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«a vida é arte do encontro,
embora haja tanto desencontro pela vida.»
vinicius de moraes
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no final de 1996
por ocasião do ramilonga
com o américas a pleno
tendo entrevistado
entre outros
antonio tarragó ros
mercedes sosa
e león gieco
vitor ramil foi recebido por mim
no apê do aldeia
para uma charla
que tinha como mote
a milonga
de onde ela vinha
pra onde ela vai
seus principais intérpretes e compositores
enfim
isso foi num sábado pela manhã
vitor toca a campainha
eu atendo
cuia de chimarrão na mão
mate vai, mate vem
— enilton, tô preparando um disco só de milongas
queria ver contigo alguma coisa nessa área
na área da milonga
— cara, podemos começar por larralde...
— elizalde?! tu tem felipe elizalde?!
da milonga passamos pra mpb
— vitor, tua proximidade com caetano...
— minhas fontes de elaboração são egberto gismonti e chico buarque, que foi quem me mostrou que a letra poderia ser lapidada. caetano é mais lírico e caótico, há letras dele que nunca consegui entender
e por aí transcorreu nosso primeiro encontro
mas não vão me entender mal
vitor e eu nos entendemos perfeitamente bem
algum tempo depois
não sei precisar quanto
toca o telefone
— enilton, o ramilonga tá na mão... gostaria de te entregar em mãos...
— bah, que baita notícia, que honra... quando posso passar aí pra pegar?
— quando tu quiseres, mas hoje estou o dia todo em casa...
bato a campainha
vitor me recebe com a cuia de chimarrão na mão
mate vai, mate vem...
— já vivi em porto alegre e no rio, ficar em pelotas foi uma opção minha. mas meu interesse maior é compor e escrever, nunca fui chamado a essa profissão pela fama. não sou uma pessoa de relações, e embora ache isso importante, não é prioridade para mim. moro numa casa de cem anos, vou de carro a buenos aires, é em coisas assim que encontro inspiração para compor e escrever
e por aí ficamos
a charla não se estendeu muito
já era hora do almoço
quando chego em casa
boto o cd pra escutar
folheio o encarte e
na última folha
nos agradecimentos
ao lado de felipe elizalde
leio o meu nome
com lágrima nos olhos
escuto pela primeira vez o ramilonga
mais tarde
toco o telefone pro vitor
pra agradecer o agradecimento
e falo da sensação que o disco me causou
beleza e estranheza
do outro lado da linha
— a estranheza é o caetano, enilton
não entendi nada...
mas fiquei na minha
anos mais tarde
numa coluna da folha de são paulo
escrita por pedro alexandre sanches
veio a explicação
«no "ramilonga", fiz de propósito esse viés do caetano, que na verdade é o da bossa nova. o canto regional do sul, grosseiro e gritado, de gaúcho macho, me incomodava muito. por que não posso cantar de forma leve, delicada? forcei a barra de cantar "joãogilbertamente", e mantenho isso em "tambong"»
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você pode ser rei no país do futebol
pode ser viciado em bingo e nunca ver a luz do sol
você pode ser um mago e vender livros de montão
pode ser uma socialite, enriquecer vendendo pão
mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
pode ser incendiário e fazer um índio arder
você pode ser o índio vendo a chama acender
pode ser um bom ladrão, pode ser um mau juiz
pode ter um passado limpo, pode ter uma cicatriz
mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
você pode estar na mídia sem saber porque
você pode ser dono de uma rede de tv
você pode dar o fora tendo tudo pra ficar
adotar um nome diferente, você pode mesmo se isolar
mas um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém
(versão: vitor ramil)
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«nosso primeiro encontro foi inteiramente imprevisto. como ele, eu não tinha sofrido nenhum tipo de preparação anterior. esperava um homem profundamente revoltado. encontrei um consciente complicado. existe sobretudo uma preocupação evidente em ser entendido. nenhum assunto é brincadeira, tudo é muito sério e sujeito a várias indagações. vandré não gosta de piadas, não é simpático, mas também não é "estrela" de coisa nenhuma.
- minha função é fazer canções e é apenas disso que eu vivo. não pretendo levantar o povo contra uma estrutura já estabelecida. mas acredito que através da musica ele possa tomar consciência do mundo mais depressa.
muita gente já chamou vandré de festivo, de demagogo e outros bichos. não é isso não.
é, acredito, um conflito formado entre a inteligência e o conhecimento, a cultura.»
zélia prado | revista JOIA – novembro de 1968
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band: a primeira pergunta é uma que todos se fazem: por que há 50 anos você parou de cantar e de compor?
vandré: talvez porque não haja mais motivo para compor e para cantar...
band: porque não tem mais motivo...
vandré: é, deve ser por isso...
band: mas houve um motivo? houve alguma coisa que te fez parar?
vandré: não... especificamente, não.
band: se não houve mais motivo para você cantar e compor... quando você cantava e compunha, havia motivo. quais eram os motivos?
vandré: ah, faz muito tempo, não dá para lembrar... era da época... motivos da época.
band: qual era a demanda da época?
vandré: era muita coisa, não tinha nada específico.
band: ao escutar «pra não dizer que não falei das flores», é impossível não pensar em você. o que essa música significou para você?
vandré: significou o fim de uma carreira artística.
band: o fim?! mas não é o apogeu de sua carreira?
vandré: por um lado... mas o apogeu também é o fim, não é?
band: quer dizer, você se surpreendeu, então, com o efeito, com a recepção que essa obra teve?
vandré: de algum modo, sim.
band: ela é entendida — não é, vandré?
vandré: de algum modo..
band: o que você pensou quando a compôs?
vandré: não pensei em nada.
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ed bradley: as pessoas iam à sua casa?
bob dylan: sim.
ed bradley: para fazer o quê?
bob dylan: para discutir política, filosofia, agricultura orgânica, e coisas do tipo...
ed bradley: e o que você sabe de agricultura orgânica?
bob dylan: nada.
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— seu pai falava muito de você.
— é?
— dizia que você não tinha ambição.
— tinha razão.
— é mesmo?
— minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
— você é estranho.
bukowski
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«todas as minhas utopias foram embora. eu até termino o «longes» dizendo assim: "deixo ao vento que quiser levar, minhas folhas secas de utopia". hoje em dia eu sou assim, eu não tenho utopias.»
vitor ramil
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eu não faço nada
tô sem movimento
tô virando estátua
vitor ramil
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eu não faço nada
tô sem movimento
tô virando estátua
tô embrutecendo
eu não quero nada
tô sem interesse
tô desapontado
tô sem endereço
eu não acredito
👉 ouça: desenchufado - vitor ramil (2004)
do álbum longes
do álbum longes
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new morning
eu acabara de voltar para woodstock vindo do meio-oeste — do funeral de meu pai. havia uma carta de archibald macleish à minha espera em cima da mesa. macleish, poeta laureado da américa — um deles.
a semana anterior me deixara exaurido. havia voltado à cidade de meus primeiros anos de uma forma que jamais havia imaginado — para ver meu pai ser sepultado. agora não haveria jeito de dizer o que nunca fui capaz de dizer antes. enquanto eu crescia, as diferenças culturais e de geração haviam sido intransponíveis — nada além dos sons das vozes, uma conversa artificial e sem graça. quando um de meus professores disse a ele que o filho tinha uma natureza de artista, meu pai, que falava direto e sem rodeios, perguntou: «artista não é um sujeito que pinta?». parecia que eu sempre havia estado no encalço de alguma coisa, qualquer coisa que se movesse — um carro, um pássaro, uma folha soprada pelo vento ---, o que quer que pudesse me levar para um lugar mais luminoso, alguma terra desconhecida rio abaixo. eu não tinha a mais vaga noção do mundo despedaçado em que vivia, do que a sociedade podia fazer com você.
quando saí de casa, foi como se fosse um colombo partindo para o atlântico desolado. parti e fui para os confins da terra — até o abismo onde a água despencava.
bob dylan | crônicas volume um, p. 1119, 120.
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«um dos meus amigos tem cicatrizes de navalha ao longo de todo o seu braço esquerdo. o outro enfia baldes de comprimidos pra dentro de uma massa de barba preta. ambos escrevem poesia. tem qualquer coisa em escrever poesia que leva o homem pra beira do abismo.»
bukowski
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«louco, joquim louco,
o louco do chapéu azul.»
vitor ramil
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«o curioso é que absolutamente não me sinto inclinado a me considerar louco e vejo até, com toda evidência, que não estou louco: todas essas mudanças dizem respeito aos objetos. pelo menos é disso que gostaria de ter certeza.»
jean-paul sartre
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«estranho, estranho mesmo era alguma coisa que eu não via, uma coisa que faltava em toda parte, e de noite eu perdia o sono matutando nisso; era dessas adivinhas difíceis de decifrar e que quando decifra a gente exclama: é claro!»
chico, bambino a roma, p 7
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«era estranho ver no bonde tantos homens de muletas? sim, mas não era a isso que eu me referia. era estranho ver na feira tantas mulheres de luto fechado? sim, mas não era disso que se tratava. era um pouco estranho não ter feijão com arroz, mas logo tomei gosto pelas massas que a cozinheira servia todo dia no almoço.»
chico, bambino a roma, p. 9
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«não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; ao contrário, me sinto esmagado. só que meu objetivo foi atingido: sei o que desejava saber; compreendi tudo o que me aconteceu a partir do mês de janeiro. a náusea não me abandonou e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença. nem de um acesso passageiro: a náusea sou eu.»
sartre, a náusea, p.169
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«agarrado à bola de futebol, olhei para trás ao sair de casa na rua haddock lobo 1625, são paulo, assim que partiu o caminhão de mudança. vendo a casa tão vazia, com manchas de mobília no chão e de quadros na parede, entendi que a ausência seria longa, talvez para sempre. zarpamos do rio, e no convés do giulio cesare passageiros se abraçavam e brindavam vendo a cidade se afastar na baía de guanabara. eu não olhava a baía, mas sim a espuma que o transatlântico fazia no mar, como que desarranjando o caminho de volta. durante duas semanas num oceano sem fim, havia muita festa a bordo e jogos no tombadilho, mas se me perguntarem do que mais me lembro, direi francamente que só me lembro de um mar de vômito. vomitei no mar, no tombadilho, na piscina, no camarote de segunda classe, vomitei amarelo na toalha do restaurante, vomitei no sapato do garçom, eu vomitava os remédios e vomitava em cima do meu vômito com nojo de mim.
vomitei do rio a gênova com escalas nauseantes em portos que mal vi, na certeza de que aquele gosto nunca mais ia sair da minha boca.»
chico, bambino a roma, p.7
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«eis o que pensei: para que o mais banal dos acontecimentos se torne uma aventura, é preciso e basta que nos ponhamos a narrá-lo. é isso que ilude as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias [...] e procura viver sua vida como se a narrasse.»
sartre, a náusea, p. 58
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«segunda-feira, 29 de janeiro de 1932
algo me aconteceu, não posso continuar a duvidar. eu me senti um pouco estranho, nada mais. não sei. houve uma mudança nestas últimas semanas. acho que fui eu que mudei: essa é a solução mais simples. a mais desagradável também. mas tenho que reconhecer que sou sujeito a mudanças súbitas.»
sartre, a náusea, p. 16
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«o que acaba de ocorrer é que a náusea desapareceu. quando a voz se elevou no silencio, senti meu corpo se enrijecer e a náusea se dissipou. estou na música.»
sartre, a náusea, p. 39
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a música
era um mago da harpa. nos altiplanos da colômbia, não havia festa sem ele. para que a festa fosse festa, mesé figueredo tinha de estar ali, com seus dedos bailarinos que alegravam os ares e alvoroçavam as pernas.
certa noite, num caminho deserto, os ladrões o assaltaram. ia mesé figueredo, em lombo de mula, a uma festa de casamento. numa das mulas ia ele, na outra a harpa, quando os ladrões o atacaram e o moeram a bordoadas.
no dia seguinte, alguém o encontrou. estava atirado no chão, um trapo sujo de barro e sangue, mais morto do que vivo. e então aquele farrapo humano disse, com um fiapo de voz:
- levaram as mulas.
e disse:
- levaram a harpa.
e respirou fundo, acrescentando:
- mas não levaram a música.
eduardo galeano
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«a bem dizer, essa impressão de estar sendo abandonado já vinha de outras estadias em outros hotéis de roma, e outros e outros, mas o verdadeiro mal-estar que então me perseguia devia remontar aos escuros tempos de ditadura em que me exilei por mais de um ano na cidade. e já me revejo na recepção do hotel raphael atendendo a um telefonema urgente do brasil: o que houve?; como assim?; o ascensorista ainda não apareceu?; a filha do mágico continua doente? as ligações já não eram tão precárias quanto outrora, mas os diálogos pareciam evasivos porque havia palavras e nomes que não convinha pronunciar. mesmo assim, acredito que o mais profundo mal-estar vinha de antes ainda, e me intriga que durante o longo tempo ocioso que vivi adulto em roma, nunca me tenha ocorrido visitar os lugares da minha infância. pode ser que na via san marino eu descobrisse finalmente a origem de todo o meu mal-estar. mas também é possível que esse mal-estar nunca tenha existido, só existe agora que me lembro dele.»
chico, bambino a roma, p. 112
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«um romance. e haveria pessoas que leriam esse romance e diriam: «foi antoine roquentin que o escreveu, era um sujeito ruivo que estava sempre nos cafés». e pensariam em minha vida, como eu penso na dessa preta [em referência à cantora da sua canção preferida]: como em algo precioso e meio lendário. um livro.
talvez um dia, pensando precisamente nesta hora, nesta hora sombria em que estou à espera, de costas curvadas, que sejam horas de saltar para o comboio, talvez sentisse bater-me mais depressa o coração e dissesse para comigo: "foi nesse dia, a essa hora, que tudo começou."»
sartre, a náusea, p. 222
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aqui nessa hora é que ele nasceu
segundo o que contaram pra mim
versão: vitor ramil (1987)
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«cai a noite. no 1º andar do hotel printania acabam de se iluminar duas janelas. das obras da estação nova sai um cheiro intenso a madeira húmida: amanhã vai chover sobre bouville.»
sartre, a náusea, p. 222
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«nascer leva tempo»
vitor ramil
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«não preciso do fim para chegar.
do lugar onde estou já fui embora.»
manoel de barros
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chove na tarde fria de porto alegre
trago sozinho o verde do chimarrão
olho o cotidiano, sei que vou embora
nunca mais, nunca mais
programa encuentro en el estudio con vitor ramil.
canal encuentro.
ministerio de educación de la nación.
república argentina.
dirección ariel hassan.
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porque hoje é sábado
continua amanhã
que é domingo


