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quinta-feira, 10 de setembro de 2026


de serra, de terra  e de mar
(sem medo de ser feliz) 

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eu sempre quis ser contente
eu sempre quis só cantar 
trazendo pra toda gente
vontade de se abraçar

eu tinha no sol mais quente
a terra pra me alegrar
e a serra florando em frente
lavava os seus pés no mar

mas um dia tudo mudou
a vida se transformou
e a nossa canção também

geraldo vandré

♦

«diante do avanço do bolsonarismo, lula abraça destruidores da amazônia em busca da reeleição»

«alianças do pt no norte incluem uma intervenção em rondônia, que tentou sacrificar a candidatura da ativista neidinha suruí, e o apoio a candidatos que colaboraram para arruinar o licenciamento ambiental»

rafael moro martins
córrego do urubu, cerrado, brasília
27 de agosto de 2026

a força do bolsonarismo e a debilidade do partido dos trabalhadores na amazônia levam a campanha de reeleição do presidente luiz inácio lula da silva a abraçar candidatos e alianças com uma pauta inimiga da floresta. no caso mais extremo, em rondônia, a pressão por uma aliança com o pt fez o comando nacional do partido socialista brasileiro, o psb, intervir no diretório estadual e tentar ceifar a candidatura ao senado da ativista neidinha suruí, doutora em geografia que há mais de 40 anos atua na defesa dos povos originários amazônidas.

na quinta-feira, 13 de agosto, três dias antes do prazo final para o registro de candidaturas, um email chegou à noite ao diretório de rondônia. miguel só foi abri-lo na manhã seguinte. ele trazia anexada uma resolução, assinada por joão campos, «informando a dissolução do diretório, a anulação parcial da convenção, dizendo que a gente não lançaria nenhuma candidatura [para a eleição] majoritária [que escolhe governador e senadores], e determinando que a gente coligaria com o pt», relata o presidente afastado da legenda. «a gente foi pego de surpresa», reforça neidinha suruí. 


para ler a íntegra 
clique no título

eleições 26
[direto do centro do mundo]

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ao vento

tudo passa
só o passado não passa
preparar apontar fogo
sem fogo não há fumaça

grill

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o trem

em 2005, eu trabalhava no cfc. lembro-me bem...memória que vai, memória que vem... vem daí a metáfora do trem. naquela época, sem as limitações da idade, eu caminhava pelas ruas da cidade e a ladainha era uma só: mensalão, mensalão, mensalão. como eu sempre fui muito identificado com o pt, as pessoas esfregavam o jornal na minha cara: «explica aí, o que tu me diz disso aqui?».

digo aqui 
o que disse lá:

o importante era chegar.
chegar, chegar ou chegar
e quando o trem chega,
chega sem trem.

♦

falando em trem

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o trem percorria um pedaço daquela província fria desde temuco até carahue. atravessava extensões imensas e desabitadas, sem cultivo, atravessava os bosques virgens, soava como um terremoto por túneis e pontes. as estações estavam ilhadas no meio do campo, entre acácias e madeiras floridas. os índios araucanos, com seus trajes rituais e sua majestade ancestral, esperavam nas estações para vender aos passageiros carneiros, galinhas, ovos e tecidos. meu pai sempre comprava algo com interminável regateio. com sua barbicha loura, erguia uma galinha em frente a uma araucana impenetrável que não baixava nem meio centavo o preço de sua mercadoria.

cada estação tinha um nome mais bonito, quase todos herdados das antigas possessões araucanas. essa foi a região dos combates mais encarniçados entre os invasores espanhóis e os chilenos nativos, filhos profundos daquela terra.

os araucanos, na guerra pela sua pátria, inventaram a tática da terra arrasada. não deixaram pedra sobre pedra de imperial, cidade descrita pelo poeta dom alonso de ercilla como bela e soberba.

pablo neruda | confesso que vivi, p. 14

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já ressoam as votações,
são ouvidas sem parar,
mas o gemido do índio,
por que não se escutará?

legendas + ilustração

[clique no título para ver e ouvir]

(violeta parra, 1961)

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da contracapa de canto geral
(disco de geraldo vandré)

«desses tempos em que falar de árvores é quase um crime, pois implica em silenciar sobre tantos erros — aos que virão depois de mim.»

bertolt brecht

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construindo casas ou pontes, igrejas ou hospitais, pintando, curando doentes, voando ou varrendo as ruas, fazendo política ou amor, morrendo e, porque não, matando, a vida importa somente pela doação que se faz dela, pelo sentido e pela direção. às vezes penso que cantando mereço um pouco a vida. saldo em parte os meus compromissos e tenho então, cada vez mais forte, a impressão da liberdade. por isso aprendo a cantar e canto.

neste disco a palavra geral tem de mim somente uma vontade muito grande de colocar-me sem pudores com o instrumento da comunicação de tudo que aprendi a ver, ouvir, pensar e sentir a respeito do meu tempo, do meu lugar e da gente que vive neles.

o sentido da palavra geral depende, afinal, do acerto no trabalho. das notícias e das emoções que ele possa trazer a cada um de nós e principalmente do uso que faremos delas.

é possível que este disco tenha custado a mim mesmo e a outras pessoas mais do que esperávamos, do que gostaríamos ou do que seria justo que custasse. mas eu tenho uma boa explicação: os critérios de justiça do mundo em que vivemos ainda estão muito longe de poder dar-nos uma certeza e uma garantia mínima do que seja verdadeiramente justo ou injusto.
geraldo vandré – março de 1968.

.

ps: «– vós que vireis na crista da onda em que nos afogamos, quando falardes de nossas fraquezas pensai também no tempo sombrio a que haveis escapado.»

bertolt brecht

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meio e mensagem

quem me acompanha aqui pelo américas, deve ter percebido que, em cem por cento dos casos, meus posts vêm acompanhados de texto, imagem e música. obviamente que os três elementos estão intrinsecamente ligados, ou seja, um explica e complementa o outro.

é o caso deste post

na capa original do disco «canto geral», gravado pela emi-odeon em 1968 há duas imagens divididas por uma faixa onde consta o título do lp, em vermelho, e o nome de vandré, em preto. na parte superior, verde, há uma boiada sendo conduzida por um boiadeiro, o gado de cabeça baixa, segue a mesma direção. na parte inferior, amarelo, há um grupo de pessoas reunidas, de cabeça erguida, que olham para alguém ou para alguma coisa, o que é, não sei, mas é algo ou alguém que parece estar longe....

outro significado por trás deste lp, é o seu próprio nome. «canto geral» é o nome de um livro de poemas de pablo neruda lançado em 1950. comparado em importância à «divina comédia», de dante alighieri, ao «popol vuh» e à «folhas de relva», de walt whitman, «canto geral é «a grande canção da américa» — testemunha um grande amor ao chile e ao seu povo, e por extensão, a todos os povos latino-americanos, frequentes vítimas do despotismo.
«canto geral» conta uma história marginal da américa. é um livro de combate e de ternura. foi elaborado em circunstâncias adversas, quando neruda, perseguido, foi obrigado a transpor os andes e refugiar-se no estrangeiro.

é do próprio autor esta declaração: «naquele ano de perigo e clandestinidade terminei meu livro mais importante, o "canto geral"».

e assim nasceu essa magnífica obra: com a indelével marca do sofrimento.
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falando em sofrimento

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após a promulgação do ato institucional nº5, geraldo vandré teve que deixar o país, dando início ao seu exílio. ele permaneceu um tempo hospedado na casa de dona aracy, esposa de guimarães rosa e depois deu início a sua fuga para o chile, saindo pelo sul do brasil e passando depois pelo uruguai.

sua saída do país lhe causou enorme sofrimento...

e no vai e vem dos ventos
é assim que as coisas são
no mundo como ele é
nosso maior inimigo
somos nós mesmos

♦

quem vai me escutar?
quem vai me entender?
ninguém pode mais sofrer

(geraldo vandré, 1964)

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quinta-feira, 23 de julho de 2026


 que nadie me mida el corazón 

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«como fica forte uma pessoa, quando está segura de ser amada.»

freud

.

«somos finos como papel. existimos por acaso entre as percentagens, temporariamente. e esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. e não há nada que se possa fazer sobre isso. você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. você pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. talvez pensemos demais. sinta mais, pense menos.»

bukowski

.

«o que quer que eu fosse, fui desde o começo. não queria que ninguém mexesse com isso. e ainda não quero.»

(idem)

.

«todos nós vamos morrer, que circo! só isso deveria fazer com que amássemos uns aos outros, mas não faz. somos aterrorizados e esmagados pelas trivialidades, somos devorados por nada.»

(idem)

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eu não vejo nada
tô atrás da porta
tô no chão do carro
tô num fundo falso

eu não sinto nada
tô desenchufado
tô perdendo o tato
tô alienado

eu não acredito
tô desencantado
tô sem compromisso
tô criando caso

eu não faço nada
tô sem movimento
tô virando estátua
tô embrutecendo

eu não quero nada
tô sem interesse
tô desapontado
tô sem endereço

eu não acredito
tô desencantado
tô sem compromisso
tô criando caso

eu não digo nada
tô silencioso
tô comendo grito
tô alimentado

eu não penso nada
tô no meu direito
tô virando bicho
tô desaprendendo

eu não acredito
tô desencantado
tô sem compromisso
tô criando caso

eu não acredito

👉 desenchufado
| vitor ramil (2004)

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«eu acho que eu nasci nesses últimos dois anos. na verdade, dizer que eu nasci é um certo exagero, porque pretendo seguir nascendo, mas aconteceu de eu me livrar de demoninhos que me atormentavam há muitos anos. deve ter sido a tal da crise dos quarenta. eu tinha chegado a pensar que a minha criatividade dependia dos meus estados de melancolia. hoje, no entanto, me sinto mais criativo do que nunca, estando feliz como nunca. eu não me sentia digno de um elogio, não relaxava, cada conquista era só um passo na direção de algo verdadeiramente bom que eu ainda iria fazer, eu não desfrutava nada. aceitar-me... acho que essa foi a chave para o meu "nascimento".»

(ramil, 2015 apud rubira, 2015, p. 214).

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«gracias a la vida que me ha dado tanto...» gracias a la vida, a canção mais conhecida de violeta parra, foi uma espécie de epitáfio adiantado — uma canção tão intensa e contraditória como sua própria vida. pouco mais de cem dias após sua edição, la viola acabava voluntariamente com a própria vida. «por que o fez? violeta era uma mulher tão valente», perguntou sua mãe. pouco antes, violeta havia dito ao jornalista tito mundt: «me falta algo, não sei bem o que é. eu procuro e não encontro. com certeza nunca vou achar.»

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poesia não rima com linha reta poesia rima com estrada torta siga a seta force a porta não é porque a porta não abre que não é a porta certa às vezes a chave é certa a fechadura é que é torta grill

.

«e de repente o resumo de tudo é uma chave. a chave de uma porta que não abre para o interior desabitado no solo que inexiste, mas a chave existe.» drummond

.

e de repente
o resumo de tudo é uma palavra:
a chave de uma luz apagada.
a palavra certa,
na hora certa,
abre a porta.

grill

.••••••••••••••

crônica familiar

entretanto, a solidariedade, o respeito, o amor continuam florescendo entre as brechas do asfalto, como disse drummond em um dos seus mais belos poemas. recebi do meu amigo moeller excertos do livro de um enfermeiro americano com vários exemplos de solidariedade. o que mais me comoveu foi a história de um menino de seis anos cuja irmã, de dois, sofria de uma doença rara e quase sempre mortal. só poderia ser salva se ele, o irmão mais velho, doasse sangue para ela, pois tivera a mesma doença e se curara milagrosamente, adquirindo anticorpos. quando o médico lhe explicou que ele devia dar seu sangue para salvar a irmã, em princípio ele hesitou, mas acabou concordando: «se é para salvar a vida dela...» deitou-se numa cama ao lado da irmãzinha e viu quando as bochechas dela começaram a ficar coradas. sorriu, mas logo ficou triste novamente. perguntou ao médico: «doutor, é agora que eu vou começar a morrer?» todos choraram no quarto. o bravo menininho estava preparado para morrer. achara que morreria, pois teria de dar todo o seu sangue para salvar a irmãzinha.

fausto wolff

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cada um de nós compõe a sua história [e cada ser em si / carrega o dom de ser capaz / de ser feliz]

minha irmã nunca sofreu de doença rara nenhuma e, como podem ver na foto, está feliz da vida e plena de saúde. ademais, é solidária comigo e com todos os que dela de alguma forma precisam.

para quem não a conhece, minha irmã é daquelas pessoas raras, de que falava bertolt brecht: imprescindíveis, para quem pensa um mundo melhor, mais justo, mais humano, mais fraterno e mais solidário.

o que me fez postar o texto de fausto wolff, então, foi a minha identificação com o bravo menininho da história. eu também morreria pela minha irmãzinha, se preciso fosse. mas não é. ainda bem que não é. temos muita vida pra tocar em frente.

se lembra do futuro
que a gente combinou
eu era tão criança e ainda sou

grill

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é preciso amor
pra poder pulsar
é preciso paz pra poder sorrir
é preciso a chuva para florir

penso que cumprir a vida
seja simplesmente
compreender a marcha
e ir tocando em frente

como um velho boiadeiro
levando a boiada
eu vou tocando os dias
pela longa estrada, eu vou
estrada eu sou

👉 tocando em frente | almir sater / renato teixeira (1990)
apresentação: lima duarte

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por falar em irmã

minha irmã de alma, carla gastal, me enviou anos atrás uma foto de meu avô joão carlos gastal onde ele aparece ao lado do então governador do rio grande do sul, leonel brizola, com representantes do ptb em pedro osório.

eles buscavam melhorias para a região: a construção de 27 escolas, rede elétrica para candiota, além de escola de formação de professores para a zona rural.

na época dessa foto, eu ainda não havia nascido; mas tenho muitas e grandes lembranças de meu avô. lembro, por exemplo, de ele ser chamado para intervir a favor dos estudantes, na praça da faculdade de direito, em pelotas, contra a repressão policial, em plena ditadura militar.

isso, por si só, já seria motivo mais que suficiente para sentir orgulho de meu avô. mas tem mais. um dia eu conto.

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e o rádio?

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santa vitória do palmar, 1973

quando guri, eu morava em santa vitória e o brinquedo de todo guri de santa vitória era o brinquedo de todo guri do interior: jogar bola, bolinha de gude e subir em árvore. um dia caí de uma delas e quebrei a bacia. tive que ficar dois meses imóvel em cima de uma cama.

em santa vitória, naquela época, não havia sinal de tevê (a tevê não pegava). meu avô, sabendo disso e penalizado com minha situação, me mandou de presente um transglobe.

o transglobe era um super-rádio — e o meu, maior ainda — de tão grande que era, parecia que tinha o mundo dentro... santa vitória, pelotas, porto alegre, são paulo, rio de janeiro, montevidéu, buenos aires...

talvez isso explique um pouco eu ser como sou. fui criado ouvindo rádio, e o mundo que sai de dentro do rádio não sai pronto e desenhado — antes de visualizá-lo, é preciso imaginá-lo. e, quando criança, a gente imagina o mundo como quer: ou seja, como ele poderia ser, ou como gostaria que fosse, e não como ele é.

o transglobe, por exemplo, eu o imaginava muito maior.
e o tempo? o tempo, não. o tempo parece menor.
ontem parece que foi no mês que vem.
contudo, me olho no espelho e vejo que não.
enfim, acho que tudo se mede, menos o coração.

grill

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mi abuelo me dijo la otra vez
me dijo mi abuelo que tal vez
su abuelo le sepa responder
si el tiempo es mas largo cada vez


👉 la casa de al lado | fernando cabrera (1993)

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talvez tenha algo de ficção no meio disso tudo. sempre tem. lembrança mais que tudo é imaginação.

vitor que o diga.

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e tudo isso
foi no mês que vem
foi quando eu chegar
foi na hora em que eu te vi

e mais que tudo
foi no mês que vem
foi quando eu chegar
na hora em que eu te quis


👉 foi no mês que vem | vitor ramil (1995)

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«beijos, estou de saída
vou reinventar minha vida
vida, vida
eu preciso viver
hei, querida
pra que disfarçar nossa solidão?»

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estrela, estrela
como ser assim
tão só, tão só
e nunca sofrer

brilhar, brilhar
quase sem querer
deixar, deixar

ser o que se é

do álbum: foi no mês que vem (2013)

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«após estrela, estrela era hora de se retirar e iniciar uma senda própria na música em busca de "ser o que se é". nos territórios interiores de vitor ramil, muitas coisas já pediam passagem, entre elas a canção satolep.

(luis rubira, em vitor ramil — nascer leva tempo, p. 47)

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«sinto hoje em satolep
o que há muito não sentia
o limiar da verdade
roçando na face nua»

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#américas

sábado, 29 de março de 2014


GRACIAS, VIVI!


POR ENILTON GRILL

TEXTO PUBLICADO
NO DIÁRIO POPULAR
PELOTAS - RS
08 DE MARÇO DE 2009


REVISADO E ATUALIZADO
ABRIL DE 2014



Dia desses, a Alice, minha sobrinha emprestada, entre um e outro pôster pendurado na parede da minha casa, fitou os olhos num  da Violeta Parra. E perguntou: - Quem é essa? Que tipo de música canta essa mulher?

Violeta Parra foi uma compositora, poeta, artesã, artista plástica e pesquisadora da música de raiz chilena. É considerada a mais importante folclorista do Chile e fundadora da música popular do seu país.

Violeta Parra foi também uma importante ativista política e social. Certa vez perguntaram a ela sobre sua ligação com o Partido Comunista, se “era verdade que era comunista”. Violeta, irônica, respondeu: “Sou tão comunista que, se você me der um tiro, derramarei sangue vermelho”. Em uma de suas canções, Violeta canta: Os famintos pedem pão/chumbo lhes dá a polícia.

Violeta Parra percorreu o mundo. Mas, foi no seu país, que instalou uma grande Barraca para viver, morar, trabalhar; e morrer. A ideia era convertê-la em um centro de referência para a cultura folclórica do Chile. A inciativa, como é comum acontecer quando se misturam coração e razão, cultura e dinheiro, não obteve sucesso. Emocionalmente abatida pelo fracasso do empreendimento, e arrasada por ter jogado tudo numa história de amor que não deu em nada, Violeta agradeceu  e se despediu: Gracias a la vida/ Que me ha dado tanto..., 

O ano era 1967. O dia, 5 de fevereiro. Em Santiago do Chile, eram 6 horas. Entardecia. A chegada da noite prenunciava o fim de mais um dia. Não um dia qualquer, mas um dia que ficou para sempre marcado. Um dia que será para sempre lembrado e celebrado.

Gracias a la vida foi seu canto final. Violeta estava sufocada, decepcionada e desiludida. Mas, ainda assim, agradecida. A vida deu à esta mulher, dois olhos capazes de distinguir, em meio a multidão, o homem de sua vida. Mas a vida que dá o riso é a mesma que dá o pranto. Paixão é feito um vendaval. Paixão é alucinação amorosa. Corta. Sangra. Mata. De paixão morreremos sempre. E do amor viveremos para sempre.

Eu, gracias a la vida, conheci a Vivi e sobrevivi. Renasci e estou aqui. 

sábado, 16 de março de 2013



¿qué dirá el santo padre?


por enilton grill
autor deste blog

pelotas
rio grande do sul
brasil


2013, 16 de março


numa madrugada de janeiro de 2012, morreu, na espanha, manuel fraga iribarne, ministro de francisco franco. fraga morreu em sua casa, na cama e em paz, como morrem, na espanha, os cúmplices do terror.  'de todas las historias de la historia / la más triste sin duda es la de españa / porque termina mal', profetizou muitas décadas atrás o poeta jaime gil de biedma. e a espanha hoje está mergulhada numa profunda crise, talvez a maior de toda sua história.

manuel fraga foi o braço mais à direita de francisco franco. após sua morte, no entanto, não faltaram notáveis discursos enaltecendo sua contribuição para a democracia, seu compromisso com o povo espanhol e seus pensamentos nobres.

seguramente esqueceram que manuel fraga foi ministro de informação e turismo - o goebbels de franco - de 1962 até 1969. certamente esqueceram também que participou de intermináveis atos repressivos que culminaram com a prisão, o exílio e a morte de cidadãos que se opunham à ditadura de franco. entre eles, julián grimau, sindicalista espanhol.

grimau esteve junto às barricadas na guerra civil espanhola. era comunista e foi fuzilado pela ditadura franquista, em meio a um clamor internacional contra a sua execução. à época, tomada de indignação, a chilena violeta parra escreveu uma canção em homenagem a grimau e deixou uma interrogação no ar:  ¿que dirá el santo padre / que vive em roma / que le están degollando a sus palomas?.

a resposta queimou em fumaça preta. 

agora, o mundo católico está em ebulição. habemus papam. ele é argentino e é o primeiro latino-americano da história da igreja católica romana. além disso, o novo chefe de estado do vaticano é também o primeiro jesuíta e o primeiro a escolher o nome de francisco, um nome carregado de simbolismo. 

'irmãs e irmãos, boa noite', foram as primeiras palavras de francisco. 'como sabeis, o dever do conclave era dar um bispo a roma, parece que foram buscá-lo quase ao fim do mundo'. depois, entre os aplausos e a aclamação, francisco pediu 'um caminho de fraternidade, de amor e de confiança'. por fim, pronunciou a sua primeira benção urbi et orbi (à cidade de roma e ao mundo). e foi dormir em paz. como dormem os que silenciam em nome de deus.

'o mundo está dividido entre os indignos e os indignados', já disse eduardo galeano sobre a atual crise na espanha.

e o que dirá o santo padre a respeito dos mortos e desaparecidos na ditadura de seu país?

ele disse que não sabia, que quando soube já era tarde e já nada podia fazer.

perdão! mas o papa falta com a verdade:

os mortos estão no fundo do rio. alguns francisco entregou e outros fez que não viu.

sexta-feira, 15 de março de 2013



¿qué dirá el santo padre?


miren cómo nos hablan
de libertad
cuando de ella nos privan
en realidad.

miren cómo pregonan
tranquilidad
cuando nos atormenta
la autoridad.

¿qué dirá el santo padre
que vive en roma,
que le están degollando
a sus palomas?

miren cómo nos hablan
del paraíso
cuando nos llueven balas
como granizo.

miren el entusiasmo
con la sentencia
sabiendo que mataban
a la inocencia.

¿qué dirá el santo padre
que vive en roma,
que le están degollando
a sus palomas?

el que oficia la muerte
como un verdugo
tranquilo está tomando
su desayuno.

lindo se dará el trigo
por lo sembra’o,
regado con tu sangre,
julián grimau.

¿qué dirá el santo padre
que vive en roma,
que le están degollando
a sus palomas?

entre más injusticia,
señor fiscal,
más fuerzas tiene mi alma
para cantar.

con esto se pusieron
la soga al cuello:
el sexto mandamiento
no tiene sello.

¿qué dirá el Santo Padre
que vive en roma,
que le están degollando
a sus palomas?

                1963,VIOLETA PARRA

¿qué dirá el santo padre?
faixa 12
violeta parra
canciones reencontradas en paris
1971
*Esta canção foi gravada em 1963, Paris.
É dedicada ao sindicalista espanhol Julián Grimau,
fuzilado pela ditadura franquista em 20 de abril de 1963,
e a sua viúva, Ángela Grimau.

quinta-feira, 14 de março de 2013



VIOLETA PARRA
NOS ESTADOS UNIDOS


"Antes de Bob Dylan, ao sul do mundo, estava Violeta Parra, a mãe do folclore latino-americano".

Com esta frase, um anúncio na influente revista estadunidense de cinema Variety promove o filme chileno "Violeta se fue a los cielos".



domingo, 20 de maio de 2012


VIOLETA FOI PARA O CÉU

Terna, solidária, boêmia, áspera, contundente, frágil e indomável. Violeta Parra foi uma das artistas mais emblemáticas do Chile - e ainda assim, profundamente ignorada por décadas de uma cultura controlada pela ditadura de Pinochet.


Baseado no livro escrito pelo filho de Violeta, Ángel Parra, são mostrados a vida, a obra, a memória, os amores e as esperanças dessa cantora, compositora, poeta e pintora que é um dos maiores ícones da arte popular latino-americana.


Violeta se fue a los cielos conta a história da chilena Violeta Parra, traçando sua evolução, da infância humilde, passando pela exposição de suas obras de arte no Louvre de Paris, até a desilusão com seus projetos culturais, os problemas emocionais, e o consequente suicídio em La Carpa de la Reina.


O longa levou o prêmio de melhor filme no Festival de Sundance de 2012.


VIOLETA SE FUE A LOS CIELOS
Gênero: Biografia
Duração: 110 min.
Origem: Chile, Argentina e Brasil
Estreia: 08 de Junho de 2012
Direção: André Wood
TRAILER OFICIAL