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quinta-feira, 24 de setembro de 2026


paiol de pólvora

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«em momentos de extremo perigo é fácil potencializar os estímulos morais; para manter sua vigência, é necessário o desenvolvimento de uma consciência em que os valores adquiram categorias novas. a sociedade em seu conjunto deve se converter em uma gigantesca escola»
ernesto guevara de la serna

♦
«pelos meus cálculos, os que dizem que todo poder corrompe, não se manifestam com muita clareza. o conceito, tão antigo, e tantas vezes injustamente utilizado, merece alguns reparos.
imaginemos se, ao contrário do estabelecido, quanto mais alto fosse um cargo, menos regalias e menor fosse o soldo. mais responsabilidade se desse ao ocupante e, numa razão inversa, aumentassem os sacrifícios. quantos se candidatariam ao poder, nessas circunstâncias?
alguma coisa me diz que corrompemos o poder quando fizemos dele um prêmio, de tal forma disputado, que, comumente, chega a envergonhar a própria espécie humana.
tudo por causa de indivíduos que não se enxergam em seus tamanhos.»
deogar soares | voo livre, p. 80 e 81

♦

vote lula 2026

quando o cenário político eleitoral colocou frente a frente lula e brizola, eu escolhi lula. nunca votei em outro candidato para presidente que não fosse lula. não seria agora que o faria.

minha declaração de voto, no entanto, nesse momento é totalmente irrelevante. escrevo para uma bolha cada vez menor, conheço pessoalmente a maioria dos meus leitores e sei que a minha opinião sobre essas eleições não interfere de forma alguma no voto de quem quer que seja.

enfim, escrever para poucos me permite ser autêntico. aconteça o que acontecer, doa a quem doer, não mudo uma vírgula do que penso sobre democracia brasileira, eleições, lula e o pt.

sendo assim
em posição de enfrentamento aos padrões atuais
que impõem textos pequenos e sucintos
escrevi um textão
quem achar grande demais
e não quiser ler até o fim
fique à vontade
sei como é
na teoria
criticam-se os textos superficiais
mas
na prática
sujeita-se às regras do jogo
falando em jogo
jogo é o mesmo que eleição
falando em eleição
devo esclarecer que não sou candidato a nada
mas vamos à lógica petista e lulista de ser
segundo seus fiéis seguidores
tudo de bom que foi feito
entre 2002 e 2016
foi devido às grandes qualidades de lula, de dilma e do pt
e tudo o que não se pôde fazer
e o que de ruim se fez
foi por culpa da grande mídia e do sistema
bem
que me desculpem
os meus amigos petistas e lulistas
mas não penso assim
penso que quase tudo de bom
que o pt, lula e dilma fizeram
poderiam e deveriam ter feito melhor
e praticamente tudo de ruim que foi feito
na minha opinião
se explica mais pelos erros do pt
do que pelo sistema como ele é
não que o sistema não seja responsável pelas coisas como elas são
claro que é
mas
lembremos o velho ditado popular
diga-me com quem andas e te direi quem és
e o velho ditado romano
à mulher de césar não basta ser honesta precisa parecer honesta
noutras palavras
pompéia pode ou não ter traído césar mas os rumores precisam ser considerados
ou seja
parecer pode ser mais importante do que ser
a honestidade só é um valor se for publicamente reconhecida
quanto à corrupção
tema em questão nessa e em todas as eleições
gostaríamos
claro
que
nos governos do pt
a corrupção tivesse acabado
mas basta olhar para os lados
pra ver que ela não é uma questão de partido nem de estado
aliás
o «combate» à corrupção
por parte da mídia e das elites brasileiras
é mais forte em alguns períodos da história política brasileira
vide
vargas
jango
brizola
lula
dilma
talvez fosse interessante a esse monte de
paladinos da moral e dos bons costumes
se perguntarem assim
já me utilizei de benefícios sem merecê-los?
já pedi para o meu filho, menor de idade, comprar cerveja no bar da esquina?
já dirigi acima da velocidade permitida?
já bebi e dirigi?
já dirigi falando ao celular?
já ultrapassei em local proibido?
já entreguei a direção do meu carro ao meu filho menor de idade e/ou inabilitado?
já tentei enganar o imposto de renda?
já furei fila?
já isso e já aquilo?
já, claro que já
ah, vão se catar
a quem vocês pensam enganar?
pobres coitados
vocês às vezes me dão vontade de rir
outras de chorar
em suma
a corrupção
obviamente
não nasceu com o pt
ela não é culpa do pt
quem se lembra das promessas de fhc em 1994?
e da distribuição de concessões para rádios e tvs?
e de quanto custou rachar o pmdb?
delfim neto era feliz e não sabia?
quando?
nos tempos da ditadura?
quem se lembra do escândalo da mandioca?
e da coroa-brastel?
e de angra 1?
e de angra 2?
e dos poços do inocêncio (sic)?
todos sabemos sobre o aeroporto
mas nem todos sobre o mineirão
e menos ainda sobre a rádio arco-íris
e sobre o mensalão tucano
quem de nós sabe que aécio recebeu R$ 110 mil de marcos valério
e R$ 5,5 milhões da lista de furnas?
brasileiro é caipira?
aposentado é vagabundo?
brasileiro sabe votar?
ora, por favor, quem vai votar em dórias, moros e bolsonaros
vai votar literalmente em qualquer coisa
menos contra a corrupção
caros amigos e amigas
a corrupção é tão antiga quanto as sociedades humanas
lembram-se dos 30 dinheiros que judas iscariotes recebeu das autoridades romanas para revelar o paradeiro de jesus cristo? então, no renascimento, o grande foco de corrupção era o papado. alguém já ouviu falar da família bórgia? a família bórgia era a família do papa alexandre vi (1492-1503). pois não é que esta «santa criatura» transferiu dos cofres da santa sé para a sua família imensas fortunas. que pecado! teria ele caído em tentação ou cometido corrupção?
«não há santos vivos»
aliás
com relação a quem é santo
ou não
vou aproveitar para esclarecer uma questão
viva a revolução
mas não é porque fidel morreu
que vou considerá-lo santo
santo
pra mim
só tem dois
um é san ernesto
o outro é san deogar
por quê?
porque ambos disseram não a um sistema que funciona com base na corrupção
contudo
para que não recaiam dúvidas sobre o que estou dizendo
vou procurar ser mais claro
considero lula
dilma
olívio
tarso
marroni
ivan
e jurandir
---todos, junto com deogar, candidatos que ajudei a eleger com meu voto ---
pessoas da mais absoluta dignidade honradez e probidade
não me arrependo de nenhum dos meus votos
muito pelo contrário
tenho o máximo orgulho das escolhas que fiz
aliás
diga-se de passagem
sou bastante exigente na hora de dar meu voto
eu não voto em quem idolatra torturador
eu não voto em quem fala que o erro da ditadura foi ter matado pouco
eu não voto em quem diz que preferia ver o filho morto do que sendo gay
eu não voto em quem diz abertamente que é contra a democracia
eu não voto em golpista
eu não voto em arrependidos de plantão
eu não voto em traidor
eu não voto em quem fugiu pra paris
e mais uma lista de aberrações
que são tantas que não dá nem pra listar
é conveniente
nessas circunstâncias
que busquemos na etimologia
o significado das palavras
candidato
por exemplo
é uma palavra que
desgastada pelo uso
traz em si uma verdade que vale a pena recuperar
velas, candidatos, inocência
acendalha, acender, candeeiro, candeia, candelabro, candelária, candente, candial, candidato, candura, encandear, incandescente, incêndio, incenso, recender, sândalo
difícil imaginar uma relação entre assuntos tão díspares, não?
pois aqui está mais uma das surpresas da etimologia:
todos eles se combinam com o sentido de palavras pertencentes a um mesmo grupo
senão vejamos
o indo-europeu tinha uma palavra, kand-, «brilhar, emitir luz», ela viria a ser cand, em sânscrito, com o mesmo sentido.
em grego passaria a formar a palavra kandaros, «carvão», já que ele emite luz e calor quando aceso.
o latim usaria essa raiz no verbo candere, «ser brilhante, branco, queimar», que nos deu grande número de verbetes.
CANDEIA – pouco usado entre nós, é o mesmo que «vela» (a de acender, não a de barco).
em espanhol se usa candela, exatamente como se dizia em latim para «vela, tocha».
os gregos parece que não tinham palavra para isso, pois não usavam essa forma de iluminar. eles se ajeitavam muito bem usando lamparinas a óleo.
as velas eram já conhecidas dos etruscos e dos romanos, no entanto, eram uma forma de levar o óleo em forma sólida, sem derramar, isto era uma grande vantagem para o transporte comercial, pois se deixava de depender das ânforas, que podiam se quebrar. atualmente, candela é usada em nosso idioma como unidade técnica de medida de intensidade luminosa.
CANDELÁRIA – é uma festa católica com velas ou tochas, em honra à purificação da virgem maria. é nome de igrejas, bairros e cidades em nosso país. em inglês, a festa tem um nome com a mesma origem, candlemass, «a missa das velas».
CANDELABRO – do latim candelabrum, «candelabro», objeto onde são colocadas várias velas de uma vez. hoje são apenas elementos decorativos em nossas casas, mas houve época em que eles eram uma das poucas maneiras de se ter um mínimo de luz dentro de casa à noite.
CANDEEIRO – deriva de candela e designa uma lâmpada de óleo ou, modernamente, um artefato para iluminar, como lâmpadas de rua ou de interior de casas.
INCANDESCENTE – do latim incandescere, «estar em brasa, estar pegando fogo», seja descrevendo uma situação física, seja uma disposição sentimental. é melhor não chegar perto demais do que está incandescente, alguém pode se queimar, por dentro ou por fora.
CANDENTE – tem o mesmo significado da palavra acima, porém com um uso mais poético: «minh'alma candente por ti se abrasa, por teu sono vela», dirá um poeta apaixonado, merecendo a resposta «pare de escrever bobagens».
CANDURA – da noção visual de «branco, luminoso», por extensão se pensa na metáfora moral de «pureza, ausência de má intenção, inocência».
CANDIDATO – os romanos distinguiam entre dois tipos de branco:
o branco comum era chamado albus. em roma havia tábuas branqueadas com gesso colocadas em lugares públicos. nelas eram escritos os editos dos pretores, determinações do sumo pontífice e outras manifestações de interesse público.
na forma neutra, album, chegou até os nossos dias, designando um suporte físico para colocação de recortes, fotografias, etc.
com as fotos digitais, parece que os álbuns estão com os dias contados. eles passarão a fazer parte da memória dos computadores.
mas havia o candidus, o branco brilhante, o branco aquele de propaganda de sabão em pó. quando uma pessoa desejava assumir um cargo público, passava a vestir uma túnica branca. se o povo achasse que ela não tinha condições para tal cargo, encarregava-se de atirar sujeira nessas vestes, de modo a mostrar que o assim chamado candidatus era desagradável a um grande número de pessoas. uma lavanderia destinada a limpar togas brancas de candidatos faria um dinheirão em certos países, se essa instituição voltasse.
CANDIAL – esta sim é pouco conhecida. designa um tipo de trigo duro, trigo candeal em espanhol...
– mas o que diachos tem trigo a ver com o assunto?, – pensarão muitas pessoas.
– muito – dizemos nós. esse trigo dava uma farinha muito branca; em razão disso, recebeu um nome que lembra claridade. e há mais um fato inteligente: este tipo de trigo se chamava milium em latim, derivado de mille, «mil», por ter numerosos grãos na espiga. tal nome foi aplicado depois a outra planta, uma gramínea levada pelos conquistadores espanhóis para a europa, que viria a ter o nome científico de zea mays e que virou o atual milho.
o verbo candere, «queimar», formou, para efeitos de composição de palavras derivadas, o sufixo cendere.
entre estas, encontramos:
ACENDER – a mais óbvia, querendo dizer «colocar fogo, incendiar», de ad-, «junto», com candere. daí temos também o acendedor que nos ajuda a fazer a chama do gás em nossos fogões.
INCÊNDIO – do latim incendium, «fogo, calamidade, conflagração», formado por in-, «em», mais candere, ou seja, «colocar fogo em».
INCENSO – do latim incensum, «aquilo que queima». entre os povos antigos existia a noção de que os sacrifícios feitos aos deuses deviam ser queimados para que o cheiro da oferta chegasse às suas narinas, no olimpo ou onde quer que estivessem. este era um ato feito per fumum, «através do fumo, da fumaça», o que originou o nosso perfume.
RECENDER – falando em perfume… este verbo, que significa «espalhar um cheiro», vem de re-, intensificativo, mais candere, tudo o que é queimado lança algum tipo de cheiro no ar, resultado da volatilização de seus componentes.
SÂNDALO – pelo visto, está difícil sair do assunto dos perfumes. o nome desta madeira aromática passou pelo latim sandalum, pelo grego santalon, pelo persa sandal, desde o sânscrito candana-m, nome dado à árvore que produz esta madeira, significando «madeira para queimar e perfumar». este nome veio direto de candrah, «brilhante, luminoso», com a mesma origem de candere.
existe um antigo ditado pacifista que diz «sê como o sândalo, que perfuma o machado que o fere». bonito, para quem consegue. e mais bonito ainda para o machado…
ACENDALHA – outra palavra de pouco uso, pelo menos no brasil. refere-se ao material (folhas secas, gravetos, palha) de fácil combustão a ser usado para começar um fogo.
não custa lembrar que
folha seca
graveto
e palha
atrapalham o nascimento
e o crescimento de folhas verdes
resumindo
candidato vem do latim candidatus
isto é
vestido de branco
(candidus)
na antiguidade
aquele que disputava um cargo público e precisava angariar votos vestia-se de branco para simbolizar sua pureza
e aqui caímos num dilema
«não há santos vivos»
e se não há santos vivos
não há CANDIDATOS
só vejo uma saída
então
ressuscitar san ernesto e san deogar
mas
como não acredito em milagres
a única saída que vejo
é jogar tudo pelos ares

grill

♦

estamos trancados no paiol de pólvora
paralisados no paiol de pólvora
olhos vendados no paiol de pólvora
dentes cerrados no paiol de pólvora
só tem entrada no paiol de pólvora
ninguém diz nada no paiol de pólvora
ninguém se encara no paiol de pólvora
só se enche a cara no paiol de pólvora
mulher e homem no paiol de pólvora
ninguém tem nome no paiol de pólvora
o azar é sorte no paiol de pólvora
a vida é morte no paiol de pólvora
são tudo flores no paiol de pólvora
tv a cores no paiol de pólvora
tomem lugares no paiol de pólvora
vai pelos ares o paiol de pólvora

clique no título para ouvir

(vinicius & toquinho, 1973)

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 1 de setembro de 2026


sol de primavera 
(para minha irmã)

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«hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás»

che guevara

♦

«guevara lê gullar
dentro da noite veloz
perto de la higuera, selva boliviana
em outubro de 1967
na quebrada do yuro são 13 e 30 horas»

celso borges | pequenos poemas viúvos, p. 61

♦

«o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor»

che guevara

♦

«os dois meninos
da capa do clube da esquina nº 1
nunca mais sentiram
aquele gosto de sol
das noites azuis de minas»

celso borges | pequenos poemas viúvos, p. 70

♦

«o clube da esquina é essencialmente um trabalho coletivo. todos se davam as mãos quando o negócio era criar belezas. a letra de ronaldo bastos homenageia aqueles que lutaram e sonharam a liberdade. muitas das pessoas que eram amigas da turma do clube foram vítimas da covarde repressão que assolou o brasil. a música soa até hoje como um hino de amor, de liberdade e de esperança. uma luz que se acende. «mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer sol de primavera». o maravilhoso desenho da capa é do grande artista plástico gilberto de abreu.»

robertinho brant

♦

já sonhamos juntos
semeando as canções no vento
quero ver crescer nossa voz
no que falta sonhar

já choramos muito
muitos se perderam no caminho
mesmo assim, não custa inventar
uma nova canção que venha nos trazer

sol de primavera
abre as janelas do meu peito
a lição sabemos de cor
só nos resta aprender

👇

música: beto guedes 
letra: ronaldo bastos 
álbum: sol de primavera
ano: 1979

♦

a ternura e a bela cena
(fragmento)

por rubem alves 

a ternura 

pureza de coração é desejar uma só coisa”, definiu kierkegaard. a paixão vive disso: de uma única imagem que apaga todas as outras e faz o apaixonado enxergar beleza plena no ser amado. como no encontro do pequeno príncipe com a raposa, o amor começa quando colocamos uma metáfora poética no rosto do outro. não vemos o que vemos, vemos o que somos: esse olhar não busca a posse, mas a contemplação pura e a alegria da presença.

essa experiência estética se traduz na ternura, o exato oposto do sexo compulsivo que apenas busca o alívio imediato. quem ama sorri ao contemplar a amada dormindo sem sequer tocá-la, contendo a própria mão para não interromper a paz da cena. enquanto o sexo sem amor usa o outro como mero objeto, a ternura reside no olhar demorado que sorri diante do mistério e da beleza do ser amado.

♦

mi camión en el camino y teresa en mi cabeza
por la ruta tres voy pensando en ella
que siempre me está esperando en avellaneda

yo que soy el jd de la ruta tres
cambié las mujeres por una mujer: teresa
yo que nunca llegue temprano a ninguna parte
voy corriendo por la ruta tres
porque la teresa me está esperando en avellaneda

👇

letra e música: facundo cabral
álbum: facundo secreto
ano: 1987

♦

a bela cena

tomas não conhecia a experiência da paixão, apenas os prazeres do sexo. saciado o desejo, horrorizava-o a ideia de acordar ao lado de uma mulher; agia como um caçador que abandona a caça tão logo a fome é satisfeita. mas com tereza tudo foi diferente. sua aventura com tereza tinha começado exatamente onde terminavam suas aventuras com as outras mulheres. ela se desenrolara do outro lado do imperativo que o levava à conquista.

conhecera tereza acidentalmente num bar de cidadezinha do interior. dissera-lhe, quase como uma brincadeira, que se fosse à capital que o procurasse. e lhe dera o seu endereço. tereza foi e o procurou. chegara à capital doente e não sabia para onde ir. foi aí que a história de amor começou.

ela estava ardendo em febre, adormecera no sofá da sala, e ele não pudera levá-la de volta como fazia com as outras. para onde a levaria? ajoelhado à sua cabeceira ocorrera-lhe a ideia de que ela viera para ele numa cesta sobre as águas.

desde que tomas conhecera tereza, nenhuma outra mulher tinha o direito de deixar a marca, por efêmera que fosse, nessa zona do seu cérebro. agora, na memória poética de tomas, aquela cena permanecia imóvel, imperturbável, fora do tempo. era uma parte da sua alma. não morreria jamais.

«o que é que amo quando te amo?» tomas amava tereza porque amava nela uma outra coisa: aquela cena que repentinamente brilhara em sua imaginação. na cena, tereza não era tereza; era uma criança abandonada, levada pelas águas de um rio. e, de repente, ele deixou de ser tomas, o caçador – tornou-se um homem forte, que tomava aquela criança nos braços. tereza poderia deteriorar-se ou morrer. mas a cena permaneceria inalterada, suspensa na memória poética, como objeto de amor.

♦

ojalá se te acabe la mirada constante
la palabra precisa la sonrisa perfecta
ojalá pase algo que te borre de pronto
una luz cegadora un disparo de nieve
ojalá por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos en todas las visiones
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones.

👇

letra e música: silvio rodríguez
álbum: al final de este viaje...
ano: 1969/1978

♦

a insustentável leveza do ser

«quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes. o que escolher, então? o peso ou a leveza?»

milan kundera

♦

«a verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza e com toda a liberdade em relação àqueles que não representam nenhuma força. o verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, situado num nível tão profundo que escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais.»

(idem)

♦

«o acaso tem seus sortilégios, a necessidade não. para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se encontrem nele desde o primeiro instante como os pássaros nos ombros de são francisco de assis.»
(idem)

♦

por mim mesmo

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no último capítulo intitulado «o sorriso de karenin», tereza e tomas vendem quase tudo que possuem em praga e se mudam para o interior. o campo é a fuga deles. tereza está feliz. mas ela e tomas tiveram que romper com velhos costumes e velhos amigos em praga para viver uma nova vida. uma pequena aldeia, sem igrejas, bares, e o teatro mais próximo fica a quilômetros de distância.

♦

tereza encontra trabalho cuidando das novilhas da fazenda coletiva. karenin (a cachorrinha) está mancando e, ao levá-la ao veterinário, descobre que ela sofre de um câncer. semanas depois, fica claro que o câncer de karenin está se espalhando. aqui o narrador diz que a bondade humana, se for realmente pura, só pode existir se o destinatário dessa bondade não tiver nenhum tipo de poder. assim, o verdadeiro teste moral da humanidade é a misericórdia que se mostra para com os animais.

♦

vivendo na natureza, cercada de animais e árvores, tereza e tomas encontram a felicidade.

♦

e, baltazar, o que diz?

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dice baltazar que tiene que cuidar
100 gallinas 10 caballos 30 vacas y sembrar 
dice baltazar porque trabajo tanto 
si al final me estoy muriendo de tanto trabajar 
pero un dia baltazar escribio sobre un galpon 
unas frases muy cortitas que decian lo siguiente: 
"las tierras deben ser del que las siembra 
porque yo estoy dando todo y hay quien se lo lleva 
esto es para usted señor patron y como va a conocer su campo 
si esta sentado en un sillon con su esposa mirando television" 
pero un dia baltazar se fue sin avisar 
y cuando estaba ya muy lejos se dio vuelta por mirar 
porque escuchaba un ruido extraño y no sabia que podia ser 
...y eran todos los caballos todas las gallinas 
mariposas blancas y los gorriones y las vacas 
que seguian por detras a baltazar...

👇

música e letra: león gieco
álbum: la banda de los caballos cansados
ano: 1974

♦

e minha irmã? 

♦

quando voltei para a cidade
os primeiros dias foram de muito medo
e insegurança
muita luta interna contra os fantasmas
que estavam adormecidos
mas não mortos
um dia
na hora certa
quando tudo
dentro de mim
escurecia
minha irmã
de sangue e alma
envia-me uma mensagem
com as palavras certas
certas porque mágicas
certas porque proféticas

♦

e a borra do café?

♦

«só o acaso pode nos parecer uma mensagem. aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e se repete cotidianamente é coisa muda apenas. somente o acaso tem voz. tenta-se ler no acaso como as ciganas leem no fundo de uma xícara os desenhos deixados pela borra do café.»  

♦

mas a mensagem da minha irmã
não foi mero acaso
a casualidade não existe
o que chamamos de acaso
surge das fontes mais profundas

♦

mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

👇

letra e música: bob dylan
álbum: desire
1975/1976

♦

arte

girl with balloon (em português: garota com balão) 
autor: banksy
ano: 2002

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas 

terça-feira, 28 de julho de 2026


só tem amor quem tem amor pra dar
(direto da sala che guevara da casa dos aedos)

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«aedos eram poetas, cantores e músicos da grécia antiga que compunham e recitavam poemas épicos.

acreditavam receber inspiração direta das musas e da deusa memória para criar suas canções.

surgiram antes mesmo da escrita e do alfabeto, guardando e transmitindo o saber mitológico e histórico de cabeça.»

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tarso de castro, presente
[por júlio cargnin filho]

polêmico, brigão e subversivo, tarso era daqueles «malditos» que fechava bares, alugava carros e aprontava em hotéis de luxo, ao melhor estilo «gonzo jornalismo». comprou brigas homéricas pelas redações que passou – com diretores e editores – mas nem mesmo os amigos mais próximos escapavam de seu temperamento tempestuoso.

um «enigma» sempre foi uma pulga atrás das orelhas de seus camaradas: o charme do maldito. mesmo desajeitado, feio, desleixado, descuidado consigo e sem onde ter para cair morto, teve relacionamentos com belas mulheres. de uma dessas aventuras, uma história bem ao «estilo tarso»: seu namoro com a atriz estadunidense candice bergen.

o jornalista adorava exibir à atriz uma fotografia pessoal ao lado do revolucionário argentino che guevara. já a atriz, se vangloriava de ter namorado um «guerrilheiro que participou da revolução cubana».

após 30 anos ininterruptos de consumo de álcool e sua oitava hemorragia interna, tarso foi tomar seu scotch em outro universo. o dia: 20 de maio de 1991. uma morte que não surpreendeu os mais próximos, pois ele mesmo pregava que «após os 40 anos a vida não teria mais graça». viveu nove a mais do que o limite que queria.

nas palavras de otto lara resende: «tarso tinha defeitos visíveis e qualidades nem sempre visíveis, sobretudo para quem o via de longe, ou o sofria de perto».

••••••••••••••

a casa dos aedos 

nessas condições, se nos perguntassem qual o benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz. só os pensamentos e as experiências sancionam os valores humanos. ao devaneio pertencem valores que marcam o homem em sua profundidade. o devaneio tem mesmo um privilégio de autovalorização. ele usufrui diretamente de seu ser. toda pessoa deveria, portanto, falar de suas estradas e encruzilhadas, de seus sucessos e fracassos.

gaston bachelard, em a terra e os devaneios do repouso

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tarso de castro
[por tom cardoso]

tarso de castro, recém-chegado a salvador, liga para o amigo de copo joão ubaldo ribeiro:

- o que manda, tarso?
- tô aqui, vem cá me ver!
- onde você está?
- no hotel meridien.
- porra, então vem você pra cá, é perto.
- não posso. estou aqui com a (falando baixinho)...candice bergen.
- com quem? não ouvi.
- estou aqui com a (sussurando).. candice bergen.
- tarso, vou abaixar o som e você me diz com quem você está.
- vai logo.
- pronto, diga.
- estou aqui com a can-di-ce ber-gen.

joão ubaldo conta: «eu resolvi ir, com a certeza de que o tarso estava aprontando alguma escrotidão. mas eu adorava ele, peguei o meu fusca e fui até o meridien. quando eu cheguei lá a candice estava sentada, com as pernas esticadas, despojada, sem maquiagem, mas bonita como sempre foi, uma mulher enorme. me lembro que ela tinha um pezão imenso, porque foi a primeira coisa que eu vi: ela relaxada, com o pé pra cima de uma cadeira e o tarso atrás, radiante, andando de um lado para o outro, com os braços abertos, em transe absoluto»

descobertos pelos colunistas sociais de salvador, tarso e candice deixaram de ir à praia e passaram o resto da «lua-de-mel» trancados no meridien.
jantaram lagosta e camarão todos os dias, acabaram com o estoque de vinho, uísque e champagne do hotel.
no dia de encerrarem a conta, candice chamou joão ubaldo, que estava lá para levá-los ao aeroporto, e fez um pedido ao escritor:

- ubaldo, eu sei que o tarso gosta muito de você e tenho certeza que ele vai te ouvir.
- me diga, candice, o que houve?
- eu sei que o tarso é duro. e sei também que ele não vai me deixar pagar a conta do hotel. é muito orgulhoso. quero que você o convença de que isso tudo é bobagem, que eu sou rica e pago tudo sem problema nenhum. faz isso por mim?
ubaldo foi falar com tarso, já caminhando em direção ao guichê do hotel.
- tarso, a moça faz questão de pagar a conta...
- nada disso. eu pago essa merda!!!

a conta era um absurdo, algo equivalente a um mês de bebedeira no antonio’s.
tarso não perdeu a pose. puxou a carteira do bolso e, quando estava preparando para assinar mais um cheque sem fundo para a sua coleção, foi interrompido pelo gerente do hotel:

- senhor. em nome do hotel meridien queria agradecer a presença do senhor e da senhorita candice bergen. ficamos gratos pela preferência. as despesas são por nossa conta.
tarso, para desespero de joão ubaldo, ainda fez charme:
- não senhor. eu faço questão de pagar tudo. fomos muito bem tratados aqui.
- meu senhor, aceite a nossa gentileza em nome da boa hospitalidade baiana.
- se o senhor faz questão...

a atriz, completamente apaixonada, bancou todas as viagens de tarso a nova york.
o jornalista, porém, se queixara aos amigos que, por mais que tentasse, não conseguia dedicar-se apenas a uma grande paixão.
candice cansou de ser esnobada e casou anos depois com o cineasta francês louis malle, baixinho, porém atencioso.
tom jobim tentou consolar tarso:
«não fique assim, meu caro, dos malles, o menor!».

.

há várias versões sobre a noite em que tarso conquistou candice na varanda do antonio's. alguns juram ter visto o jornalista entrar correndo no restaurante, ajoelhar-se aos pés da atriz e beijá-la dos pés à cabeça sem a menor cerimônia. outros dizem que a abordagem foi um pouco mais sutil: com um buquê na mão esquerda e um urso de pelúcia na direita (doado na última hora pela mãe da promoter ana maria tornagui), o jornalista disse meia dúzia de palavras em inglês e conquistou a moça.
uma terceira versão é sustentada por amigos mais próximos a tarso. candice interessou-se por ele no antonio's mas só se apaixonou de verdade depois que viu o seu retrato ao lado de che guevara, tirado durante a cobertura da conferência econômica e social da oea, em punta del este, em 1961. rápido no gatilho, o jornalista teria dito à atriz que lutara ao lado de guevara e fidel castro durante a revolução cubana --- contou (provavelmente fazendo gestos) os apuros que ele e os dois líderes comunistas passaram juntos nas montanhas de sierra maestra, semanas antes de entrarem triunfantes para tomar havana do ditador fulgêncio batista. candice teria ouvido a história com lágrimas nos olhos e se apaixonado perdidamente.

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- e o teu pai?
- meu pai era um aedo. um homem sem medo.
herdei dele, além do nome, o gosto pelas viagens.

nas viagens que fazíamos - e fizemos muitas juntos - meu pai, um brizolista de quatro costados, sempre contava da vez que foi a punta del este para ver e ouvir o che. eu adorava.

às vezes ele esquecia
mas eu sempre lembrava
e pedia

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papá cuéntame otra vez esa historia tan bonita
de aquel guerrillero loco que mataron en bolivia


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acho que já contei essa história. mas vou contar de novo. não custa nada --- pelo contrário, é uma forma de recordar. do latim re-cordis: voltar a passar pelo coração.

passei a vida ouvindo meu pai contar da vez que esteve com o che em punta del este, junto com brizola e flávio tavares, durante a conferência pan-americana promovida no uruguai, em 1961.

é uma pena que eu não seja bom o suficiente com as palavras para descrever o brilho nos olhos do meu pai cada vez que me contava a mesma história. o brilho era tanto que eu pensava que aquilo era verdade, não podia ser mentira.

até que um dia resolvi comentar com minha mãe sobre o encontro do meu pai com o che. minha mãe ficou surpresa, disse que não sabia de nada. falou com os familiares e ninguém se lembrava de nenhuma viagem.

no dia seguinte, no café da manhã, minha mãe perguntou:

- enilton, que história é essa da tua viagem ao uruguai pra encontrar o che guevara? falei com todo mundo e ninguém sabe nada dessa tal viagem...

meu pai respondeu:

- ninguém sabe de nada porque não era pra saber mesmo. foi uma viagem clandestina...

meu pai faz falta, muita falta. e não só para mim, mas para o mundo. as pessoas, hoje em dia, ou estão agarradas às suas verdades ou entregues às suas mentiras.

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aquí se queda la clara
la entrañable transparencia
de tu querida presencia
comandante che guevara

canta: nathalie cardone
[con letra e imagens]

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poema-carta de ernesto che guevara a sua esposa aleida march

amor: chegou o momento de te enviar um adeus com aroma a campo santo (a hojarasca, a algo distante e não utilizado). queria fazê-lo com estas folhas que caem e são frequentemente chamadas de poesia, mas fracassei; eu tenho tantas coisas íntimas para teu ouvido mas a palavra torna-se carcereira e a poesia não é o meu forte. eu não sou poeta. eu não sirvo para o nobre ofício de escrever poemas. não que eu não tenha coisas doces. se você soubesse das que se agitam dentro de mim. mas é tão longo, cheio de voltas e estreito o caracol que as contêm, que saem cansadas da viagem, mal humoradas, esquivas, e as mais doces são tão frágeis! saem despedaçadas no caminho, vibrações dispersas, nada mais. careço de condução, teria de desintegrar-me para te dizer de uma só vez. usemos as palavras com um sentido cotidiano e fotografemos o momento.

acabaram-se os cantos das sereias e os embates interiores; se ergue a fita para minha última corrida. a velocidade será tanta que escapará todo grito. o passado acabou; eu sou um futuro a caminho. não me chame, não te escutaria; só posso ruminar-te (no sentido de pensar profundamente em alguém) em dias de sol sob a renovada carícia de balas […] lançarei um olhar em espiral, como a volta que o cão dá para descansar, e lhes tocarei com meu olhar, um a um e todos juntos. se um dia você sentir a imposição de um forte olhar, não se vire, não quebres o encanto, continue coando meu café e deixe-me viver para sempre no momento perene.

não obstante,
no labirinto mais fundo do caracol taciturno
se unem e repelem os pólos do meu espírito:
tu e todos.

os todos me exigem a entrega total,
que a minha solitária sombra escureça o caminho!
mas, sem burlar as normas do amor sublimado,
te guardo escondida no meu alforge de viagem.

