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domingo, 6 de setembro de 2026


paisagem da janela
[clique nos títulos para ver/ouvir]

♦

tudo é circular
(e isso o sol sabe melhor do que ninguém)

facundo cabral

♦

todo dia o sol levanta 
 e a gente canta 
 ao sol de todo dia

caetano veloso

♦

sinto hoje em satolep
o que há muito não sentia
o limiar da verdade
roçando na face nua

vitor ramil

♦

a invenção de morel

passei toda a manhã expondo-me a ser descoberto por qualquer pessoa que tivesse a coragem de se levantar antes das dez. ao que parece, tão modesto requisito para a calamidade não se cumpriu. durante o trabalho de juntar as flores, vigiei o museu e não vi nenhum de seus ocupantes; isso me permite supor que tampouco me viram. 
as flores são muito pequenas. terei que plantar milhares e milhares, se não quiser um jardinzinho ínfimo (seria mais bonito e mais fácil de fazer; mas há o perigo de que ninguém o veja).

apliquei-me a preparar os canteiros, a quebrar a terra (está dura, as superficies que planejei são muito vastas), a regar com água de chuva. quando tiver acabado de preparar a terra, terei que buscar mais flores. farei o possível para que não me surpreendam, sobretudo para que não interrompam o trabalho ou o vejam antes que esteja pronto. esqueci que, para os traslados de plantas, há exigência cósmicas. não posso crer que, depois de tanto perigo, de tanto cansaço, as flores não cheguem vivas até o pôr-do-sol.
careço de estética para jardins; de qualquer maneira entre a relva e os capinzais, o trabalho parecerá comovente. será uma fraude, naturalmente; de acordo com meu plano, hoje à tarde será um jardim cuidado, amanhã talvez esteja morto ou sem flores (se houver vento).

adolfo bioy casares

♦

que fim levaram todas as flores?
que o preto velho me contava
que fim levaram todas as flores?
que a rainha louca não gostava
que a lapela morta carregava
que o olhar de todos me lembrava
que fim levaram todas as flores?
que qualquer coisa não estragava
em qualquer dia que podia
com grande amor e alegria
que fim levaram todas as flores?
que a criança às vezes me pedia

(secos & molhados, 1974)

♦

grande sertão: veredas

sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso. o que queria e o que não queria, estória sem final. o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. o que ela quer da gente é coragem. o que deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito. por coragem. será? era o que eu às vezes achava. ao clarear do dia.
joão guimarães rosa 

♦

«não posso continuar. vou continuar.»

samuel beckett

♦

amanhã há de ser outro dia?
tomara que sim
mas acho que não
(a palavra diz não
mas a obra diz sim)
esperança
pra mim
só pra depois de amanhã
lá por 2050
2060
2070
quando muitos de nós já não estaremos mais aqui
aliás
melhor assim
espero que os que venham depois de nós
temam menos a morte
e mais a vida insuficiente
na nossa passagem por aqui
tivemos alguns assim
mais corajosos e determinados que nós
mas foram muito poucos
infelizmente

♦

«criar é viver duas vezes.»

 albert camus

♦
.
a noite de 12 anos
(e nós queríamos mudar o mundo)

o filme se concentra na história de três de nove guerrilheiros tupamaros presos e postos como «reféns» pelo regime ditatorial uruguaio: pepe mujica, mauricio rosencof e eleuterio fernández huidobro.

em uma palavra, o tema central de uma noite de 12 anos pode ser definido como resiliência – a capacidade emocional do indivíduo de resistir a eventos traumáticos.

é muito difícil imaginar que uma pessoa possa resistir por 12 longos anos sem poder se comunicar, preso em uma cela em condições cruéis, isolado em um cubículo apartado dos companheiros (cada um na sua solitária), com pouquíssima comida, água e nenhuma luz do sol. 
enfim, o filme, que não é um filme de ficção, é uma história real, é mais um exemplo de como certas pessoas, quando imbuídas de ideal e determinação, mesmo massacradas sob a extrema violência de estado e ou sufocadas sob a hipocrisia da sociedade e ou extremamente sensíveis às injusitças e crueldades do mundo, como ele é, acham alternativas para manter acesa a chama da esperança e da vida, sendo o que são. 

