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domingo, 15 de junho de 2014



Obdulio Varela


Do Diário La Opinión


Obdulio Varela encarnava a raça uruguaia. O capitão é o símbolo maior da postura aguerrida que tanto marca a Celeste. E sua atuação na final da Copa de 1950 é uma das mais emblemáticas já ocorridas no futebol. ‘El Jefe Negro’ não venceu o Brasil no talento, mas na mente. Experiente, conduziu um time jovem a não temer o furor de 200 mil torcedores e os prognósticos pessimistas. Esfriou o Maracanã depois que Friaça abriu o placar, permitindo a virada dos charruas. O bicampeonato mundial, tão dolorido aos brasileiros.

Mas engana-se quem pensa que Varela se orgulhava do feito. Pelo contrário. A tristeza que assolou o Rio de Janeiro abateu o capitão. “Percebi como aquele povo era bom. Como aquilo era importante para eles”, confessou certa vez ao escritor Eduardo Galeano. No dia 16 de julho de 1972, exatos 22 anos depois da marcante final, o uruguaio concedeu longa entrevista ao jornalista Osvaldo Soriano, do diário ‘La Opinión’. Na ocasião, falou sobre o espírito de luta do Uruguai para vencer aquele jogo. Mas também do arrependimento pelas consequências, admitindo a vontade de marcar até um gol contra.

Quando fizemos o segundo gol, o de Ghiggia, não podíamos acreditar. Campeões do mundo, nós, que vínhamos jogando tão mal! No fim da partida, estávamos como loucos. No Brasil, havia dor. Era uma desolação.


Nesta noite, sai com meu massagista para ir a um bar tomar algumas cervejas e caímos no de um amigo. Não tínhamos um só cruzeiro e pedimos fiado. Fomos a um canto beber e daquele ponto olhávamos as pessoas. Estavam todos chorando. Parecia mentira: todo mundo tinha lágrimas nos olhos. De imediato, vejo entrar um grandalhão que parecia desconsolado. Chorava como um bebê e dizia: “Obdulio ganhou a partida contra nós” e chorava mais. Eu o olhava e me lastimava. Eles haviam preparado o maior carnaval do mundo para essa noite e nós havíamos arruinado. Segundo esse homem, eu havia arruinado.

Eu me sentia mal. Dei-me conta que estava amargurado como ele. Seria lindo ter visto esse carnaval, ver como as pessoas se alegravam com uma coisa tão simples. Nós havíamos arruinado tudo e não havíamos ganhado nada. Tínhamos um título, mas o que era isso diante de tanta tristeza? Pensei no Uruguai. Ali, as pessoas estariam felizes. Mas eu estava no Rio de Janeiro, no meio de tantas pessoas infelizes. Lembrei-me da minha fúria quando fizeram o gol, da minha raiva, que agora não era minha, mas me doía.


O dono do bar se aproximou de nós com o grandalhão que chorava. Ele disse: “Sabe quem é esse? É Obdulio”. Eu pensei que ia me matar. Mas me olhou, me deu um abraço e seguiu chorando. Depois de um tempo me disse: “Obdulio, poderia beber conosco? Queremos esquecer, sabe?”. Como eu ia dizer que não! Estivemos a noite toda bebendo nos bares. Eu pensei: “Se tenho que morrer nesta noite, que seja”. Mas estou aqui.

Se tivesse que jogar outra vez essa final, faria um gol contra, sim senhor. Não, não se assombre. A única coisa que conseguimos ao ganhar esse título foi dar brilho aos dirigentes da Associação Uruguaia de Futebol. Eles se deram medalhas de ouro e aos jogadores deram umas de prata. Você crê que alguma vez concordaram em festejar os títulos de 1924, 1928, 1930 e 1950? Nunca. Os jogadores que participaram daqueles campeonatos se reúnem agora por nossa conta, sempre no dia 18 de julho, que é feriado nacional. Festejamos por nossa conta. Não queremos nem contato com os dirigentes.

domingo, 23 de março de 2014



OBDULIO: EL NEGRO JEFE


POR ENILTON GRILL



Em junho de 1950, Obdulio Varela, “El Negro Jefe”, emudece mais de 200 mil brasileiros que se amontoam dentro do Maracanã. E silencia outros milhões espalhados país afora. Como conseguiu tal façanha? Talvez a explicação passe pelos vestiários do famoso e grandioso estádio. De um lado, festa antecipada. Do outro, determinação e medo de nada. Na preleção, o treinador uruguaio manda a equipe se fechar e jogar atrás. Quando o treinador vira as costas, entra em cena o capitão: - Que nada, vamos pra cima deles. E já na boca do túnel, antes de entrar em campo, vendo o Maracanã completamente lotado, Obdulio se vira para seus companheiros e pronuncia um discurso emocionado. Entre outras coisas, diz:

“No piensen en toda esa gente, no miren para arriba, el partido se juega abajo y si ganamos no va a pasar nada, nunca pasó nada. Los de afuera son de palo y en el campo seremos once para once. El partido se gana con los huevos en la punta de los botines".

E os uruguaios entraram e ganharam.

Nelson Rodrigues, em suas crônicas esportivas, falou mais de uma vez sobre Obdulio. Disse que ele "não atava as chuteiras com cordões, mas com as veias"e que "a humilhação de 50, jamais cicatrizada, ainda pinga sangue.

E é verdade. Nelson Rodrigues tinha razão. Obdulio atava com as veias o seu coração.




NEGRO JEFE

POR CANARIO LUNA


Jacinto fue canillita,
Jacinto fue lustrador,
y en las canchas de la vida
siempre entero se jugó.

Jacinto de los bohemios,
Obdulio del mirasol,
Jacinto Obdulio Varela,
puro estaño y tambor.

Negro jefe,
paladín de la victoria,
formidable centrojás,
tu gloria no ha envejecido
porque siempre sos el mismo
y nada te hará cambiar.

Negro jefe,
cuando cuentan tus hazañas,
los muchachos de mi edad
nos conmueve recordando tiempos idos,
del gorrión que había nacido
para ser campeón mundial.

Negro jefe,
aunque andemos a los tumbos,
Uruguay pa' todo el mundo!
qué caray!

Jacinto Obdulio Varela,
el pueblo no te olvidó,
y aún te rinden homenaje,
de un candombe de mi flor.

Jacinto pa' todo el mundo!
"Vinacho" viejo nomá!
Capitán de la celeste,
campeón de Maracaná.

Negro jefe,
paladín de la victoria,
formidable centrojás,
tu gloria no ha envejecido
porque siempre sos el mismo
y nada te hará cambiar.

Negro jefe,
cuando cuentan tus hazañas,
los muchachos de mi edad
nos conmueve recordando tiempos idos,
del gorrión que había nacido
para ser campeón mundial.

NEGRO JEFE
WASHINGTON CANARIO LUNA
1997