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terça-feira, 6 de outubro de 2026

 

ogodô ano 2000

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grandes horizontes
na escola da ponte não há programas. isso não quer dizer que a aprendizagem aconteça ao sabor dos desejos das crianças. imagine um homem do campo, que só conheça as comidas mais simples: polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne. imagine que ele venha à cidade e seja levado por um amigo a um restaurante. «que é que o senhor deseja?», lhe perguntaria o garçom. ele certamente responderia falando de polenta, feijão, abobrinha, picadinho de carne, pois esse é o seu repertório de pratos. aí, o amigo lhe diria: «quero sugerir que você experimente uns pratos diferentes.» assim acontece na relação entre professores e alunos. os professores sabem mais. é por isso que são professores. e uma de suas tarefas é «seduzir» as crianças para coisas que elas ainda não experimentaram. eles lhes apontam coisas que nunca viram e as introduzem num mundo desconhecido de arte, literatura, música, natureza, lugares, história, costumes, ciências, matemática. «a primeira tarefa da educação é ensinar a ver», dizia o filósofo nietzsche. não é obrigatório que elas gostem do que vêem. mas é importante que seus horizontes se alarguem.
rubem alves

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eu já fui rebelde. mas eu aprendi. então, por favor, cresça!»
lula

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1992

o sistema é cruel, injusto e desumano
para que uns poucos se deem bem
a imensa maioria tem que se dar mal
quem vê de fora
não entende como isso se dá
talvez seja difícil de entender
mas é fácil de explicar
junte a ganância de uns
com a ignorância de outros
e misture bem
até crescer
quando a massa estiver
veja bem
com a aparência de uma manada pastando conformada
leve ao forno a uma temperatura tropical e deixe assando por 500 anos
no final
terá um país rico por fora
e pobre por dentro

grill

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eram só três caravelas e valeram mais que um mar quanto aos índios que mataram ah! ninguém pôde contar quando esses homens fizeram o mundo novo e bem maior por onde andavam nossos deuses com seus andes, seu condor?

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(belchior, 1993)

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«no crezca mi niño, no crezca jamás
los grandes al mundo le hacen mucho mal
el hombre ambiciona cada día más
y pierde el camino por querer volar»

facundo cabral

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anos 90

por eduardo galeano
a injustiça, motor de todas as rebeliões que ocorreram na história, não só não diminuiu no século 20, como multiplicou-se até extremos que nos pareceriam incríveis se não estivéssemos adestrados para aceitá-la como costume e obedecê-la como destino. mas o poder não ignora que a injustiça está se tornando cada vez mais injusta e que o perigo está se tornando cada vez mais perigoso.

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e então? vencemos o crime?
já ninguém mais nos oprime
pastores, pais, lei e algoz?
que bom voltar pra família!
viver a vidinha à pilha!
yuppies sabor baunilha
era uma vez todos nós! 

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(elogio da loucura, 1988)

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passaram-se os anos, o século vinte está morrendo. que mundo ele nos deixa? um mundo sem alma, desalmado, que pratica a superstição das máquinas e a idolatria das armas: um mundo ao avesso, com a esquerda à direita, o umbigo nas costas e a cabeça nos pés.

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nos anos da guerra fria, cada metade do mundo podia encontrar na outra metade as justificativas de seus crimes e de seus horrores cada um dizia ser melhor, porque a outra era pior. hoje (final dos 90), subitamente órfão do inimigo, o capitalismo celebra sua hegemonia e dela usa e abusa sem limites. mas certos sinais indicam que começa a se assustar de seus próprios atos. descobre, então, a dimensão social da economia, como um exorcismo contra os demônios da ira popular. o capitalismo tinha resolvido chamar-se economia de mercado, mas agora tornou mais abrangene o apelido e viaja aos países pobres com um passaporte onde figura seu novo nome completo: economia social de mercado.
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ôôô ogodô ogodô ogodô, ogodô ogodô ôôô ogodô ogodô ogodô ogodô ogodô ttalac-tac-tac-tac tamborim teleco-teco-teco-teco violão toloc-toc-toc-toc agogô tô-lôc-tô twenty 00, twenty 00 a ciência excitada fará o sinal da cruz e acenderemos fogueiras para apreciar a lâmpada elétrica. the science in her trance will make the sign of cross and we will light bonfires to appreciate the eletric bulb. talac-tac… ogodô…

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(the hips of tradition, 1992)

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o pirulito da ciência

por enilton grill
a  «economia social de mercado» à brasileira é uma obra de arte da conciliação: o mercado fica com o lucro, o social fica com a contaminação, e a ciência fica chupando o pirulito.

a receita é simples e foi votada no congresso nacional. o presidente lula (pt) até tentou colocar um verniz de bom comportamento com 14 vetos à flexibilização dos agrotóxicos. mas no teatro da governabilidade, a bancada ruralista deu o veredito e derrubou tudo. o «rei da soja» passou a coroa para o ministério da agricultura, que agora é quem manda no balanço das substâncias. anvisa e ibama, coitados, foram rebaixados a meros espectadores de bula.

é o «capitalismo humanizado» em sua potência máxima: as exportações batem recordes na faria lima, o plano safra injeta bilhões no latifúndio, e o povo ganha o direito constitucional de consumir, em média, algumas gramas de glifosato por refeição. tudo estritamente regulado pelas forças da oferta e da demanda de oxigênio.

diante do absurdo de ver substâncias cancerígenas proibidas no exterior virarem tempero nacional, os pesquisadores da fiocruz — que ainda insistem na mania de estudar dados — soltaram a pergunta definitiva, aquela que deveria estar em um refrão de tom zé:

«a ciência está errada e o agro está certo?»
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falando em tom zé

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✍️ texto de guto ruocco

(via #repost @tomzeoficial)
tom zé mal começou o show e já estava saudando a saga do reitor edgar santos da universidade federal da bahia que deu ao alemão koellreutter plenos poderes para organizar a renomada escola de música da ufba, que o formou, além de toda uma geração de artistas contemporâneos da melhor música brasileira. depois citou paulo freire e a triste confusão do oprimido que conquista direitos e se torna opressor quando a educação não é transformadora antes de interpretar «esquerda, grana e direita».

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quando um trabalhador cresce na sociedade
e tem oportunidade de ser protagonista da história
ele pratica o método do opressor
porque foi o único método que aprendeu
então ele só sabe agir como o opressor

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(vira lata na via láctea, 2014)

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depois, emendou seus clássicos, alguns urrados por uma plateia ávida de canção inteligente e coragem artística. terminou o show saculejando o decadente teatro municipal «caindo aos pedaços» de mococa para forrozear ao som de xique-xique e com a plateia hipnotizada pelo amor e pela generosidade de tom zé. o artista de irará mostrou aos 82 anos que continua com vitalidade do menino tropicalista que mantém a sua mensagem política-libertária nos cascos. obrigado, te amo.

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 eu vi o cego dando nó cego na cobra
vi cego preso na gaiola da visão
pássaro preto voando pra muito longe
e a cabra cega enxergando a escuridão

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(com defeito de fabricação, 1998)

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#lula2026

sábado, 29 de março de 2014


sertão das águas



por enilton grill




Meu pai contava, seu moço
Que em tempos do meu avô
Havia festa... alvoroço
Na volta dos pescadô
Agora as rede se some
Pelas fundeza do rio
E quando voltam os home
Só barco e olhos vazio

sertão das águas
martim césar / paulo timm



No início do novo milênio, a cidade de Porto Alegre sediou as primeiras edições do Fórum Social Mundial. Estive nelas. Trabalhando. Era correspondente da extinta revista Cadernos do Terceiro Mundo.

A revista foi fundada em 1974 e sempre buscou fazer da informação uma ferramenta da construção de um outro mundo possível. Sempre acreditou que, com boa informação, vontade política, coragem e amor no coração isso seria possível. Não foi.

A Cadernos era uma utopia; e as utopias haviam morrido e nós da Cadernos não sabíamos. A revista não resistiu aos ‘democráticos’ dias de hoje.

No Fórum Social Mundial de 2002, tive a oportunidade de participar de várias conferências e seminários. Entre eles, um seminário de dois dias, promovido pela organização Fórum Internacional sobre a Globalização (IFG), para discutir alternativas e formas de resistência.

O diretor da Organização, Victor Menotti, falou sobre a divergência entre os interesses ambientais e comerciais, que normalmente predominam. E citou diversos exemplos em que as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) vão contra a preservação do meio ambiente e de acordos internacionais neste sentido, como a Convenção da Diversidade Biológica e o Protocolo de Quioto.

O momento mais marcante do seminário, no entanto, foi a apresentação do ambientalista nigeriano Oronto Douglas. Ele lembrou sua infância, quando seu pai o levava para pescar, garantindo a subsistência de toda a família. Oronto contou a conversa que teve com o pai, antes de viajar a Porto Alegre.

Ao explicar ao pai, 78 anos, e não pesca mais, que iria se encontrar com dezenas de milhares de pessoas para discutir alternativas para um mundo melhor, ouviu dele a seguinte frase: ‘Diga a eles que quero os meus peixes de volta. Só isso. Isso é o bastante pra me devolver a alegria.'

Mas isso está tão longe quanto a tal utopia.
Enilton Grill



sertão das águas
caminhos de si
martim césar / paulo timm
2011

terça-feira, 2 de agosto de 2011





 cadernos do terceiro mundo

março de 2002

nº 239


uma edição histórica



nas mais de 60 páginas que dedicamos à coberura do fórum social mundial (fsm), realizado no início de fevereiro em porto alegre, estamos oferecendo informação exclusiva e de primeira mão sobre um evento que acreditamos será lembrado no futuro como um marco no processo de gestação de uma nova forma de organização social da humanidade.


nunca antes houve uma iniciativa semelhante, de construção de uma grande teia de organizações surgidas do seio da sociedade civil, diferentes entre si, mas coincidentes no anseio de abrir caminhos para um mundo que retome o compromisso com o ser humano como bússola de toda ação a política. daí o enorme esforço que a nossa equipe realizou para tornar possível esta edição especial.


não só os jornalistas que estiveram em porto alegre - beatriz bissio, memélia moreira, álvaro neiva, ivan trindade e enilton grill - , mas também a equipe editorial do rio de janeiro, pesquisadores do nosso centro de documentação, diagramador, revisor e demais colegas trabalharam arduamente para tornar possível a chegada desta edição histórica ás mãos dos leitores. era tanta riqueza de informação que até mesmo o número de páginas foi aumentado, contrariando o bom senso, em uma época de dificuldades financeiras.


mas cadernos do terceiro mundo foi fundada em 1974 e tem resistido até hoje a isso, para fazer da informação uma ferramenta da construção de um outro mundo. sempre acreditamos, como o fsm sinalizou, que, com boa informação, vontade política, coragem e amor no coração, isto é possível.


os editores






cultura da violência 


* por enilton grill

uma mulher é assassinada a cada hora no mundo. uma em cada dez mulheres sofre ao menos um estupro na vida, na maioria dos casos por homens conhecidos. cerca de 40 milhões de mulheres são exploradas pela indústria da prostituição. tailândia, filipinas, indonésia e brasil estão entre os maiores fornecedores de prostitutas. méxico, bangladesh, filipinas e brasil estão entre os que mais exploram o trabalho feminino em fábricas.

essas agressões compuseram um amplo diagnóstico da violência contra as mulheres apresentado na conferência ‘cultura da violência, violência doméstica’, durante o segundo fórum social mundial, realizado no início de fevereiro de 2002 em porto alegre. as militantes feministas apresentaram propostas contidas no documento ‘a violência contra as mulheres: aí onde o outro mundo deve agir’. as raízes da violência contra a mulher, sua relação com a globalização neoliberal e a identificação de alguns elementos para a construção de alternativas foram o foco desse rico debate.

as painelistas mostraram que as mulheres são vítimas da violência em todas as classes sociais, culturas, religiões e situações geopolíticas, ainda que esta violência assuma diferentes formas segundo as distintas sociedades. ela ocorre tanto na esfera pública como na privada, e é com freqüência exercida tanto por indivíduos como também de forma organizada por grupos de homens e por estados. sashi sail, da índia, disse que as mulheres estão submetidas a uma opressão 'ancestral, múltipla e crescente’.
 
o século 20 testemunhou o avanço das mulheres, mas não reduziu a violência,  disse a ativista indiana.  o deslocamento de empresas do norte para o sul em busca de mão-de-obra barata resulta em uma ampla  absorção da força de trabalho feminina  em condições dramaticamente precárias, com a freqüente exigência de testes de gravidez para contratação, assédio sexual e situações de risco para a saúde no ambiente de trabalho. e acrescente-se a isso, a proibição de sindicalização e os salários aviltados, quase sempre inferiores aos dos homens, para exercer as mesmas funções.

já suzy roitman, francesa, advertiu que a globalização acrescentou novas formas de discriminação e de violência contra as mulheres. entre elas, a articulação de máfias dos países, dando dimensão planetária à prostituição. também a globalização é responsável pela crescente feminização das migrações, sobretudo em direção aos países industrializados. e as mulheres da américa latina e do terceiro mundo em geral reforçam os movimentos migratórios em busca de trabalho ou são exploradas por máfias internacionais.

chegou-se à conclusão de que a responsabilidade de erradicação da violência contra as mulheres é individual e coletiva. é dos homens e das mulheres. a violência acontece no interior das famílias e das organizações. na índia no iraque e no haiti...  haiti que é aqui. 





enilton grill
autor deste blog
ativista cultural
radialista
produtor e apresentador do programa américas
nas rádios federal fm, alfa fm e
rádiocom 104.5fm

domingo, 10 de novembro de 2002



cultura da violência 


* por enilton grill

uma mulher é assassinada a cada hora no mundo. uma em cada dez mulheres sofre ao menos um estupro na vida, na maioria dos casos por homens conhecidos. cerca de 40 milhões de mulheres são exploradas pela indústria da prostituição. tailândia, filipinas, indonésia e brasil estão entre os maiores fornecedores de prostitutas. méxico, bangladesh, filipinas e brasil estão entre os que mais exploram o trabalho feminino em fábricas.

essas agressões compuseram um amplo diagnóstico da violência contra as mulheres apresentado na conferência ‘cultura da violência, violência doméstica’, durante o segundo fórum social mundial, realizado no início de fevereiro de 2002 em porto alegre. as militantes feministas apresentaram propostas contidas no documento ‘a violência contra as mulheres: aí onde o outro mundo deve agir’. as raízes da violência contra a mulher, sua relação com a globalização neoliberal e a identificação de alguns elementos para a construção de alternativas foram o foco desse rico debate.as painelistas mostraram que as mulheres são vítimas da violência em todas as classes sociais, culturas, religiões e situações geopolíticas, ainda que esta violência assuma diferentes formas segundo as distintas sociedades. ela ocorre tanto na esfera pública como na privada, e é com freqüência exercida tanto por indivíduos como também de forma organizada por grupos de homens e por estados. sashi sail, da índia, disse que as mulheres estão submetidas a uma opressão 'ancestral, múltipla e crescente’.

o século 20 testemunhou o avanço das mulheres, mas não reduziu a violência,  disse a ativista indiana.  o deslocamento de empresas do norte para o sul em busca de mão-de-obra barata resulta em uma ampla  absorção da força de trabalho feminina  em condições dramaticamente precárias, com a freqüente exigência de testes de gravidez para contratação, assédio sexual e situações de risco para a saúde no ambiente de trabalho. e acrescente-se a isso, a proibição de sindicalização e os salários aviltados, quase sempre inferiores aos dos homens, para exercer as mesmas funções.

já suzy roitman, francesa, advertiu que a globalização acrescentou novas formas de discriminação e de violência contra as mulheres. entre elas, a articulação de máfias dos países, dando dimensão planetária à prostituição. também a globalização é responsável pela crescente feminização das migrações, sobretudo em direção aos países industrializados. e as mulheres da américa latina e do terceiro mundo em geral reforçam os movimentos migratórios em busca de trabalho ou são exploradas por máfias internacionais.

chegou-se à conclusão de que a responsabilidade de erradicação da violência contra as mulheres é individual e coletiva. é dos homens e das mulheres. a violência acontece no interior das famílias e das organizações. na índia no iraque e no haiti. haiti que é aqui. 


enilton grill
autor deste blog
ativista cultural
radialista
produtor e apresentador do programa américas
nas rádios federal fm, alfa fm e
rádiocom 104.5fm