♦

 (trailer oficial 1)

.

(trailer oficial 2)


♦

ave pepe
ave ruso
ave ñato

♦

o último poema para pepe mujica

«tu te lembras daqueles dias, pepe? vivemos onze anos isolados sob a terra, sem nos ver,
sem livros. reinventamos o código morse batendo com os dedos abrindo uma janelinha para
a vida nas paredes. se este fosse meu último poema, rebelde e triste, desgastado mas
inteiro, eu escreveria apenas uma palavra: companheiro»

maurício rosencof

♦

«mais cadê meus cumpanhero cadê
qui cantava aqui mais eu, cadê
na calçada no terrero, cadê
cadê os cumpanhero meu cadê»

elomar

♦

«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

♦

tudo é circular
e a roda é viva

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outro dia eu tava assistindo um roda viva das antigas com o brizola. o seu antipetismo era tanto e tão pequeno que eu me senti reconfortado por jamais ter votado nele. meus votos para presidente foram sempre em lula. mas lula e o pt envelheceram...

♦

«nossos ídolos ainda são os mesmos
e as aparências
não enganam não
você diz que depois deles
não apareceu mais ninguém
você pode até dizer
que eu 'tô por fora
ou então que eu 'tô inventando
mas é você que ama o passado
e que não vê
é você que ama o passado
e que não vê
que o novo sempre vem»

♦

- quantos anos você tem, clint?
- 96.
- de que signo você é?
- gêmeos.
- que dia você nasceu?
- 31 de maio de 1930.
- o que você vai fazer?
- vou começar um novo filme.
- o que te faz continuar?
- eu me levanto todos os dias e não deixo o velho entrar.
- que horas você se levanta?
- antes do sol nascer.

♦

pode ser até amanhã, sendo claro feito o dia
mas nada do que me dizem
me faz sentir alegria
só queria ter do mato um gosto de framboesa
pra correr entre os canteiros
e esconder minha tristeza

e eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
e deixemos de coisa, cuidemos da vida
pois senão chega a morte ou coisa parecida
e nos arrasta, moço, sem ter visto a vida

(manera fru fru, manera, 1973)

♦

e a paisagem da janela?

♦

com a palavra, robertinho brant: 

«fernando brant escreveu a letra dessa icônica música olhando através da paisagem da janela do escritório do seu pai e meu avô, dr. moacir pimenta brant. de lá ele viu o mundo. o escritório ficava no segundo andar da casa dos brant, na rua grão pará, 1092. lugar aonde inúmeras vezes eu visitei sorrateiramente quando criança. e onde eu passava inúmeras tardes mágicas e silenciosas, observando cada objeto, sentindo de perto a doce magia daquele ambiente misterioso. da janela daquele escritório eu também sonhei.»

♦

da janela lateral do quarto de dormir
vejo uma igreja, um sinal de glória
vejo um muro branco e um voo pássaro
vejo uma grade, um velho sinal

(clube da esquina, 1972)

♦

ao vento

o lugar não importa
casa de poeta não tem porta
se uma chave tranca
outra destranca

a chave é o amor
o amor é a chave
qual amor? 
o amor fati

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 1 de setembro de 2026


sol de primavera 
(para minha irmã)

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«hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás»

che guevara

♦

«guevara lê gullar
dentro da noite veloz
perto de la higuera, selva boliviana
em outubro de 1967
na quebrada do yuro são 13 e 30 horas»

celso borges | pequenos poemas viúvos, p. 61

♦

«o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor»

che guevara

♦

«os dois meninos
da capa do clube da esquina nº 1
nunca mais sentiram
aquele gosto de sol
das noites azuis de minas»

celso borges | pequenos poemas viúvos, p. 70

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«o clube da esquina é essencialmente um trabalho coletivo. todos se davam as mãos quando o negócio era criar belezas. a letra de ronaldo bastos homenageia aqueles que lutaram e sonharam a liberdade. muitas das pessoas que eram amigas da turma do clube foram vítimas da covarde repressão que assolou o brasil. a música soa até hoje como um hino de amor, de liberdade e de esperança. uma luz que se acende. «mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer sol de primavera». o maravilhoso desenho da capa é do grande artista plástico gilberto de abreu.»

robertinho brant

♦

já sonhamos juntos
semeando as canções no vento
quero ver crescer nossa voz
no que falta sonhar

já choramos muito
muitos se perderam no caminho
mesmo assim, não custa inventar
uma nova canção que venha nos trazer

sol de primavera
abre as janelas do meu peito
a lição sabemos de cor
só nos resta aprender

👇

música: beto guedes 
letra: ronaldo bastos 
álbum: sol de primavera
ano: 1979

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a ternura e a bela cena
(fragmento)

por rubem alves 

a ternura 

pureza de coração é desejar uma só coisa”, definiu kierkegaard. a paixão vive disso: de uma única imagem que apaga todas as outras e faz o apaixonado enxergar beleza plena no ser amado. como no encontro do pequeno príncipe com a raposa, o amor começa quando colocamos uma metáfora poética no rosto do outro. não vemos o que vemos, vemos o que somos: esse olhar não busca a posse, mas a contemplação pura e a alegria da presença.

essa experiência estética se traduz na ternura, o exato oposto do sexo compulsivo que apenas busca o alívio imediato. quem ama sorri ao contemplar a amada dormindo sem sequer tocá-la, contendo a própria mão para não interromper a paz da cena. enquanto o sexo sem amor usa o outro como mero objeto, a ternura reside no olhar demorado que sorri diante do mistério e da beleza do ser amado.

♦

mi camión en el camino y teresa en mi cabeza
por la ruta tres voy pensando en ella
que siempre me está esperando en avellaneda

yo que soy el jd de la ruta tres
cambié las mujeres por una mujer: teresa
yo que nunca llegue temprano a ninguna parte
voy corriendo por la ruta tres
porque la teresa me está esperando en avellaneda

👇

letra e música: facundo cabral
álbum: facundo secreto
ano: 1987

♦

a bela cena

tomas não conhecia a experiência da paixão, apenas os prazeres do sexo. saciado o desejo, horrorizava-o a ideia de acordar ao lado de uma mulher; agia como um caçador que abandona a caça tão logo a fome é satisfeita. mas com tereza tudo foi diferente. sua aventura com tereza tinha começado exatamente onde terminavam suas aventuras com as outras mulheres. ela se desenrolara do outro lado do imperativo que o levava à conquista.

conhecera tereza acidentalmente num bar de cidadezinha do interior. dissera-lhe, quase como uma brincadeira, que se fosse à capital que o procurasse. e lhe dera o seu endereço. tereza foi e o procurou. chegara à capital doente e não sabia para onde ir. foi aí que a história de amor começou.

ela estava ardendo em febre, adormecera no sofá da sala, e ele não pudera levá-la de volta como fazia com as outras. para onde a levaria? ajoelhado à sua cabeceira ocorrera-lhe a ideia de que ela viera para ele numa cesta sobre as águas.

desde que tomas conhecera tereza, nenhuma outra mulher tinha o direito de deixar a marca, por efêmera que fosse, nessa zona do seu cérebro. agora, na memória poética de tomas, aquela cena permanecia imóvel, imperturbável, fora do tempo. era uma parte da sua alma. não morreria jamais.

«o que é que amo quando te amo?» tomas amava tereza porque amava nela uma outra coisa: aquela cena que repentinamente brilhara em sua imaginação. na cena, tereza não era tereza; era uma criança abandonada, levada pelas águas de um rio. e, de repente, ele deixou de ser tomas, o caçador – tornou-se um homem forte, que tomava aquela criança nos braços. tereza poderia deteriorar-se ou morrer. mas a cena permaneceria inalterada, suspensa na memória poética, como objeto de amor.

♦

ojalá se te acabe la mirada constante
la palabra precisa la sonrisa perfecta
ojalá pase algo que te borre de pronto
una luz cegadora un disparo de nieve
ojalá por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos en todas las visiones
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones.

👇

letra e música: silvio rodríguez
álbum: al final de este viaje...
ano: 1969/1978

♦

a insustentável leveza do ser

«quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes. o que escolher, então? o peso ou a leveza?»

milan kundera

♦

«a verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza e com toda a liberdade em relação àqueles que não representam nenhuma força. o verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, situado num nível tão profundo que escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais.»

(idem)

♦

«o acaso tem seus sortilégios, a necessidade não. para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se encontrem nele desde o primeiro instante como os pássaros nos ombros de são francisco de assis.»
(idem)

♦

por mim mesmo

♦

no último capítulo intitulado «o sorriso de karenin», tereza e tomas vendem quase tudo que possuem em praga e se mudam para o interior. o campo é a fuga deles. tereza está feliz. mas ela e tomas tiveram que romper com velhos costumes e velhos amigos em praga para viver uma nova vida. uma pequena aldeia, sem igrejas, bares, e o teatro mais próximo fica a quilômetros de distância.

♦

tereza encontra trabalho cuidando das novilhas da fazenda coletiva. karenin (a cachorrinha) está mancando e, ao levá-la ao veterinário, descobre que ela sofre de um câncer. semanas depois, fica claro que o câncer de karenin está se espalhando. aqui o narrador diz que a bondade humana, se for realmente pura, só pode existir se o destinatário dessa bondade não tiver nenhum tipo de poder. assim, o verdadeiro teste moral da humanidade é a misericórdia que se mostra para com os animais.

♦

vivendo na natureza, cercada de animais e árvores, tereza e tomas encontram a felicidade.

♦

e, baltazar, o que diz?

♦

dice baltazar que tiene que cuidar
100 gallinas 10 caballos 30 vacas y sembrar 
dice baltazar porque trabajo tanto 
si al final me estoy muriendo de tanto trabajar 
pero un dia baltazar escribio sobre un galpon 
unas frases muy cortitas que decian lo siguiente: 
"las tierras deben ser del que las siembra 
porque yo estoy dando todo y hay quien se lo lleva 
esto es para usted señor patron y como va a conocer su campo 
si esta sentado en un sillon con su esposa mirando television" 
pero un dia baltazar se fue sin avisar 
y cuando estaba ya muy lejos se dio vuelta por mirar 
porque escuchaba un ruido extraño y no sabia que podia ser 
...y eran todos los caballos todas las gallinas 
mariposas blancas y los gorriones y las vacas 
que seguian por detras a baltazar...

👇

música e letra: león gieco
álbum: la banda de los caballos cansados
ano: 1974

♦

e minha irmã? 

♦

quando voltei para a cidade
os primeiros dias foram de muito medo
e insegurança
muita luta interna contra os fantasmas
que estavam adormecidos
mas não mortos
um dia
na hora certa
quando tudo
dentro de mim
escurecia
minha irmã
de sangue e alma
envia-me uma mensagem
com as palavras certas
certas porque mágicas
certas porque proféticas

♦

e a borra do café?

♦

«só o acaso pode nos parecer uma mensagem. aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e se repete cotidianamente é coisa muda apenas. somente o acaso tem voz. tenta-se ler no acaso como as ciganas leem no fundo de uma xícara os desenhos deixados pela borra do café.»  

♦

mas a mensagem da minha irmã
não foi mero acaso
a casualidade não existe
o que chamamos de acaso
surge das fontes mais profundas

♦

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

👇

letra e música: bob dylan
álbum: desire
1975/1976

♦

arte

girl with balloon (em português: garota com balão) 
autor: banksy
ano: 2002

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

milonga de andar longe

••••••••••••••

adote um banqueirinho!

no ano de 2008, a bolsa de nova york foi a pique.

dias histéricos, dias históricos: os banqueiros, que são os mais perigosos assaltantes de bancos, haviam despojado suas empresas, embora jamais tenham sido filmados pelas câmaras de vigilância e nenhum alarme tenha disparado. e não houve maneira de evitar a derrocada geral. o mundo inteiro desmoronou, e até a lua teve medo de perder o emprego e se ver forçada a procurar outro céu.

os magos de wall street, especialistas em vender castelos no ar, roubaram milhões de casas e de empregos, mas um único banqueiro foi preso. e quando imploraram aos berros uma ajudinha pelo amor de deus, receberam, pelo mérito de seu labor, a maior recompensa jamais concedida na história humana. essa dinheirama teria bastado para alimentar todos os famintos do mundo, com sobremesa e tudo, daqui até a eternidade. ninguém pensou nisso.

eduardo galeano | os filhos dos dias (um calendário histórico sobre a humanidade), página 295


👇


[de: os dias de galeano]
canal encuentro 

••••••••••••••

«muito faz o dinheiro, muito se há de amar;
do tolo faz discreto, homem de respeitar,
faz o coxo correr e ao mudo faz falar;
e o que não tem mãos bem o quer pegar.

também ao homem tolo e rude lavrador
dinheiros o convertem em fidalgo doutor;
quanto mais rico alguém é, maior é seu valor,
e quem não tem dinheiro não é de si senhor.

e se tens o dinheiro terás consolação,
prazeres e alegrias e do papa a concessão,
comprarás o paraíso, terás a salvação:
onde há muito dinheiro reina a «bendição».

em resumo o digo, para que entendas melhor:
o dinheiro é do mundo o grande motor,
faz do servo senhor e e servo do senhor
e tudo quanto existe se faz por seu amor.»

acipreste de hita
[de: o livro do bom amor,
também conhecido como livro de arcipreste ou livro dos cantares
primeira metade do século xiv]

•••••••••••••• paco ibáñez musicou este fragmento do livro do bom amor

👇

canta: paco ibánez
[con letra]

••••••••••••••

«e tudo quanto existe se faz por seu amor.»
tudo não digo
tem duas coisa na vida
que não têm preço
uma, o amor
(o amor de verdade)
a outra é a solidariedade

••••••••••••••

no final de 2008, depois de um ano em são luís, voltei para pelotas. quando cheguei, não tinha onde morar. com poucos dias na cidade, tive a sorte de cruzar com roger peres, um velho amigo da rádiocom. foi num domingo pela manhã. lembro como se fosse hoje.
  
 – bah, cara, quanto tempo... por onde tu anda? o que tu anda fazendo?
 – tô de volta... andei por são luís e tô atrás de uma casa pra morar.
 – tenho uma casa a meia quadra da avenida... o glenio tá morando nela, mas quer sair... preciso de alguém para ocupar o espaço.

(um pequeno grande parêntese:
na época, eu estava desempregado.
sempre tive ajuda da família, mas meu histórico recente não me ajudava muito.
todos achavam que minha volta era mais uma aventura, um devaneio...
e a casa — pra ser habitada por um casal cheio de planos e de sonhos — necessitava, digamos assim, de algumas pequenas reformas.
foi então que bati na porta do cfc senna e pedi mais uma chance.
a vida é engraçada: leva-se dez anos para construir uma imagem e menos de um para destruí-la.
meus últimos meses no cfc senna foram vergonhosos e deprimentes.
portanto, quando bati na porta, tinha tudo pra ouvir um não.
mas ouvi um sim.)

poucos meses depois.

– e aí, grill? o que tu anda fazendo?
– voltei a trabalhar no cfc.
– cara, esse ano o sindicato tá completando 80 anos...

foi assim que criamos — junto com a maria bonita comunicação — o documentário dos 80 anos do sindicato dos bancários de pelotas.

de tudo que já fiz, foi uma das coisas que mais me deu orgulho de realizar.

(o registro desse trabalho tá no link abaixo)

👇

roteiro, texto, trilha sonora e voz: enilton grill
imagens, entrevistas, concepção e direção: maria bonita comunicação
realização: ima / sindicato dos bancários

••••••••••••••

segundo ouvi falar
o sindicato seguiu por outro caminho
não sei..
eu sigo no meu

••••••••••••••

que longe está minha terra
e, no entanto, que perto
ou será que existe um território
onde os sangues se misturam

tanta distância e caminho
tão diferentes bandeiras
e a pobreza é a mesma
os mesmos homens esperam

eu quero romper meu mapa
formar o mapa de todos
mestiços, negros e brancos
traçá-lo ombro com ombro

os rios são como veias
de um corpo inteiro estendido
e é a cor da terra
o sangue dos caídos

não somos os estrangeiros
os estrangeiros são outros
são eles os mercadores
e os escravos nós outros 

eu quero romper a vida
como quisera mudá-la
ajude-me  companheiro
ajude-me não demore
que uma gota sendo pouco
com outra faz aguaceiro

👇

preguntas al azar (1) / milonga de andar lejos
daniel viglietti · mario benedetti
a dos voces

••••••••••••••

«a bola que lancei quando brincava no parque ainda não tocou o chão.»

dylan thomas

••••••••••••••

água de torneira

um dia, quando ainda era pequeno e brincava no chão de casa, a minha mãe se agachou na minha frente, colocou a sua mão em meu rosto e disse:

«meu filho, você vai passar por muitas coisas nessa vida, vai passar por momentos de tristeza e de desespero, mas vai sobreviver a todos eles, você vai ter momentos de muita alegria também e vai saber apreciá-los.

você vai carregar consigo algumas coisas que vai amar como poucas outras coisas, e, acredite, isso poderá ajudar algumas pessoas, até mesmo salvá-las de alguma forma.

mas sabe o que me preocupa?

meu receio é que não consiga salvar a si mesmo.

você vai viver no seu mundo, e, às vezes, ele vai pesar muito.»

••••••••••••••

o diabo foi ao mar
escrever a história do mundo
mas não havia água
deus a tinha bebido

juan comodoro
buscando água, encontrou petróleo
mas morreu de sede

eu não sei quem vai mais longe
a montanha ou o caranguejo

pobrezinho meu patrão
pensa que o pobre sou eu

👇

[letra na descrição do vídeo]

••••••••••••••

em março de 2020, passamos por circunstâncias complicadas no repecho, a seca castigou o rio grande do sul e a dificuldade para conseguir água foi imensa. o maior problema nem foi conseguir água potável, pois trazíamos do supermercado. o maior problema foi conseguir água para manter o aviário, um aviário com cerca de 100 galinhas, que recém tínhamos levantado. no início, eu subia o repecho e trazia água do poço. até que o poço secou. a solução, então, foi atravessar a estrada e trazer água do arroio. as galinhas começaram a morrer. a água era contaminada. quase perdemos tudo. ficamos com medo. mas agimos rápido e salvamos o aviário. diria o «filósofo»: «coragem não é ausência de medo; coragem é a capacidade de enfrentar o medo». 

em outras palavras: na beira do caminho sempre haverá cadeiras que nos convidem a parar. parar é fácil, difícil é continuar. 

••••••••••••••

eu sou apenas um rapaz latino-americano
sem dinheiro no banco sem parentes importantes
e vindo do interior

mas trago de cabeça uma canção do rádio
em que um antigo compositor baiano me dizia
tudo é divino tudo é maravilhoso 

👇

[do álbum alucinação]
vídeo original

••••••••••••••

em junho de 2026, com cinco cachorros. duas gatas e uma hérnia de disco, separado da vivi, voltei a morar na cidade. depois de procurar por parentes importantes, encontrei no amigo de longa data a solução para um problema que já há muito me acompanhava e que, em vez de diminuir, só aumentava. 

 ••••••••••••••

quem tiver uma canção terá tempestade
quem tiver companhia, solidão
quem seguir o bom caminho terá cadeiras
perigosas que o convidam a parar
mas vale a canção a tempestade
e a companhia vale a solidão
vale sempre a agonia da pressa
mesmo que de cadeiras se encha a verdade

👇

[letra na descrição do vídeo]

••••••••••••••

e as fotos e os cartazes?

••••••••••••••

ainda em 2009, entrei em contato com daniel viglietti e realizamos, na bibliotheca pública pelotense, um tributo a mario benedetti. o lendário poeta uruguaio recém havia falecido. vivi trabalhava de secretária em um consultório médico, e eu andava pelas ruas de satolep, divulgando o evento. naquela época, já havia internet e redes sociais, mas eu, burro velho, ainda não havia me rendido aos seus encantos. a divulgação, portanto, foi feita através de jornais, rádio e pequenos panfletos distribuídos de mão em mão. panfletar, aliás, foi coisa que muito fiz na vida. o panfleto, pra quem não sabe, já foi uma das principais armas dos políticos. neste caso, porém, era para chamar atenção para um recital de música e poesia. nada melhor, então, que o pequeno papel contivesse um poema. e o poema foi escolhido a dedo. o trabalho de divulgação durou mais ou menos duas semanas. até que chegou o grande dia. depois de passar o dia divulgando o recital, fui buscar vivi no trabalho. o pôr do sol estava lindo aquele dia. quando cheguei, dei de cara com o patrão dela, dono da clínica e aproveitei para convidá-lo para o recital. eu já sabia que ele ia dizer não. mesmo assim, na tentativa de despertar nele algum interesse por poesia, recitei o poema que estava impresso no panfleto. com cara de quem não entendeu nada, ele olha pra mim e pergunta: -- de onde tu tira essas coisas, tchê?

o poema dizia

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e o céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos en la gente
e porque venceremos a derrota

grill

••••••••••••••

cómo me cuesta afinar la guitarra,
organizar las seis cuerdas unidas
y de la lucha de sones contrarios
abrir camino cantando a la vida.

y tanto y tanto que hemos cantado,
y sin embargo poco, poco,
si se piensa el silencio que nos acecha.

bajo las cuerdas mi cuerpo desnudo,
vestido apenas de amor y preguntas.
no es el sonoro cantor de protestas,
es cuerpo en partes que nunca se juntan.

y tanto y tanto que hemos llorado,
y sin embargo poco, poco,
si se piensa en los muertos que nos dan vida.

contra el dolor, el olvido y el miedo
nuestra certeza porfiando en el alma;
quienes compartan la loca esperanza,
brújula o flecha de nuevo hacen falta.

y tanto y tanto que hemos luchado,
y sin embargo poco, poco,
si se miran los cuerpos que trae el río.

cuánto me cuesta esta nueva canción,
de la derrota crear primavera
en estas noches de ojos sin sueño,
en estos sueños de noches sin ojos
en que los buitres enormes abusan
de las parciales heridas del pueblo.

vamos haciendo la nueva canción,
de la derrota crear primavera.

y tanto y tanto que hemos perdido,
y sin embargo poco, poco,
y sin embargo mucho, mucho,
si se miran los ojos de un hombre digno.

vamos haciendo la nueva canción,
de la derrota crear primavera.
vamos haciendo la nueva canción,
crear primavera.

👇

daniel viglietti · mario benedetti
a dos voces
℗ 2000 ediciones tacuabe srl

••••••••••••••

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

domingo, 16 de agosto de 2026

 

tributo a um rei esquecido  

••••••••••••••

«minha reputação de mulherengo foi uma piada que me fez rir com amargura nas dez mil noites que passei sozinho»

leonard cohen

••••••••••••••

«gostaria de ler
um dos poemas
que me levaram à poesia
não consigo me lembrar de um único verso
não sei para onde olhar,
o mesmo
aconteceu comigo em relação ao dinheiro,
às mulheres e às tardes de charla
onde estão os poemas
que me afastaram de tudo o que amei
para que eu ficasse aqui
desnudo com a ideia de te encontrar»

(idem)

••••••••••••••

¿adónde está la calle
en donde los domingos
llegaban con la banda?
¿adónde la guitarra
y aquellos marineros
que lo incendiaban todo?
¿adónde las muchachas
que nunca consiguieron
disimular sus ganas?
¿adónde las abuelas
que criticaban todo
detrás de las ventanas?
el sol caía
sobre la plaza
desnuda y vacía
como la nostalgia
y yo me tendía
en la siesta larga
soñando contigo
que nunca llegabas
magdalena, trenzas largas
ojos negros, manos blancas
ojos negros, trenzas largas
magdalena
¿adónde están los niños
que daban vuelta a todo
en el viejo mercado?
¿adónde el cura pedro
que nos metió jugando
en el libro sagrado?
¿adónde está la casa
en donde las palomas
llegaban a mi cama
y el viejo boticario
que lo sabía todo
y no decía nada?
el sol caía
sobre la plaza
desnuda y vacía
como la nostalgia
y yo me tendía
en la siesta larga
soñando contigo
que nunca llegabas
magdalena, trenzas largas
ojos negros, manos blancas
ojos negros, trenzas largas
magdalena

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[buenas y santas]

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«já que a vida é uma comédia, prefiro ser o autor das minhas próprias piadas antes que os outros as façam por mim.»

oscar wilde

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«se eu não risse de mim mesmo, passaria o dia chorando pelos meus fracassos.»

mark twain

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«rir de si mesmo é uma forma de nos tornarmos invulneráveis.»

woody allen
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«o homem que sabe rir de si mesmo está livre do maior peso da vida: a necessidade de se levar a sério.»

friedrich nietzsche
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«a autoironia é a última dignidade do vencido.»

emil cioran

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«sei rir de mim mesmo melhor do que ninguém, porque conheço meus defeitos mais intimamente do que qualquer crítico.»

george bernard shaw

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«o meu humor é o de quem se sabe ridículo e faz disso a sua única coroa.»

fernando pessoa

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«viver no mundo como se não fosse o mundo, respeitar a lei e no entanto colocar-se acima dela, possuir uma coisa "como se não a possuísse", renunciar como se não tratasse de uma renúncia, todas essas proposições favoritas e formuladas com freqüência, todas essas exigências de uma alta ciência da vida somente pode realizá-las o humor.»

hermann hesse

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«andar pelas ruas despercebido e escutar duas ou três frases soltas das pessoas que passam conversando. isso pode ser muito rico. de uma migalha recolhida é possível escrever algo interessante, criando um universo a partir do mísero farelo.»

caco belmonte

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dos tempos do facebook

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diálogos 3

- por que essa cara?
- tô me sentindo sozinho...
- e os teus amigos?
- não dão sinal de vida faz tempo.
- faz o seguinte: escreve um texto falando bem do lula e mal do bolsonaro.
- por que isso?
- porque sim, quando escrevemos obviedades as pessoas se aproximam na mesma hora

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diálogos 4

- quanto mais escrevo menos leitores tenho...
- alguma explicação?
- não sei, mas deve ter...
- mas os que leem curtem?
- nem curtem, nem descurtem

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diálogos 7

- tu já pensou em cobrar por teus textos?
- como assim?
- colocar essa produção literária numa plataforma para assinantes que pagam.
- a ideia é boa, tem tudo para dar errado
- nada a ver, te informa a respeito.
- é mesmo? tu, por exemplo, já compraste algum dos meus livros?
- não, ainda não.
- tá bom. agradeço a gentileza do conselho.

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diálogos 12

- bom dia
- bom tarde
- o que tu anda fazendo?
- escrevendo
- onde?
- no facebook
- tá monetizando?
- não
- tá viralizando?
- não
- tem algum tipo de retorno?
- só dos raros
- e tu escreve para quem, então?
- para os raros e para os loucos... para quem mais seria?

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diálogos 13

- em que país vive geraldo vandré ?
- vive num brasil que não está aqui. geraldo vandré vive no brasil. eu até me atreveria a dizer que quem não vive no brasil é a maioria dos brasileiros. a quase totalidade dos brasileiros não vive mais no brasil. vive num amontoado.

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todos os diálogos são de autor desconhecido, exceto o 13.

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o que foi que fizeram com ele? não sei
só sei que esse trapo, esse homem foi um rei
o que foi que fizeram com ele? não sei
só sei que este trapo, esse homem foi um rei

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[ao vivo]

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sobre o título

«faça humor, não faça a guerra» foi um programa humorístico produzido pela tv globo e exibido entre 1971 e 1973, que contava com textos de max nunes, haroldo barbosa, renato corte real e jô soares, entre outros. o programa ia ao ar semanalmente às 21h, logo depois da telenovela das oito. o nome era uma alusão jocosa à frase de efeito, muito popular na época, «faça amor, não faça a guerra».

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sobre a foto

tirada da janela da sala che guevara da casa dos aedos
numa tarde de domingo de chuva em satolep

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#américas