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sábado, 1 de agosto de 2026


beleza e estranheza

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«a vida é arte do encontro,
embora haja tanto desencontro pela vida.»

vinicius de moraes

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no final de 1996
por ocasião do ramilonga
com o américas a pleno
tendo entrevistado
entre outros
antonio tarragó ros
mercedes sosa
e león gieco
vitor ramil foi recebido por mim
no apê do aldeia
para uma charla
que tinha como mote
a milonga
de onde ela vinha
pra onde ela vai
seus principais intérpretes e compositores
enfim
isso foi num sábado pela manhã
vitor toca a campainha
eu atendo
cuia de chimarrão na mão
mate vai, mate vem
— enilton, tô preparando um disco só de milongas
queria ver contigo alguma coisa nessa área
na área da milonga
— cara, podemos começar por larralde...
— elizalde?! tu tem felipe elizalde?!
da milonga passamos pra mpb
— vitor, tua proximidade com caetano...
— minhas fontes de elaboração são egberto gismonti e chico buarque, que foi quem me mostrou que a letra poderia ser lapidada. caetano é mais lírico e caótico, há letras dele que nunca consegui entender
e por aí transcorreu nosso primeiro encontro
mas não vão me entender mal
vitor e eu nos entendemos perfeitamente bem
algum tempo depois
não sei precisar quanto
toca o telefone
— enilton, o ramilonga tá na mão... gostaria de te entregar em mãos...
— bah, que baita notícia, que honra... quando posso passar aí pra pegar?
— quando tu quiseres, mas hoje estou o dia todo em casa...
bato a campainha
vitor me recebe com a cuia de chimarrão na mão
mate vai, mate vem...
— já vivi em porto alegre e no rio, ficar em pelotas foi uma opção minha. mas meu interesse maior é compor e escrever, nunca fui chamado a essa profissão pela fama. não sou uma pessoa de relações, e embora ache isso importante, não é prioridade para mim. moro numa casa de cem anos, vou de carro a buenos aires, é em coisas assim que encontro inspiração para compor e escrever
e por aí ficamos
a charla não se estendeu muito
já era hora do almoço
quando chego em casa
boto o cd pra escutar
folheio o encarte e
na última folha
nos agradecimentos
ao lado de felipe elizalde
leio o meu nome
com lágrima nos olhos
escuto pela primeira vez o ramilonga
mais tarde
toco o telefone pro vitor
pra agradecer o agradecimento
e falo da sensação que o disco me causou
beleza e estranheza
do outro lado da linha
— a estranheza é o caetano, enilton
não entendi nada...
mas fiquei na minha
anos mais tarde
numa coluna da folha de são paulo
escrita por pedro alexandre sanches
veio a explicação
«no "ramilonga", fiz de propósito esse viés do caetano, que na verdade é o da bossa nova. o canto regional do sul, grosseiro e gritado, de gaúcho macho, me incomodava muito. por que não posso cantar de forma leve, delicada? forcei a barra de cantar "joãogilbertamente", e mantenho isso em "tambong"»

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você pode ser rei no país do futebol
pode ser viciado em bingo e nunca ver a luz do sol
você pode ser um mago e vender livros de montão
pode ser uma socialite, enriquecer vendendo pão

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém

pode ser incendiário e fazer um índio arder
você pode ser o índio vendo a chama acender
pode ser um bom ladrão, pode ser um mau juiz
pode ter um passado limpo, pode ter uma cicatriz

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém

você pode estar na mídia sem saber porque
você pode ser dono de uma rede de tv
você pode dar o fora tendo tudo pra ficar
adotar um nome diferente, você pode mesmo se isolar

mas um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

(versão: vitor ramil)

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«nosso primeiro encontro foi inteiramente imprevisto. como ele, eu não tinha sofrido nenhum tipo de preparação anterior. esperava um homem profundamente revoltado. encontrei um consciente complicado. existe sobretudo uma preocupação evidente em ser entendido. nenhum assunto é brincadeira, tudo é muito sério e sujeito a várias indagações. vandré não gosta de piadas, não é simpático, mas também não é "estrela" de coisa nenhuma.
- minha função é fazer canções e é apenas disso que eu vivo. não pretendo levantar o povo contra uma estrutura já estabelecida. mas acredito que através da musica ele possa tomar consciência do mundo mais depressa.
muita gente já chamou vandré de festivo, de demagogo e outros bichos. não é isso não.
é, acredito, um conflito formado entre a inteligência e o conhecimento, a cultura.»

