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terça-feira, 14 de julho de 2026

amor é apenas uma palavra de quatro letras

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«aprendi a ser formal e cortês
cortando o cabelo uma vez por mês
e se acabou a formalidade
é que nunca gostei da sociedade.»


charly garcía

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«qui m´importa, qui m´importa
o seu preconceito
qui m´importa»


renato teixeira

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«você tem uma única tarefa: concretizar sua própria natureza; e, para isso, precisa estar na sociedade como se não fizesse parte dela. a sociedade que é tão medíocre que continua apostando em coisas que nunca funcionaram nem funcionarão.»

facundo cabral

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vai trabalhar, vagabundo

por eduardo marinho

antigamente, eu pedia comida olhando no olho das pessoas – eu ainda não sabia vender meus artesanatos. o ato de pedir é uma grande escola se não nos deixamos humilhar por isso. por exemplo, se eu chego em um restaurante e vejo o dono do estabelecimento, vou até ele e digo: «estou viajando de carona, sem dinheiro, e estou sem comer há alguns dias. estou com muita fome, e você está cheio de comida aí. você vai me negar um prato de comida? não acredito nisso!».

ele se espanta pelo fato de alguém que esteja pedindo comida fale de igual para igual com ele, sem humilhação. se ele negar o prato de comida, eu me retiro. já aconteceu de me retrucarem: «mas você quer comida sem trabalhar?». respondi: «se tiver trabalho aí eu trabalho. faço qualquer coisa: lavo os pratos, varro o chão, sirvo as pessoas, limpo os banheiros, estaciono os carros… ». ele: «mas eu tenho funcionários para fazer tudo, não preciso de seus serviços». eu: «mas eu preciso comer. você não vai me negar um prato de comida, né?».

é constrangedor para ele negar comida, mas se ele o fizer, o faz violentamente, através de xingamentos, então eu vou no restaurante vizinho repetir o mesmo processo, até que me deem um prato de comida.

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ao vento

não tive muita sorte
com as mulheres
como poeta

uma me mandou trabalhar
a outra já de saída
deu de me podar

a mesma poesia
que me levou a elas
foi a que
me afastou delas

grill

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«devolva o neruda que você me tomou
e nunca leu»

chico buarque

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«a "rainha das cantoras folk", essa tinha que ser joan baez. joan nasceu no mesmo ano que eu, e nossos futuros iriam se conectar, mas, naquela época, seria um despropósito sequer pensar nisso. eu a vira na tv. ela estava em um programa de música folk.


não consegui parar de olhar para ela, não queria nem piscar.

ela tinha uma aparência bem travessa - cabelo negro cintilante, pestanas encurvadas, parcialmente erguidas... a visão dela me deixou enlevado. tudo aquilo, e ainda a voz. uma voz que expulsava os maus espíritos. era como se ela tivesse vindo de outro planeta.

de origem escocesa e mexicana, ela parecia um ícone religioso, alguém por quem você se sacrificaria, e cantava com uma voz direto para deus... também era uma instrumentista excepcionalmente boa.

joan parecia muito madura, sedutora, intensa, mágica. nada do que ela fazia dava errado. o fato de ela ter a mesma idade que eu quase fez com que me sentisse inútil.

no entanto, por mais ilógico que pudesse parecer, algo me disse que ela era meu complemento - aquela com quem minha voz poderia encontrar perfeita harmonia.

naquela época não havia nada além de mundos de distância e enormes barreiras entre ela e eu. eu ainda estava atolado na roça. não obstante, alguma sensação estranha me disse que inevitavelmente nos encontraríamos.»

bob dylan, crônicas - volume um, pg 277.

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«ele parecia um caipira urbano, com os cabelos batidos em volta das orelhas e encaracolados no topo. deslocando o peso do corpo de um pé para o outro enquanto tocava, ele parecia pequeno por trás do violão. ele era um absurdo, sua jaqueta era de couro surrado, dois números menor do que o seu tamanho, andava sempre maltrapilho, mas tinha algo nele que o fazia maior do que ele parecia ser...»

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«tentei convencer bobby a cuidar da saúde, a beber e fumar menos, a escovar os dentes, pentear o cabelo, tomar banho, trocar de roupa, essas coisas todas (...) ele é uma pessoa complicada, problemática e difícil. vejo bobby como um diamante levemente danificado na cabeça. mais sensível do que a média das pessoas. quando eu estava na plateia assistindo-o tocar, percebia quão facilmente ele ficava arrasado com um comentário ou com algo que passava! mas nunca se sabe quando ele sente essas coisas, porque ele é muito bom em ocultar tudo isso. na minha opinião, por alguma razão, ele quer se aliviar de toda a responsabilidade, para apenas sobreviver com o que as pessoas têm para oferecer. se você não se preocupa consigo mesmo de verdade, então não tem de se preocupar com mais ninguém. ele é assustadoramente inteligente, com um curioso imã dentro de si que nos atrai. quer dizer, eu amo bobby, e faria qualquer coisa por ele, sempre.»

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«eu andava por aí roubando as músicas dele. quer dizer, literalmente. ele escreveu "four letter word", deixou cair atrás de um piano e esqueceu. eu peguei a música lá em casa e aprendi a tocar. um ano depois, eu estava cantando e ele disse: "eita, que música boa, de quem é?". e eu ri: "foi você que escreveu, seu idiota!".»

joan baez

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parece que foi ontem
que deixei minha mente para trás
lá no café cigano
com uma amiga de uma amiga minha
que estava sentada com um bebê pesado no colo
mas falava de uma vida totalmente livre da escravidão
com olhos que não mostravam nenhum traço de sofrimento
uma frase me veio à mente, associada a ela:
que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

do lado de fora, na vitrine de uma loja desorganizada
gatos miavam até o raiar do dia
eu, por minha vez, mantive a boca fechada
para você, não tinha palavras a dizer
minha experiência era limitada e insuficiente
você falava enquanto eu me escondia
para aquele que era o pai do seu filho
você provavelmente não imaginou que eu tivesse ouvido, mas eu ouvi
você dizer que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

eu me despedi sem ser notado
empurrado para dentro dos meus próprios jogos
flutuando entre vidas
indescritíveis por nome
procurando meu duplo, buscando
a evaporação completa até o âmago
embora eu tenha tentado e falhado em encontrar qualquer porta
devo ter pensado que não havia nada mais absurdo
do que dizer que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

embora eu nunca tenha sabido exatamente o que você quis dizer
quando falava com seu homem
só consigo pensar em termos de mim
e agora eu entendo
depois de acordar vezes suficientes para achar que vejo
o beijo sagrado que deveria durar a eternidade
se transformar em fumaça, é o destino
recai sobre estranhos, viaja livremente
sim, agora eu sei, as armadilhas só sou eu quem arma
e eu realmente não preciso que me garantam
que amor é apenas uma palavra de quatro letras

é estranho estar ao seu lado
há muitos anos a situação se inverteu
você provavelmente não acreditaria em mim
se eu te contasse tudo o que aprendi
e é muito, muito estranho mesmo
ouvir palavras como «para sempre»,
frotas de navios passam pela minha mente,
não consigo enganar
é como olhar diretamente nos olhos do professor
não posso dizer nada a você, a não ser repetir o que ouvi
que o amor é apenas uma palavra de quatro letras

love os just a four letter word | bob dylan (1967)
canta: joan baez

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com 85 anos, e ainda jovem, baez parece saber coisas que sempre confundiram, e continuam a confundir o bardo.

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«não consigo ver meu reflexo nas águas
não consigo expressar os sons que não revelam dor
não consigo ouvir o eco dos meus passos
nem lembrar o som do meu próprio nome»

dylan

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ao vento

com o passar do tempo
o poeta errante e a morena estonteante
foram ficando cada vez mais distantes
quarenta anos depois, dylan emitiu um mea culpa:

«eu estava apenas tentando lidar com a loucura que se tornou minha carreira… não dá pra amar e ser esperto ao mesmo tempo... lamento ver esse relacionamento terminar.»

de sua parte, baez não guardou rancor, mas disse melancolicamente:

«meus instintos de mãe verteram porque ele era uma bagunça desalinhada... dylan é um diamante a ser lapidado... um poeta em estado bruto.»

a musa que me perdoe, mas lapidar dylan seria tirar dele o que o torna único. ele é um diamante porque permaneceu bruto.

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diamantes e ferrugem

atrás
de nós
a paisagem
já é
memória
o tempo
corre
não
para a frente
mas
para dentro
meu destino
é ser pedra
o teu
diamante
o tempo
que corre
para dentro
é o mesmo
que oxida
o ferro
enquanto
você
faz silêncio
eu
pacientemente
espero
meu destino
é ser pedra
o teu
diamante
enquanto
você
fala
eu
berro

grill

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você apareceu no cenário
já como uma lenda
a pedra bruta
o poeta errante
o vagabundo original
você veio para os meus braços
e lá ficou
sim, eu te amava demais
e se você está me oferecendo diamantes e ferrugem
eu já paguei

diamonds and rust | joan baez (1975)
(legendas em português)

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#américas

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025


 O GRANDE ENCONTRO 

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O piano tocou uma lenta melodia fúnebre, 
E a cidade foi iluminada por uma fria lua de Natal,
Os pais choraram e os mineiros gemeram, 
"Veja o que a sua ganância por dinheiro fez".

Woody Guthrie (1961)

.

Ei, ei Woody Guthrie, eu te escrevi uma canção
Sobre um estranho mundo que está surgindo 
Parece doente e faminto, cansado e debilitado
Parece que está morrendo e recém nasceu. 

Bob Dylan (1961) 

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Não sei dizer quando me ocorreu a ideia de escrever minhas próprias canções. Eu não tinha produzido nada para definir o modo como me sentia a respeito do mundo que se comparasse ou fosse a metade das letras de música folk que eu vinha cantando. Acho que isso acontece em etapas. Você não acorda um dia e simplesmente decide que precisa escrever canções, especialmente se você é um cantor que tem muitas delas e está aprendendo mais todos os dias. É preciso que apareçam oportunidades para que você converta algo – algo que existe em algo que não existe. Esse pode ser o começo. Às vezes você quer apenas fazer as coisas do seu jeito, quer ver por si mesmo o que está por trás da cortina de névoa. Não é como se você visse canções se aproximando e as convidasse para entrar. Não é fácil assim. Você quer escrever canções maiores que a vida. Quer dizer algo sobre coisas estranhas que aconteceram com você, coisas estranhas que viu. Você tem que saber e compreender algo, e depois passar para o vernáculo. A precisão arrepiante que os antigos usavam para chegar às suas canções não é pouca coisa. Às vezes você pode escutar uma canção e sua mente dar uma salto à frente. Esse padrão pode se repetir na maneira como você anda pensando nas coisas. Jamais pensei nas canções como "boas" ou "ruins", apenas tipos diferentes de boas. 

Algumas delas podem se referir a casos verídicos. Eu tinha escutado por aí uma canção chamada "I Dreamed I Saw Joe Hill". 

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Joe Hill | Joan Baez | Woodstock (1969)  

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Eu sabia que Joe Hill era um sujeito real e importante. Não sabia quem ele era, por isso perguntei a Izzy no Folklore Center. Izzy sacou alguns panfletos sobre ele da sala dos fundos e me deu para ler. O que eu li poderia ter saído de um romance de mistério. Joe Hill era um imgrante sueco que lutou na guerra mexicana. Tinha levado uma vida carente e pobre, era um líder sindical do Oeste por volta de 1910, uma figura messiânica que queria abolir o sistema salarial do capitalismo – um mecãnico, músico e poeta. Chamavam-no de Robert Burns dos trabalhadores. 

Joe escreveu a canção "Pie in the Sky" e foi precursor de Woody Guthrie. Era tudo o que eu precisava saber. Ele foi condenado com base em provas circunstanciais pelo crime de assassinato e executado por um pelotão de fuzilamento em Utah. A história de sua vida é pesada e profunda. Ele era um organizador dos Wooblies, a seção combatente da classe trabalhadora americana. Hill é julgado pelo assassinato do dono de um armazém e do filho deste em um assalto mixuruca à mão armada, e sua única defesa é dizer: "Provem!".  Antes de morrer, o filho do comerciante abre fogo contra alguém, mas não há prova de que a bala tenha acertado em qualquer coisa. Contudo, Joe tinha um ferimento de bala, e isso parece bastante incriminador. Cinco pessoas sofrem ferimento de bala na mesma noite, são tratadas no mesmo hospital, liberadas, e todas elas desaparecem. Joe diz que estava em outro local na hora do crime, mas não diz onde, nem com quem. Não fornece quaisquer nomes, nem mesmo para salvar a própria pele. A crença geral é de que havia uma mulher envolvida, uma mulher que Joe não quis envergonhar. A coisa fica mais esquisita e complicada. Outro cara, um bom amigo de Joe, desaparece no dia seguinte. 

Está tudo bem enrolado. Joe é amado por todos os trabalhadores da nação – mineiros e açougueiros, pintores de placas e ferreiros, estucadores, encanadores, metalúrgicos; quem quer que fossem, ele os uniu e lutou pelos direitos de todos, arriscou sua vida para tornar as coisas melhores para todos da classe baixa, os desfavorecidos –, os trabalhadores mais mal-remunerados e maltratados do país. Ao ler a história dele, seu caráter se revela, e você percebe que ele não é o tipo que roubaria e mataria um funcionário de armazém por acaso. Isso simplesmente não poderia acontecer com ele. É impossível que tivesse feito algo assim por un trocados. Tudo em sua vida remete a honra e probidade. Era um andarilho e um guardião, o tempo todo patrulhando. Para os políticos e industrialistas que o odiavam, entretanto, ele era um criminoso empedernido e um inimigo da sociedade. Eles esperaram durante anos por uma oportunidade para se livrar dele. Joe foi declarado culpado antes mesmo de o julgamento começar. 

A história toda é espantosa. Em 1915, houve passeatas e comícios de massa a favor dele que encheram as ruas em todas as grandes cidades americanas – Cleveland, Indiapolis, St. Louis, Brooklin, Detroit, muitas mais –, onde quer que houvesse trabalhadores e sindicatos. Até o presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, tentou fazer com que as autoridades de Utah revissem o caso, mas o governador de Utah não deu a mínima para o presidente. Em seus últimos momentos, Joe diz: "Espalhem minhas cinzas em qualquer lugar, menos Utah". 

A canção "Joe Hill" foi escrita um tempo depois disso. Quanto a canções de protesto, eu tinha ouvido umas poucas. "Bourgeois Blues", a canção de Leadbelly; "jesus Christ" e "Ludlow Massacre", de Woody; "Strange Fruit", a canção de Billie Holliday, algumas outras – e todas eram melhores que aquela. Canções de protesto são difíceis de escrever sem que o resultado seja maçante e unidimensional. Você tem que mostrar às pessoas um lado delas mesmas que elas não sabem que existe. A canção "Joe Hill" nem chega perto, mas, se já houve alguém que poderia inspirar uma canção, foi ele. Joe tinha chamas no olhar. 

Imaginei que, se eu tivesse escrito a canção, teria imortalizado Joe de maneira diferente – mais como Casey Jones ou Jesse James. Era o que devia ter sido feito. Pensei em dois caminhos. Um era intitular a canção "Scatter My Ashes Anyplace but Utah" e fazer dessa linha o refrão. O outro era fazer como a canção "Long Black Veil", na qual um homem fala do túmulo... uma canção do além. É uma balada na qual um homem abre mão de sua vida para não desgraçar uma certa mulher e tem que pagar pelo crime de outro por causa do que ele não pode dizer. Quanto mais pensava sobre isso, mais "Long Black Veil" parecia uma canção que poderia ter sido escrita pelo próprio Joe Hill, a sua última.

Não compus uma canção para Joe Hill. Pensei em como faria, mas não fiz. A primeira canção de alguma importância substancial que acabei escrevendo foi para Woody Guthrie. 

Bob Dylan | Crônicas: Volume Um - p. 62 a 66.

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Estou aqui a mil milhas de casa
Pegando uma estrada em que outros homens sucumbiram
Vejo teu mundo de pessoas e coisas
Vejo pobres e camponeses, príncipes e reis

Ei, ei, Woody Guthrie, eu te escrevi uma canção
Sobre um estranho mundo que está surgindo
Parece doente e faminto, cansado e debilitado
Parece que está morrendo e recém nasceu

Ei, Woody Guthrie, mas eu sei que você sabe
Todas as coisas que estou dizendo e muito mais 
Eu te canto esta canção, mas jamais será o bastante
Pois não há muitos homens que fizeram o que você fez

Esta vai para Cisco e Sonny e também para Leadbelly
E toda gente boa que viajou contigo
Esta vai para o coração e as mãos dos homens
Que chegaram com a poeira e partiram com o vento

Parto amanhã, mas poderia partir agora
Em algum lugar da estrada, algum dia
A derradeira coisa que vou querer fazer
É contar que também encarei uma dura travessia 

Song to Woody | Bob Dylan (1961) 

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Nota: Dylan usou a melodia de "1913 Massacre" 
quando escreveu "Song to Woody".

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Faça uma viagem comigo em 1913
Para Calumet, Michigan, no país do cobre 
Eu vou te levara para um lugar chamado Italian Hall 
Onde os mineiros estão tendo um grande baile de Natal

Eu te levarei por uma porta e subirei uma escada alta
Cantoria e dança serão ouvidas em todos os lugares 
Eu deixarei você apertar a mão das pessoas que você vir
E assistir as crianças dançarem ao redor da grande árvore de Natal.

Você pergunta sobre trabalho e pergunta sobre pagamento,
Eles dirão que ganham menos de um dólar por dia,
Trabalhando nas minas de cobre, arriscando suas vidas,
Então é divertido passar o Natal com filhos e esposas.

Há conversas, risos e canções no ar,
E o espírito do Natal está em todo lugar,
Antes que você perceba, você é amigo de todos nós,
E você está dançando e dançando no salão.

Bem, uma garotinha senta-se perto das luzes da árvore de Natal,
Para tocar piano, então você tem que ficar quieto 
Para ouvir toda essa diversão, você não perceberia
Que os capangas do chefe de polícia estão circulando lá fora.

Os capangas do chefe enfiaram suas cabeças na porta,
Um deles gritou e ele berrou, "há um incêndio",
Uma senhora gritou, "não existe tal coisa.
Continue com sua festa, não existe tal coisa". 

Algumas pessoas correram e eram apenas algumas,
"São apenas os bandidos e os fura-greves enganando vocês".
Um homem agarrou sua filha e a carregou para baixo,
Mas os bandidos seguraram a porta e ele não conseguiu sair.

E então outros seguiram, cem ou mais, 
Mas quase todos permaneceram no chão, 
Os bandidos armados riram de sua piada assassina,
Enquanto as crianças foram sufocadas nas escadas perto da porta.

Nunca vi nada mais terrível
Carregamos, então, nossos filhos para perto da árvore
Os fura-greve lá fora ainda riam de sua "farra"
E foram setenta e três crianças que morreram lá  

O piano tocou uma lenta melodia fúnebre, 
E a cidade foi iluminada por uma fria lua de Natal,
Os pais choraram e os mineiros gemeram,
"Veja o que a sua ganância por dinheiro fez". 

1913 Massacre | Woody Guthrie (1961) 

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#Américas 
#Repecho 

 


BALADA DE JOE HILL 

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“Meu corpo? Ah, se pudesse escolher, 
faria com que fosse reduzido a cinzas 
e deixaria as alegres brisas soprarem meu pó 
até onde existissem algumas flores murchas. 
Talvez essas flores murchas então 
voltassem à vida, florescendo outra vez. 
Este é meu derradeiro e final desejo. 
Boa sorte para vocês!” 

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John dos Passos, o grande escritor norte-americano, escreveu a trilogia “USA”, onde retratou os EUA, em sua face menos sorridente. Foi o retrato de uma América dominada por monopólios e trusts, por organizações de gângsteres e sindicatos infiltrados pela corrupção. Os personagens de “EUA” são anti-heróis amargurados, alguns idealistas e lutadores, outros céticos e cínicos. Numa constante alternância entre ficção e vida real, Dos Passos apresenta, em curtos “flashes” quase cinematográficos, uma galeria de figuras ímpares da História americana, não alinhadas no imenso rebanho, que fazia dos EUA uma coleção de funcionários gabarolas com contas de Banco demais, em palavras do autor. A trilogia foi editada, em Portugal, pela Portugália Editora, nos anos 60 do século passado, em sua coleção “Os Romances Universais”. Paralelo 42 (volume 30) foi traduzido por Helder de Macedo. “1919 e Dinheiro Graúdo” (respectivamente volumes 37 e 38) foram traduzidos por Daniel Gonçalves. Uma das figuras retratadas é a do sueco imigrado Joseph Hillstrom, popularmente conhecido como Joe Hill.



Transcrevemos, a seguir, algumas das linhas dedicadas ao cantor-sindicalista, patentes no 2º volume de “USA” sob o título de 1919 e escrito em 1932: “Um jovem sueco chamado Hillstrom meteu-se ao mar, calejou as mãos em veleiros e velhos cargueiros vagabundos, aprendeu inglês no castelo da proa dos vapores que faziam a ligação entre Estocolmo e Hull, e como todos os suecos sonhava com o Ocidente; quando ele se estabeleceu na América, eles lhe deram um emprego: limpar escarradores em um bar Bowery. Mudou-se para Chicago e trabalhou em uma firma de máquinas. Continuando sua marcha para o Oeste, ele alugou os braços dos senhores da colheita, arrastou-se pelas agências de empregos, pagou muitos dólares de comissão para conseguir trabalho em alguma empresa de construção, andou muitas milhas quando a comida era muito ruim, o capataz muito brutal ou os percevejos muito agressivos no galpão. Participou de greve, na Califórnia, costumava tocar sanfona na porta do barracão, à noite, depois da ceia, tinha um condão peculiar para transformar em rimas os brados de revolta”. 

 As canções de Joe Hill foram cantadas nas cadeias distritais e nas pensões rasas, por desempregados itinerantes, por trabalhadores das jornas. Em todos os lugares, onde um proletário se sentisse perseguido, explorado, marginalizado, soava uma canção de Joe Hill. Damos, novamente, a palavra a John dos Passos: “Em Bingham, Utah, Joe Hill organizou os trabalhadores da Utah Construction Company em um único grande sindicato, conseguiu-lhes salários mais altos, menos horas de trabalho, melhor comida. Joe Hill vivia em Utah, estado dominado pelo fundamentalismo religioso da seita Mórmon. Foi acusado, injustamente, de ter assassinado um merceeiro, chamado Morrison. Sua condenação à morte provocou vastas movimentações”. O cônsul da Suécia e o presidente Wilson tentaram obter um novo julgamento, mas a Suprema Corte do Estado de Utah manteve o veredicto. Joe Hill continuou a escrever suas músicas, no ano em que permaneceu na cadeia. Em 19 de novembro de 1915, eles o colocaram contra a parede da penitenciária de Salt Lake City. “Não percam tempo chorando minha morte. Organizem-se!”, foram as últimas palavras que enviou para seus companheiros. Joe Hill colocou-se diante da parede do pátio da penitenciária, olhou para os canos das espingardas e ele mesmo deu a voz de fogo.

sábado, 29 de março de 2014



HERE'S TO YOU, NICOLA AND BART


"A homenagem é para vocês, Nicola e Bart
repousem para sempre em nossos corações
o momento extremo e final é de vocês
e aquela agonia o seu triunfo”.
HERE'S TO YOU
ENNIO MORRICONNE/JOAN BAEZ



POR ENILTON GRILL



Uma bala encontrada. Uma história mal-contada e uma prisão forjada. Duas vidas tiradas. A liberdade assassinada e a justiça crucificada. Mas é como diz Pablo Milanés, compositor cubano: "La vida no vale nada/cuando otros se están matando/y yo sigo aqui cantando/cual si no pasara nada". Ou ainda: "La vida no vale nada/si ignoro que el asesino/cogió por otro camino/y prepara una celada". Ou ainda: "La vida no vale nada/si cuatro caen por minuto/y al final por el abuso/se decide la jornada".

Para lembrar de uma balada que ouvi e de um filme que assisti. E para relembrar uma história que não esqueci. Mais que nada para justificar uma vida já um pouco cansada mas ainda rebelada e indignada. Uma vida, para além das caídas, sempre reconstruída e sempre reinventada. Uma vida agradecida e ainda esperançada. 


Estados Unidos. Anos 20


A classe média dos Estados Unidos vivia no paraíso. Vivia aquilo que mais tarde viria se chamar American way of life ou estilo americano de vida ou o jeito americano de ser. Naquela época, e ainda hoje, acreditavam-se superiores a todos os demais. E, com base nessa crença, tentavam, e ainda tentam, á base da força impor suas idéias de "liberdade".


Esta sociedade, forjada com ares de superioridade, sentia-se ameaçada pela massa de imigrantes chegada da Europa. Eram espanhóis, portugueses e, especialmente, italianos. Além de sua fisionomia e língua latinas, traziam estranhas idéias que colocavam em risco o modo de vida e o jeito americano de ser. Colocavam em risco a ordem de suas coisas e o progresso de sua economia. Colocavam em risco sua superioridade e atrapalhavam sua felicidade.


Em abril 1920 ocorreu um assalto a uma fábrica de calçados na cidade de South Braintree, no Estado de Massachusets. Na ocasião duas pessoas foram mortas. 

Algumas semanas depois, em 5 de maio, dois homens foram presos próximos de Boston. Eram imigrantes, operários e anarquistas. O estereótipo de tudo aquilo que não deveria ser um cidadão estadunidense modelo. Seus nomes eram Nicolau Sacco e Bartolomeu Vanzetti.


Sacco, um respeitado sapateiro, e Vanzetti um modesto peixeiro. Dois anarquistas que deram à palavra liberdade sentido e verdade. E isso hoje é uma raridade. Na boca de determinadas pessoas, a liberdade vem sendo deturpada, banalizada e desvalorizada. É como diz Piero, compositor argentino: "Cuando la palabra libertad/sale de las bocas mentirosas/de repente pierde su valor/se confunde el fondo de las cosas."


O caso teve repercussão internacional e dezenas de milhares de dólares foram arrecadados em todo o mundo para pagar os custos da defesa. Manifestações eclodiram em todo o mundo a favor dos acusados. A embaixada norte-americana em Paris sofreu um atentado a bomba e na embaixada em Lisboa, uma segunda bomba foi interceptada.

Sacco e Vanzetti, foram levados a um julgamento marcado por uma sucessão de arbitrariedades e erros. Para começar, nenhum dos dois conseguia se expressar fluentemente em inglês. Também pesou o fato de ambos terem se refugiado no México, anos antes, para não servir o Exército durante a guerra.

Diante de tais acusações Sacco respondeu indignado: “Durante treze anos, trabalhando duro, não consegui juntar dinheiro no banco. Não consegui que meu filho fosse para um colégio (...)". Sobre suas posições diante da guerra afirmou: "Trabalhei com irlandeses, com alemães, com franceses. Amo-os tanto quanto poderia amar minha mulher e o povo que me recebeu (...) por isso não acredito na guerra”.


Uma defesa bem fundamentada acirrou a disputa judicial. Cerca de 100 testemunhas prestaram depoimento ante o tribunal do júri em favor dos réus. Tudo foi desconsiderado. As testemunhas de acusação, sob forte pressão de opinião pública conservadora se contradiziam. E, em julho de 1921, Sacco e Vanzetti foram julgados culpados e condenados à pena capital.

A defesa recorreu. Enquanto o julgamento permanecia em discussão, Sacco e Vanzetti aguardavam no “corredor da morte”. Mas o jogo já havia sido jogado. Tudo já havia sido arrumado. O caso já estava encerrado.  


O preconceito étnico e de classe conduziu o júri a condenar à morte dois homens sem provas conclusivas. Poucas horas antes da execução, o sapateiro deu uma declaração sobre o longo processo de erros e desacertos a que foi submetido:

“Estão determinados a nos matar, sem se importar com as evidências, com a lei, com a decência. Se nos concederem um adiamento esta noite, será para nos matar na semana que vem. Vamos terminar logo com isso. Esperei sete anos para morrer sabendo o tempo todo que eles queriam nos matar”. 

Vanzetti citou Santo Agostinho: “O sangue dos mártires é a semente da liberdade”

 Bartolomeu Vanzetti morreu com 39 anos de idade, e Nicolau Sacco com 36 anos. Eles foram executados em 23 agosto de 1927.

“Estão matando um inocente. Não se esqueçam. Estão matando dois homens inocentes”, gritou Vanzetti.


Sacco, por sua vez, escreveu uma carta para seu filho no qual afirmava: “Eles podem crucificar os nossos corpos hoje, como estão fazendo, mas não podem destruir nossas idéias que permanecerão (...). Lembre-se sempre dos dias de alegria e não use tudo apenas para você, desça um degrau e ajude sempre os mais fracos que gritam por ajuda, ajude as vítimas e os perseguidos, porque estes serão os seus melhores amigos”.

Em 23 de agosto de 1977, passados 50 anos da execução, o governador de Massachusetts, Michael Dukakis, emitiu uma nota afirmando que Sacco e Vanzetti não receberam um julgamento justo. A nota não valeu de nada. Duas vidas já haviam sido tiradas. A liberdade já havia sido assassinada e a justiça crucificada e enterrada.



SACCO & VANZETTI
TRAILER
COM MÚSICA DE
ENNIO MORRICONE E JOAN BAEZ
HERE'S TO YOU

sexta-feira, 21 de março de 2014


JOAN BAEZ

SWEET SIR GALAHAD


Escrita por Joan Baez em 1969, a letra de Sweet Sir Galahad conta a história do sofrimento de sua irmã, a cantora folk Mimi Fariña, com a morte do primeiro marido e seu segundo casamento, três anos depois.

Mimi havia se casado aos 17 anos com o escritor Richard Fariña, que alguns anos depois escreveu “Tanto Tempo na Pior que o que Pintar É Uma Boa”, livro que se tornaria um dos símbolo da contracultura dos anos 60, que culminou com o festival de Woodstock, em 1969.

Dois dias depois do lançamento do livro, durante a festa de aniversário de 21 anos de Mimi, Richard saiu para dar uma volta na moto de um dos convidados. Ao fazer uma curva, o motorista perdeu o controle da moto. Richard foi arremessado contra uma cerca de arame farpado e morreu na hora.

Três anos depois, no dia 7 de setembro de 1968, Mimi se casou com o produtor musical Milan Melvin, durante o festival Big Sur Folk. Encantada pela visão de sua irmã vestida de noiva após anos de luto, Joan Baez compôs Sweet Sir Galahad.

O cunhado, sedutor e com cabelos longos, é retratado como Sir Galahad, cavaleiro do rei Artur que é símbolo de galanteio e pureza. Na lenda, Sir Galahad é o cavaleiro que depois de anos de busca, encontra o Santo Graal e ascende aos céus.

A música Sweet Sir Galahad fez parte do show de Joan Baez que encerrou o primeiro dia do festival de Woodstock, no dia 15 de agosto de 1969. Antes de cantar, Joan disse que essa era a única música de autoria própria que ela tinha coragem de cantar em público.


SWEET SIR GALAHAD
JOAN BAEZ
FWOODSTOCK
1969





JOAN BAEZ EM PORTO ALEGRE



DO CORREIO DO POVO




Em um mês onde muitos brasileiros querem lembrar para esquecer ou revisar os anos 1960, por causa do golpe de 1964, uma das principais vozes do ativismo político pela música daqueles anos mágicos nos Estados Unidos e Europa e de chumbo no Brasil, fez um show emocionante, irrepreensível e recheado de canções de protesto em inglês, espanhol e português durante 1h23min, na noite desta quarta-feira no Auditório Araújo Vianna.

Após um curto show de abertura da gaúcha Vanessa Longoni, que apresentou músicas dos seus dois CDs, Ouro de Oslo e Canção para Voar, a musa da contracultura com 55 anos de carreira, Joan Baez, de 73 anos, subiu ao palco às 21h15min, com o seu violão, a sua voz, o seu carisma, acompanhada dos músicos Dirk Powell (acordeon, violões, banjo e piano) e Gabriel Harris (percussão). 

Um pouco atrapalhada e contando com o apoio da assistente, técnica afinação de violão e também vocalista Grace Stumberg, Joan leu em português o tema da primeira música God is God, de autoria de Steve Earle, música que abre o mais recente disco da cantora, compositora e instrumentista, “Day After Tomorrow”, de 2008. “Eu acredito em profecias e milagres. Há um só Deus. Deus é Deus”, disse.

Logo após disparou a primeira do ex-namorado da década de 60, Bob Dylan, “Farewell Angelina”, seguindo também com a clássica balada folk “Lily of the West”, seguida da hispano “La Llorona” e da música de Woody Guthrie, “Deportees”, que fala de emigrantes mexicanos que morrem no avião quando são deportados dos Estados Unidos de volta ao México. 

Na sexta música, novamente o espectro de Dylan acompanhou Joan com a execução de It´s All Over Now Baby Blue, (que ganhou no Brasil uma linda versão chamada Negro Amor, de Zé Ramalho, cantada por nomes como Gal Costa e Engenheiros do Hawaii).

Depois de apresentar os dois músicos que a acompanham, Joan Baez começou a conquistar ainda mais o público cantando “O Cangaceiro”, do filme homônimo de 1953. “Olé, mulher rendeira, olé mulher renda, tu me ensina a fazer renda e eu te ensino a namorar”, emendando com a marchinha “Acorda Maria Bonita”, seguindo “levanta vem fazer o café, que o dia já vem raiando e a polícia já está de pé”. 

Com o público em alta rotação, Joan passou a um clima mais intimista com a música de autoria de Dirk Powell, que assumiu o piano Person para um arranjo simplesmente emocionante de “Just The Way You Are”, seguida pela faixa-título do último disco, “Day After Tomorrow”.

Puxando a filas das músicas de protesto, Joan cantou “Swing Lot, Sweet Chariot”, que ela cantou na Marcha por Trabalho e Liberdade em Washington, em 1963, no célebre discurso do sonho de liberdade e igualdade de raças de Martin Luther King.

Claro que com um papel na mão, lendo a música em português, Joan emendou com “Pra Não Dizer que Não Falei de Flores”, de Geraldo Vandré: “Caminhando e cantando e seguindo a canção...”, diante do coro fervoroso de quase 3 mil vozes. 

Até o fim da primeira parte do show, antes do bis, Joan cantou “House of the Rising Sun”, “Joe Hill”, a folk Give me Cornbread When I´m Hungry, brincando com os hábitos dos gaúchos e brasileiros no seu português enrolado, de comer churrasco e tomar cachaça quando se está com fome e sede.

A primeira parte do show terminou com Gracias a La Vida, da chilena Violeta Parra, eternizada por Mercedes Sosa.

O bis foi emocionante com Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, de 1973, e Imagine, de John Lennon, duas músicas de resistência e protesto contra a ditadura, as guerras e outras injustiças do mundo. “Pai, afasta de mim este cálice” e “And the world will live as one” (e o mundo viverá como um só).

Uma noite para ficar na memória pela viagem no tempo nas canções e na história do mundo nos últimos 55 anos. Viva Joan Baez.


JOAN BAEZ EM PORTO ALEGRE


POR GUSTAVO BRIGATTI


DA ZERO HORA




Foram 33 anos de espera para ver e ouvir uma das maiores musas da contracultura. Uma demora que, pela reação da audiência, valeu a pena. Demonstrando um domínio raro de público e repertório, Joan Baez finalmente estreou em solo brasileiro, na noite desta quarta-feira, no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre. Da Capital ela segue para shows com ingressos esgotados no Rio, São Paulo e Recife.

Por aqui, Joan, 73 anos, encontrou um Araújo Vianna cheio – cerca de 2,8 mil pessoas saíram de casa para assistir a uma das figuras centrais da música folk voltada para o combate político e a denúncia social. E assistiram como se no palco se desenrolasse um culto, entremeando momentos de silêncio absoluto com explosões de catarse coletiva.

Os momentos de silêncio foram reservados, por exemplo, às canções que eram pouco conhecidas da maior parte da audiência – como a primeira faixa da noite, God is God, do seu disco mais recente, Day After Tomorrow (2008). Ou a doce Just the Way You Are, com Joan acompanhada apenas de piano e sua assistente fazendo segunda voz. Ou Flora, sucesso do cancioneiro de Peter, Paul and Mary.

Nas vezes que explicou, com a ajuda de uma "colinha" em português, o que uma determinada música queria dizer, também fez-se silêncio – até para, depois, rir com ela de sua inabilidade com o idioma.

Maior que o silêncio foi a exaltação do público – a começar pelo segundo número do show, Farewell Angelina, de Bob Dylan, recebida com aplausos e assovios. O ex-namorado apareceria mais uma vez e com a mesma boa reação do público em It's All Over Now, Baby Blue.

Bem recebida também foi House of the Rising Sun, clássico do repertório dos Animals e que ganha em emoção na voz suave, mas firme, de Joan. Emocionante também foi sua interpretação de Gracias a La Vida, pedida insistentemente pela plateia durante boa parte da apresentação.

A prova definitiva do quanto a cantora conhece seu público, no entanto, foi a inclusão de duas emblemáticas canções brasileiras de protesto. A primeira, Pra Dizer Que Não Falei das Flores, levantou a multidão, que cantou de olhos marejados e punhos cerrados como se 2014 e 1964 fossem separados não por 50 anos, mas por 50 dias.

Cálice, de Chico Buarque, que Joan já vinha cantando em suas apresentações pela América do Sul, dispensou a cantora do microfone, que deixou a cargo do público seu refrão.

O encerramento veio com Imagine – que bem poderia ter sido substituída por Blowin' In the Wind, prevista inicialmente no set list. Mas para quem esperou 33 anos, não dava para reclamar.

quarta-feira, 19 de março de 2014


JOAN BAEZ NO BRASIL


POR GAZETA DO POVO



Um dos ícones da contracultura, a cantora Joan Baez se apresenta no Brasil entre 19 e 23 de março. Será o primeiro show da madrinha do folk no país: em 1981, em sua primeira visita, o governo militar a proibiu de cantar em São Paulo e no Rio – capitais onde ela agora tem espetáculos marcados, além de Porto Alegre.

Aos 73 anos, a ativista e pintora diletante fará uma turnê pelo país (passando antes por Argentina, Uruguai e Chile), trazendo no bojo do seu violão músicas que formam a trilha sonora de uma geração e que ganharam sua interpretação personalíssima – como “Blowin’ in the Wind” (Bob Dylan), “Imagine” (John Lennon), “The Night They Drove Old Dixie Down” (The Band) e “Gracias a la Vida” (Violeta Parra).

Também haverá espaço para canções de sua autoria, como “Diamonds & Rust” e “Be Not Too Hard”, e faixas de seu disco mais recente, Day After Tomorrow (2008), recheado por músicas de Tom Waits (a faixa-título), Elvis Costello (“Scarlet Tide”), Patty Griffin (“Mary”) e Steve Earle (“God Is God”), que também produziu o disco.

Bastante elogiado, Day... colocou Joan novamente nas listas de mais vendidos depois de 30 anos. Bem-humorada, a cantora fala nesta entrevista sobre política, música e até sobre o ex-namorado Bob Dylan.




Você pertence a uma geração de artistas que acreditavam que a música tinha uma função política e social. Essa crença não parece existir mais hoje.
Acho que o que falta hoje é senso de comunidade. Muita gente tem feito muita coisa boa, mas sem esse sentimento que nós tínhamos nos anos 1960, o sentimento que nos foi dado por Martin Luther King – ou até mesmo por Barack Obama, quando ele discursava há dez anos. Com Obama, foi um fenômeno estranho, que eu realmente não entendia, mas, pela primeira vez em muito tempo, sentia novamente aquela força que aproximava as pessoas.

Obama não faz mais com que você se sinta otimista, é isso?
Nunca fui muito otimista, para ser bem sincera (risos). Principalmente com relação a partidos políticos, Casa Branca, essas coisas. Se Barack Obama tivesse decidido não concorrer a presidente e se tornasse parte de um movimento, acho que ele teria feito muito mais progresso, porque poderia captar aquele sentimento de que precisávamos. Estou convencida disso. Mas, uma vez que decidiu concorrer a presidente, precisou entrar num esquema típico de quem quer esse tipo de cargo, e aí não há nada que se possa fazer.

E na música, existe quem faça a diferença hoje?
Não gasto muito tempo descobrindo novos artistas. As pessoas acham que sim, mas o que eu mais faço mesmo é pintar, no meu ateliê, cercada de silêncio (risos). Não sou de forma alguma uma expert no que está acontecendo no mundo da música, não tenho como opinar. Às vezes, me pego apaixonada por algum disco, tipo do Willie Nelson, e fico uma semana inteira ouvindo (risos). E, quando quero dançar, coloco um Gipsy Kings. Na verdade, tudo parece ser uma versão estendida das bobagens que eu ouvia quando tinha 17 anos, como uma rebelião contra aquela superficialidade. Agora, a música virou entretenimento. E as pessoas que têm algo a dizer simplesmente não encontram espaço ou alguém para ouvi-las em larga escala.

Mas você mantém contato ainda com o pessoal da cena folk dos anos 1960, certo?
Muito pouco. Às vezes, encontro Jackson Brown, Bonnie Raitt, Emmylou Harris... Até porque nunca fomos muito próximos, nós não moramos perto nem nada. Na nossa vida, temos cinco ou seis amigos próximos e, naquela época, nós não tínhamos esse tipo de amizade. 

Nem com Bob Dylan? 
Dylan não tem jeito, ele não tem amigos próximos (risos). Qualquer coisa que as pessoas imaginem sobre eu e Dylan, diga a elas para... esquecer (risos). Fiquem com as belas canções, apenas.

Fonte: Jornal Gazeta do Povo

JOAN BAEZ EM PORTO ALEGRE


''Os anos 60 nunca mais serão repetidos'', diz Joan Baez


POR CORREIO DO POVO



Ela foi a maior expressão feminina da contracultura nos anos 60 e participou ativamente daquela mágica, transformadora e explosiva década. Ela cantou "We Shall Overcome" durante a Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade, do célebre discurso de Martin Luther King, em 1963: "I have a dream" (eu tenho um sonho). Tocou em Woodstock, foi ativista contra a Guerra do Vietnã e inspirou Vlacav Havel em sua primeira luta pela República Checa.

A música e o ativismo político fizeram de Joan Baez uma das mais importantes compositoras e intépretes da geração dos anos 60.

A cantora de 73 anos se apresenta pela primeira vez em Porto Alegre, hoje, dia 19 de março, no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, com o show "An Evening With Joan Baez".

No Brasil, ela também fará show no dia 21 no Rio de Janeiro e no dia 23 em São Paulo. Nas outras capitais da América do Sul, como Buenos Aires (6 e 7 de março), Montevidéu (11 de março) e Santiago (14 e 15 de março), a turnê está sendo batizada de Gracias a La Vida, em alusão ao disco de 1974, todo cantado em espanhol, cuja faixa-título é a música de Violeta Parra, imortalizada por Mercedes Sosa.

No repertório, estão previstas canções clássicas na voz de Joan Baez como "Diamonds and Rust", "Deportee", "Imagine", de John Lennon, "Gracias a La Vida", de Violeta Parra; "The Night They Drove Old Dixie Down", da The Band; e "It´s All Over Now, Baby Blue", de Bob Dylan. Em 2008, a compositora e intérprete folk norte-americana comemorou 50 anos de carreira com turnês pelos Estados Unidos e Europa.

Também lançou o CD Day After Tomorrow, produzido pelo cantor e compositor Steve Earle, com composições de Earle, Elvis Costelo, T Bone Burnett, Patty Griffin. O álbum marcou a volta de Joan ao Top 200 da Billboard, alcançando na semana de lançamento a posição de número 128, após 29 anos, desde o disco Honest Lullaby, de 1979.


A cantora foi o principal nome das chamadas músicas de protesto, sendo inclusive proibida, em 1981, pelo Governo Militar de realizar shows no Brasil.

Joan foi quem impulsionou a carreira de Bob Dylan, em 1962, quando Robert Allen Zimmerman ainda era um desconhecido. Eles namoraram durante a década de 60. Em 1982, ela foi apresentada ao fundador da Apple, Steve Jobs - ele então com 27 anos de idade e ela 41. Eles namoraram durante algum tempo.

Entre as muitas honrarias concedidas a ela, uma delas é a Lifetime Achievement Award, a maior honra que a Academia de Gravação (Recording Academy) pode conceder.

Ao longo dos 56 anos de carreira, foram 32 álbuns de estúdios e dezenas de compilações. O mais recente álbum, “Day After Tomorrow”, foi elogiado pela crítica e indicado ao Grammy. Seu lançamento foi seguido pelo documentário “Joan Baez: How Swet The Sound”, da série PBS American Masters.

Em entrevista ao Correio do Povo, Joan Baez fala sobre a impossiblidade de repetir a atmosfera dos anos 60, sobre o show de março em Porto Alegre, a relação "zero" que tem com Dylan, os protestos ao redor do mundo, inclusive os do Brasil, sobre Mercedes Sosa e também o fato de levar uma vida mais reservada e quase não ouvir música no seu tempo livre.


Qual a diferença da música feita nos anos 1960 e nos anos 2000?
Há uma grande diferença. Os anos 60 nunca mais serão repetidos. Aqueles 10 anos foram cercados de mágica, por uma explosão de talento e com uma atmosfera política ímpar. Alguns grupos mais jovens nos anos 2000 no rock e até mesmo no folk estão tentando criar esta atmosfera, aproveitando a divulgação pela internet, pois sentem que precisam preencher este espaço vazio do ativismo e da tomada de consciência política, mas aquela atmosfera dos 60 não voltará mais. Foram os anos de Beatles, Rolling Stones, Joni Mitchell, Bob Dylan. Será difícil surgir tanta gente boa em uma só década.

Você participou da Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade, no qual Martin Luther King disse que tinha um sonho. Qual seria o seu sonho de direitos civis na atualidade?
O meu sonho é que os minimos direitos civis sejam respeitados. Que a aliança, o respeito e boa convivência entre os negros e brancos avance e seja uma realidade. O presidente Obama tenta fazer algo a respeito, mas ele não governa sozinho. Só o fato de ele ser um presidente negro fez com que nos últimos seis anos houvesse algumas mudanças radicais neste sentido. Muito ainda há de ser feito e gostaria que Obama não caísse na armadilha das reuniões matinais com militares e outros interesses que não os sociais.

Você conhece algo da música brasileira?
Eu não tenho ouvido muito música, nem em português ou espanhol, até mesmo em inglês. Um dia destes eu consegui ouvir alguns discos do Willie Nelson e gostei muito. Já conhecia a música dele, mas não tinha ouvido com calma. Do Brasil, eu me lembro de uma música, que era para a montadora Fiat e foi associada aos protestos das ruas em 2013, Come Out of the Street (Vem pra rua, interpretada pelo vocalista do Rappa, Falcão). Eu tenho vivido um pouco afastada, curtindo pequenos prazeres, como pegar os ovos das galinhas.

Como é a sua relação com Bob Dylan atualmente?
É zero, o que não me impede de ter os melhores sentimentos pela música dele e pelas canções que marcaram uma época e que continuarão sendo sempre imortais.

Você ainda compõe músicas? Quais os temas que ainda renderiam canções suas?
Eu compus durante mais de 30 anos, depois parei, não sei por quê. Se eu estivesse compondo, os temas seriam as mil mudanças pelas quais passa o mundo e sobre as coisas que teriam que mudar nos direitos civis, pobreza, guerras, estas coisas.

Uma das músicas que faz a sua conexão com a América Latina é Gracias a La Vida, de Violeta Parra, do disco de 1974, imortalizada por Mercedes Sosa. Você faz alguma alusão ou homenagem a Violeta ou a La Negra durante a apresentação?
A Mercedes Sosa foi uma das figuras mais importantes da música de integração latino-americana e de protesto de todos os tempos. Tive a oportunidade de fazer concertos com ela e o cantor alemão Konstantin Wecker e foram dias inesquecíveis. O som da voz de Mercedes e a mensagem das suas músicas eram como um presente para a gente. Para esta turnê, vou com certeza cantar esta música e reverenciar a sua história.

Uma mensagem ao público de Porto Alegre.
Eu espero que vocês sejam tudo aquilo que se fala do público brasileiro. Pessoas que amam a música e que participam dos shows com uma paixão inigualável.

Fonte: Jornal Correio do Povo