milonga de andar longe
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adote um banqueirinho!
no ano de 2008, a bolsa de nova york foi a pique.
dias histéricos, dias históricos: os banqueiros, que são os mais perigosos assaltantes de bancos, haviam despojado suas empresas, embora jamais tenham sido filmados pelas câmaras de vigilância e nenhum alarme tenha disparado. e não houve maneira de evitar a derrocada geral. o mundo inteiro desmoronou, e até a lua teve medo de perder o emprego e se ver forçada a procurar outro céu.
os magos de wall street, especialistas em vender castelos no ar, roubaram milhões de casas e de empregos, mas um único banqueiro foi preso. e quando imploraram aos berros uma ajudinha pelo amor de deus, receberam, pelo mérito de seu labor, a maior recompensa jamais concedida na história humana. essa dinheirama teria bastado para alimentar todos os famintos do mundo, com sobremesa e tudo, daqui até a eternidade. ninguém pensou nisso.
eduardo galeano | os filhos dos dias (um calendário histórico sobre a humanidade), página 295
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[de: os dias de galeano]
canal encuentro
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«muito faz o dinheiro, muito se há de amar;
do tolo faz discreto, homem de respeitar,
faz o coxo correr e ao mudo faz falar;
e o que não tem mãos bem o quer pegar.
também ao homem tolo e rude lavrador
dinheiros o convertem em fidalgo doutor;
quanto mais rico alguém é, maior é seu valor,
e quem não tem dinheiro não é de si senhor.
e se tens o dinheiro terás consolação,
prazeres e alegrias e do papa a concessão,
comprarás o paraíso, terás a salvação:
onde há muito dinheiro reina a «bendição».
em resumo o digo, para que entendas melhor:
o dinheiro é do mundo o grande motor,
faz do servo senhor e e servo do senhor
e tudo quanto existe se faz por seu amor.»
acipreste de hita
[de: o livro do bom amor,
também conhecido como livro de arcipreste ou livro dos cantares
primeira metade do século xiv]
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paco ibáñez musicou este fragmento do livro do bom amor
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canta: paco ibánez
[con letra]
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«e tudo quanto existe se faz por seu amor.»
tudo não digo
tem duas coisa na vida
que não têm preço
uma, o amor
(o amor de verdade)
a outra é a solidariedade
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no final de 2008, depois de um ano em são luís, voltei para pelotas. quando cheguei, não tinha onde morar. com poucos dias na cidade, tive a sorte de cruzar com roger peres, um velho amigo da rádiocom. foi num domingo pela manhã. lembro como se fosse hoje.
– bah, cara, quanto tempo... por onde tu anda? o que tu anda fazendo?
– tô de volta... andei por são luís e tô atrás de uma casa pra morar.
– tenho uma casa a meia quadra da avenida... o glenio tá morando nela, mas quer sair... preciso de alguém para ocupar o espaço.
(um pequeno grande parêntese:
na época, eu estava desempregado.
sempre tive ajuda da família, mas meu histórico recente não me ajudava muito.
todos achavam que minha volta era mais uma aventura, um devaneio...
e a casa — pra ser habitada por um casal cheio de planos e de sonhos — necessitava, digamos assim, de algumas pequenas reformas.
foi então que bati na porta do cfc senna e pedi mais uma chance.
a vida é engraçada: leva-se dez anos para construir uma imagem e menos de um para destruí-la.
meus últimos meses no cfc senna foram vergonhosos e deprimentes.
portanto, quando bati na porta, tinha tudo pra ouvir um não.
mas ouvi um sim.)
poucos meses depois.
– e aí, grill? o que tu anda fazendo?
– voltei a trabalhar no cfc.
– cara, esse ano o sindicato tá completando 80 anos...
foi assim que criamos — junto com a maria bonita comunicação — o documentário dos 80 anos do sindicato dos bancários de pelotas.
de tudo que já fiz, foi uma das coisas que mais me deu orgulho de realizar.
(o registro desse trabalho tá no link abaixo)
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roteiro, texto, trilha sonora e voz: enilton grill
imagens, entrevistas, concepção e direção: maria bonita comunicação
realização: ima / sindicato dos bancários
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segundo ouvi falar
o sindicato seguiu por outro caminho
não sei..
eu sigo no meu
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que longe está minha terra
e, no entanto, que perto
ou será que existe um território
onde os sangues se misturam
tanta distância e caminho
tão diferentes bandeiras
e a pobreza é a mesma
os mesmos homens esperam
eu quero romper meu mapa
formar o mapa de todos
mestiços, negros e brancos
traçá-lo ombro com ombro
os rios são como veias
de um corpo inteiro estendido
e é a cor da terra
o sangue dos caídos
não somos os estrangeiros
os estrangeiros são outros
são eles os mercadores
e os escravos nós outros
eu quero romper a vida
como quisera mudá-la
ajude-me companheiro
ajude-me não demore
que uma gota sendo pouco
com outra faz aguaceiro
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preguntas al azar (1) / milonga de andar lejos
daniel viglietti · mario benedetti
a dos voces
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«a bola que lancei quando brincava no parque ainda não tocou o chão.»
dylan thomas
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água de torneira
um dia, quando ainda era pequeno e brincava no chão de casa, a minha mãe se agachou na minha frente, colocou a sua mão em meu rosto e disse:
«meu filho, você vai passar por muitas coisas nessa vida, vai passar por momentos de tristeza e de desespero, mas vai sobreviver a todos eles, você vai ter momentos de muita alegria também e vai saber apreciá-los.
você vai carregar consigo algumas coisas que vai amar como poucas outras coisas, e, acredite, isso poderá ajudar algumas pessoas, até mesmo salvá-las de alguma forma.
mas sabe o que me preocupa?
meu receio é que não consiga salvar a si mesmo.
você vai viver no seu mundo, e, às vezes, ele vai pesar muito.»
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o diabo foi ao mar
escrever a história do mundo
mas não havia água
deus a tinha bebido
juan comodoro
buscando água, encontrou petróleo
mas morreu de sede
eu não sei quem vai mais longe
a montanha ou o caranguejo
pobrezinho meu patrão
pensa que o pobre sou eu
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[letra na descrição do vídeo]
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em março de 2020, passamos por circunstâncias complicadas no repecho, a seca castigou o rio grande do sul e a dificuldade para conseguir água foi imensa. o maior problema nem foi conseguir água potável, pois trazíamos do supermercado. o maior problema foi conseguir água para manter o aviário, um aviário com cerca de 100 galinhas, que recém tínhamos levantado. no início, eu subia o repecho e trazia água do poço. até que o poço secou. a solução, então, foi atravessar a estrada e trazer água do arroio. as galinhas começaram a morrer. a água era contaminada. quase perdemos tudo. ficamos com medo. mas agimos rápido e salvamos o aviário. diria o «filósofo»: «coragem não é ausência de medo; coragem é a capacidade de enfrentar o medo».
em outras palavras: na beira do caminho sempre haverá cadeiras que nos convidem a parar. parar é fácil, difícil é continuar.
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eu sou apenas um rapaz latino-americano
sem dinheiro no banco sem parentes importantes
e vindo do interior
mas trago de cabeça uma canção do rádio
em que um antigo compositor baiano me dizia
tudo é divino tudo é maravilhoso
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[do álbum alucinação]
vídeo original
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em junho de 2026, com cinco cachorros. duas gatas e uma hérnia de disco, separado da vivi, voltei a morar na cidade. depois de procurar por parentes importantes, encontrei no amigo de longa data a solução para um problema que já há muito me acompanhava e que, em vez de diminuir, só aumentava.
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quem tiver uma canção terá tempestade
quem tiver companhia, solidão
quem seguir o bom caminho terá cadeiras
perigosas que o convidam a parar
mas vale a canção a tempestade
e a companhia vale a solidão
vale sempre a agonia da pressa
mesmo que de cadeiras se encha a verdade
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[letra na descrição do vídeo]
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e as fotos e os cartazes?
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ainda em 2009, entrei em contato com daniel viglietti e realizamos, na bibliotheca pública pelotense, um tributo a mario benedetti. o lendário poeta uruguaio recém havia falecido. vivi trabalhava de secretária em um consultório médico, e eu andava pelas ruas de satolep, divulgando o evento. naquela época, já havia internet e redes sociais, mas eu, burro velho, ainda não havia me rendido aos seus encantos. a divulgação, portanto, foi feita através de jornais, rádio e pequenos panfletos distribuídos de mão em mão. panfletar, aliás, foi coisa que muito fiz na vida. o panfleto, pra quem não sabe, já foi uma das principais armas dos políticos. neste caso, porém, era para chamar atenção para um recital de música e poesia. nada melhor, então, que o pequeno papel contivesse um poema. e o poema foi escolhido a dedo. o trabalho de divulgação durou mais ou menos duas semanas. até que chegou o grande dia. depois de passar o dia divulgando o recital, fui buscar vivi no trabalho. o pôr do sol estava lindo aquele dia. quando cheguei, dei de cara com o patrão dela, dono da clínica e aproveitei para convidá-lo para o recital. eu já sabia que ele ia dizer não. mesmo assim, na tentativa de despertar nele algum interesse por poesia, recitei o poema que estava impresso no panfleto. com cara de quem não entendeu nada, ele olha pra mim e pergunta: -- de onde tu tira essas coisas, tchê?
o poema dizia
se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e o céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro
você perguntará por que cantamos
cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos en la gente
e porque venceremos a derrota
grill
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cómo me cuesta afinar la guitarra,
organizar las seis cuerdas unidas
y de la lucha de sones contrarios
abrir camino cantando a la vida.
y tanto y tanto que hemos cantado,
y sin embargo poco, poco,
si se piensa el silencio que nos acecha.
bajo las cuerdas mi cuerpo desnudo,
vestido apenas de amor y preguntas.
no es el sonoro cantor de protestas,
es cuerpo en partes que nunca se juntan.
y tanto y tanto que hemos llorado,
y sin embargo poco, poco,
si se piensa en los muertos que nos dan vida.
contra el dolor, el olvido y el miedo
nuestra certeza porfiando en el alma;
quienes compartan la loca esperanza,
brújula o flecha de nuevo hacen falta.
y tanto y tanto que hemos luchado,
y sin embargo poco, poco,
si se miran los cuerpos que trae el río.
cuánto me cuesta esta nueva canción,
de la derrota crear primavera
en estas noches de ojos sin sueño,
en estos sueños de noches sin ojos
en que los buitres enormes abusan
de las parciales heridas del pueblo.
vamos haciendo la nueva canción,
de la derrota crear primavera.
y tanto y tanto que hemos perdido,
y sin embargo poco, poco,
y sin embargo mucho, mucho,
si se miran los ojos de un hombre digno.
vamos haciendo la nueva canción,
de la derrota crear primavera.
vamos haciendo la nueva canción,
crear primavera.
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daniel viglietti · mario benedetti
a dos voces
℗ 2000 ediciones tacuabe srl
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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas