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quinta-feira, 24 de setembro de 2026


paiol de pólvora

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«em momentos de extremo perigo é fácil potencializar os estímulos morais; para manter sua vigência, é necessário o desenvolvimento de uma consciência em que os valores adquiram categorias novas. a sociedade em seu conjunto deve se converter em uma gigantesca escola»
ernesto guevara de la serna

♦
«pelos meus cálculos, os que dizem que todo poder corrompe, não se manifestam com muita clareza. o conceito, tão antigo, e tantas vezes injustamente utilizado, merece alguns reparos.
imaginemos se, ao contrário do estabelecido, quanto mais alto fosse um cargo, menos regalias e menor fosse o soldo. mais responsabilidade se desse ao ocupante e, numa razão inversa, aumentassem os sacrifícios. quantos se candidatariam ao poder, nessas circunstâncias?
alguma coisa me diz que corrompemos o poder quando fizemos dele um prêmio, de tal forma disputado, que, comumente, chega a envergonhar a própria espécie humana.
tudo por causa de indivíduos que não se enxergam em seus tamanhos.»
deogar soares | voo livre, p. 80 e 81

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vote lula 2026

quando o cenário político eleitoral colocou frente a frente lula e brizola, eu escolhi lula. nunca votei em outro candidato para presidente que não fosse lula. não seria agora que o faria.

minha declaração de voto, no entanto, nesse momento é totalmente irrelevante. escrevo para uma bolha cada vez menor, conheço pessoalmente a maioria dos meus leitores e sei que a minha opinião sobre essas eleições não interfere de forma alguma no voto de quem quer que seja.

enfim, escrever para poucos me permite ser autêntico. aconteça o que acontecer, doa a quem doer, não mudo uma vírgula do que penso sobre democracia brasileira, eleições, lula e o pt.

sendo assim
em posição de enfrentamento aos padrões atuais
que impõem textos pequenos e sucintos
escrevi um textão
quem achar grande demais
e não quiser ler até o fim
fique à vontade
sei como é
na teoria
criticam-se os textos superficiais
mas
na prática
sujeita-se às regras do jogo
falando em jogo
jogo é o mesmo que eleição
falando em eleição
devo esclarecer que não sou candidato a nada
mas vamos à lógica petista e lulista de ser
segundo seus fiéis seguidores
tudo de bom que foi feito
entre 2002 e 2016
foi devido às grandes qualidades de lula, de dilma e do pt
e tudo o que não se pôde fazer
e o que de ruim se fez
foi por culpa da grande mídia e do sistema
bem
que me desculpem
os meus amigos petistas e lulistas
mas não penso assim
penso que quase tudo de bom
que o pt, lula e dilma fizeram
poderiam e deveriam ter feito melhor
e praticamente tudo de ruim que foi feito
na minha opinião
se explica mais pelos erros do pt
do que pelo sistema como ele é
não que o sistema não seja responsável pelas coisas como elas são
claro que é
mas
lembremos o velho ditado popular
diga-me com quem andas e te direi quem és
e o velho ditado romano
à mulher de césar não basta ser honesta precisa parecer honesta
noutras palavras
pompéia pode ou não ter traído césar mas os rumores precisam ser considerados
ou seja
parecer pode ser mais importante do que ser
a honestidade só é um valor se for publicamente reconhecida
quanto à corrupção
tema em questão nessa e em todas as eleições
gostaríamos
claro
que
nos governos do pt
a corrupção tivesse acabado
mas basta olhar para os lados
pra ver que ela não é uma questão de partido nem de estado
aliás
o «combate» à corrupção
por parte da mídia e das elites brasileiras
é mais forte em alguns períodos da história política brasileira
vide
vargas
jango
brizola
lula
dilma
talvez fosse interessante a esse monte de
paladinos da moral e dos bons costumes
se perguntarem assim
já me utilizei de benefícios sem merecê-los?
já pedi para o meu filho, menor de idade, comprar cerveja no bar da esquina?
já dirigi acima da velocidade permitida?
já bebi e dirigi?
já dirigi falando ao celular?
já ultrapassei em local proibido?
já entreguei a direção do meu carro ao meu filho menor de idade e/ou inabilitado?
já tentei enganar o imposto de renda?
já furei fila?
já isso e já aquilo?
já, claro que já
ah, vão se catar
a quem vocês pensam enganar?
pobres coitados
vocês às vezes me dão vontade de rir
outras de chorar
em suma
a corrupção
obviamente
não nasceu com o pt
ela não é culpa do pt
quem se lembra das promessas de fhc em 1994?
e da distribuição de concessões para rádios e tvs?
e de quanto custou rachar o pmdb?
delfim neto era feliz e não sabia?
quando?
nos tempos da ditadura?
quem se lembra do escândalo da mandioca?
e da coroa-brastel?
e de angra 1?
e de angra 2?
e dos poços do inocêncio (sic)?
todos sabemos sobre o aeroporto
mas nem todos sobre o mineirão
e menos ainda sobre a rádio arco-íris
e sobre o mensalão tucano
quem de nós sabe que aécio recebeu R$ 110 mil de marcos valério
e R$ 5,5 milhões da lista de furnas?
brasileiro é caipira?
aposentado é vagabundo?
brasileiro sabe votar?
ora, por favor, quem vai votar em dórias, moros e bolsonaros
vai votar literalmente em qualquer coisa
menos contra a corrupção
caros amigos e amigas
a corrupção é tão antiga quanto as sociedades humanas
lembram-se dos 30 dinheiros que judas iscariotes recebeu das autoridades romanas para revelar o paradeiro de jesus cristo? então, no renascimento, o grande foco de corrupção era o papado. alguém já ouviu falar da família bórgia? a família bórgia era a família do papa alexandre vi (1492-1503). pois não é que esta «santa criatura» transferiu dos cofres da santa sé para a sua família imensas fortunas. que pecado! teria ele caído em tentação ou cometido corrupção?
«não há santos vivos»
aliás
com relação a quem é santo
ou não
vou aproveitar para esclarecer uma questão
viva a revolução
mas não é porque fidel morreu
que vou considerá-lo santo
santo
pra mim
só tem dois
um é san ernesto
o outro é san deogar
por quê?
porque ambos disseram não a um sistema que funciona com base na corrupção
contudo
para que não recaiam dúvidas sobre o que estou dizendo
vou procurar ser mais claro
considero lula
dilma
olívio
tarso
marroni
ivan
e jurandir
---todos, junto com deogar, candidatos que ajudei a eleger com meu voto ---
pessoas da mais absoluta dignidade honradez e probidade
não me arrependo de nenhum dos meus votos
muito pelo contrário
tenho o máximo orgulho das escolhas que fiz
aliás
diga-se de passagem
sou bastante exigente na hora de dar meu voto
eu não voto em quem idolatra torturador
eu não voto em quem fala que o erro da ditadura foi ter matado pouco
eu não voto em quem diz que preferia ver o filho morto do que sendo gay
eu não voto em quem diz abertamente que é contra a democracia
eu não voto em golpista
eu não voto em arrependidos de plantão
eu não voto em traidor
eu não voto em quem fugiu pra paris
e mais uma lista de aberrações
que são tantas que não dá nem pra listar
é conveniente
nessas circunstâncias
que busquemos na etimologia
o significado das palavras
candidato
por exemplo
é uma palavra que
desgastada pelo uso
traz em si uma verdade que vale a pena recuperar
velas, candidatos, inocência
acendalha, acender, candeeiro, candeia, candelabro, candelária, candente, candial, candidato, candura, encandear, incandescente, incêndio, incenso, recender, sândalo
difícil imaginar uma relação entre assuntos tão díspares, não?
pois aqui está mais uma das surpresas da etimologia:
todos eles se combinam com o sentido de palavras pertencentes a um mesmo grupo
senão vejamos
o indo-europeu tinha uma palavra, kand-, «brilhar, emitir luz», ela viria a ser cand, em sânscrito, com o mesmo sentido.
em grego passaria a formar a palavra kandaros, «carvão», já que ele emite luz e calor quando aceso.
o latim usaria essa raiz no verbo candere, «ser brilhante, branco, queimar», que nos deu grande número de verbetes.
CANDEIA – pouco usado entre nós, é o mesmo que «vela» (a de acender, não a de barco).
em espanhol se usa candela, exatamente como se dizia em latim para «vela, tocha».
os gregos parece que não tinham palavra para isso, pois não usavam essa forma de iluminar. eles se ajeitavam muito bem usando lamparinas a óleo.
as velas eram já conhecidas dos etruscos e dos romanos, no entanto, eram uma forma de levar o óleo em forma sólida, sem derramar, isto era uma grande vantagem para o transporte comercial, pois se deixava de depender das ânforas, que podiam se quebrar. atualmente, candela é usada em nosso idioma como unidade técnica de medida de intensidade luminosa.
CANDELÁRIA – é uma festa católica com velas ou tochas, em honra à purificação da virgem maria. é nome de igrejas, bairros e cidades em nosso país. em inglês, a festa tem um nome com a mesma origem, candlemass, «a missa das velas».
CANDELABRO – do latim candelabrum, «candelabro», objeto onde são colocadas várias velas de uma vez. hoje são apenas elementos decorativos em nossas casas, mas houve época em que eles eram uma das poucas maneiras de se ter um mínimo de luz dentro de casa à noite.
CANDEEIRO – deriva de candela e designa uma lâmpada de óleo ou, modernamente, um artefato para iluminar, como lâmpadas de rua ou de interior de casas.
INCANDESCENTE – do latim incandescere, «estar em brasa, estar pegando fogo», seja descrevendo uma situação física, seja uma disposição sentimental. é melhor não chegar perto demais do que está incandescente, alguém pode se queimar, por dentro ou por fora.
CANDENTE – tem o mesmo significado da palavra acima, porém com um uso mais poético: «minh'alma candente por ti se abrasa, por teu sono vela», dirá um poeta apaixonado, merecendo a resposta «pare de escrever bobagens».
CANDURA – da noção visual de «branco, luminoso», por extensão se pensa na metáfora moral de «pureza, ausência de má intenção, inocência».
CANDIDATO – os romanos distinguiam entre dois tipos de branco:
o branco comum era chamado albus. em roma havia tábuas branqueadas com gesso colocadas em lugares públicos. nelas eram escritos os editos dos pretores, determinações do sumo pontífice e outras manifestações de interesse público.
na forma neutra, album, chegou até os nossos dias, designando um suporte físico para colocação de recortes, fotografias, etc.
com as fotos digitais, parece que os álbuns estão com os dias contados. eles passarão a fazer parte da memória dos computadores.
mas havia o candidus, o branco brilhante, o branco aquele de propaganda de sabão em pó. quando uma pessoa desejava assumir um cargo público, passava a vestir uma túnica branca. se o povo achasse que ela não tinha condições para tal cargo, encarregava-se de atirar sujeira nessas vestes, de modo a mostrar que o assim chamado candidatus era desagradável a um grande número de pessoas. uma lavanderia destinada a limpar togas brancas de candidatos faria um dinheirão em certos países, se essa instituição voltasse.
CANDIAL – esta sim é pouco conhecida. designa um tipo de trigo duro, trigo candeal em espanhol...
– mas o que diachos tem trigo a ver com o assunto?, – pensarão muitas pessoas.
– muito – dizemos nós. esse trigo dava uma farinha muito branca; em razão disso, recebeu um nome que lembra claridade. e há mais um fato inteligente: este tipo de trigo se chamava milium em latim, derivado de mille, «mil», por ter numerosos grãos na espiga. tal nome foi aplicado depois a outra planta, uma gramínea levada pelos conquistadores espanhóis para a europa, que viria a ter o nome científico de zea mays e que virou o atual milho.
o verbo candere, «queimar», formou, para efeitos de composição de palavras derivadas, o sufixo cendere.
entre estas, encontramos:
ACENDER – a mais óbvia, querendo dizer «colocar fogo, incendiar», de ad-, «junto», com candere. daí temos também o acendedor que nos ajuda a fazer a chama do gás em nossos fogões.
INCÊNDIO – do latim incendium, «fogo, calamidade, conflagração», formado por in-, «em», mais candere, ou seja, «colocar fogo em».
INCENSO – do latim incensum, «aquilo que queima». entre os povos antigos existia a noção de que os sacrifícios feitos aos deuses deviam ser queimados para que o cheiro da oferta chegasse às suas narinas, no olimpo ou onde quer que estivessem. este era um ato feito per fumum, «através do fumo, da fumaça», o que originou o nosso perfume.
RECENDER – falando em perfume… este verbo, que significa «espalhar um cheiro», vem de re-, intensificativo, mais candere, tudo o que é queimado lança algum tipo de cheiro no ar, resultado da volatilização de seus componentes.
SÂNDALO – pelo visto, está difícil sair do assunto dos perfumes. o nome desta madeira aromática passou pelo latim sandalum, pelo grego santalon, pelo persa sandal, desde o sânscrito candana-m, nome dado à árvore que produz esta madeira, significando «madeira para queimar e perfumar». este nome veio direto de candrah, «brilhante, luminoso», com a mesma origem de candere.
existe um antigo ditado pacifista que diz «sê como o sândalo, que perfuma o machado que o fere». bonito, para quem consegue. e mais bonito ainda para o machado…
ACENDALHA – outra palavra de pouco uso, pelo menos no brasil. refere-se ao material (folhas secas, gravetos, palha) de fácil combustão a ser usado para começar um fogo.
não custa lembrar que
folha seca
graveto
e palha
atrapalham o nascimento
e o crescimento de folhas verdes
resumindo
candidato vem do latim candidatus
isto é
vestido de branco
(candidus)
na antiguidade
aquele que disputava um cargo público e precisava angariar votos vestia-se de branco para simbolizar sua pureza
e aqui caímos num dilema
«não há santos vivos»
e se não há santos vivos
não há CANDIDATOS
só vejo uma saída
então
ressuscitar san ernesto e san deogar
mas
como não acredito em milagres
a única saída que vejo
é jogar tudo pelos ares

grill

♦

estamos trancados no paiol de pólvora
paralisados no paiol de pólvora
olhos vendados no paiol de pólvora
dentes cerrados no paiol de pólvora
só tem entrada no paiol de pólvora
ninguém diz nada no paiol de pólvora
ninguém se encara no paiol de pólvora
só se enche a cara no paiol de pólvora
mulher e homem no paiol de pólvora
ninguém tem nome no paiol de pólvora
o azar é sorte no paiol de pólvora
a vida é morte no paiol de pólvora
são tudo flores no paiol de pólvora
tv a cores no paiol de pólvora
tomem lugares no paiol de pólvora
vai pelos ares o paiol de pólvora

clique no título para ouvir

(vinicius & toquinho, 1973)

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

 

los hermanos 

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«cantamos a obra de meu pai, atahualpa yupanqui, porque nos permite falar de assuntos que vêm desde muito longe e muito fundo nos homens. nesta obra nos reconhecemos e nosso recital constitui nossa melhor contribuição na direção de um mesmo ideal: um mundo de hermanos.»

roberto kolla chavero | theatro sete de abril
16 de novembro de 2003
pelotas - rs - brasil

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américas

por luis rubira
texto publicado no diário popular
pelotas, 2005

no ano de 2003, kolla yupanqui, filho de don atahualpa, elegeu um especialista em música que mora na cidade de pelotas para representar a fundação atahualpa no brasil.

enilton grill é, certamente, uma das pessoas que mais entende da multiplicidade musical produzida nos três continentes americanos. em sua casa, ao entrar na sala, já nos deparamos com quase dois mil CDs criteriosamente escolhidos.

conhecido por muitos músicos, recebe discos que vêm de longe e de culturas específicas, tais como os de amâncio prada — uma pedra preciosa da galícia.

