Mostrando postagens com marcador León Felipe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador León Felipe. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 7 de outubro de 2026


e se os idiotas formos nós

♦

«o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade»

umberto eco

♦

«a educação não transforma o mundo. a educação muda as pessoas. as pessoas transformam o mundo.»

paulo freire

♦

segundo márcia tiburi, há três tipos de idiotas

1 – ignorante orgulhoso: não se abre à experiência do conhecimento. repete clichês introduzidos no cotidiano. sua formação é «midiatizada». mas como o ignorante não sabe disso, ele se orgulha de ser o que é.

2 – «burro mesmo»: não há muito o que dizer. mesmo com informação por todos os lados, ele não consegue juntar os pontinhos. por exemplo: o «burro mesmo» faz uma manifestação «democrática» para defender a volta da ditadura.

3 – paranóico: o paranóico tem certezas, a falta de dúvida é o que o torna idiota. o idiota paranóico cria monstros que ele acredita combater a partir de suas certezas. o comunismo, o feminismo, os indígenas, os pobres, os negros, os homossexuais ...

♦

o vento leste do carcará

por ancelmo gois
o compositor pernambucano luís vieira conta que seu parceiro, o maranhense joão do vale, que era semianalfabeto, depois do sucesso de «carcará» achou que devia usar palavras difíceis nas letras. vieira discordou: «só escreva sobre o que você conhece!», ralhou.
até que joão surgiu com a letra da obra prima «na asa do vento»: «deu meia noite/a lua faz o claro/eu assubo nos aro/vou brincar no vento leste». vieira quis saber onde joão tinha encontrado aquele «vento leste». e o parceiro: «de noite, liguei o rádio na "hora do brasil" e ouvi: "aviso aos navegantes: vento leste soprando pra sudoeste"».

a história está em «mpbambas», de tarik de souza, e parece dar razão a um mestre da minha terra: «eu prefiro quem diz "nós vai" e vai, do que quem fala "nós vamos" e não vai».

♦

a lua é clara, o sol tem rastro vermelho
é o lago um grande espelho onde os dois vão se mirar.

👇

(joão do vale, 1981)

♦
«meia noite é a hora mais escura. precisamente nesta hora a lua apresenta sua luminosidade. do confronto com a obscuridade interior, o inconsciente, surge a luz.

outro ponto interessante é o jogo de opostos. a escuridão da meia noite, o claro da lua. o jogo de opostos se faz presente durante toda a letra da canção.

a aranha tece puxando o fio da teia
a ciência da abeia, da aranha e a minha
muita gente desconhece

abelhas, aranhas, flor, sol, lua, vento, ar, cheiro se apresentam enquanto símbolos. eis a ciência do compositor que, valendo-se de imagens de coisas simples da natureza extrai novos e profundos significados. seu trabalho é brincar com as palavras e seus infinitos sentidos. tal habilidade poética também é o que se espera do analista. se não for poeta, que ao menos tenha seu olhar e sua escuta abertas ao simbólico.»

ijrs | instituto junguiano do rio grande do sul

♦

os menores carregam o mundo
são os menores que o suportam
com seus caminhos parcos
e seus olhos

como algumas flores breves
como as que não duram mais que um dia
e nesse tempo urgentemente sonham 

assim os menores sonham no mundo
e avançam com um lírio amarelo no pensamento
e se erguem contra a noite longa
dentro de sua vida que é um sopro

quando por cinco vezes a terra cedeu
a pesadelos de fogo e de água
(naquela que tem sido a história das grandes extinções)
foram os frágeis que se alastraram tão quietos ─
 porque não tinham nome nem rosto
esconderam-se sem que os percebessem

foram para o escuro fundo, em
mares inconsoláveis
foram por entre vales de ossos imensos e
protegeram-se na curvatura da sombra
foram morar na última fenda do
último tronco ─
como se tudo insistisse num
último coração —
dentro da sequoia

são os vencidos que têm carregado o mundo
são lobas que há dias emagrecem, regurgitando
em bocas de ninhadas ainda cegas
são pássaros de asa quebrada, que
estremecem nas mãos
são algum pulso
e alguma lua
são homens e mulheres sem lugar, recurvados sobre
si como pendendo
a uma pergunta sem pronúncia

os menores é que rompem ao meio
o medo
e suspendem a vida num fio claríssimo de seda em que
a morte não toca

👇

(mar becker,  de outubro de 2026)
por antónio josé cravo

♦

(brecht revisitado)

os filhotes do fascismo sempre querem cruzar de novo com a cadela

♦

(marx revisitado)

a primeira vez como tragédia, a segunda vez como tragédia maior

♦
na foto do futuro do brasil 
aqueles que não tinham para pagar o fotógrafo
não eram fotografados 
♦
todos os poemas são de mar becker 

♦

¡qué pena si este camino fuera de muchísimas leguas
y siempre se repitieran
los mismos pueblos, las mismas ventas
los mismos rebaños, las mismas recuas!
(que pena se esse caminho tivesse muitas léguas
e se repetissem sempre
as mesmas vilas, as mesmas vendas,
os mesmos rebanhos, as mesmas caravanas!)

¡qué pena si esta vida tuviera
esta vida nuestra
mil años de existencia!
¿quién la haría hasta el fin llevadera?
¿quién la soportaría toda sin protesta?
¿quién lee diez siglos en la historia y no la cierra
al ver las mismas cosas siempre con distinta fecha?
los mismos hombres, las mismas guerras
los mismos tiranos, las mismas cadenas
los mismos farsantes
¡y los mismos, los mismos poetas!
(que pena se esta vida tivesse
esta nossa vida
mil anos de existência!
quem a tornaria suportável até o fim?
quem a suportaria por inteiro sem reclamar?
quem lê dez séculos de história e não a cierra
ao ver sempre as mesmas coisas com datas diferentes?
os mesmos homens, as mesmas guerras,
os mesmos tiranos, as mesmas correntes,
os mesmos impostores
e os mesmos, os mesmos poetas!)

¡qué pena, que sea así todo siempre
siempre de la misma manera!
¡qué pena!
¡qué pena!
¡qué pena!
que pena que seja sempre assim,
sempre da mesma maneira!
que pena!
que pena!
que pena!

👇

(los olimareños, 1972)
poema: león felipe

♦

tenho pena

por nelson barros

a mulher que apoia o inominável, é a mulher que foi ensinada a não gostar de mulher. ela foi ensinada a entender que mulheres são rivais históricas. ela foi treinada nas sociedades patriarcais, a entender que mulheres estão no mundo para disputar um homem pra chamar de seu. ela aprendeu a olhar para as outras mulheres como inferiores, como se ela não fizesse parte desse universo. ela acha que será a escolhida para ser bem tratada por aquele que tratou mal todas as outras. ela quer punir a mulher que, no fundo, odeia ser.

o gay que apoia o inominável é a mesma coisa. ele aprendeu a não gostar de gay. ele acha que é melhor que os outros gays por que não parece ser gay. ele considera isso um elogio. ele critica «as afeminadas». ele acha que será escolhido para ser bem tratado por quem trata mal todos os outros gays. ele quer punir o gay que ele, no seu íntimo, odeia ser.

o negro que apoia o inominável aprendeu que «black is not beautiful», como dona maria, uma negra que não quis se casar, para não ter que casar com um negro. ela achava bacana quando alguém dizia que ela era uma negra de modos finos, como as brancas, e colecionava perucas. ela acha que será tratada de modo diferenciado, por quem nunca a tratou bem, não por ela ser do jeito que era, mas pelo jeito que ela imaginava que era vista: «uma negra de alma branca».

o trabalhador que apoia o inominável tem um delírio. ele vai apoiar alguém que não tem nenhuma noção do que seja trabalhar.

tenho pena de todos.
e de você e de mim.

♦

que pena

por enilton grill

eu também. assim como nelson barros tenho pena. ao contrário de muitos de nós, eu não acho que os eleitores da extrema-direita terão, caso flávio bolsonaro seja eleito presidente desse país, o governo que merecem. eles não merecem. ninguém merece.

eles continuarão sendo vítimas de um sistema que ensinou, convenientemente, que ser mulher, ser gay, ser negro, ser pobre são moedas de menos valia.

só há uma forma de mudar isso: educação, educação e educação.

mas que educação? a educação que abre universidades, mas entrega diplomas que funcionam apenas como uma ilusão de ascensão social? não.

uma educação que foca no pragmatismo, em vez de ensinar a ler e transformar a realidade? não.

uma estrutura que trocou a formação da consciência política e a organização comunitária de base por comemorações estatísticas? não.

uma lógica que substitui o debate crítico e a filosofia por cursos rápidos voltados apenas para metas do mercado? não.

uma estrutura que financia a expansão do ensino privado com dinheiro público que deveria ir para os cieps e escolas de base? não.

um método que prepara o jovem para ser o trabalhador precarizado de aplicativo, em vez de ensiná-lo a combater a precarização? não.

precisamos da educação que liberta, não da que apenas qualifica para a exploração.

enquanto o pragmatismo institucional se contentar em governar para os índices e para os mercados, continuará pavimentando a estrada por onde passa a barbárie. se queremos um futuro diferente, precisamos de uma pedagogia que ensine a questionar o poder, e não apenas a obedecer a ele. só a consciência de classe e de direitos pode quebrar o feitiço que faz com que as vítimas escolham os seus próprios algozes.
♦
«enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto!»
belchior

♦

joão, o menino cantador
era uma vez um menino, um rio, um colégio, um campinho de terra e uma cidadezinha desse tamainho.
lá havia uma pedra grande, do tamanho de um prédio de seis andares, e por isso a cidade foi chamada de pedreiras.
um dia, o menino deixou de ir para a escola e passou a só vender os doces da mãe, a brincar no rio e a jogar bola.
ah, mas de cantar ele não cansava.
andréa oliveira

♦

seu moço quer saber, eu vou contar num baião
minha história pra o senhor, seu moço, preste atenção

eu vendia pirulito, arroz doce e mungunzá
enquanto eu ia vender doce, meus "colega" iam estudar
a minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar
a minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar

e quando era de noitinha, a meninada ia brincar
vixe, como eu tinha inveja, de ver o zezinho contar:
– o professor raiou comigo, porque eu não quis estudar
– o professor raiou comigo, porque eu não quis estudar

hoje todo são «doutô», eu continuo joão ninguém
mas quem nasce pra pataca, nunca pode ser vintém
ver meus amigos “doutô”, basta pra me sentir bem
ver meus amigos “doutô”, basta pra me sentir bem

mas todos eles quando ouvem, um baiãozinho que eu fiz,
ficam tudo satisfeito, batem palmas e pedem bis
e dizem: – joão foi meu colega, como eu me sinto feliz
e dizem: – joão foi meu colega, como eu me sinto feliz

mas o negócio não é bem eu, é mané, pedro e romão,
que também foram meus colegas, e continuam no sertão
não puderam estudar, e nem sabem fazer baião

👇

(o poeta do povo, 1965)

♦

#lula2026

sexta-feira, 26 de junho de 2026

 


aos times pequenos

••••••••••••••

«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges | pequenos poemas viúvos | p. 49.

••••••••••••••

«ya no hay locos, ya no hay locos
ya no hay locos, amigos ya no hay locos.
todo el mundo está cuerdo
terrible, horriblemente cuerdo.»

león felipe

••••••••••••••

«sou uma grande fonte de tensão. quando chego, o ambiente fica tenso. é por isso que não apareço com frequência. sou tóxico. estar perto de mim piora a pessoa ao meu redor. vejo isso como um karma, e esse comportamento é baseado no medo. você teme perder muito mais do que gosta de ganhar. então, essa obsessão está na busca por maneiras de evitar a derrota. gostaria de viver o completo oposto do que vivo, como menotti ou cruyff, grandes tipos "irresponsáveis". esses são os tipos de pessoas que merecem aplausos.»

marcelo bielsa

••••••••••••••

«o homem está sempre pronto para distorcer o que dizem os seus sentidos»

dostoiévski

••••••••••••••

quarta-feira

a náusea: essa evidência ofuscante?
existo – o mundo existe –, e sei que o mundo existe.
isso é tudo. mas tanto faz para mim.

é estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta.
gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência
de minha existência, de dormir.

mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim
por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca...

e subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi.
a náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a náusea sou eu.

jean-paul sartre | a náusea, p. 146, 147.

••••••••••••••

de volta a marcelo bielsa
(comentários no face sobre sua reflexão)
.
«não se vê um mínimo de resultado no trabalho dele. o time do uruguai é um amontoado sem padrão tático e joga um futebol em ritmo de 1950.»
.
«sublime!! não para todos!!»
.
«é capaz de virar presidente com esse discurso. aconteceu aqui.»
.
«gosto que, depois de 25 anos, ele mesmo concorde comigo. ele é tóxico, incontrolável, repetitivo e obsessivo, e não aceita que um jogador questione seu pensamento.»
.
«ó, vitimista! nesse caso, o karma acaba sendo dos outros, que têm de aturá-lo.»
.
«nossa! que confissão; uma reflexão tão profunda. não é para o jogador de futebol comum.»
.
«a questão é que bielsa acaba se tornando cansativo e exaustivo. porque ele é como ele mesmo se descreve: obsessivo ao ponto da exaustão. bielsa extrai o melhor de cada jogador e os faz acreditar em coisas que nem sabiam que podiam fazer ou alcançar. para mim, ele é um gênio e, como tal, incompreendido.»
.
«eles o chamam de "o louco" por um motivo. só os loucos ousam falar a verdade, especialmente sobre sua profissão. poucos ousam admitir publicamente suas falhas.
ele é um homem transparente, tão transparente que até expõe suas próprias fraquezas.
ele vive 24 horas por dia, 7 dias por semana, mostrando a cara... a pessoa comum usa uma máscara para esconder seu verdadeiro eu.»
.
«nada do que ele diz faz sentido, como sempre, ele é um charlatão.»
.
«ele foi claro em suas declarações; de agora em diante, a bola está com os jogadores. se eles não o apoiarem amanhã (hoje), terão que dizer isso na cara dele, e pronto.»
.
«um gênio... um louco... me faz pensar que ele pode estar sofrendo de burnout. eu ofereceria a ele um trago de uma boa marihuana.»
.
- «acho que bielsa tem síndrome de asperger.»
- «asperger é só um rótulo.»
- «de jeito nenhum, revela uma condição que ele mesmo reconhece e da qual não consegue escapar.»
- «entendo o que você quer dizer. quero dizer que qualquer nome para qualquer "doença" é simplesmente uma nomenclatura ou um rótulo para um conjunto de sintomas. saudações.»
.
«bielsa como filósofo é o melhor.
.
«coitado! é infeliz!»
.
«pobre homem! está condenado a perder!»
.
«um chorão completo. ele quer bancar o culto e nem consegue falar direito. acho que ele tem algum problema mental.»
.
«ficando cada dia mais louco... nem ele mesmo se entende... ele é um perdedor...»
.
«mas ele deveria começar a fazer terapia para poder se divertir um pouco... ele transmite insegurança para o time... nada de positivo pode vir de um relacionamento assim, espero que ele resolva tudo isso.»
.
«ele é realmente louco.»
.
«coitado do uruguai com esse autista.»
.
«ele é um cara extremamente inteligente. ele tem uma compreensão cristalina das coisas, tanto humanas quanto filosóficas. e também, OBVIAMENTE, em termos de futebol. mas aqui, 99,9% dos jornalistas e torcedores não o entendem... claro!! absolutamente!! o cara está muito acima de suas tristes e limitadas capacidades intelectuais.»
.
«ele é um mestre! tem uma inteligência acima da média, o que obviamente contrasta com a maioria medíocre do mundo do futebol.»
.
«hahaha. inteligente porque dá voltas e mais voltas e leva mais tempo que o necessário para explicar ou dizer algo simples. baita enrolão»
.
«um cara que se expõe assim para os mercenários do futebol e fala sobre sua psicologia e seus erros é um exemplo na sociedade atual. para mim, ele é um mestre.»
.
«mestre de quê... ele não ganhou absolutamente nada... para mim, ele é uma mentira...»
.
«como sempre, fez um circo enorme com isso e falou de si mesmo...»
.
«ele deveria ter sido poeta, porque como técnico ele é um ótimo contador de histórias.»
.
«bielsa, abandone o cargo e vire escritor.»

••••••••••••••

os torcedores dos times pequenos
eles partem em um caminhão
com a bandeira nos ombros
atados a um sonho
se a razão discorda deles
eles discutem com a razão
sempre enfrentando o vento
eles resistem à tempestade
um brinde, um brinde aos torcedores dos torcedores dos times pequenos
um brinde à torcida organizada do meu coração
um brinde à camisa mais bonita do mundo
um brinde, do ventre da minha mãe ao seu caixão
os torcedores mais veteranos
eles carregam uma almofada
eles vagam de estádio em estádio
com seu rádio de pilha
eles guardam um jornal antigo
daquele ano que subiram
e te dizem de memoria a gloriosa formação
salud, salud los hinchas de los hinchas de los cuadros chicos
salud la barra de mi corazon
salud, la camiseta mas hermosa de este mundo
salud, desde la panza de la vieja hasta el cajon
el gorrito de botija se apolilla en un rincon
lo deslumbran los colores que ven por television
los hinchas de cuadros chicos
se mueren del corazon
si algun dia por esas cosas
su cuadro sale campeon
salud, salud los hinchas de los hinchas de los cuadros chicos
salud la barra de mi corazon
salud, la camiseta mas hermosa de este mundo
salud, desde la panza de la vieja hasta el cajon

a los cuadros chicos | tabaré cardozo (2009)
canta: canario luna

••••••••••••••

«se podes olhar, vê. se podes ver, repara»

saramago

••••••••••••••

as fotos oficiais da delegação uruguaia para a copa do mundo de 2026 nos estados unidos, méxico e canadá revelaram um detalhe curioso sobre o técnico marcelo bielsa: sempre que posava para uma foto ou vídeo oficial da fifa — as típicas fotos e vídeos do media day usados ​​para apresentar as equipes, tanto no telão dos estádios quanto nas redes sociais —, o técnico do uruguai abaixava a cabeça ou desviava o olhar da câmera.

«não tenho que dar nenhuma explicação. tiraram a foto daquele jeito. eu não sou modelo. eu estava de frente para os fotógrafos, e essa é a foto que eles tiraram de mim. mas qual é a pergunta dela? eu não tenho resposta. devo também explicar por que eu não estava olhando para as pessoas com quem eu estava conversando naquele momento? não sei. não são explicações que eu preciso dar», disse o técnico uruguaio, incrédulo com a pergunta feita por uma jornalista americana na coletiva de imprensa pós-jogo.

bielsa ficou tão revoltado que insistiu imediatamente: «em relação à pergunta anterior, acho que deve haver um limite para o que precisa ser explicado. se alguém usa óculos, é porque usa óculos; se olha alguém nos olhos, é porque olha alguém nos olhos; se olha para cima ou para baixo... será que tantas coisas precisam de explicação? estamos simplesmente buscando explicações para situações que não precisam de explicação. não há nada de errado em usar óculos, em olhar para baixo; não somos obrigados a agir como modelos a serem seguidos ou a atender exigências que não têm fundamento algum.»

••••••••••••••

#arribaceleste
#américas

sexta-feira, 13 de março de 2026

um completo desconhecido 
(como tu)

.

https://www.youtube.com/watch?v=p2vlcxrXx5I
a complete unknown (2024) | bob dylan & johnny cash letters

.

de johnny cash para bob dylan
(e vice-versa)


eu estava muito interessado na música folk no início dos anos 1960, tanto em canções autênticas de diversos períodos e aspectos da vida norte-americana quanto nas novas canções do revival folk da época, e então prestei atenção em bob dylan assim que o disco «bob dylan» apareceu, no início de 1962, e ouvi sem parar «the freewheelin' bob dylan» em 1963, eu tinha um gravador portátil que levava para a estrada e colocava o freewheelin' para tocar no backstage. depois, saía para fazer o show e o ouvia de novo quando voltava do palco. após um tempo fazendo isso, escrevi uma carta a bob dizendo que era um grande fã seu. ele respondeu em seguida, contando que acompanhava minha carreira desde «i walk the line» (1), e iniciamos uma troca de correspondência.

não foi uma correspondência muito extensa. paramos de nos escrever depois de nos conhecermos, quando fui tocar no festival folk de newport em julho de 1964. não me lembro muito desse festival, mas me lembro de june e mim e de bob e joan baez em nosso quarto de hotel, tão felizes de nos encontrarmos que pulávamos em cima da cama feito crianças.

mais tarde, é claro, bob e eu cantamos juntos em seu disco nashvile skyline (2), e ele foi meu convidado no programa de tv (3). nos encontramos em algumas ocasiões e uma dessas foi gravada por d. a. pennebaker em seu documentário don't look back, que registrou a turnê europeia de bob em 1965.

cash - a autobiografia de johnny cash
são paulo: leyla, 2013. página 170

.

https://www.youtube.com/watch?v=UYKS0jZpARI&list=RDUYKS0jZpARI&start_radio=1
no direction home, documentário dirigido por martin scorsese e que conta a trajetória de bob dylan nos anos 1960. dylan permitiu que scorsese tivesse acesso a horas de filmagens que nunca antes tinham sido tornadas públicas, incluindo o encontro entre ele e johnny cash, citado por este último em sua autobiografia.

.

«quando me pediram para falar sobre a morte de johnny cash, eu pensei: cash é o rei, já que eu sempre achei que era assim. ele era a estrela do norte – você poderia conduzir um navio com a luz dele. foi o maior entre os maiores, antes e hoje. eu o conheci em 1962 ou 63 e o vi muito durante os anos seguintes. nos encontramos muito ultimamente, mas de certa forma ele esteve mais presente dentro de mim do que as pessoas que eu encontro no dia a dia.»

bob dylan, depoimento para a revista rolling stone
12 de setembro de 2013

.

https://www.youtube.com/watch?v=PqADZ9TNURI
bob dylan on johnny cash. ndh outtake
bob dylan talks about his friend johnny cash


.

https://www.youtube.com/watch?v=LVdlF3Eih28&list=RDLVdlF3Eih28&start_radio=1
bob dylan & johnny cash - one too many mornings (rare)

.

(1) https://www.youtube.com/watch?v=jh169rVMveA&list=RDjh169rVMveA&start_radio=1

(2) https://www.youtube.com/watch?v=Je4Eg77YSSA&list=RDJe4Eg77YSSA&start_radio=1

(3) https://www.youtube.com/watch?v=93NnaKMDUSo&list=RD93NnaKMDUSo&start_radio=1

.

«a vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. a vida serve para você se criar. e criar coisas»

bob dylan

.

https://www.youtube.com/watch?v=KMp-u9lWi0I
rolling thunder revue: a bob dylan story by martin scorsese | trailer | netflix
[legendado em português de portugal]


.

«se souberem onde olhar, é possível saber tudo sobre mim através das minhas canções.»

bob dylan, 1990

.

procura-se
procura-se na califórnia, procura-se em buffalo
procura-se homem em kansas city, procura-se homem em ohio
procura-se no mississippi, procura-se no velho cheyenne
onde quer que você olhe hoje à noite, você pode me encontrar
eu posso estar no colorado ou na geórgia, à beira-mar
trabalhando para um homem que talvez nem saiba quem eu sou
se você me vir vindo, fique na sua, não diga pra ninguém
que estou fugindo e que você sabe quem eu sou
procurado por lucy watson, procurado por jeannie brown
procurado por nellie johnson, procurado na próxima cidade
mas eu tinha tudo o que queria com tudo que tinha
e muito mais do que precisava de algumas coisas que acabaram mal
fui desviado em el paso, parei para pegar um mapa
fui no caminho errado em juarez com juanita no meu colo
depois fui dormir em shreveport, acordei em abilene
me perguntando por que diabos sou procurado nas cidades por onde passo
procurado em albuquerque, procurado em siracusa
procurado em tallahassee, procurado em baton rouge
tem sempre alguém atrás de mim nos lugares por onde vou
e para onde quer que você olhe hoje à noite, você pode me enxergar
procurado na califórnia, procurado em buffalo
procurado em kansas city, procurado em ohio
procurado no mississippi, procurado no velho cheyenne
onde quer que você me procure hoje à noite, você pode me encontrar

https://www.youtube.com/watch?v=iiRMfb3Z9hg&list=RDiiRMfb3Z9hg&start_radio=1
bob dylan © 1969 by big sky music
bob dylan / johnny cash - wanted man (take 1)


.

sem lenço, sem documento

por enilton grill

23 de julho de 2009, long branch, nova jersey.

dylan, então com 68 anos, estava em aberdeen, em turnê com willie nelson e john mellencamp. em um dia de folga, decidiu sair para caminhar sozinho, vestindo roupas largas, um casaco com capuz (para se proteger da chuva) e calças de agasalho, o que lhe conferia uma aparência desleixada.

uma moradora local ligou para a polícia relatando ter visto um homem «suspeito» e «maltrapilho» andando pela vizinhança e olhando para dentro de uma casa que estava à venda. suspeita-se que a propriedade pertencia a bruce springsteen.

uma policial jovem (24 anos), kristie bouble, abordou dylan. ela não o reconheceu e, ao perguntar seu nome, ele respondeu: «bob dylan». a policial afirmou mais tarde que não acreditou nele, achando que era um delirante, um farsante ou um ilusionista.

como dylan não portava identificação, a policial o colocou no banco de trás da viatura e o levou até o hotel onde sua equipe de turnê estava hospedada para verificar sua identidade. ao chegarem, a equipe confirmou a identidade do músico. a policial, surpresa, pediu desculpas e o liberou.

nessa noite, entre as canções do bis em aberdeen, estava a previsível «like a rolling stone». ele a interpretou com algo menos que a sua tradicional bravata; cantou com uma humildade séria, sorrindo largamente nas referências ao «mystery tramp» («vagabundo misterioso»), «napoleon in rags» («napoleão em andrajos») e à imagem de ser invisível e não ter segredos.

«como você se sente? / sem ter para onde ir / como uma completa desconhecida / como uma pedra que rola?»

essa canção famosa começa com um golpe na bateria e as palavras «once upon a time» («era uma vez»), como qualquer conto de fadas, marcando o início da balada e da jornada da vida de dylan.

.

eu tenho uma balada
para johnny cash…
e já sei que é muito tarde
porque a vida é como um flash
mas, johnny, tu bem sabes
que o tempo pouco importa...
e ninguém sabe o que haverá
nos esperando além da porta

https://americasgrill.blogspot.com/2013/05/balada-para-johnny-cash-por-martim.html

.

https://soundcloud.com/grill-4/uma-balada-para-johny-cash
balada para johnny cash | martim césar/paulo timm (2008, 2014)
(caminhos de si: recital poético-musical)

.

«eu só fui admitir que eu não era como a maioria dos meus amigos quando eu vi eles voltarem para suas casas e eu já não tinha mais para onde voltar.»

autor desconhecido

.

«o que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.»

mario quintana

.

«é estranho que uma época que começou como só tendo futuro tenha terminado como só tendo passado.»

boaventura de sousa santos

.

budapeste, 1991

foi na venerável budapeste - no terraço do buda penta hotel - que bob dylan, de roupa preta e botas de cowboy ( que ele jamais parece trocar ), deu sua primeira entrevista com mais de três minutos nos últimos cinco anos.

caderno 2 - o início deste seu world tour/91 foi um pouco tenso. a iugoslávia, primeiro pais do leste europeu no qual você se apresenta em 30 anos de carreira, também passa por um momento de tensão. como vê o que está acontecendo no leste nesses últimos dois anos?
bob dylan - você está dizendo que acha que a turnê começou tensa?
caderno 2 - bom, um pouco, não é?
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por quase um minuto )
caderno 2 - bem, de qualquer maneira, como vê a situação do leste europeu, agora que está aqui pela primeira vez?
bob dylan - já estive aqui antes, em 78 ou 79. de férias... ( pausa por quase um minuto)... você conhece a história da europa central e do leste europeu?
caderno 2 - um pouco.
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por quase um minuto ) então deve saber que esses países não são realmente países com unidade nacional significativa, muito menos unidade étnica. foram criados, fabricados. não são orgânicos - foram, são uma espécie de joguete no tabuleiro das grandes potências.
caderno 2 - você é a favor dos movimentos separatistas, então?
bob dylan - realmente não me interesso muito por governos e por estados.
caderno 2 - o melhor governo é aquele que não governa.
bob dylan - sim, thoreau sempre esteve certo. hum...( pausa por uns 30 segundos ) é sobre isso que você quer falar? você já leu thoreau? o que você sabe de thoreau? você conhece a obra de thoreau?
caderno 2 - bem, um pouco.
bob dylan - hum...( pausa que se prolonga por uns 15 segundos ) acho que já falamos mais do que o suficiente, não acha?

.

«em estado de selvageria está a preservação do mundo.»

henry david thoreau

.

o problema da vida selvagem

em seu ensaio de 1996, «the trouble with wilderness» (o problema com a natureza selvagem) , o historiador ambiental william cronon escreve que «chegou a hora de repensar a natureza selvagem».

cronon argumenta que a noção de «selvageria» de thoreau é frequentemente tomada como sinônimo de «deserto geográfico» e «solidão humana».

mas para thoreau, a natureza selvagem não é um lugar isento de influência humana. é uma relação de responsabilidade e cuidado onde nos compreendemos não como seres externos à natureza, mas, como ele coloca, «como habitantes, ou parte integrante da natureza». dessa forma, cronon argumenta que cultivar a natureza selvagem em nossas relações com o mundo significa «aprender a lembrar e reconhecer a autonomia do outro».

.

«suje o tapete deles de lama»
foi o que johnny cash disse a bob dylan pouco antes de ele subir ao palco do newport festival, o templo sagrado do folk, em 1965. naquele momento, bob não segurava o violão folk, e sim uma guitarra elétrica. uma fender stratocaster sunburst.

.

como se sente
como um completo desconhecido
sem um lar para voltar
como uma pedra a rolar?

https://www.youtube.com/watch?v=a6Kv0vF41Bc&list=RDa6Kv0vF41Bc&start_radio=1
like a rolling stone | bob dylan (1965)
[live newport folk festival, 1965]

.

ao vento

sinto-me como uma pedra que rola
pedras que rolam não criam limo
entenda isso como quiser

grill

.

assim é a minha vida, pedra, como tu.
como tu, pedra pequena;
como tu, pedra ligeira;
como tu, canto que rodas pelas calçadas e pelas veredas;
como tu, guijarro humilde de las carreteras;
como tu, que em dias de tormenta te afundas no lodo da terra
e logo centelhas debaixo dos cascos e debaixo das rodas.
como tu, que não serves para ser pedra de uma lonja, nem pedra de um palácio, nem pedra de uma igreja
como tu, pedra aventureira
como tu, que talvez tenhas sido feita só para uma funda
pedra pequena e ligeira
como tu

https://www.youtube.com/watch?v=ACvIYsCqMQ0&list=RDACvIYsCqMQ0&start_radio=1
como tú | león felipe - paco ibáñez (1969)
[festival les suds, à arles, 2011]

.

pedra
substantivo feminino
1. matéria mineral sólida, dura, da natureza das rochas.

do «amansa-burro»

.

#casadelasaméricas
#américas #repecho

domingo, 6 de outubro de 2013


DE LEÓN FELIPE 
PARA EL CHE

Dedicatoria de León Felipe en su poemario El Ciervo enviado al Che.

"Al Dr. Che Guevara, gran soldado defensor de la libertad de Cuba.
Con un saludo de su amigo,
León Felipe.
México,
Ene 59"

terça-feira, 9 de julho de 2013

.



O SONHO DE CERVANTES
(E OUTROS DELÍRIOS)


POEMA
VI


(De como toda a Espanha - e quiçá toda a humanidade - houve por bem pedir ao já mui afamado Cavaleiro da Triste Figura que retornasse às suas heróicas aventuras, e assim trouxesse novamente a sua inigualável honra a uma era tão carente dos valores da cavalaria andante)


PELOS CAMINHOS DA ESPANHA

Quando agora te recolhes ao descanso que mereces
E os humildes te reclamam e as donzelas fazem preces
Toda a Espanha se pergunta, de Catalunha a Andaluzia...

Como andar nestes caminhos sem teu braço justiceiro,
Sem tua honra inquebrantável de fidalgo e de guerreiro,
Sem tua bravura que pôs freio à maldade e à tirania?

Memoráveis tempos que haverão de ter sempre renome
Aqueles... em que tão somente a pronúncia do teu nome
Afugentava os feiticeiros e assustava os malfeitores...

Dom Quixote de la Mancha, já imortal se fez tua lenda
Por isso o mundo vem pedir-te que regresses à tua senda
Dai-nos outra vez teu sonho, tua coragem, teus valores...

                                           Martim César



YA NO HAY LOCOS
«Ya no hay locos,
Amigos, ya no hay locos.
Ya no hay locos
En España, ya no hay locos.
Se murió aquel manchego,
aquel estrafalario fantasma del desierto»
LEÓN FELIPE/PACO IBAÑEZ
YA NO HAY LOCOS
1997

domingo, 7 de julho de 2013

.



O SONHO DE CERVANTES
(E OUTROS DELÍRIOS)


POEMA
IX


(Que trata de como a imprevisível sorte foi desfavorável ao fidalgo Don Quixote de la Mancha, e de como o vencido, porém honrado cavaleiro, não abdicou de seu imensurável amor por sua senhora Dulcineia)


O CAVALEIRO DERROTADO

Talvez o tempo, que tudo envolve em densas brumas
Possa esquecer o que escreveram tantas plumas
E apague a dor de ver-se os sonhos destruídos

Fidalgo errante, ontem vencedor de mil batalhas
Hoje o que resta? Só o descanso ou a mortalha
A inglória sina que é o espólio dos vencidos

Efêmera é a conquista e toda a glória é passageira
Mas a derrota... essa perdura a vida inteira
Ainda que pouco hoje te reste por viver.

Prefiro a morte! - Hás de dizer - Prefiro a morte!
Já que os deuses não te deram melhor sorte
E á tua amada... tu honrarás até morrer.

                          Martim César



VENCIDOS
«Por la manchega llanura
se vuelve a ver la figura
de Don Quijote pasar.
Va cargado de amargura,
va, vencido, el caballero
de retorno a su lugar»
LEÓN FELIPE / SERRAT
MEDITERRANEO
1971

TE AMARÉ
«Te amaré, te amaré junto al viento
te amaré como único ser
te amaré hasta el fin de los tiempos
te amaré y después te amaré»
SILVIO RODRIGUEZ
RABO DE NUBE
1980

segunda-feira, 8 de agosto de 2011


 
YA NO HAY LOCOS


* Por León Felipe


Ya no hay locos, ya no hay locos, ya no hay locos
amigos, ya no hay locos.
Ya no hay locos, ya no hay locos, ya no hay locos,
en España ya no hay locos.
Se murió aquel manchego,
aquel estrafalario fantasma del desierto.

Ya no hay locos, ya no hay locos, ya no hay locos,
en España ya no hay locos.
Ya no hay locos, ya no hay locos, ya no hay locos,
amigos, ya no hay locos.
Todo el mundo esta cuerdo
terrible, horriblemente cuerdo.

Ya no hay locos, ya no hay locos, ya no hay locos,
en España ya no hay locos.
Ya no hay locos, ya no hay locos, ya no hay locos,
amigos, ya no hay locos.

¿Cuándo se pierde el juicio?
(yo pregunto): ¿cuándo se pierde, cuándo?
Si no es ahora, que la justicia
vale menos que el orín de los perros.

Ya no hay locos, ya no hay locos, ya no hay locos,
amigos, ya no hay locos.
Ya no hay locos, ya no hay locos, ya no hay locos,
en España ya no hay locos.
Todo el mundo esta cuerdo
terrible, horriblemente cuerdo.

Ya no hay locos, ya no hay locos, ya no hay locos
amigos, ya no hay locos.
Ya no hay locos, ya no hay locos, ya no hay locos,
en España ya no hay locos.
Se murió aquel manchego,
aquel estrafalario fantasma del desierto.

Ya no hay locos, ya no hay locos, ya no hay locos,
amigos, ya no hay locos.
Ya no hay locos, ya no hay locos, ya no hay locos,
en España ya no hay locos.


* León Felipe
Poeta español
(Tábara, Zamora, 11 de abril de 1884 -
Ciudad de México, 18 de septiembre de 1968)
Formó parte de la generación del 27.