los hermanos
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«cantamos a obra de meu pai, atahualpa yupanqui, porque nos permite falar de assuntos que vêm desde muito longe e muito fundo nos homens. nesta obra nos reconhecemos e nosso recital constitui nossa melhor contribuição na direção de um mesmo ideal: um mundo de hermanos.»
roberto kolla chavero | theatro sete de abril
16 de novembro de 2003
pelotas - rs - brasil
américas
por luis rubira
texto publicado no diário popular
pelotas, 2005
no ano de 2003, kolla yupanqui, filho de don atahualpa, elegeu um especialista em música que mora na cidade de pelotas para representar a fundação atahualpa no brasil.
enilton grill é, certamente, uma das pessoas que mais entende da multiplicidade musical produzida nos três continentes americanos. em sua casa, ao entrar na sala, já nos deparamos com quase dois mil CDs criteriosamente escolhidos.
conhecido por muitos músicos, recebe discos que vêm de longe e de culturas específicas, tais como os de amâncio prada — uma pedra preciosa da galícia.
para se ter uma ideia, enilton grill apresentou um dos maiores músicos do uruguai, daniel viglietti, a um dos maiores nomes da música no brasil: dorival caymmi. e, no disco ramilonga - a estética do frio, entre as pessoas a quem vitor ramil agradece, está o nome de enilton.
há quase dez anos apresenta o programa américas numa rádio da cidade de pelotas, já tendo percorrido praticamente todos os caminhos musicais destas vastas culturas de língua portuguesa, espanhola e inglesa.
seus programas são um luxo não só sonoro, mas educativo, pois partem da música, mas percorrem caminhos da história, da filosofia, da política e outros «caminhos no bosque», como diria o filósofo martin heidegger.
na sala de sua casa, além dos discos e de muitos livros especializados em música, podemos ver três quadros na parede que revelam o tripé onde sua lente musical está apoiada: ali aparecem as fotos de bob dylan, chico buarque e atahualpa yupanqui.
aproveitando esta homenagem que o fórum social mundial presta a yupanqui, esperamos que a fundação atahualpa receba incentivo para sua concretização.
afinal, já está na hora de o conhecimento de enilton não ficar reduzido a privilegiados ouvintes da cidade de pelotas, mas, tal como as coplas de yupanqui, ser repartido com outras pessoas de nosso país.
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links
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do documentário «un río que no cesa de cantar»
fragmento (1:06)
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canciones que nacen del camino
em janeiro de 2016, fazia dois anos que vivi e eu tínhamos nos mudado para o repecho. foi quando o poeta e amigo martim césar me enviou um e-mail com o convite para o lançamento do cd «canciones que nacen del camino».
o evento foi no teatro esperança, em jaguarão, na fronteira com o uruguai. no e-mail, martim escrevia: «tomara que possam... se puderem, fazes algum pequeno texto de abertura.»
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abertura
fronteira não é lugar de divisão...
fronteira é lugar de inclusão, de integração.
disse bem aldyr garcía schlee, na fronteira é tudo uma coisa só.
e é mesmo, tem razão. aqui e agora, por exemplo, com o testemunho do rio jaguarão temos diante de nós três pátrias num só palco: oscar massita (uruguai), martim césar (brasil) e roberto chavero (kolla yupanqui) argentina.
tudo isso não é pouco. é muito o que se faz aqui. basta ver o que fizeram de nós fora daqui: imagem estilhaçada, pedaços sem conexão entre si.
repito: é muito o que se faz aqui. pois fora daqui nos fizeram um corpo mutilado, uma cara por descobrir.
mas se o mundo está dentro
¿afuera, por qué mirar?
o canto do vento. a música que toca o rio. o latido humano que brota da terra. ir e vir. caminhar, caminhar. e as canções, as canções; mil símbolos, mil razões e três troncos de uma só raiz me trouxeram até aqui.
fora da margem de dentro / entre o caule e o rebento / há sempre um pequeno espaço // entre movimento e passo / entre passo e movimento / a corda que faz o laço / a força que faz o braço / acordar o pensamento.