para se ter uma ideia, enilton grill apresentou um dos maiores músicos do uruguai, daniel viglietti, a um dos maiores nomes da música no brasil: dorival caymmi. e, no disco ramilonga - a estética do frio, entre as pessoas a quem vitor ramil agradece, está o nome de enilton.

há quase dez anos apresenta o programa américas numa rádio da cidade de pelotas, já tendo percorrido praticamente todos os caminhos musicais destas vastas culturas de língua portuguesa, espanhola e inglesa.

seus programas são um luxo não só sonoro, mas educativo, pois partem da música, mas percorrem caminhos da história, da filosofia, da política e outros «caminhos no bosque», como diria o filósofo martin heidegger.

na sala de sua casa, além dos discos e de muitos livros especializados em música, podemos ver três quadros na parede que revelam o tripé onde sua lente musical está apoiada: ali aparecem as fotos de bob dylan, chico buarque e atahualpa yupanqui.

aproveitando esta homenagem que o fórum social mundial presta a yupanqui, esperamos que a fundação atahualpa receba incentivo para sua concretização.

afinal, já está na hora de o conhecimento de enilton não ficar reduzido a privilegiados ouvintes da cidade de pelotas, mas, tal como as coplas de yupanqui, ser repartido com outras pessoas de nosso país.

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links

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do documentário «un río que no cesa de cantar»
fragmento (1:06)

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canciones que nacen del camino

em janeiro de 2016, fazia dois anos que vivi e eu tínhamos nos mudado para o repecho. foi quando o poeta e amigo martim césar me enviou um e-mail com o convite para o lançamento do cd «canciones que nacen del camino». o evento foi no teatro esperança, em jaguarão, na fronteira com o uruguai. no e-mail, martim escrevia: «tomara que possam... se puderem, fazes algum pequeno texto de abertura.»

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abertura
fronteira não é lugar de divisão...
fronteira é lugar de inclusão, de integração.
disse bem aldyr garcía schlee, na fronteira é tudo uma coisa só. e é mesmo, tem razão. aqui e agora, por exemplo, com o testemunho do rio jaguarão temos diante de nós três pátrias num só palco: oscar massita (uruguai), martim césar (brasil) e roberto chavero (kolla yupanqui) argentina. tudo isso não é pouco. é muito o que se faz aqui. basta ver o que fizeram de nós fora daqui: imagem estilhaçada, pedaços sem conexão entre si. repito: é muito o que se faz aqui. pois fora daqui nos fizeram um corpo mutilado, uma cara por descobrir. mas se o mundo está dentro ¿afuera, por qué mirar? o canto do vento. a música que toca o rio. o latido humano que brota da terra. ir e vir. caminhar, caminhar. e as canções, as canções; mil símbolos, mil razões e três troncos de uma só raiz me trouxeram até aqui. fora da margem de dentro / entre o caule e o rebento / há sempre um pequeno espaço // entre movimento e passo / entre passo e movimento / a corda que faz o laço / a força que faz o braço / acordar o pensamento. pensando bem: ¡que coisas tem a vida/misteriosas por demais! estamos onde queremos estar, muitas vezes sem pensar. o pensamento então parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar -é que as léguas desaparecem, se a alma começa a-le-tear - bater asas / sem sair do lugar. do outro lado da mente / do outro lado da gente / do lado da gente do outro lado / do lado da gente que fica de frente / da gente que vive o futuro-presente / o tempo presente não repete o passado, mas traz ele consigo. há que se olhar para frente, mas com los recuerdos detrás. afinal, de que pegadas partem nossos passos para que nasçam canções pelo caminho? de minha parte, para encerrar: só estão longe as coisas que não sabemos mirar... que não sabemos ouvir...
que não sabemos escutar. nós que aqui estamos escutamos ao longe as payadas jaymecaetanas as zambas yupanquianas as milongas alfredianas porque estamos perto de oscar, de martim e de roberto. repecho, verão de 2016 enilton grill ••••••••••••••

«un quijote del sur que nos daba su tierna mirada y aunque hablaba muy poco, muchas cosas contaba de esta parte del mundo, de lo que fue nuestra historia de los años de lucha... ¡dolor, sueño y memoria!»

martim césar

•••••••••••••• à flor da pele antes disso, fui convidado por daniel viglietti para ir com ele a montevidéu. daniel foi muito amigo de atahualpa. falei para ele do convite feito pelo kolla para que eu representasse a fundação atahualpa no brasil. disse a ele que não conhecia a argentina — não conheço mesmo. lembro que ele ficou muito surpreso. como assim?! então, disse que entraria em contato com pessoas que me levariam ao cerro colorado.

cerro colorado — na província de córdoba, na argentina — é o lugar sagrado onde estão as cinzas de yupanqui e é a sede da fundação atahualpa yupanqui.

abri um sorriso amarelo e agradeci. disse a viglietti que gostaria muito, mas que não podia, pois acabara de passar 10 dias «vivendo de poesia» e tinha que voltar para pelotas e reassumir meu lugar no cfc.
na verdade, a gente sempre pode: basta querer. se eu ainda quisesse, largava tudo e ia. mas algo havia mudado, eu beirava os 40 e começavam a soprar outros ventos pelo meu costado. eu já não olhava apenas para a casa e o trabalho. minha visão havia se ampliado. eu sentia todo e qualquer sinal que passasse por mim: à frente, atrás e ao lado. meus sentidos estavam todos acionados. como diria baleiro, eu estava à flor da pele. eu supunha que queria ser poeta, mas no fundo queria ser poema. o cfc caminhava para ser passado. o «casamento» já tinha dançado.
eu estava apaixonado. ••••••••••••••

o que será que me dá que me queima por dentro, será que me dá que me perturba o sono, será que me dá que todos os tremores me vêm agitar que todos os ardores me vêm atiçar que todos os suores me vêm encharcar que todos os meus nervos estão a rogar que todos os meus órgãos estão a clamar e uma aflição medonha me faz implorar o que não tem vergonha, nem nunca terá o que não tem governo, nem nunca terá o que não tem juízo

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[vídeo - com milton mascimento]

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falando em poema lembrei de um do ano passado •••••••••••••• faz 40 que fiz 20 quando eu tinha 20 40 era um acinte agora que fiz 60 o poema ainda se sustenta minha alma é de 20 40 foi um acinte ••••••••••••••

el tiempo pasa nos vamos poniendo viejos el amor no lo reflejo como ayer

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[en vivo - con «la reina» mercedes sosa]

•••••••••••••• normal, é assim com todo mundo, o tempo passa. a diferença — se é que há — é que eu olho pra trás e acho graça. verdade. começaria tudo outra vez. não me arrependo de nada. vivi cada dia como se fosse o último. que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure. depois, somei noite mais noite olhando a lua, decorei cada estrela que brilhava, morri mais de uma vez em cada rua. e hoje, parece mentira, estou aqui mais vivo do que nunca. pobre do tempo que não me alcança: nunca se alcança aquilo que flutua. o personagem de robin williams, em sociedade dos poetas mortos, pergunta: — qual será o seu verso? eu respondo: — meu verso é minha loucura! e levanto-a, como um facho, a arder na noite escura. se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! se eu fosse contar como queria passar a minha vida alguns anos atrás, provavelmente surpreenderia os leitores. o mais que faço, porém, não vale nada: dar conselhos a um homem culto é supérfluo; aconselhar a quem ignora tudo é inútil. não se pode confiar às cegas em nenhuma maneira de pensar, por mais antiga que seja. grande parte das coisas que a maioria dos mais velhos dizem ser boas, acredito do fundo da alma que são ruins. não vou por aí. só vou por onde me levam meus próprios passos. caminante, no hay camino, se hace camino al andar. as capacidades do homem jamais foram medidas, e tampouco podemos julgar do que ele é capaz tomando como base qualquer precedente. eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. que as pessoas sonhem! a mente humana está cheia de imaginação: tente outra vez.

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tente
e não diga que a vitória está perdida
se é de batalhas que se vive a vida
tente outra vez

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[vídeo oficial - com letra e animação]

•••••••••••••• agora é tarde

a minha poesia consistiu numa tentativa de inventar para mim uma identidade. depois de inventada e assumida, já não me ocorre aquele apostar-me inteiro em tornar-me poema para chegar a ítaca. ítaca já não há e eu não sou mais o que era.

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se quiser empreender viagem à ítaca ligue antes
porque parece que tudo em ítaca está lotado
os hotéis baratos, os hotéis caros
já não se pode viajar sem reservas ao mar jônico

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[voz: angélica freitas]
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«no volveré a ser joven. que la vida iba en serio uno lo empieza a comprender más tarde... pero ha pasado el tiempo y la verdad desagradable asoma: envejecer, morir, es el único argumento de la obra.»

... «juventud, divino tesoro, ¡ya te vas para no volver! cuando quiero llorar no lloro, y a veces, lloro sin querer.»

•••••••••••••• mas lembre-se: a mente humana é imaginação. tente outra vez.

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está sempre
essa pessoinha feliz
transformando o que está sujo em ouro.
sempre chega até o salão principal, onde fica o motor que aciona a luz.
sempre lá
faz sua melhor tarefa
o reparador de sonhos

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[en vivo - con silvito]

•••••••••••••• «havia um artista na cidade de kouroo que estava disposto a alcançar a perfeição. um dia ocorreu-lhe a ideia de fazer um bastão. considerando que o tempo é um ingrediente num trabalho imperfeito, mas que num trabalho perfeito o tempo não entra, disse a si mesmo: será perfeito em todos os aspectos, mesmo que eu não faça mais nada em minha vida. foi buscar madeira na floresta. enquanto procurava e rejeitava vara após vara, seus amigos o abandonaram e morreram, mas ele não envelheceu um só instante. sua perseguição de um único fim o dotou da eterna juventude. como ele não fazia nenhuma concessão ao tempo, o tempo se mantinha fora de seu caminho, suspirando à distância por não conseguir vencê-lo.»

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abra os braços, respire fundo
e corte os laços todos deste mundo com a sua imagem e semelhança nos mesmos traços de uma criança

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respire fundo | walter franco | 1978
[clipe]

•••••••••••••• «do outro lado das colinas, as acácias cheiram a mel. e na cidade, não muito longe daqui, o vento ergue papéis velhos em redemoinhos pelas ruas. nos mercados, anunciam morangos de salto. os cachorros cochilam ao sol junto dos mendigos. sentado na beira da calçada, um garotinho desenha o mundo com um palito.»

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numa folha qualquer,
eu desenho um sol amarelo

[con letra e imag[i]nação]

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falando em sol amarelo
lembrei de facundo cabral
lembrando de facundo
lembrei do mundo

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«giro um simples compasso
e num círculo eu faço o mundo
ponho o sol no ombro
e o mundo é amarelo.
[que descolorirá]»

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de volta ao começo

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los hermanos 

roberto kolla chavero | theatro sete de abril
16 de novembro de 2003
pelotas - rs - brasil

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uns dias antes do recital, fui colar os cartazes na porta do theatro e dei de cara com o diretor:
– e aí, cara, tudo bem?
– tudo bem...
– quem tu tá trazendo dessa vez?
quando mostrei o cartaz, o coitado quase teve um troço.
– cara, tu tá trazendo o «los hermanos»?!
levei um bom tempo até explicar que «los hermanos» não era nome de banda de rock, e sim uma milonga belíssima, composta por atahualpa yupanqui e cantada por mercedes sosa.
– bem que eu achei que tava muito barato pra ser o «los hermanos».

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«y así seguimos andando
curtidos de soledad
nos perdemos por el mundo
nos volvemos a encontrar»

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link

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un documental dirigido por federico randazzo abad
producido por bellasombra, bosque cine 
apoyo de la fundación atahualpa yupanqui.

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas