o primeiro dia
[porque a vida só se dá pra quem se deu]
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«cães amam seus amigos e mordem seus inimigos»
sigmund freud
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antônio maria, cronista e compositor pernambucano, frequentador da noite carioca, era muito amigo de vinicius. uma das atividades preferidas dos dois era, em fins de noite, seguir cães vira-latas pelas ruas a bordo de um «rabo de peixe», modelo de carro de luxo dominante na época. «a solidão pior é a do ser que não ama... e os vira-latas amam», dizia vinicius. numa dessas noites, os vira-latas os conduziram até a praia, onde avistaram um grupo de velhinhos fazendo exercícios, chefiados por um embrião da geração saúde. de copo na mão, com o dia amanhecendo, os dois ficaram quietos observando aquilo (que será isso?) por algum tempo. o silêncio foi quebrado por uma insólita proposta de vinicius:
- maria, vamos fazer um pacto?
- claro, peça o que quiser, vinicius...
- de hoje em diante, não vamos fazer jamais um só movimento desnecessário.
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recordar: do latim recordis, voltar a passar pelo coração.
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estava lembrando vinicius de moraes, nesse encontro com antonio maria e de repente me reconheci na história com o desconforto de quem encontra uma foto antiga numa gaveta e demora alguns segundos para perceber que aqueles boêmios, poetas, músicos e filósofos de botequim, de imortalidade à flor da pele, convencidos de que o tempo era uma coisa que acontecia aos outros, sou eu, porra, eu sou dessa viagem e dessa geração, mesmo tendo nascido em outra.
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enfim,
minha ladainha
é sempre a mesma:
vinicius de moraes, e outros mais,
não teriam espaço nos dias politicamente corretos de hoje.
aliás, vinicius, antonio maria, sepé, zumbi, mariguela, guevara, lamarca... e por aí vai... a lista é grande... começa com meu pai.
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falando no meu pai
se alguém o vir
diga-lhe que estou bem
que hoje ando a 10
para chegar aos 100
e que hoje
é o meu primeiro dia
na fisioterapia
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de volta ao futuro
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até os 60
nada doía
tudo fluia
agora
do nada
tudo dói
menos o coração
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entrei na rua augusta
a 120 graus do chão
precipitado com a chuva
mas sem direção
a zero por hora
entrei com pompa e circustâncias
próprias de um verão
ensolarado em minha mente
por um sol bufão
a zero por hora
entrei na rua, a mi me gusta
a bruta inclinação
o mundo visto desse jeito
é uma diversão
a zero por hora
entrei na rua em minha busca
de consolação
apaixonado pelas moças
vindo em profusão
a zero por hora
a zero por hora
entrei estranho e a jovem guarda
me estendeu a mão
pediu meu documento
e eu lhe disse: por que não?
a zero por hora
entrei na dela
como em filme de televisão
pedi: me leva preso agora
no teu coração
a zero por hora
entrei em fria
mas fervendo em minha ilusão
o amor é muito lindo
a 120 graus do chão
a zero por hora
vitor ramil + marcos suzano
participação: jorge drexler
[clique no título da música para ouvir]
(satolep sambatown, 2007)
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foto
evandro teixeira
churrascaria carreta
rio de janeiro, 1979
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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas
