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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

 

ostra feliz não faz pérola
[para luciano oxley]

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«não há razão nenhuma para sorrir para o ciclope, esse monstro de um só olho que é a câmera fotográfica. e, no entanto, nunca estamos tão desarmados quanto diante de uma lente. no início, achamos que podemos enganá-la, ou porque fechamos o semblante e endurecemos o olhar, ou porque simulamos a expressão que a memória do espelho nos garantiu ser a mais favorável. é aí que começa o combate entre a paciência do fotógrafo e a resistência de quem lhe faz frente. a paciência do fotógrafo é infinita, enquanto a resistência de quem está sendo fotografado acaba sempre por desmoronar. cada clique do obturador atinge um ponto vital das defesas, a muralha vai abaixo aos poucos, até que as verdades escondidas lá atrás começam a emergir. não todas as verdades, claro, mas alguns fragmentos delas, junto com o medo do fotografado de que o processo continue até o seu próprio esgotamento. por sorte, quase nunca se chega tão longe. piedoso, o fotógrafo para no último segundo, segura o fotografado quando ele já está prestes a cair no abismo, e tudo mais ou menos se ajeita. mais ou menos. mal refeito do susto, o fotografado suspira, julgando-se livre, enquanto o fotógrafo se afasta, pensando nos "bocadinhos de alma" que carrega dentro da caixa, como o pescador de linha que vai contando os peixes que roubou do cardume.»
josé saramago

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«é curioso, e cômico até, quando topamos na rua com um ‘personagem’ que filmamos. como o processo de montagem é muito longo, durando às vezes mais de um ano, conhecemos de cor seus gestos, seus olhos, suas palavras. assim, ao encontrá-lo por acaso na rua, não demoramos a reconhecê-lo que, surpreso, já quase não se recorda de nós».
patrício guzmán

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«domingo, sete horas da manhã. ainda não abri os jornais. vejo um dirigente do pt afirmar que «apoiar alexandre de moraes foi um erro». ele prossegue pedindo apoio às investigações. o dirigente, mais uma vez, segue o que dizem as pesquisas de opinião: o apoio a moraes, agora, tira voto. opt elevou o cinismo ao estado da arte. tudo é negociável. tudo é esperteza. tudo é cálculo. não há princípios a defender. dos bolsonaro, não preciso falar. são bandidos perigosos. imprensado no meio disso está o brasil.»
cesar benjamim

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terça-feira, 15 de setembro às 20:37

o trabalho me impediu de ver o que aconteceu hoje no st. não tenho lado político-eleitoral nessa questão. defendo a ética e a lei, com a preservação da instituição.

na minha contagem pessoal, acho que o placar está 6 para os “bandidos” e 4 para os “mocinhos”. ninguém precisa concordar comigo.

dias toffoli: foi sócio de daniel vorcaro na propriedade do resort tayayá, usando dois irmãos como laranjas; há fortes indícios de que enviou para o paraíso fiscal das ilhas virgens, ilegalmente, cerca de r$ 35 milhões resultantes desse negócio.

alexandre de moraes: por intermédio de sua esposa viviane de moraes, beneficiou-se de um contrato de cerca de r$ 130 milhões com daniel vorcaro. cerca de r$ 80 milhões foram pagos até hoje em prestações mensais. atuava como conselheiro informal do banqueiro.

luiz fux: recebia, por intermédio do filho, mesada de r$ 500 mil do banco master.

kassio nunes marques: também recebia mesada de r$ 500 mil do banco master por intermédio do filho. deixou uma conta de r$ 10 mil para vorcaro pagar por uma noite com uma garota de programa.

andré mendonça: encontrou vorcaro em 2025, fora das dependências do stf, quando o banco master já era investigado por fraudes. criou o iter, instituto que firmou 68 contratos sem licitação com órgãos públicos, obtendo uma receita de r$ 11,5 milhões. usou a relatoria do caso master para fazer uma divulgação seletiva de informações, de modo a interferir no processo eleitoral.

gilmar mendes: não há acusações contra ele no caso master, mas é considerado o principal articulador de contatos empresariais e relações espúrias na corte. no último fim de semana, em plena crise, descocou-se para a itália para participar da festa de casamento da filha de marcos molina, controlador da marfrig, gigante brasileira do ramo de carnes. é relator da are 1605630, que envolve benefícios tributários à mesma marfrig.

até onde sei, edson facchin, carmen lúcia, flávio dino e cristiano zanin não são acusados de nada. ricardo lewandowski, que se vendeu barato (só r$ 250 mil por mês), já saiu do tribunal.

ou seja, 6 x 4.

do ponto de vista moral, não há mais quórum no stf. em qualquer país sério, por muito menos já estariam todos fora da suprema corte há muito tempo.

eu posso ter perdido alguma informação, e novas revelações podem surgir. mas isso aí está de bom tamanho para avaliarmos o buraco em que nos metemos. em tese, esses são os nossos grandes juristas.

chamem o ladrão.
(idem)

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há 7 horas
mariana schreiber
da bbc news brasil no stf em brasília
stf não decide e prolonga a crise: uma visão de dentro do plenário

a crise inédita do supremo tribunal federal persiste, sem qualquer sinal de solução à vista, a menos de três semanas das eleições nacionais.

a sessão histórica realizada nesta terça-feira (15/9) para deliberar sobre a possível abertura de uma investigação sobre a relação do ministro alexandre de moraes e do banqueiro daniel vorcaro foi suspensa por pedido de vista (mais tempo para analisar o caso) do ministro flávio dino, sem que a corte começasse a analisar a questão principal.

os debates foram marcados por bate-bocas entre os ministros e a falta de definições.

na visão do criminalista joão pedro pádua (uff), a suspensão do julgamento deixou a corte em situação ainda mais frágil.

«ficar sem decisão me parece, institucionalmente, o pior dos mundos», disse.

professora de direito constitucional da puc-sp, gabriela zancaner diz que o desfecho da sessão foi altamente prejudicial para o stf e para a nação.
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pra não dizer que eu não disse nada sobre o herói da «esquerda» e da «democracia» brasileira

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«a massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa.»

george orweel

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«de repente senti uma gratidão inesperada pelos meus professores medíocres. os bons professores, eu os acompanhava encantado. surfava nas suas ideias. mas os professores medíocres me irritavam tanto que eu me vi forçado a pensar minhas próprias ideias.»

rubem alves

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mamãe, não quero ser prefeito
pode ser que eu seja eleito
e alguém pode querer me assassinar

eu não preciso ler jornais
mentir sozinho eu sou capaz
não quero ir de encontro ao azar

papai, não quero provar nada
eu já servi à pátria amada
e todo mundo cobra a minha luz

oh, coitado, foi tão cedo
deus me livre, eu tenho medo
morrer dependurado numa cruz

eu não sou besta pra tirar onda de herói
sou vacinado, eu sou cowboy
cowboy fora da lei

(raul seixas, 1987)

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 25 de agosto de 2026


levantado do chão

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terras raras

[por cesar benjamim] 

há pouco tempo, lula e trump encontraram-se pessoalmente durante três horas, acompanhados apenas pelo intérprete. lula disse que trataram de tarifas.

era mentira.

agora, falaram por telefone durante uma hora e meia. lula voltou a dizer que trataram de tarifas.

é mentira.

dado o volume e a composição do comércio bilateral entre brasil e estados unidos, não há tanto a tratar desse assunto por dois presidentes. é algo menor. as equipes técnicas existem para isso.

outro assunto é decisivo: o destino das terras raras brasileiras.

os estados unidos dependem da china para obter esses minerais estratégicos, sem os quais não se fabricam equipamentos eletrônicos de uso civil e militar. o brasil detém as segundas reservas do mundo, praticamente inexploradas.

lula quer nos fazer crer que os dois presidentes se encontram e se falam e não tratam disso.

está nos chamando de trouxas, parece que com razão. no século xxi, as terras raras têm a mesma importância que o petróleo teve no século xx.

* * *

flávio bolsonaro oferece aos estados unidos uma vassalagem total e explícita. se puder, transformará o brasil na 52a estrela da bandeira americana.

lula oferece uma vassalagem ambígua. tudo em lula é ambíguo, pois sempre há um abismo entre o que diz e o que faz.

o império prefere a primeira opção, mas pode se ajustar perfeitamente à segunda.

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«diga ao seu patrão que estão aqui umas pessoas que vêm saber o que é que ele faz, já caíram as primeiras águas, é tempo de semear, e tendo a criada ido saber a resposta ficamos na porta, que a nós não nos mandam entrar e nisto volta a criada, e diz, o patrão manda dizer que não têm nada com isso, a terra é dele, e se voltarem aqui ele vai chamar a polícia»

josé saramago | levantado do chão, p. 234

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chame o ladrão
chame o ladrão

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[do álbum: sinal fechado]

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falando em brasil

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antonio – o senhor mandou me chamar, doutor rocha?

dr. rocha – mandei, antonio. infelizmente, devido à crise do mercado, muito a contragosto, terei de demiti-lo.

antonio – doutor rocha, eu estou no meio de um trabalho. será que não poderíamos conversar sobre isso na hora do almoço?

dr. rocha – é claro que podemos, mas infelizmente nada do que você disser poderá modificar a situação.

(na hora do almoço, antonio estava novamente na frente do dr. rocha.)

antonio – doutor rocha, como trabalho aqui há mais de oito anos, tenho mais de 50...

dr. rocha – você não é o único, antonio, a situação está ruim para todos.

antonio – o senhor não entendeu, doutor rocha. quis dizer que pelos anos de dedicação à firma, achava que tinha direito a lhe fazer algumas perguntas.

dr. rocha – pois faça-as.

antonio – o senhor gosta de coisas singelas como flores, pássaros, o orvalho nas plantas, riso de crianças pequenas? 

(antes que o patrão pudesse responder, antonio continuou) 

gosta de fazer amor com uma bela mulher, de cavalos correndo no prado, de ver o nascer do sol, de olhar para as estrelas?

dr. rocha – claro que gosto, antonio, só não estou entendendo...

antonio – só mais uma pergunta.

dr. rocha – está bem, mas seja breve, pois tenho uma reunião de diretoria e ainda preciso examinar alguns papéis.

antonio – o senhor acredita em deus, doutor rocha?

dr. rocha – claro que acredito.

antonio – pois está na frente dele.

dr. rocha – você enlouqueceu, antonio?

antonio – não enlouqueci, não. até duas horas atrás eu não era deus. era apenas antonio pinto, contador, casado, mulher e quatro filhos, um deles autista, com dívidas para pagar e muito medo de perder o emprego, pois dificilmente encontraria outro depois dos 50 anos. aí, quando saí do seu escritório, fui até em casa, peguei este revólver e me transformei em deus. 

(neste momento, antonio tirou do bolso um smith&wesson calibre 38 e apontou-o para a testa do dr. rocha)

o senhor é um dos homens mais ricos de são paulo, tem mulher, amantes, viaja várias vezes ao ano à europa, uma vida muito boa. já a minha é triste e monótona. lembra-se daquela história de estrelas, nascer do sol, flores e pássaros? 

(o dr. rocha, mudo de terror, olha para o revólver)

será que vale a pena perder a sua vida para me desempregar? pense bem, se eu morrer, não perco nada. se o senhor morrer, perde tudo. e quem vai decidir isso sou eu, pois virei deus. 

(o doutor rocha ajoelha-se diante de antonio)

dr. rocha – não faça uma loucura dessas, seu antonio. diga o que o senhor quer que terei o maior prazer em atendê-lo, o que quiser. por favor, tenha piedade. diga o que quer!

antonio – gostaria de deixar de ser deus e voltar a ser o seu escravo. que tal? posso?

fausto wolff

(publicado no livro “a milésima segunda noite”, 2005)

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como na peça de ionesco, tornamo-nos uma nação de rinocerontes exatamente porque não temos coragem de nos reconhecer como rinocerontes. no brasil encenam uma realidade para encobrir a verdade, e a verdade está na nossa bandeira. o verde representa os que vivem com menos de dez reais por mês; o amarelo, os que vivem com menos de cem; o azul, os que vivem com menos de mil. e os pontos brancos são os tiranos que, sendo tão poucos, nos esmagam com tanta facilidade. 

o país tem solução? tem e precisa ser drástica. se não quisermos que, pela dor da fome, o povo desça e o resto dance. 

(idem)

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para todos e para ninguém

não ignoro bolsonaro e o «nazifascismo» — muito pelo contrário. lembro apenas que, para fiéis seguidores de lula, o nazifascismo muda de rosto a cada quatro anos. em 2002, por exemplo, era josé serra. naquele ano, lula fez um movimento semelhante ao da escolha de alckmin como vice: convidou para ser seu companheiro de chapa o megaempresário mineiro josé alencar (pl), que chegou a ser vaiado pela militância petista. a escolha do vice não foi o único movimento rumo ao centro político — ficou famosa a «carta ao povo brasileiro». em 2006, o «nazifascismo» atendia pelo nome de neoliberalismo, e o bolsonaro da vez era geraldo alckmin. em 2010, serra; e em 2014, aécio. e do final desse filme, tenho certeza de que todos nos lembramos. 

grill 

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a certeza já me corrói
levo bronca do patrão
mas, sonhei e fiz a fé no avestruz
que vai me dar uma luz...

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[moleque gonzaguinha]

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falando em avestruz

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falam muito mal das avestruzes, injustamente. seus detratores, movidos por motivos inconfessáveis, declaram que aquelas aves são de estupidez sem paralelo. dizem que elas, ao se defrontar com um leão, enterram suas cabeças na areia. se assim elas se comportam, é porque devem ser adeptas de uma antiga filosofia que afirmava que «ser é perceber». raciocinam as avestruzes: se não percebo o perigo, o perigo não existe para mim. (traduzido popularmente: «aquilo que os olhos não veem o coração não sente».) continua o pensamento das avestruzes: «posso, assim, me comportar como se ele não existisse, desde que continue com a cabeça enterrada na areia». tudo estaria bem se o leão não fosse de verdade. e o resultado é que a avestruz acaba na barriga do leão... mas, como disse antes, eu não acredito que as avestruzes sejam assim tão estúpidas. estupidez igual somente encontrei em exemplares da espécie homo sapiens, a que pertencemos. acham que, não percebendo, a coisa não existe. o leão existe mesmo quando fechamos os olhos...

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 54

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falando em fechar os olhos

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quem não tem colírio
usa óculos escuros
a formiga só trabalha
porque não sabe cantar

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[com letra e ilustração]

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lançada em 1974, «como vovó já dizia» foi a primeira canção de raul a incomodar a censura --- teve dois versos considerados subversivos substituídos: «quem não tem papel dá recado pelo muro» e «quem não tem presente se conforma com o futuro», trocados por «quem não tem filé come pão com osso duro» e «quem não tem visão bate a cara contra o muro».

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falando em muro...

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paulo césar pinheiro, um dos maiores letristas da música popular brasileira — infelizmente, um ilustre desconhecido dos brasileiros em geral —, propôs a maurício tapajós que compusessem uma canção sem rodeios e metáforas. foi assim que nasceu «pesadelo». 

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quando o muro separa, uma ponte une
se a vingança encara, o remorso pune
você vem me agarra, alguém vem me solta
você vai na marra, ela um dia volta

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do álbum: «o importante é que nossa emoção sobreviva nº 2»
márcia, eduardo gudim e paulo césar pinheiro
gravado ao vivo no teatro ginástico - rio de janeiro, em fevereiro de 1976

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antes do fim

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é preciso que a justiça e a igualdade
sejam mais que palavras de ocasião
é preciso um novo tempo
em que não seja só promessa repartir a terra e o pão

link

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poema: martim césar 
música: pedro munhoz
do cd 1º festival nacional da reforma agrária

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enfim, há quem passe o dia na internet e faça dos blogs pessoais e das redes sociais trincheira contra tudo e contra todos, e por causa disso seja criticado, desvalorizado e menosprezado. não é o meu caso. eu, particularmente, não critico nada nem ninguém — muito pelo contrário: as armas são muitas e cada um escolhe e utiliza aquelas com as quais pensa obter melhores resultados. já participei de reuniões presenciais e de manifestações de rua; hoje em dia escrevo só para os raros, só para os loucos, e não vejo diferença nenhuma entre uma arma e outra... com qualquer delas me sinto desarmado e derrotado. 

trocando em miúdos: nosso discurso é velho e ultrapassado; nossa forma de atuar e de lutar não diz mais nada, nem a nós nem a ninguém. na minha opinião, é preciso passar o bastão — estamos desgastados e desacreditados. o problema é passá-lo para quem... não vejo nada nem ninguém. 

não nego
posso estar enganado
meu tempo passou
estou velho e superado
mas vou assim
até o fim
quanto mais velho
mais cego

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é a ceguêra de dexá
um dia de sê pião
num dançá mais amarrado 
pru pescoço cum cordão

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canta: dércio marques
[«pinhão» é uma variante dialetal e regional para a palavra «peão»]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 11 de agosto de 2026


traumas

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janela da alma

janela da alma é um documentário dos diretores brasileiros joão jardim e walter carvalho. a ideia surgiu da vivência do diretor joão jardim, que achava que o fato ter uma miopia muito grande teria influenciado em sua personalidade e até mesmo em sua vida.

entre os entrevistados estão josé saramago, manoel de barros, eugene bavcar, agnès varda e wim wenders (dentre tantos outros).

curioso observar aqui que a «cegueira» vai para muito além da oftalmológica.

e eis que os mitos milenares (alegoria da caverna - a república - platão) deixam de ser mitos, para tornarem-se realidade, ainda que em um mundo de ilusões.

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josé saramago e wim wenders - caverna de platão e as ilusões
[«janela da alma» (doc 2001) - fragmento (5:50)]

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traumas

traumas, de roberto carlos, é uma canção profundamente autobiográfica e dolorosa, lançada no icônico álbum de 1971. na obra, o compositor quebra o silêncio e usa a arte como desabafo para enfrentar o maior tabu de sua vida: o gravíssimo acidente de trem sofrido na infância, aos seis anos de idade, que resultou na amputação de parte de sua perna direita.

através de versos melancólicos, a letra descreve «anjos que eu conheci no delírio da febre que ardia», uma referência sutil às memórias de hospital, ao sofrimento físico e à perda precoce da inocência. a composição também expõe o contraste sensível entre a tentativa dos pais de «enfeitar" a realidade com fantasias e o peso real dos calos que a vida adulta impõe».

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meu pai um dia me falou
pra que eu nunca mentisse
mas ele também se esqueceu
de me dizer a verdade


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a verdade dividida

a porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
e sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
e os meios perfis não coincidiam.

arrebentaram a porta. derrubaram a porta.
chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
nenhuma das duas era perfeitamente bela.
era preciso optar. cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

carlos drummond de andrade

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ilusão
ilusão
veja as coisas como elas são
a fortuna
a roda
o raio
a imensidão

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as cartas | chico buarque (1984)

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além do horizonte

por oliver harden

«há algo de profundamente enigmático na união silenciosa entre o mar e o crepúsculo, como se duas entidades cósmicas, há milênios separadas, reencontrassem-se a cada fim de dia para renovar um pacto secreto. o mar, com sua respiração líquida e seu murmúrio ancestral, guarda em si a memória dos abismos e dos nascimentos, o rumor das marés que conheceram o surgimento da vida e a dissolução de impérios. o crepúsculo, por sua vez, é o instante em que o tempo se inclina, como um ponteiro fatigado, e os contornos do mundo se desfazem em tonalidades que nenhum pincel ousaria inventar.

quando ambos se encontram, dá-se um rito que não pertence nem à terra nem ao céu, mas a uma zona liminar onde a luz se curva diante da água e a água se entrega ao abraço da luz. é nesse instante que o horizonte deixa de ser mera linha e torna-se uma ferida aberta entre dois infinitos, por onde o olhar se perde e o espírito se dilata.»

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além do horizonte deve ter
algum lugar bonito pra viver em paz
onde eu possa encontrar a natureza
alegria e felicidade com certeza

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por jota quest
(vídeo oficial)

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de uns tempos para cá, dei para escancarar algo que a vida inteira procurei esconder e disfarçar. refiro-me ao meu estrabismo. na infância até que não. na infância o problema eram os óculos, ou melhor, o bullying que eu sofria por causa deles. na adolescência é que tudo mudou. não queria usar óculos e não queria parecer estrábico. impossível. ou uma coisa ou outra. ou eu usava óculos e não parecia estrábico ou eu (a)parecia estrábico e não usava óculos. quando completei 18 anos, busquei resolver o dilema fazendo cirurgia. foi esforço em vão. passados alguns dias do procedimento, o olho direito voltou a desviar. meu caso, porém, parece não ser algo que preocupe os médicos. conhecida como o tipo de estrabismo divergente, a exotropia intermitente é um desvio ocular que não se manifesta a todo instante. com o passar dos anos, entretanto, esse estrabismo pode descompensar e o paciente manter os olhos desviados a todo momento --- o que, cá entre nós, se eu ainda sei me olhar, é o que eu acho que está acontecendo comigo. «nada demais», dirá você que me lê. sim, eu sei, o dilema é meu (meu comigo mesmo). mas não é porque o fardo é só meu que ele deixa de existir. o poeta que o diga:

«a nós nos bastem nossos próprios ais,
que a ninguém sua cruz é pequenina.
por pior que seja a situação da china,
os nossos calos doem muito mais...».

doem mesmo. lembro de um colega do cfc que adorava contar a história de quando fazíamos o trajeto de rio grande para pelotas. para fazer o curso de instrutor no senac, eu ia de ônibus, mas costumava voltar de carona com ele. numa dessas voltas, o para-brisa do fusca estourou na estrada e, quando chegamos, eu estava com os cabelos em pé e os olhos arregalados. ao falar dos meus olhos, ele dava um sorriso irônico. ninguém dizia uma palavra. nem precisava.

— doía?
— doía.
— e tu fazia o quê?
— eu levantava e continuava... vou fazer o quê?

na sequência, como instrutor de trânsito, uma das provações mais difíceis que vivi foi encarar os alunos em sala de aula. foram dez anos seguidos, nos três turnos – manhã, tarde e noite –, enfrentando a média de 20 a 30 alunos por turma, todos com os olhares voltados para mim --- para mim e para o meu estrabismo.

lembro-me de uma vez em que respondi a uma pergunta de um aluno olhando para outro. o aluno, para quem eu olhava, esperou eu terminar de responder e falou:

— professor, eu não perguntei nada.

entre piadas, sorrisos constrangidos e sonoras gargalhadas, engoli em seco e segui dando minha aula... fazer o quê?

no final daquele curso, foi a primeira vez que fui aplaudido de pé. desde então, reforcei a convicção de que a adversidade me é positiva. isto é, que navego melhor contra a maré.

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dito isto
vamos ao que importa
minha terapia é escrever
não em linha reta
mas com a corda esticada
que é por onde ando
rumo à casa do poeta
que é sem porta
se ainda posso ver
está escrito em minhas mãos
se ainda sei ler
as linhas são infinitas e tortas

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«queria falar-te de tudo
contudo,
tudo o que posso falar-te
não é tudo...
é apenas uma parte»

martim césar

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«o óbvio não guarda segredos. o texto tá atrás do texto»

marcos magah

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«claras palavras não cabem às claras.»

nelson coelho de castro

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– e agora, o que faremos?
– poesia, esses canalhas não suportam poesia.

rafael corrêa

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«o silêncio é tudo
o resto é uma parte»

autor desconhecido

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repecho, 2019
[escrito no face]

domingo, oito da manhã, fui à venda aqui perto buscar café. quando cheguei, vi duas carroças e três bicicletas estacionadas. de fora dava para ouvir o alarido; a conversa estava animada. de repente, do nada, fez-se silêncio. olhei para o balcão, o bar lotado, e pensei: com um frio desses tem que ter coragem... procurei ver se tinha algum conhecido, mas, pelo contrário, todos os que estavam ali exibiam cara de poucos amigos, a popular «cara de bunda». no pasa nada. dei bom dia a todos e fui pegar o café.

antes de ir embora, porém, um dos caras que estava no balcão se aproximou de mim e, com cara de quem sabe tudo, me deu uma intimada:

— e aí, tu que é um cara estudado, que entende de tudo, quero ver tu explicar o aquecimento global hoje...

lembrei do campo branco coberto de geada, olhei para ele, pensei em dizer alguma coisa, mas achei melhor não dizer nada. qualquer explicação que eu desse, naquele momento, não ia adiantar nada.

ademais, ia reforçar a ideia dele de que eu sou um cara estudado e que entendo de tudo — o que absolutamente não é verdade.

portanto, fiz silêncio. achei que era o melhor que eu tinha a fazer.

já os que estão me lendo agora, neste exato instante (não digo todos, mas alguns), ou muito estou enganado, ou estão pensando que isso tudo é invenção minha, e que eu fechei a boca pois fiquei com medo do cara e não sabia o que responder.

fazer o quê? assim caminha a humanidade... todo mundo pensa que sabe tudo e ninguém sabe nada.

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há quem diga que eu dormi de touca
que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
que eu caí do galho e que não vi saída
que eu morri de medo quando o pau quebrou

há quem diga que eu não sei de nada
que eu não sou de nada e não peço desculpas
que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
e que durango kid quase me pegou

eu quero é botar meu bloco na rua
brincar, botar pra gemer
eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender

eu, por mim, queria isso e aquilo
um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
é disso que eu preciso ou não é nada disso
eu quero é todo mundo nesse carnaval


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trocando em miúdos

não roubamos dinheiro, dinheiro não vale nada,
roubamos sonhos, sonho é tudo.

quantos talentos a humanidade já perdeu?

quantos outros «eniltons grills» pelo mundo,
com mais potencial e qualidades do que nós,
mas sem essa perseverança cega,
por falta de apoio e por desmerecimento alheio,
acabaram ficando pelo meio do caminho?

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e a canção do silêncio?

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o silêncio não é uma palavra
escrita sobre uma parede
é uma canção solitária pelo vento
que não se detém no meio de um inferno
é uma canção solitária pelo vento
que não se detém no meio de um inferno


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foto: león gieco e eu
autor: antonio soler
cantamérica
porto alegre
1996

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#américas

sexta-feira, 26 de junho de 2026

 


aos times pequenos

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«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges | pequenos poemas viúvos | p. 49.

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«ya no hay locos, ya no hay locos
ya no hay locos, amigos ya no hay locos.
todo el mundo está cuerdo
terrible, horriblemente cuerdo.»

león felipe

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«sou uma grande fonte de tensão. quando chego, o ambiente fica tenso. é por isso que não apareço com frequência. sou tóxico. estar perto de mim piora a pessoa ao meu redor. vejo isso como um karma, e esse comportamento é baseado no medo. você teme perder muito mais do que gosta de ganhar. então, essa obsessão está na busca por maneiras de evitar a derrota. gostaria de viver o completo oposto do que vivo, como menotti ou cruyff, grandes tipos "irresponsáveis". esses são os tipos de pessoas que merecem aplausos.»

marcelo bielsa

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«o homem está sempre pronto para distorcer o que dizem os seus sentidos»

dostoiévski

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quarta-feira

a náusea: essa evidência ofuscante?
existo – o mundo existe –, e sei que o mundo existe.
isso é tudo. mas tanto faz para mim.

é estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta.
gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência
de minha existência, de dormir.

mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim
por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca...

e subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi.
a náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a náusea sou eu.

jean-paul sartre | a náusea, p. 146, 147.

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de volta a marcelo bielsa
(comentários no face sobre sua reflexão)
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«não se vê um mínimo de resultado no trabalho dele. o time do uruguai é um amontoado sem padrão tático e joga um futebol em ritmo de 1950.»
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«sublime!! não para todos!!»
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«é capaz de virar presidente com esse discurso. aconteceu aqui.»
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«gosto que, depois de 25 anos, ele mesmo concorde comigo. ele é tóxico, incontrolável, repetitivo e obsessivo, e não aceita que um jogador questione seu pensamento.»
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«ó, vitimista! nesse caso, o karma acaba sendo dos outros, que têm de aturá-lo.»
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«nossa! que confissão; uma reflexão tão profunda. não é para o jogador de futebol comum.»
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«a questão é que bielsa acaba se tornando cansativo e exaustivo. porque ele é como ele mesmo se descreve: obsessivo ao ponto da exaustão. bielsa extrai o melhor de cada jogador e os faz acreditar em coisas que nem sabiam que podiam fazer ou alcançar. para mim, ele é um gênio e, como tal, incompreendido.»
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«eles o chamam de "o louco" por um motivo. só os loucos ousam falar a verdade, especialmente sobre sua profissão. poucos ousam admitir publicamente suas falhas.
ele é um homem transparente, tão transparente que até expõe suas próprias fraquezas.
ele vive 24 horas por dia, 7 dias por semana, mostrando a cara... a pessoa comum usa uma máscara para esconder seu verdadeiro eu.»
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«nada do que ele diz faz sentido, como sempre, ele é um charlatão.»
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«ele foi claro em suas declarações; de agora em diante, a bola está com os jogadores. se eles não o apoiarem amanhã (hoje), terão que dizer isso na cara dele, e pronto.»
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«um gênio... um louco... me faz pensar que ele pode estar sofrendo de burnout. eu ofereceria a ele um trago de uma boa marihuana.»
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- «acho que bielsa tem síndrome de asperger.»
- «asperger é só um rótulo.»
- «de jeito nenhum, revela uma condição que ele mesmo reconhece e da qual não consegue escapar.»
- «entendo o que você quer dizer. quero dizer que qualquer nome para qualquer "doença" é simplesmente uma nomenclatura ou um rótulo para um conjunto de sintomas. saudações.»
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«bielsa como filósofo é o melhor.
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«coitado! é infeliz!»
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«pobre homem! está condenado a perder!»
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«um chorão completo. ele quer bancar o culto e nem consegue falar direito. acho que ele tem algum problema mental.»
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«ficando cada dia mais louco... nem ele mesmo se entende... ele é um perdedor...»
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«mas ele deveria começar a fazer terapia para poder se divertir um pouco... ele transmite insegurança para o time... nada de positivo pode vir de um relacionamento assim, espero que ele resolva tudo isso.»
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«ele é realmente louco.»
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«coitado do uruguai com esse autista.»
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«ele é um cara extremamente inteligente. ele tem uma compreensão cristalina das coisas, tanto humanas quanto filosóficas. e também, OBVIAMENTE, em termos de futebol. mas aqui, 99,9% dos jornalistas e torcedores não o entendem... claro!! absolutamente!! o cara está muito acima de suas tristes e limitadas capacidades intelectuais.»
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«ele é um mestre! tem uma inteligência acima da média, o que obviamente contrasta com a maioria medíocre do mundo do futebol.»
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«hahaha. inteligente porque dá voltas e mais voltas e leva mais tempo que o necessário para explicar ou dizer algo simples. baita enrolão»
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«um cara que se expõe assim para os mercenários do futebol e fala sobre sua psicologia e seus erros é um exemplo na sociedade atual. para mim, ele é um mestre.»
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«mestre de quê... ele não ganhou absolutamente nada... para mim, ele é uma mentira...»
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«como sempre, fez um circo enorme com isso e falou de si mesmo...»
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«ele deveria ter sido poeta, porque como técnico ele é um ótimo contador de histórias.»
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«bielsa, abandone o cargo e vire escritor.»

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os torcedores dos times pequenos
eles partem em um caminhão
com a bandeira nos ombros
atados a um sonho
se a razão discorda deles
eles discutem com a razão
sempre enfrentando o vento
eles resistem à tempestade
um brinde, um brinde aos torcedores dos torcedores dos times pequenos
um brinde à torcida organizada do meu coração
um brinde à camisa mais bonita do mundo
um brinde, do ventre da minha mãe ao seu caixão
os torcedores mais veteranos
eles carregam uma almofada
eles vagam de estádio em estádio
com seu rádio de pilha
eles guardam um jornal antigo
daquele ano que subiram
e te dizem de memoria a gloriosa formação
salud, salud los hinchas de los hinchas de los cuadros chicos
salud la barra de mi corazon
salud, la camiseta mas hermosa de este mundo
salud, desde la panza de la vieja hasta el cajon
el gorrito de botija se apolilla en un rincon
lo deslumbran los colores que ven por television
los hinchas de cuadros chicos
se mueren del corazon
si algun dia por esas cosas
su cuadro sale campeon
salud, salud los hinchas de los hinchas de los cuadros chicos
salud la barra de mi corazon
salud, la camiseta mas hermosa de este mundo
salud, desde la panza de la vieja hasta el cajon

a los cuadros chicos | tabaré cardozo (2009)
canta: canario luna

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«se podes olhar, vê. se podes ver, repara»

saramago

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as fotos oficiais da delegação uruguaia para a copa do mundo de 2026 nos estados unidos, méxico e canadá revelaram um detalhe curioso sobre o técnico marcelo bielsa: sempre que posava para uma foto ou vídeo oficial da fifa — as típicas fotos e vídeos do media day usados ​​para apresentar as equipes, tanto no telão dos estádios quanto nas redes sociais —, o técnico do uruguai abaixava a cabeça ou desviava o olhar da câmera.

«não tenho que dar nenhuma explicação. tiraram a foto daquele jeito. eu não sou modelo. eu estava de frente para os fotógrafos, e essa é a foto que eles tiraram de mim. mas qual é a pergunta dela? eu não tenho resposta. devo também explicar por que eu não estava olhando para as pessoas com quem eu estava conversando naquele momento? não sei. não são explicações que eu preciso dar», disse o técnico uruguaio, incrédulo com a pergunta feita por uma jornalista americana na coletiva de imprensa pós-jogo.

bielsa ficou tão revoltado que insistiu imediatamente: «em relação à pergunta anterior, acho que deve haver um limite para o que precisa ser explicado. se alguém usa óculos, é porque usa óculos; se olha alguém nos olhos, é porque olha alguém nos olhos; se olha para cima ou para baixo... será que tantas coisas precisam de explicação? estamos simplesmente buscando explicações para situações que não precisam de explicação. não há nada de errado em usar óculos, em olhar para baixo; não somos obrigados a agir como modelos a serem seguidos ou a atender exigências que não têm fundamento algum.»

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#arribaceleste
#américas

domingo, 7 de outubro de 2012



A FALSA DEMOCRACIA


_ POR JOSÉ SARAMAGO


Tudo se discute neste mundo. Menos uma coisa: a democracia. A democracia está entre nós como se fosse uma santa num altar - de quem já não se espera milagres -, mas como uma referência. E não se repara que a democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada. Porque o poder do cidadão, o poder de cada um de nós, na esfera política, limita-se a tirar um governo de que não gosta e colocar outro que talvez venha a gostar. Nada mais. Mas as grandes decisões são tomadas numa outra esfera. E todos sabemos qual é. As grandes organizações financeiras internacionais: FMI, OMC, Banco Mundial...E nenhum desses organismos é democrático. Onde está então a democracia?

quinta-feira, 16 de agosto de 2012


CLARO COMO ÁGUA


_ POR JOSÉ SARAMAGO


Como sempre sucedeu, e há-de suceder sempre, a questão central de qualquer tipo de organização social humana, da qual todas as outras decorrem e para a qual todas acabam por concorrer, é a questão do poder, e o problema teórico e prático com que nos enfrentamos é identificar quem o detém, averiguar como chegou a ele, verificar o uso que dele faz, os meios de que serve e os fins a que aponta.

Se a democracia fosse, de facto, o que com autêntica ou fingida ingenuidade continuamos a dizer que é, o governo do povo pelo povo e para o povo, qualquer debate sobre a questão do poder perderia muito do seu sentido, uma vez que, residindo o poder no povo, era ao povo que competiria a administração dele, e, sendo o povo a administrar o poder, está claro que só o deveria fazer para seu próprio bem e para sua própria felicidade, pois a isso o estaria obrigando aquilo a que chamo, sem nenhuma pretensão de rigor conceptual, a lei da conservação da vida.

Dizer hoje governo “socialista”, ou “social-democrata”, ou “conservador”, ou “liberal”, e chamar-lhe poder, é pretender nomear algo que em realidade não está onde parece, mas em um outro inalcançável lugar – o do poder económico e financeiro. 

Por outras e mais claras palavras, digo que os povos não elegeram os seus governos para que eles os “levassem” ao Mercado, mas que é o Mercado que condiciona por todos os modos os governos para que lhe “levem” os povos.

E se falo assim do Mercado é porque é ele, hoje, e mais que nunca em cada dia que passa, o instrumento por excelência do autêntico, único e insofismável poder, o poder económico e financeiro mundial, esse que não é democrático porque não o elegeu o povo, que não é democrático porque não é regido pelo povo, que finalmente não é democrático porque não visa a felicidade do povo.

O nosso antepassado das cavernas diria: “É água”. Nós, um pouco mais sábios, avisamos: “Sim, mas está contaminada”

COMO EL AGUA CLARA
FAIXA 06
SOY EL CHAMAMÉ
ANTONIO TARRAGÓ ROS
1997
SERTÃO DAS ÁGUAS
CAMINHOS DE SI
MARTIM CÉSAR / PAULO TIMM
2011

quarta-feira, 15 de agosto de 2012


TÊM ALMA OS VERDUGOS?


_ POR JOSÉ SARAMAGO



PRÓLOGO DO LIVRO
EL ALMA DE LOS VERDUGOS



1998 OUTUBRO, 28


Uma alma que fosse posssível considerar responsável por todo e qualquer acto cometido teria de levar-nos, forçosamente, a reconhecer a total inocência do corpo, reduzido a ser o instrumento passivo de uma vontade, de um querer, de um desejar não especificamente localizáveis nesse mesmo corpo. 

A mão, em estado de repouso, com os seus ossos, nervos e tendões, está pronta para cumprir no instante seguinte a ordem que lhe for dada e de que em si mesma não é responsável, seja para oferecer uma flor ou para apagar um cigarro na pele de alguém. 

Por outro lado, atribuir, a priori, a responsabilidade de todas as nossas acções a uma identidade imaterial, a alma, que, através da consciência, seria, ao mesmo tempo, juiz dessas acções, conduzir-nos-ia a um círculo vicioso em que a sentença final teria de ser a inimputabilidade. 

Sim, admitamos que a alma é responsável, porém, onde é que está a alma para que possamos pôr-lhe as algemas e levá-la ao tribunal? 

Sim, está demonstrado que o martelo que destroçou o crânio desta pessoa foi manejado por esta mão, contudo, se a mão que matou fosse a mesma que, tão inconsciente de uma coisa como da outra, tivesse simplesmente oferecido uma flor, como poderíamos incriminá-la? A flor absolve o martelo?

Ficou dito acima que a vontade, o querer, o desejar (sinónimos que, apesar de o não serem efectivamente, não podem viver separados) não são especificamente localizáveis no corpo. É certo. Ninguém pode afirmar, por exemplo, que a vontade esteja alojada entre os dedos médio e indicador de uma mão neste momento ocupada a estrangular alguém com a ajuda da sua colega do lado esquerdo. 

No entanto, todos intuímos que se a vontade tem casa própria, e deverá tê-la, ela só poderá ser o cérebro, esse complexo universo cujo funcionamento, em grande parte (o córtex cerebral tem cerca de cinco milímetros de espessura e contém 70 mil milhões de células nervosas dispostas em seis camadas ligadas entre si) se encontra ainda por estudar. 

Somos o cérebro que em cada momento tivermos, e esta é a única verdade essencial que podemos enunciar sobre nós próprios. 

Que é, então, a vontade? É algo material? 

Não concebo, não o concebe ninguém, com que espécie de argumentos seria defensável uma alegada materialidade da vontade sem a apresentação de uma “amostra material” dessa mesma materialidade...

O voluntarismo, como é geralmente conhecido, é a teoria que sustenta que a vontade é o fundamento do ser, o princípio da acção ou, também, a função essencial da vida animal. 

No aristotelismo e no estoicismo da antiguidade clássica observam-se já tendências voluntaristas. 

Na filosofia contemporânea são voluntaristas Schopenhauer (a vontade como essência do mundo, mais além da representação cognoscitiva) e Nietzsche (a vontade de poder como princípio da vida ascendente).

Isto é sério e, por todas as evidências, necessitaria aqui alguém, não quem estas linhas está escrevendo, capaz de relacionar aquelas e outras reflexões filosóficas sobre a vontade com o conteúdo deste livro, cujo título é, não o esqueçamos, A Alma dos Verdugos. 

Aqui talvez tivesse eu de deter-me se, felizmente para os meus brios, não me tivesse saltado aos olhos, folheando com mão distraída um modesto dicionário, a seguinte definição: “Vontade: Capacidade de determinação para fazer ou não fazer algo. Nela se radica a liberdade”. 

Como se vê, nada mais claro: pela vontade posso determinar-me a fazer ou não fazer algo, pela liberdade sou livre para determinar-me num sentido ou noutro. 

Habituados como estamos pela linguagem a considerar vontade e liberdade como conceitos em si mesmos positivos, apercebemo-nos de súbito, com um instintivo temor, que as cintilantes medalhas a que chamamos liberdade e vontade podem exibir do outro lado a sua absoluta e total negação. 

Foi usando da sua liberdade (por mais chocante que nos pareça a utilização da palavra neste contexto) que o general Videla viria a tornar-se, por vontade própria, insisto, por vontade própria, num dos mais detestáveis protagonistas da sangrenta e pelos vistos infinita história da tortura e do assassinato no mundo. 

Foi igualmente usando da sua vontade e da sua liberdade que os verdugos argentinos cometeram o seu infame trabalho. Quiseram fazê-lo e fizeram-no. Nenhum perdão é portanto possível. Nenhuma reconciliação nacional ou particular.Importa pouco saber se têm alma. 

Aliás, desse assunto deverá estar informado, melhor do que ninguém, o sacerdote católico argentino Christian von Vernich que há alguns meses foi condenado a prisão perpétua por genocídio. Seis assassinatos, torturas a 34 pessoas e sequestro ilegal em 42 casos, eis a sua folha de serviços. 

É até possível, permita-se-me a trágica ironia, que tenha alguma vez dado a extrema unção a uma das suas vítimas...


O QUERERES
FAIXA 07
VELÔ
CAETANO VELOSO
1984


PODRES PODERES
FAIXA 01
VELÔ
CAETANO VELOSO
1984