Mostrando postagens com marcador Luis Rubira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luis Rubira. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de setembro de 2026


(re)nascer leva tempo

♦

o grande encontro
vitor ramil / leonard cohen
quem pela água / quem pelo fogo

♦

neste fim de tarde ao sul
quem virá?

neste fim de tarde sem fim
quem irá
me encontrar
me encontrar
me encontrar

👇

(hermenegildo, de vitor ramil)
direção e produção: luis rubira

♦

quem pelo fogo, quem pela água
quem à luz do sol, quem à noite
quem por alta provação, quem por sofrimento comum
quem em seu feliz feliz mês de maio
quem por decadência muito lenta
e quem eu devo dizer que está chamando?

quem nestes reinos do amor, quem por algo contundente
e quem pela avalanche, quem pela pólvora
quem por sua ambição, quem por sua fome
e quem eu devo dizer que está chamando?

e quem por bravo consentimento, quem por acidente
quem em solidão, quem neste espelho
quem por ordem da mulher, quem por sua própria mão
quem em correntes mortais, quem em poder
e quem eu devo dizer que está chamando?

(leonard cohen, 1974)
[live in london]

♦

(re)nascer leva tempo
voltei de são luís no final de 2008. alguns meses depois, no início de 2009, eu entrava no estúdio da rádiocom, para fazer aquele que eu pensava seria o último américas. o que me motivou a voltar (pelotas) e a voltar a fazê-lo (américas) foi a vivi. vivi ouvia falar do américas, mas nunca o havia escutado. sabedor de sua admiração pela obra de vitor ramil, fiz, na época, um américas que tinha vitor como centro. além de vivi e de mim, quase ninguém sabe desse américas. não fiz questão de divulgá-lo. a ideia era fazer um américas «que eu não possa ler, nem desejar / que eu não possa imaginar»...
♦

oh, vento que vem
pode passar
inventa fora de mim
outro lugar

fora de mim
outro lugar

vento
que vem das esquinas
e ruas vazias
de um céu interior

(vitor ramil, 2007)
[clipe oficial]

♦

corre o vento, o rio passa...
e o américas volta ao berço

produção e apresentação: enilton grill
rádiocom - pelotas - rs
27 setembro 2024

♦

#américas
#radiocom
#vitorramil
#leonardcohen
#luisrubira

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

 

los hermanos 

••••••••••••••

«cantamos a obra de meu pai, atahualpa yupanqui, porque nos permite falar de assuntos que vêm desde muito longe e muito fundo nos homens. nesta obra nos reconhecemos e nosso recital constitui nossa melhor contribuição na direção de um mesmo ideal: um mundo de hermanos.»

roberto kolla chavero | theatro sete de abril
16 de novembro de 2003
pelotas - rs - brasil

••••••••••••••

américas

por luis rubira
texto publicado no diário popular
pelotas, 2005

no ano de 2003, kolla yupanqui, filho de don atahualpa, elegeu um especialista em música que mora na cidade de pelotas para representar a fundação atahualpa no brasil.

enilton grill é, certamente, uma das pessoas que mais entende da multiplicidade musical produzida nos três continentes americanos. em sua casa, ao entrar na sala, já nos deparamos com quase dois mil CDs criteriosamente escolhidos.

conhecido por muitos músicos, recebe discos que vêm de longe e de culturas específicas, tais como os de amâncio prada — uma pedra preciosa da galícia.

para se ter uma ideia, enilton grill apresentou um dos maiores músicos do uruguai, daniel viglietti, a um dos maiores nomes da música no brasil: dorival caymmi. e, no disco ramilonga - a estética do frio, entre as pessoas a quem vitor ramil agradece, está o nome de enilton.

há quase dez anos apresenta o programa américas numa rádio da cidade de pelotas, já tendo percorrido praticamente todos os caminhos musicais destas vastas culturas de língua portuguesa, espanhola e inglesa.

seus programas são um luxo não só sonoro, mas educativo, pois partem da música, mas percorrem caminhos da história, da filosofia, da política e outros «caminhos no bosque», como diria o filósofo martin heidegger.

na sala de sua casa, além dos discos e de muitos livros especializados em música, podemos ver três quadros na parede que revelam o tripé onde sua lente musical está apoiada: ali aparecem as fotos de bob dylan, chico buarque e atahualpa yupanqui.

aproveitando esta homenagem que o fórum social mundial presta a yupanqui, esperamos que a fundação atahualpa receba incentivo para sua concretização.

afinal, já está na hora de o conhecimento de enilton não ficar reduzido a privilegiados ouvintes da cidade de pelotas, mas, tal como as coplas de yupanqui, ser repartido com outras pessoas de nosso país.

••••••••••••••
links

👇

do documentário «un río que no cesa de cantar»
fragmento (1:06)

👇

••••••••••••••

canciones que nacen del camino

em janeiro de 2016, fazia dois anos que vivi e eu tínhamos nos mudado para o repecho. foi quando o poeta e amigo martim césar me enviou um e-mail com o convite para o lançamento do cd «canciones que nacen del camino». o evento foi no teatro esperança, em jaguarão, na fronteira com o uruguai. no e-mail, martim escrevia: «tomara que possam... se puderem, fazes algum pequeno texto de abertura.»

••••••••••••••

abertura
fronteira não é lugar de divisão...
fronteira é lugar de inclusão, de integração.
disse bem aldyr garcía schlee, na fronteira é tudo uma coisa só. e é mesmo, tem razão. aqui e agora, por exemplo, com o testemunho do rio jaguarão temos diante de nós três pátrias num só palco: oscar massita (uruguai), martim césar (brasil) e roberto chavero (kolla yupanqui) argentina. tudo isso não é pouco. é muito o que se faz aqui. basta ver o que fizeram de nós fora daqui: imagem estilhaçada, pedaços sem conexão entre si. repito: é muito o que se faz aqui. pois fora daqui nos fizeram um corpo mutilado, uma cara por descobrir. mas se o mundo está dentro ¿afuera, por qué mirar? o canto do vento. a música que toca o rio. o latido humano que brota da terra. ir e vir. caminhar, caminhar. e as canções, as canções; mil símbolos, mil razões e três troncos de uma só raiz me trouxeram até aqui. fora da margem de dentro / entre o caule e o rebento / há sempre um pequeno espaço // entre movimento e passo / entre passo e movimento / a corda que faz o laço / a força que faz o braço / acordar o pensamento. pensando bem: ¡que coisas tem a vida/misteriosas por demais! estamos onde queremos estar, muitas vezes sem pensar. o pensamento então parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar -é que as léguas desaparecem, se a alma começa a-le-tear - bater asas / sem sair do lugar. do outro lado da mente / do outro lado da gente / do lado da gente do outro lado / do lado da gente que fica de frente / da gente que vive o futuro-presente / o tempo presente não repete o passado, mas traz ele consigo. há que se olhar para frente, mas com los recuerdos detrás. afinal, de que pegadas partem nossos passos para que nasçam canções pelo caminho? de minha parte, para encerrar: só estão longe as coisas que não sabemos mirar... que não sabemos ouvir...
que não sabemos escutar. nós que aqui estamos escutamos ao longe as payadas jaymecaetanas as zambas yupanquianas as milongas alfredianas porque estamos perto de oscar, de martim e de roberto. repecho, verão de 2016 enilton grill ••••••••••••••

«un quijote del sur que nos daba su tierna mirada y aunque hablaba muy poco, muchas cosas contaba de esta parte del mundo, de lo que fue nuestra historia de los años de lucha... ¡dolor, sueño y memoria!»

martim césar

•••••••••••••• à flor da pele antes disso, fui convidado por daniel viglietti para ir com ele a montevidéu. daniel foi muito amigo de atahualpa. falei para ele do convite feito pelo kolla para que eu representasse a fundação atahualpa no brasil. disse a ele que não conhecia a argentina — não conheço mesmo. lembro que ele ficou muito surpreso. como assim?! então, disse que entraria em contato com pessoas que me levariam ao cerro colorado.

cerro colorado — na província de córdoba, na argentina — é o lugar sagrado onde estão as cinzas de yupanqui e é a sede da fundação atahualpa yupanqui.

abri um sorriso amarelo e agradeci. disse a viglietti que gostaria muito, mas que não podia, pois acabara de passar 10 dias «vivendo de poesia» e tinha que voltar para pelotas e reassumir meu lugar no cfc.
na verdade, a gente sempre pode: basta querer. se eu ainda quisesse, largava tudo e ia. mas algo havia mudado, eu beirava os 40 e começavam a soprar outros ventos pelo meu costado. eu já não olhava apenas para a casa e o trabalho. minha visão havia se ampliado. eu sentia todo e qualquer sinal que passasse por mim: à frente, atrás e ao lado. meus sentidos estavam todos acionados. como diria baleiro, eu estava à flor da pele. eu supunha que queria ser poeta, mas no fundo queria ser poema. o cfc caminhava para ser passado. o «casamento» já tinha dançado.
eu estava apaixonado. ••••••••••••••

o que será que me dá que me queima por dentro, será que me dá que me perturba o sono, será que me dá que todos os tremores me vêm agitar que todos os ardores me vêm atiçar que todos os suores me vêm encharcar que todos os meus nervos estão a rogar que todos os meus órgãos estão a clamar e uma aflição medonha me faz implorar o que não tem vergonha, nem nunca terá o que não tem governo, nem nunca terá o que não tem juízo

link

👇

[vídeo - com milton mascimento]

••••••••••••••
falando em poema lembrei de um do ano passado •••••••••••••• faz 40 que fiz 20 quando eu tinha 20 40 era um acinte agora que fiz 60 o poema ainda se sustenta minha alma é de 20 40 foi um acinte ••••••••••••••

el tiempo pasa nos vamos poniendo viejos el amor no lo reflejo como ayer

link

👇

[en vivo - con «la reina» mercedes sosa]

•••••••••••••• normal, é assim com todo mundo, o tempo passa. a diferença — se é que há — é que eu olho pra trás e acho graça. verdade. começaria tudo outra vez. não me arrependo de nada. vivi cada dia como se fosse o último. que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure. depois, somei noite mais noite olhando a lua, decorei cada estrela que brilhava, morri mais de uma vez em cada rua. e hoje, parece mentira, estou aqui mais vivo do que nunca. pobre do tempo que não me alcança: nunca se alcança aquilo que flutua. o personagem de robin williams, em sociedade dos poetas mortos, pergunta: — qual será o seu verso? eu respondo: — meu verso é minha loucura! e levanto-a, como um facho, a arder na noite escura. se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! se eu fosse contar como queria passar a minha vida alguns anos atrás, provavelmente surpreenderia os leitores. o mais que faço, porém, não vale nada: dar conselhos a um homem culto é supérfluo; aconselhar a quem ignora tudo é inútil. não se pode confiar às cegas em nenhuma maneira de pensar, por mais antiga que seja. grande parte das coisas que a maioria dos mais velhos dizem ser boas, acredito do fundo da alma que são ruins. não vou por aí. só vou por onde me levam meus próprios passos. caminante, no hay camino, se hace camino al andar. as capacidades do homem jamais foram medidas, e tampouco podemos julgar do que ele é capaz tomando como base qualquer precedente. eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. que as pessoas sonhem! a mente humana está cheia de imaginação: tente outra vez.

••••••••••••••

tente
e não diga que a vitória está perdida
se é de batalhas que se vive a vida
tente outra vez

link

👇

[vídeo oficial - com letra e animação]

•••••••••••••• agora é tarde

a minha poesia consistiu numa tentativa de inventar para mim uma identidade. depois de inventada e assumida, já não me ocorre aquele apostar-me inteiro em tornar-me poema para chegar a ítaca. ítaca já não há e eu não sou mais o que era.

••••••••••••••

se quiser empreender viagem à ítaca ligue antes
porque parece que tudo em ítaca está lotado
os hotéis baratos, os hotéis caros
já não se pode viajar sem reservas ao mar jônico

link

👇

[voz: angélica freitas]
••••••••••••••
«no volveré a ser joven. que la vida iba en serio uno lo empieza a comprender más tarde... pero ha pasado el tiempo y la verdad desagradable asoma: envejecer, morir, es el único argumento de la obra.»

... «juventud, divino tesoro, ¡ya te vas para no volver! cuando quiero llorar no lloro, y a veces, lloro sin querer.»

•••••••••••••• mas lembre-se: a mente humana é imaginação. tente outra vez.

••••••••••••••

está sempre
essa pessoinha feliz
transformando o que está sujo em ouro.
sempre chega até o salão principal, onde fica o motor que aciona a luz.
sempre lá
faz sua melhor tarefa
o reparador de sonhos

link

👇

[en vivo - con silvito]

•••••••••••••• «havia um artista na cidade de kouroo que estava disposto a alcançar a perfeição. um dia ocorreu-lhe a ideia de fazer um bastão. considerando que o tempo é um ingrediente num trabalho imperfeito, mas que num trabalho perfeito o tempo não entra, disse a si mesmo: será perfeito em todos os aspectos, mesmo que eu não faça mais nada em minha vida. foi buscar madeira na floresta. enquanto procurava e rejeitava vara após vara, seus amigos o abandonaram e morreram, mas ele não envelheceu um só instante. sua perseguição de um único fim o dotou da eterna juventude. como ele não fazia nenhuma concessão ao tempo, o tempo se mantinha fora de seu caminho, suspirando à distância por não conseguir vencê-lo.»

••••••••••••••

abra os braços, respire fundo
e corte os laços todos deste mundo com a sua imagem e semelhança nos mesmos traços de uma criança

link

👇
respire fundo | walter franco | 1978
[clipe]

•••••••••••••• «do outro lado das colinas, as acácias cheiram a mel. e na cidade, não muito longe daqui, o vento ergue papéis velhos em redemoinhos pelas ruas. nos mercados, anunciam morangos de salto. os cachorros cochilam ao sol junto dos mendigos. sentado na beira da calçada, um garotinho desenha o mundo com um palito.»

••••••••••••••

numa folha qualquer,
eu desenho um sol amarelo

[con letra e imag[i]nação]

••••••••••••••

falando em sol amarelo
lembrei de facundo cabral
lembrando de facundo
lembrei do mundo

••••••••••••••

«giro um simples compasso
e num círculo eu faço o mundo
ponho o sol no ombro
e o mundo é amarelo.
[que descolorirá]»

••••••••••••••

de volta ao começo

••••••••••••••

los hermanos 

roberto kolla chavero | theatro sete de abril
16 de novembro de 2003
pelotas - rs - brasil

••••••••••••••

uns dias antes do recital, fui colar os cartazes na porta do theatro e dei de cara com o diretor:
– e aí, cara, tudo bem?
– tudo bem...
– quem tu tá trazendo dessa vez?
quando mostrei o cartaz, o coitado quase teve um troço.
– cara, tu tá trazendo o «los hermanos»?!
levei um bom tempo até explicar que «los hermanos» não era nome de banda de rock, e sim uma milonga belíssima, composta por atahualpa yupanqui e cantada por mercedes sosa.
– bem que eu achei que tava muito barato pra ser o «los hermanos».

••••••••••••••

«y así seguimos andando
curtidos de soledad
nos perdemos por el mundo
nos volvemos a encontrar»

••••••••••••••

link

👇

un documental dirigido por federico randazzo abad
producido por bellasombra, bosque cine 
apoyo de la fundación atahualpa yupanqui.

••••••••••••••

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quinta-feira, 23 de julho de 2026


 que nadie me mida el corazón 

••••••••••••••

«como fica forte uma pessoa, quando está segura de ser amada.»

freud

.

«somos finos como papel. existimos por acaso entre as percentagens, temporariamente. e esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. e não há nada que se possa fazer sobre isso. você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. você pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. talvez pensemos demais. sinta mais, pense menos.»

bukowski

.

«o que quer que eu fosse, fui desde o começo. não queria que ninguém mexesse com isso. e ainda não quero.»

(idem)

.

«todos nós vamos morrer, que circo! só isso deveria fazer com que amássemos uns aos outros, mas não faz. somos aterrorizados e esmagados pelas trivialidades, somos devorados por nada.»

(idem)

••••••••••••••

eu não vejo nada
tô atrás da porta
tô no chão do carro
tô num fundo falso

eu não sinto nada
tô desenchufado
tô perdendo o tato
tô alienado

eu não acredito
tô desencantado
tô sem compromisso
tô criando caso

eu não faço nada
tô sem movimento
tô virando estátua
tô embrutecendo

eu não quero nada
tô sem interesse
tô desapontado
tô sem endereço

eu não acredito
tô desencantado
tô sem compromisso
tô criando caso

eu não digo nada
tô silencioso
tô comendo grito
tô alimentado

eu não penso nada
tô no meu direito
tô virando bicho
tô desaprendendo

eu não acredito
tô desencantado
tô sem compromisso
tô criando caso

eu não acredito

👉 desenchufado
| vitor ramil (2004)

••••••••••••••

«eu acho que eu nasci nesses últimos dois anos. na verdade, dizer que eu nasci é um certo exagero, porque pretendo seguir nascendo, mas aconteceu de eu me livrar de demoninhos que me atormentavam há muitos anos. deve ter sido a tal da crise dos quarenta. eu tinha chegado a pensar que a minha criatividade dependia dos meus estados de melancolia. hoje, no entanto, me sinto mais criativo do que nunca, estando feliz como nunca. eu não me sentia digno de um elogio, não relaxava, cada conquista era só um passo na direção de algo verdadeiramente bom que eu ainda iria fazer, eu não desfrutava nada. aceitar-me... acho que essa foi a chave para o meu "nascimento".»

(ramil, 2015 apud rubira, 2015, p. 214).

••••••••••••••

«gracias a la vida que me ha dado tanto...» gracias a la vida, a canção mais conhecida de violeta parra, foi uma espécie de epitáfio adiantado — uma canção tão intensa e contraditória como sua própria vida. pouco mais de cem dias após sua edição, la viola acabava voluntariamente com a própria vida. «por que o fez? violeta era uma mulher tão valente», perguntou sua mãe. pouco antes, violeta havia dito ao jornalista tito mundt: «me falta algo, não sei bem o que é. eu procuro e não encontro. com certeza nunca vou achar.»

••••••••••••••

poesia não rima com linha reta poesia rima com estrada torta siga a seta force a porta não é porque a porta não abre que não é a porta certa às vezes a chave é certa a fechadura é que é torta grill

.

«e de repente o resumo de tudo é uma chave. a chave de uma porta que não abre para o interior desabitado no solo que inexiste, mas a chave existe.» drummond

.

e de repente
o resumo de tudo é uma palavra:
a chave de uma luz apagada.
a palavra certa,
na hora certa,
abre a porta.

grill

.••••••••••••••

crônica familiar

entretanto, a solidariedade, o respeito, o amor continuam florescendo entre as brechas do asfalto, como disse drummond em um dos seus mais belos poemas. recebi do meu amigo moeller excertos do livro de um enfermeiro americano com vários exemplos de solidariedade. o que mais me comoveu foi a história de um menino de seis anos cuja irmã, de dois, sofria de uma doença rara e quase sempre mortal. só poderia ser salva se ele, o irmão mais velho, doasse sangue para ela, pois tivera a mesma doença e se curara milagrosamente, adquirindo anticorpos. quando o médico lhe explicou que ele devia dar seu sangue para salvar a irmã, em princípio ele hesitou, mas acabou concordando: «se é para salvar a vida dela...» deitou-se numa cama ao lado da irmãzinha e viu quando as bochechas dela começaram a ficar coradas. sorriu, mas logo ficou triste novamente. perguntou ao médico: «doutor, é agora que eu vou começar a morrer?» todos choraram no quarto. o bravo menininho estava preparado para morrer. achara que morreria, pois teria de dar todo o seu sangue para salvar a irmãzinha.

fausto wolff

••••••••••••••

cada um de nós compõe a sua história [e cada ser em si / carrega o dom de ser capaz / de ser feliz]

minha irmã nunca sofreu de doença rara nenhuma e, como podem ver na foto, está feliz da vida e plena de saúde. ademais, é solidária comigo e com todos os que dela de alguma forma precisam.

para quem não a conhece, minha irmã é daquelas pessoas raras, de que falava bertolt brecht: imprescindíveis, para quem pensa um mundo melhor, mais justo, mais humano, mais fraterno e mais solidário.

o que me fez postar o texto de fausto wolff, então, foi a minha identificação com o bravo menininho da história. eu também morreria pela minha irmãzinha, se preciso fosse. mas não é. ainda bem que não é. temos muita vida pra tocar em frente.

se lembra do futuro
que a gente combinou
eu era tão criança e ainda sou

grill

••••••••••••••

é preciso amor
pra poder pulsar
é preciso paz pra poder sorrir
é preciso a chuva para florir

penso que cumprir a vida
seja simplesmente
compreender a marcha
e ir tocando em frente

como um velho boiadeiro
levando a boiada
eu vou tocando os dias
pela longa estrada, eu vou
estrada eu sou

👉 tocando em frente | almir sater / renato teixeira (1990)
apresentação: lima duarte

••••••••••••••

por falar em irmã

minha irmã de alma, carla gastal, me enviou anos atrás uma foto de meu avô joão carlos gastal onde ele aparece ao lado do então governador do rio grande do sul, leonel brizola, com representantes do ptb em pedro osório.

eles buscavam melhorias para a região: a construção de 27 escolas, rede elétrica para candiota, além de escola de formação de professores para a zona rural.

na época dessa foto, eu ainda não havia nascido; mas tenho muitas e grandes lembranças de meu avô. lembro, por exemplo, de ele ser chamado para intervir a favor dos estudantes, na praça da faculdade de direito, em pelotas, contra a repressão policial, em plena ditadura militar.

isso, por si só, já seria motivo mais que suficiente para sentir orgulho de meu avô. mas tem mais. um dia eu conto.

••••••••••••••

e o rádio?

••••••••••••••

santa vitória do palmar, 1973

quando guri, eu morava em santa vitória e o brinquedo de todo guri de santa vitória era o brinquedo de todo guri do interior: jogar bola, bolinha de gude e subir em árvore. um dia caí de uma delas e quebrei a bacia. tive que ficar dois meses imóvel em cima de uma cama.

em santa vitória, naquela época, não havia sinal de tevê (a tevê não pegava). meu avô, sabendo disso e penalizado com minha situação, me mandou de presente um transglobe.

o transglobe era um super-rádio — e o meu, maior ainda — de tão grande que era, parecia que tinha o mundo dentro... santa vitória, pelotas, porto alegre, são paulo, rio de janeiro, montevidéu, buenos aires...

talvez isso explique um pouco eu ser como sou. fui criado ouvindo rádio, e o mundo que sai de dentro do rádio não sai pronto e desenhado — antes de visualizá-lo, é preciso imaginá-lo. e, quando criança, a gente imagina o mundo como quer: ou seja, como ele poderia ser, ou como gostaria que fosse, e não como ele é.

o transglobe, por exemplo, eu o imaginava muito maior.
e o tempo? o tempo, não. o tempo parece menor.
ontem parece que foi no mês que vem.
contudo, me olho no espelho e vejo que não.
enfim, acho que tudo se mede, menos o coração.

grill

••••••••••••••

mi abuelo me dijo la otra vez
me dijo mi abuelo que tal vez
su abuelo le sepa responder
si el tiempo es mas largo cada vez


👉 la casa de al lado | fernando cabrera (1993)

••••••••••••••

talvez tenha algo de ficção no meio disso tudo. sempre tem. lembrança mais que tudo é imaginação.

vitor que o diga.

••••••••••••••

e tudo isso
foi no mês que vem
foi quando eu chegar
foi na hora em que eu te vi

e mais que tudo
foi no mês que vem
foi quando eu chegar
na hora em que eu te quis


👉 foi no mês que vem | vitor ramil (1995)

••••••••••••••

«beijos, estou de saída
vou reinventar minha vida
vida, vida
eu preciso viver
hei, querida
pra que disfarçar nossa solidão?»

••••••••••••••

estrela, estrela
como ser assim
tão só, tão só
e nunca sofrer

brilhar, brilhar
quase sem querer
deixar, deixar

ser o que se é

do álbum: foi no mês que vem (2013)

••••••••••••••

«após estrela, estrela era hora de se retirar e iniciar uma senda própria na música em busca de "ser o que se é". nos territórios interiores de vitor ramil, muitas coisas já pediam passagem, entre elas a canção satolep.

(luis rubira, em vitor ramil — nascer leva tempo, p. 47)

••••••••••••••

«sinto hoje em satolep
o que há muito não sentia
o limiar da verdade
roçando na face nua»

••••••••••••••

#américas

quarta-feira, 2 de março de 2016



Américas


*Por Luis Rubira


Texto publicado no Diário Popular
Fevereiro 08, 2005


Durante o quinto Fórum Social Mundial de 2005 foi erguido, próximo ao anfiteatro Pôr-do-Sol às margens do Guaíba, o Palco Atahualpa Yupanqui, numa homenagem a um dos músicos sul-americanos mais respeitados no mundo inteiro.

Cumpre lembrar que no ano de 2003 Kolla Yupanqui, filho de don Atahualpa, elegeu um especialista em música, que mora na cidade de Pelotas, para representar a Fundação Atahualpa no Brasil.

Enilton Grill é, certamente, uma das pessoas que mais entende da multiplicidade musical produzida nos três continentes americanos. Em sua casa, ao entrar na sala, já nos deparamos com quase dois mil cedês criteriosamente escolhidos.

Conhecido por muitos músicos, recebe discos que vêm de longe e de culturas específicas, tais como os discos de Amâncio Prada - uma pedra preciosa da Galícia.

Para se ter uma idéia, Enilton Grill apresentou um dos maiores músicos do Uruguai, Daniel Viglietti, a um dos maiores nomes da música no Brasil: Dorival Caymmi; e no disco Ramilonga - A estética do frio, entre as pessoas as quais Vítor Ramil agradece está o nome de Enilton Grill.

Há quase dez anos apresenta o programa Américas numa rádio da cidade de Pelotas, já tendo percorrido praticamente todos os caminhos musicais destas vastas culturas de língua portuguesa, espanhola e inglesa.

Seus programas são um luxo não só sonoro mas educativo, pois partem da música mas percorrem caminhos da história, da filosofia, da política e outros 'caminhos no bosque' como diria o filósofo Martin Heidegger.

Na sala de sua casa, além dos discos e de muitos livros especializados em música, podemos ver três quadros na parede que revelam o tripé onde sua lente musical está apoiada: ali aparecem as fotos de Bob Dylan, Chico Buarque e Atahualpa Yupanqui.

Aproveitando esta homenagem que o Fórum Social Mundial presta a Yupanqui, esperamos que a Fundação Atahualpa receba incentivo para sua concretização.

Afinal já está na hora de que o conhecimento de Enilton Grill não fique reduzido a privilegiados ouvintes da cidade de Pelotas mas, tal como as 'coplas' de Yupanqui, seja repartido com outras pessoas de nosso país.

*Mestre em Filosofia pela PUC - Rio Grande do Sul.
Doutor em Filosofia pela USP - Universidade de São Paulo
É membro do Grupo de Estudos Nietzsche da Universidade de São Paulo
e do Groupe International de Recherche sur Nietzsche.
Atualmente é professor do Departamento de Filosofia da UFPel
e coordenador do ciclo 'A Filosofia e o Cinema Político'.