Mostrando postagens com marcador Charles Bukowski. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Charles Bukowski. Mostrar todas as postagens

sábado, 19 de setembro de 2026


casa de poeta não tem porta 2

♦
«um gato tem honestidade emocional absoluta: os seres humanos, por uma razão ou outra, podem esconder os seus sentimentos, mas um gato jamais o faz.»

ernest hemingway
♦
«às vezes eu ansiava por alguém que, como eu, não estava ajustado perfeitamente com sua idade, e essa pessoa era difícil de encontrar, mas logo descobri gatos, em que eu poderia imaginar uma condição como a minha.»
julio cortázar

♦
o processo
diante da lei está um porteiro. um homem do campo chega e pede para entrar, mas o porteiro diz que agora não pode permitir. o homem pergunta se não pode entrar mais tarde. «é possível» – diz o porteiro – «mas agora não».

o homem decide aguardar. o porteiro dá-lhe um banquinho ao lado da porta. ali fica sentado dias e anos. ele faz muitas tentativas para ser admitido e emprega tudo para subornar o porteiro. este aceita tudo, mas dizendo: «eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa».

durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. esquece os outros porteiros. quando envelhece, sua vista enfraquece, mas reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei.

já não tem mais muito tempo de vida. antes de morrer, faz um aceno para que o porteiro se aproxime: «todos aspiram à lei. como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?»

o porteiro percebe que o homem já está no fim e berra: «aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. agora eu vou embora e fecho-a».

kafka. 2016, pp. 146 e 147

♦

siempre había oído mentar
que ante la ley era yo,
igual a todo mortal.
pero hay su dificultad
en cuanto a su ejecución.

clique no título para ouvir

(alfredo zitarrosa, 1971)

♦

«mais de uma vez me jogaram na rua
mas a culpa é minha
contém ironia
é bom lembrar»

autor desconhecido 

♦

silvio rodríguez, o incompreendido

♦

clique no título para entender

(aos patrulheiros de plantão)

♦

epaminondas: o gato explicador

por clóvis de barros filho
esses últimos, os humanos, com exceções, também adoram viajar, conhecer outros lugares, outras gentes e seus modos peculiares de viver. tomam-se por arejados, abertos e até mais cultos por conta desse hábito. talvez por isso usem – para julgar nossas vidas felinas – o critério da extensão territorial ocupada por nossos corpos. e acabam convencidos de que passar o dia todo confinado não pode valer a pena. vê-se logo que ainda não aprenderam nada de relevante. e nunca aprenderão. por mais que alguns deles – os poucos sábios da história humana na terra – tenham generosamente se sacrificado para explicar, todos os demais da espécie sempre se recusaram a aceitar o óbvio: que o mais precioso da vida já se encontra em cada um deles. e que o sucesso dessa busca requer preparo. exercício rigoroso de pensamento. e recato. fica fácil de entender por que não saem da rua. passeiam, viajam e se divertem. na verdade, permanecem em fuga. não suportam a verdade que grita em suas almas. preferem chafurdar no pântano da ignorância – entretida pelas sombras da falsidade e das mentiras – a resistir, em resiliência, aos percalços e obstáculos que todo caminho de luz costuma impor a quem sempre viveu na sombra.
♦

os homens e suas certezas
por que os gatos dormem tanto? quantas igrejas tem o céu? foi onde que a mim me perderam, que logrei enfim me encontrar? há quem diga que a pergunta mais difícil da filosofia seja: podemos ter certeza de alguma coisa? não sei se é. se for, não sei a resposta. quem sou eu para saber o que ninguém sabe. pra dizer a verdade, não sei se ninguém sabe. talvez você saiba e eu não saiba que você sabe. pode ser, né? quem sabe... não sei. só sei que, enquanto eu compartilho minhas dúvidas, outros compartilham suas certezas. que bom para eles que não tenham dúvidas. mas não tenho certeza, ou seja, fico em dúvida se quem os lê e escuta acredita no que eles dizem e escrevem. eu, por exemplo, não acredito. ademais, não tenho certeza se quem demonstra ter tanta certeza a respeito de tudo e de todos tem realmente certeza de alguma coisa ou do que quer que seja. se todos os rios são doces, de onde tira sal o mar? não achas que vive a morte, dentro do sol de uma cereja? como se mede a espuma, que resvala da cerveja? pra cada voz da dúvida, tem outra voz que fala e viceja; pra cada voz da certeza, tem outra voz que cala e boceja.
♦

ou seja:

♦

«sinta mais, pense menos.»

bukowski

♦

«que sabe a aranha a respeito de mozart? nada; entretanto, ouve com prazer uma sonata do mestre. o gato, que nunca leu kant, é talvez um animal metafísico.»

machado de assis

♦

os cavalos não correm
para vencer.
correm para correr,
pois para isso
foram desenhados.
também não vivo
para vencer.
vivo para viver,
pois para isso me desenhei.

fausto wolff

♦

ao vento

há dez mil anos atrás
quando ainda rolava de bar em bar
me caiu nas mãos
uma resenha do livro
«a arte cavalheiresca do arqueiro zen»
desde então
pensava em lê-lo
pesquisa daqui
pesquisa dali
encontrei-o
entre borges e kant
na minha pequena
mas
modéstia à parte
rica bibliotheca
folheia daqui, folheia dali
percebo um trecho sublinhado
como quem diz
lê isso aqui:
«o homem é definido como um ser pensante, mas suas grandes obras se realizam quando não pensa e não calcula. devemos reconquistar a ingenuidade infantil. nesse estágio, o homem pensa sem pensar. ele pensa como a chuva que cai do céu, como as ondas que se alteiam sobre os oceanos, como as estrelas que iluminam o céu noturno, como a verde folhagem que brota na paz do frescor primaveril. na verdade, ele é as ondas, o oceano, as estrelas, as folhas.»
bárbaro
mas fiquei com a impressão de que já o tinha lido
parece que tudo que ali está
eu já sabia
de pura intuição
mas não é verdade
terminei o livro
com mais dúvidas
do que quando comecei
daí fico pensando
se bukowski
fausto wolff
e yupanqui
o teriam lido
ou se
sem pensar
eles escreviam
sobre aquilo que pensavam que não sabiam

♦
«"pelo que vejo, o senhor já é um mestre. peço-lhe que me diga a que escola pertence, antes que entremos na relação mestre-discípulo". o guarda observou que se envergonhava de dizer, mas jamais tinha aprendido a arte da esgrima. "o senhor está zombando de mim? sou o mestre do venerável xógum e sei que meus olhos jamais se enganam." o guarda insistiu: "lamento ofender a sua honra, mas a verdade é que jamais tive qualquer conhecimento desta arte". frente a tão segura negativa, o mestre vacilou um momento, ao final do qual disse: "como o senhor afirma, não vou desmenti-lo, mas seguramente o senhor é mestre em alguma outra disciplina, embora eu não saiba qual seja". respondeu-lhe o guarda: "pois bem, como o senhor insiste, devo dizer-lhe que existe uma coisa na qual me considero mestre. quando eu era criança, ocorreu-me a ideia de que um samurai não tem o direito de temer a morte em qualquer circunstância, e desde então lutei continuamente com a ideia da morte, até que ela deixou de preocupar-me. talvez seja a isso que o senhor se refere". mal ouvira tais palavras, tajima-no-kami exclamou: "exatamente! alegro-me que não tenha me enganado, pois o último segredo da arte da espada é atingir a libertação da ideia da morte. tenho mostrado essa meta a centenas de alunos, mas até agora nenhum alcançou o grau supremo na arte da espada. o senhor não precisa de qualquer treinamento, porque já é um mestre".
eugen herrigel | a arte cavalheiresca do arqueiro zen, p. 89.

♦

a partícula cósmica que navega em meu sangue
é um mundo infinito de forças siderais.
veio a mim através de um longo caminho de milênios
quando, talvez, fui areia para os pés de vento.

logo, fui madeira, raiz desesperada
fundida no silêncio de um deserto sem água.
logo, fui caracol quem sabe onde.
e os mares me deram a primeira palavra.

depois, a forma humana despejou sobre o mundo
a universal bandeira do músculo e da lágrima.
e brotou a blasfêmia sobre a velha terra
e o açafrão, e o trigo. a árvore e as pradarias.

então vim à américa para nascer um homem
e a mim se juntou o pampa, a selva e a montanha.
se um velho da planície galopou até minha origem
outro me disse histórias em sua flauta de cana.

eu não estudo as coisas nem pretendo entendê-las
as reconheço, é certo, pois antes vivi nelas
converso com as rochas em meio aos montes
e me dão sua mensagem as raízes secretas.

e assim vou pelo mundo, sem idade nem destino
ao amparo de um cosmos que caminha comigo.
amo a luz e o rio e o caminho, e a estrela.
e floresço em guitarras porque fui a madeira.

clique no título para ver e ouvir

poema: atahualpa yupanqui
musica: campo abierto (atahualpa yupanqui)
voz y audio: alejo gómez davolio
edición: santiago cremerius

♦
de volta ao começo dia 4 de outubro diga não a bolsonaro vote lula e depois fique bem na sua sem questionar sem reclamar nem criticar até porque quando a grande mídia o agronegócio e a faria lima caírem de pau se lula não resistir e cair a culpa vai ser toda sua 
♦

agradezco la participación de todos
los que colaboraron con esta melodía.
se debe subrayar la importante tarea
de los perseguidores de cualquier nacimiento.

si alguien que me escucha se viera retratado,
sépase que se hace con ese destino.
cualquier reclamación, que sea sin membrete.
buenas noches, amigos y enemigos.

clique no título para ouvir

(silvio rodríguez, 1970)

♦

foto: 
ernestito che guevara 
(in memmoriam)
repecho, 2020

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 15 de setembro de 2026


viver é prazer
(prazer é escrever)

♦

«a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida»

vinicius de moraes

♦

«a vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. a vida serve para você se criar»

bob dylan

♦

o faze(dor)
ao outro, a borges, é que sucedem as coisas. pouco a pouco vou cedendo-lhe tudo, embora conheça seu perverso costume de falsear e magnificar. spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar em seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra e o tigre um tigre. eu permanecerei em borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros ou do que no laborioso rasqueado de uma guitarra. há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de borges e terei que imaginar outras coisas. assim minha vida é uma fuga e tudo eu perco e tudo é do esquecimento, ou do outro. não sei qual dos dois escreve esta página.
jorge luis borges

♦

autopsicografia

o poeta é um fingidor
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

e os que lêem o que escreve,
a dor lida sentem bem,
não as duas que ele teve,
as só a que eles não têm.

e assim nas calhas de roda
gira, a entreter a razão,
esse comboio de corda
que se chama coração.

fernando pessoa

♦

«sinta mais, pense menos»

bukowski

♦

sentir, penso, logo sinto
sorrir, apesar de tudo, ir fundo
pois o mundo é o mundo
é o mundo, é o mundo

(bicho de 7 cabeças, 1993)

♦

a ilusão do espelho
quem lê um poema de dor acha que o poeta chora enquanto escreve. quem lê um poema de amor jura que ele está apaixonado. mas a verdade é que a poesia é emancipação: o poeta consegue cantar o sol estando na mais profunda tempestade, ou escrever sobre o abismo enquanto toma um café tranquilo em uma tarde de sol. a palavra vira poesia; a vida segue seu próprio rumo.
grill

♦

todo dia eu saio por aí tentando descobrir
o que ninguém já houvesse descoberto algum dia
thomas edson já descobriu a luz
beethoven a nona sinfonia
jesus cristo descobriu a cruz
os poetas descobriram a poesia, desista
pedro álvares cabral já descobriu o brasil
pelé já fez de gols pra lá de mil, desista
os blacks descobriram o blues
os palhaços descobriram a alegria
casanova descobriu como seduz
tem gente bem na frente
já faz tempo já faz dias, desista
até você meu bem foi descoberta
mas vou cobri-la para que não sintas frio
nua debaixo dessa coberta
porque quem descobriu já descobriu

(bicho de sete cabeças, 1993)

♦

ao vento

viver é prazer
se viver é esforço
e esforço é sofrer
eu quero morrer

grill

♦

sei que vou morrer, não sei o dia
levarei saudades da maria
sei que vou morrer não sei a hora
levarei saudades da aurora

quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba
quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba
quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba

(ataulfo alves por itamar assumpção - pra sempre agora, 1996)

♦

antes do fim

♦

«o dom você o tem. nunca se esqueça.»

johnny cash

♦
1. escrever me faz bem, me mantém sóbrio, me mantém vivo.

2. o que determina meu estado de espírito não é o conteúdo do que escrevo e sim a frequência com que escrevo.

3. quanto mais escrevo, melhor eu me sinto.

repetindo: não importa o que escrevo, o que importa é estar escrevendo. não importa o que digo, o que importa é estar dizendo.
quando digo escrever
digo viver
o corpo envelhece,
o cabelo embranquece
mas a palavra permanece.

o que o poeta escreve é alquimia,
não biografia.

agora volto ao meu ser:

dentro de mim há um mundo nascendo, fora de mim há um mundo morrendo.

como resolvo essa contradição?

escrevendo.

♦

viver é prazer
prazer é escrever
e agradecer

♦

fui dotado com uma voz de ouro,
e os meus amigos se foram, meu cabelo já embranqueceu,
eu me dou mal no negócio em que os outros se dão bem,
mas estou entregue ao amor e pago o aluguel todo dia
na torre da canção.

(leonard cohen, 1988)

♦

«o eu não é senhor na sua própria morada.»

sigmund freud | uma dificuldade no caminho da psicanálise, p. 171.

♦

casa de poeta não tem porta

pagar aluguel significa ser inquilino do próprio dom.
o dom cobra aparição e produção;
exige exposição.
a poesia não pertence ao poeta — pertence ao dom.
o poeta é a casa por onde a poesia passa,
o vento entra,
a vida passa,
o poeta é só vidraça:
o mistério bate e racha.

grill

♦

há uma rachadura, uma fenda em tudo
é assim que a luz entra

(the future, 1992)

♦

tela: bob dylan

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quinta-feira, 23 de julho de 2026


 que nadie me mida el corazón 

••••••••••••••

«como fica forte uma pessoa, quando está segura de ser amada.»

freud

.

«somos finos como papel. existimos por acaso entre as percentagens, temporariamente. e esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. e não há nada que se possa fazer sobre isso. você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. você pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. talvez pensemos demais. sinta mais, pense menos.»

bukowski

.

«o que quer que eu fosse, fui desde o começo. não queria que ninguém mexesse com isso. e ainda não quero.»

(idem)

.

«todos nós vamos morrer, que circo! só isso deveria fazer com que amássemos uns aos outros, mas não faz. somos aterrorizados e esmagados pelas trivialidades, somos devorados por nada.»

(idem)

••••••••••••••

eu não vejo nada
tô atrás da porta
tô no chão do carro
tô num fundo falso

eu não sinto nada
tô desenchufado
tô perdendo o tato
tô alienado

eu não acredito
tô desencantado
tô sem compromisso
tô criando caso

eu não faço nada
tô sem movimento
tô virando estátua
tô embrutecendo

eu não quero nada
tô sem interesse
tô desapontado
tô sem endereço

eu não acredito
tô desencantado
tô sem compromisso
tô criando caso

eu não digo nada
tô silencioso
tô comendo grito
tô alimentado

eu não penso nada
tô no meu direito
tô virando bicho
tô desaprendendo

eu não acredito
tô desencantado
tô sem compromisso
tô criando caso

eu não acredito

👉 desenchufado
| vitor ramil (2004)

••••••••••••••

«eu acho que eu nasci nesses últimos dois anos. na verdade, dizer que eu nasci é um certo exagero, porque pretendo seguir nascendo, mas aconteceu de eu me livrar de demoninhos que me atormentavam há muitos anos. deve ter sido a tal da crise dos quarenta. eu tinha chegado a pensar que a minha criatividade dependia dos meus estados de melancolia. hoje, no entanto, me sinto mais criativo do que nunca, estando feliz como nunca. eu não me sentia digno de um elogio, não relaxava, cada conquista era só um passo na direção de algo verdadeiramente bom que eu ainda iria fazer, eu não desfrutava nada. aceitar-me... acho que essa foi a chave para o meu "nascimento".»

(ramil, 2015 apud rubira, 2015, p. 214).

••••••••••••••

«gracias a la vida que me ha dado tanto...» gracias a la vida, a canção mais conhecida de violeta parra, foi uma espécie de epitáfio adiantado — uma canção tão intensa e contraditória como sua própria vida. pouco mais de cem dias após sua edição, la viola acabava voluntariamente com a própria vida. «por que o fez? violeta era uma mulher tão valente», perguntou sua mãe. pouco antes, violeta havia dito ao jornalista tito mundt: «me falta algo, não sei bem o que é. eu procuro e não encontro. com certeza nunca vou achar.»

••••••••••••••

poesia não rima com linha reta poesia rima com estrada torta siga a seta force a porta não é porque a porta não abre que não é a porta certa às vezes a chave é certa a fechadura é que é torta grill

.

«e de repente o resumo de tudo é uma chave. a chave de uma porta que não abre para o interior desabitado no solo que inexiste, mas a chave existe.» drummond

.

e de repente
o resumo de tudo é uma palavra:
a chave de uma luz apagada.
a palavra certa,
na hora certa,
abre a porta.

grill

.••••••••••••••

crônica familiar

entretanto, a solidariedade, o respeito, o amor continuam florescendo entre as brechas do asfalto, como disse drummond em um dos seus mais belos poemas. recebi do meu amigo moeller excertos do livro de um enfermeiro americano com vários exemplos de solidariedade. o que mais me comoveu foi a história de um menino de seis anos cuja irmã, de dois, sofria de uma doença rara e quase sempre mortal. só poderia ser salva se ele, o irmão mais velho, doasse sangue para ela, pois tivera a mesma doença e se curara milagrosamente, adquirindo anticorpos. quando o médico lhe explicou que ele devia dar seu sangue para salvar a irmã, em princípio ele hesitou, mas acabou concordando: «se é para salvar a vida dela...» deitou-se numa cama ao lado da irmãzinha e viu quando as bochechas dela começaram a ficar coradas. sorriu, mas logo ficou triste novamente. perguntou ao médico: «doutor, é agora que eu vou começar a morrer?» todos choraram no quarto. o bravo menininho estava preparado para morrer. achara que morreria, pois teria de dar todo o seu sangue para salvar a irmãzinha.

fausto wolff

••••••••••••••

cada um de nós compõe a sua história [e cada ser em si / carrega o dom de ser capaz / de ser feliz]

minha irmã nunca sofreu de doença rara nenhuma e, como podem ver na foto, está feliz da vida e plena de saúde. ademais, é solidária comigo e com todos os que dela de alguma forma precisam.

para quem não a conhece, minha irmã é daquelas pessoas raras, de que falava bertolt brecht: imprescindíveis, para quem pensa um mundo melhor, mais justo, mais humano, mais fraterno e mais solidário.

o que me fez postar o texto de fausto wolff, então, foi a minha identificação com o bravo menininho da história. eu também morreria pela minha irmãzinha, se preciso fosse. mas não é. ainda bem que não é. temos muita vida pra tocar em frente.

se lembra do futuro
que a gente combinou
eu era tão criança e ainda sou

grill

••••••••••••••

é preciso amor
pra poder pulsar
é preciso paz pra poder sorrir
é preciso a chuva para florir

penso que cumprir a vida
seja simplesmente
compreender a marcha
e ir tocando em frente

como um velho boiadeiro
levando a boiada
eu vou tocando os dias
pela longa estrada, eu vou
estrada eu sou

👉 tocando em frente | almir sater / renato teixeira (1990)
apresentação: lima duarte

••••••••••••••

por falar em irmã

minha irmã de alma, carla gastal, me enviou anos atrás uma foto de meu avô joão carlos gastal onde ele aparece ao lado do então governador do rio grande do sul, leonel brizola, com representantes do ptb em pedro osório.

eles buscavam melhorias para a região: a construção de 27 escolas, rede elétrica para candiota, além de escola de formação de professores para a zona rural.

na época dessa foto, eu ainda não havia nascido; mas tenho muitas e grandes lembranças de meu avô. lembro, por exemplo, de ele ser chamado para intervir a favor dos estudantes, na praça da faculdade de direito, em pelotas, contra a repressão policial, em plena ditadura militar.

isso, por si só, já seria motivo mais que suficiente para sentir orgulho de meu avô. mas tem mais. um dia eu conto.

••••••••••••••

e o rádio?

••••••••••••••

santa vitória do palmar, 1973

quando guri, eu morava em santa vitória e o brinquedo de todo guri de santa vitória era o brinquedo de todo guri do interior: jogar bola, bolinha de gude e subir em árvore. um dia caí de uma delas e quebrei a bacia. tive que ficar dois meses imóvel em cima de uma cama.

em santa vitória, naquela época, não havia sinal de tevê (a tevê não pegava). meu avô, sabendo disso e penalizado com minha situação, me mandou de presente um transglobe.

o transglobe era um super-rádio — e o meu, maior ainda — de tão grande que era, parecia que tinha o mundo dentro... santa vitória, pelotas, porto alegre, são paulo, rio de janeiro, montevidéu, buenos aires...

talvez isso explique um pouco eu ser como sou. fui criado ouvindo rádio, e o mundo que sai de dentro do rádio não sai pronto e desenhado — antes de visualizá-lo, é preciso imaginá-lo. e, quando criança, a gente imagina o mundo como quer: ou seja, como ele poderia ser, ou como gostaria que fosse, e não como ele é.

o transglobe, por exemplo, eu o imaginava muito maior.
e o tempo? o tempo, não. o tempo parece menor.
ontem parece que foi no mês que vem.
contudo, me olho no espelho e vejo que não.
enfim, acho que tudo se mede, menos o coração.

grill

••••••••••••••

mi abuelo me dijo la otra vez
me dijo mi abuelo que tal vez
su abuelo le sepa responder
si el tiempo es mas largo cada vez


👉 la casa de al lado | fernando cabrera (1993)

••••••••••••••

talvez tenha algo de ficção no meio disso tudo. sempre tem. lembrança mais que tudo é imaginação.

vitor que o diga.

••••••••••••••

e tudo isso
foi no mês que vem
foi quando eu chegar
foi na hora em que eu te vi

e mais que tudo
foi no mês que vem
foi quando eu chegar
na hora em que eu te quis


👉 foi no mês que vem | vitor ramil (1995)

••••••••••••••

«beijos, estou de saída
vou reinventar minha vida
vida, vida
eu preciso viver
hei, querida
pra que disfarçar nossa solidão?»

••••••••••••••

estrela, estrela
como ser assim
tão só, tão só
e nunca sofrer

brilhar, brilhar
quase sem querer
deixar, deixar

ser o que se é

do álbum: foi no mês que vem (2013)

••••••••••••••

«após estrela, estrela era hora de se retirar e iniciar uma senda própria na música em busca de "ser o que se é". nos territórios interiores de vitor ramil, muitas coisas já pediam passagem, entre elas a canção satolep.

(luis rubira, em vitor ramil — nascer leva tempo, p. 47)

••••••••••••••

«sinto hoje em satolep
o que há muito não sentia
o limiar da verdade
roçando na face nua»

••••••••••••••

#américas

terça-feira, 14 de maio de 2013



E EU NÃO ESTOU LÁ


Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim.
Há o mundo continuando a fazer o que faz 
E eu não estou lá.
Muito estranho.

Penso no caminhão do lixo passando e levando o lixo 
E eu não estou lá.
Ou o jornal jogado no jardim 
E eu não estou lá para pegá-lo.
Impossível.

E pior, algum tempo depois de estar morto, 
vou ser verdadeiramente descoberto.
E todos aqueles que tinham medo de mim 
ou me odiavam vão subitamente me aceitar.
Minhas palavras vão estar em todos os lugares.
Vão se formar clubes e sociedades.
Será nojento.

Será feito um filme sobre a minha vida.
Me farão muito mais corajoso 
e talentoso do que sou.
Muito mais.

Será suficiente para fazer os deuses vomitarem.
A raça humana exagera em tudo:
seus heróis, seus inimigos, sua importância.
                            Charles Bukowski
                                 1920 - 1944

CHARLES BUKOWSKI:
VIDA E LOUCURAS 
DE UM VELHO SAFADO


PREFÁCIO do livro


Charles Bukowski levantou-se da cadeira e pegou uma cerveja na geladeira, atrás dele, no palco. A platéia aplaudiu enquanto ele bebia, emborcando a garrafa até tomar a última gota dourada.

"Isto não é uma muleta", disse ele, falando lentamente, com uma cadência na voz, como W. C. Fields. "É uma necesssssidade." A platéia riu e aplaudiu. Uma jovem na frente gritou que ele era um velho legal. 

De fato, aos cinqüenta e dois anos, Bukowski tinha idade suficiente para ser pai da maior parte dos garotos que ali estavam para ouvir sua leitura e, por isso, sua atitude tornava-se muito mais engraçada. Bukowski tinha uma aparência estranha e um modo peculiar de falar.

Era um homem alto, de um metro e oitenta, encorpado, com uma barriga de cerveja, mas sua cabeça parecia grande demais para o corpo, e o rosto era assustador como uma máscara de Frankenstein: queixo comprido, lábios finos, olhos tristes, apertados e encovados. Um grande nariz de beberrão, vermelho e roxo, com veias rompidas, e uma barba grisalha e desigual sobre a pele oleosa, marcada pela acne: pele tão ruim que parecia trazer as marcas de uma queimadura.


Voara para São Francisco, em setembro de 1972, levado pelos editores da City Lights Books, em razão do sucesso de uma coletânea de seus contos, "Ereções, Ejaculações e Exibicionismos" e "Crônica de um Amor Louco". O livro era dedicado a sua jovem namorada, Linda King:

quem a trouxe a mim
e quem vai levá-la
embora

Oitocentas pessoas pagaram para entrar em um ginásio em Telegraph Hill, ansiosas por ver o autor de Life in a Texas Whorehouse e outras histórias chocantes, aparentemente autobiográficas. A ideia de aparecer diante delas aterrorizava Bukowski.

Embora sua aparência causasse um certo impacto, era um tímido inveterado e odiava a si mesmo por ter arrastado seu traseiro até a cidade dos escritores beatnik, um grupo do qual não gostava e no qual não se inseria.

Bebera durante todo o dia para criar coragem.


No voo de Los Angeles pela manhã, no restaurante italiano em que ele e Linda almoçaram e atrás da cortina enquanto esperava a deixa para entrar em cena. Seu rosto estava cinza de medo. Vomitou duas vezes.

"Sabe, é mais fácil trabalhar em uma fábrica", disse ao amigo Taylor Hackford, que filmava um documentário. "Não tem essa pressão." A multidão o conhecia por seus contos, mas Bukowski leu poesia. Poemas sobre bebida, jogo, sexo e até mesmo idas ao banheiro ­ ele sabia que só o título "piss and shit" já os faria rir.

"Vejam, alguns desses poemas são sérios, e tenho que me desculpar porque sei que algumas platéias não gostam de poemas sérios. Mas tenho que ler alguns de vez em quando para mostrar que não sou uma máquina de beber cerveja." 


Escolheu um poema sobre seu pai, a quem odiara com toda a força. Chamava-se "the rat":

com um murro, aos 16 anos e ½,
derrubei meu pai,
um filho da puta cruel com mau hálito,
e não voltei para casa por um tempo, só vez por outra para batalhar um dólar com a querida mamãe.
era 1937 e Los Angeles era uma grande
Viena.

...

eu? Tenho 30 anos,
a cidade está quatro ou cinco vezes maior
mas tão acabada quanto
e as garotas ainda cospem quando
passo, outra guerra se cria por outra
razão, e não consigo emprego agora
pela mesma razão de outrora:
não sei fazer nada, não consigo fazer
nada.


Parecia que ia chorar quando terminou os últimos e tristes versos, mas mudou de repente e começou a representar o rebelde novamente. "Eu conheço você?", perguntou a uma fã, que fez um pedido. "Não seja insolente, gracinha...", ameaçou, desatando a rir. "Mais uma cerveja e vou pegar todos vocês." Jogou a cabeça para trás, deixando à mostra os dentes estragados, e gargalhou. "Ha, ha, ha. Cuidado!"

Outro fã tentou subir no palco.


"Que diabos você quer, cara? Sai do meu pé!", disse Bukowski, como se falasse com um cachorro. "Quem é você, algum babaca?" O público gritou e gargalhou. Alguém perguntou quantas cervejas ele conseguia beber. Outros não estavam tão impressionados e exigiam que Bukowski parasse de perder tempo. Eles haviam pago para ouvir sua poesia, não para ver um bêbado. "Vocês querem poemas?", provocou os alunos, antipatizando com suas roupas caras e rostos despreocupados. "Implorem."

"Foda-se, cara!"

"Mais algum comentário?"

Quanto mais bêbado ficava, mais hostil se tornava, e mais hostilidade recebia da platéia. "No final, eles atiravam garrafas", recorda o poeta beat Lawrence Ferlinghetti, dono da City Lights Books, que abriu caminho, à força, para tirar Bukowski de lá, pensando em sua própria segurança.


ENTRE AS FERAS


POR ALVARO BARCELLOS


Rodem entre as feras
sugere Bukowski
com sua poesia corrosiva
e depois de derrubar
cinco ou seis taças
de vinho vagabundo.

Há de ter outro colorido
o horizonte.
Há de ter outras opções
pras coisas do futuro.
Não pode ser só isso
o mundo
não pode.

Não será decerto vencedor
o tempo cinza e frio
das máquinas
e seus rugidos limpos
e seu mundinho clean
enquanto escorre a seiva da vida
entre os corredores da morte
e onde estouram as guerras cleans
entre luzinhas laranjas e verdes
qual um vídeo game
– mas que atravessam 30 metros
do solo que atingem: puuuum!!!

Conheçam as senhas
Senhoras
Senhores
e dancem
e aprendam a rodar
entre as feras.

Antes que nos derrotem
as investidas bárbaras
e que comecem
as maçãs
a devorar de vez
o coração dos homens.