(te levo no meu alforge de viajante insaciável
como o pão nosso de todos os dias.)

saio para edificar as primaveras de sangue e argamassa
e deixo, no vão da minha ausência,
este beijo sem domicílio conhecido.
mas não me anunciaram o lugar reservado
no desfile triunfal da vitória
e a vereda que conduz ao meu caminho
está cercada de sombras agourentas.

se me destinam ao escuro lugar dos cimentos,
guarda-o no arquivo nebuloso da lembrança;
usa-o em noites de lágrimas e sonhos...

adeus , minha única,
não temas ante a fome dos lobos
nem no frio estepario da ausência;
do lado do coração te levo
e juntos seguiremos até que o caminho se desvaneça.

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já ia embora, mas me lembrei de mais uma

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quando eu ainda era jovem, meu pai me imaginava hermano henning --- hermano henning, o correspondente internacional da globo ---, sim, estamos nos anos 80. naquela época, eu não me imaginava escritor, eu me imaginava jornalista. ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são: gosto de escrever mas não sou jornalista --- comecei a faculdade mas não terminei.

em cada esquina tinha um bar,
tinha um bar em cada esquina

mas nem tudo se perde, alguma coisa sempre fica. livros, por exemplo. quem tem um livro é como se tivesse sempre um mestre ao alcance de sua mão. o mestre em questão chama-se «comunicação, memória & resistência», de pedro g. gomes / linda bulik / c. piva (orgs.). foi com ele que aprendi, por exemplo, o significado da sigla «aida»:

a (atenção),
i (interesse),
d (desejo),
a (adquirir).

a sigla por si só já diz tudo,
mas amor é tudo o que move
e o que me move é ir além...

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hoje existe tanta gente que quer nos modificar
não quer ver nosso cabelo assanhado com jeito
nem quer ver a nossa calça desbotada, o que é que há?
se o amigo está nessa ouça bem, não tá com nada!


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o processo da publicidade, sintetizado pela sigla «aida», implica em:

captar a atenção (a)
despertar o interesse (i)
provocar o desejo (d)
vontade de adquirir (a)

no brasil há um aparelho de tv por habitante.

mais de 90% das redes de tv no brasil são controladas por consórcios de publicidade.

a publicidade não busca apenas convencer, ela busca - e invariavelmente consegue - distorcer a realidade do mundo em que se vive.

ou seja, ela cria pseudopersonalidades, e o homem as assume usando as máscaras simbólicas que são os produtos:

a casa, o automóvel, a roupa, o alimento, a bebida, o shampoo

tudo o que lhe é imposto e que dá ao indivíduo uma imagem de si mesmo de acordo com o que ele desejaria ser
ou o que os outros gostariam que ele fosse
ou o que a sociedade exige que ele seja
mas que ele não é e nem pode ser
e é por essas e outras
que tem muita poeira que vira ouro
e muito ouro que vira pó

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o pó da estrada gruda no meu rosto,
como a distância, matando as palavras,
na minha boca sempre o mesmo assunto,
o pó da estrada.

👉 o pó da estrada | sá, rodrix e guarabyra 1973

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enfim, a verdade é que o tempo não para. as coisas acontecem muito rápido na vida da gente. mas as pegadas para estarmos onde estamos e sermos o que somos estão por aí... desenterrá-las e decifrá-las depende de muita coisa... uma delas é saber onde procurá-las.
pra quem tem mais de 60, como eu, talvez seja mais fácil
pois antigamente tudo marcava e deixava marca
que o digam as calças desbotadas
que usei e ainda uso
e os mortos e desaparecidos
que chorei e ainda choro

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olá, como vai?
eu vou indo, e você, tudo bem?
tudo bem, eu vou indo correndo
pegar meu lugar no futuro, e você?
tudo bem, eu vou indo em busca
de um sono tranquilo, quem sabe?

quanto tempo, pois é, quanto tempo

me perdoe a pressa
é a alma dos nossos negócios
pô, não tem de quê
eu também só ando a cem

quando é que você telefona?
precisamos nos ver por aí
pra semana, prometo
talvez nos vejamos, quem sabe?

quanto tempo, pois é, quanto tempo

tanta coisa que eu tinha a dizer
mas eu sumi na poeira das ruas
eu também tenho algo a dizer
mas me foge à lembrança
por favor, telefone, eu preciso beber
alguma coisa rapidamente

pra semana, o sinal
eu procuro você, vai abrir, vai abrir
prometo, não esqueço
por favor não esqueça, não esqueça
não esqueço, adeus

canta: chico buarque

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por falar em sinal fechado, é preciso que os doutores e mestres, formados em sociologia nas universidades brasileiras, saibam que há coisas que a universidade não ensina.
uma delas, por exemplo, é a sequência de luzes e cores do semáforo. você sabia que antes do verde vem o vermelho e que o amarelo vem antes do vermelho e o vermelho depois do amarelo?
outra é o tempo em que as luzes ficam acesas, definido por um técnico de tráfego de acordo com o movimento de cada rua. a luz verde, por exemplo, fica mais tempo acesa na rua de maior movimento e menos tempo na rua de menor movimento...

- entendeu?
- não.
- eu também não.
meu negócio é outro
preciso de campo aberto
pra dar certo

sim, era assim que eu pensava quando tinha uns 17, 18 anos de idade. naquela época, eu tinha desistido de estudar e meu pai me deu uma lavoura de arroz pra cuidar. tinha tudo pra dar errado... e deu mesmo. meu pai me deu um calhamaço de notas pra organizar e eu passava o dia na lavoura, atrás de uma pá pra cavar. pra completar, na hora de voltar pra casa:

tinha um bar no meio do caminho,
no meio do caminho tinha um bar.

e a pergunta que não quer calar: e a lavoura? a lavoura a água levou. o que restou daquela lavoura foi a canoa que salvou. e a canoa? não sei. ninguém nunca mais viu, nunca mais voltou.

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canoa foi rio acima
canoa não volta mais
foi só um sonho bonito
e a vida não volta atrás

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- fala sério...
- tô falando.
- então conta mais da faculdade
- da faculdade ficaram os livros
- só os livros? e o resto?
o resto foi passageiro
se perdeu pelo caminho
sumiu no pó da estrada
quando peguei carona com jesus numa moto

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sob a luz da lua
mesmo com sol claro
não importa o preço que eu pague
o meu negócio é viver

(legendado)

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ah, conta outra...
tá bem, vou contar
conta galeano que, quando era criança
sua avó lhe contou a fábula dos cegos e o elefante.
três cegos estavam diante do elefante.
um deles apalpou a cauda do animal e disse:
- é uma corda.
outro acariciou uma pata do elefante e opinou:
- é uma coluna.
o terceiro cego apoiou a mão no corpo do elefante e adivinhou:
- é uma parede.
assim estamos: cegos de nós, cegos do mundo.
desde que nascemos somos treinados para ver o mundo como dizem que ele é, não como queremos ou imaginamos que ele possa ser.

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- não entendi.
- tá bem, vou explicar

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quando eu era guri,
vivia pedindo para o meu pai contar história.
história de criança.
mas ele não contava.
acho que não gostava.
ou não queria.
ou não sabia.
hoje eu até entendo:
acho que ele não achava graça.
graça ele achava contando história do che e do brizola.
dizia que o brizola não teria perdido para o collor
do jeito que o lula perdeu.
hoje, lembrando uma e outra discussão,
me dói o coração.
digo agora o que não disse antes:
que talvez meu pai tivesse razão.
agora é tarde.
tá vendo essa foto em que estou tocando gaita de boca?
o sopro sai,
mas a cena é muda.
meu pai já não pode escutar.
o che está morto e a mim não me resta mais que o silêncio.
calo-me então.

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de volta ao título
[só tem amor quem tem amor pra dar]

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fiz um relato da foto
e enviei as quatro linhas finais para o gemini (ia)
a resposta da ia (inteligência artificial) para o significado da falta de esperança é a seguinte:

«não ter esperança pode ser uma resposta natural a situações pessoais e mundiais, mas não precisa ser permanente. a falta de esperança pode levar a sentimentos de desânimo, apatia, medo e ansiedade, que podem culminar em depressão.
esperança é um sentimento importante que contribui para a saúde mental.
pessoas esperançosas têm um humor mais positivo e uma atitude otimista, o que melhora a qualidade de vida.»

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só tem esperança quem tem esperança pra dar

a resposta da ia acabou com o fio de esperança que eu tinha. aliás, ao contrário do que diz a «ia» e do que pensa a maioria das pessoas, não creio que ter esperança seja algo saudável, pelo contrário, quanto menos esperança eu tenho, mais eu escrevo, e quanto mais eu escrevo, menos eu durmo, e quanto menos eu durmo, mais coisas eu faço, e quanto mais coisas eu faço, menos eu morro, e quanto menos eu morro, mais eu vivo, e quanto mais eu vivo, menos esperança eu tenho.

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tenho

tenho, vamos ver,
que já aprendi a ler,
a contar,
tenho que já aprendi a escrever
e a pensar
e a rir.
tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
tenho, vamos ver,
tenho o que tinha que ter.

nicolás guillén, 1964

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vivemos a ditadura da esperança. somos escravos da esperança. o sistema se alimenta de esperança. só tem esperança quem tem esperança pra dar. não devemos dar esperança. se algum dia vencermos terá sido porque acordamos e levantamos, não porque dormimos e esperamos.

grill

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agora escrevo pássaros

agora escrevo pássaros.
não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe, o amor.

cortázar

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cortázar comenta a morte do che, em 1967

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paris, 29 de outubro de 1967,
roberto, adelaida, meus muito queridos:

quero dizer-te isto: não sei escrever quando algo me dói tanto, não sou, não serei nunca o escritor profissional pronto a produzir o que se espera dele, o que lhe pedem ou o que ele pede a si mesmo desesperadamente. a verdade é que a escrita, hoje e diante disto, parece-me a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de dissimulação quase, a substituição do insubstituível.

o che está morto e a mim não me resta mais que silêncio.

calo-me então.

recebeste, espero, a mensagem que te enviei. era minha única maneira de abraçar-te, a ti e a adelaida, a todos os amigos da casa. e para ti também é isto, o único que fui capaz de fazer nestas primeiras horas, isto que nasceu como um poema e que quero que tenhas e que guardes para que estejamos mais juntos.

che

eu tive um irmão.
não nos vimos nunca
porém não importava.
eu tive um irmão
que ia pelos montes
enquanto eu dormia.
quis-lhe a meu modo,
tomei-lhe sua voz
livre como a água,
caminhei às vezes
próximo de sua sombra.
não nos vimos nunca
porém não importava,
meu irmão acordado
enquanto eu dormia,
meu irmão mostrando-me
por trás da noite
sua estrela eleita.

logo nos escreveremos.
abraça forte a adelaida.
até sempre, julio

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de volta ao começo

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«que tenho eu que hablarte comandante
se o poeta és tu»

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por julio cortázar

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#américas