domingo, 1 de novembro de 2026


el campo grande

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«o campo é grande e a reforma é pequena»

autor desconhecido

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é preciso que a justiça e a igualdade
sejam mais que palavras de ocasião
é preciso um novo tempo
em que não seja só promessa
repartir a terra e o pão
(a hora é essa de fazer a divisão)

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(pedro munhoz/martim césar, 1999)

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pelotas, 2 de agosto de 2003. neste dia, pepe guerra fez apresentação única no theatro sete de abril. o theatro estava meio cheio ou meio vazio — se um ou se outro, fica a critério de como cada um viu.

na saída, antes de entrarmos no fusca vermelho — que, entre outras façanhas, além de ter conduzido viglietti pelas ruas de porto alegre, havia me levado a montevidéu —, pepe olha pra mim e diz: «tu me lembra o che guevara». dizer o quê? abri um sorriso e não disse nada.

depois, com amigos, saímos para a noite de satolep. lá pelas tantas, altas horas da madrugada, pepe chega pra mim e diz: «belíssima a abertura, enilton!». ele referia-se ao texto escrito e lido por mim na abertura de seu recital.

no dia seguinte, ao nos despedirmos, dei a ele o texto, os folders, os cartazes e os recortes de jornais. disse que gostaria que ele levasse tudo como lembrança de sua passagem por aqui. ele agradeceu... disse que ia emoldurar e pendurar junto a outros quadros de recitais seus realizados mundo afora. se fez isso ou não, não sei. pouco importa. o simples fato de escutar o que escutei já me apraz e me conforta.

sim, pra mim, mais vale a intenção que o resultado. o resultado, pra mim, pouco importa. pra dizer a verdade, tenho um pé atrás com os vencedores. prefiro os perdedores. ou seja: dou mais valor aos desassombrados que aos resignados.

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«só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. e eu não vou me resignar nunca.»
darcy ribeiro.

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de memes 

«os problemas do mundo começaram quando as zebras de riscas brancas passaram a detestar as zebras com riscas pretas.»

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de zebras

cientificamente, a zebra é um único organismo (um único animal) que possui listras de ambas as cores. no entanto, a ciência traz um detalhe muito interessante sobre a «cor de fundo» desse animal: as zebras são pretas com listras brancas.

aqui estão os fatos científicos sobre a coloração das zebras:

• a base é preta: estudos de embriologia mostram que a pele da zebra é totalmente preta. se você raspar o pelo de uma zebra, verá uma pele escura por baixo. 
• a formação das listras: o pelo original que começa a crescer no embrião também é preto. as listras brancas surgem depois, devido a um processo chamado pigmentação seletiva, onde a produção de melanina (o pigmento escuro) é «desativada» em certas zonas do corpo. 
• a função das listras: cientistas já comprovaram que o principal motivo das listras não é a camuflagem contra leões, mas sim afastar insetos (como a mosca tsé-tsé), pois o padrão listrado confunde a visão deles e impede que pousem no animal.

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de burros

pelo que entendi, o meme sugere que os problemas do mundo não nascem das contradições reais, mas de rivalidades fantasmas criadas por pura ideologia, esquecendo-se do «bem maior»: a manutenção da democracia. uma leitura ingênua e confortável, que reduz a crítica política a um mero capricho comportamental.

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de jumentos

o jumento é nosso irmão
quer queira, quer não

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luiz gonzaga / josé clementino
gonzagão & gonzaguinha
vida do viajante

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de avestruzes
falam muito mal das avestruzes, injustamente. seus detratores, movidos por motivos inconfessáveis, declaram que aquelas aves são de estupidez sem paralelo. dizem que elas, ao se defrontar com um leão, enterram suas cabeças na areia. se assim elas se comportam, é porque devem ser adeptas de uma antiga filosofia que afirmava que «ser é perceber». raciocinam as avestruzes: se não percebo o perigo, o perigo não existe para mim. (traduzido popularmente: «aquilo que os olhos não vêem o coração não sente».) continua o pensamento das avestruzes: «posso, assim, me comportar como se ele não existisse, desde que continue com a cabeça enterrada na areia». tudo estaria bem se o leão não fosse de verdade. e o resultado é que a avestruz acaba na barriga do leão... mas, como disse antes, eu não acredito que as avestruzes sejam assim tão estúpidas. estupidez igual somente encontrei em exemplares da espécie homo sapiens, a que pertencemos. acham que, não percebendo, a coisa não existe. o leão existe mesmo quando fechamos os olhos...
rubem alves | ostra feliz não faz pérola - pg 54.

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de vampiros

eles comem tudo, eles comem tudo
eles comem tudo e não deixam nada
eles comem tudo, eles comem tudo
eles comem tudo e não deixam nada

são os mordomos do universo todo
senhores à força mandadores sem lei
enchem as tulhas bebem vinho novo
dançam a ronda no pinhal do rei

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(josé afonso, 1963)

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de tubarões 

se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas no mar para os peixes pequenos, com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais quanto animais. cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis. se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente lhe fariam uma atadura, a fim de que não morresse antes do tempo.

para que os peixinhos não ficassem tristes e melancólicos, dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres têm gosto melhor que os tristonhos. naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas: nessas aulas, os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. a aula principal seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. seriam ensinados de que o ato mais grandioso e belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando estes dizem que velam pelo seu belo futuro. se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. antes de tudo, deveriam guardar-se de qualquer inclinação baixa, materialista e marxista, e denunciar imediatamente se qualquer um manifestasse essas inclinações.

se os tubarões fossem homens, haveria entre eles também uma arte. haveria belos quadros nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores, e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio. a música seria tão bela que os peixinhos, sob seus acordes, entrariam em massa para as goelas dos tubarões, sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos.

haveria também uma religião. ela ensinaria que só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.

ademais, acabaria a igualdade entre os peixinhos. alguns obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores. isso seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim bocados maiores para devorar, e os peixinhos encarregados dos cargos zelariam pela ordem para que os outros chegassem a ser professores, oficiais ou engenheiros de caixas.

em suma, se os tubarões fossem homens, haveria civilização no mar. 
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(bertolt brecht, anos 50)
provocações: antonio abujamra
tv cultura

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e o campo grande?

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se considerarmos «campo» como qualquer área de terra firme (biomas de campo, pastagens ou plantações), a grande maioria dessas superfícies já esteve debaixo d'água em algum momento do passado geológico.

aqui estão os dois motivos principais que explicam por que o campo já foi mar:
• tectônica de placas e deriva continental: a crosta da terra se move constantemente. áreas que hoje são continentes e montanhas ficavam no fundo de oceanos primitivos há centenas de milhões de anos. forças tectônicas colossais empurraram essas terras para cima, fazendo o mar recuar e dando origem aos continentes atuais.

• variações do nível do mar (transgressões e regressões): o clima da terra passou por ciclos extremos de aquecimento e eras glaciais. quando o planeta estava muito quente, as geleiras derretiam e o nível do mar subia drasticamente, inundando vastas planícies continentais (transgressão marinha). quando o planeta esfriava, a água congelava nos polos e o nível do mar recuava (regressão marinha), expondo a terra seca que viria a se tornar campos e florestas.

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evidências no brasil
o brasil é um excelente laboratório para observar isso. dois exemplos marcantes são:
• o sertão e a caatinga: na região do nordeste (como na chapada do araripe), cientistas encontram frequentemente fósseis perfeitamente preservados de peixes, tubarões e répteis marinhos do período cretáceo. onde hoje é um clima semiárido, antes existia um mar raso.

• os pampas gaúchos: grandes extensões de campos no rio grande do sul possuem rochas sedimentares que guardam registros de antigos mares e lagos pré-históricos que cobriam a região antes do soerguimento definitivo da terra.

portanto, a famosa frase popular «o sertão vai virar mar» é, na verdade, uma descrição do que a própria geologia mostra que já aconteceu ao contrário no passado: o mar virou campo.
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de volta aos tubarões

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muito mais antigos do que a maioria imagina, os tubarões são verdadeiros sobreviventes da terra. a linhagem deles surgiu há cerca de 450 milhões de anos — o que significa que já patrulhavam o planeta muito antes dos dinossauros pensarem em existir.
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por falar em dinossauros

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menos de cinquenta letras
esse é o tamanho de um dos clássicos de augusto monterroso
que é também o microconto mais famoso do mundo:
«quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.»

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los amigos del barrio pueden desaparecer
los cantores de radio pueden desaparecer
los que están en los diarios pueden desaparecer
la persona que amas puede desaparecer.
los que están en el aire pueden desaparecer en el aire
los que están en la calle pueden desaparecer en la calle.
los amigos del barrio pueden desaparecer,
pero los dinosaurios van a desaparecer.

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(charly garcía, 1983)
[con letra]

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de volta aos tubarões

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como os tubarões são peixes cartilaginosos (não possuem ossos de verdade, apenas cartilagem), a maior parte do corpo deles se decompõe rápido demais para virar fóssil. no entanto, os seus dentes e espinhos dorsais são extremamente duros e ricos em minerais, sendo as principais evidências reais de que esses predadores patrulhavam as águas que um dia cobriram o nosso atual «campo». 

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el campo grande y solo
viene llorando
solo y difunto
viene llorando
solo y difunto
solo y desnudo
viene llorando

con verdes y horizontes
verde llorando
con silencios de verde
desconsolado
con verdes y horizontes
verde llorando
con silencios de verde
desconsolado

el campo grande y solo
con sus candados
solos con solos
por todos lados
cielo en tormenta
como testigos
no se lamenta

y aunque verde muriendo
verde esperando
que lo pueblen los hombres
de buena mano
y aunque verde muriendo
verde esperando
que lo pueblen los hombres
de buena mano

el campo grande y solo
va tristemente
sin ver que el paria
su grito enciende
sin ver que el paria
su grito enciende
sin ver que el paria
su grito enciende
sin ver que el paria
su grito enciende
«es necesaria
es necesaria
la reforma agraria»

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(r. lena, b. lópez,  p. guerra, 1999)

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas 

sexta-feira, 30 de outubro de 2026


pedaços de um caderno manchado de vinho

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folha – existia o mito de que você bebia muito. você diminuiu? 
chico buarque – não era mito não, eu bebia muito. bebia todo dia e bebia coisas fortes. e fui parando, comecei a enjoar, não é nenhum mérito meu não. acho que meu organismo é que foi pedindo água. então hoje eu só tomo vinho, cerveja, e nem todo dia.

folha – droga você nunca experimentou? 
chico buarque – já experimentei drogas também, experimentei e gostei. mas parei com as drogas ilegais. cocaína, nunca mais. na verdade as drogas nunca foram um problema sério para mim, mas poderiam vir a ser, porque eu tenho uma certa propensão ao vício. sou uma pessoa que cria hábitos; se eu fosse supersticioso seria impossível de tratar. tenho facilidade para criar manias e luto contra isso. a única droga que realmente me afeta hoje é o cigarro, sou um fumante compulsivo, então procuro me disciplinar. isso poderia ter acontecido em relação ao álcool, ter virado um alcoólatra, e talvez tenha chegado perto. consegui, por algum motivo que não é tanto disciplina, poder beber socialmente, de vez em quando. mas ainda assim, se eu entro numa temporada de shows, tenho que tomar vinho.  
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vinicius de moraes, o poeta da paixão
ao longo de quase toda a vida, vinicius teve como médico preferido o futuro escritor pedro nava. a relação entre ambos misturou sempre doses sensatas de trato profissional e amizade profunda. um episódio é emblemático: uma tarde, o poeta lhe telefona com voz ansiosa: «preciso vê-lo com urgência», implora. «que tal nos encontrarmos por dez minutos na esquina da paula freitas com a barata ribeiro?», sugere. 

quando o médico desembarca do táxi, vinicius já está postado na esquina, com ar apreensivo. entram num bar e nava pede dois cafés. «afinal, o que você está sentindo?», pergunta. «esse é o problema, nava. estou muito preocupado porque há muito tempo não me sinto tão bem.» o médico, confuso, engole em seco. temendo não ter entendido direito, insiste: «é só isso?» «e você acha pouco? para mim, isso é o prenúncio de alguma coisa muito ruim. por favor, preciso que você me sugira alguma coisa». nava dá outro gole no café. «alguma coisa de que tipo?» vinicius é definitivo: «alguma coisa que impeça que eu fique doente.» 

vinicius, um médico frustrado que sempre se dedicou à arte perigosa da automedicação, cultivou desde cedo uma relação bastante particular com seus médicos. nava se acostumou aos telefonemas em que ele, ao invés de expor dúvidas e questões próprias de um paciente, invertia as posições e simplesmente anunciava: «não estou nada bem. quero ser internado imediatamente.» nessas horas, já trazia o diagnóstico e o método de tratamento, e o médico servia apenas como avalista. muitas vezes, no entanto, vinicius tinha alguma razão em seu pedido. sabia quando estava bebendo demais e, num movimento de autodefesa, sabia também que só com uma internação poria um freio naquilo que, sozinho, não conseguiria. mudava-se, então, de malas e bagagens, para a clínica são vicente, na gávea.
josé castello, p. 404 e 405.
  
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vinho de mim mesmo
minha primeira internação por alcoolismo foi em 1992, eu tinha apenas 27 anos e já havia contraído hepatite duas vezes, uma delas diagnosticada como hepatite alcoólica aguda. na época, um médico amigo meu me disse que, seguindo naquela levada, eu morreria de cirrose hepática antes dos 30. fiquei um mês numa clínica de reabilitação, fazendo tratamento de desintoxicação, atendido pelos melhores médicos, psicólogos e psiquiatras e, mesmo com tudo isso, poucos dias após receber alta, eu recaí. o(s) motivo(s)? não sei. mas devia tê-lo(s). se não o(s) tinha, o(s) inventei. imaginação e criatividade nunca me faltaram. a verdade é que, quando um não quer, não adianta todos insistirem. desiste! nem mesmo deus conseguiria.

depois dessa, tive mais três internações, e nada, tudo como dantes no quartel de abrantes. até que um dia, conheci a vivi, e tudo mudou. qual o segredo? não tem segredo, é tudo muito claro: ela nunca fez força pra eu mudar, ela me amava como eu sou. que seja infinito enquanto dure — quando deixamos de nos amar, o que era infinito, findou.

traduzindo: «eu sou assim / quem quiser gostar de mim / eu sou assim»

pulando de paulinho da viola para silvio rodríguez, uma das músicas dele que eu mais escuto — e amo de paixão — é de la ausencia y de ti, velia. ela foi inspirada em uma mexicana que foi um dos grandes amores de silvio.

no auge do meu alccolismo eu escutava muito essa canção. hoje, mesmo puxando pela memória, não me lembro em que ou em quem eu pensava.

lembrei de velia agora, pois cruzei há pouco no face com uma matéria que conta a história da canção. nela, foi feita a transcrição de uma carta de silvio para uma de suas suas grandes paixões da época. havia outras. sempre há. no mundo das paixões é assim e sempre será... ojalá...
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havana, abril de 1969
velia,

hoje é a primeira noite que não te vejo. quando acordei você já havia saído, já estava em sua casa. isso me deu uma sensação estranha. foi como perder você em um sonho. eu tinha ido dormir tarde, muito tarde; parece que queria enfrentar a noite, ou algo assim. de qualquer forma, foi difícil, você sabe.

sua ausência não me deprime. mas não posso lembrar de você sem pensar no quanto você se sente desconfortável nessa sociedade que está desmoronando, nessa caricatura de mundo que nos tocou viver. sei que você não se sente bem onde está. isso me incomoda, eu gostaria de estar aí, como num conto de fadas, de capacete e tudo para te resgatar, ou viver acordado, não dormir nunca mais, você sabe.

agora o que importa é que você me receba em cada palavra, em cada frase; que me sinta ao seu lado, junto de você, presente nos poucos sorrisos verdadeiros e em todas as adversidades.

o importante é que você nunca esqueça o que viu aqui, que não se deixe hipnotizar pela rotina daí, que cada armadilha do meio em que vive e cada preconceito se tornem um incentivo para a sua rebeldia.

você não está sozinha. você tem o meu país, a memória dele como uma possibilidade real de construir um mundo mais justo e fraterno.

você tem a tenacidade e a esperança de todos os jovens que conheceu aqui, as canções grandiosas de vicente e noel, as denúncias de pablo, os ruídos da vida de pancho e yoyi e todas as noites em que pudemos ver o nascer do sol sorrindo.

você tem a possibilidade de ir além das minhas palavras. você tem a mim, que continuo te buscando.

não desista de querer vir, por favor.
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ahora sólo me queda
buscarme de amante
la respiración,
no mirar a los mapas,
seguir en mí mismo,
no andar ciertas calles,
olvidar que fue mío
una vez cierto libro
o hacer la canción
y decirte que todo está igual:
la ciudad, los amigos y el mar,
esperando por ti.

hoy quisiera ser viejo
y muy sabio
y poderte decir
lo que aquí
no he podido decirte:
hablar como un árbol
con mi sombra hacia ti,
como un libro salvado del mar,
como un muerto que aprende a besar
para ti,
para ti,
para ti.

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(silvio rodríguez, 1969)
auditorio municipal villa de vallecas
concierto de barrio en madrid
4 de mayo de 2016

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hoje, depois de cair dez vezes e me levantar vinte, quando escuto de la ausencia y de ti, não penso em velia, penso em rosana, a seguinte.
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outra música de silvio que eu amo de paixão — e acho que pouca gente conhece — é rosana, lançada no álbum «descartes», um trabalho feito só com faixas que tinham ficado de fora de discos anteriores.

o nome rosana vem do latim roseanus e significa, de certa forma, «aquela que é como a rosa». evoca uma mulher que, por temperamento, guarda seus segredos e protege sua intimidade. e é justamente esse mistério que desperta a curiosidade de quem está ao seu redor.

mas, para silvio, rosana não é uma pessoa de carne e os-so. é um ser imaginário. não tem a ver, necessariamente, com alguém de sua vida; pode ser qualquer coisa — uma ilha, por exemplo. e por que não a ilha de cuba, ou a nova ilha da utopia? o próprio silvio diz que ela lhe parece «uma música completamente curva, para não dizer ambígua, que é um termo meio mal visto no mundo — politicamente correto — da retidão. se eu contasse por que a fiz, estaria mentindo, exceto pela homenagem ao velho [francisco] repilado, algo que nem o mais reto, mais «politicamente correto» dos seres humanos questionaria. mas a verdade é que não sei por que a fiz, embora sinta que ela fala de coisas no feminino, como a incompreensão, a esperança, a utopia e a solidão».

entendedores entenderão, eu acho.
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a compay segundo

paris, 1997

ya te estoy recordando, rosana,
aunque no te hayas ido.
el lucero que brilla mañana
es lo que te he querido.
ya te estoy recordando, elegida,
como un reo en la sombra
resucita el color de la vida,
lo acaricia y lo nombra.

ni un centavo te cuesta este beso,
pues mi alma lo paga.
sólo espero lo mismo por eso,
hasta el fin de la saga.
cuando escriban la vida los buenos,
al final vencedores,
se sabrá que no usamos veneno
como aroma de flores.

brotará de la sangre ternura,
inocencia y espejos
donde irán a correr travesuras
nuevos niños y viejos.
servirá de señal cada huella
de las horas felices.
se sabrá tanto de las estrellas
como de cicatrices.

y el camino que emprendas, rosana,
será mejor a veces,
porque en otros momentos, cubana,
tú llorarás con creces.
ya te vas. yo me quedo y no atino
a saber qué ha pasado.
sólo sé que, por causa o destino,
ya no estás a mi lado.

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(silvio rodríguez, 1997)
en vivo argentina
com depoimento de silvio

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outra música de silvio rodríguez que eu amo de paixão — e que é pouco conhecida — é judith, faixa que faz parte do álbum duplo érase que se era, lançado em 2006.

é uma canção de 1969, composta um pouco antes de silvio embarcar no navio pesqueiro playa girón — provavelmente no final de julho ou começo de agosto daquele ano.

a música nasceu para judith lewis, uma jovem pintora norte-americana que passou uma temporada em cuba e que, em algum momento, teve que retornar ao seu país. judith tinha um talento especial para as artes e morou em cuba em 1969, época em que seu pai, o antropólogo oscar lewis, trabalhava na ilha. silvio, recém-saído da adolescência, pedia insistentemente a ela que cuidasse de suas estrelas.
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no puedo dejarte de ver
arañando el silencio con tus ojos,
tratando de decir algo que las palabras
nunca hubieran dicho mejor.
aquella mirada era el resumen
de la noche posado en tus ojos,
con su lluvia, su viento y tu miedo al mar
de aquel sueño que te conté.

no puedo dejarte de ver
describiendo una estrella descubierta por mí
en tu erótica constelación, que no cabe
en los mapas del cielo.
tu mano, dibujando en el aire,
era capaz de ponerle color
al espacio vacío, que se llenaba
con la luz de la estrella brillante.

cuida bien tus estrellas, mujer,
cuida bien tus estrellas, mujer,
cuida bien tus estrellas, y que nunca las pierdas.

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(silvio rodríguez, 1969)
(com letra e imagens)

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e ojalá?

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com a palavra, o autor:
«eu compus ojalá para uma mulher chamada emilia sánchez, que foi, sem dúvida, o meu primeiro amor. a gente se conheceu quando eu tinha 18 anos e estava no exército, fazendo o serviço militar. foi o meu primeiro amor importante, daqueles que ensinam coisas para a gente. ela era muito mais evoluída do que eu, muito mais inteligente e culta. foi ela quem me apresentou césar vallejo, por exemplo.

depois, a vida nos separou. ela estava cursando medicina e, bem... a coisa não andou, não deu certo. nem sei por que ela foi estudar medicina, uma loucura dela, porque na verdade a praia dela sempre foi a literatura. mais tarde ela acabou mudando para letras e voltou para camagüey, a terra natal dela, para estudar. eu fiquei sozinho aqui em havana, completamente desolado.

os anos se passaram, mas a lembrança daquele amor tão bonito, tão produtivo, tão útil — veja bem, útil no sentido de enriquecedor, que soma na vida da gente, não algo utilitário —, aquela ideia virou quase uma obsessão para mim. e como foi um amor frustrado, interrompido pelas circunstâncias da vida, e não porque o sentimento tinha acabado, ela virou uma espécie de fantasma. por isso compus essa música, talvez num momento de delírio, de arrebatamento, com um sentimento meio desmedido: ojalá isso, ojalá aquilo...»
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ojalá que las hojas no te toquen el cuerpo cuando caigan
para que no las puedas convertir en cristal
ojalá que la lluvia deje de ser milagro
que baja por tu cuerpo
ojalá que la luna pueda salir sin ti
ojalá que la tierra no te bese los pasos

ojalá se te acabe la mirada constante
la palabra precisa la sonrisa perfecta
ojalá pase algo que te borre de pronto
una luz cegadora un disparo de nieve
ojalá por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos en todas las visiones
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones

ojalá que la aurora no dé gritos que caigan en mi espalda
ojalá que tu nombre se le olvide a esa voz
ojalá las paredes no retengan tu ruido de camino cansado
ojalá que el deseo se vaya tras de ti
a tu viejo gobierno de difuntos y flores

ojalá se te acabe la mirada constante
la palabra precisa la sonrisa perfecta
ojalá pase algo que te borre de pronto
una luz cegadora un disparo de nieve
ojalá por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos en todas las visiones
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones.

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(silvio rodríguez 1969)
(en vivo en argentina)

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notas

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emilia sánchez, musa de silvio rodríguez em várias canções, atualmente é professora de filologia na universidade de camagüey.
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filologia é a ciência que tem como objetivo estudar uma língua através de textos escritos.

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 fotos:

chapada dos veadeiros (2007) , são luís (2008), pelotas (2009)

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

 

folhas de relva
(bom dia graminha)

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«quase todo mundo nasce gênio e é enterrado imbecil.»

bukowski

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«eu cruzei com uma menina, muito nova, devia ter uns dois anos, não mais que dois anos, que vinha brincando no sentido contrário e ela vinha cumprimentando a graminha, as plantinhas, dizia: bom dia graminha!
nessa idade somos todos pagãos, somos todos poetas, depois o mundo se ocupa de apequenar nossa alma e é isso que chamamos de crescimento, desenvolvimento.»
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eduardo galeano (sangue latino)
(legendado em português)

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livro aberto

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ato primeiro: ver
walt whitman assim descreveu suas primeiras experiências na escola: «ao começar meus estudos me agradou tanto o passo inicial, a simples conscientização dos fatos, as formas, o poder de movimento, o mais pequeno inseto ou animal, os sentidos, o dom de ver, o amor - o passo inicial, torno a dizer, me assustou tanto, e me agradou tanto, que não foi fácil para mim passar e não foi fácil seguir adiante, pois eu teria querido ficar ali flanando o tempo todo, cantando aquilo em cânticos extasiados...».
(rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 136)

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ato segundo: professores medíocres
«de repente senti uma gratidão inesperada pelos meus professores medíocres. os bons professores, eu os acompanhava encantado. surfava nas suas ideias. mas os professores medíocres me irritavam tanto que eu me vi forçado a pensar minhas próprias ideias.»
(rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 132)

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ato terceiro: desejo e inteligência
«as crianças gostam de aprender. o que não quer dizer que elas gostem das ideias. as escolas são, frequentemente, lugares onde elas são obrigadas a aprender, sob pena de punições, aquilo que elas não querem aprender. e aquilo que as escolas tentam ensinar contra a nossa vontade é rapidamente esquecido. sabedoria de um velho ditado caipira: «é fácil levar a égua até o meio do ribeirão. o difícil é obrigar a égua a beber a água...». aprendemos o que desejamos aprender. é o desejo que desperta em nós a inteligência. o filósofo aristóteles disse: «todos os homens têm, naturally, o desejo de aprender». ele estava errado. vou corrigi-lo: «todos os homens, enquanto crianças, têm naturalmente o desejo de aprender. o que dá às crianças desejo de aprender? primeiro, é a curiosidade. as crianças acham as coisas do mundo muito interessantes e querem saber por que elas são do jeito como são. pra que serve isso? pra nada. apenas pelo prazer: matar a curiosidade.»
(rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 129)

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minha vida não é um filme, é um livro aberto

«rapaz, você precisa estudar para ser alguém na vida!».
quem não estuda não é alguém?
se não é alguém, é quem? ninguém?
eu não me sentia um ninguém
eu só não sabia, ainda, que trazia em mim
multidões
(de marias, josés e joões).
enfim
quando eu era mais jovem ouvi muito essa frase
e hoje ouço os antigamente jovens, hoje velhos,
dizendo-a para os mais jovens
que amanhã serão mais velhos
e a dirão para os mais jovens
e assim gira a roda
em torno de si
apontando pra lá
mas sem sair daqui

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como nossos pais
eu nunca vou saber o que é ser pai e os da minha geração e os da geração dos meus pais, via de regra, esquecem que já foram filhos. por mim, tá tudo bem. nunca quis ser pai. todavia confesso, talvez tivesse gostado de ser avô.
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a vida não é filme?
um dos filmes mais bonitos e comoventes que eu vi, em toda minha vida, foi cinema paradiso. quase todas as pessoas que conheço choraram em algumas partes do filme. eu chorei em quase todas. a cena que provocou lágrimas no maior número de espectadores é aquela na qual o velho, que é o pai espiritual e sentimental do rapaz, que lhe ensinou quase tudo o que sabia da vida até então, diz a ele que se prepare para partir do vilarejo rumo à cidade grande: «vá e não olhe para trás; não volte nem mesmo se eu te chamar». o pai manda embora o filho adorado e «ordena» a ele que vá em busca do seu caminho, do seu destino, dos seus ideais...
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no direction home

ando contra o vento
e de peito aberto
minha vida não é um filme
é um livro aberto

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o mundo é dos espertos
(e continuará sendo)
na minha estadia por alguns dias em são luís do maranhão, minha mãe (82 anos) me disse que, minha descrença (em tudo e em todos) é coisa de «velho». minha resposta foi uma pergunta: nossos filhos, hoje em dia, em sua grande maioria, são educados para serem pragmáticos, espertos e vencedores ou idealistas, sonhadores e perdedores? fez-se silêncio. então, pensando em dom quixote e nos jovens que virão, escrevi:
o novo nasce velho
o velho morre novo

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o mundo é um moinho

à primeira vista, pode parecer estranho, mas este é um texto igual aos outros: trata da dor da impossibilidade de reação ou como a sociedade capitalista espreme-nos em agoniante apatia.

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o espremedor de culhões
(por charles bukowski)
danforth pendurou os corpos no varal, um a um, depois de passarem pelo espremedor. bagley, sentado perto dos telefones, pergunta:

— quantos tem?
— 19. pelo jeito o dia vai ser bom.
— é, pô, tá com cara. quantos colocamos ontem?
— 14.
— legal, legal. continuando assim, vai ser bom mesmo. o meu grilo é que a coisa no vietnã é bem capaz de parar — disse bagley.
— deixa de ser bobo, tem muita gente lucrando e dependendo dessa guerra.
— mas a conferência de paz em paris...
— você hoje não está bom, bag. quem é que não sabe que eles passam o dia inteiro sentados, dando risada, recebendo grana pra não fazer nada e depois indo à noite a tudo quanto é boate? essa cambada tá com a vida ganha. a vontade que têm de terminar a conferência de paz é igual à nossa de liquidar com a guerra. tá todo mundo engordando, sem se arranhar. uma verdadeira beleza e se encontrarem uma forma de chegar por acaso a um acordo, sempre vão aparecer outras. a terra tá cheia de lugares prontos pra explodir.
— é, acho que vivo me preocupando à toa.

um dos três telefones da mesa tocou. bagley atende...
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– herman? – chama bagley.
– sim, chefe.
– o que é que está sentindo? ou melhor, como se sente?
– não sinto absolutamente nada, chefe.
– você gosta de tiras?
– tiras não, chefe – polícias. eles são vítimas da nossa maldade, embora às vezes nos protejam atirando, prendendo, espancando e multando a gente. não existe essa história de que não há tira que preste; aliás, polícia, desculpe. já imaginou se não houvesse polícia? a gente teria que impor a lei com as nossas próprias mãos.
– e aí, o que ia acontecer?
– nunca parei pra pensar, chefe.
– ótimo. acredita em deus?
– ah, claro que sim, chefe. em deus, pátria, família, tradição. e no trabalho honesto.
– puta que pariu!
– como disse, chefe?
– não. nada. agora, escuta aqui, você gosta de fazer serão?
– ah, claro que sim, chefe! gostaria de trabalhar 7 dias por semana, se possível. e de ter 2 empregos se pudesse.
– por quê?
– por causa do dinheiro, chefe. pra comprar tv a cores, carro novo, dar entrada pra casa própria, pijama de seda, 2 cachorros, barbeador elétrico, seguro de vida, assistência médica, ah, tudo quanto é tipo de seguro, educação escolar para os meus filhos, se eu tiver, porta automática na garagem, roupas finas, sapatos de 45 dólares, câmeras, relógio de pulso, anéis, lavadora automática, geladeira, poltronas e camas novas, forração de carpete em todas as peças, donativos pra igreja, aquecimento central e…
– tá legal. chega. agora, quando é que pretende usar todos esses troços?
– não estou entendendo, chefe.
– quero dizer, se você trabalhar dia e noite e ainda fizer serão, que tempo te sobra pra aproveitar todo esse luxo?
– ah, esse dia há de chegar, chefe, ele há de chegar!
– e não acha que teus filhos um dia hão de crescer e julgar que você foi um trouxa?
– depois de ter me esfolado vivo por causa deles, chefe? claro que não!
– maravilha. agora, só mais algumas perguntas.
– pois não, chefe.
– não acha que toda essa escravidão permanente é prejudicial pra saúde e pro espírito, pra alma, se quiser…?
– ah, pô, se eu não ficasse trabalhando o tempo todo, ia acabar sentado por aí, bebendo, pintando quadros a óleo, fodendo, indo ao circo ou no parque pra ver os patos. coisas desse gênero.
– não acha que ficar sentado no parque, olhando para os patos, pode ser muito agradável?
– mas desse jeito eu não ganho dinheiro, chefe.
– tá legal, vá se foder.
– o que, chefe?
– não, nada. já sei de tudo o que precisava. ok, dan, este aqui tá no ponto. parabéns. dá o contrato, pega a assinatura dele, a letra é tão miúda que nem vai conseguir ler. acha que somos gente boa. manda correndo lá no endereço. o pessoal vai ficar encantado. há meses que não arrumo melhor contador.

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– barney, quais são os teus ídolos?
– bom, deixa eu ver... cleaver, dillinger, che, malcolm x., gandhi, jersey joe walcott, “grandma” barker, fidel castro, van gogh, françois villon, hemingway.
danforth pega barney anderson, bate, torce e espreme, sem fazer caso dos gritos, 3 vezes no espremedor, e depois traz de volta.
– barney? – chama bagley.
– pronto, chefe!
– quais são os teus ídolos?
– george washington, bob hope e mae west. richard nixon, os ossos do clark gable e toda a gente que vi na disneylândia. joe louis, dinah shore, frank sinatra, babe ruth, os boinas verdes, porra, todo o exército e a marinha dos estados unidos e, principalmente, os fuzileiros navais, e até o tesouro nacional, a cia, o fbi, a united fruit, a patrulha rodoviária, o maldito departamento de polícia de los angeles em peso, e os tiras locais também. aliás, disse “tiras” por engano, quando queria dizer “polícias”. depois tem a marlene dietrich, com aquela abertura no lado do vestido até em cima na coxa, ela já deve andar perto dos 70, não é?, dançando lá em las vegas, fiquei de pau duro, que mulher maravilhosa. a boa vida que se leva aqui na américa e a estabilidade do dólar são capazes de manter eternamente a juventude da gente, entendeu?
– dan?
– que é, bag?
– este aqui tá mais que no ponto! mesmo pra um cara pouco sensível como eu, deu pra ficar com ânsia de vômito. faz ele assinar o contratinho dele e manda lá no endereço. eles vão adorar. santo deus, as coisas que a gente tem que fazer pra sobreviver! às vezes chego a odiar o próprio trabalho que faço. o que não convém, não é, dan?
(bukowski, crônica do amor louco, pp. 67-80)

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o espremedor de culhões era uma máquina onde uma pessoa entrava com suas convicções e saía como um alienado. um termo muito usado na contracultura para qualificar as pessoas que apoiavam a guerra do vietnã. o sujeito entra gritando justiça e sai filiado ao neoliberalismo. muitas pessoas que conhecem este conto falavam isto na década de 90 para sacanear os reaças que votaram em collor e fhc.
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talvez seja difícil de entender, mas bukowski pode nos explicar. vejamos a atividade empresarial da AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA: «executar a formatação necessária do indivíduo para sua funcionalização adequada ao sistema econômico». ou seja, cabe à AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA retirar, moer, dilacerar, destruir e corromper qualquer esperança, manifesto ou demonstração de vontade individual ou coletiva que atente contra os requisitos necessários ao mundo como ele é — isto é, ao mercado.

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falando em mercado, lembrei de um pássaro de mesma plumagem:
«a cultura dominante que os grandes meios de comunicação irradiam em escala universal nos convida a confundir o mundo com um supermercado ou uma pista de corrida, onde o próximo pode ser uma mercadoria ou um competidor, mas jamais um irmão.»
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depois de lermos o conto de bukowski na íntegra, chegaremos à conclusão de que a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA tem seus clientes já bem definidos. enquanto presos às cadeiras de madeira e o fedor de esterco lhes entope o nariz, o nobre funcionário lhe pergunta: «quais são seus heróis?». em caso de resposta como: lamarca, mariguella, che, fidel, malcolm x e quantos mais se podem citar... inicia-se o processo de «espremer os culhões». repete-se a pergunta... analisa-se os olhos, a expressão facial, a postura... enquanto se mantiver o peito estufado, martela-se mais um dedo! o brilho nos olhos é castigado com um bom afogamento em água suja! um sorriso — que deus lhe proteja — pode custar a fertilidade, quiçá a crença no amor ao próximo.
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em outras palavras, a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA preza pelos olhos esbranquiçados, postura curvada, andar trôpego, bom comportamento, obediência hierárquica e pouca ou nenhuma atitude na fala.
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não farei meias palavras, minha intenção aqui é deixar bem claro que a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA possui algumas filiais no mundo. aliás, deixe-me reformular. não se tratam de filiais, acredito que sejam as matrizes mesmo.
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aqueles que foram espremidos são os novos espremedores, as AGÊNCIAS SATISFAÇÃO GARANTIDA ganham filiais e matrizes, e continuam a espremer e espremer.
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em outras palavras, a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA preza pelos olhos esbranquiçados, postura curvada, andar trôpego, bom comportamento, obediência hierárquica e pouca ou nenhuma atitude na fala.
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não farei meias palavras. minha intenção aqui é deixar bem claro que a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA possui algumas filiais no mundo. aliás, deixe-me reformular. não se tratam de filiais; acredito que sejam as matrizes mesmo.
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aqueles que foram espremidos são os novos espremedores. as AGÊNCIAS SATISFAÇÃO GARANTIDA ganham filiais e matrizes, e continuam a espremer e espremer.
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quanto a mim, podem me espremer à vontade, que não mudo de opinião. os tempos mudaram, mas eu continuo o mesmo. meus sonhos não envelheceram. continuo querendo com 61, o que eu queria quando tinha 21.
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enquanto escrevo estas palavras alguém grita:
— chegou mais um!

da AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA alguém ouviu:
— manda para o espremedor!

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antes do fim
voltemos ao começo
do dia
quando após republicar o post de ontem
recebi a seguinte mensagem:
«bom dia enilton! nunca pare meu amigo. sigamos em frente. grande abraço e TMJ!»
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ensacado

moinhos não movem ventos
partidas não são só lenços
saudades não são soluços
nem solução pra espera
nem salvação dos pecados
tristezas não lavam pratos
resguardam restos, desejos
flores e frutos do mar
por isso muito cuidado
queime de febre e não dobre
não quebre nunca, não morra
não corra atrás do passado
nem tente o ponto final
aguente firme a picada
da abelha, daquela velha
melada melancolia
segure a barra, requente
o caldo da sopa fria
vá cultivando a semente
até que um dia arrebente o saco cheio de sol

(cátia de frança / sérgio natureza,1979)

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#casadosaedos
#américas

quarta-feira, 28 de outubro de 2026


os dinossauros

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o menino perdido na intempérie

parece que já não há lugar para as revoluções, a não ser nas vitrines do museu arqueológico, não há lugar para a esquerda, exceto para a esquerda arrependida que aceita sentar-se à direita dos banqueiros. estamos todos convidados ao enterro mundial do socialismo. o cortejo fúnebre abarca, segundo dizem, a humanidade inteira.

eu confesso que não creio nisso. estes funerais equivocaram-se de morto.

 eduardo galeano | nós dizemos não, p. 88 - maio de 1990.

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o «exército» de janones

por valter pomar
uma pessoa física reuniu, sob seu comando individual, sem controle coletivo algum, uma legião de 3 a 5 milhões de seguidores.

conseguiu isso, em grande medida, exatamente porque havia milhões de pessoas querendo contribuir com a campanha e ele, habilmente, ofereceu um canal para isso.

alguém que por sinal cometeu a estupidez de dizer que a campanha nas ruas não tinha a menor importância, para mais recentemente admitir de maneira torta (via a proposta de «panelaço») que é fundamental agir fora das redes.

para piorar a situação, muita gente acha que o tal «exército» está submetido a algum tipo de controle democrático. pensam que fulano validou, que sicrano controla, que o autoproclamado «general» é o porta-voz informal de decisões coletivas.

como a coordenação da campanha e a direção do partido pelo jeito preferiram lavar as mãos, o jeito é torcer para que dê certo ou, pelo menos, que não cause muito dano.
num mundo ideal, onde as instâncias coletivas funcionassem adequadamente, essas pessoas estariam engajadas numa iniciativa sob controle democrático delas mesmas. e não sob a direção de alguém que propõe explicitamente não pensar, obedecer, agir como robô.

mas a experiência pretérita com este tipo de iniciativa, sem nenhum tipo de controle coletivo, é que, se ainda não deu errado, é porque ainda não terminou.

santo leminski, orai por nós.
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«se bem que a patroa falava “esse cara não presta” “tem cara de ser mau marido, de não ter valor” se bem que a patroa falava “esse cara não presta” “tem cara de anjo, mas nunca que ele me enganou”»

gonzaguinha

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distraídos venceremos

por enilton grill
e se o general janones determinasse que cantassem hinos para pneus...
e se o general janones mandasse que se pendurassem no para-brisa de um caminhão...
e se o general janones ordenasse que se ajoelhassem e rezassem em frente a quartéis...
e se o general janones prescrevesse que ateassem fogo em si próprios...
e se...
quem, em meio à multidão, teria coragem de dizer não?
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até que ele era um rapaz muito bem educado
até que ele tinha um bom coração
até que ele era um rapaz muito bem comportado
até que ele era um poço de boa intenção

não creio que ele fosse complexado
meio calado, talvez esquisito, mas batalhador
eu creio que ele era muito inteligente
eficiente, honesto, honrado e trabalhador

por mais de dez anos foi meu excelente vizinho
subia comigo às vezes no elevador
por certo sabia direito do seu cantinho
do escuro, tranquilo, com jeito de sonhador

até que hoje à noite pegando e relendo o jornal
a foto no canto da esquerda me despertou
matou a mulher e as crianças a golpes de pau
sem um bilhete, sem explicações, se suicidou

se bem que a patroa falava «esse cara não presta»
«tem cara de ser mau marido, de não ter valor»
se bem que a patroa falava «esse cara não presta»
«tem cara de anjo, mas nunca que ele me enganou»

até que ele era um rapaz muito bem comportado
mas, não, eu nem sei o seu nome, ele nunca falou
um preto sereno com jeito de sonhador
mas, não, eu nem sei o seu nome, ele nunca falou

👇

(gonzaguinha, 1973)

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e a foto com a camiseta amarela?

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pois é. não falei do «exército» de janones durante a campanha, pois penso que o silêncio em determinados momentos é mais eficaz que as palavras, sobretudo aquelas que na maioria das vezes são mal-entendidas e mal-interpretadas. quanto à camiseta amarela, olhei, gostei e fiz. fiz porque quis. simples assim.  
outra coisa que fiz, e fiz porque quis, foi um américas na rádiocom. costurei depoimentos de companheiros e camaradas enaltecendo as qualidades de lula — um esforço solitário que me custou três dias e três noites de trabalho sem dormir, com a coluna reclamando, queimando, latejando. ontem fui informado de que o programa atingiu «inacreditáveis» vinte visualizações. vinte. provando que, infelizmente, apesar do meu sacrifício até físico, minha contribuição real para a vitória foi zero.

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eu poderia
e talvez devesse
parar no ponto acima
pois
«com frequência escuto elogiar a brevidade e eu mesmo fico feliz quando ouço repetir que o bom, se breve, é duas vezes bom»
mas já que a minha relevância digital atingiu «inacreditáveis» 20 visualizações 
vou me dar o direito de lembrá-los de um miniconto
menos de cinquenta letras
esse é o tamanho de um dos clássicos de augusto monterroso
que é também o microconto mais famoso do mundo:
«quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.»

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los amigos del barrio pueden desaparecer
los cantores de radio pueden desaparecer
los que están en los diarios pueden desaparecer
la persona que amas puede desaparecer.
los que están en el aire pueden desaparecer en el aire
los que están en la calle pueden desaparecer en la calle.
los amigos del barrio pueden desaparecer,
pero los dinosaurios van a desaparecer.

(charly garcía, 1983)
[con letra]

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