o jogo por trás do jogo
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no dia de ontem, 2 de julho, foi celebrado o dia mundial do jornalista esportivo. a comemoração foi criada no ano de 1994 pela associação internacional de imprensa esportiva (aips – international sports press association), como forma de festejar seus 70 anos.
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sobre jornalismo esportivo
«não sei qual a porcentagem, mas sei que existe uma parte do jornalismo que responde aos interesses daqueles que detêm o poder.»
«eu disse: "não sei a proporção. mas sei que há uma porcentagem de jornalistas que respondem, que não dizem o que deveriam dizer, e há outra porcentagem que diz o que deveria dizer. portanto, continuo inocente porque não estou acusando todos. estou acusando a porcentagem que permanece em silêncio.»
marcelo «el loko» bielsa
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«fracassei em tudo o que tentei na vida. mas os fracassos são minhas vitórias. eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.»
darcy ribeiro
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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»
celso borges
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sobre jornalismo
vou contar uma coisa que quase ninguém que me conhece sabe. em 89, quando voltei pra pelotas, vindo de são luís (ma), consegui emprego de estagiário num jornal da cidade. no primeiro dia, o encarregado me colocou numa mesa com uma máquina de escrever e uma folha em branco. ele me deu o prazo de uma hora para que eu escrevesse sobre qualquer coisa. ou seja: tema livre. isso eram mais ou menos umas oito e meia da manhã, quando bateu meio-dia eu não tinha escrito uma palavra sequer. o encarregado se aproximou de mim e disse: «guri, vai procurar outra coisa pra fazer. aqui só se dá bem quem gosta de escrever». desde então, jurei nunca mais deixar uma folha em branco. tenho feito o que posso. hoje acabei de preencher mais uma, amanhã vou preencher outra e depois de amanhã outra. é o plano das 24 horas, aprendi no aa.
grill
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maradona, napoli, nápoles...
havia mais de meio século que o time da cidade não ganhava um campeonato, cidade condenada às fúrias do vesúvio e à derrota eterna nos campos de futebol e graças a maradona, o sul obscuro tinha conseguido, finalmente, humilhar o norte branco que o desprezava. campeonato atrás de campeonato, nos estádios italianos e europeus, o napoli vencia, e cada gol era uma profanação da ordem estabelecida e uma revanche contra a história.
em milão odiavam o culpado desta afronta dos pobres e não só em milão: no mundial de 90, na itália, a maioria do público castigava maradona com furiosas vaias toda vez que tocava a bola.
quando maradona disse que queria ir embora de nápoles, houve os que lhe lançaram pelas janelas bonecos de cera atravessados por alfinetes. prisioneiro da cidade que o adorava e da camorra, a máfia dona da cidade, ele já estava jogando contra a vontade, no contra-pé; e então, explodiu o escândalo da cocaína.
maradona transformou-se subitamente em «maracoca», um delinqüente que se tinha feito passar por herói. mais tarde, em buenos aires, a televisão transmitiu o segundo acerto de contas: a detenção, ao vivo, como se fosse uma partida, para deleite dos que desfrutaram o espetáculo do rei nu que a polícia levava preso. «é um doente», disseram. e disseram: «está acabado».
o messias convocado para redimir a maldição histórica dos italianos do sul tinha sido, também, o vingador da derrota argentina na guerra das malvinas, mediante um gol velhaco e outro gol fabuloso, que deixou os ingleses girando como piões durante alguns anos; mas na hora da queda, o pibe de ouro não passou de um farsante cheirador e putanheiro.
deram-no como morto. mas o cadáver levantou-se de um salto. cumprida a penitência da cocaína, maradona foi o bombeiro da seleção argentina, que estava queimando suas últimas possibilidades de chegar ao mundial de 94. graças a maradona, chegou lá. e no mundial, maradona era outra vez, como nos velhos tempos, o melhor de todos, quando estourou o escândalo da efedrina.
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o mundial de 94
jogou, venceu, mijou, perdeu. a análise acusou a presença de efedrina e maradona acabou de mal jeito o mundial de 94.
maradona nunca havia usado estimulantes, nas vésperas das partidas, para multiplicar seu corpo. é verdade que se metera com cocaína, mas se dopava em festas tristes, para esquecer ou ser esquecido, quando já estava encurralado pela glória e não podia viver sem a fama que não o deixava viver. jogava melhor do que ninguém, apesar da cocaína, e não por causa dela.
maradona carregava uma carga chamada maradona, que fazia sua coluna estalar. o corpo como metáfora: suas pernas doíam, não podia dormir sem comprimidos. não tinha demorado a perceber que era insuportável a responsabilidade de trabalhar como deus nos estádios, mas desde o princípio soube que era impossível deixar de fazê-lo.
«necessito que me necessitem», confessou, quando já tinha há muitos anos o halo na cabeça, submetido à tirania do rendimento sobre-humano, intoxicado de cortisona, analgésicos e ovações, acossado pelas exigências de seus devotos e pelo ódio dos que ofendera.
a máquina do poder o tinha jurado. ele lhe dizia de tudo, e isso tem seu preço, o preço se paga à vista e sem descontos. e o próprio maradona ofereceu a justificativa, por sua tendência suicida de servir-se de bandeja na boca de seus muitos inimigos e por essa irresponsabilidade infantil que o impele a precipitar-se em todas as armadilhas que se abrem em seu caminho.
os mesmos jornalistas que o pressionam com os microfones, reprovam sua arrogância e suas zangas e o acusam de falar demais. não lhes falta razão; mas não é isso que não podem perdoar nele: na verdade, não gostam do que às vezes diz. este garoto respondão e esquentado tem o costume de lançar golpes para cima.
em 86 e em 94, no méxico e nos estados unidos, denunciou a ditadura onipotente da televisão, que obrigava os jogadores a extenuar-se ao meio-dia, esturricando-se ao sol, e em mil e uma ocasiões, ao longo de toda a sua acidentada carreira, maradona disse coisas que mexeram em casa de marimbondos.
ele não foi o único jogador desobediente, mas foi sua voz que deu ressonância universal às perguntas mais insuportáveis: por que o futebol não é regido pelas leis universais do direito do trabalho? se é normal que qualquer artista conheça os lucros do show que oferece, por que os jogadores não podem conhecer as contas secretas da opulenta multinacional do futebol?
quando maradona foi, finalmente, expulso do mundial de 94, os campos de futebol perderam seu rebelde mais clamoroso. e perderam também um jogador fantástico. maradona é incontrolável quando fala, mas muito mais quando joga: não há quem possa prever as diabruras deste criador de surpresas, que jamais se repete e goza desconcertando os computadores.
no frígido futebol do fim de século, que exige ganhar e proíbe divertir-se, este homem é um dos poucos que demonstra que a fantasia também pode ser eficaz.
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eduardo galeano | futebol ao sol e á sombra, 1995.
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se eu fosse maradona, viveria como ele
(porque o mundo é uma bola que se vive à flor da pele)
houve uma vez que saí de santa vitória rumo ao beira rio e pecorri 500 km sozinho num ônibus de excursão só pra ver o inter de falcão.
tinha oito anos e pra mim não houve outro inter como o inter de falcão (nem o de fernandão).
depois cerezzo atravessou aquela bola o mundo chorou e eu também.
tinha 17 anos e pra mim não houve outra seleção como a seleção de sócrates zico e falcão (nem a de dunga nem a de felipão).
houve uma época que esperava ansioso o domingo pela manhã era uma época boa e as coisas mais fáceis do que são e do que estão.
tinha 20 anos e pra mim não houve outro maradona como aquele maradona do nápoli (do nápoli de maradona careca e alemão).
o tempo passa, hoje as coisas estão mais difíceis e o futebol sem graça.
há quem diga que a memória é seletiva e outros que é remota.
acho que são as duas juntas a razão de eu lembrar a escalação do inter de falcão e não o de fernandão.
a mim não importa que um tenha sido campeão (do mundo) e o outro não. a vida é vivida e o jogo jogado. não sou guiado pela razão nem por resultado. quem sabe se eu fosse diferente, tivesse dado certo no mundo como ele é. diga-se de passagem, isso não tem nenhuma importância. o que importa é que mundo é como é e eu sou como sou. não sei o que é certo nem o que é errado. cada um é o que é e vive como quer. se eu fosse maradona viveria como ele...
grill
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confidência do itabirano
alguns anos vivi em itabira.
principalmente nasci em itabira.
por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
noventa por cento de ferro nas calçadas.
oitenta por cento de ferro nas almas.
e esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
a vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
e o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
de itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do brasil;
este são benedito do velho santeiro alfredo duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…
tive ouro, tive gado, tive fazendas.
hoje sou funcionário público.
itabira é apenas uma fotografia na parede.
mas como dói!
carlos drummond de andrade
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o parto
ao amanhecer, dona tota chegou a um hospital no bairro de lanús. ela trazia um menino na barriga. no umbral, encontrou uma estrela, na forma de prendedor de cabelos, jogada no chão.
a estrela brilhava em um lado, e no outro não. isso acontece com as estrelas, toda vez que caem na terra, e na terra se reviram: em um lado são de prata, no outro são só de lata.
essa estrela de prata e de lata, apertada na mão, acompanhou dona tota no parto.
o recém-nascido foi chamado de diego armando maradona.
eduardo galeano
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ao vento
a vida é uma loteria
de noite e de dia
é da vida perder e ganhar
lembrei de lembrar
pois maradona
já me fez sorrir e já me fez chorar
grill
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a vida é uma loteria
de noite e de dia
la vida es una tómbola
y arriba y arriba
la vida tómbola | manu chao (2007)
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a propósito da foto de maradona
«seja forte, diego, não desista. fique com seus companheiros. eu vivi o espírito de equipe na minha época. e se você puder continuar jogando, não pare», dizia a carta do escritor ernesto sábato, em 1994, após a copa do mundo.
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nas outras imagens, um pouquinho da minha própria história e dos meus mind games (jogos mentais) .
📸 praia da ponta do farol, são luís (ma), 2008.
«estamos jogando esse jogos mentais juntos»
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#américas






