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sexta-feira, 2 de outubro de 2026


domingo no parque

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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lula ontem no flow sobre a juventude:
«eu tenho 5 filhos. eu sei que a juventude é muito rebelde. tem o cara com 16 anos, 17 anos... não acredita em nada, xinga todo mundo, todo mundo é ladrão, ninguém presta. é por isso que o bolsonaro cresceu. porque a ignorância leva a gente à fazer coisas erradas. o país não tem saída se a gente não investir em educação, e não tem saída se você não acreditar nisso. eu já fui você ontem, eu já fui rebelde.» 
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clique no link abaixo
para ver e ouvir trecho na íntegra

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(pt do piauí 13)

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segundo entendi
para lula
que tem cinco filhos
que diz já ter sido rebelde
que traz como exemplo de rebelde
jovens que não acreditam em nada
que xingam todo mundo
que chamam todo mundo de ladrão
ser rebelde é ser ignorante

pra mim
tá tudo explicado
não precisava dizer mais nada

mas vou dizer
como um rebelde que sempre gostou de ler, estudar, debater e conversar sobre política, o atual momento me deixa particularmente mais rebelde. não há nada nem ninguém que se salve. é só estupidez como arma e ignorância como orgulho. eu continuo na luta, esperneando não sei por quê. o rebelde que lula diz ter sido devo ser eu.
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sobre a ignorância
a ignorância se refere à falta de conhecimento. a palavra ignorante descreve o estado de consciência de quem desconhece fatos importantes — ou de quem, deliberadamente, os ignora ou desconsidera.

a ignorância manifesta-se em três tipos: factual (ausência de conhecimento de algum fato), objetual (desconhecimento de algum objeto) e técnica (ausência do conhecimento de como fazer alguma coisa).

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três exemplos 

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golpe
no 8 de janeiro, diante do caos em brasília, lula esteve prestes a aceitar a sugestão de decretar a garantia da lei e da ordem (glo), cedendo a uma medida que entregaria a segurança federal ao comando militar — exatamente o objetivo dos golpistas.

o erro só foi evitado pela intervenção direta e enfática da primeira-dama, janja. com preparatório técnico na escola superior de guerra e participação nas equipes de transição, ela alertou imediatamente: «glo não, glo é golpe». a análise fundamentada de janja sobre segurança nacional foi decisiva para que lula recuasse, rejeitasse a tutela militar e optasse pela intervenção civil no distrito federal.
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bets
no flow podcast, igor perguntou por que lula tomou a decisão de restringir as bets faltando poucos dias para as eleições. lula respondeu que não tinha noção da gravidade do problema e que, ao conversar com as pessoas, percebeu que era urgente agir.
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feminicídio
no mesmo podcast, lula agradeceu publicamente à primeira-dama por alertá-lo com insistência sobre a gravidade da violência contra a mulher no país. ele afirmou que, se não fosse pelo aviso dela, poderia ter se limitado a emitir apenas uma nota de solidariedade institucional em vez de articular ações governamentais concretas.
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antes do fim eu queria deixar um recado para o presidente lula

meu caro presidente lula

apesar dos pesares eu espero que a maioria do povo brasileiro faça como eu e vote em você

porque ao contrário de você eu continuo rebelde

um rebelde que não precisa que ninguém lhe diga que ninguém lhe lembre que ninguém lhe alerte de que o que está em jogo nestas eleições é o pouco que ainda nos resta de democracia e soberania

e de que mesmo que você ganhe — tomara que ganhe — se depender de você do congresso e do povo brasileiro (que você, em anos de governo, só fez despolitizar) não sei quanto tempo essa democracia ainda vai durar

e para ela durar não esqueçamos de votar

ponto
nova linha

tava assistindo ontem o flow
quando no final
lula faz essa declaração
«o político honesto que você quer, está dentro de você, cara. ao invés de você ficar protestando, entra na política. seja candidato a alguma coisa. participe de um partido político. participe da comunidade do seu bairro. não fique paralisado, não fique achando que ninguém presta. SEJA EU AMANHÃ. PORQUE EU JÁ FUI VOCÊ ONTEM.»

nesse momento
não pude não lembrar de deogar
«o velho» era um homem honesto
dos mais honestos que conheci
era um homem de partido
seu partido era o pt
«o velho» era um animal político
se candidatou a vereador
se elegeu
foi um excelente vereador
mas
por alguma razão
disse não à reeleição

segundo li por aí
o jornalista e radialista deogar soares decidiu não concorrer à reeleição para o cargo de vereador em pelotas (pleito de 2000, após o mandato conquistado em 1996) devido a uma profunda desilusão com o ambiente político. 
deogar, conhecido por sua atuação marcante na comunicação local e em programas tradicionais como o treze horas, entrou para a política institucional com um forte idealismo romântico e transformador. no entanto, conforme recordam amigos próximos e cronistas da política pelotense, ele se deparou com as barreiras e a rigidez do sistema político tradicional. 
essa experiência gerou o que seus pares descreveram como uma frustração, o que o levou a cumprir apenas um único mandato e a se afastar voluntariamente das urnas para retornar integralmente à crônica e ao jornalismo.
«o velho»
pra mim
era um mestre
«uma grande figura humana que foi também um dos maiores e melhores comunicadores que pelotas gerou. além de jornalista e radialista, deogar foi também um talentoso fotógrafo. as fotos, em preto e branco, traduziam seu mundo, de poética e rara inspiração. "o velho" – como era chamado entre amigos marcou com o seu programa na rádio alfa-fm "vôo livre". em pequenas crônicas, lidas por ele mesmo, cuja voz era sonora e bem timbrada, deogar a todos emocionava com sua verdade, ironia e transcendência. seus textos eram carnações nervosas e poéticas, traduzindo o seu e o nosso cotidiano. no fim da vida, o velho tinha no olhar emanações tristes, talvez por ter tido o impulso de mudar coisas que são imutáveis, e ele soube disso tardiamente.»
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domingo no parque

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5055 deputado federal: jurandir silva
50999 deputada estadual: fernanda miranda
500 senadora: manuela d'ávila
131 senador: paulo pimenta
12: governadora: juliana brizola
13 presidente: lula

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foto 1: deogar
nauro júnior

foto 2: enilton
vivi valente

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

domingo, 27 de setembro de 2026


mora na filosofia 
(para matheus valente)

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«a felicidade mora ao lado
e quem não é tolo pode ver»

o sal da terra

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ao vento

meses atrás, no café, vivi me contou sobre uma colega que lê todos os dias passagens da bíblia, numa versão moderna, com linguagem atual, na qual a autora sempre termina o trecho com a frase: «quero ser luz e sal da terra».

— não sei por que ela escreve «sal da terra» se é «sol da terra» — diz a colega para a vivi.

— tu nunca ouviste esse termo «sal da terra»? — pergunta vivi.

vivi, então, explica para ela o significado de «sal da terra».

— que lindo! — diz ela.

vivi saiu para a cidade, foi trabalhar, e eu fiquei aqui com mais uma história para contar.

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anda, quero te dizer nenhum segredo
falo nesse chão da nossa casa
vem que tá na hora de arrumar
tempo, quero viver mais duzentos anos
quero não ferir meu semelhante
nem por isso quero me ferir
vamos precisar de todo mundo
pra banir do mundo a opressão
para construir a vida nova
vamos precisar de muito amor
a felicidade mora ao lado
e quem não é tolo pode ver

👇

(contos da lua vaga, 1981)

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«caminhante, não há caminho
faz-se caminho andando»

cantares

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um rio que não para de cantar 

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lindo cerro colorado,
cerro de piedras pintadas.
alguna vez volveré
por tus senderos de cabras.

la guitarra bajo el poncho
y una tonada sencilla.
siempre juntos, como viven
la piedra y la doradilla.

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 alemania occidental por swf badén- badén + macondo film 
gmbh + alfredo troncoso west deutscher fresen kóln 
dirección: josé montes baquer 
música: atahualpa yupanqui 
año: 1985
(parte 1 de 4 )

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corre o vento, o rio, velho músico, segue andando, andando...

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ismaco
no fio dos cumes, caiu a tarde. as sombras vão devorando os detalhes, mas sobre a linha dos cerros distantes desenham-se ainda as claridades.
os jovens as olham e tecem desejos e quimeras; os velhos averiguam nelas o tempo que fará amanhã.
pouco a pouco o campo vai se povoando de estremecimentos. insinua-se a sinfonia do ocaso, com um adágio a cargo dos violinos invisíveis do pajonal; em seguida, a melodia se firma na flauta dos grilos que dialogam com o rumor dos matos.
os algarrobos querem fazer seu canto na viração, e as nuvens se detêm por um momento a escutar.
o rio, velho músico, segue andando, andando...

cerro bayo, novela de atahualpa yupanqui, p. 9

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a estrada
hoje estou no oregon, deixando portland para trás e viajando rumo ao sudoeste, atravessando verdes escuros e cinzas suaves e nevoentos no meu agradável casulo de ruídos de ônibus, na direção dos morros e vales amplos e suaves do norte da califórnia. sei exatamente onde estou, claro. neste país, são as árvores que te contam.

minha mente divaga, se detém num problema que estou tendo com a banda na performance de «rusty cage», a canção do soundgarden que gravei para o álbum «unchained»; depois volto a refletir sobre a história da minha vida. penso em pete barnhill, um amigo que fiz quando tinha uns treze anos. ele tinha um violão. também tinha o que chamávamos de paralisia infantil, conhecida depois como poliomielite, que aleijou sua perna direita e encolheu o braço direito, o qual tinha quase a metade do tamanho do esquerdo. ele se adaptou bem. escrevi sobre ele no encarte do «american recordings»:

«com sua mão esquerda, ele fazia os acordes, enquanto tocava um ritmo perfeito com sua minúscula mão direita. pensei que, se pudesse tocar violão daquele jeito, algum dia cantaria no rádio.»

pete era uma inspiração em vários aspectos. eu nunca havia sido próximo de alguém que tocasse violão, com exceção da minha mãe, quando era muito pequeno. eu achava que ele era o melhor violonista do mundo. para mim ele era maravilhoso, e o som que fazia era puramente celestial.

um dia eu lhe disse: «sabe, pete, você tem paralisia infantil mas sabe tocar violão de verdade».

sua resposta me impressionou muito: «às vezes, quando você perde um dom, ganha outro».

daquele momento em diante, não pensei mais nele como um deficiente; pensava nele como alguém que tinha um dom. eu me entristecia quando os outros garotos riam de pete. eles o viam ir mancando pelos três ou quatro quilômetros que separavam sua casa da cidade e o imitavam. eu também o imitava, mas não daquele jeito: meu jeito de tocar violão vem dele, tocando a base e solando ao mesmo tempo.

pete, como eu, era louco por música — foi a primeira pessoa que eu soube que também era assim —, e nós dois éramos loucos pelo rádio. o rádio significava o mundo para nós, literalmente.

lembro-me claramente do dia em que compramos o nosso, um «sears roebuck» com uma grande bateria, encomendado pelo correio e adquirido com o dinheiro do empréstimo que papai tomou do governo no ano em que ele e roy começaram a limpar nossa terra. lembro da primeira canção que escutei, «hobo bill's last ride», de jimmie rodgers, e como a imagem de um homem morrendo sozinho num vagão congelante me pareceu tão real, tão familiar. lembro de meu pai indo para a cama todas as noites às 20h05, depois do noticiário, e gritar para mi e para jack: «ok, garotos, hora de ir para a cama! apaguem a luz! desliguem o rádio!» jack diminuía a intensidade de sua lâmpada a óleo e se debruçava sobre a bíblia. eu baixava o volume e encostava minha orelha direita no rádio. a música que ouvia se tornou a melhor coisa da minha vida.

mas meu pai não gostava nada disso. dizia: «você está perdendo seu tempo ouvindo esses discos no rádio. isso não é de verdade, sabe? essas pessoas não estão lá. é só um cara sentado tocando uns discos. por que você ouve essas coisas de mentirinha?».

eu respondia: «mas é tão real quanto foi no momento em que eles cantaram e gravaram o disco. é a mesma coisa».
«mas não é de verdade, é só um disco.»
«não importa. o som é bom. eu gosto.»
«bem, você está sendo enganado por essas pessoas», ele concluía. «isso não vai te dar um sustento. você não vai fazer nada de bom enquanto tiver essa música na cabeça.»

eu odiava ouvir isso, mas talvez tenha servido a um propósito. queria muito provar que ele estava errado. e que minha mãe estava certa. ela percebia que a música estava em mim, assim como estava nela e tinha estado em seu pai, john l. rivers, que lhe ensinou a harmonia a quatro vozes e era o cantor principal do coral da igreja. dizem que era um ótimo cantor.

lembro dele como um homem amável. ele e minha avó rivers eram almas boas, o sal da terra, muito estimados e respeitados pela comunidade.
cash - a autobiografia de johnny cash, p. 53, 54 e 55

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exceções à parte
grande parte das coisas que a maioria dos mais velhos dizem ser boas
acredito do fundo da alma que são ruins
sendo assim
não vou por aí
só vou por aqui
por onde me levam meus próprios passos
caminante, no hay camino
se hace camino al andar
mas porém, contudo, todavia
alguns acreditam que todo o terreno da vida humana já foi trilhado
há quem diga
por exemplo
que o sábio salomão prescreveu regras até para a distância entre as árvores
que hipócrates deixou instruções sobre a maneira de cortar as unhas
mas as capacidades do homem jamais foram medidas
o que se tentou até hoje foi muito pouco
só 10% de nossa cabeça animal, cantou um louco
sendo assim
eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada, cheia de dentes
esperando a morte chegar
que as pessoas sonhem, fantasiem, imaginem
a mente humana está cheia de imaginação
tente outra vez

👇

(releitura: solo fértil)

mas
como eu ia dizendo
se eu fosse contar como queria passar a minha vida alguns anos atrás eu diria apenas que
a qualquer tempo, a qualquer hora do dia e da noite, eu ansiava em penetrar na cunha do tempo; colocar-me no cruzamento de duas eternidades, o passado e o futuro, que é exatamente o momento presente
o homem não é nada mais do que faz a si próprio
és livre
escolhe
inventa
que estás aqui
que existe vida e identidade
que a potente peça prossegue
e tu podes contribuir com um verso
não digo que todos venham a entender tudo isso
mas este é o caráter daquele amanhã que o o mero decorrer do tempo jamais fará alvorecer
a luz que extingue nossos olhos é escuridão para nós
só amanhece o dia para o qual estamos despertos
o dia não cessa de amanhecer
nasce a cada amanhecer uma semente e seus frutos
o sol é apenas uma estrela da manhã

♦

abra os olhos aos poucos
não deve se preocupar
veja a grandiosa energia
sinta o momento para acordar
ouvindo a voz da natureza
ter a certeza que o sol vem
e ele vai brilhar

👇

(viver de verdade, 2021)
solo fértil [participação: enilton grill]

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e a vila do sossego?

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«vila do sossego» surgiu na casa de mesmo nome, que ficava no bairro de manaíra, em joão pessoa, próximo à praia. ela ficava em uma rua de terra batida - que hoje já está asfaltada, e mudou tanto que eu nem sequer consigo lembrar da casa, quando passo por lá. isso foi em 1974. a casa pertencia a uma tia minha, a tetê, que a liberou para que eu passasse uma temporada por lá. foi na época em que eu vim pela primeira vez ao rio, quando realizei, junto com o geraldinho azevedo, um show no teatro opinião, chamado "sopa de morcego na boca do rock". o show começava à meia-noite, e obviamente foi um fracasso total - quem viria à meia-noite ver dois caras completamente desconhecidos? de qualquer maneira, foi meu pontapé inicial aqui no rio... quando retornei a joão pessoa, já tinha um repertório montado. na época eu só tocava rock e blues. aí resolvemos montar o show por lá também. tínhamos o argumento de já tê-lo apresentado no rio... meu primeiro filho, o cristian, era recém-nascido. bem, com a casa na mão, nós nos instalamos. eu era totalmente crazy, hippie, desembestado. a vila do sossego foi muito importante para mim. logo que mudamos eu coloquei uma plaquinha de isopor na entrada, escrito «vila do sossego», que se tornou um point entre os malucos que faziam parte de minha turma. eram rapazes e moças que «puxavam» um fumo, universitários, artistas, pessoas que procuravam um papo mais inteligente, distante das conversas sobre novela e futebol. obviamente, o clima era meio «riponga»; a casa não tinha móveis, eram almofadas espalhadas pelo chão, ouvia-se música o dia inteiro, etc. ali foram realizadas muitas cantorias de violeiros. foi durante esse período que eu mergulhei na literatura. lia muito, sem parar, e dessas leituras é que surgiu a inspiração para compor a música. a letra de «vila do sossego» é quase toda ela baseada nos títulos e trechos de livros que eu estava lendo. por exemplo, havia acabado de ler papillon, e me referi a isso.
zé ramalho, o poeta dos abismos, p. 177

♦

ó, eu não sei se eram os antigos que diziam
em seus papiros, papillon já me dizia
que nas torturas toda carne se trai
e normalmente, comumente, fatalmente, felizmente
displicentemente, o nervo se contrai
com precisão

👇

(zé ramalho, 1978)

♦

falando em papillon, o livro:
«je ne regrette rien. j'ai vécu des mois de liberté absolue... j'ai connu l'amour pur et l'amizade sincère.» (tradução livre: «não me arrependo de nada. vivi meses de liberdade absoluta... conheci o amor puro e a amizade sincera.»)
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falando em amizade sincera...
o que é um amigo?
um amigo...
«muitas vezes "um” não sabe quem é…»
de acordo com atahualpa yupanqui, é «um mesmo com outra pele»

👇


♦

falando em amigo
escreveu sobre mim
nos meus 50
um que hoje faz 32

♦

«já tive cabelo raspado
deixei crescer depois de conhecer um cabeludo que havia chegado
já fui colorado
acoampanhei os jogos com meu pai, minha irmã e meu cunhado
.
escutava de tudo sem entender quase nada
se hoje escuto chico, caetano, gil, león, dylan e atahualpa
escuto e compreendo por causa desse cara:
enilton grill, todos os américas juntos aqu no sul do brasil
.
50 anos de um jovem latino-americano
50 anos de sonhos sonhados, realizados
e continuemos sonhando
50 anos de meu cunhado hermano
.
"todos hablan de su pago
como si fuera el mejor.
mi querencia es el caamino
bajo la luna y el sol"

atahualpa
.
caminhando por esse brasil
pra lá e prá cá, histórias mil
até que chegou por aqui, se aquerenciou
e para minha irmã deu o sobrenome grill
.
"pa versiar, yo necesito
cancha libre y atención.
corro de un solo tirón
montao en mis sentimientos
lo que mme falta de aliento
me suebra de corazón"

atahualpa
.
coração caminante
coração gigante
corazón hecho de poesia
coração de pura essência e alegria
.
"la tierra es toda cantares
como pasto van brotando
tu te pones a escucharla
y ella te los va dictando"

atahualpa
.
escutando a terra, escutando a vida
aprendeu lições que não passaram despercebias
escutou com atenção, guardou tudo no coração
dos cantares de la tierra, ouvi uma cançãao
uma música que me trouxe um irmão
à terra e à vida eus sou grato
por ter me dado um irmão, um amigo, juntos
no meu cunhado

dale cunhado!»

matheus valente

♦

somos todos irmãos da lua
moramos na mesma rua
bebemos no mesmo copo
a mesma bebida crua
o caminho já não é novo
por ele é que passa o povo
farinha do mesmo saco
galinha do mesmo ovo
mas nada é melhor que a água
a terra é a mãe de todos
o ar é que toca o homem
e o homem maneja o fogo
e o homem possui a fala
e a fala edifica o canto
no canto repousa a alma
da alma depende a calma
e a calma é irmã do simples
e o simples resolve tudo
mas tudo na vida às vezes
consiste em não se ter nada

👇

(cantigas de abraçar, 1982)

♦

fotos: vivi valente

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

milonga de andar longe

••••••••••••••

adote um banqueirinho!

no ano de 2008, a bolsa de nova york foi a pique.

dias histéricos, dias históricos: os banqueiros, que são os mais perigosos assaltantes de bancos, haviam despojado suas empresas, embora jamais tenham sido filmados pelas câmaras de vigilância e nenhum alarme tenha disparado. e não houve maneira de evitar a derrocada geral. o mundo inteiro desmoronou, e até a lua teve medo de perder o emprego e se ver forçada a procurar outro céu.

os magos de wall street, especialistas em vender castelos no ar, roubaram milhões de casas e de empregos, mas um único banqueiro foi preso. e quando imploraram aos berros uma ajudinha pelo amor de deus, receberam, pelo mérito de seu labor, a maior recompensa jamais concedida na história humana. essa dinheirama teria bastado para alimentar todos os famintos do mundo, com sobremesa e tudo, daqui até a eternidade. ninguém pensou nisso.

eduardo galeano | os filhos dos dias (um calendário histórico sobre a humanidade), página 295


👇


[de: os dias de galeano]
canal encuentro 

••••••••••••••

«muito faz o dinheiro, muito se há de amar;
do tolo faz discreto, homem de respeitar,
faz o coxo correr e ao mudo faz falar;
e o que não tem mãos bem o quer pegar.

também ao homem tolo e rude lavrador
dinheiros o convertem em fidalgo doutor;
quanto mais rico alguém é, maior é seu valor,
e quem não tem dinheiro não é de si senhor.

e se tens o dinheiro terás consolação,
prazeres e alegrias e do papa a concessão,
comprarás o paraíso, terás a salvação:
onde há muito dinheiro reina a «bendição».

em resumo o digo, para que entendas melhor:
o dinheiro é do mundo o grande motor,
faz do servo senhor e e servo do senhor
e tudo quanto existe se faz por seu amor.»

acipreste de hita
[de: o livro do bom amor,
também conhecido como livro de arcipreste ou livro dos cantares
primeira metade do século xiv]

•••••••••••••• paco ibáñez musicou este fragmento do livro do bom amor

👇

canta: paco ibánez
[con letra]

••••••••••••••

«e tudo quanto existe se faz por seu amor.»
tudo não digo
tem duas coisa na vida
que não têm preço
uma, o amor
(o amor de verdade)
a outra é a solidariedade

••••••••••••••

no final de 2008, depois de um ano em são luís, voltei para pelotas. quando cheguei, não tinha onde morar. com poucos dias na cidade, tive a sorte de cruzar com roger peres, um velho amigo da rádiocom. foi num domingo pela manhã. lembro como se fosse hoje.
  
 – bah, cara, quanto tempo... por onde tu anda? o que tu anda fazendo?
 – tô de volta... andei por são luís e tô atrás de uma casa pra morar.
 – tenho uma casa a meia quadra da avenida... o glenio tá morando nela, mas quer sair... preciso de alguém para ocupar o espaço.

(um pequeno grande parêntese:
na época, eu estava desempregado.
sempre tive ajuda da família, mas meu histórico recente não me ajudava muito.
todos achavam que minha volta era mais uma aventura, um devaneio...
e a casa — pra ser habitada por um casal cheio de planos e de sonhos — necessitava, digamos assim, de algumas pequenas reformas.
foi então que bati na porta do cfc senna e pedi mais uma chance.
a vida é engraçada: leva-se dez anos para construir uma imagem e menos de um para destruí-la.
meus últimos meses no cfc senna foram vergonhosos e deprimentes.
portanto, quando bati na porta, tinha tudo pra ouvir um não.
mas ouvi um sim.)

poucos meses depois.

– e aí, grill? o que tu anda fazendo?
– voltei a trabalhar no cfc.
– cara, esse ano o sindicato tá completando 80 anos...

foi assim que criamos — junto com a maria bonita comunicação — o documentário dos 80 anos do sindicato dos bancários de pelotas.

de tudo que já fiz, foi uma das coisas que mais me deu orgulho de realizar.

(o registro desse trabalho tá no link abaixo)

👇

roteiro, texto, trilha sonora e voz: enilton grill
imagens, entrevistas, concepção e direção: maria bonita comunicação
realização: ima / sindicato dos bancários

••••••••••••••

segundo ouvi falar
o sindicato seguiu por outro caminho
não sei..
eu sigo no meu

••••••••••••••

que longe está minha terra
e, no entanto, que perto
ou será que existe um território
onde os sangues se misturam

tanta distância e caminho
tão diferentes bandeiras
e a pobreza é a mesma
os mesmos homens esperam

eu quero romper meu mapa
formar o mapa de todos
mestiços, negros e brancos
traçá-lo ombro com ombro

os rios são como veias
de um corpo inteiro estendido
e é a cor da terra
o sangue dos caídos

não somos os estrangeiros
os estrangeiros são outros
são eles os mercadores
e os escravos nós outros 

eu quero romper a vida
como quisera mudá-la
ajude-me  companheiro
ajude-me não demore
que uma gota sendo pouco
com outra faz aguaceiro

👇

preguntas al azar (1) / milonga de andar lejos
daniel viglietti · mario benedetti
a dos voces

••••••••••••••

«a bola que lancei quando brincava no parque ainda não tocou o chão.»

dylan thomas

••••••••••••••

água de torneira

um dia, quando ainda era pequeno e brincava no chão de casa, a minha mãe se agachou na minha frente, colocou a sua mão em meu rosto e disse:

«meu filho, você vai passar por muitas coisas nessa vida, vai passar por momentos de tristeza e de desespero, mas vai sobreviver a todos eles, você vai ter momentos de muita alegria também e vai saber apreciá-los.

você vai carregar consigo algumas coisas que vai amar como poucas outras coisas, e, acredite, isso poderá ajudar algumas pessoas, até mesmo salvá-las de alguma forma.

mas sabe o que me preocupa?

meu receio é que não consiga salvar a si mesmo.

você vai viver no seu mundo, e, às vezes, ele vai pesar muito.»

••••••••••••••

o diabo foi ao mar
escrever a história do mundo
mas não havia água
deus a tinha bebido

juan comodoro
buscando água, encontrou petróleo
mas morreu de sede

eu não sei quem vai mais longe
a montanha ou o caranguejo

pobrezinho meu patrão
pensa que o pobre sou eu

👇

[letra na descrição do vídeo]

••••••••••••••

em março de 2020, passamos por circunstâncias complicadas no repecho, a seca castigou o rio grande do sul e a dificuldade para conseguir água foi imensa. o maior problema nem foi conseguir água potável, pois trazíamos do supermercado. o maior problema foi conseguir água para manter o aviário, um aviário com cerca de 100 galinhas, que recém tínhamos levantado. no início, eu subia o repecho e trazia água do poço. até que o poço secou. a solução, então, foi atravessar a estrada e trazer água do arroio. as galinhas começaram a morrer. a água era contaminada. quase perdemos tudo. ficamos com medo. mas agimos rápido e salvamos o aviário. diria o «filósofo»: «coragem não é ausência de medo; coragem é a capacidade de enfrentar o medo». 

em outras palavras: na beira do caminho sempre haverá cadeiras que nos convidem a parar. parar é fácil, difícil é continuar. 

••••••••••••••

eu sou apenas um rapaz latino-americano
sem dinheiro no banco sem parentes importantes
e vindo do interior

mas trago de cabeça uma canção do rádio
em que um antigo compositor baiano me dizia
tudo é divino tudo é maravilhoso 

👇

[do álbum alucinação]
vídeo original

••••••••••••••

em junho de 2026, com cinco cachorros. duas gatas e uma hérnia de disco, separado da vivi, voltei a morar na cidade. depois de procurar por parentes importantes, encontrei no amigo de longa data a solução para um problema que já há muito me acompanhava e que, em vez de diminuir, só aumentava. 

 ••••••••••••••

quem tiver uma canção terá tempestade
quem tiver companhia, solidão
quem seguir o bom caminho terá cadeiras
perigosas que o convidam a parar
mas vale a canção a tempestade
e a companhia vale a solidão
vale sempre a agonia da pressa
mesmo que de cadeiras se encha a verdade

👇

[letra na descrição do vídeo]

••••••••••••••

e as fotos e os cartazes?

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ainda em 2009, entrei em contato com daniel viglietti e realizamos, na bibliotheca pública pelotense, um tributo a mario benedetti. o lendário poeta uruguaio recém havia falecido. vivi trabalhava de secretária em um consultório médico, e eu andava pelas ruas de satolep, divulgando o evento. naquela época, já havia internet e redes sociais, mas eu, burro velho, ainda não havia me rendido aos seus encantos. a divulgação, portanto, foi feita através de jornais, rádio e pequenos panfletos distribuídos de mão em mão. panfletar, aliás, foi coisa que muito fiz na vida. o panfleto, pra quem não sabe, já foi uma das principais armas dos políticos. neste caso, porém, era para chamar atenção para um recital de música e poesia. nada melhor, então, que o pequeno papel contivesse um poema. e o poema foi escolhido a dedo. o trabalho de divulgação durou mais ou menos duas semanas. até que chegou o grande dia. depois de passar o dia divulgando o recital, fui buscar vivi no trabalho. o pôr do sol estava lindo aquele dia. quando cheguei, dei de cara com o patrão dela, dono da clínica e aproveitei para convidá-lo para o recital. eu já sabia que ele ia dizer não. mesmo assim, na tentativa de despertar nele algum interesse por poesia, recitei o poema que estava impresso no panfleto. com cara de quem não entendeu nada, ele olha pra mim e pergunta: -- de onde tu tira essas coisas, tchê?

o poema dizia

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e o céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos en la gente
e porque venceremos a derrota

grill

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cómo me cuesta afinar la guitarra,
organizar las seis cuerdas unidas
y de la lucha de sones contrarios
abrir camino cantando a la vida.

y tanto y tanto que hemos cantado,
y sin embargo poco, poco,
si se piensa el silencio que nos acecha.

bajo las cuerdas mi cuerpo desnudo,
vestido apenas de amor y preguntas.
no es el sonoro cantor de protestas,
es cuerpo en partes que nunca se juntan.

y tanto y tanto que hemos llorado,
y sin embargo poco, poco,
si se piensa en los muertos que nos dan vida.

contra el dolor, el olvido y el miedo
nuestra certeza porfiando en el alma;
quienes compartan la loca esperanza,
brújula o flecha de nuevo hacen falta.

y tanto y tanto que hemos luchado,
y sin embargo poco, poco,
si se miran los cuerpos que trae el río.

cuánto me cuesta esta nueva canción,
de la derrota crear primavera
en estas noches de ojos sin sueño,
en estos sueños de noches sin ojos
en que los buitres enormes abusan
de las parciales heridas del pueblo.

vamos haciendo la nueva canción,
de la derrota crear primavera.

y tanto y tanto que hemos perdido,
y sin embargo poco, poco,
y sin embargo mucho, mucho,
si se miran los ojos de un hombre digno.

vamos haciendo la nueva canción,
de la derrota crear primavera.
vamos haciendo la nueva canción,
crear primavera.

👇

daniel viglietti · mario benedetti
a dos voces
℗ 2000 ediciones tacuabe srl

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quinta-feira, 30 de julho de 2026


mestre jonas
[para flávia e jonas (in memoriam)]

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«prefiro falar de coisas impossíveis, porque do que é possível já se sabe demais»

silvio rodríguez

.

«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

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«porque é exatamente isso
pra produzir um mundo novo
é preciso correr um risco muito grande
e ir não naquilo que é real
e não naquilo que é possível
a questão do pensamento é produzir o impossível
é produzir o impensável
ir além de todos os limites que nos foram dados
transgredirémuitomaisquetransgrediréproduzironovo
produzir a impossibilidade
uma força de ESTRANHAMENTO»

por claudio ulpiana

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ao vento

[escrito em 10 de março]

hoje no café, vivi me contava sobre uma colega que lê todos os dias passagens da bíblia, numa versão moderna, com linguagem atual, na qual a autora sempre termina o trecho com a frase: «quero ser luz e o sal da terra».

— não sei por que ela escreve «sal da terra» se é «sol da terra» — diz a colega para a vivi.

— tu nunca ouviu esse termo «sal da terra»? — pergunta vivi.

vivi, então, explicou para ela o significado de «sal da terra».

— que lindo! — disse a colega.

vivi saiu para a cidade, foi trabalhar e eu fiquei aqui com mais uma história para contar.

grill

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para meus alunos de tão poucos dias

foram cursos diferentes, identificados pelo mesmo espírito: o da invenção e o da criação. falei-lhes de amantes que só oferecem às suas amadas, o amor; o amor do corpo expressivo. falei-lhes de orquídeas, enamoradas de vespas e de pássaros que cantam para o crepúsculo. mostrei-lhes as trevas barrocas e os clarões. como um inconsciente livre das formas do hábito. os nossos cursos foram musicais, desde que a música seja aquilo capaz de tornar belo seja o que for. enfim. o nosso encontro ̶ encontro de corpos ̶ pertenceu ao reino do encantamento, mostrando que a filosofia é uma linha melódica tão poderosa, que produziu em nós um acorde, digo ou melhor, repito ̶ um acordo: o dos amantes do corpo expressivo, que só oferecem um ao outro, o amor.

a filosofia é uma tarefa criativa; uma festa de delírio lógico ̶ um excesso de entendimento. ensinei-lhes filosofia, a minha festa privada. quebramos os relógios, e tornamos as horas intensas; fizemos do tempo uma mistura de palavras lindas; fizemos do tempo um vazio, e o percorremos como se fôssemos cavalheiros do pensamento: mais exatamente, como se fôssemos exploradores das tempestades dos mundos possíveis. compreendemos a diferença entre forma e matéria-prima. construímos barreiras contra a tolice, tornando o nosso agenciamento algo gentil e inesquecível.

em qualquer momento da minha vida, sem questão, serei assolado, tocado pelas divinas cativas, as pequeninas almas que a presença de vocês deixou para mim, como meu cortejo.

agora que nos despedimos, retomo: a criança é uma matéria-prima; é uma potência; múltiplas forças em movimento. o que com ela, a criança, temos que fazer é entendê-la. aprender com ela, a criança, que ensinar é fazer uma viagem.

sinceramente,
claudio ulpiano

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a estrada

hoje estou no oregon, deixando portland para trás e viajando rumo ao sudoeste, atravessando verdes escuros e cinzas suaves e nevoentos no meu agradável casulo de ruídos de ônibus, na direção dos morros e vales amplos e suaves do norte da califórnia. sei exatamente onde estou, claro. neste país, são as árvores que te contam.

minha mente divaga, se detém num problema que estou tendo com a banda; depois volto a refletir sobre a história da minha vida. penso em pete barnbill, um amigo que fiz quando tinha uns treze anos. ele tinha um um violão. também tinha o que chamávamos de paralisia infantil, conhecida depois como poliomelite, que aleijou sua perna direita e encolheu o braço direito, o qual tinha quase a metade do tamanho do esquerdo. ele se adaptou bem. escrevi sobre ele no encarte do «american recordings»:

«com sua mão esquerda, ele fazia os acordes, enquanto tocava um ritmo perfeito com sua minúscula mão direita. pensei que, se pudesse tocar violão daquele jeito, algum dia cantaria no rádio.»

pete era uma inspiração em vários aspectos. eu nunca havia sido próximo de alguém que tocasse violão, com exceção da minha mãe, quando era muito pequeno. eu achava que ele era o melhor violonista do mundo. para mim ele era maravilhoso, e o som que fazia era puramente celestial.

um dia eu lhe disse: «sabe, pete, você tem paralisia infantil mas sabe tocar violão de verdade».

sua resposta me impressionu muito: «às vezes, quando você perde um dom, ganha outro».

daquele momento em diante, não pensei mais nele como um deficiente; pensava nele como alguém que tinha um dom. eu me entristecia quando os outros garotos riam de pete. eles o viam ir mancando pelos três ou quatro quilômetros que separavam sua casa da cidade e o imitavam. eu também o imitava, mas não daquele jeito: meu jeito de tocar violão vem dele, tocando a base e solando ao mesmo tempo.

pete, como eu, era louco por música --- foi a primeira pessoa que eu soube que também era assim ---, e nós dois éramos loucos pelo rádio. o rádio significava o mundo para nós, literalmente.

lembro-me claramente do dia em que compramos o nosso, encomendado pelo correio e adquirido com o dinheiro do empréstimo que papai tomou do governo no ano em que ele e roy começaram a limpar nossa terra. lembro da primeira canção que escutei, «hobo bill's last ride», de jimmy rodgers, e como a imagem de um homem morrendo sozinho num vagão congelante me pareceu tão real, tão familiar. lembro de meu pai indo para a cama todas as noites às 20h05, depois do noticiário, e gritar para mim e para jack: «ok, garotos, hora de ir para a cama! apaguem a luz! desliguem o rádio!» jack diminuía a intensidade de sua lâmpada a óleo e se debruçava sobre a bíblia. eu baixava o volume e encostava minha orelha direita no rádio. a música que ouvia se tornou a melhor coisa da minha vida.

mas meu pai não gostava nada disso. dizia: «você está perdendo seu tempo ouvindo esses discos no rádio. isso não é de verdade, sabe? essas pessoas não estão lá. é só um cara sentado tocando uns discos. porque você ouve essas coisas de mentirinha?».

eu respondia: «mas é tão real quanto foi no momento em que eles cantaram e gravaram o disco. é a mesma coisa».

«mas não é de verdade, é só um disco.»
«não importa. o som é bom. eu gosto.»
«bem, você está sendo enganado por essas pessoas, isso não vai te dar um sustento. você não vai fazer nada de bom enquanto tiver essa música na cabeça.»

eu odiava ouvir isso, mas talvez tenha servido a um propósito. queria muito provar que ele estava errado. e que minha mãe estava certa. ela percebia que a música estava em mim, assim como estava nela e tinha estado em seu pai, que lhe ensinou a harmonia a quatro vozes e era o cantor principal do coral da igreja. dizem que era um ótimo cantor.

lembro dele como um homem amável. ele e minha avó rivers eram almas boas, o sal da terra, muito estimados e respeitados pela comunidade.

cash - a autobiografia de johnny cash, p. 53, 54 e 55

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«deixa nascer, o amor
deixa fluir, o amor
deixa crescer, o amor
deixa viver, o amor
o sal da terra»

ronaldo bastos

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uma criança

há livros que se lê uma vez e depois joga-se fora. lidos, esgotaram o que tinham pra dizer. parecem-se com as piadas só fazem rir na primeira vez que são contadas. outros livros, entretanto, são como fontes. a fonte é a mesma. mas a água que dela brota é sempre fresca, sempre nova, sempre outra água. retornamos sempre às fontes. cada retorno é uma felicidade nova. na minha infância havia uma fonte, um buraco simples em forma de bacia, que me dava grande alegria visitar. não que eu estivesse com sede. apenas para me encantar. daquela fonte nem meu pai nem minha mãe ficaram sabendo. vocês são os primeiros a quem estou contando. que felicidade encontrei na minha infância, solto por espaços vazios de olhos adultos! os adultos estragam o mundo das crianças com os seus olhos. diante da fonte, minha amiga, eu estava sozinho, absolutamente sozinho. guimarães rosa, falando de sua infância, disse que ela foi muito gostosa. a única coisa que atrapalhava eram os olhos dos adultos que se intrometiam em tudo. livrou-se disso quando arranjou uma chave para o seu quarto. trancado, podia gozar livremente os seus devaneios. esses livros-fonte não são de diversão. são livros de encantamento. a sua leitura é como beber água da fonte, sempre. por isso sempre voltamos a eles.

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 108.

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— seu pai falava muito de você.
— é?
— dizia que você não tinha ambição.
— tinha razão.
— é mesmo?
— minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
— você é estranho.

bukowski

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ao vento

cada um se vê como quer
uns se veem brad pitt
eu me vejo johnny cash

grill

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«e por que não, enilton grill?»

martim césar

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eu tenho uma balada
para johnny cash...
pois um instante vale a vida
se nesse instante tu és feliz
e também um grande amigo
que ao ouvir tua canção
me diz que ser feliz
é dar moeda ao coração
e que atahualpa e bob dylan
estão comigo, meu irmão
pois tive um norte aí no sul
e tenho o sul no maranhão

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breve ensaio sobre a cegueira

[por enilton grill]

qual o pior tipo de cegueira? a de quem não vê porque não pode? a de quem não vê porque não sabe? ou a de quem não vê porque não quer?

há quem afirme que todas as pessoas que enxergam são cegas, pois vivem em um mundo que perdeu a visão, no sentido em que a televisão, ou qualquer outro meio de incomunicação, é quem propõe as imagens — imagens prontas — tirando-nos a possibilidade de vê-las com o olhar interior.

seja como for, a verdade é que vivemos hoje a caverna de platão, onde as sombras projetadas são tomadas como verdade, o que faz de nós cegos de nós mesmos, pois verdade é como sombra, cada um tem a sua.

a minha é a minha, a sua é a sua.

você não vê a minha, eu não vejo a sua.

na maioria das vezes, somos um pouco como avestruzes, quer dizer, não vemos porque não queremos ver.

mas, se puderes olhar, vê; se puderes ver, repara:
1 + 1 é sempre mais que 2.

a felicidade mora ao lado,
quem não é tolo pode ver.

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mestre jonas

um dia, jonas, lá com seus 17 ou 18 anos, me disse: conheci um bar com caçachas e cervejas artesanais...vamos lá?
falei: vamos.
estacionamos o carro e fomos camihando até o bar.
no caminho, me falou como era difícil ser diferente, q até gostaria de ir na boate como alguns colegas de escola, mas prefiria a companhia dos amigos do clube de leitura e que não podia ser diferente do que era.
então, falei pra ele q eu tb não tinha interesse nas boates, prefiria a roda de viola no laranjal...
jonas: é...chamam a gente de esquisito né mãe? mas chamar de esquisito é elogio!

flávia maurício

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e ele diz que se chama jonas
e ele diz que é um santo homem
e ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria
e ele diz que está comprometido
e ele diz que assinou papel
que vai mantê-lo preso na baleia
até o fim da vida
até o fim da vida
até subir pro céu


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canção de mim mesmo

o jonas de flávia é, em essência, o mestre jonas em sua juventude: alguém que já entendeu, bem cedo, a beleza de morar dentro de sua própria baleia.

o avestruz se esconde para negar a verdade.
a baleia é o refúgio consciente de quem enxerga a realidade.

grill

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pergunta que não quer calar:

há espaço para o sentido artístico no mundo pragmático atual? ainda podemos ser sujeitos autônomos e de criação num tempo de consumismo fugaz?

resposta: para quem está submerso no cotidiano, essas questões fazem pouco sentido. todavia, para espíritos inquietos, serão o ponto de partida na busca do "tornar-se aquilo que se é".»

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eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada, cheia de dentes
esperando a morte chegar
porque longe das cercas embandeiradas
que separam quintais
no cume calmo do meu olho que vê
assenta a sombra sonora dum disco voador

(legendado)

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fotos

cris valente
pelotas, 2026

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vivi valente
repecho, 2020

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#américas
#jonaspresente