zélia prado | revista JOIA – novembro de 1968

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band: a primeira pergunta é uma que todos se fazem: por que há 50 anos você parou de cantar e de compor?
vandré: talvez porque não haja mais motivo para compor e para cantar...
band: porque não tem mais motivo...
vandré: é, deve ser por isso...
band: mas houve um motivo? houve alguma coisa que te fez parar?
vandré: não... especificamente, não.
band: se não houve mais motivo para você cantar e compor... quando você cantava e compunha, havia motivo. quais eram os motivos?
vandré: ah, faz muito tempo, não dá para lembrar... era da época... motivos da época.
band: qual era a demanda da época?
vandré: era muita coisa, não tinha nada específico.
band: ao escutar «pra não dizer que não falei das flores», é impossível não pensar em você. o que essa música significou para você?
vandré: significou o fim de uma carreira artística.
band: o fim?! mas não é o apogeu de sua carreira?
vandré: por um lado... mas o apogeu também é o fim, não é?
band: quer dizer, você se surpreendeu, então, com o efeito, com a recepção que essa obra teve?
vandré: de algum modo, sim.
band: ela é entendida — não é, vandré?
vandré: de algum modo..
band: o que você pensou quando a compôs?
vandré: não pensei em nada.

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ed bradley: as pessoas iam à sua casa?
bob dylan: sim.
ed bradley: para fazer o quê?
bob dylan: para discutir política, filosofia, agricultura orgânica, e coisas do tipo...
ed bradley: e o que você sabe de agricultura orgânica?
bob dylan: nada.

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— seu pai falava muito de você.
— é?
— dizia que você não tinha ambição.
— tinha razão.
— é mesmo?
— minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
— você é estranho.

bukowski

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«todas as minhas utopias foram embora. eu até termino o «longes» dizendo assim: "deixo ao vento que quiser levar, minhas folhas secas de utopia". hoje em dia eu sou assim, eu não tenho utopias.»

vitor ramil

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eu não faço nada
tô sem movimento
tô virando estátua
tô embrutecendo

eu não quero nada
tô sem interesse
tô desapontado
tô sem endereço

eu não acredito


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new morning

eu acabara de voltar para woodstock vindo do meio-oeste — do funeral de meu pai. havia uma carta de archibald macleish à minha espera em cima da mesa. macleish, poeta laureado da américa — um deles.
a semana anterior me deixara exaurido. havia voltado à cidade de meus primeiros anos de uma forma que jamais havia imaginado — para ver meu pai ser sepultado. agora não haveria jeito de dizer o que nunca fui capaz de dizer antes. enquanto eu crescia, as diferenças culturais e de geração haviam sido intransponíveis — nada além dos sons das vozes, uma conversa artificial e sem graça. quando um de meus professores disse a ele que o filho tinha uma natureza de artista, meu pai, que falava direto e sem rodeios, perguntou: «artista não é um sujeito que pinta?». parecia que eu sempre havia estado no encalço de alguma coisa, qualquer coisa que se movesse — um carro, um pássaro, uma folha soprada pelo vento ---, o que quer que pudesse me levar para um lugar mais luminoso, alguma terra desconhecida rio abaixo. eu não tinha a mais vaga noção do mundo despedaçado em que vivia, do que a sociedade podia fazer com você.
quando saí de casa, foi como se fosse um colombo partindo para o atlântico desolado. parti e fui para os confins da terra — até o abismo onde a água despencava.

bob dylan | crônicas volume um, p. 1119, 120.

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«um dos meus amigos tem cicatrizes de navalha ao longo de todo o seu braço esquerdo. o outro enfia baldes de comprimidos pra dentro de uma massa de barba preta. ambos escrevem poesia. tem qualquer coisa em escrever poesia que leva o homem pra beira do abismo.»

bukowski

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«louco, joquim louco,
o louco do chapéu azul.»

vitor ramil

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«o curioso é que absolutamente não me sinto inclinado a me considerar louco e vejo até, com toda evidência, que não estou louco: todas essas mudanças dizem respeito aos objetos. pelo menos é disso que gostaria de ter certeza.»

jean-paul sartre

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«estranho, estranho mesmo era alguma coisa que eu não via, uma coisa que faltava em toda parte, e de noite eu perdia o sono matutando nisso; era dessas adivinhas difíceis de decifrar e que quando decifra a gente exclama: é claro!»

chico, bambino a roma, p 7

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«era estranho ver no bonde tantos homens de muletas? sim, mas não era a isso que eu me referia. era estranho ver na feira tantas mulheres de luto fechado? sim, mas não era disso que se tratava. era um pouco estranho não ter feijão com arroz, mas logo tomei gosto pelas massas que a cozinheira servia todo dia no almoço.»

chico, bambino a roma, p. 9

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«não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; ao contrário, me sinto esmagado. só que meu objetivo foi atingido: sei o que desejava saber; compreendi tudo o que me aconteceu a partir do mês de janeiro. a náusea não me abandonou e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença. nem de um acesso passageiro: a náusea sou eu.»

sartre, a náusea, p.169

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«agarrado à bola de futebol, olhei para trás ao sair de casa na rua haddock lobo 1625, são paulo, assim que partiu o caminhão de mudança. vendo a casa tão vazia, com manchas de mobília no chão e de quadros na parede, entendi que a ausência seria longa, talvez para sempre. zarpamos do rio, e no convés do giulio cesare passageiros se abraçavam e brindavam vendo a cidade se afastar na baía de guanabara. eu não olhava a baía, mas sim a espuma que o transatlântico fazia no mar, como que desarranjando o caminho de volta. durante duas semanas num oceano sem fim, havia muita festa a bordo e jogos no tombadilho, mas se me perguntarem do que mais me lembro, direi francamente que só me lembro de um mar de vômito. vomitei no mar, no tombadilho, na piscina, no camarote de segunda classe, vomitei amarelo na toalha do restaurante, vomitei no sapato do garçom, eu vomitava os remédios e vomitava em cima do meu vômito com nojo de mim.

vomitei do rio a gênova com escalas nauseantes em portos que mal vi, na certeza de que aquele gosto nunca mais ia sair da minha boca.»

chico, bambino a roma, p.7

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«eis o que pensei: para que o mais banal dos acontecimentos se torne uma aventura, é preciso e basta que nos ponhamos a narrá-lo. é isso que ilude as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias [...] e procura viver sua vida como se a narrasse.»

sartre, a náusea, p. 58

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«segunda-feira, 29 de janeiro de 1932

algo me aconteceu, não posso continuar a duvidar. eu me senti um pouco estranho, nada mais. não sei. houve uma mudança nestas últimas semanas. acho que fui eu que mudei: essa é a solução mais simples. a mais desagradável também. mas tenho que reconhecer que sou sujeito a mudanças súbitas.»

sartre, a náusea, p. 16

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«o que acaba de ocorrer é que a náusea desapareceu. quando a voz se elevou no silencio, senti meu corpo se enrijecer e a náusea se dissipou. estou na música.»

sartre, a náusea, p. 39

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a música

era um mago da harpa. nos altiplanos da colômbia, não havia festa sem ele. para que a festa fosse festa, mesé figueredo tinha de estar ali, com seus dedos bailarinos que alegravam os ares e alvoroçavam as pernas.
certa noite, num caminho deserto, os ladrões o assaltaram. ia mesé figueredo, em lombo de mula, a uma festa de casamento. numa das mulas ia ele, na outra a harpa, quando os ladrões o atacaram e o moeram a bordoadas.
no dia seguinte, alguém o encontrou. estava atirado no chão, um trapo sujo de barro e sangue, mais morto do que vivo. e então aquele farrapo humano disse, com um fiapo de voz:
- levaram as mulas.
e disse:
- levaram a harpa.
e respirou fundo, acrescentando:
- mas não levaram a música.

eduardo galeano

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«a bem dizer, essa impressão de estar sendo abandonado já vinha de outras estadias em outros hotéis de roma, e outros e outros, mas o verdadeiro mal-estar que então me perseguia devia remontar aos escuros tempos de ditadura em que me exilei por mais de um ano na cidade. e já me revejo na recepção do hotel raphael atendendo a um telefonema urgente do brasil: o que houve?; como assim?; o ascensorista ainda não apareceu?; a filha do mágico continua doente? as ligações já não eram tão precárias quanto outrora, mas os diálogos pareciam evasivos porque havia palavras e nomes que não convinha pronunciar. mesmo assim, acredito que o mais profundo mal-estar vinha de antes ainda, e me intriga que durante o longo tempo ocioso que vivi adulto em roma, nunca me tenha ocorrido visitar os lugares da minha infância. pode ser que na via san marino eu descobrisse finalmente a origem de todo o meu mal-estar. mas também é possível que esse mal-estar nunca tenha existido, só existe agora que me lembro dele.»

chico, bambino a roma, p. 112

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«um romance. e haveria pessoas que leriam esse romance e diriam: «foi antoine roquentin que o escreveu, era um sujeito ruivo que estava sempre nos cafés». e pensariam em minha vida, como eu penso na dessa preta [em referência à cantora da sua canção preferida]: como em algo precioso e meio lendário. um livro.

talvez um dia, pensando precisamente nesta hora, nesta hora sombria em que estou à espera, de costas curvadas, que sejam horas de saltar para o comboio, talvez sentisse bater-me mais depressa o coração e dissesse para comigo: "foi nesse dia, a essa hora, que tudo começou."»

sartre, a náusea, p. 222

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aqui nessa hora é que ele nasceu
segundo o que contaram pra mim

versão: vitor ramil (1987)

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«cai a noite. no 1º andar do hotel printania acabam de se iluminar duas janelas. das obras da estação nova sai um cheiro intenso a madeira húmida: amanhã vai chover sobre bouville.»

sartre, a náusea, p. 222

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«nascer leva tempo»

vitor ramil

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«não preciso do fim para chegar.
do lugar onde estou já fui embora.»

manoel de barros

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chove na tarde fria de porto alegre
trago sozinho o verde do chimarrão
olho o cotidiano, sei que vou embora
nunca mais, nunca mais


programa encuentro en el estudio con vitor ramil.
canal encuentro.
ministerio de educación de la nación.
república argentina.
dirección ariel hassan.

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porque hoje é sábado
continua amanhã
que é domingo

sexta-feira, 26 de junho de 2026

 


aos times pequenos

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges | pequenos poemas viúvos | p. 49.

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«ya no hay locos, ya no hay locos
ya no hay locos, amigos ya no hay locos.
todo el mundo está cuerdo
terrible, horriblemente cuerdo.»

león felipe

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«sou uma grande fonte de tensão. quando chego, o ambiente fica tenso. é por isso que não apareço com frequência. sou tóxico. estar perto de mim piora a pessoa ao meu redor. vejo isso como um karma, e esse comportamento é baseado no medo. você teme perder muito mais do que gosta de ganhar. então, essa obsessão está na busca por maneiras de evitar a derrota. gostaria de viver o completo oposto do que vivo, como menotti ou cruyff, grandes tipos "irresponsáveis". esses são os tipos de pessoas que merecem aplausos.»

marcelo bielsa

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«o homem está sempre pronto para distorcer o que dizem os seus sentidos»

dostoiévski

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quarta-feira

a náusea: essa evidência ofuscante?
existo – o mundo existe –, e sei que o mundo existe.
isso é tudo. mas tanto faz para mim.

é estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta.
gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência
de minha existência, de dormir.

mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim
por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca...

e subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi.
a náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a náusea sou eu.

jean-paul sartre | a náusea, p. 146, 147.

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de volta a marcelo bielsa
(comentários no face sobre sua reflexão)
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«não se vê um mínimo de resultado no trabalho dele. o time do uruguai é um amontoado sem padrão tático e joga um futebol em ritmo de 1950.»
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«sublime!! não para todos!!»
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«é capaz de virar presidente com esse discurso. aconteceu aqui.»
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«gosto que, depois de 25 anos, ele mesmo concorde comigo. ele é tóxico, incontrolável, repetitivo e obsessivo, e não aceita que um jogador questione seu pensamento.»
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«ó, vitimista! nesse caso, o karma acaba sendo dos outros, que têm de aturá-lo.»
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«nossa! que confissão; uma reflexão tão profunda. não é para o jogador de futebol comum.»
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«a questão é que bielsa acaba se tornando cansativo e exaustivo. porque ele é como ele mesmo se descreve: obsessivo ao ponto da exaustão. bielsa extrai o melhor de cada jogador e os faz acreditar em coisas que nem sabiam que podiam fazer ou alcançar. para mim, ele é um gênio e, como tal, incompreendido.»
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«eles o chamam de "o louco" por um motivo. só os loucos ousam falar a verdade, especialmente sobre sua profissão. poucos ousam admitir publicamente suas falhas.
ele é um homem transparente, tão transparente que até expõe suas próprias fraquezas.
ele vive 24 horas por dia, 7 dias por semana, mostrando a cara... a pessoa comum usa uma máscara para esconder seu verdadeiro eu.»
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«nada do que ele diz faz sentido, como sempre, ele é um charlatão.»
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«ele foi claro em suas declarações; de agora em diante, a bola está com os jogadores. se eles não o apoiarem amanhã (hoje), terão que dizer isso na cara dele, e pronto.»
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«um gênio... um louco... me faz pensar que ele pode estar sofrendo de burnout. eu ofereceria a ele um trago de uma boa marihuana.»
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- «acho que bielsa tem síndrome de asperger.»
- «asperger é só um rótulo.»
- «de jeito nenhum, revela uma condição que ele mesmo reconhece e da qual não consegue escapar.»
- «entendo o que você quer dizer. quero dizer que qualquer nome para qualquer "doença" é simplesmente uma nomenclatura ou um rótulo para um conjunto de sintomas. saudações.»
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«bielsa como filósofo é o melhor.
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«coitado! é infeliz!»
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«pobre homem! está condenado a perder!»
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«um chorão completo. ele quer bancar o culto e nem consegue falar direito. acho que ele tem algum problema mental.»
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«ficando cada dia mais louco... nem ele mesmo se entende... ele é um perdedor...»
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«mas ele deveria começar a fazer terapia para poder se divertir um pouco... ele transmite insegurança para o time... nada de positivo pode vir de um relacionamento assim, espero que ele resolva tudo isso.»
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«ele é realmente louco.»
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«coitado do uruguai com esse autista.»
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«ele é um cara extremamente inteligente. ele tem uma compreensão cristalina das coisas, tanto humanas quanto filosóficas. e também, OBVIAMENTE, em termos de futebol. mas aqui, 99,9% dos jornalistas e torcedores não o entendem... claro!! absolutamente!! o cara está muito acima de suas tristes e limitadas capacidades intelectuais.»
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«ele é um mestre! tem uma inteligência acima da média, o que obviamente contrasta com a maioria medíocre do mundo do futebol.»
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«hahaha. inteligente porque dá voltas e mais voltas e leva mais tempo que o necessário para explicar ou dizer algo simples. baita enrolão»
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«um cara que se expõe assim para os mercenários do futebol e fala sobre sua psicologia e seus erros é um exemplo na sociedade atual. para mim, ele é um mestre.»
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«mestre de quê... ele não ganhou absolutamente nada... para mim, ele é uma mentira...»
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«como sempre, fez um circo enorme com isso e falou de si mesmo...»
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«ele deveria ter sido poeta, porque como técnico ele é um ótimo contador de histórias.»
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«bielsa, abandone o cargo e vire escritor.»

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os torcedores dos times pequenos
eles partem em um caminhão
com a bandeira nos ombros
atados a um sonho
se a razão discorda deles
eles discutem com a razão
sempre enfrentando o vento
eles resistem à tempestade
um brinde, um brinde aos torcedores dos torcedores dos times pequenos
um brinde à torcida organizada do meu coração
um brinde à camisa mais bonita do mundo
um brinde, do ventre da minha mãe ao seu caixão
os torcedores mais veteranos
eles carregam uma almofada
eles vagam de estádio em estádio
com seu rádio de pilha
eles guardam um jornal antigo
daquele ano que subiram
e te dizem de memoria a gloriosa formação
salud, salud los hinchas de los hinchas de los cuadros chicos
salud la barra de mi corazon
salud, la camiseta mas hermosa de este mundo
salud, desde la panza de la vieja hasta el cajon
el gorrito de botija se apolilla en un rincon
lo deslumbran los colores que ven por television
los hinchas de cuadros chicos
se mueren del corazon
si algun dia por esas cosas
su cuadro sale campeon
salud, salud los hinchas de los hinchas de los cuadros chicos
salud la barra de mi corazon
salud, la camiseta mas hermosa de este mundo
salud, desde la panza de la vieja hasta el cajon

a los cuadros chicos | tabaré cardozo (2009)
canta: canario luna

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«se podes olhar, vê. se podes ver, repara»

saramago

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as fotos oficiais da delegação uruguaia para a copa do mundo de 2026 nos estados unidos, méxico e canadá revelaram um detalhe curioso sobre o técnico marcelo bielsa: sempre que posava para uma foto ou vídeo oficial da fifa — as típicas fotos e vídeos do media day usados ​​para apresentar as equipes, tanto no telão dos estádios quanto nas redes sociais —, o técnico do uruguai abaixava a cabeça ou desviava o olhar da câmera.

«não tenho que dar nenhuma explicação. tiraram a foto daquele jeito. eu não sou modelo. eu estava de frente para os fotógrafos, e essa é a foto que eles tiraram de mim. mas qual é a pergunta dela? eu não tenho resposta. devo também explicar por que eu não estava olhando para as pessoas com quem eu estava conversando naquele momento? não sei. não são explicações que eu preciso dar», disse o técnico uruguaio, incrédulo com a pergunta feita por uma jornalista americana na coletiva de imprensa pós-jogo.

bielsa ficou tão revoltado que insistiu imediatamente: «em relação à pergunta anterior, acho que deve haver um limite para o que precisa ser explicado. se alguém usa óculos, é porque usa óculos; se olha alguém nos olhos, é porque olha alguém nos olhos; se olha para cima ou para baixo... será que tantas coisas precisam de explicação? estamos simplesmente buscando explicações para situações que não precisam de explicação. não há nada de errado em usar óculos, em olhar para baixo; não somos obrigados a agir como modelos a serem seguidos ou a atender exigências que não têm fundamento algum.»

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#arribaceleste
#américas

terça-feira, 30 de junho de 2015


Mais humildade, por favor


Por Enilton Grill


Se eu dissesse que já li Descartes, Sartre, Nietzsche - e outros mais - você diria que eu sou modesto e humilde ou que eu sou pretensioso e orgulhoso?

Acho que se você tivesse boa vontade diria que eu ao ler estes senhores cheios de sabedoria reconheço minha ignorância e procuro aprender um pouco com quem sabe muito. Mas você também poderia ter má vontade e dizer que eu estou querendo aparecer e mostrar o que sei dizendo o que digo.

E eu, o que digo? Não sei.

Se eu disser que sou pretensioso e orgulhoso, é mentira.

Se eu disser que sou humilde não aprendi nada com o que li. A humildade é a virtude mais humilde porque o humilde nunca vai dizer que é humilde.

Moral da história: Eu tenho orgulho de ler o que li.

Mas preciso ler mais - muito mais - para aprender um pouco. Um pouquinho só que seja. Pois não sei nada. Se soubesse não teria dito o que disse. Pois a falta da virtude da humildade é o orgulho. O orgulho é a ignorância da ignorância. O orgulhoso ignora que ignora.

Mas será que ter orgulho é a mesma coisa que ser orgulhoso?

Não sei. Se você souber, por favor, me ajude. Eu gostaria muito de um dia vir a ser ser humilde. Achei que já era, e ainda não sou.

Outra coisa:

Você poderia ser maldoso e dizer que eu sou mentiroso, que eu não li nada disso. Você pode até achar estranho, mas se você dissesse isso eu não diria nada. Não acharia nada de mais. Muito pelo contrário, eu acharia normal. Sabemos, os que lemos Nietzsche, que a verdade é uma convenção social. E o que seria essa verdade? Nietzsche nos responde em seu livro "Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral":

'[...] a verdade e a mentira são construções que decorrem da vida no rebanho e da linguagem que lhe corresponde. O homem do rebanho chama de verdade aquilo que o conserva no rebanho e chama de mentira aquilo que o ameaça ou exclui do rebanho. (...) Portanto, em primeiro lugar, a verdade é a verdade do rebanho.'

É isso, entendeu? Estranho, na verdade, pelo menos pra mim, é o rebanho, que se acha grande coisa e é só a mesma e velha manada, acomodada e manipulada. Só isso e mais nada.