-odeon em 1968 há duas imagens divididas por uma faixa onde consta o título do lp, em vermelho, e o nome de vandré, em preto. na parte superior, verde, há uma boiada sendo conduzida por um boiadeiro, o gado de cabeça baixa, segue a mesma direção. na parte inferior, amarelo, há um grupo de pessoas reunidas, de cabeça erguida, que olham para alguém ou para alguma coisa, o que é, não sei, mas é algo ou alguém que parece estar longe....

outro significado por trás deste lp, é o seu próprio nome. «canto geral» é o nome de um livro de poemas de pablo neruda lançado em 1950. comparado em importância à «divina comédia», de dante alighieri, ao «popol vuh» e à «folhas de relva», de walt whitman, «canto geral é «a grande canção da américa» — testemunha um grande amor ao chile e ao seu povo, e por extensão, a todos os povos latino-americanos, frequentes vítimas do despotismo.
«canto geral» conta uma história marginal da américa. é um livro de combate e de ternura. foi elaborado em circunstâncias adversas, quando neruda, perseguido, foi obrigado a transpor os andes e refugiar-se no estrangeiro.

é do próprio autor esta declaração: «naquele ano de perigo e clandestinidade terminei meu livro mais importante, o "canto geral"».

e assim nasceu essa magnífica obra: com a indelével marca do sofrimento.

falando em sofrimento


após a promulgação do ato institucional nº5, geraldo vandré teve que deixar o país, dando início ao seu exílio. ele permaneceu um tempo hospedado na casa de dona aracy, esposa de guimarães rosa e depois deu início a sua fuga para o chile, saindo pelo sul do brasil e passando depois pelo uruguai.

sua saída do país lhe causou enorme sofrimento...

e no vai e vem dos ventos
é assim que as coisas são
no mundo como ele é
nosso maior inimigo
somos nós mesmos


quem vai me escutar?
quem vai me entender?
ninguém pode mais sofrer

(geraldo vandré, 1964)


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas


grill

quarta-feira, 9 de setembro de 2026


mariposas
[borboletas]


hoy viene a ser como la cuarta vez que espero
desde que sé que no vendrás más nunca.
he vuelto a ser aquel cantar del aguacero
que hizo casi legal su abrazo en tu cintura.
y tú apareces en mi ventana,
suave y pequeña, con alas blancas.
yo ni respiro para que duermas
y no te vayas.

silvio rodríguez


as casas de neruda 

por eduardo galeano


neruda/1

fui a isla negra, à casa que foi, que é, de pablo neruda.

era proibido entrar. uma cerca de madeira rodeava a casa. lá as pessoas tinham gravado seus recados para o poeta. não tinham deixado nenhum pedacinho de madeira descoberta. todos falavam com ele como se estivesse vivo. com lápis ou pontas de pregos, cada um tinha encontrado sua maneira de dizer-lhe: obrigado.

eu também encontrei, sem palavras, a minha maneira. e entrei sem entrar. e em silêncio ficamos conversando vinhos, o poeta e eu, caladamente falando de mares e amares e de alguma poção infalível contra a calvície. compartilhamos camarões ao pil-pil e uma prodigiosa torta de jaibas e outras dessas maravilhas que alegram a alma e a pança, que são, como ele sabe muito bem, dois nomes para a mesma coisa.

várias vezes erguemos taças de bom vinho, e um vento salgado golpeava nossas caras, e tudo foi uma cerimônia de maldição da ditadura, aquela lança negra cravada em seu torço, aquela puta dor enorme, e foi também uma cerimônia de celebração da vida, bela e efêmera como os altares de flores e os amores passageiros.

neruda/ 2

aconteceu em la sebastiana, outra casa de neruda, debruçada sobre a montanha, sobre a baía de valparaíso. a casa estava fechada à pedra e cal, com tranca e cadeado e debaixo de sete chaves, habitada por ninguém, fazia muito tempo.

os militares tinham usurpado o poder, o sangue tinha corrido pelas ruas, neruda estava morto de câncer ou de dor. e então uns ruídos estranhos, no interior da casa fechada, chamaram a atenção dos vizinhos. alguém chegou perto e viu, por um janelão alto, os olhos brilhantes e as garras de ataque de uma águia inexplicável. a águia não podia estar ali, não podia ter entrado, não tinha por onde entrar, mas estava lá dentro; e lá dentro agitava violentamente as asas.

o livro dos abrazos, pp 36 e 37


santiago do chile, 1973

no meio da devastação, em sua casa também despedaçada a golpes de machado, jaz neruda. sua morte não era suficiente, por ser neruda homem de muito sobreviver, e os militares assassinaram também suas coisas; transformaram em lascas de madeira sua cama feliz e sua mesa feliz, estriparam seu colchão e queimaram seus livros, arrebentaram os lustres e suas garrafas coloridas, suas cerâmicas, seus quadros, seus caracóis. arrancaram os ponteiros do seu relógio de parede; e no retrato de sua mulher, cravaram uma baioneta, num olho.

de sua casa arrasada, inundada de água e barro, o poeta parte para o cemitério. parte escoltado por um cortejo da amigos íntimos, encabeçados por matilde urrutia. ele tinha dito a ela: «foi tão belo viver quando você vivia.

quarteirão após quarteirão, o cortejo cresce. de todas as esquinas soma-se pessoas, que se põem a caminhar apesar dos caminhões militares cheios de metralhadoras como pontas de um espinheiro, e de guardas e soldados que vão e vêm, em motocicletas e carros blindados, fazendo ruído, metendo medo. atrás de uma janela, uma mão saúda. no alto de um terraço, ondula um lenço. hoje faz doze dias do golpe, doze dias de calar e morrer, e pela primeira vez ouve-se a internacional no chile, a internacional sussurrada, gemida, soluçada mais que cantada, até que o cortejo se faz procissão e a procissão se faz manifestação, e o povo que caminha contra o medo, desanda a cantar pelas ruas de santiago a viva voz, com voz inteira, para acompanhar como se deve neruda, o poeta, seu poeta, em sua viagem final.

o século do vento (memória do fogo), p. 255


companheiros, sepultem-me em isla negra,
frente ao mar que conheço, a cada área rugosa
de pedras e de ondas que meus olhos perdidos não voltarão a ver.
ali quero dormir entre as pálpebras do mar e da terra...
quero ser arrastado para o fundo pelas chuvas que o selvagem
vento do mar combate e desintegra, e depois, pelos leitos subterrâneos,
seguir em direção à primavera profunda que renasce.

[clique no título para ver e ouvir]



inicial

o dia não é hora por hora,
é dor por dor,
o tempo não se dobra,
não se gasta,
mar, diz o mar,
sem trégua,
terra, diz a terra,
o homem espera.
e só
seu sino
está ali entre os outros
guardando em seu vazio
um silêncio implacável
que se repartirá
quando levante sua língua de metal
onda após onda.

de tantas coisas que tive,
andando de joelhos pelo mundo,
aqui, despido,
não tenho mais que o duro meio-dia
do mar, e um sino.

eles me dão sua voz para sofrer
e sua advertência para deter-me.

isto acontece para todo o mundo,
continua o espaço.

e vive o mar.

existem os sinos.

pablo neruda
(do livro póstumo o mar e os sinos, 1973)


«no sino do templo repousa uma borboleta»

yosa buson


qué maneras más curiosas
de recordar tiene uno,
qué maneras más curiosas:
hoy recuerdo mariposas
que ayer sólo fueron humo.
mariposas, mariposas
que emergieron de lo oscuro
bailarinas, silenciosas.

tu tiempo es ahora una mariposa,
navecita blanca, delgada, nerviosa.
siglos atrás inundaron un segundo
debajo del cielo, encima del mundo.

así eras tú en aquellas tardes divertidas,
así eras tú de furibunda compañera.
eras como esos días en que eres la vida
y todo lo que tocas se hace primavera.

ay, mariposa: tú eres el alma
de los guerreros que aman y cantan
y eres el nuevo ser que se asoma por mi garganta.

silvio rodríguez + rey guerra

[clique no título para ver e ouvir]

(mariposas, 1999)


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 8 de setembro de 2026


o primeiro dia
[porque a vida só se dá pra quem se deu]


«cães amam seus amigos e mordem seus inimigos»

sigmund freud

antônio maria, cronista e compositor pernambucano, frequentador da noite carioca, era muito amigo de vinicius. uma das atividades preferidas dos dois era, em fins de noite, seguir cães vira-latas pelas ruas a bordo de um «rabo de peixe», modelo de carro de luxo dominante na época. «a solidão pior é a do ser que não ama... e os vira-latas amam», dizia vinicius. numa dessas noites, os vira-latas os conduziram até a praia, onde avistaram um grupo de velhinhos fazendo exercícios, chefiados por um embrião da geração saúde. de copo na mão, com o dia amanhecendo, os dois ficaram quietos observando aquilo (que será isso?) por algum tempo. o silêncio foi quebrado por uma insólita proposta de vinicius:  
- maria, vamos fazer um pacto?

           - claro, peça o que quiser, vinicius...

- de hoje em diante, não vamos fazer jamais um só movimento desnecessário.

recordar: do latim recordis, voltar a passar pelo coração. 

estava lembrando vinicius de moraes, nesse encontro com antonio maria e de repente me reconheci na história com o desconforto de quem encontra uma foto antiga numa gaveta e demora alguns segundos para perceber que aqueles boêmios, poetas, músicos e filósofos de botequim, de imortalidade à flor da pele, convencidos de que o tempo era uma coisa que acontecia aos outros, sou eu, porra, eu sou dessa viagem e dessa geração, mesmo tendo nascido em outra.

enfim,
minha ladainha
é sempre a mesma:
vinicius de moraes, e outros mais, 
não teriam espaço nos dias politicamente corretos de hoje. 
aliás, vinicius, antonio maria, sepé, zumbi, mariguela, guevara, lamarca... e por aí vai... a lista é grande... começa com meu pai.


falando no meu pai
se alguém o vir
diga-lhe que estou bem
que hoje ando a 10
para chegar aos 100
e que hoje
é o meu primeiro dia
na fisioterapia


de volta ao futuro


até os 60
nada doía
tudo fluia
agora
do nada
tudo dói
menos o coração


entrei na rua augusta
a 120 graus do chão precipitado com a chuva
mas sem direção a zero por hora entrei com pompa e circustâncias
próprias de um verão ensolarado em minha mente
por um sol bufão a zero por hora entrei na rua, a mi me gusta
a bruta inclinação o mundo visto desse jeito
é uma diversão a zero por hora entrei na rua em minha busca
de consolação apaixonado pelas moças
vindo em profusão a zero por hora
a zero por hora entrei estranho e a jovem guarda
me estendeu a mão pediu meu documento
e eu lhe disse: por que não? a zero por hora entrei na dela
como em filme de televisão pedi: me leva preso agora
no teu coração a zero por hora entrei em fria
mas fervendo em minha ilusão o amor é muito lindo
a 120 graus do chão a zero por hora

vitor ramil + marcos suzano
participação: jorge drexler

[clique no título da música para ouvir]

a zero por hora
(satolep sambatown, 2007)


foto evandro teixeira churrascaria carreta rio de janeiro, 1979


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

segunda-feira, 7 de setembro de 2026


pátria mãe
[clique nos títulos para ver/ouvir]


«o brasil não tem povo, apenas público. povo luta por seus direitos, público assiste de camarote»

lima barreto

sabe a sensação de que nunca essa porra vai dar certo?
é feita pra dar defeito
pra ficar em aberto
a coisa de dar um jeito
a edição de um decreto
a mancha do preconceito
a falta de um papo reto

(celso viáfora e pedro viáfora, 2026)

«no cemitério dos vivos
lima barreto passa dias e noites
chamando os lobos
para não dormir sozinho»

celso borges

e agora o que faremos?
oosição.
a posição da poesia é oposição.
o poeta que o diga.

revestres: você ainda acredita que a posição da poesia, como expressou em performance pelo brasil, é realmente a oposição?

celso borgs: sim, cada vez mais. o sentido da oposição poética é muito mais amplo. para mim, a posição da poesia é de enfrentamento político, de luta como cidadão e criador, não apenas partidária. a estrutura não gosta da gente, às vezes finge que gosta ou nos tolera. na verdade, prefere «poetinhas civilizados», domados, acadêmicos, e eu procuro na contramão disso.

pra não dizer que não falei de flores


circula pela internet um texto de martha medeiros que me foi enviado recentemente. gostei do que li. penso ser fundamental que escritores com espaço na grande mídia se posicionem a favor de lula e contra bolsonaro. ademais, trata-se de um texto politicamente correto e extremamente bem escrito, como é a maioria da obra da escritora gaúcha.


ponto
nova linha


brasil, 13 de dezembro de 1968

nesse dia é decretado o ato institucional nº 5 – o famoso e temido ai 5 – medida extrema do regime militar que lança o país numa longa e escura noite. vinicius de moraes está em lisboa para uma apresentação. os repórteres portugueses, embaralhando nomes e informações, conseguem lhe dizer o essencial. vinicius fica sem reação. o olhar é distante.

à noite, mesmo abatido, cumpre seu papel no teatro. portugal ainda está sob o regime férreo de marcelo caetano. a rádio e televisão portuguesa manda uma equipe para o teatro para fazer uma gravação do show. vinicius não se intimida.

no final, antes de dizer o último poema e cantar a última música, o poeta interrompe o show: «eu hoje gostaria de dizer a vocês umas palavras de muita tristeza. no meu país foi instaurado, hoje, o ato institucional nº 5. pessoas estão sendo perseguidas, assassinadas, torturadas. por isso, quero ler um poema.»

o poeta abre um exemplar de sua antologia poética, guardado sob a garrafa de uísque e, enquanto baden powell começa a dedilhar o hino nacional brasileiro, vinicius lê: «a minha pátria é como se não fosse, é íntima/ doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo/ é minha pátria. por isso, no exílio/ assistindo dormir meu filho/ choro de saudades da minha pátria».

trata-se do magnífico «pátria minha», um dos mais belos poemas escritos por vinicius de moraes. a plateia se extasia diante de versos como esses: «não te direi o nome, pátria minha/ teu nome é pátria amada, é patriazinha/ não rima com mãe gentil/ vives em mim como uma filha que és/ uma ilha de ternura: a ilha/ brasil, talvez».

a leitura de «pátria minha» ficará na memória dos portugueses como uma das mais bem acabadas expressões que puderam conhecer do amor à liberdade.


porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
pátria, eu semente que nasci do vento
eu que não vou e não venho, eu que permaneço
em contato com a dor do tempo, eu elemento
de ligação entre a ação e o pensamento
eu fio invisível no espaço de todo adeus
eu, o sem deus!

tenho-te no entanto em mim como um gemido
de flor; tenho-te como um amor morrido
a quem se jurou; tenho-te como uma fé
sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
nesta sala estrangeira com lareira
e sem pé-direito.

(vinicius de moraes, 1968)
naquela noite, em lisboa, à saída do show, vinicius tem que enfrentar uma pequena mas barulhenta manifestação de salazaristas indignados com seus discursos contra os horrores da ditadura. os manifestantes fecham a saída dos fundos do teatro. vinicius chega à porta e os encara. alguém lhe sussurra o óbvio: «vamos voltar e sair por um outro lado». o poeta responde em tom seco: «não».

vinicius fica algum tempo em silêncio. depois, erguendo a voz e ainda encarando o pequeno grupo de direitistas, começa a recitar: «de manhã escureço/ de dia tardo/ de tarde anoiteço/ de noite ardo». são os versos de seu primoroso «poética 1», poema que escreveu no distante ano de 1950, em nova york.

o poeta vai prosseguir, quando um sotaque brasileiro, escondido por detrás dos manifestantes, toma a palavra e prossegue: «a oeste a morte/ contra quem vivo/ do sul cativo/ o este é meu norte».

aquele estudante brasileiro, solitário em sua revolta, o salva. os jovens salazaristas portugueses cedem à força da poesia. os manifestantes, agora, já não podem mais gritar. um ou outro tenta ainda emitir uma palavra de ordem sem sentido, mas a maioria silencia para ouvi-lo terminar: «os outros que contem/ passo por passo:/ eu morro ontem/ nasço amanhã». e, elevando a voz ao máximo, vinicius conclui: «ando onde há espaço:/ meu tempo é quando».

um primeiro estudante, mais corajoso, tira o casaco e o estende no chão. outros fazem o mesmo. e então vinicius sai de cabeça erguida – e coração estraçalhado – sobre aquele tapete de casacos. 
a poesia acabara de colocar cada um em seu devido e merecido lugar.

(tem que acontecer, 1976)


e agora, qual a saída?
a saída é pela esquerda
não a esquerda institucional e conformista
mas a esquerda radical e anticapitalista
a historiadora raquel varela que o diga

«há uma esquerda profundamente institucional e simultaneamente fanática», afirma a historiadora raquel varela na entrevista a seguir, concedida à «carta capital» durante uma rápida passagem por são paulo.

carta capital


de volta à poesia


não posso
não é possível
digam-lhe que é totalmente impossível
agora não pode ser
é impossível
não posso.

digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.

(vinicius de moraes, 1949)


eu, um teo-poeta
quem foi estudante na época da ditadura militar dificilmente escapou de participar dos desfiles de 7 de setembro como atividade escolar. é o meu caso. não que eu gostasse daquilo, longe disso, participava porque era OBRIGADO. na verdade, eu ODIAVA ter que participar daquela pantomima. a OBRIGAÇÃO de ter que PARTICIPAR de algo que eu não gostava e não ACREDITAVA criou, dentro de mim, uma verdadeira AVERSÃO a todo e qualquer tipo de IMPOSIÇÃO. eu sou um libertário. se quiser ir pra paris, vá! faça o que tu queres pois é tudo da lei. assim sendo, conforme fui crescendo, fui perdendo o medo de ser feliz. hoje sou um teo-poeta, só me dedico àquilo que realmente ACREDITO.

«teo-poeta é aquele que escreve com paixão, posto que a paixão e o desejo são as forças que lhe movem. trata-se de paixão pelo desconhecido, com os ouvidos atentos aos sopros do vento sempre imprevisíveis e sacudidores em vez da estabilidade da rocha eterna.»

«e os meus pensamentos são todos sensações.
penso com os olhos e com os ouvidos
e com as mãos e os pés
e com o nariz e a boca.
pensar uma flor é vê-la e cheira-la
e comer um fruto é saber-lhe o sentido.»

os teólogos constroem barreiras para estabelecer quem está dentro ou fora de suas comunidades por meio de confissões de fé. os teo-poetas também confessam a fé. dessa forma, seguem o conselho de mario quintana: «eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão».

a rua dos cataventos
(soneto xvii)

da vez primeira em que me assassinaram,
perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
depois, a cada vez que me mataram,
foram levando qualquer coisa minha.

hoje, dos meu cadáveres eu sou
o mais desnudo, o que não tem mais nada.
arde um toco de vela amarelada,
como único bem que me ficou.

vinde! corvos, chacais, ladrões de estrada!
pois dessa mão avaramente adunca
não haverão de arrancar a luz sagrada!

aves da noite! asas do horror! voejai!
que a luz trêmula e triste como um ai,
a luz de um morto não se apaga nunca!

mario quintana


recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração.


«eu me visto de preto pelos pobres e oprimidos / que vivem do lado faminto e sem esperança da cidade / eu me visto assim pelo prisioneiro, que há muito tempo já pagou por seu crime / mas que de nada adiantou, pois é uma vitima dos tempos.»

johnny cash


ah, eu adoraria vestir um arco-íris todos os dias,
e dizer para o mundo que tudo está ok,
mas talvez eu possa carregar um pouco da escuridão em mim
até as coisas serem brilhantes, eu sou o homem de preto.

(johnny cash, 1971)


verdade verdadeira, de lembrança, mesmo, do 7 de setembro, eu tenho de um desfile na cidade de pelotas, acho que em 76, em que desfilávamos com um catavento verde-amarelo na mão. o meu não voltou pra casa, foi devidamente amassado, rasgado e jogado no chão.


uma a narrativa da história viva deste país
uma palavra ingênua, tal como a gema da massa ali
com outros meninos ricos, a outra história deste país
lembro de um desfile da mocidade marchando aqui
aquele amor à pátria, nas bicicletas, no coração
e a gente ficava olhando aqueles tanques, os aviões
vinham, davam rasantes, olha os infantes, oh pátria mãe

ainda sobre essa coisa, sobre essa transa, oh pátria mãe
hoje vejo quizumba, me passa uma paixão por ti,
loucos estamos todos, estamos todos a fim de ti,
por mais que outros caras, de outras línguas te neguem a nós,
está pintando um dia, daí meu nego, vâmo treme!

(força d'água, 1985)


#bolsonaronuncamais
#nuncamais #nuncamais

domingo, 6 de setembro de 2026


paisagem da janela
[clique nos títulos para ver/ouvir]


tudo é circular
(e isso o sol sabe melhor do que ninguém)

facundo cabral


todo dia o sol levanta 
 e a gente canta 
 ao sol de todo dia

caetano veloso


sinto hoje em satolep
o que há muito não sentia
o limiar da verdade
roçando na face nua

vitor ramil


a invenção de morel

passei toda a manhã expondo-me a ser descoberto por qualquer pessoa que tivesse a coragem de se levantar antes das dez. ao que parece, tão modesto requisito para a calamidade não se cumpriu. durante o trabalho de juntar as flores, vigiei o museu e não vi nenhum de seus ocupantes; isso me permite supor que tampouco me viram. 
as flores são muito pequenas. terei que plantar milhares e milhares, se não quiser um jardinzinho ínfimo (seria mais bonito e mais fácil de fazer; mas há o perigo de que ninguém o veja).

apliquei-me a preparar os canteiros, a quebrar a terra (está dura, as superficies que planejei são muito vastas), a regar com água de chuva. quando tiver acabado de preparar a terra, terei que buscar mais flores. farei o possível para que não me surpreendam, sobretudo para que não interrompam o trabalho ou o vejam antes que esteja pronto. esqueci que, para os traslados de plantas, há exigência cósmicas. não posso crer que, depois de tanto perigo, de tanto cansaço, as flores não cheguem vivas até o pôr-do-sol.
careço de estética para jardins; de qualquer maneira entre a relva e os capinzais, o trabalho parecerá comovente. será uma fraude, naturalmente; de acordo com meu plano, hoje à tarde será um jardim cuidado, amanhã talvez esteja morto ou sem flores (se houver vento).

adolfo bioy casares


que fim levaram todas as flores?
que o preto velho me contava
que fim levaram todas as flores?
que a rainha louca não gostava
que a lapela morta carregava
que o olhar de todos me lembrava
que fim levaram todas as flores?
que qualquer coisa não estragava
em qualquer dia que podia
com grande amor e alegria
que fim levaram todas as flores?
que a criança às vezes me pedia

(secos & molhados, 1974)


grande sertão: veredas

sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso. o que queria e o que não queria, estória sem final. o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. o que ela quer da gente é coragem. o que deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito. por coragem. será? era o que eu às vezes achava. ao clarear do dia.
joão guimarães rosa 


«não posso continuar. vou continuar.»

samuel beckett


amanhã há de ser outro dia?
tomara que sim
mas acho que não
(a palavra diz não
mas a obra diz sim)
esperança
pra mim
só pra depois de amanhã
lá por 2050
2060
2070
quando muitos de nós já não estaremos mais aqui
aliás
melhor assim
espero que os que venham depois de nós
temam menos a morte
e mais a vida insuficiente
na nossa passagem por aqui
tivemos alguns assim
mais corajosos e determinados que nós
mas foram muito poucos
infelizmente


«criar é viver duas vezes.»

 albert camus

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a noite de 12 anos
(e nós queríamos mudar o mundo)

o filme se concentra na história de três de nove guerrilheiros tupamaros presos e postos como «reféns» pelo regime ditatorial uruguaio: pepe mujica, mauricio rosencof e eleuterio fernández huidobro.

em uma palavra, o tema central de uma noite de 12 anos pode ser definido como resiliência – a capacidade emocional do indivíduo de resistir a eventos traumáticos.

é muito difícil imaginar que uma pessoa possa resistir por 12 longos anos sem poder se comunicar, preso em uma cela em condições cruéis, isolado em um cubículo apartado dos companheiros (cada um na sua solitária), com pouquíssima comida, água e nenhuma luz do sol. 
enfim, o filme, que não é um filme de ficção, é uma história real, é mais um exemplo de como certas pessoas, quando imbuídas de ideal e determinação, mesmo massacradas sob a extrema violência de estado e ou sufocadas sob a hipocrisia da sociedade e ou extremamente sensíveis às injusitças e crueldades do mundo, como ele é, acham alternativas para manter acesa a chama da esperança e da vida, sendo o que são. 


 (trailer oficial 1)

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(trailer oficial 2)



ave pepe
ave ruso
ave ñato


o último poema para pepe mujica

«tu te lembras daqueles dias, pepe? vivemos onze anos isolados sob a terra, sem nos ver,
sem livros. reinventamos o código morse batendo com os dedos abrindo uma janelinha para
a vida nas paredes. se este fosse meu último poema, rebelde e triste, desgastado mas
inteiro, eu escreveria apenas uma palavra: companheiro»

maurício rosencof


«mais cadê meus cumpanhero cadê
qui cantava aqui mais eu, cadê
na calçada no terrero, cadê
cadê os cumpanhero meu cadê»

elomar


«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges


tudo é circular
e a roda é viva


outro dia eu tava assistindo um roda viva das antigas com o brizola. o seu antipetismo era tanto e tão pequeno que eu me senti reconfortado por jamais ter votado nele. meus votos para presidente foram sempre em lula. mas lula e o pt envelheceram...


«nossos ídolos ainda são os mesmos
e as aparências
não enganam não
você diz que depois deles
não apareceu mais ninguém
você pode até dizer
que eu 'tô por fora
ou então que eu 'tô inventando
mas é você que ama o passado
e que não vê
é você que ama o passado
e que não vê
que o novo sempre vem»


- quantos anos você tem, clint?
- 96.
- de que signo você é?
- gêmeos.
- que dia você nasceu?
- 31 de maio de 1930.
- o que você vai fazer?
- vou começar um novo filme.
- o que te faz continuar?
- eu me levanto todos os dias e não deixo o velho entrar.
- que horas você se levanta?
- antes do sol nascer.


pode ser até amanhã, sendo claro feito o dia
mas nada do que me dizem
me faz sentir alegria
só queria ter do mato um gosto de framboesa
pra correr entre os canteiros
e esconder minha tristeza

e eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
e deixemos de coisa, cuidemos da vida
pois senão chega a morte ou coisa parecida
e nos arrasta, moço, sem ter visto a vida

(manera fru fru, manera, 1973)


e a paisagem da janela?


com a palavra, robertinho brant: 

«fernando brant escreveu a letra dessa icônica música olhando através da paisagem da janela do escritório do seu pai e meu avô, dr. moacir pimenta brant. de lá ele viu o mundo. o escritório ficava no segundo andar da casa dos brant, na rua grão pará, 1092. lugar aonde inúmeras vezes eu visitei sorrateiramente quando criança. e onde eu passava inúmeras tardes mágicas e silenciosas, observando cada objeto, sentindo de perto a doce magia daquele ambiente misterioso. da janela daquele escritório eu também sonhei.»


da janela lateral do quarto de dormir
vejo uma igreja, um sinal de glória
vejo um muro branco e um voo pássaro
vejo uma grade, um velho sinal

(clube da esquina, 1972)


ao vento

o lugar não importa
casa de poeta não tem porta
se uma chave tranca
outra destranca

a chave é o amor
o amor é a chave
qual amor? 
o amor fati


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas