Mostrando postagens com marcador Jorge Drexler. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jorge Drexler. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de setembro de 2026


o primeiro dia
[porque a vida só se dá pra quem se deu]


«cães amam seus amigos e mordem seus inimigos»

sigmund freud

antônio maria, cronista e compositor pernambucano, frequentador da noite carioca, era muito amigo de vinicius. uma das atividades preferidas dos dois era, em fins de noite, seguir cães vira-latas pelas ruas a bordo de um «rabo de peixe», modelo de carro de luxo dominante na época. «a solidão pior é a do ser que não ama... e os vira-latas amam», dizia vinicius. numa dessas noites, os vira-latas os conduziram até a praia, onde avistaram um grupo de velhinhos fazendo exercícios, chefiados por um embrião da geração saúde. de copo na mão, com o dia amanhecendo, os dois ficaram quietos observando aquilo (que será isso?) por algum tempo. o silêncio foi quebrado por uma insólita proposta de vinicius:  
- maria, vamos fazer um pacto?

           - claro, peça o que quiser, vinicius...

- de hoje em diante, não vamos fazer jamais um só movimento desnecessário.

recordar: do latim recordis, voltar a passar pelo coração. 

estava lembrando vinicius de moraes, nesse encontro com antonio maria e de repente me reconheci na história com o desconforto de quem encontra uma foto antiga numa gaveta e demora alguns segundos para perceber que aqueles boêmios, poetas, músicos e filósofos de botequim, de imortalidade à flor da pele, convencidos de que o tempo era uma coisa que acontecia aos outros, sou eu, porra, eu sou dessa viagem e dessa geração, mesmo tendo nascido em outra.

enfim,
minha ladainha
é sempre a mesma:
vinicius de moraes, e outros mais, 
não teriam espaço nos dias politicamente corretos de hoje. 
aliás, vinicius, antonio maria, sepé, zumbi, mariguela, guevara, lamarca... e por aí vai... a lista é grande... começa com meu pai.


falando no meu pai
se alguém o vir
diga-lhe que estou bem
que hoje ando a 10
para chegar aos 100
e que hoje
é o meu primeiro dia
na fisioterapia


de volta ao futuro


até os 60
nada doía
tudo fluia
agora
do nada
tudo dói
menos o coração


entrei na rua augusta
a 120 graus do chão precipitado com a chuva
mas sem direção a zero por hora entrei com pompa e circustâncias
próprias de um verão ensolarado em minha mente
por um sol bufão a zero por hora entrei na rua, a mi me gusta
a bruta inclinação o mundo visto desse jeito
é uma diversão a zero por hora entrei na rua em minha busca
de consolação apaixonado pelas moças
vindo em profusão a zero por hora
a zero por hora entrei estranho e a jovem guarda
me estendeu a mão pediu meu documento
e eu lhe disse: por que não? a zero por hora entrei na dela
como em filme de televisão pedi: me leva preso agora
no teu coração a zero por hora entrei em fria
mas fervendo em minha ilusão o amor é muito lindo
a 120 graus do chão a zero por hora

vitor ramil + marcos suzano
participação: jorge drexler

[clique no título da música para ouvir]

a zero por hora
(satolep sambatown, 2007)


foto evandro teixeira churrascaria carreta rio de janeiro, 1979


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas