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quinta-feira, 24 de setembro de 2026


paiol de pólvora

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«em momentos de extremo perigo é fácil potencializar os estímulos morais; para manter sua vigência, é necessário o desenvolvimento de uma consciência em que os valores adquiram categorias novas. a sociedade em seu conjunto deve se converter em uma gigantesca escola»
ernesto guevara de la serna

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«pelos meus cálculos, os que dizem que todo poder corrompe, não se manifestam com muita clareza. o conceito, tão antigo, e tantas vezes injustamente utilizado, merece alguns reparos.
imaginemos se, ao contrário do estabelecido, quanto mais alto fosse um cargo, menos regalias e menor fosse o soldo. mais responsabilidade se desse ao ocupante e, numa razão inversa, aumentassem os sacrifícios. quantos se candidatariam ao poder, nessas circunstâncias?
alguma coisa me diz que corrompemos o poder quando fizemos dele um prêmio, de tal forma disputado, que, comumente, chega a envergonhar a própria espécie humana.
tudo por causa de indivíduos que não se enxergam em seus tamanhos.»
deogar soares | voo livre, p. 80 e 81

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vote lula 2026

quando o cenário político eleitoral colocou frente a frente lula e brizola, eu escolhi lula. nunca votei em outro candidato para presidente que não fosse lula. não seria agora que o faria.

minha declaração de voto, no entanto, nesse momento é totalmente irrelevante. escrevo para uma bolha cada vez menor, conheço pessoalmente a maioria dos meus leitores e sei que a minha opinião sobre essas eleições não interfere de forma alguma no voto de quem quer que seja.

enfim, escrever para poucos me permite ser autêntico. aconteça o que acontecer, doa a quem doer, não mudo uma vírgula do que penso sobre democracia brasileira, eleições, lula e o pt.

sendo assim
em posição de enfrentamento aos padrões atuais
que impõem textos pequenos e sucintos
escrevi um textão
quem achar grande demais
e não quiser ler até o fim
fique à vontade
sei como é
na teoria
criticam-se os textos superficiais
mas
na prática
sujeita-se às regras do jogo
falando em jogo
jogo é o mesmo que eleição
falando em eleição
devo esclarecer que não sou candidato a nada
mas vamos à lógica petista e lulista de ser
segundo seus fiéis seguidores
tudo de bom que foi feito
entre 2002 e 2016
foi devido às grandes qualidades de lula, de dilma e do pt
e tudo o que não se pôde fazer
e o que de ruim se fez
foi por culpa da grande mídia e do sistema
bem
que me desculpem
os meus amigos petistas e lulistas
mas não penso assim
penso que quase tudo de bom
que o pt, lula e dilma fizeram
poderiam e deveriam ter feito melhor
e praticamente tudo de ruim que foi feito
na minha opinião
se explica mais pelos erros do pt
do que pelo sistema como ele é
não que o sistema não seja responsável pelas coisas como elas são
claro que é
mas
lembremos o velho ditado popular
diga-me com quem andas e te direi quem és
e o velho ditado romano
à mulher de césar não basta ser honesta precisa parecer honesta
noutras palavras
pompéia pode ou não ter traído césar mas os rumores precisam ser considerados
ou seja
parecer pode ser mais importante do que ser
a honestidade só é um valor se for publicamente reconhecida
quanto à corrupção
tema em questão nessa e em todas as eleições
gostaríamos
claro
que
nos governos do pt
a corrupção tivesse acabado
mas basta olhar para os lados
pra ver que ela não é uma questão de partido nem de estado
aliás
o «combate» à corrupção
por parte da mídia e das elites brasileiras
é mais forte em alguns períodos da história política brasileira
vide
vargas
jango
brizola
lula
dilma
talvez fosse interessante a esse monte de
paladinos da moral e dos bons costumes
se perguntarem assim
já me utilizei de benefícios sem merecê-los?
já pedi para o meu filho, menor de idade, comprar cerveja no bar da esquina?
já dirigi acima da velocidade permitida?
já bebi e dirigi?
já dirigi falando ao celular?
já ultrapassei em local proibido?
já entreguei a direção do meu carro ao meu filho menor de idade e/ou inabilitado?
já tentei enganar o imposto de renda?
já furei fila?
já isso e já aquilo?
já, claro que já
ah, vão se catar
a quem vocês pensam enganar?
pobres coitados
vocês às vezes me dão vontade de rir
outras de chorar
em suma
a corrupção
obviamente
não nasceu com o pt
ela não é culpa do pt
quem se lembra das promessas de fhc em 1994?
e da distribuição de concessões para rádios e tvs?
e de quanto custou rachar o pmdb?
delfim neto era feliz e não sabia?
quando?
nos tempos da ditadura?
quem se lembra do escândalo da mandioca?
e da coroa-brastel?
e de angra 1?
e de angra 2?
e dos poços do inocêncio (sic)?
todos sabemos sobre o aeroporto
mas nem todos sobre o mineirão
e menos ainda sobre a rádio arco-íris
e sobre o mensalão tucano
quem de nós sabe que aécio recebeu R$ 110 mil de marcos valério
e R$ 5,5 milhões da lista de furnas?
brasileiro é caipira?
aposentado é vagabundo?
brasileiro sabe votar?
ora, por favor, quem vai votar em dórias, moros e bolsonaros
vai votar literalmente em qualquer coisa
menos contra a corrupção
caros amigos e amigas
a corrupção é tão antiga quanto as sociedades humanas
lembram-se dos 30 dinheiros que judas iscariotes recebeu das autoridades romanas para revelar o paradeiro de jesus cristo? então, no renascimento, o grande foco de corrupção era o papado. alguém já ouviu falar da família bórgia? a família bórgia era a família do papa alexandre vi (1492-1503). pois não é que esta «santa criatura» transferiu dos cofres da santa sé para a sua família imensas fortunas. que pecado! teria ele caído em tentação ou cometido corrupção?
«não há santos vivos»
aliás
com relação a quem é santo
ou não
vou aproveitar para esclarecer uma questão
viva a revolução
mas não é porque fidel morreu
que vou considerá-lo santo
santo
pra mim
só tem dois
um é san ernesto
o outro é san deogar
por quê?
porque ambos disseram não a um sistema que funciona com base na corrupção
contudo
para que não recaiam dúvidas sobre o que estou dizendo
vou procurar ser mais claro
considero lula
dilma
olívio
tarso
marroni
ivan
e jurandir
---todos, junto com deogar, candidatos que ajudei a eleger com meu voto ---
pessoas da mais absoluta dignidade honradez e probidade
não me arrependo de nenhum dos meus votos
muito pelo contrário
tenho o máximo orgulho das escolhas que fiz
aliás
diga-se de passagem
sou bastante exigente na hora de dar meu voto
eu não voto em quem idolatra torturador
eu não voto em quem fala que o erro da ditadura foi ter matado pouco
eu não voto em quem diz que preferia ver o filho morto do que sendo gay
eu não voto em quem diz abertamente que é contra a democracia
eu não voto em golpista
eu não voto em arrependidos de plantão
eu não voto em traidor
eu não voto em quem fugiu pra paris
e mais uma lista de aberrações
que são tantas que não dá nem pra listar
é conveniente
nessas circunstâncias
que busquemos na etimologia
o significado das palavras
candidato
por exemplo
é uma palavra que
desgastada pelo uso
traz em si uma verdade que vale a pena recuperar
velas, candidatos, inocência
acendalha, acender, candeeiro, candeia, candelabro, candelária, candente, candial, candidato, candura, encandear, incandescente, incêndio, incenso, recender, sândalo
difícil imaginar uma relação entre assuntos tão díspares, não?
pois aqui está mais uma das surpresas da etimologia:
todos eles se combinam com o sentido de palavras pertencentes a um mesmo grupo
senão vejamos
o indo-europeu tinha uma palavra, kand-, «brilhar, emitir luz», ela viria a ser cand, em sânscrito, com o mesmo sentido.
em grego passaria a formar a palavra kandaros, «carvão», já que ele emite luz e calor quando aceso.
o latim usaria essa raiz no verbo candere, «ser brilhante, branco, queimar», que nos deu grande número de verbetes.
CANDEIA – pouco usado entre nós, é o mesmo que «vela» (a de acender, não a de barco).
em espanhol se usa candela, exatamente como se dizia em latim para «vela, tocha».
os gregos parece que não tinham palavra para isso, pois não usavam essa forma de iluminar. eles se ajeitavam muito bem usando lamparinas a óleo.
as velas eram já conhecidas dos etruscos e dos romanos, no entanto, eram uma forma de levar o óleo em forma sólida, sem derramar, isto era uma grande vantagem para o transporte comercial, pois se deixava de depender das ânforas, que podiam se quebrar. atualmente, candela é usada em nosso idioma como unidade técnica de medida de intensidade luminosa.
CANDELÁRIA – é uma festa católica com velas ou tochas, em honra à purificação da virgem maria. é nome de igrejas, bairros e cidades em nosso país. em inglês, a festa tem um nome com a mesma origem, candlemass, «a missa das velas».
CANDELABRO – do latim candelabrum, «candelabro», objeto onde são colocadas várias velas de uma vez. hoje são apenas elementos decorativos em nossas casas, mas houve época em que eles eram uma das poucas maneiras de se ter um mínimo de luz dentro de casa à noite.
CANDEEIRO – deriva de candela e designa uma lâmpada de óleo ou, modernamente, um artefato para iluminar, como lâmpadas de rua ou de interior de casas.
INCANDESCENTE – do latim incandescere, «estar em brasa, estar pegando fogo», seja descrevendo uma situação física, seja uma disposição sentimental. é melhor não chegar perto demais do que está incandescente, alguém pode se queimar, por dentro ou por fora.
CANDENTE – tem o mesmo significado da palavra acima, porém com um uso mais poético: «minh'alma candente por ti se abrasa, por teu sono vela», dirá um poeta apaixonado, merecendo a resposta «pare de escrever bobagens».
CANDURA – da noção visual de «branco, luminoso», por extensão se pensa na metáfora moral de «pureza, ausência de má intenção, inocência».
CANDIDATO – os romanos distinguiam entre dois tipos de branco:
o branco comum era chamado albus. em roma havia tábuas branqueadas com gesso colocadas em lugares públicos. nelas eram escritos os editos dos pretores, determinações do sumo pontífice e outras manifestações de interesse público.
na forma neutra, album, chegou até os nossos dias, designando um suporte físico para colocação de recortes, fotografias, etc.
com as fotos digitais, parece que os álbuns estão com os dias contados. eles passarão a fazer parte da memória dos computadores.
mas havia o candidus, o branco brilhante, o branco aquele de propaganda de sabão em pó. quando uma pessoa desejava assumir um cargo público, passava a vestir uma túnica branca. se o povo achasse que ela não tinha condições para tal cargo, encarregava-se de atirar sujeira nessas vestes, de modo a mostrar que o assim chamado candidatus era desagradável a um grande número de pessoas. uma lavanderia destinada a limpar togas brancas de candidatos faria um dinheirão em certos países, se essa instituição voltasse.
CANDIAL – esta sim é pouco conhecida. designa um tipo de trigo duro, trigo candeal em espanhol...
– mas o que diachos tem trigo a ver com o assunto?, – pensarão muitas pessoas.
– muito – dizemos nós. esse trigo dava uma farinha muito branca; em razão disso, recebeu um nome que lembra claridade. e há mais um fato inteligente: este tipo de trigo se chamava milium em latim, derivado de mille, «mil», por ter numerosos grãos na espiga. tal nome foi aplicado depois a outra planta, uma gramínea levada pelos conquistadores espanhóis para a europa, que viria a ter o nome científico de zea mays e que virou o atual milho.
o verbo candere, «queimar», formou, para efeitos de composição de palavras derivadas, o sufixo cendere.
entre estas, encontramos:
ACENDER – a mais óbvia, querendo dizer «colocar fogo, incendiar», de ad-, «junto», com candere. daí temos também o acendedor que nos ajuda a fazer a chama do gás em nossos fogões.
INCÊNDIO – do latim incendium, «fogo, calamidade, conflagração», formado por in-, «em», mais candere, ou seja, «colocar fogo em».
INCENSO – do latim incensum, «aquilo que queima». entre os povos antigos existia a noção de que os sacrifícios feitos aos deuses deviam ser queimados para que o cheiro da oferta chegasse às suas narinas, no olimpo ou onde quer que estivessem. este era um ato feito per fumum, «através do fumo, da fumaça», o que originou o nosso perfume.
RECENDER – falando em perfume… este verbo, que significa «espalhar um cheiro», vem de re-, intensificativo, mais candere, tudo o que é queimado lança algum tipo de cheiro no ar, resultado da volatilização de seus componentes.
SÂNDALO – pelo visto, está difícil sair do assunto dos perfumes. o nome desta madeira aromática passou pelo latim sandalum, pelo grego santalon, pelo persa sandal, desde o sânscrito candana-m, nome dado à árvore que produz esta madeira, significando «madeira para queimar e perfumar». este nome veio direto de candrah, «brilhante, luminoso», com a mesma origem de candere.
existe um antigo ditado pacifista que diz «sê como o sândalo, que perfuma o machado que o fere». bonito, para quem consegue. e mais bonito ainda para o machado…
ACENDALHA – outra palavra de pouco uso, pelo menos no brasil. refere-se ao material (folhas secas, gravetos, palha) de fácil combustão a ser usado para começar um fogo.
não custa lembrar que
folha seca
graveto
e palha
atrapalham o nascimento
e o crescimento de folhas verdes
resumindo
candidato vem do latim candidatus
isto é
vestido de branco
(candidus)
na antiguidade
aquele que disputava um cargo público e precisava angariar votos vestia-se de branco para simbolizar sua pureza
e aqui caímos num dilema
«não há santos vivos»
e se não há santos vivos
não há CANDIDATOS
só vejo uma saída
então
ressuscitar san ernesto e san deogar
mas
como não acredito em milagres
a única saída que vejo
é jogar tudo pelos ares

grill

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estamos trancados no paiol de pólvora
paralisados no paiol de pólvora
olhos vendados no paiol de pólvora
dentes cerrados no paiol de pólvora
só tem entrada no paiol de pólvora
ninguém diz nada no paiol de pólvora
ninguém se encara no paiol de pólvora
só se enche a cara no paiol de pólvora
mulher e homem no paiol de pólvora
ninguém tem nome no paiol de pólvora
o azar é sorte no paiol de pólvora
a vida é morte no paiol de pólvora
são tudo flores no paiol de pólvora
tv a cores no paiol de pólvora
tomem lugares no paiol de pólvora
vai pelos ares o paiol de pólvora

clique no título para ouvir

(vinicius & toquinho, 1973)

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 15 de setembro de 2026


viver é prazer
(prazer é escrever)

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«a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida»

vinicius de moraes

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«a vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. a vida serve para você se criar»

bob dylan

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o faze(dor)
ao outro, a borges, é que sucedem as coisas. pouco a pouco vou cedendo-lhe tudo, embora conheça seu perverso costume de falsear e magnificar. spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar em seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra e o tigre um tigre. eu permanecerei em borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros ou do que no laborioso rasqueado de uma guitarra. há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de borges e terei que imaginar outras coisas. assim minha vida é uma fuga e tudo eu perco e tudo é do esquecimento, ou do outro. não sei qual dos dois escreve esta página.
jorge luis borges

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autopsicografia

o poeta é um fingidor
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

e os que lêem o que escreve,
a dor lida sentem bem,
não as duas que ele teve,
as só a que eles não têm.

e assim nas calhas de roda
gira, a entreter a razão,
esse comboio de corda
que se chama coração.

fernando pessoa

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«sinta mais, pense menos»

bukowski

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sentir, penso, logo sinto
sorrir, apesar de tudo, ir fundo
pois o mundo é o mundo
é o mundo, é o mundo

(bicho de 7 cabeças, 1993)

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a ilusão do espelho
quem lê um poema de dor acha que o poeta chora enquanto escreve. quem lê um poema de amor jura que ele está apaixonado. mas a verdade é que a poesia é emancipação: o poeta consegue cantar o sol estando na mais profunda tempestade, ou escrever sobre o abismo enquanto toma um café tranquilo em uma tarde de sol. a palavra vira poesia; a vida segue seu próprio rumo.
grill

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todo dia eu saio por aí tentando descobrir
o que ninguém já houvesse descoberto algum dia
thomas edson já descobriu a luz
beethoven a nona sinfonia
jesus cristo descobriu a cruz
os poetas descobriram a poesia, desista
pedro álvares cabral já descobriu o brasil
pelé já fez de gols pra lá de mil, desista
os blacks descobriram o blues
os palhaços descobriram a alegria
casanova descobriu como seduz
tem gente bem na frente
já faz tempo já faz dias, desista
até você meu bem foi descoberta
mas vou cobri-la para que não sintas frio
nua debaixo dessa coberta
porque quem descobriu já descobriu

(bicho de sete cabeças, 1993)

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ao vento

viver é prazer
se viver é esforço
e esforço é sofrer
eu quero morrer

grill

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sei que vou morrer, não sei o dia
levarei saudades da maria
sei que vou morrer não sei a hora
levarei saudades da aurora

quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba
quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba
quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba

(ataulfo alves por itamar assumpção - pra sempre agora, 1996)

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antes do fim

♦

«o dom você o tem. nunca se esqueça.»

johnny cash

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1. escrever me faz bem, me mantém sóbrio, me mantém vivo.

2. o que determina meu estado de espírito não é o conteúdo do que escrevo e sim a frequência com que escrevo.

3. quanto mais escrevo, melhor eu me sinto.

repetindo: não importa o que escrevo, o que importa é estar escrevendo. não importa o que digo, o que importa é estar dizendo.
quando digo escrever
digo viver
o corpo envelhece,
o cabelo embranquece
mas a palavra permanece.

o que o poeta escreve é alquimia,
não biografia.

agora volto ao meu ser:

dentro de mim há um mundo nascendo, fora de mim há um mundo morrendo.

como resolvo essa contradição?

escrevendo.

♦

viver é prazer
prazer é escrever
e agradecer

♦

fui dotado com uma voz de ouro,
e os meus amigos se foram, meu cabelo já embranqueceu,
eu me dou mal no negócio em que os outros se dão bem,
mas estou entregue ao amor e pago o aluguel todo dia
na torre da canção.

(leonard cohen, 1988)

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«o eu não é senhor na sua própria morada.»

sigmund freud | uma dificuldade no caminho da psicanálise, p. 171.

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casa de poeta não tem porta

pagar aluguel significa ser inquilino do próprio dom.
o dom cobra aparição e produção;
exige exposição.
a poesia não pertence ao poeta — pertence ao dom.
o poeta é a casa por onde a poesia passa,
o vento entra,
a vida passa,
o poeta é só vidraça:
o mistério bate e racha.

grill

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há uma rachadura, uma fenda em tudo
é assim que a luz entra

(the future, 1992)

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tela: bob dylan

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

domingo, 13 de setembro de 2026


no jardim da política
[ou: na terra de noel]

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«se o néscio persistisse em sua nescidade, ele se tornaria sábio.»

william blake

.

não vou tirar meu chapéu
p'ra qualquer vagabundo
nasci na terra de noel
sou cidadão do mundo

josias sobrinho

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no final do post de ontem, eu disse que, mesmo sem dinheiro e perdendo a razão, ainda me restava o direito de ser consciente da situação. que situação? a situação de impasse. que impasse? o impasse da frente ampla  — impasse, aliás, apontado por andré singer:

«diante desta etapa regressiva, torna‑se obrigatório construir a frente mais ampla possível para preservar e aprofundar o regime democrático. dadas as contradições de classe envolvidas na coalizão resultante, todavia, o artefato frentista se paralisa, impedindo o salto de qualidade necessário para formar uma maioria sólida em torno do objetivo almejado.»
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dito isso, vamos ao que viemos

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há dez mil anos atrás, numa postagem minha no facebook, na qual falava sobre a foto de lula abrazado a sarney, uma companheira amiga minha, contemporânea do lad (livres atuadores pela democracia), fez o seguinte comentário:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo candidato pra derrotar o bolsonaro, glauber braga se lançou pelo psol. quem sabe combateremos o nazifascismo em rodas de ciranda, néh 😉»
ao que eu respondi:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo argumento para nos abrazarmos a sarney e cia: o nazifascismo. aliás, o nazifascismo, para petistas e lulistas, muda de cara a cada quatro anos. em 2002, a cara era uma; em 2006, outra; em 2010, outra; e, em 2014, outra. e o final deste filme, sabemos qual é. mas que importância isso tem? nenhuma. o que importa é que a gente vença e passe mais 10, 12, 14, 16 anos no governo. depois, se nos tirarem de novo, a gente vê o que faz. mas não te preocupa, companheira, minha opinião não tem valor algum. ainda tô no jardim da infância da política, de onde, por sinal, não tenho o menor interesse de sair. 😉»

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de farsa em farsa, a «nova república» morreu
a expressão «nova república» foi cunhada há 31 anos, quando josé sarney assumia a presidência do país, na qualidade de vice de um agonizante tancredo neves, eleito indiretamente pelo colégio eleitoral inventado pela ditadura. em seu discurso de posse, escrito por tancredo, o imortal autor de marimbondos de fogo anunciava: «brasileiros, começamos hoje a viver a nova república». a expressão pretendia anunciar o advento da democracia. a farsa não poderia ser mais perversa e descarada: ignorando a vontade de milhões que expressaram nas ruas a exigência por eleições diretas, o poder era entregue a um líder da arena – principal partido de sustentação dos generais –, sem que qualquer instituição do antigo regime fosse desmantelada, ou os seus responsáveis julgados e muito menos punidos.
josé arbex jr.
abril de 2016

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«há quem diga que essa história de desobediência civil e revolução, não tá com nada. isto é, já era. «não tá com nada» pode ser que sim, «já era» penso que não. por quê? porque aqui no brasil, salvo uma ou outra exceção — vide a balaiada no maranhão — isso jamais aconteceu. portanto, não se pode dizer «já era» para uma coisa que nunca foi.»

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ontem, aqui no blog, reproduzi o trecho acima. hoje, ao entrar no whats, havia a seguinte mensagem para mim: «ah, fala sério que tu ainda acredita em desobediência civil e revolução...»

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uma fábula de natal

por fausto wolff
a minha mais bela noite de natal aconteceu numa (sei do cacófato) manhã. eu não era a criança que recebia os presentes, mas sim o papai noel que os dava. não aconteceu no brasil, mas em copenhague e nevava, como nos filmes de natal que os americanos mandavam para nós em programas duplos dominicais e que nós crianças pobres assistíamos, não acreditando que pudesse existir um país onde todos eram tão bons e se amavam tanto. antes, porém, de lhes contar minha performance como papai noel, devo lhes contar minha performance como vinícius de moraes.

tudo começou alguns anos atrás, vários graus abaixo de zero, fora e dentro do copo. uma dessas noites em que a angústia encontra-se com a solidão numa esquina do inconsciente, quando sentimos os nossos demônios dançando dentro de nós, informando-nos da nossa fragilidade e ignorância. numa dessas noites em que os pais de família apressam-se em ir para casa e ao pé da lareira tomarem chocolate quente e contarem histórias de hans christian andersen para os filhos. em se tratando de um país estranho, então, a solidão aumenta consideravelmente e a angústia parece esmagar a psique como quem aperta uma borboleta na mão fechada. a solução, principalmente para quem não é uma pessoa séria e respeitável como é o meu caso, é unir-se com outros sócios do mesmo sindicato e ir armar uma zoeira até que, como diz drummond, venha a manhã trazer leite, jornal e calma.

entrei numa boatezinha de badstuestraede, se não me engano, e lá estavam outras moças e rapazes que se divertiam em torno de um piano, abraçando-se, beijando-se e tentando tirar sambas de tom e vinícius do teclado que negava-se a cooperar com dedos tão inábeis. uma jovem morena de pele muito branca chegou a cantar «felicidade» num portunhol de indisfarçável origem escandinava. terminei meu quinto uísque e dirigi-me com o sexto na mão até onde estava o grupo e mandei ver, falando em inglês para ninguém em particular:

– vocês não sabem o quanto eu estou emocionado. não sabia que gostavam tanto das minhas músicas por aqui, meu nome é vinícius de moraes.

vocês bem podem imaginar o que aconteceu: abrações, beijos, pedidos de canções, etc. auxiliado pelo pianista cantei «felicidade», «minha namorada», «eu não existo sem você», «chega de saudade», e todas as que eu sabia de cor e as que eu improvisava, pois afinal, no grupo ninguém sabia português e obviamente ninguém vira o bom vinícius nem mesmo por fotografia. a boate não estava cheia, de modo que nos adonamos do lugar mas no melhor da festa entrou um rapaz com aquele jeito de ser brasileiro no exterior que já entrou para o folclore da crônica nacional. ouvi quando o maître lhe disse que vinícius estava cantando e antes que ele pudesse responder eu já estava lhe dando um grande abraço, talvez até mesmo um pouco apertado demais, enquanto lhe sussurrava ao ouvido:

– vê se não estraga a minha festa, meu chapinha. olhe quantas moças bonitas ao redor do piano. se você souber tocar eu posso até lhe apresentar como o tom jobim. quando ele se desprendeu do abraço, disse aos berros para quem quisesse ouvir em forte sotaque nordestino: «vinícius de moraes seu cabra da peste, que bom te ver por aqui.»

tratava-se de um jovem cearense que estudava algo que não me lembro mais em malmo, na suécia e viera passar o natal com os pais da noiva que era dinamarquesa. mas não topou ser tom jobim, pois sua noiva iria encontrá-lo mais tarde no night-club, o que efetivamente se deu, quando o cearense, peito inflamado de orgulho, apresentou o grande poeta e compositor vinícius de moraes à sua bem amada.

quando o ex-futuro tom jobim retirou-se com a sua namorada já eram quatro da matina e eu estava traduzindo para o inglês para a pálida jovem de cabelos pretos que me olhava como se eu fosse um deus um dos meus poemas:

«...but inside the frame of a bed no other woman has been so beautiful...» («...mas dentro da estrutura de uma cama, nenhuma outra mulher foi tão bela...»)

era a época em que as comunidades estavam em moda na escandinávia e moças e rapazes moravam juntos em grandes e velhas casas que chamavam de colectivs e dividiam as despesas. lá fui eu para a colectiv e «no quiero dicir por hombre las cosas que yo y la morena hicimos pues que la luz del intendimiento me hace ser muy comedido».

por volta das 11 horas da manhã do dia seguinte encontrei quatro moças e cinco rapazes tomando café na grande mesa da sala, todos vestidos de papais noéis com longas barbas e bigodes brancos. um deles, entregando-me uma roupa de papai noel, disse-me:

– vinícius, veste isto aí que vamos a uma festa de caridade.

e lá fomos nós vestidos de papais noéis dentro da bela e fria manhã de 24 de dezembro pelas ruas de copenhague. repentinamente, vi-me dentro de uma grande magazin, uma espécie de «sears» ou «mesbla» local que se não me engano chamava-se «magazin du nord» ou «illum». a loja com departamentos em vários andares estava apinhada de gente. a um certo momento, a morena, que chamaremos de karen, ao meu lado, apanhou um brinquedo e deu para um menino:

– tome, isto é para você. presente de papai noel.

os demais papais noéis faziam a mesma coisa. apanhavam o que lhes caísse nas mãos e entregavam ao público que – acreditem – aceitava tudo com muita satisfação, pois que de natal se tratava. apesar dos protestos dos funcionários, centenas de pessoas foram presenteadas antes que a polícia chegasse. nós papais noéis, protegidos pelo público, fugimos nas mais diversas direções. havia tantos papais noéis pela rua principal que era impossível distinguir os legítimos, ou seja nós, dos falsos, ou seja, os que anunciavam produtos comerciais. ao longe vi um papai noel que gritava para mim:

– good-bye, vinícius, see you around! (– adeus, vinícius, até mais!)

entrei no toillete de um botequim e tirei a roupa do bom velhinho e saí com a minha que mantive por baixo, sentindo-me um misto de papai noel, super-homem e dom quixote. não mais solitário, não mais angustiado. o milagre de natal que eu tanto esperava desde o meu tempo de menino pobre acontecera.

se a história que contei é verdade ou não, é um problema que deixo com os leitores. a verdade que eu gostaria que, realmente, acontecesse neste natal de 1978 é a seguinte: gostaria que todos os leitores quando reunidos com suas famílias para festejar o aniversário de jesus cristo, tivessem um pensamento para com todos os presos políticos e mesmo os não políticos, os pobres ladrões de galinha, vítimas de um sistema penitenciário cruel e desumano, para que eles saibam que estamos com eles. e um pensamento especial para uma menina chamada flávia shilling, uma brasileirinha que há seis anos padece nos cárceres uruguaios. quem sabe, assim, conseguiremos anular as palavras de são tomás de aquino: «os olhos foram feitos mais para chorar do que para ver, pois cegos choram e não vêem.» nós que vemos, não sejamos cegos neste natal.
dezembro/1978

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«vou tratar [os 60 anos do golpe de 1964] da forma mais tranquila possível. estou mais preocupado com o golpe de janeiro de 2023 do que com o de 64. isso já fez parte da história, já causou sofrimento, o povo já reconquistou o direito democrático. os militares, hoje no poder, eram crianças naquele tempo. alguns nem eram nascidos»
luiz inácio lula da silva

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«o que eu não posso é não saber tocar a história para frente, ficar remoendo sempre, remoendo sempre, ou seja, é uma parte da história do brasil que a gente ainda não tem todas as informações, porque tem gente desaparecida ainda»
(idem)

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todo poeta é um profeta
1980. vinicius já quase não saía. só recebia os amigos mais íntimos. havia, na época, uma jornalista que insistia com uma entrevista. vinicius resistia até que um dia cedeu.
a primeira pergunta foi fulminante: - poeta, o senhor tem medo da morte? vinicius olhou nos olhos da moça e respondeu: - não. eu não tenho medo da morte, o que eu tenho é saudade da vida.
começava a década de 1980 --- mais conhecida como a década perdida --- e essa foi a última entrevista que vinicius concedeu.
tom Jobim recebeu a notícia em casa e, literalmente, caiu da cama.
chico buarque ouviu a notícia, acidentalmente, no rádio do automóvel, mudou o trajeto e foi direto para o cemitério.
toquinho, de volta do cemitério, roda a maçaneta da porta de entrada da casa do poeta e é tomado pela imagem de vinicius esticado no sofá da sala. mas o sofá está vazio. não há mais o que fazer. toquinho chora sozinho:
«meu deus, vinicius morreu».
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ao vento

ontem
pelas cinco da tarde
o céu ficou encarnado

não era vermelho de derrotado
era vermelho de envergonhado,
como se o dia tivesse medo
e não quisesse dizer de quê

ninguém falou nada
a cidade se fez de sonsa
e ficou calada 

no banheiro,
a toalha torcida dentro do balde 

o homem olhando aquilo
examinando o mapa
de um país derrotado

lá fora,
o sinal fechou

olá, como vai?
eu vou indo, e você, tudo bem?
tudo bem, eu vou indo correndo
pegar meu lugar no futuro, e você?

um rapaz enxugou a testa
uma velha segurou três sacolas
com o cuidado de quem carrega
três filhos no colo

um cachorro mijou no poste,
solene,
resolvendo um problema sério
igual presidente

o céu continuava vermelho

vermelho como a raiva
que a gente guarda
e finge que esqueceu

no fundo da gaveta,
no avesso do bolso,
na dobra da língua.

agora falando sério

hoje
segundo a previsão
começa a clarear cerca de 30 minutos antes
por volta das 6 horas 
já o pôr-do-sol ocorre às 18:18
se precisar da previsão do tempo completa é só falar!

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de volta ao começo

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minhas análises políticas não contribuem em absolutamente nada na luta contra jair bolsonaro e o nazifascismo. contribuiriam se eu fosse uma grande liderança e ou uma pessoa influente dentro da esquerda. o que nunca fui, nem nunca quis ser.
nem poeta eu sou
mesmo que fosse
de nada adiantaria
lembremos o que
a revolução russa
fez com maiakovski
maiakovski morreu
de incompreensão
o poeta tentou se enquadrar, fez poemas engajados-proletários, produziu cartazes revolucionários, mas sua criatividade, tida como excessiva e contagiante, chocava os comunistas retrógrados e, segundo dizem, não era entendida pelas massas.

esse é o ponto: o texto poético exige do leitor conexão.
assim sendo
às vezes eu me pergunto
qual a validade de fazer o que faço
aqui nesse espaço?
a resposta
meu amigo
está soprando
nos textos que faço
e que vou seguir fazendo
vai vendo

grill

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se me levanto cedo,
limpo e curado, lúcido e feliz,
e te digo: «vou para a mata
pra me aliviar de ti»,
sabe que trago dentro um tesouro
que me chega até a raiz.

clique no título para ver e ouvir

(silvio rodríguez, 1974)

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 8 de setembro de 2026


o primeiro dia
[porque a vida só se dá pra quem se deu]

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«cães amam seus amigos e mordem seus inimigos»

sigmund freud

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antônio maria, cronista e compositor pernambucano, frequentador da noite carioca, era muito amigo de vinicius. uma das atividades preferidas dos dois era, em fins de noite, seguir cães vira-latas pelas ruas a bordo de um «rabo de peixe», modelo de carro de luxo dominante na época. «a solidão pior é a do ser que não ama... e os vira-latas amam», dizia vinicius. numa dessas noites, os vira-latas os conduziram até a praia, onde avistaram um grupo de velhinhos fazendo exercícios, chefiados por um embrião da geração saúde. de copo na mão, com o dia amanhecendo, os dois ficaram quietos observando aquilo (que será isso?) por algum tempo. o silêncio foi quebrado por uma insólita proposta de vinicius:  
- maria, vamos fazer um pacto?

           - claro, peça o que quiser, vinicius...

- de hoje em diante, não vamos fazer jamais um só movimento desnecessário.

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recordar: do latim recordis, voltar a passar pelo coração. 

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estava lembrando vinicius de moraes, nesse encontro com antonio maria e de repente me reconheci na história com o desconforto de quem encontra uma foto antiga numa gaveta e demora alguns segundos para perceber que aqueles boêmios, poetas, músicos e filósofos de botequim, de imortalidade à flor da pele, convencidos de que o tempo era uma coisa que acontecia aos outros, sou eu, porra, eu sou dessa viagem e dessa geração, mesmo tendo nascido em outra.

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enfim,
minha ladainha
é sempre a mesma:
vinicius de moraes, e outros mais, 
não teriam espaço nos dias politicamente corretos de hoje. 
aliás, vinicius, antonio maria, sepé, zumbi, mariguela, guevara, lamarca... e por aí vai... a lista é grande... começa com meu pai.

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falando no meu pai
se alguém o vir
diga-lhe que estou bem
que hoje ando a 10
para chegar aos 100
e que hoje
é o meu primeiro dia
na fisioterapia

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de volta ao futuro

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até os 60
nada doía
tudo fluia
agora
do nada
tudo dói
menos o coração

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entrei na rua augusta
a 120 graus do chão precipitado com a chuva
mas sem direção a zero por hora entrei com pompa e circustâncias
próprias de um verão ensolarado em minha mente
por um sol bufão a zero por hora entrei na rua, a mi me gusta
a bruta inclinação o mundo visto desse jeito
é uma diversão a zero por hora entrei na rua em minha busca
de consolação apaixonado pelas moças
vindo em profusão a zero por hora
a zero por hora entrei estranho e a jovem guarda
me estendeu a mão pediu meu documento
e eu lhe disse: por que não? a zero por hora entrei na dela
como em filme de televisão pedi: me leva preso agora
no teu coração a zero por hora entrei em fria
mas fervendo em minha ilusão o amor é muito lindo
a 120 graus do chão a zero por hora

vitor ramil + marcos suzano
participação: jorge drexler

[clique no título da música para ouvir]

a zero por hora
(satolep sambatown, 2007)

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foto evandro teixeira churrascaria carreta rio de janeiro, 1979

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

segunda-feira, 7 de setembro de 2026


pátria mãe
[clique nos títulos para ver/ouvir]

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«o brasil não tem povo, apenas público. povo luta por seus direitos, público assiste de camarote»

lima barreto

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sabe a sensação de que nunca essa porra vai dar certo?
é feita pra dar defeito
pra ficar em aberto
a coisa de dar um jeito
a edição de um decreto
a mancha do preconceito
a falta de um papo reto

(celso viáfora e pedro viáfora, 2026)

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«no cemitério dos vivos
lima barreto passa dias e noites
chamando os lobos
para não dormir sozinho»

celso borges

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e agora o que faremos?
oosição.
a posição da poesia é oposição.
o poeta que o diga.

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revestres: você ainda acredita que a posição da poesia, como expressou em performance pelo brasil, é realmente a oposição?

celso borgs: sim, cada vez mais. o sentido da oposição poética é muito mais amplo. para mim, a posição da poesia é de enfrentamento político, de luta como cidadão e criador, não apenas partidária. a estrutura não gosta da gente, às vezes finge que gosta ou nos tolera. na verdade, prefere «poetinhas civilizados», domados, acadêmicos, e eu procuro na contramão disso.
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pra não dizer que não falei de flores

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circula pela internet um texto de martha medeiros que me foi enviado recentemente. gostei do que li. penso ser fundamental que escritores com espaço na grande mídia se posicionem a favor de lula e contra bolsonaro. ademais, trata-se de um texto politicamente correto e extremamente bem escrito, como é a maioria da obra da escritora gaúcha.

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ponto
nova linha

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brasil, 13 de dezembro de 1968

nesse dia é decretado o ato institucional nº 5 – o famoso e temido ai 5 – medida extrema do regime militar que lança o país numa longa e escura noite. vinicius de moraes está em lisboa para uma apresentação. os repórteres portugueses, embaralhando nomes e informações, conseguem lhe dizer o essencial. vinicius fica sem reação. o olhar é distante.

à noite, mesmo abatido, cumpre seu papel no teatro. portugal ainda está sob o regime férreo de marcelo caetano. a rádio e televisão portuguesa manda uma equipe para o teatro para fazer uma gravação do show. vinicius não se intimida.

no final, antes de dizer o último poema e cantar a última música, o poeta interrompe o show: «eu hoje gostaria de dizer a vocês umas palavras de muita tristeza. no meu país foi instaurado, hoje, o ato institucional nº 5. pessoas estão sendo perseguidas, assassinadas, torturadas. por isso, quero ler um poema.»

o poeta abre um exemplar de sua antologia poética, guardado sob a garrafa de uísque e, enquanto baden powell começa a dedilhar o hino nacional brasileiro, vinicius lê: «a minha pátria é como se não fosse, é íntima/ doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo/ é minha pátria. por isso, no exílio/ assistindo dormir meu filho/ choro de saudades da minha pátria».

trata-se do magnífico «pátria minha», um dos mais belos poemas escritos por vinicius de moraes. a plateia se extasia diante de versos como esses: «não te direi o nome, pátria minha/ teu nome é pátria amada, é patriazinha/ não rima com mãe gentil/ vives em mim como uma filha que és/ uma ilha de ternura: a ilha/ brasil, talvez».

a leitura de «pátria minha» ficará na memória dos portugueses como uma das mais bem acabadas expressões que puderam conhecer do amor à liberdade.

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porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
pátria, eu semente que nasci do vento
eu que não vou e não venho, eu que permaneço
em contato com a dor do tempo, eu elemento
de ligação entre a ação e o pensamento
eu fio invisível no espaço de todo adeus
eu, o sem deus!

tenho-te no entanto em mim como um gemido
de flor; tenho-te como um amor morrido
a quem se jurou; tenho-te como uma fé
sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
nesta sala estrangeira com lareira
e sem pé-direito.

(vinicius de moraes, 1968)
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naquela noite, em lisboa, à saída do show, vinicius tem que enfrentar uma pequena mas barulhenta manifestação de salazaristas indignados com seus discursos contra os horrores da ditadura. os manifestantes fecham a saída dos fundos do teatro. vinicius chega à porta e os encara. alguém lhe sussurra o óbvio: «vamos voltar e sair por um outro lado». o poeta responde em tom seco: «não».

vinicius fica algum tempo em silêncio. depois, erguendo a voz e ainda encarando o pequeno grupo de direitistas, começa a recitar: «de manhã escureço/ de dia tardo/ de tarde anoiteço/ de noite ardo». são os versos de seu primoroso «poética 1», poema que escreveu no distante ano de 1950, em nova york.

o poeta vai prosseguir, quando um sotaque brasileiro, escondido por detrás dos manifestantes, toma a palavra e prossegue: «a oeste a morte/ contra quem vivo/ do sul cativo/ o este é meu norte».

aquele estudante brasileiro, solitário em sua revolta, o salva. os jovens salazaristas portugueses cedem à força da poesia. os manifestantes, agora, já não podem mais gritar. um ou outro tenta ainda emitir uma palavra de ordem sem sentido, mas a maioria silencia para ouvi-lo terminar: «os outros que contem/ passo por passo:/ eu morro ontem/ nasço amanhã». e, elevando a voz ao máximo, vinicius conclui: «ando onde há espaço:/ meu tempo é quando».

um primeiro estudante, mais corajoso, tira o casaco e o estende no chão. outros fazem o mesmo. e então vinicius sai de cabeça erguida – e coração estraçalhado – sobre aquele tapete de casacos. 
a poesia acabara de colocar cada um em seu devido e merecido lugar.
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(tem que acontecer, 1976)

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e agora, qual a saída?
a saída é pela esquerda
não a esquerda institucional e conformista
mas a esquerda radical e anticapitalista
a historiadora raquel varela que o diga

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«há uma esquerda profundamente institucional e simultaneamente fanática», afirma a historiadora raquel varela na entrevista a seguir, concedida à «carta capital» durante uma rápida passagem por são paulo.
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carta capital

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de volta à poesia

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não posso
não é possível
digam-lhe que é totalmente impossível
agora não pode ser
é impossível
não posso.

digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.

(vinicius de moraes, 1949)

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eu, um teo-poeta
quem foi estudante na época da ditadura militar dificilmente escapou de participar dos desfiles de 7 de setembro como atividade escolar. é o meu caso. não que eu gostasse daquilo, longe disso, participava porque era OBRIGADO. na verdade, eu ODIAVA ter que participar daquela pantomima. a OBRIGAÇÃO de ter que PARTICIPAR de algo que eu não gostava e não ACREDITAVA criou, dentro de mim, uma verdadeira AVERSÃO a todo e qualquer tipo de IMPOSIÇÃO. eu sou um libertário. se quiser ir pra paris, vá! faça o que tu queres pois é tudo da lei. assim sendo, conforme fui crescendo, fui perdendo o medo de ser feliz. hoje sou um teo-poeta, só me dedico àquilo que realmente ACREDITO.
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«teo-poeta é aquele que escreve com paixão, posto que a paixão e o desejo são as forças que lhe movem. trata-se de paixão pelo desconhecido, com os ouvidos atentos aos sopros do vento sempre imprevisíveis e sacudidores em vez da estabilidade da rocha eterna.»

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«e os meus pensamentos são todos sensações.
penso com os olhos e com os ouvidos
e com as mãos e os pés
e com o nariz e a boca.
pensar uma flor é vê-la e cheira-la
e comer um fruto é saber-lhe o sentido.»

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os teólogos constroem barreiras para estabelecer quem está dentro ou fora de suas comunidades por meio de confissões de fé. os teo-poetas também confessam a fé. dessa forma, seguem o conselho de mario quintana: «eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão».
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a rua dos cataventos
(soneto xvii)

da vez primeira em que me assassinaram,
perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
depois, a cada vez que me mataram,
foram levando qualquer coisa minha.

hoje, dos meu cadáveres eu sou
o mais desnudo, o que não tem mais nada.
arde um toco de vela amarelada,
como único bem que me ficou.

vinde! corvos, chacais, ladrões de estrada!
pois dessa mão avaramente adunca
não haverão de arrancar a luz sagrada!

aves da noite! asas do horror! voejai!
que a luz trêmula e triste como um ai,
a luz de um morto não se apaga nunca!

mario quintana

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recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração.

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«eu me visto de preto pelos pobres e oprimidos / que vivem do lado faminto e sem esperança da cidade / eu me visto assim pelo prisioneiro, que há muito tempo já pagou por seu crime / mas que de nada adiantou, pois é uma vitima dos tempos.»

johnny cash

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ah, eu adoraria vestir um arco-íris todos os dias,
e dizer para o mundo que tudo está ok,
mas talvez eu possa carregar um pouco da escuridão em mim
até as coisas serem brilhantes, eu sou o homem de preto.

(johnny cash, 1971)

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verdade verdadeira, de lembrança, mesmo, do 7 de setembro, eu tenho de um desfile na cidade de pelotas, acho que em 76, em que desfilávamos com um catavento verde-amarelo na mão. o meu não voltou pra casa, foi devidamente amassado, rasgado e jogado no chão.

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uma a narrativa da história viva deste país
uma palavra ingênua, tal como a gema da massa ali
com outros meninos ricos, a outra história deste país
lembro de um desfile da mocidade marchando aqui
aquele amor à pátria, nas bicicletas, no coração
e a gente ficava olhando aqueles tanques, os aviões
vinham, davam rasantes, olha os infantes, oh pátria mãe

ainda sobre essa coisa, sobre essa transa, oh pátria mãe
hoje vejo quizumba, me passa uma paixão por ti,
loucos estamos todos, estamos todos a fim de ti,
por mais que outros caras, de outras línguas te neguem a nós,
está pintando um dia, daí meu nego, vâmo treme!

(força d'água, 1985)

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#bolsonaronuncamais
#nuncamais #nuncamais