segunda-feira, 24 de agosto de 2026

el tiempo, el implacable, el que pasó 

••••••••••••••

o peso dos dias não é o mesmo peso
da pedra

a pedra, pelo menos,
tem a decência de ficar no chão

o dia não
o dia sobe nas costas
e ainda pergunta
por que eu ando empenada

tenho dívidas que não cabem em papel
cobranças sem cobrador
promessas que eu nunca fiz
e mesmo assim me seguem
que nem cachorro atrás de carteiro

tem uma conta antiga
morando no peito

não sei quem fez
não sei quando venceu
só sei que todo dia
acorda primeiro que eu

e eu pago

pago com insônia
pago com silêncio
pago com aquele pedaço de alegria
que eu estava guardando pra depois

afeto também pesa

quem ama, carrega

carrega o retrato de quem foi
o nome de quem ficou
a voz de quem não disse nada
o rosto de quem disse demais

carrega até o que queria esquecer
e por injustiça ou desatino
é justamente o que mais pesa

meu coração é um jumento teimoso

bota o mundo em cima
e ele vai

mais uma saudade
ele vai

mais uma dívida
mais uma decepção
mais uma esperança besta
e ele dá aquele passinho miúdo
na estrada quente

até que um dia para

fica ali
com a carga nas costas
o sol no lombo
a poeira subindo pelas canelas

a dívida vencida
a estrada comprida
e o mundo não tira nada de cima dele

ele para
levanta a cabeça
o céu não ajuda
mas está lá

ele olha pra cima
como se fosse reclamar

mas desiste

vai que deus
também está devendo.

simone bacelar

••••••••••••••

juventud, divino tesoro
decía mi viejo
y uno pensaba que los años 
no iban a pasar

grill

••••••••••••••

«ontem, passava pela galeria zaballeta e cruzei com um cara que não via há uns 33 anos. era um inimigo mortal que eu tinha no colégio. éramos iguais a cão e gato, bastava um encontro e a briga comia. claro, uma briga de merda, devíamos ter uns 9 ou 10 anos. acho que deve estar morando em outra cidade, mas o curioso de tudo, é que ele vinha com duas crianças pequenas e quando me enxergou fez uma cara de surpresa e espanto. demorei para conhecê-lo, mas por incrível que pareça, demos uma balançada de cabeça meio tímida e cada um seguiu seu caminho, talvez para nunca mais acontecer algum encontro ou conversa. conto isso, pois o tempo acaba dando entendimento para tudo. não sei o que ele passou nesse tempo, ele também não sabe o que passei, mas ambos talvez saibamos que a vida é dura, corrida, com perdas e ganhos. sabemos que o tempo é implacável, pessoas que amamos nascem, pessoas que amamos vão, e o mundo segue correndo não dando a mínima pra ti.»

luciano oxley

••••••••••••••

juventud, divino tesoro,
¡ya te vas para no volver!
cuando quiero llorar, no lloro...
y a veces lloro sin querer.

en vano busqué a la princesa
que estaba triste de esperar.
la vida es dura. amarga y pesa.
¡ya no hay princesa que cantar!

a pesar del tiempo terco,
mi sed de amor no tiene fin;
cabello gris, así me acerco
a los rosales del jardín...

link

👇

canta: paco ibáñez

••••••••••••••

médicos

dia desses, ao ler um texto meu, um amigo que não vejo (pessoalmente) há uns 43 anos, deu um telefonema para um amigo seu, o amigo deu um telefonema para não sei quem, não sei quem orientou um caminho, meu amigo falou comigo de novo, pediu que eu falasse com o amigo dele, eu falei, o amigo dele me indicou o caminho certo, esperei na fila como todo mundo espera, marquei uma hora, e agora vou resolver um problema que me incomoda e muito desde que voltei para a cidade. detalhe: a vida, tanto para o meu amigo quanto para o amigo dele, é pra lá de corrida. ambos são médicos e pessoas muito bem-sucedidas na profissão que exercem. nenhum deles é da minha família — que, por sinal, está cheia de médicos.

grill

••••••••••••••

en este breve ciclo en que pasamos
cada paso se da porque se siente.
al hacer un recuento ya nos vamos
y la vida pasó sin darnos cuenta.

cada paso anterior deja una huella
que lejos de borrarse se incorpora
a tu saco tan lleno de recuerdos
que cuando menos se imagina afloran.

link

👇

canta: mercedes sosa

••••••••••••••

foto: mercedes sosa e eu
autor: antonio soler
cantamérica
porto alegre
1996

••••••••••••••

#américas 

domingo, 23 de agosto de 2026

 

casa das putas 

••••••••••••••

stefanie

«era uma mulher muito bonita dedicada à prostituição — a profissão mais antiga do mundo, segundo dizem — porque queria voltar ao seu país para se casar. ela não tinha a menor ideia do que era a luta de classes, e era justamente ali que ganhava a vida. tampouco tinha noção da sociedade à qual pertencia — a mesma sociedade que a havia rejeitado e expulsado.

com essa mulher eu estive conversando uma noite, em uma boate de são paulo. por razões do seu ofício, ela gostaria de ter tido comigo um trato profissional. dessa conversa me ficou gravada uma afirmação sua ("não há dor mais atroz do que ser feliz"), que se tornou justamente o primeiro verso e o ponto de partida da canção.»

alfredo zitarrosa

••••••••••••••

eu cresci na 28, em meio às putas

por elaine tavares

meu avô abrigava nossa família em um bar/armazém que também servia de abrigo para os visitantes da famosa «casa das putas» vizinha. aos três ou quatro anos, eu picotava salaminho no longo balcão de pedra onde se debruçavam os que caçavam amores fortuitos.

a «casa das putas» ficava colada à casa do vô, e circulávamos entre as mulheres que tomavam sol, penteavam os cabelos ou raspavam as pernas, sem qualquer preconceito por parte da família. havia cheiro de rosas, de lavanda, de pó de arroz e elas gostavam de brincar com a gente.

eram as mulheres do bordel as responsáveis pelo passeio mais lindo: os passeios de carruagem, cenário de sonho que nunca se descolou das minhas retinas. elas me apareciam como fadas, princesas, rainhas, e até hoje a lembrança daqueles dias me provoca ternura.

a rua 28 segue viva em mim. e vez em quando, nas noites, escuto o toque da gaita, o cheiro da pinga com salame, as risadas e o tropel dos cavalos. e aquelas mulheres, cheias de universos conversam comigo ao pé do bebedouro. ainda somos irmãs.

••••••••••••••

canção de amor para francisca

por enilton grill

quase todos conhecemos «sólo le pido a dios», de león gieco. poucos de nós, no entanto, fomos apresentados a «canção de amor para francisca». proibida pela ditadura argentina nos anos 70, a faixa nasceu como uma homenagem de león a uma prostituta de sua cidade natal, de quem ele se lembrava dos tempos de menino.

••••••••••••••

«numa casa no bairro de san pedro, francisca mostra todo o seu corpo, guardando dinheiro entre os seios, bebendo vinho tinto e um pouco de gim. veste-se de verde, veste-se de rosa e despe-se muy silenciosa. francisca não trabalha às segundas; com uma cestinha de flores e sua filhinha, correm pela floresta, pelos caminhos e campos. ela diz que os beijos, pardais e flores têm mais perfume às segundas-feiras. pele de canela, olhos de relva, cabelos longos e hálito de trigal. num quarto nos fundos da casa, os homens passam, os homens passam; ninguém lhe oferece trabalho porque têm medo de perdê-la. francisca não trabalha às segundas; com uma cestinha de flores e sua filhinha, correm pela floresta, pelos caminhos e campos. ela diz que os beijos, pardais e flores têm mais perfume às segundas-feiras.»

••••••••••••••

«canção de amor para francisca» retrata a vida de uma profissional do sexo. a letra expõe a crueza de sua rotina diária e revela seu lado mais humano, terno e maternal durante seus dias de descanso, tornando-se um ato de empatia social e resistência contra a censura da ditadura militar.

cantar francisca ao vivo custou a león gieco detenções em comodoro rivadavia e córdoba.

por causa de sua temática realista, a canção acabou censurada e banida pelo regime vigente.

••••••••••••••

links

👇

léon gieco / joana gieco / alejo león
avô / filha / neto
8 out 2021



👇

clipe



👇

[león gieco ao vivo luna park 28 de julho de 1978]

••••••••••••••

lembro de uma casa das putas, em santa vitória do palmar. ficava perto do ctg e próxima ao cemitério. entrei só uma vez. olhei para uma moça: ela queria o que eu não tinha, eu queria o que ela tinha pra me dar. entrei, mas não me dei. não sabia nada da vida. não sabia e ainda não sei. ainda me apaixono como aquela vez me apaixonei.

••••••••••••••

ojalá por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos en todas las visiones
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones

link

👇

[ao vivo e com letra]

••••••••••••••

recuerdos da 28

lembro de uma outra vez na casa das putas, em santa vitória do palmar. se da primeira vez, eu me apaixonei, dessa vez, eu briguei. não sabia nada da vida. não sabia e ainda não sei. brigar, não brigo mais, mas ainda me apaixono como uma vez me apaixonei.


para quem não sabe, a paixão é o motor da arte. por isso, quando falta o amor real, o poeta inventa uma paixão de mentira para que a sua arte se mantenha viva. ou seja: na falta da verdade, apaixona-se de mentira.

mas há quem pense que a paixão é de verdade.

fazer o quê?!

••••••••••••••

era inverno sim
eu perdido em mim
rabiscava uns versos pra enganar a dor
o tédio, o pranto, o tombo
e encantava mágoas milongueando sonhos

mauro moraes y comparsa elétrica 

••••••••••••••

o poeta é um fingidor finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. e os que lêem o que escreve, na dor lida sentem bem, não as duas que ele teve, mas só a que eles não têm. e assim nas calhas de roda gira, a entreter a razão, esse comboio de corda que se chama coração.

fernando pessoa

••••••••••••••

de vez em quando quando boto a mão nos cobre não existe china pobre, nem garçom de cara feia eu sou de longe, onde chove e não goteia não tenho medo de potro, nem macho que compadreia boleio a perna e vou direto pro retoço quanto mais quente o alvoroço, muito mais me sinto afoito e o chinaredo, que de muito me conhece sabe que pedindo desce, meu facão na «28» remancheio num boteco ali nos trilhos

link

👇

por juarez brasil e grupo os gaudérios
10ª califórnia da canção nativa do rs

••••••••••••••

verdade seja dita, salvo honrosas exceções, hoje não tenho quase nenhuma afinidade com a música nativista. não gosto dos temas, das letras, do ritmo, da entonação e, muito menos, da postura ideológica da maioria dos seus artistas. mas nem sempre foi assim. houve um tempo em que eu tomava mate ao fim da tarde, na calçada em frente de casa, milongueando paixões.

••••••••••••••

esta canção
não é mais que uma canção
quem dera fosse uma declaração de amor

link

👇

iolanda | pablo milanés | 1975
canta: chico

••••••••••••••

falando em paixões
voltemos à paixão de alfredo
por stefanie

••••••••••••••

exílio. buenos aires. stéphanie

por carlos bouzas (uruguay)

«em fevereiro de 1976, diante da intensificação da repressão ditatorial, tive que atravessar para a argentina.

a família de alfredo pediu-me para estabelecer rapidamente uma relação com o "flaco", uma vez que o seu estado de ânimo não era dos melhores. encontrei-o trancado num minúsculo quarto de hotel, no escuro, com um leve aroma de tabaco. conversamos bastante, preparei um mate e combinamos de tentar trabalhar juntos. seu relacionamento com o seu empresário não ia nada bem.

pouco depois, surgiu a oportunidade de um contrato para alfredo e três violonistas se apresentarem em são paulo. alfredo insistiu para que lutasse por mais uma passagem, para mim, como seu representante, e assim sair da argentina, voltar e ter novamente o visto de turista. não foi possível. apenas quatro passagens, estadia em um bom hotel, e acima de tudo, pagamento antecipado na chegada ao brasil. foi um dinheiro muito bom, para quatro apresentações. e a comissão permitir-me-ia melhorar um pouco a minha triste economia.

[...]

alfredo voltou feliz. naquela segunda-feira conversamos longamente em seu apartamento. ele resumiu a situação brasileira, em contraste com a do uruguai e da argentina, como muito mais aberta e menos repressiva. você pode fazer coisas artísticas e algumas políticas.

já terminando a conversa, me interessei pelo dinheiro, pela minha comissão.

«ah, carlitos, eu não trouxe peso nem dólar.»

«mas, "flaco», não te pagaram adiantado?», perguntei.

«sim, sim», ele respondeu meio hesitante. largou o mate, serviu-se de um uísque e começou: «no sábado, antes da segunda apresentação daquela noite, me senti muito, muito deprimido. no bar do hotel pedi uma bebida, depois outra, e de repente uma mulher de excepcional beleza aparece na minha frente. pago uma bebida para ela, conversamos, subimos para o meu quarto. e eu me apaixonei perdidamente. sugeri viajar para buenos aires. viver juntos. me casar. eles bateram na porta do meu quarto para fazer minha segunda apresentação. nada mais importava para mim. havia descoberto o amor novamente. e isso me demoliu, carlitos, me demoliu. ela me disse que não ia a lugar nenhum, que estava fazendo isso por dinheiro. mas carlitos, tenha paciência, seus dólares vão aparecer. tenho uma música na cabeça que vai dar muito certo, tenho certeza, e se chamará "stefanie".»

••••••••••••••

stefanie, no hay dolor más atroz que ser feliz.
decías anoche: ouve me por favor, bésame aquí.
stefanie, sé que tu corazón, fala de mim,
y eso es dolor, stefanie

link

👇

(legendado en español)

••••••••••••••

quatro horas da madrugada
é hora de ir embora

••••••••••••••

são quatro horas da madrugada os galo já está cantando eu tenho de ir-me embora morena, vou lhe dar a despedida

link

👇


••••••••••••••

alcei a perna no pingo e saí sem rumo certo olhei o pampa deserto e o céu fincado no chão troquei as rédeas de mão mudei o pala de braço e vi a lua no espaço clareando todo o rincão


••••••••••••••

«one more cup of coffee for the road
one more cup of coffee ’fore i go
to the valley below»

[legendado em português]

••••••••••••••

carpe diem
bom domingo

sábado, 22 de agosto de 2026


de pampa e sertão 

••••••••••••••

«la pampa es el cielo al reves»

atuahualpa yupanqui 

.

«sertão é dentro da gente»

guimarães rosa 

••••••••••••••

antônio açougueiro

por paulo freire 

logo que mudei para minha primeira casa no urucuia, conheci o trabalho de seu antônio açougueiro. de manhã bem cedo fui lavar o rosto no rio. quando voltei vi um boi sangrando no curral que havia ao lado de casa, enquanto antônio limpava sua faca.

o sistema era o seguinte: laçava o bruto, levava até um tronco fincado no chão em frente ao curral. amarrava a cabeça do animal rente ao tronco e enfiava uma faca bem afiada pela goela do bicho. o sangue escorria, a perna dobrava, o boi ia amolecendo até morrer. depois cortava ali mesmo. retalhava a carne, pendurava em um pau, cada homem segurava em uma ponta e levava para o açougue de seu antônio.

não tinha luz elétrica. sem geladeira, era preciso que o povo comprasse logo a carne, o resto seu antônio salgava e deixava pendurado na frente do açougue.

ele era engraçado e íamos conversar em seu açougue. paravam por ali alguns viajantes, gente que vendia boi, parentes que passavam pelo povoado. no final da tarde era comum formar uma roda de amigos, embaixo da carne dependurada.

e por aí vai...

••••••••••••••

a propósito de açougue

••••••••••••••

o famoso relato de atahualpa yupanqui, conhecido como o «conto da solidariedade» (ou do açougue), narra uma viagem pelas montanhas do norte argentino. lá, o dono de uma carnicería lhe oferece pouso e cede sua própria cama — a única que possuía. o homem diz ter um compromisso e sai. no meio da noite, yupanqui acorda e o encontra dormindo. mas onde? em cima de quê?

vai ouvindo

link

👇

[minuto 4 em diante...]

••••••••••••••

de volta a paulo freire 

••••••••••••••

enilton atahualpa 

conheci paulo freire, o violeiro, em 2002, no rio de janeiro, quando, a convite de daniel viglietti e pedro munhoz, participei da semana nacional da cultura brasileira e da reforma agrária. 

participei do evento como correspondente da rádiocom; meu trabalho era enviar boletins diários, um pela manhã, outro à tarde. fora isso, passava o dia às voltas com a nata da cultura brasileira, quando tive contato com vários nomes que até então eu só conhecia pelos livros e discos.

paulo freire eu conheci mais de perto, pois ficamos hospedados no mesmo lugar: o convento de santo antônio, em santa teresa. não só ele; ele e outros tantos. a maioria ficou hospedada nesse mesmo lugar. um lugar histórico e belíssimo.

tomávamos café todos juntos e saíamos para os eventos numa van. foi numa dessas viagens do convento para a uerj que travamos uma larga charla em torno de atahualpa yupanqui. falei para ele do américas e da minha admiração pela obra e a história de atahualpa yupanqui. ele ficou impressionado. curioso como ele só, quanto mais eu falava, mais ele perguntava. e vice-versa. por isso, a dedicatória: enilton atahualpa. 

.

– e o sumiço? 
– que sumiço? 
– «vê se não some no próximo show!»

.

«vamos dar mais esta volta
na cravelha da viola,
só depois da volta dada
é hora de nós ir embora.»

.

e assim vou indo
vai ouvindo


link

👇

causo do violeiro misterioso 
por paulo freire

••••••••••••••

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026


milho aos pombos

••••••••••••••

«o que tem de ser tem muita força, tem uma força enorme.»

.

«tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. ou a ausência deles. duvida? quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.»

.

ambas as frases são de joão guimarães rosa

••••••••••••••

sextou

criança pé no chão brinco o dia inteiro

jovem olhos escuros não à escola

adulto ponto batido moinhos de vento

idoso mão na terra escuto a planta

e depois faz o quê?

canto a mim mesmo

e você?

grill

••••••••••••••

mas em que mundo tu vive?
por josé falero
29 junho 2021

como não estava a par das circunstâncias nas quais meu primo havia abandonado o trabalho logo após o primeiro dia, resolvi perguntar:

— por que tu largou fincado do trampo lá, meu?

vem ao caso comentar que eu era parte interessada no assunto. com a saída dele, convidaram-me para substituí-lo, e não me senti inclinado a recusar, uma vez que estava desempregado havia já alguns meses. antes de ir aceitando, contudo, achei que valia a pena tentar descobrir se o motivo de sua evasão, na véspera, não colocaria também a mim mesmo para correr, no dia seguinte.

— tu quer mesmo saber qual é a cena? — começou ele. — então eu vou te dar a real: aquilo de lá é uma bomba, mano! a maior bomba!

— veja!

— mas! te liga só: o alemão lá não manda eu e o michel destruir um senhor casarão, só com um martelinho cada um?

— não creio!

— tô te falando!

— tá, e marreta? já não inventaro marreta?

— aí que eu te falava, sangue bom. é ou não é pra largar fincado? mas o pior tu nem sabe.

— tem mais?

— ô! tamo lá, eu e o michel, tirando só lasca dos tijolo maciço com aquelas porra daqueles martelinho, fritando no olho do sol, lavado de suor, daí me chega aquele filho da puta daquele alemão e fica só na volta, só olhando, que nem um peru. nós louco de fome, louco de sede, louco de cansado, louco de tudo, e ele ali na volta, bem belo, com um caldo de cana bem gelado numa mão e um pastel bem quentinho na outra, e nós só sentindo o cheiro.

— não creio!

— tô te falando! depois disso, ah!, se eu te contar, aí é que tu não vai crer mesmo. acaba o dia (claro que não fizemo nem cosquinha no casarão, tu imagina, cada um com uma porra dum martelinho!), lá vou eu me explicar pro homem: «tu vê, né, chefe, não deu pra fazer muita coisa, porque sem marreta fica ruim, mas mais uns três dia, quatro dia no máximo, o casarão já era, pode ficar descansado». o alemão, no maior desplante, me olha e me diz: «não, não, tudo bem, tudo bem, nem esquenta, nem esquenta. amanhã vem a retroescavadeira e derruba isso aí num minuto. eu só pedi pra vocês irem derrubando pra não ficarem sem fazer nada o dia inteiro hoje». rapaz, mas eu fiquei tão bravo, mas tão bravo! pedi o dinheiro do dia e já dei a letra: “ô: amanhã, nem me viu! o senhor ouviu bem? nem me viu!».

não demorei a me dar conta de que aquela era uma conversa inútil. com um extenso histórico de fugas semelhantes, que inclusive lhe rendera o apelido de seu madruga, meu primo não chegava a ser exatamente flor que se cheirasse. podia ter razão naquela história, mas também podia não ter: sua versão dos fatos não era a melhor base possível para eu tentar decidir se aceitava substituí-lo ou não. ademais, eu não estava em condições de sair por aí recusando propostas de emprego. longe disso, para falar a verdade. a fome já despontava em meu horizonte, e mesmo que o trabalho de fato fosse o quadro do terror pintado por meu primo, eu tinha obrigação de pelo menos tentar suportar o suplício pelo maior tempo que pudesse.

no dia seguinte, sacolejando dentro do ônibus lotado, lá íamos nós, eu e o michel, que, segundo meu primo, havia baixado a cabeça, isto é, havia se conformado com a situação supostamente desfavorável.

— é, meu primo não ficou lá muito contente com esse trampo — comentei, na esperança de ouvir do michel uma interpretação menos medonha dos acontecimentos.

— só se o teu primo fosse louco pra ficar contente — sorriu ele, com o bom humor que lhe era característico.

— então é uma bomba mesmo?

— è um caralho voador, aquilo de lá! deus que me perdoe!

ri da expressão «caralho voador», que para mim era nova. em seguida, perguntei se procedia a história de destruir um casarão de tijolos maciços com martelos.

— sim! o alemão lá é ruim, meu. teu primo ficou putaço. ficou puto até comigo, pra tu ter uma noção.

— ué! contigo? por quê?

— porque o alemão pediu pra gente ficar trampando até seis e meia…

— seis e meia? — interrompi-o, assustado.

— seis e meia, sem cuspe nem nada. tô te falando que o cara é ruim. daí, quando passou das seis hora, nós lá, os dois podre, os braço pura câimbra de ficar martelando aquelas porra daqueles tijolo maciço, eu comecei a cantar, só pra viajar: «são seis horas e dez minutos, já rezei minha ave maria».

tornei a rir. era impossível ficar perto do michel sem dar pelo menos uma risada a cada minuto. mas, ao mesmo tempo, compreendi que meu primo tivesse se irritado com ele: quando se está amofinado, as piadas costumam surtir efeito contrário.

— e é verdade que, no fim, esse tal de alemão disse que uma retroescavadeira ia derrubar o casarão?

— sim, sim. essa aí foi a gota d’água pro teu primo. porra, tu tinha que ver que engraçado que foi os dois discutindo! o teu primo, bufando: «mas que loucura é essa? se a máquina vai derrubar o bagulho, passei o dia martelando essa porra pra quê? sou palhaço, por acaso?». e o alemão, com aquela voz anasalada dele: «vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? vocês já tavam aqui, eu ia ser obrigado a pagar o dia de vocês de qualquer jeito, e não tinha outra coisa pra fazer. tu achou que eu ia te pagar pra passar o dia sentado, é?».

ri mais uma vez, com vontade redobrada. o michel reproduzindo a fala do tal alemão, imitando à perfeição aquele portoalegrês anasalado dos brancos endinheirados da cidade, era algo digno de aplausos.

nem bem chegamos ao local da obra, vi que havia, no flanco esquerdo do terreno, um amontoado de cacarecos: colchões, cobertas, roupas, latas, bancos, tudo imundo e sem a mínima condição de uso.

— e esses bagulho?

— é dos mendigo.

— que mendigo?

— morava uma pá de mendigo nesse casarão, porque tava abandonado. no primeiro dia, tivemo que mandar todo o mundo embora. o que eles pudero carregar, carregaro, mas agora o alemão não deixa eles entrar pra pegar o que ficou pra trás. vai ir tudo fora.

— porra, esse tal alemão é ruim mesmo.

— tô te falando. nas esse lance não é coisa dele, na real. ele é só o encarregado da obra, arquiteto, engenheiro, sei lá. a dona mesmo, pelo que eu entendi, é uma outra alemoa, que aparece aí de vez em quando, e foi ela que falou que não era pra deixar os mendigo voltar pra pegar os bagulho.

começamos a trabalhar. cavamos, carregamos, martelamos, serramos: tudo debaixo de sol forte, porque não havia uma minúscula sombra sequer no terreno inteiro. para piorar, a água do local ainda não fora ligada, de maneira que, após o almoço, quando a tarde ia a meio, já não aguentávamos mais de sede.

— olha lá a mulher regando as planta. vamo lá com uma garrafinha e vamo pedir um pouco d’água.

tivemos que abandonar o trabalho por um instante para procurar garrafinhas de refrigerante ou qualquer coisa assim, que alguém eventualmente houvesse jogado fora. em seguida, já de posse dos recipientes, nos aproximamos da vizinha da obra, que regava distraidamente suas samambaias.

— boa tarde, tia. será que a senhora consegue um pouco d’água?

ela nos olhou de cima a baixo, de baixo cima, e disparou:

— não.

incapaz de acreditar naquela categórica negativa, imaginei que a mulher talvez tivesse entendido errado.

— só um pouco de água, nessas garrafinha aqui, ó. claro que não queremo usar a água da senhora na obra.

— não — repetiu ela, ainda mais categórica.

voltamos com o rabo entre as pernas, rindo de nossa própria desgraça. e o michel, ciente de que, entre suas palhaçadas daquele dia, eu gostara particularmente de vê-lo imitando o alemão, tornou a entrar no personagem.

— vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? tu pensa que a água é de graça, é?

para nossa sorte, havia um supermercado na outra esquina, e o michel tinha trazido consigo uns trocados, que deveriam bastar para comprar uma garrafinha de água mineral. para nosso azar, os seguranças do supermercado não nos deixaram entrar, alegando que constrangeríamos os clientes, por estarmos muito sujos.

— vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? tu pensa que pode entrar nos lugares assim, parecendo um indigente, é?

e o resto do dia não foi melhor. o tempo arrastou-se como nunca antes, cada minuto parecendo durar um mês inteiro, na medida em que íamos experimentando infortúnio após infortúnio. a cereja do bolo foram os sacos de cimento. trezentos sacos de cimento, para ser preciso. tínhamos passado a tarde inteira esperando chegar a carreta que os traria, engolindo a vontade de chorar que nos assaltava só de imaginar que teríamos de carregá-los um a um até um canto adequado, e quando por fim o relógio marcou seis e meia da tarde, sem que houvesse o menor sinal da carga, fomos ingênuos o bastante para nos deixarmos arrebatar pelo alívio de termos escapado pelo menos daquilo. trocamos de roupa, usamos a saliva e o polegar parar remover dos braços uma ou outra sujeira mais grossa e tentamos disfarçar nosso bodum com desodorante. tão logo estávamos prontos para ir embora, a carreta chegou.

desnecessário comentar que nem por um segundo passou pela cabeça do alemão mandar a carreta ir embora e voltar no dia seguinte; ao contrário, bastou o veículo aparecer e buzinar, lá estava ele, com a maior boa vontade do mundo, fazendo as vezes de flanelinha.

— isso, estaciona aqui, pode vir, pode vir mais, isso, vem, vem, mais um pouco…

tornamos a colocar as roupas de trabalho e nos pusemos a descarregar a carreta, levando saco de cimento após saco de cimento até o local que o alemão achara melhor: do outro lado do terreno, exatamente no ponto mais afastado possível de onde a carreta tinha estacionado.

o leitor por acaso já carregou cimento? há algo curioso a respeito disso: quanto mais sacos se carrega, tanto mais parece pesar cada um deles. quando chegamos ao saco de número duzentos, a dor permanente que havia se instalado em nossas costas era o de menos: nossos joelhos, a essa altura, pareciam ter adquirido vontade própria, e de vez em quando, num passo ou outro que dávamos com o acréscimo de cinquenta quilos no ombro, ameaçavam se dobrar sob o peso extra, de tal modo que precisávamos fazer esforço para não cairmos de quatro no chão.

numa das ocasiões em que eu ia levando um saco e meus joelhos vacilaram brevemente, o michel, que cruzava comigo naquele preciso instante, bem no meio do terreno, já retornando com o ombro livre após largar seu saco lá do outro lado, tentou me fazer rir, para que eu perdesse as forças de vez e acabasse de quatro no chão: parou onde estava, colocou as mãos nas cadeiras e se empertigou todo, dizendo:

— vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? tu tá morrendo pra carregar esse saco de cimento, é?

até hoje imitamos aquele alemão, nas mais variadas circunstâncias. eu, por exemplo, tenho ímpetos de imitá-lo quando aparecem os progressistas de meia tigela, os intelectuais de araque, que não sabem da missa a metade, que não fazem a mais vaga ideia do que as pessoas sempre passaram em porto alegre e que se surpreendem com o fato de a ascensão fascista dos últimos tempos ter sido amplamente apoiada na capital gaúcha, só porque era aqui que aconteciam as cirandas do fórum social mundial.

— vem cá, tchê, mas em que mundo tu vive? tu acha que uma cidade vira fascista da noite pro dia, é?

••••••••••••••

falando em «cirandas»...

••••••••••••••

vai trabalhar, vagabundo
vai trabalhar, criatura
deus permite a todo mundo
uma loucura

link

👇

clipe exclusivo
hamilton de holanda com participação de chico buarque.

••••••••••••••

isso tudo acontecendoe eu aqui na praça
dando milho aos pombos

link

👇

legendado / ao vivo

••••••••••••••

antes do fim

••••••••••••••

«uma pessoa que passa a vida toda, todos os dias, dez horas no trabalho, acaba por sentir-se indispensável aos propósitos da organização, da empresa e do negócio. se dispõe de tempo para si, não sabe como usá-lo.»

domenico de masi

••••••••••••••

bem-vindo meu filho, bem-vindo à máquina
onde você esteve?
está tudo bem, nós sabemos onde você esteve
você esteve nos subterrâneos, passando o tempo
provido de brinquedos e coisas de garotos
você comprou uma guitarra para punir sua mãe
e você não gostava da escola,
mas sabe que ninguém é tolo
então, bem-vindo à máquina

link

👇

[legendado em português]

••••••••••••••

de volta ao começo

••••••••••••••

eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada cheia de dentes
esperando a morte chegar

[com ilustrações e letra]

••••••••••••••

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quinta-feira, 20 de agosto de 2026


soneto de fidelidade

••••••••••••••

«quem salta para o vazio,
não deve explicações àqueles que ficam apenas observando.»

jean-luc godard

••••••••••••••

a arte conhecer a si mesmo

querer o menos possível e conhecer o mais possível, eis a máxima que conduziu minha trajetória de vida. pois a vontade é o que há de mais comum e de pior em nós.

.

portanto, não posso me afligir ao pensar que me faltam coisas que fazem parte da trajetória normal de um indivíduo: emprego, casa, jardim, esposa e filho.

.

o instinto, que é próprio a todos aqueles que têm objetivos intelectuais, também se tornou um guia seguro para mim, de forma que deixei de lado os interesses pessoais e tudo concentrei em minha existência espiritual. por isso também o fato de a trajetória de minha vida parecer desconexa e destituída de plano não pode me surpreender: ela se assemelha ao acompanhamento na harmonia, que igualmente não pode conter em si nexo algum, visto que serve apenas de fundo para a voz principal, na qual se encontra o nexo.

.

as coisas de que necessariamente sou privado em minha vida pessoal me são compensadas de outra maneira, ao longo do tempo, pelo pleno gozo do meu espírito e empenho em favor de sua orientação inata; de fato, se as possuísse, não as fruiria, e ser-me-iam até mesmo impeditivas.

.

para um espírito que doa e realiza por si mesmo aquilo que nenhum outro pode da mesma forma doar e realizar, e que justamente por isso subsiste e perdurará – seria ao mesmo tempo cruel e insano querer forçá-lo a fazer outras coisas, ou mesmo atribuir-lhe tarefas obrigatórias, afastando-o do seu dom natural.

.

já nos primeiros anos de minha juventude, notei que enquanto todas as outras pessoas aspiravam a bens exteriores, eu não me dirigi para tais bens, pois trago em mim um tesouro infinitamente mais valioso do que quaisquer bens exteriores; trata-se apenas de desenterrá-lo, para o que as primeiras condições são formação espiritual e ócio total, portanto, independência.

.

ofício algum no mundo, nenhum cargo de ministro ou de governador me indenizariam pela perda de meu ócio livre, privilégio que me veio de família.

.

em todas as situações da vida em sociedade, um homem como eu, sobretudo na juventude, sente-se continuamente como alguém que usa roupas que não lhe servem.

.

nos súbitos ataques de insatisfação sempre reflito sobre qual o significado de um homem como eu viver toda a sua vida dedicando-se ao desenvolvimento de suas aptidões e vocação inata, e como milhares se colocaram contra um, dizendo que isso não levaria a nada, e que eu seria muito infeliz. mas, se de tempos em tempos me senti infeliz, isto ocorreu mais devido a uma «méprise», a um equívoco em relação à minha pessoa, visto que me tomei por um outro e não por mim mesmo, e, assim, lastimei o
tormento.

.

arthur schopenhauer. páginas 1, 2, 3 e 9.

••••••••••••••

nirvana

sem grandes chances,
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a carolina do norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
o cozinheiro dizia
coisas malucas.
o lavador de pratos,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
agradável.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.

link

👇

[legendado em português]

••••••••••••••

ao vento

estou há exatos três meses na cidade: eu, cinco cachorros, duas gatas e uma hérnia de disco.

sabia que seria difícil. mas sabia, também, que era preciso resistir.

(abro parênteses: chove sem parar no rio grande do sul. eu resisto, tu resistes, ele resiste, nós resistimos, vós resistis — mas e eles, os que não têm o que nós temos, resistem como? fecho parênteses)

para não cair em tentação, valeu-me a mão de pessoas tão caras quanto raras. não preciso nominá-las: elas sabem quem são.

sabia que, vencida a primeira curva, o que estava escuro clarearia e que daí em diante a estrada se abriria e seria mais leve a travessia.

grill

••••••••••••

e as paralelas dos pneus na água das ruas
são duas estradas nuas em que foges do que é teu
no apartamento, oitavo andar, abro a vidraça e grito
grito quando o carro passa: teu infinito sou eu
sou eu, sou eu, sou eu

link

👇

[vídeo não oficial]

••••••••••••••

interview

não é nenhum incômodo
explicar-lhe o que penso do infinito
o infinito é
simplesmente
um rude vento frio
que arrepia as mucosas
a pele
e as metáforas
e nos põe nos olhos
lágrimas de rotina
e na garganta um nó
de sortilégio
seguramente você já se deu conta
que no fundo não creio
que exista o infinito.

benedetti

••••••••••••••

o infinito é uma abstração
mas a abstração pode ser arte

••••••••••••••

e assim, quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angústia de quem vive
quem sabe a solidão, fim de quem ama

eu possa me dizer do amor (que tive)
que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure

link

👇

[tom e vincicius ao vivo]

••••••••••••••

telas: edward hopper

nighthawks, 1942

cobb's barns and distant houses, 1930–1933.

gas, 1940

••••••••••••••

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas