sábado, 12 de setembro de 2026


vamos mulher

«aprendi a não tentar convencer ninguém. o trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.»

josé saramago

porto alegre, 11 de setembro de 2026

em ato político realizado no largo glênio peres, em porto alegre, o presidente luiz inácio lula da silva reforçou seu apoio à chapa aliada no rio grande do sul, vinculando a disputa eleitoral ao investimento na educação, à defesa dos direitos sociais e ao combate à violência de gênero. mesmo sob chuva intensa no centro histórico, o evento deu centralidade ao protagonismo das mulheres, unindo pautas de representatividade, propostas legislativas e mobilização de base na reta final de campanha.
memória de brizola e inspiração materna
durante seu pronunciamento, o presidente evocou a figura histórica de leonel brizola para respaldar o nome de juliana brizola (pdt) na corrida ao palácio piratini, ao lado de edegar pretto (pt) na vice-presidência, além de defender as candidaturas de paulo pimenta (pt) e manuela d’ávila (psol) ao senado.

«o brizola pode ter morrido para alguns, mas o brizola tá no dna dessa mulher», declarou lula em referência a juliana. o presidente comparou o vínculo político da candidata com o avô à ligação que mantém com a memória de sua própria mãe, dona lindu: «todo santo dia eu converso com a minha mãe. quando eu estou em dificuldade, eu peço ajuda pra minha mãe, porque a minha mãe não morreu. a minha mãe tá no meu ar, no meu dna. eu sou a minha mãe em vida». 
compromissos e pautas do eleitorado feminino 

a agenda de proteção e direitos das mulheres pautou as intervenções do palanque. juliana brizola assumiu o compromisso de liderar diretamente o combate aos crimes de gênero na esfera estadual: «eu não vou terceirizar para ninguém. eu vou resolver a proteção das nossas mulheres e das nossas crianças».

no âmbito federal, o ato destacou os esforços do pacto nacional contra o feminicídio e ações institucionais do governo para o enfrentamento da violência doméstica. a candidata ao senado manuela d’ávila ressaltou que a eleição é fundamental para fortalecer a bancada em brasília, defendendo pautas que afetam a rotina das trabalhadoras, como o combate à violência de gênero e o fim da jornada de trabalho na escala 6x1. 

convocação final e mobilização da militância 

o encerramento ficou marcado pelas orientações e apelos para a busca de votos. após o pedido de lula para que os eleitores consolidem o voto na chapa majoritária e nas candidaturas proporcionais, a primeira-dama rosângela da silva, a janja, assumiu o microfone para convocar a militância ao diálogo direto com eleitores indecisos ou desanimados.
«quem é aqui que vai conversar com seu vizinho, com a sua vizinha que está ainda indecisa, desanimada? quem é que vai fazer esse corpo a corpo?», perguntou a primeira-dama, enfatizando o papel do convencimento no dia a dia: «o voto também se constrói na conversa. aquela conversa olho no olho, na palavra que devolve a esperança para quem está desanimado»

vamos mujer,
partamos a la ciudad.
todo será distinto,
no hay que dudar.

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(quilapayún, 1969)


minha coluna de 15 de abril de 2019 na rádiocom
[100 dias de (anti)governo bolsonaro]

a culpa é minha
há quem diga que essa história de desobediência civil e revolução, não tá com nada. isto é, já era. «não tá com nada» pode ser que sim, «já era» penso que não. por quê? porque aqui no brasil, salvo uma ou outra exceção — vide a balaiada no maranhão, por exemplo — isso jamais aconteceu. portanto, não se pode dizer «já era» para uma coisa que nunca foi.

há quem defenda o diálogo olho no olho, para dissuadir antipetistas bolsonaristas de seu aparente estado de catatonismo. eu também. por isso, fui a campo — o que, aliás, já havia feito antes.
depois de 100 dias de (anti)governo bolsonaro, será que algum antipetista bolsonarista mudou de ideia e/ou mudou de opinião? quer dizer: será que os 100 dias de um idiota no poder foram suficientes para que antipetistas bolsonaristas chegassem à conclusão de que se era ruim com o pt, é pior sem o pt? não sei, mas acho que não.

aqui onde moro o que mais tem é antipetista bolsonarista. eles até concordam que o brasil vai de mal a pior. mas quando eu pergunto o porquê, todos, sem exceção, dizem que a culpa é do pt.

então eu insisto, procuro mostrar como as coisas eram e como elas estão, mas não adianta, não tem o que eu diga que faça com que eles mudem de opinião.

chego à conclusão, então, que a culpa é minha. ou seja: tenho muita vontade, mas me falta poder de persuasão.
enilton grill
repecho, abril de 2019

terra de noel 

quando entrei no whats
além dos familiares mais próximos 
adicionei alguns amigos 
que juntos somavam não mais que 15

hoje, ao todo, meus contatos somam 35

logo no início
quando comecei a escrever no blog
 e a compartilhar meus textos pelo whats
 eles chegavam a alcançar 70 visualizações

meus dois últimos — ou mais recentes — 
nos quais teço críticas a lula e ao pt 
juntos não somam 20 visualizações 

concomitante a isso
quase todos os dias recebo textos e matérias 
tentando me «convencer» da importância destas eleições para o futuro do brasil

não mudou nada
no facebook era a mesma coisa

diante disso venho a público esclarecer:

a eleição mais importante da minha vida foi a de 1989
foi, é e para sempre será

não me procurem aqui
ainda estou lá

lá onde?
lá na rede povo

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[campanha lula 1989]
vídeo completo
agência tarso
(6:34)


não vou tirar meu chapéu
p'ra qualquer vagabundo
nasci na terra de noel
sou cidadão do mundo

vai o feijão
vai o café
vai o amor
daquela mulher

mesmo não tendo dinheiro
mesmo perdendo a razão
me resta ainda o direito de ser
consciente da situação.

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(josias sobrinho, 1986)


canta: rita beneditto


canta: zeca baleiro


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas 



sexta-feira, 11 de setembro de 2026


chile, 1973
(trailers)

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(a insurreição da burguesia)

.

(o golpe de estado)

.

(o poder popular)

chile, 1964.

eduardo frei, candidato do partido democrata cristão, derrota salvador allende em uma eleição na qual a cia despejou quase meio milhão de dólares. naquela oportunidade 0,7% dos proprietários controlavam 61,6% das terras chilenas, o desemprego era alto e a inflação corroía os salários.

isabel parra cantava:

muito dinheiro em parques municipais
e a miséria é grande nos hospitais
no meio da alameda das delícias
chile limita al centro de la injusticia

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(isabel parra, 1968)

chile, 1970.
em uma eleição disputadíssima, salvador allende vence as eleições presidenciais. naquela oportunidade o povo tomava as ruas e festejava.
o inti-illimani cantava:

porque desta vez não se trata
de mudar um presidente
será el pueblo que construya
um chile bem diferente

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(canto al programa, 1970)


e foi o que aconteceu

sob o governo socialista da unidade popular, o chile foi bem diferente. o presidente eleito cumpriu o programa pelo qual se elegeu: nacionalizou a mineração, estatizou o sistema financeiro e impôs normas de controle sobre os monopólios industriais e as empresas de telecomunicações — entre elas, a poderosa itt (international telephone & telegraph)
contudo, porém, todavia...
a vitória da unidade popular deitava por terra intensas e laboriosas negociações entre a itt e eduardo frei. a itt, então, deu uma guinada em seus princípios de atuação política: assumiu a liderança dos grupos estrangeiros e contatou a cia. os empresários fecharam as fábricas; os caminhoneiros paralisaram os transportes. assim, arlequins, polichinelos, monges falsos, palhaços a granel, terroristas de farda e militares degradados deram o golpe no chile e mataram o homem da paz.

mas, contudo, porém, todavia...

para matar o homem da paz,
tiveram que assassiná-lo muitas vezes
porque o homem da paz era uma fortaleza

para matar o homem da paz,
tiveram que imaginar que era uma tropa
uma armada uma legião uma brigada
tiveram que acreditar que era outro exército
mas o homem da paz era tão somente um povo
e tinha em suas mãos um fuzil e um mandato

para matar o homem que era um povo,
tiveram que ficar sem o povo

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(a dos voces, 1985)

de volta ao começo

no princípio, era o chile querendo nascer

mas, pela mala diplomática chegam as notas verdes que financiam greves e sabotagens e cataratas de mentiras. os empresários paralisam o chile, e lhe negam alimentos. não há outro mercado além do mercado negro. as pessoas fazem longas filas em busca de um maço de cigarro ou de um quilo de açúcar; conseguir carne ou azeite requer um milagre da virgem maria santíssima. a democracia cristã e o jornal el mercúrio dizem pestes do governo e exigem aos gritos um golpe redentor, pois já é hora de acabar com essa tirania vermelha; outros jornais, rádios e canais de televisão fazem eco. o governo custa a se mover: juízes e parlamentares põem-lhe paus nas rodas, enquanto conspiram nos quartéis os chefes militares que allende acredita leais.

nestes tempos difíceis, os trabalhadores estão descobrindo os segredos da economia. estão aprendendo que não é impossível produzir sem patrões, nem abastecer-se sem mercadores. mas a multidão marcha sem armas, vazias as mãos, por este caminho de sua liberdade.

do horizonte vêm uns quantos barcos de guerra dos estados unidos, e se exibem frente às costas chilenas. e o golpe militar, tão anunciado, ocorre.

mentira
traição
desinformação
conciliação
sabotagem
tutela militar

qualquer semelhança com o brasil de hoje
não é mera coincidência.
paciência.
américas que segue

allende
gosta da boa vida. várias vezes disse que não tem madeira de apóstolo nem condições para mártir. mas também disse que vale a pena morrer por tudo aquilo sem o qual não vale a pena viver.

os generais alçados exigem sua renúncia. oferecem a ele um avião para que abandone o chile. advertem que o palácio presidencial será bombardeado por terra e por ar.

junto a um punhado de homens, salvador allende escuta as notícias. os militares se apoderam do país inteiro. allende põe um capacete e prepara seu fuzil. soa o estrondo das primeiras bombas. o presidente fala pelo rádio pela primeira vez:

— eu não vou renunciar...

eduardo galeano | o século do vento, p. 252 e 253.

«por un fuego que no des a tiempo
puede no salir el sol.»

silvio rodríguez

ao vento

tudo passa
só o passado não passa
preparar, apontar, fogo!
sem fogo não há fumaça

grill

a ditadura pinochet ficou conhecida como uma das mais brutais na história latino-americana. apenas nos primeiros meses, mais de 80 mil pessoas foram presas por motivos políticos. a barbárie não poupou figuras renomadas internacionalmente como o cantor popular victor jara, que espancado em sessões de tortura, teve suas mãos quebradas e depois foi executado no estádio nacional do chile, onde presos políticos eram mantidos encarcerados e torturados à espera de fuzilamento.
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(adaptación creativa sin fines de lucro.
fundación victor jara)

ditadura pinochet

(em 4 atos)

1. o terror da dina (polícia secreta de pinochet): a dina era comandada por manuel contreras. com mais de 9 mil agentes e espiões, ela usava o terrorismo de estado para perseguir opositores.

2. crimes internacionais: pela «operação condor», o grupo assassinou figuras importantes longe do chile, como o general carlos prats na argentina e o ex-ministro orlando letelier nos estados unidos.

3. mudança de fachada: pressionado pelos eua, pinochet afastou contreras e mudou o nome da dina para cni. na prática, a perseguição continuou igual.
4. dinheiro para os militares: para garantir o apoio dos generais, pinochet gastava fortunas com as forças armadas. em 1980, o chile liderava os gastos militares na américa latina.

pátria, luz e bandeira
dos punhos erguidos,
voltarás a florescer,
voltarás a renascer.

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(quilapayún, 1976)

o exílio
(você me pergunta o que é o exílio)

«é proibida a entrada no território nacional de pessoas nacionais ou estrangeiras que... na opinião do governo constituam um perigo para o estado... no caso dos chilenos, o ministério do interior emitirá um decreto supremo proibindo sua entrada no país e «a autoridade administrativa correspondente ordenará o cancelamento do passaporte, se for o caso».
decreto lei nº 604, de 10 de agosto de 1974.

dias e noites de amor e guerra

a mãe não estava, aquela tarde, e eu esperava na porta o ônibus que trazia florência do jardim de infância. chegou muito triste. no elevador fez beicinho. depois deixou que o leite esfriasse na xícara. olhava o chão. sentei-a em meus joelhos e pedi que me contasse. ela negou com a cabeça. acariciei-a, beijei sua testa. deixou escapar uma lágrima. com o lenço sequei sua cara e assoei seu nariz. então, pedi outra vez:

– vamos, conta.

contou-me que sua melhor amiga tinha dito: «eu não gosto mais de você». 
choramos juntos, não sei quanto tempo, abraçados os dois, ali na cadeira. eu sentia as mágoas que florência ia sofrer pelos anos afora e quisera que deus existisse e não fosse surdo, para poder rogar que me desse toda a dor que tinha reservado para ela.


eduardo galeano , p. 133, 134.

«a bagagem do desterro é minha mala de humo,
mas sabemos bem que, sem o fogo, não há fumaça.»


você me pergunta como foi o cerco que sofri.
mete a língua na minha cabeça, no meu pensar, na minha alma.
pois bem: deixo você supor que abandonei meu povo,
que fugi rompendo o duro limiar como um bicho acuado.
mas eu te garanto que não me roubaram nada,
pois dessa terra jamais poderão me afastar.

pois como vão roubar meu vulcão com sua vulcana?
desviar de minha alma a foz do rio com sua ria?
lacerar na paisagem a árvore com seu arvoredo?
matar em minha têmpora o rude piolho com sua piolha?
queimar com um fósforo comum meu livro e sua livraria?
juntar o punhal ao meu dolor com sua dolora?
naufragar no temporal meu bote com sua bota?
bater em retirada meu conjuro e sua conjura?

vibrar a corda do meu solfejo 
com seu solfejar.

você me pergunta como foi o cerco que sofri.
põe o olho a folhear a estação da minha memória.

pois bem: concedo que ao final ganharam a batalha,
mas falta conhecer o resultado da guerra.
pois confesso que não perdi um só grão de pólen,
já que dessa terra jamais poderão me afastar.

pois como vão extenuar meu caso com sua caça?
esvaziar minha sacola com seu saque?
prender meu canto universal de grilo ao seu grilhão?
esvaziar de conteúdo meu araucano e sua araucária?
cavar com fúnebre prazer meu tombo com sua tumba?
frear a turbulência da minha gesta com seu gesto?
o choque dos meus esperantes com sua espera?
a bagagem do desterro é minha mala de fumaça,
mas sabemos bem que, sem o fogo, fumaça não haverá.

[clique no título para ver e ouvir]

(inti-illimanni, 1982)

em 1º de setembro de 1988 , através do decreto 203 do ministério do interior, o exílio terminou:

[...] todos os decretos supremos isentos e os decretos que, emitidos por força das competências que lhe conferem o artigo 41.º n.º 4 da constituição política da república, prevejam a proibição de entrada no território nacional das pessoas que neles se encontrem mencionadas...

com cinzas, com rasgos e fraturas,
com esta altiva impaciência,
com uma honesta consciência,
com indignação, com suspeita,
com ativa certeza
ponho o pé em meu país.

ponho o pé em meu país
e em lugar de soluçar,
de moer minha pena ao vento,
abro o olho e seu olhar
e contenho o descontento.

volto belo, volto terno,
volto com minha esperadura,
volto com minhas armaduras,
com minha espada, meu desvelo,
meu cortante desconsolo,
meu presságio, minha doçura,
volto com meu amor espesso,
volto em alma
e volto em osso
a encontrar a pátria pura
ao pé do último beijo.

volto, enfim, sem humilhar-me,
sem pedir perdão nem olvido:
o homem nunca está vencido,
sua derrota é sempre breve.
um estímulo que move
a vocação de sua guerra,
pois a pátria que o desterra
e a pátria que o recebe
lhe dirão, por fim, que ele vive
as dores de toda a terra.

[clique no título para ver e ouvir]

(inti-illimanni, 1978)

falando em dor...
miguel não morreu.
miguel enriquez ainda está aqui


«aquí nadie muere compañero
aquí nadie deja de luchar
aquí nada termina compañero
aquí cada día es continuar»


yo pisaré las calles nuevamente
de lo que fue santiago ensangrentada,
y en una hermosa plaza liberada
me detendré a llorar por los ausentes.

(pablo milanés, 1976)


«basta ya de conciliar,
es la hora de luchar!»

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teatro caupolicán
17 de Julho de 1973
legendado (pt - br)

«eso no está muerto,
no me lo mataron
ni con la distancia
ni con el vil soldado.»

silvio rodríguez


ali amei uma mulher terrível,
chorando pela fumaça sempre eterna
daquela cidade encurralada
por símbolos de inverno.

ali aprendi a tirar com a pele o frio
e a jogar depois meu corpo à garoa,
nas mãos da névoa dura e branca,
nas ruas do enigma.

isso não está morto,
não me o mataram,
nem com a distância,
nem com o vil soldado.

ali entre os morros eu tive amigos
que entre bombas de fumaça eram irmãos.
ali eu tive mais de quatro coisas
que sempre desejei.

ali nossa canção se fez pequena
em meio à multidão desesperada:
um poderoso canto da terra
era quem mais cantava.

até ali me seguiu como uma sombra
o rosto daquele que já não se via,
e no ouvido me sussurrou a morte
que já apareceria.

ali eu tive um ódio, uma vergonha,
meninos mendigos da madrugada,
e o desejo de trocar cada corda
por um saco de balas.

[clique no título para ver e ouvir]

(días y flores, 1975)

antes do fim

«precisamos de mais unidade dentro da unidade popular.
precisamos de mais unidade para que uma linguagem mais revolucionária seja compreendida.
é preciso chamar as forças revolucionárias que não estão na unidade popular para que se juntem a nós com a responsabilidade histórica rumo à revolução socialista, camaradas.
temos que fortalecer o poder popular, os comandos comunais, é preciso fortalecer os comandos industriais, e não como forças paralelas ao governo, mas como forças populares junto com todo o governo.»

salvador allende

ainda que destruam todos os caminhos,
força nenhuma deterá meu povo.
ainda que nos prendam grilhões e correntes,
não seremos de ninguém escravos.
e seguiremos renascendo nas batalhas,
e seguiremos crescendo e combatendo,
e no solo traído da pátria,
o vermelho, gota a gota, irá nascendo.

chile territorio ensangrentado
chile seguirá por siempre unido
chile luchará contra el tirano
chile no será jamás vencido.

ainda que disparem contra os operários,
bala nenhuma matará meu povo.
ainda que fuzilem os meus companheiros,
ferida nenhuma nos trará a morte.
e seguiremos levantando as bandeiras,
e seguiremos lutando e avançando,
e no solo traído da pátria,
o vermelho, gota a gota, irá nascendo.

chile territorio ensangrentado
chile seguirá por siempre unido
chile luchará contra el tirano
chile no será jamás vencido.

[clique no título para ver e ouvir]

(quilapayún, 1975)

1. nacionalização de riquezas básicas e estatização de parte dos meios de produção

2. nacionalização dos bancos

3. reforma agrária

4. organização de um sistema de participação dos trabalhadores

5. estabelecimento de uma nova ordem institucional – poder popular.

.

«trabalhadores da minha pátria: tenho fé no chile e em seu destino. outros homens superarão este momento cinzento e amargo onde a traição pretende se impor. sigam vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, de novo irão se abrir as grandes alamedas por onde passe o homem livre para construir uma sociedade melhor. viva o chile, viva o povo, viva os trabalhadores! estas são minhas últimas palavras. tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão.»

salvador allende

não passarão
a luta continua
venceremos


venceremos, venceremos,
mil cadenas habrá que romper,
venceremos, venceremos,
la miseria (al fascismo) sabremos vencer.

[clique no título para ver e ouvir]

 (czechoslovakia, 1975)


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas  

quinta-feira, 10 de setembro de 2026


de serra, de terra  e de mar
(sem medo de ser feliz) 


eu sempre quis ser contente
eu sempre quis só cantar 
trazendo pra toda gente
vontade de se abraçar

eu tinha no sol mais quente
a terra pra me alegrar
e a serra florando em frente
lavava os seus pés no mar

mas um dia tudo mudou
a vida se transformou
e a nossa canção também

geraldo vandré


«diante do avanço do bolsonarismo, lula abraça destruidores da amazônia em busca da reeleição»

«alianças do pt no norte incluem uma intervenção em rondônia, que tentou sacrificar a candidatura da ativista neidinha suruí, e o apoio a candidatos que colaboraram para arruinar o licenciamento ambiental»

rafael moro martins
córrego do urubu, cerrado, brasília
27 de agosto de 2026

a força do bolsonarismo e a debilidade do partido dos trabalhadores na amazônia levam a campanha de reeleição do presidente luiz inácio lula da silva a abraçar candidatos e alianças com uma pauta inimiga da floresta. no caso mais extremo, em rondônia, a pressão por uma aliança com o pt fez o comando nacional do partido socialista brasileiro, o psb, intervir no diretório estadual e tentar ceifar a candidatura ao senado da ativista neidinha suruí, doutora em geografia que há mais de 40 anos atua na defesa dos povos originários amazônidas.

na quinta-feira, 13 de agosto, três dias antes do prazo final para o registro de candidaturas, um email chegou à noite ao diretório de rondônia. miguel só foi abri-lo na manhã seguinte. ele trazia anexada uma resolução, assinada por joão campos, «informando a dissolução do diretório, a anulação parcial da convenção, dizendo que a gente não lançaria nenhuma candidatura [para a eleição] majoritária [que escolhe governador e senadores], e determinando que a gente coligaria com o pt», relata o presidente afastado da legenda. «a gente foi pego de surpresa», reforça neidinha suruí. 


para ler a íntegra 
clique no título

eleições 26
[direto do centro do mundo]


ao vento

tudo passa
só o passado não passa
preparar apontar fogo
sem fogo não há fumaça

grill


o trem

em 2005, eu trabalhava no cfc. lembro-me bem...memória que vai, memória que vem... vem daí a metáfora do trem. naquela época, sem as limitações da idade, eu caminhava pelas ruas da cidade e a ladainha era uma só: mensalão, mensalão, mensalão. como eu sempre fui muito identificado com o pt, as pessoas esfregavam o jornal na minha cara: «explica aí, o que tu me diz disso aqui?».

digo aqui 
o que disse lá:

o importante era chegar.
chegar, chegar ou chegar
e quando o trem chega,
chega sem trem.


falando em trem

o trem percorria um pedaço daquela província fria desde temuco até carahue. atravessava extensões imensas e desabitadas, sem cultivo, atravessava os bosques virgens, soava como um terremoto por túneis e pontes. as estações estavam ilhadas no meio do campo, entre acácias e madeiras floridas. os índios araucanos, com seus trajes rituais e sua majestade ancestral, esperavam nas estações para vender aos passageiros carneiros, galinhas, ovos e tecidos. meu pai sempre comprava algo com interminável regateio. com sua barbicha loura, erguia uma galinha em frente a uma araucana impenetrável que não baixava nem meio centavo o preço de sua mercadoria.

cada estação tinha um nome mais bonito, quase todos herdados das antigas possessões araucanas. essa foi a região dos combates mais encarniçados entre os invasores espanhóis e os chilenos nativos, filhos profundos daquela terra.

os araucanos, na guerra pela sua pátria, inventaram a tática da terra arrasada. não deixaram pedra sobre pedra de imperial, cidade descrita pelo poeta dom alonso de ercilla como bela e soberba.

pablo neruda | confesso que vivi, p. 14

já ressoam as votações,
são ouvidas sem parar,
mas o gemido do índio,
por que não se escutará?

legendas + ilustração

[clique no título para ver e ouvir]

(violeta parra, 1961)

da contracapa de canto geral
(disco de geraldo vandré)

«desses tempos em que falar de árvores é quase um crime, pois implica em silenciar sobre tantos erros — aos que virão depois de mim.»

bertolt brecht

.

construindo casas ou pontes, igrejas ou hospitais, pintando, curando doentes, voando ou varrendo as ruas, fazendo política ou amor, morrendo e, porque não, matando, a vida importa somente pela doação que se faz dela, pelo sentido e pela direção. às vezes penso que cantando mereço um pouco a vida. saldo em parte os meus compromissos e tenho então, cada vez mais forte, a impressão da liberdade. por isso aprendo a cantar e canto.

neste disco a palavra geral tem de mim somente uma vontade muito grande de colocar-me sem pudores com o instrumento da comunicação de tudo que aprendi a ver, ouvir, pensar e sentir a respeito do meu tempo, do meu lugar e da gente que vive neles.

o sentido da palavra geral depende, afinal, do acerto no trabalho. das notícias e das emoções que ele possa trazer a cada um de nós e principalmente do uso que faremos delas.

é possível que este disco tenha custado a mim mesmo e a outras pessoas mais do que esperávamos, do que gostaríamos ou do que seria justo que custasse. mas eu tenho uma boa explicação: os critérios de justiça do mundo em que vivemos ainda estão muito longe de poder dar-nos uma certeza e uma garantia mínima do que seja verdadeiramente justo ou injusto.
geraldo vandré – março de 1968.

.

ps: «– vós que vireis na crista da onda em que nos afogamos, quando falardes de nossas fraquezas pensai também no tempo sombrio a que haveis escapado.»

bertolt brecht


meio e mensagem

quem me acompanha aqui pelo américas, deve ter percebido que, em cem por cento dos casos, meus posts vêm acompanhados de texto, imagem e música. obviamente que os três elementos estão intrinsecamente ligados, ou seja, um explica e complementa o outro.

é o caso deste post

na capa original do disco «canto geral», gravado pela emi-odeon em 1968 há duas imagens divididas por uma faixa onde consta o título do lp, em vermelho, e o nome de vandré, em preto. na parte superior, verde, há uma boiada sendo conduzida por um boiadeiro, o gado de cabeça baixa, segue a mesma direção. na parte inferior, amarelo, há um grupo de pessoas reunidas, de cabeça erguida, que olham para alguém ou para alguma coisa, o que é, não sei, mas é algo ou alguém que parece estar longe....

outro significado por trás deste lp, é o seu próprio nome. «canto geral» é o nome de um livro de poemas de pablo neruda lançado em 1950. comparado em importância à «divina comédia», de dante alighieri, ao «popol vuh» e à «folhas de relva», de walt whitman, «canto geral é «a grande canção da américa» — testemunha um grande amor ao chile e ao seu povo, e por extensão, a todos os povos latino-americanos, frequentes vítimas do despotismo.
«canto geral» conta uma história marginal da américa. é um livro de combate e de ternura. foi elaborado em circunstâncias adversas, quando neruda, perseguido, foi obrigado a transpor os andes e refugiar-se no estrangeiro.

é do próprio autor esta declaração: «naquele ano de perigo e clandestinidade terminei meu livro mais importante, o "canto geral"».

e assim nasceu essa magnífica obra: com a indelével marca do sofrimento.

falando em sofrimento


após a promulgação do ato institucional nº5, geraldo vandré teve que deixar o país, dando início ao seu exílio. ele permaneceu um tempo hospedado na casa de dona aracy, esposa de guimarães rosa e depois deu início a sua fuga para o chile, saindo pelo sul do brasil e passando depois pelo uruguai.

sua saída do país lhe causou enorme sofrimento...

e no vai e vem dos ventos
é assim que as coisas são
no mundo como ele é
nosso maior inimigo
somos nós mesmos


quem vai me escutar?
quem vai me entender?
ninguém pode mais sofrer

(geraldo vandré, 1964)


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quarta-feira, 9 de setembro de 2026


mariposas
[borboletas]


hoy viene a ser como la cuarta vez que espero
desde que sé que no vendrás más nunca.
he vuelto a ser aquel cantar del aguacero
que hizo casi legal su abrazo en tu cintura.
y tú apareces en mi ventana,
suave y pequeña, con alas blancas.
yo ni respiro para que duermas
y no te vayas.

silvio rodríguez


as casas de neruda 

por eduardo galeano


neruda/1

fui a isla negra, à casa que foi, que é, de pablo neruda.

era proibido entrar. uma cerca de madeira rodeava a casa. lá as pessoas tinham gravado seus recados para o poeta. não tinham deixado nenhum pedacinho de madeira descoberta. todos falavam com ele como se estivesse vivo. com lápis ou pontas de pregos, cada um tinha encontrado sua maneira de dizer-lhe: obrigado.

eu também encontrei, sem palavras, a minha maneira. e entrei sem entrar. e em silêncio ficamos conversando vinhos, o poeta e eu, caladamente falando de mares e amares e de alguma poção infalível contra a calvície. compartilhamos camarões ao pil-pil e uma prodigiosa torta de jaibas e outras dessas maravilhas que alegram a alma e a pança, que são, como ele sabe muito bem, dois nomes para a mesma coisa.

várias vezes erguemos taças de bom vinho, e um vento salgado golpeava nossas caras, e tudo foi uma cerimônia de maldição da ditadura, aquela lança negra cravada em seu torço, aquela puta dor enorme, e foi também uma cerimônia de celebração da vida, bela e efêmera como os altares de flores e os amores passageiros.

neruda/ 2

aconteceu em la sebastiana, outra casa de neruda, debruçada sobre a montanha, sobre a baía de valparaíso. a casa estava fechada à pedra e cal, com tranca e cadeado e debaixo de sete chaves, habitada por ninguém, fazia muito tempo.

os militares tinham usurpado o poder, o sangue tinha corrido pelas ruas, neruda estava morto de câncer ou de dor. e então uns ruídos estranhos, no interior da casa fechada, chamaram a atenção dos vizinhos. alguém chegou perto e viu, por um janelão alto, os olhos brilhantes e as garras de ataque de uma águia inexplicável. a águia não podia estar ali, não podia ter entrado, não tinha por onde entrar, mas estava lá dentro; e lá dentro agitava violentamente as asas.

o livro dos abrazos, pp 36 e 37


santiago do chile, 1973

no meio da devastação, em sua casa também despedaçada a golpes de machado, jaz neruda. sua morte não era suficiente, por ser neruda homem de muito sobreviver, e os militares assassinaram também suas coisas; transformaram em lascas de madeira sua cama feliz e sua mesa feliz, estriparam seu colchão e queimaram seus livros, arrebentaram os lustres e suas garrafas coloridas, suas cerâmicas, seus quadros, seus caracóis. arrancaram os ponteiros do seu relógio de parede; e no retrato de sua mulher, cravaram uma baioneta, num olho.

de sua casa arrasada, inundada de água e barro, o poeta parte para o cemitério. parte escoltado por um cortejo da amigos íntimos, encabeçados por matilde urrutia. ele tinha dito a ela: «foi tão belo viver quando você vivia.

quarteirão após quarteirão, o cortejo cresce. de todas as esquinas soma-se pessoas, que se põem a caminhar apesar dos caminhões militares cheios de metralhadoras como pontas de um espinheiro, e de guardas e soldados que vão e vêm, em motocicletas e carros blindados, fazendo ruído, metendo medo. atrás de uma janela, uma mão saúda. no alto de um terraço, ondula um lenço. hoje faz doze dias do golpe, doze dias de calar e morrer, e pela primeira vez ouve-se a internacional no chile, a internacional sussurrada, gemida, soluçada mais que cantada, até que o cortejo se faz procissão e a procissão se faz manifestação, e o povo que caminha contra o medo, desanda a cantar pelas ruas de santiago a viva voz, com voz inteira, para acompanhar como se deve neruda, o poeta, seu poeta, em sua viagem final.

o século do vento (memória do fogo), p. 255


companheiros, sepultem-me em isla negra,
frente ao mar que conheço, a cada área rugosa
de pedras e de ondas que meus olhos perdidos não voltarão a ver.
ali quero dormir entre as pálpebras do mar e da terra...
quero ser arrastado para o fundo pelas chuvas que o selvagem
vento do mar combate e desintegra, e depois, pelos leitos subterrâneos,
seguir em direção à primavera profunda que renasce.

[clique no título para ver e ouvir]



inicial

o dia não é hora por hora,
é dor por dor,
o tempo não se dobra,
não se gasta,
mar, diz o mar,
sem trégua,
terra, diz a terra,
o homem espera.
e só
seu sino
está ali entre os outros
guardando em seu vazio
um silêncio implacável
que se repartirá
quando levante sua língua de metal
onda após onda.

de tantas coisas que tive,
andando de joelhos pelo mundo,
aqui, despido,
não tenho mais que o duro meio-dia
do mar, e um sino.

eles me dão sua voz para sofrer
e sua advertência para deter-me.

isto acontece para todo o mundo,
continua o espaço.

e vive o mar.

existem os sinos.

pablo neruda
(do livro póstumo o mar e os sinos, 1973)


«no sino do templo repousa uma borboleta»

yosa buson


qué maneras más curiosas
de recordar tiene uno,
qué maneras más curiosas:
hoy recuerdo mariposas
que ayer sólo fueron humo.
mariposas, mariposas
que emergieron de lo oscuro
bailarinas, silenciosas.

tu tiempo es ahora una mariposa,
navecita blanca, delgada, nerviosa.
siglos atrás inundaron un segundo
debajo del cielo, encima del mundo.

así eras tú en aquellas tardes divertidas,
así eras tú de furibunda compañera.
eras como esos días en que eres la vida
y todo lo que tocas se hace primavera.

ay, mariposa: tú eres el alma
de los guerreros que aman y cantan
y eres el nuevo ser que se asoma por mi garganta.

silvio rodríguez + rey guerra

[clique no título para ver e ouvir]

(mariposas, 1999)


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