pensando bem: ¡que coisas tem a vida/misteriosas por demais! estamos onde queremos estar, muitas vezes sem pensar. o pensamento então parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar -é que as léguas desaparecem, se a alma começa a-le-tear - bater asas / sem sair do lugar.
do outro lado da mente / do outro lado da gente / do lado da gente do outro lado / do lado da gente que fica de frente / da gente que vive o futuro-presente / o tempo presente não repete o passado, mas traz ele consigo.
há que se olhar para frente, mas com los recuerdos detrás.
afinal, de que pegadas partem nossos passos para que nasçam canções pelo caminho?
de minha parte, para encerrar:
só estão longe as coisas que não sabemos mirar...
que não sabemos ouvir...
que não sabemos escutar.
nós
que aqui estamos
escutamos
ao longe
as payadas jaymecaetanas
as zambas yupanquianas
as milongas alfredianas
porque estamos perto
de oscar, de martim e de roberto
repecho, verão de 2016
enilton grill
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à flor da pele
antes disso, fui convidado por daniel viglietti para ir com ele a montevidéu. daniel foi muito amigo de atahualpa. falei para ele do convite feito pelo kolla para que eu representasse a fundação atahualpa no brasil. disse a ele que não conhecia a argentina — não conheço mesmo. lembro que ele ficou muito surpreso. como assim?! então, disse que entraria em contato com pessoas que me levariam ao cerro colorado. cerro colorado — na província de córdoba, na argentina — é o lugar sagrado onde estão as cinzas de yupanqui e é a sede da fundação atahualpa yupanqui.
abri um sorriso amarelo e agradeci. disse a viglietti que gostaria muito, mas que não podia, pois acabara de passar 10 dias «vivendo de poesia» e tinha que voltar para pelotas e reassumir meu lugar no cfc.
na verdade, a gente sempre pode: basta querer. se eu ainda quisesse, largava tudo e ia. mas algo havia mudado, eu beirava os 40 e começavam a soprar outros ventos pelo meu costado.
eu já não olhava apenas para a casa e o trabalho. minha visão havia se ampliado. eu sentia todo e qualquer sinal que passasse por mim: à frente, atrás e ao lado. meus sentidos estavam todos acionados. como diria baleiro, eu estava à flor da pele. eu supunha que queria ser poeta, mas no fundo queria ser poema. o cfc já era passado. o «casamento» já tinha dançado.
eu estava apaixonado.
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o que será que me dá
que me queima por dentro, será que me dá
que me perturba o sono, será que me dá
que todos os tremores me vêm agitar
que todos os ardores me vêm atiçar
que todos os suores me vêm encharcar
que todos os meus nervos estão a rogar
que todos os meus órgãos estão a clamar
e uma aflição medonha me faz implorar
o que não tem vergonha, nem nunca terá
o que não tem governo, nem nunca terá
o que não tem juízo
link
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[vídeo - com milton mascimento]
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falando em poema
lembrei de um
do ano passado
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faz 40 que fiz 20
quando eu tinha 20
40 era um acinte
agora que fiz 60
o poema ainda se sustenta
minha alma é de 20
40 foi um acinte
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el tiempo pasa
nos vamos poniendo viejos
el amor no lo reflejo como ayer
[en vivo - con «la reina» mercedes sosa]
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normal, é assim com todo mundo,
o tempo passa.
a diferença — se é que há —
é que eu olho pra trás e acho graça.
verdade.
começaria tudo outra vez.
não me arrependo de nada.
vivi cada dia como se fosse o último.
que não seja imortal, posto que é chama,
mas que seja infinito enquanto dure.
depois,
somei noite mais noite olhando a lua,
decorei cada estrela que brilhava,
morri mais de uma vez em cada rua.
e hoje,
parece mentira,
estou aqui
mais vivo do que nunca.
pobre do tempo que não me alcança:
nunca se alcança aquilo que flutua.
o personagem de robin williams,
em sociedade dos poetas mortos, pergunta:
— qual será o seu verso?
eu respondo:
— meu verso é minha loucura!
e levanto-a, como um facho, a arder na noite escura.
se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens
e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
se eu fosse contar como queria passar a minha vida alguns anos atrás,
provavelmente surpreenderia os leitores.
o mais que faço, porém, não vale nada:
dar conselhos a um homem culto é supérfluo;
aconselhar a quem ignora tudo é inútil.
não se pode confiar às cegas em nenhuma maneira de pensar,
por mais antiga que seja.
grande parte das coisas que a maioria dos mais velhos dizem ser boas,
acredito do fundo da alma que são ruins.
não vou por aí.
só vou por onde me levam meus próprios passos.
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
as capacidades do homem jamais foram medidas,
e tampouco podemos julgar do que ele é capaz
tomando como base qualquer precedente.
eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada, cheia de dentes,
esperando a morte chegar.
que as pessoas sonhem!
a mente humana está cheia de imaginação:
tente outra vez.
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tente
e não diga que a vitória está perdida
se é de batalhas que se vive a vida
tente outra vez
[vídeo oficial - com letra e animação]
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agora é tarde
...
«a minha poesia consistiu numa tentativa de inventar para mim uma identidade. depois de inventada e assumida, já não me ocorre aquele apostar-me inteiro em tornar-me poema para chegar a ítaca. ítaca já não há e eu não sou mais o que era.»
«no volveré a ser joven.
que la vida iba en serio uno lo empieza a comprender más tarde...
pero ha pasado el tiempo y la verdad desagradable asoma:
envejecer, morir, es el único argumento de la obra.»
«juventud, divino tesoro,
¡ya te vas para no volver!
cuando quiero llorar no lloro,
y a veces, lloro sin querer.»
...
mas lembre-se:
a mente humana é imaginação.
tente outra vez.
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está sempre
essa pessoinha feliz
transformando o que está sujo em ouro.
sempre
chega até o salão principal,
onde fica o motor
que aciona a luz.
sempre lá
faz sua melhor tarefa
o reparador de sonhos
[en vivo - con silvito]
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«havia um artista na cidade de kouroo que estava disposto a alcançar a perfeição. um dia ocorreu-lhe a ideia de fazer um bastão. considerando que o tempo é um ingrediente num trabalho imperfeito, mas que num trabalho perfeito o tempo não entra, disse a si mesmo: será perfeito em todos os aspectos, mesmo que eu não faça mais nada em minha vida.
foi buscar madeira na floresta. enquanto procurava e rejeitava vara após vara, seus amigos o abandonaram e morreram, mas ele não envelheceu um só instante. sua perseguição de um único fim o dotou da eterna juventude. como ele não fazia nenhuma concessão ao tempo, o tempo se mantinha fora de seu caminho, suspirando à distância por não conseguir vencê-lo.»
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[clipe]
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«do outro lado das colinas, as acácias cheiram a mel. e na cidade, não muito longe daqui, o vento ergue papéis velhos em redemoinhos pelas ruas. nos mercados, anunciam morangos de salto. os cachorros cochilam ao sol junto dos mendigos. sentado na beira da calçada, um garotinho desenha o mundo com um palito.»
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numa folha qualquer,
eu desenho um sol amarelo
[con letra e imag[i]nação]
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falando em sol amarelo
lembrei de facundo cabral
lembrando facundo
lembrei do mundo
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«giro um simples compasso
e num círculo eu faço o mundo
ponho o sol no ombro
e o mundo é amarelo.
[que descolorirá]»
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de volta ao começo
los hermanos
roberto kolla chavero | theatro sete de abril
16 de novembro de 2003
pelotas - rs - brasil
uns dias antes do recital, fui colar os cartazes na porta do theatro e dei de cara com o diretor:
– e aí, cara, tudo bem?
– tudo bem...
– quem tu tá trazendo dessa vez?
quando mostrei o cartaz, o coitado quase teve um troço.
– cara, tu tá trazendo o «los hermanos»?!
levei um bom tempo até explicar que «los hermanos» não era nome de banda de rock, e sim uma milonga belíssima, composta por atahualpa yupanqui e cantada por mercedes sosa.
– bem que eu achei que tava muito barato pra ser o «los hermanos».
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«y así seguimos andando
curtidos de soledad
nos perdemos por el mundo
nos volvemos a encontrar»
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un documental dirigido por federico randazzo abad
producido por bellasombra, bosque cine
apoyo de la fundación atahualpa yupanqui.
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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas