quinta-feira, 6 de agosto de 2026

 

poema em linha reta

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quanto mais escrevo
menos leitores tenho
quanto menos leitores tenho
mais escrevo

autor desconhecido

.

– quem estará nas trincheiras ao teu lado?
– e isso importa?
– mais do que a própria guerra.

ernest hemingway

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o poeta que era uma multidão

pelo que se acreditava, fernando pessoa, o poeta de portugal, levava dentro dele outros cinco ou seis poetas.
no final de 2010, o escritor brasileiro josé paulo cavalcânti conclui sua pesquisa de muitos anos sobre «alguém que sonhou ser tantos».
cavalcânti descobriu que pessoa não abrigava cinco, nem seis: levava cento e vinte sete hóspedes em seu corpo magro, cada um com seu nome, seu estilo e sua história, sua data de nascimento e seu horóscopo.
seus vinte e sete habitantes haviam assinado poemas, artigos, cartas, ensaios, livros...
alguns deles tinham publicado críticas ofídicas contra ele, mas pessoa nunca havia expulsado nenhum, embora deva ter sido difícil, suponho, alimentar uma família tão numerosa.

eduardo galeano | os filhos dos dias, p. 389

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um homem comum

tenho sérias críticas às redes sociais e afins, e a quem nelas publica apenas seus sucessos e vitórias. está difícil para todo mundo. daí tu abres as redes sociais e é só sucesso, só gente feliz e se dando bem. isso é um passo para tu achares que o problema é teu. em outras palavras: que tu és um merda.

enfim, acho que a exposição exclusiva de vitórias e sucessos, além de ser falsa, pode ser desestimulante para quem nos lê. sim, por mais insignificantes que sejamos, nunca escrevemos para o vazio.

sendo assim, de vez em quando compartilho também minhas derrotas, minhas dificuldades e meus fracassos. talvez isso inspire algumas pessoas a encararem seus tropeços como algo comum. ninguém é campeão em tudo.

grill

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un hombre común tiene una patria, una bandera,
un amor, una cara, una nariz, alguna miseria,
una alegría, una vieja enfermedad, alguna estrella
un llanto, una deuda, un rencor, una nueva franqueza.

un hombre común tiene un paladar, olor a vino,
un gesto, un apellido, un hijo muerto, un asesino,
un pasado, un presente, un futuro y un destino,
un amor, una idea, un color,
alguno que otro delirio.

hablo de un hombre común.

un hombre común tiene una niñez, un adulterio,
un presidente, un ministro, un patrón, alguna infamia,
una inflación, una traición, un corazón, algún silencio,
un horario, un trabajo, una vergüenza, mucha rabia.

rabia de un hombre
común.

un hombre común tiene un sexo y un apellido,
una cárcel, una herida, un sueño, un inquilino,
tan común como los ojos, los labios, el aliento,
la bronca, el sol, el cuerpo, y yo te quiero
un hombre común, tiene todo común
un nacimiento, un bautismo, una impotencia,
un dios común... que mira sorprendido...
cómo el mundo está confuso y aturdido

y entonces canta, al menos canta

un hombre común
tiene siempre lo que tiene que tener
ganas de vivir la vida, nuestra vida
y que se dejen de joder.

piero / josé (1983)

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poema em linha reta

nunca conheci quem tivesse levado porrada.
todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

toda a gente que eu conheço e que fala comigo
nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

quem me dera ouvir de alguém a voz humana
que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
não, são todos o ideal, se os ouço e me falam.
quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
ó príncipes, meus irmãos,

arre, estou farto de semideuses!
onde é que há gente no mundo?

álvaro de campos

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palavra dada é palavra escrita

[por enilton grill]

escrever me faz bem, me mantém sóbrio, me mantém vivo.

o que determina meu estado de espírito não é o conteúdo do que escrevo, mas sim a frequência com que escrevo.

quanto mais escrevo, melhor me sinto.

não importa o que escrevo, o que importa é estar escrevendo. não importa o que digo, o que importa é estar dizendo.

explico: se estou escrevendo sobre álcool, não significa que estou bebendo. se estou escrevendo sobre morte, não significa que estou morrendo. e o mesmo se dá com relação à esperança: se estou escrevendo sobre desesperança, não significa que estou desesperançado.

é como se a vida fosse um teatro e a folha em branco o meu palco — lugar onde tanto posso escrever um texto triste com sorriso nos lábios quanto um texto alegre com lágrima nos olhos.

na minha folha em branco, nada é proibido, tudo é permitido; nada é longe, tudo é perto; nada é errado, tudo é certo. meu palco é sagrado, minha palavra é um mundo em aberto.

dentro de mim há um mundo nascendo, fora de mim há um mundo morrendo.

como resolvo essa contradição?

escrevendo.

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e a folha em branco?

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já contei essa história, mas ontem um poeta e amigo, por conta de uma publicação minha, me enviou uma canção pelo whatsapp e me deu uma vontade danada de contar de novo e mais uma vez.

em 89, quando voltei pra pelotas, vindo de são luís, consegui emprego de estagiário num jornal da cidade. no primeiro dia, o encarregado me colocou numa mesa com uma máquina de escrever e uma folha em branco. ele me deu o prazo de uma hora para que eu escrevesse sobre qualquer coisa. ou seja: tema livre. isso eram mais ou menos umas oito e meia da manhã, quando bateu meio-dia eu não tinha escrito uma palavra sequer. o encarregado se aproximou de mim e disse: «cara, vai procurar outra coisa pra fazer. aqui só se dá bem quem gosta de escrever». dali pro bar da esquina foi a distância de meia quadra (moradores de satolep entenderão). de lá pra cá jurei nunca mais deixar uma folha em branco. tenho feito o que posso. hoje acabei de preencher uma, amanhã vou preencher outra e depois de amanhã outra. é o plano das 24 horas. aprendi no aa.

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e a canção?

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como se a vida fosse
uma folha em branco
que viraste agora
e com tuas mãos, enfim,
pudesses escrever
uma nova história
tudo por fazer,
o mundo ainda tão novo
te pedindo a escrita
a boca sussurrando
a forma das palavras
que um dia serão ditas

como se sonhasses
um engenho novo
reinventando o tempo
e desses o teu gosto
--- a tua assinatura ---
à arte desse invento
o horizonte aberto,
o sul,o norte incertos,
à espera dos teus passos
na esquina ali em frente,
a esperar a gente
a paz de um novo abraço

mistério de viver, o eterno renascer
a cada novo dia
o que virá, virá! (e sempre há de vir),
o futuro não se adia!
mas escolher a fruta boa, a canção que soa
o tom da nossa voz...
o que fazer de cada dia... essa é a nossa poesia
isso sim, pertence a nós!

como se nascesses
para um novo mundo
neste exato instante
e as coisas simples
fossem doravante
as coisas importantes
um afago, um beijo,
um abraço amigo
um momento a dois
porque o demais não conta,
o tempo das ausências
fica pra depois!

zebeto corrêa (mg) / martim césar (rs)
intérprete: zebeto corrêa

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lento mas vem

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

hoje está mais além
das nuvens que escolhe
e mais além do trovão
e da terra firme

demorando-se vem
qual flor desconfiada
que vigila ao sol
sem perguntar-lhe nada

iluminando vem
as últimas janelas

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

já se vai aproximando
nunca tem pressa
vem com projetos
e sacos de sementes

com anjos maltratados
e fiéis andorinhas

devagar mas vem
sem fazer muito ruído
cuidando sobretudo
os sonhos proibidos

as recordações dormidas
e as recém-nascidas

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

já quase está chegando
com sua melhor notícia
com punhos com olheiras
com noites e com dias

com uma estrela pobre
sem nome ainda

lento mas vem
o futuro real
o mesmo que inventamos
nós mesmos e o acaso

cada vez mais nós mesmos
e menos o acaso

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

lento mas vem
lento mas vem
lento mas vem

mario benedetti

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nasça o que nasce
que passe o que passa
nasça o que nasce
e que passe o que passa
mesa cadeira
televisor
sol geladeira
lençol cobertor
árvore telha
vento vapor
pássaro abelha
despertador
leite cigarro
gelo café
plástico ferro
pão chaminé
chave moeda
página pé
fósforo pedra
sangue chiclé

walter franco / arnaldo antunes (2001)

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antes do fim

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar mas vem
hoje ando a 10
para chegar aos 100

grill

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#américas

quarta-feira, 5 de agosto de 2026


pecado capital

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«dinheiro na mão é vendaval
é vendaval
na vida de um sonhador
de um sonhador»

paulinho da viola»

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em 2005, depois de me separar, aluguei uma casa na rua sturbelli e mobiliei-a com tudo, tudo o que eu tinha, quadros, discos e livros. eu tinha, também, na época, um fogão, um colchão e uma geladeira. armários e televisão eu não tinha. a vida era uma maravilha (ou devia). eu morava sozinho, trabalhava no cfc, gostava do que fazia, fazia o que queria e o salário, ó! dava e sobrava. enfim, tinha tudo pra dar certo, mas eu sou um «sonhador» e o «sonhador» é muito hábil em criar armadilhas para si mesmo. a armadilha era: fazer o que com o que sobrava?

a primeira coisa que fiz foi entrar num bar
tomei umas 5 ou 7
entrei numa revenda de automóveis...
e saí com um fiat 147

corria o ano de 2007
eu recém tinha completado 42
outro dia vi uma entrevista do chico buarqie
na qual ele dizia que não tava preocupado com a «crise dos 40»
normal
chico estava com 36
contudo
vendo-o falar
me lembrei de 2005
quando fiz 40
meu desejo era passar pela tal «crise» sem nenhum sobressalto
quanta ignorância de mim mesmo
dos 39 aos 43
minha vida virou de cabeça pra baixo
dos 39 aos 40 atingi meu auge
pousei no cume da montanha
olhei para o precipício
e me atirei
tentar tentei
mas voar
não voei
só de avião
rumo a são luís do maranhão
caí e levantei
mais de uma vez
aprendi a lição
muda
tudo muda
eu também mudei
caí
me casei
levantei
me separei
penei
sofri
chorei
quase caí
mas ainda estou aqui
ainda não sei o que quero
mas já sei o que não quero


pensando bem
não sei se era o que eu queria
mas eu podia ter sido tarso de castro
morrido como ele

pensando melhor
a pessoa é para o que nasce
tarso está lá
eu ainda estou aqui

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tarso de castro

[por tom cardoso]

na sua nova rotina de solteiro, tarso podia ser visto em dois lugares no rio de janeiro. o primeiro era o bar joia, pertinho da sua casa, lá mesmo no jardim botânico. para o outro reduto era preciso ir de carro, se é que se podia chamar de carro o velho dodge dart que o jornalista pilotava até o restaurante plataforma, no leblon.

tarso tinha um apreço todo especial pelo seu dodge dart. os amigos nem tanto. sérgio cabral jamais esqueceu do dia em que deixou o filho serginho dar uma voltinha no quarteirão com o «tio tarso». praticamente não saíram do lugar: a barra de direção soltou na primeira curva evitando um acidente mais grave. josé trajano não teve a mesma sorte, lembra ele:

um dia, em ipanema, saímos de um bar completamente bêbados. o tarso, dirigindo o dodge dart, entrou na visconde de pirajá a mais de 100 km/hora, como um alucinado. um cara passou no sinal vermelho e bateu na gente. entramos com meio carro dentro de uma loja. no meio do tumulto, passou por ali o [ator] stepan nercessian. ele viu que era a gente e se ofereceu para nos levar ao hospital miguel couto, só sei que algumas horas depois, às 10 da manhã, já estávamos os dois, cheios de curativos, bebendo na padaria com o stepan.

pilhas de multas chegavam todos os dias à casa do antigo dono do dodge dart, que jamais teve coragem de repassá-las ao novo proprietário. para tom jobim, passar a vida se responsabilizando pelas barbeiragens do jornalista não chegava a ser um sofrimento. o duro mesmo era evitar os tradicionais e temidos selinhos de tarso de castro.

«na boca, não» gritava o compositor toda vez que os dois se encontravam em algum bar ou restaurante do rio. apesar do apelo, raramente escapava do malho. tarso era apaixonado por tom. ao chegar ao rio, em 1962, um de seus orgulhos de juventude era ser confundido, no bar jirau, em copacabana, com o músico. com o tempo, tornaram-se íntimos. bebiam juntos, acompanhados de vinicius de moraes, na churrascaria carreta, em ipanema.

na mesa de jobim eram bem-vindos joão ubaldo ribeiro, chico buarque, antônio pedro, miguel farias, paulo mendes campos, sérgio cabral e, claro, tarso de castro. nos últimos tempos, tom se queixava a cabral que tarso adquirira outro hábito repugnante, ainda pior que a tradicional bitoquinha: «cabralzinho, ele agora deu de ficar apertando o meu pau. dói pra cacete». as tardes passaram a ser menos divertidas. no restaurante, tarso, debilitado por uma cirrose hepática, teria a primeira das oito hemorragias que o levariam à morte em menos de um ano.

durante anos, amigos tentaram, inutilmente, convencer tarso a parar de beber. luiz carlos maciel o levou ao alcoólatras anônimos (aa). seu argumento para não frequentar as reuniões foi convincente: «prefiro a morte ao anonimato». uma namorada o aconselhou a passar um tempo em casa, sedado, para «limpar o organismo». «mas me diga uma coisa: e se o governo cair? se eu acordar e mudou o governo? aí, porra, vou ficar irritado com todo mundo durante anos! eu quero estar presente! é uma espécie de doença, mas paciência», confidenciou à revista playboy, em 1983. palmério dória pediu a ele que, pelo menos, deixasse de beber pela manhã. a resposta estava na ponta da língua: «prefiro viver pela metade por uma garrafa de uísque inteira do que viver a vida inteira pela metade».

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passo a palavra para jaguar:

«tarso era um extremado em tudo: era capaz de virar a noite na redação, mas também de sumir num dia de fechamento do jornal. nunca vi uma resistência igual. saía de um cti e ia parar de novo no cti, para recomeçar tudo de novo.»

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voltamos a tom cardoso:

quando tarso, depois de uma nova hemorragia, deu entrada, em coma, na clínica são vicente, seu médico, o clínico-geral pedro henrique paiva, assinou o atestado de óbito e avisou a família: «podem comprar o caixão». não sabia com quem estava lidando. horas depois, enfermeiros foram surpreendidos por um grito vindo da uti: era o «morto» pronto para mais uma dose: «poooooooorra, me tirem daqui!». paulo césar peréio, impressionado com a resistência do «canalha», só aceitou levar tarso para a churrascaria se ele prometesse por escrito doar o superfígado depois de morto.

na oitava hemorragia de tarso, miguel kozma, velho companheiro desde os tempos de passo fundo no rio grande do sul, entrou em ação. conseguiu com o jornalista fernando morais, então secretário estadual de educação de são paulo, um quarto no hospital das clínicas, onde tarso seria tratado pelo médico silvano raia, o maior especialista em doenças do fígado do país. segundo raia, só havia uma saída para o paciente: o transplante de fígado, desde, claro, que ele decidisse parar de beber. levado de ambulância do rio para são paulo, a primeira providência de tarso foi se livrar dos tubos de soro grudados em seu braço.

miguel kozma conseguiu a proeza de convencer o amigo a parar de beber por algumas semanas. para um grupo de ciganos, conhecidos de tereza, mulher de miguel, o milagre não ocorreu por acaso. a história cheia de lances macabros e confirmada pelo próprio tarso, durante entrevista para o jô soares onze e meia, do sbt, começou no dia em que um dos ciganos, impressionado com o estado de saúde do jornalista, cismou que havia no rio um trabalho de magia negra contra ele. foram todos de carro até o méier, subúrbio da cidade, onde encontraram um boneco, um mini-tarso, com uma coroa de espinhos na cabeça e agulhas em todo corpo, com maior incidência na região do fígado. o vodu foi queimado lá mesmo e o cigano garantiu, de pés juntos, que a partir dali o doente estaria curado.

não era a primeira vez que o jornalista tinha o seu nome usado num ritual. vinte anos antes, ao sair completamente endividado de o pasquim, em 1971, uma namorada resolveu fazer despacho para o amado sair logo da crise financeira. levou ao terreiro um par de meias, o mesmo que tarso havia pedido emprestado para chico buarque durante uma festa na casa do compositor. conclusão: tarso continuou duro por um longo tempo e chico ganhou seu primeiro milhão ao fazer um tremendo sucesso com o disco construção.

com ou sem despacho, tarso voltou a beber. conseguiu convencer --- não se sabe como --- todas as enfermeiras do hospital das clínicas de que era importante ele ter duas garrafas de uísque debaixo da cama. só não conseguiu seduzir o diretor do instituto do fígado, jorge pagura, como lembra fernando morais: «o pagura, um escroto da pior linha, ligado a paulo maluf, me ligou dizendo: "se ele quer beber que faça isso num botequim e não num hospital. tira esse vagabundo daqui!"»

não precisou: no dia 20 de maio de 1991, vítima de cirrose hepática, tarso foi beber em paz com vinicius de moraes.

o desejo da família era que o corpo fosse enviado imediatamente para passo fundo, logo depois do velório na assembleia legislativa de são paulo. de novo, fernando morais ofereceu ajuda. ligou para luiz antônio fleury filho, que havia acabado de ser eleito governador de são paulo, apoiado por seu antecessor, orestes quércia, e fez o pedido:

governador, preciso que o senhor libere um jatinho para levar o corpo de um amigo com urgência até passo fundo.

quem morreu?
o jornalista tarso de castro.
quem?
o tarso.
aquele que chamava o quércia de a «dama de ferro» todo dia no jornal?
ele mesmo.
você está louco? não posso fazer isso.
governador, o quércia não precisa ficar sabendo.
tudo bem. mas pelo amor de deus, se ele souber, eu sou enterrado junto com o tarso.

em passo fundo, logo que o corpo chegou ao saguão do aeroporto lauro kurtz, tarso recebeu a primeira «homenagem». ao saber que ali estava sendo transportado o corpo do polêmico jornalista, romeu tuma, então superintendente da polícia federal, não se conteve: «aquele subversivo boca-suja?». ser chamado de boca-suja por um ex-diretor do dops era um elogio e tanto. a segunda homenagem partiu do amigo otto lara resende, articulista da folha de s. paulo, em texto publicado dois dias após sua morte:

«tinha um pacto de felicidade com a vida. pouco importava que a vida não cumprisse a sua parte. eu interpelava os astros: de quem foge tarso de castro? que persegue tarso de castro? ele ria. e o riso apagava no rosto o vinco das noites boêmias. a vida jogada fora, num gesto de desdém e de rebeldia. mas onde está a vida dos que a depositaram na poupança? na vertigem com que vivia, no seu furor, havia, sim, um sinal de maldição. sua morte nos punge como um remorso. tantas imposturas, tantos vencedores! adeus, tarso!»

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ao vento

tava olhando aqui
quanto mais eu escrevo
menos leitores eu tenho
sinal que sigo no caminho certo
caminho que eu mesmo escolhi
quando saí da casa dos meus pais
e peguei a estrada

grill

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seu pai falava muito de você.
é?
dizia que você não tinha ambição.
tinha razão.
é mesmo?
minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
você é estranho.

bukovski

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«apenas somos
quando em nada nos tornamos.
é quando perdemos nossas pernas
que nos tornamos corredores.»

rumi

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«aos cavalos não foi dito que tinham que correr para vencer
os cavalos não correm para vencer
os cavalos correm para correr
assim sou eu também
não vivo para vencer
vivo para viver»

fausto wolff

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ao vento


eu sou da geração x
nasci em 1965
conforme li por aí
uma das características dos indivíduos dessa geração
é a ruptura com as gerações anteriores
outra é a autoconfiança
por outro lado
há quem diga que os nascidos na geração x são avessos às mudanças
nada mais distante de mim
nunca tive problema com mudanças
muito pelo contrário
o vento sou eu

grill

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o vento

espalha as sementes, conduz as nuvens, desafia os navegantes.
às vezes limpa o ar, e às vezes suja.
às vezes aproxima o que está distante, e às vezes afasta o que está perto.
é invisível e é intocável.
acaricia você, golpeia você.
dizem que ele diz:
— eu sopro onde quiser.

galeano

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lá vai uma vela aberta
se afastando pelo mar
branca visão que desperta
anseios de navegar

vela aberta | walter franco (1980)

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pouco antes de buda morrer alguém lhe perguntou: quando um buda morre, para onde ele vai – ele sobrevive ou simplesmente desaparece no nada?

dizem que buda respondeu: é exatamente como uma nuvem branca desaparecendo.

lembro de quando havia nuvens brancas no céu. agora, elas não estão mais lá. para onde foram? de onde vieram? como surgiram, e como se dissolveram novamente?

a nuvem branca é um mistério – o vir, o ir, o próprio ser dela.

uma nuvem branca existe sem nenhuma raiz. mas ainda assim existe.

a existência inteira é como uma nuvem branca – sem qualquer raiz, sem qualquer causalidade – ela existe. existe como um mistério.

uma nuvem branca não tem, na realidade, nenhum caminho próprio. vagueia. não tem onde chegar, não tem objetivo, não tem destino a ser cumprido. não tem fim.

você não pode deixar uma nuvem branca frustrada, porque onde quer que ela chegue, é a meta. se você tem uma meta, está destinado a ficar frustrado. quanto mais a mente é orientada para uma meta, mais angústia, mais ansiedade e mais frustração possui – porque quando você tem uma meta começa a se mover em direção a um objetivo fixo.

a existência inteira existe sem qualquer destino. o todo não está indo a lugar algum; não possui nenhuma meta, nenhuma finalidade.

uma nuvem branca deixa-se levar para onde quer que o vento a dirija – não resiste, não luta. o vento é o senhor do seu destino. uma nuvem branca não é um conquistador, e mesmo assim flutua acima de tudo. você não pode conquista-la, não pode vencê-la. ela não tem nenhuma mente para ser conquistada.

uma nuvem branca não tem para onde ir. movimenta-se, vai para todos os lugares. todas as dimensões lhe pertencem, todas as direções lhe pertencem. não rejeita nada. tudo é, existe, numa total aceitação.

por isso chamo meu caminho de «o caminho das nuvens brancas»

como cheguei a ele? lendo
lendo, lendo, lendo
lendo e escrevendo
que é o que vou seguir fazendo
vai vendo...

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de volta ao começo

quando morava com meus pais, eles me diziam um guri sem ambição. e tinham razão. eu não me interessava por nada, só queria que as coisas fossem diferentes do que são.
foi então que saí
para ver se eram
pensei que eram
mas não são

grill

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o medo sem saber fui procurar
e conhecer duas quadras mais além
o ar era igual, as pessoas iguais
me deu na telha dizer pra um cara tchau
o cara me olhou, não entendeu.
ali dobrei duas quadras para lá
oi tudo bem dois guris da minha idade
um me disse tchê, queres fumar?
eu quase disse não, mas aceitei
e tossir, e sentir, e olhar, descobrir e voar
e voar, voar
a descobrir que pasa en la ciudad
e saber como são as pessoas mas alla de aca
como será, como será, como será
como será, mas como será?
e voar, voar, a descobrir que pasa en la ciudad
eu quero voar e voar e saber
como são as pessoas mas alla de aca
o pão que fui comprar e me olvidei
as ruas todas novas e não sei, não sei
querer querer voltar e não saber
os gritos de mamá sobre mi piel
o hálito de menta que inventei
a culpa de fumar e de escapar
mamá espera no pegues, quiero hablar
mamá espera no pegues quiero hablar
vos vas a ver cuando vuelva papá
vos vas a ver cuando vuelva papá
pero para mamá...
vos vas a ver...
vas a ver, vas a ver, vas a ver, vas a ver, vas a ver
quiero hablar, quiero hablar, quiero hablar, quiero hablar, quiero hablar
yo fui a volar, volar
a descubrir que pasa en la ciudad
yo quiero volar y volar y saber
como es la gente mas alla de aca
para la libertad, la libertad...
y volar, volar...

miedo niño | piero (1982)

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de volta ao futuro

tudo isso
foi no mês que vem
hoje ando a 10
para chegar aos 100

grill

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#américas

terça-feira, 4 de agosto de 2026

 

o arado, a palavra e a propriedade privada

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«aperto firme a minha mão
e afundo o arado na terra.
há anos que vivo nela,
como não estar esgotado?»

victor jara

.

«a propriedade é um roubo.»

pierre-joseph proudhon

.

«voam borboletas, cantam grilos,
a pele me fica negra
e o sol brilha, brilha, brilha.
o suor me abre sulcos,
eu abro sulcos na terra
sem parar.»

victor jara

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caros amigos, 
estava lendo uma crônica do luis fernando verissimo
que me fez lembrar de um amigo
um amigo de infância
um amigo que há quase 50 anos não encontrava
nos perdemos por el mundo
nos volvemos a encontrar
(lá pelas bandas do facebook)
refizemos a amizade
mas nossa amizade
amizade facebookiana
felizmente
ou infelizmente
foi uma amizade passageira
sim
durou muito pouco
acontece que o cara é bolssonaro doente
o que pra mim não teria maiores problemas
verdade
acreditem ou não
não me incomoda que as pessoas pensem diferente de mim
o que me incomoda
e muito
é as pessoas se incomodarem por eu pensar diferente delas
que foi o caso desse hoje ex-amigo
mas passa
tudo passa
já passou
ademais
a questão não é essa
a questão é que eu o considero uma pessoa inteligentíssima
e é isso que me intriga
pois
mesmo sabendo que há pessoas inteligentíssimas na direita
penso exatamente como luis fernando verissimo
«não entendo como uma pessoa que enxerga o país à sua volta pode não ser de esquerda»
e é aí que entra a relação da crônica com a lembrança do meu ex-amigo
sim
pelo que sei
e não sei muito
mas um dia quis saber
e perguntei
não para o ex-amigo
mas para a amiga
mais que amiga
irmã
irmã de alma da mãe do meu ex-amigo
e ela me contou que
durante os primeiros governos do pt
as terras dele e da família dele foram consideradas improdutivas
sendo assim desapropriadas para reforma agrária
e ainda que eles tenham recebido um significativo valor em troca
as feridas ficaram abertas
penso eu
então
que daí o antipetismo
não só do meu ex-amigo
mas da família dele como um todo
mas vamos à crônica

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falando sério

ele disse:
— ora, reforma agrária...
ela disse:
— vai dizer que você é contra?
ele tentou cair fora:
— o assunto é muito complexo.
ela insistiu:
— espera um pouquinho.
— dá um beijo, vai.
— espera, isto é importante. eu quero saber.
— o quê?
— a reforma agrária. você é contra?
— por quê? você é a favor?
— mas só sou.
— você quer que o velho divida as terras dele?
— teu pai é latifundiário?
— tremendo lati.
— eu não sabia!
— tem muita coisa a meu respeito que você ainda não sabe, boneca. vem cá que eu te mostro...
— espera. falando sério.
— dá uma beijoca.
— falando sério, pomba.
— está bem. o que você quer saber?
— seu pai. quantos hectares ele tem? ou acres? é acres ou hectares?
— e eu sei? nunca fui lá.
— quantos?
— um monte.
— mais ou menos?
— olha, eles pegam o jipe da fazenda e, num dia, não conseguem chegar ao fim das nossas terras.
— meu deus do céu!
— é que o jipe quebra sempre. dá um beijo, poxa.
— para.
— vem cá, mulher!
— não vou. olha, nunca pensei, viu?
— o quê? que meu velho fosse fazendeiro? como é que você pensa que eu tô pagando a faculdade? e o carro? e o apartamento? e as nossas alianças de noivado?
— ele tem terra improdutiva?
— tem. exatamente a parte que ele está guardando pra me dar quando eu casar. a nossa terra, amor.
— mas e o seu discurso?
— bom...
— até eu achava radical. e olha que eu sou meio pt.
— não vamos brigar por causa disto.
— tudo o que você vive dizendo... justiça social...
— confere.
— a insensibilidade dos ricos no brasil...
— mantenho.
— os escândalos dos sem-terra num país deste tamanho...
— sustento.
— vem cá. outra noite, aqui mesmo, neste bar, você disse que toda a propriedade é um roubo. eu achei bacanérrimo.
— foi uma frase que me ocorreu na hora. mas escuta...
— e agora vem dizer que é contra a reforma agrária?
— eu não sou contra a reforma agrária. teoricamente, sou a favor.
— e então?
— você não entende? agora não é teoria. agora são as terras do velho!

verissimo

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– seu pai falava muito de você.
– é?
– dizia que você não tinha ambição.
– tinha razão.
– é mesmo?
– minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
– você é estranho.

bukowski

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la marea – quando leio algo seu, digo a mim mesmo: «lemaitre tem um problema com a autoridade». você ridiculariza os homens de poder o tempo todo. você era rebelde quando criança ou era um aluno dócil?

pierre lemaitre – eu era um aluno muito ruim. não porque tive uma infância miserável ou porque fui rebelde. na verdade, o que estava acontecendo comigo é que fui esmagado pelas imposições da sociedade. há jovens que falham muito cedo devido à incapacidade de corresponder às expectativas dos pais. acho que não me afasto muito desse padrão.

marzo - abril/2023

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ao vento

para que perder tempo com bobagens como fama, sucesso e sorte se tudo que se precisa para viver está dentro de nós? basta descobrir o amor à vida e cultivá-lo. como? não sei. não tem fórmula. os que encontram, encontram à sua maneira. foi o meu caso. larguei tudo sem pensar em nada... e é por aí que os meus pés caminham e a minha cabeça voa.

porque não sou dono de nada
tenho tudo
não me sinto estrangeiro
(em nenhum lugar)
a terra é minha casa
o universo é meu lar
vivo em guerra e paz
em guerra com o mundo
em paz comigo mesmo
nada é meu
tudo é nosso
e o arado?
o arado não é(ra) nosso
é(ra) de um amigo
e a propriedade?
não é minha
nada é meu
«yo no vendo, yo no compro»
hoje é de quem a comprou
ontem era de quem a vendeu

grill

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«se puderes olhar, vê; se puderes ver, repara»

saramago

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«é a ceguera de dexá
um dia de ser pião
de nun comprá nem vendê
robá isso tomém não
de num sê mais impregado
i tomém num sê patrão»

elomar

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«eu não vendo, eu não compro
eu não mudo, eu não impeço
eu não empresto, eu não escondo
e por isso sou feliz»

facundo cabral

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«a vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. a vida serve para você se criar e criar coisas».

bob dylan

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traduzir-se

explicando o processo criativo. mas antes abro um parêntese: alguns hão de dizer que não há processo criativo algum aqui, pois os versos acima não são meus, isto é, parto do que outros dizem para dizer o que quero dizer. e é isso mesmo: é assim que faço, sempre fiz e sempre vou fazer — seja para concordar, seja para discordar —, até porque, se bem me lembro, quando nasci, não sabia caminhar, não sabia ler, não sabia escrever, não sabia falar. só sabia sorrir e chorar.

sobre o processo criativo? acabei de explicar. mas vou explicar de novo: comecei pensando em fazer uma coisa e acabei fazendo outra.

moral da história:

«não sou eu quem me navega / quem me navega é o mar»

«caminante, no hay camino / se hace camino al andar»

«tudo flui, nada permanece»

«a rota para cima e para baixo é uma e a mesma»

já não sou o mesmo / mas sou igual.

aqui abro outro parêntese. não sei se ponho aspas na última citação ou não. por quê? porque de tanto dizê-la, não sei mais de quem ela é. aliás, penso que se as palavras pudessem dizer de quem elas são, elas diriam que as palavras são de quem as diz.

grill

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se perdi a vida, o tempo
tudo joguei como um anel na água
se perdi a voz na profusão do mato
resta-me a palavra

se sofri a sede, a fome,
tudo o que era meu e acabou sendo nada.
se cruzei as sombras em silêncio,
resta-me a palavra.

se abri os olhos para ver o rosto
puro e terrível de minha pátria.
se abri os lábios até rasgá-los,
resta-me a palavra.

me queda la palabra | blas de otero / aguaviva 1971

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antes do fim

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«não me esperem para a colheita, estarei sempre a semear»

guevara

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«morrer semente é continuar lutando
mesmo sabendo que serão as próximas gerações
que participarão da colheita»

autor desconhecido

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afirmo bien la esperanza
cuando pienso en la otra estrella;
nunca es tarde me dice ella
la paloma volará.

vuelan mariposas, cantan grillos,
la piel se me pone negra
y el sol brilla, brilla, brilla.
y en la tarde cuando vuelvo
en el cielo apareciendo
una estrella.

nunca es tarde, me dice ella,
la paloma volará, volará, volará,
como el yugo de apretado
tengo el puño esperanzado
porque todo
cambiará.

el arado | victor jara 1965

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#reformaagráriajá
#américas