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terça-feira, 9 de julho de 2013

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O SONHO DE CERVANTES
(E OUTROS DELÍRIOS)


POEMA
I


(De como um estranho e mirabolante sonho povoou a mente de um tal Miguel de Cervantes e dos inusitados e jamais vistos resultados que nasceriam desse aparentemente inofensivo desvario)


O SONHO DE CERVANTES

Existe, sim! Existirá depois! E já existia antes!
Esses estranho sonho que sonhou Cervantes
E que sempre é o dilema de cada ser humano

Existe, sim! Já existia antes! E existirá depois!
Porque como Cervantes também somos dois
Por vezes Quixote... por vezes Quijano...

Quijano entre seus livros, sonhando a aventura
Quixote em seu cavalo, com lança e armadura
(Que adormeça a realidade, o sonho é mais real)

Quijano envelhecendo em seu comum destino
Quixote, o corpo ereto, a alma de menino
O heróico cavaleiro sempre em luta contra o mal...

                             Martim Cèsar



O SONHO DE CERVANTES
«Existe, sim! Já existia antes! E existirá depois!
Porque como Cervantes também somos dois
Por vezes Quixote... por vezes Quijano...»
MARTIM CÉSAR/PAULO TIMM
CAMINHOS DE SI
2004

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O SONHO DE CERVANTES
(E OUTROS DELÍRIOS)


POEMA
II


(Que trata de como o nosso ilustre cavaleiro D.Quixote de la Mancha demonstrou, de maneira inequívoca, que a maior loucura é a de não dar asas aos sonhos que todos guardam dentro de si)


A REALIDADE DE QUIXOTE

Que sabem os que o vêem tão somente como um louco?
De aventuras... quase nada!, da história... muito pouco!
Do mundo só conhecem o cinzento cotidiano...

Que sabem os que se riem da sua ingênua insensatez?
Se envelhecem em seus leitos, invejando-lhe a altivez
E morrem sem viver... que é o destino mais insano.

Acaso há melhor sina do que ser nobre entre os nobres,
Humilde entre os humildes, bemfeitor dos pobres,
Àqueles a quem jamais faltaste, destemido paladino?

D. Quixote de la Mancha, que em sua heróica epopéia
Ofertou todas as glórias à sua amada Dulcinéia
Sem buscar maior riqueza que o seu elmo de Mambrino...

                                  Martim César



SONHO IMPOSSÍVEL
«Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível»
CHICO BUARQUE/RUY GUERRA
CHICO & BETHÃNIA
 1975

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O SONHO DE CERVANTES
(E OUTROS DELÍRIOS)


POEMA
III


(De como um camponês sem instrução alguma veio a se tornar o leal e mui valoroso escudeiro do maior e mais famoso cavaleiro andante que o mundo jamais conheceu)


ADÁGIO A SANCHO PANÇA

Por ti, Sancho Pança, foi criada a palavra lealdade
E foi maior e mais real o valor de uma amizade
Que uniu dois seres na mais insólita aventura...

Por ti - que nada foste e, no entanto, tudo eras -
(pois foste a terra que deu razão às vãs quimeras)
É que nasceu a lenda do Cavaleiro da Triste Figura

Eternamente andarás pelos caminhos de Espanha
Junto a Don Quixote, a acompanhá-lo em sua façanha
De sagrar-se dentre todos o maior dos cavaleiros...

Pois desde então, na alegria, na tristeza ou no perigo,
Sempre que alguém quiser saber o que é um amigo
Recordará a Sancho Pança, o mais fiel dos escudeiros.

                                     Martim César



DECIR AMIGO
«Decir amigo
es decir lejos
y antes fue decir adiós.
Y ayer y siempre
lo tuyo nuestro
y lo mío de los dos»
JOAN MANUEL SERRAT
PARA VIVIR
1974

TENGO UN AMIGO
«Tengo un amigo allá adentro,
más allá de la piel o la mentira,
un amigo prisionero que postergo,
un espejo que nublo con mi olvido,
un otro que soy yo y no reconozco»
DANIEL VIGLIETTI
ESDRÚJULO
1993

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O SONHO DE CERVANTES
(E OUTROS DELÍRIOS)


POEMA
IV


(De como o nosso heroico cavaleiro da Triste Figura se enamorou perdidamente pela mais formosa e altiva musa que já existiu, e de como lhe ofertou todas as suas inúmeras e incomparáveis glórias)


POR AMOR A DULCINEIA

Nunca houve amor maior... nem mais sincero
Talvez nem mesmo o da Penélope de Homero
Sempre a esperar Ulisses em sua Odisseia

Tampouco Shakespeare, o bardo incomparável
Narrou algum outro mais belo, mais louvável
Que o de Dom Quixote por sua amada Dulcineia

Talvez nem todas as estrelas que existam no universo
Ou o melhor poeta ao escrever seu melhor verso
Possam expressar esse sentir tão venturoso...

Porque todas as glórias em batalhas desiguais
Porque todas as vitórias e façanhas imortais
Foram por sua senhora... Dulcineia del Toboso!

                          Martim César



LUCÍA
«Vuela esta canción
para ti, Lucía,
la más bella historia de amor
que tuve y tendré.
Es una carta de amor
que se lleva el viento
pintado en mi voz
a ninguna parte
a ningún buzón»
JOAN MANUEL SERRAT
MEDITERRANEO
1971

PENÉLOPE
«Penélope
mi amante fiel, mi paz
deja ya
de tejer sueños en tu mente
mírame
soy tu amor, regresé»
JOAN MANUEL SERRAT/AUGUSTO ALGUERÓ
JOAN MANUEL SERRAT (EP)
1969

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O SONHO DE CERVANTES
(E OUTROS DELÍRIOS)


POEMA
V


(Que trata de como o nosso valoroso fidalgo enfrentou uma raça de moinhos, aliás... de gigantes, ou de gigantes disfarçados de moinhos por força de magia; e de como ao sofrer, nesse embate, um pequeno revés, ainda assim não se deu por derrotado)


O FIDALGO ANTE OS MOINHOS

Quem poderia opor-se à insana fúria dos gigantes
Senão o mais bravo de todos os cavaleiros andantes
O mais valente fidalgo que já cruzou estes caminhos?


Que lhe importa se a magia de um malvado feiticeiro
Vom seus ardis, desvirtue o olhar do mundo inteiro
Para que ninguém veja nada mais do que moinhos?


Os séculos que virão hão de lembrar sempre do dia
Em que o heróico cavaleiro, com destreza e galhardia
Enfrentou o mais feroz e mais temível dos gigantes


E se afirmarem que viu-se derrotado em seu intento
Que eram apenas moinhos impulsionados pelo vento
Há de ser pela magia que iludiu também a Cervantes!

                                      Martim César



COMO ÁGUA EN EL MOLINO
«Como agua en el molino
Van dando vueltas
Las palabras me llaman
Y me despiertan
Las palabras son vivas
Tienen historia
Tienen un nacimiento
Y una memoria»
ISABEL PARRA
COLORES
2000

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O SONHO DE CERVANTES
(E OUTROS DELÍRIOS)


POEMA
VI


(De como toda a Espanha - e quiçá toda a humanidade - houve por bem pedir ao já mui afamado Cavaleiro da Triste Figura que retornasse às suas heróicas aventuras, e assim trouxesse novamente a sua inigualável honra a uma era tão carente dos valores da cavalaria andante)


PELOS CAMINHOS DA ESPANHA

Quando agora te recolhes ao descanso que mereces
E os humildes te reclamam e as donzelas fazem preces
Toda a Espanha se pergunta, de Catalunha a Andaluzia...

Como andar nestes caminhos sem teu braço justiceiro,
Sem tua honra inquebrantável de fidalgo e de guerreiro,
Sem tua bravura que pôs freio à maldade e à tirania?

Memoráveis tempos que haverão de ter sempre renome
Aqueles... em que tão somente a pronúncia do teu nome
Afugentava os feiticeiros e assustava os malfeitores...

Dom Quixote de la Mancha, já imortal se fez tua lenda
Por isso o mundo vem pedir-te que regresses à tua senda
Dai-nos outra vez teu sonho, tua coragem, teus valores...

                                           Martim César



YA NO HAY LOCOS
«Ya no hay locos,
Amigos, ya no hay locos.
Ya no hay locos
En España, ya no hay locos.
Se murió aquel manchego,
aquel estrafalario fantasma del desierto»
LEÓN FELIPE/PACO IBAÑEZ
YA NO HAY LOCOS
1997

segunda-feira, 8 de julho de 2013

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O SONHO DE CERVANTES
(E OUTROS DELÍRIOS)


POEMA
VII


(De como o engenhoso fidalgo venceu o terrível duelo contra um outro cavaleiro muy versado nas regras da cavalaria andante e da forma que instou-o, após a inesquecível batalha, a prostrar-se ante à formosa e sem par Dulcineia del Toboso)


O CAVALEIRO VITORIOSO

Os séculos vindouros hão de saber da tua vitória
Pois outra igual jamais houve em toda a história
Nem haverá outra maior que a tua proeza.

Nem os cruzados na guerra santa contra os mouros
Nem os romanos com suas glórias, com seus louros
Fariam frente ao valor da tua destreza.

Os bardos cantarão tua façanha aos quatro ventos
E nos sete mares... nas tabernas... nos conventos...
Serás o tema dos corsários e dos vates.

Qual a de El Cid, Don Quixote, hoje é a tua fama
Porque provaste a formosura sem igual da tua dama
E ainda perdoaste a quem venceste nesse embate.

                                 Martim César



HISTÓRIA DO CAVALEIRO SERTANEJO 
COM A PRINCESA DO CLAREAR
«Cavaleiro que passas,
Que vais pro sertão,
Qual o destino que me levas?
Que queres correndo chão?
Princesa, trago nos olhos
Os caminhos por onde andei.
De guerras não fui vencido.
Minha luta é sempre com o rei»
CARLOS PITA
ÁGUAS DO SÃO FRANCISCO
1979

CORSÁRIO
«Bendita lâmina grave que fere a parede e traz
As febres loucas e breves
Que mancham o silêncio e o cais
Roserais, Nova Granada de Espanha
Por você, eu, teu corsário preso
Vou partir na geleira azul da solidão»
ALDIR BLANC/JOÃO BOSCO
ESSA É A SUA VIDA
1981

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O SONHO DE CERVANTES
(E OUTROS DELÍRIOS)


POEMA
VIII


(Que trata da inusitada e fantástica aventura onde o valente e fiel escudeiro Sancho Pança toma a posse de uma ilha, governando-a magnificamente até que um dilema, não menos fantástico e inusitado, assola a sua mente um tanto limitada)


A ILHA DE SANCHO PANÇA

Afinal, chegou o dia! Sancho Pança vibra e pensa
No seu descanso merecido, na sua justa recompensa
A sua ilha tão sonhada hoje é mais do que miragem.

Servos, terras e riquezas... eis aqui seu governante
Que é justo por ser sábio e que é sábio por andante
Pois nas agruras do caminho fez a sua aprendizagem.

Porém estranho é o destino e ainda mais a alma humana
E entre a paz da sua guarida e a aventura mais insana
O escudeiro já não sabe qual a sorte preferida...

Há que seguir! Pensa e pondera Sancho Pança...
Há que seguir!Manter acesa a chama da esperança
Pois, afinal, não será ela a razão da própria vida?

                                    Martim César



CANTARES
ANTONIO MACHADO/JOAN MANUEL SERRAT
«Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar»
CANTARES
1969

LA LLAMA ENCENDIDA
«Aunque pasen días,
aunque pasen años,
la llama encendida
no se apagará»
ISABEL PARRA
TU VOLUNTAD MÁS FUERTE QUE EL DESTIERRO
1983

domingo, 7 de julho de 2013

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O SONHO DE CERVANTES
(E OUTROS DELÍRIOS)


POEMA
IX


(Que trata de como a imprevisível sorte foi desfavorável ao fidalgo Don Quixote de la Mancha, e de como o vencido, porém honrado cavaleiro, não abdicou de seu imensurável amor por sua senhora Dulcineia)


O CAVALEIRO DERROTADO

Talvez o tempo, que tudo envolve em densas brumas
Possa esquecer o que escreveram tantas plumas
E apague a dor de ver-se os sonhos destruídos

Fidalgo errante, ontem vencedor de mil batalhas
Hoje o que resta? Só o descanso ou a mortalha
A inglória sina que é o espólio dos vencidos

Efêmera é a conquista e toda a glória é passageira
Mas a derrota... essa perdura a vida inteira
Ainda que pouco hoje te reste por viver.

Prefiro a morte! - Hás de dizer - Prefiro a morte!
Já que os deuses não te deram melhor sorte
E á tua amada... tu honrarás até morrer.

                          Martim César



VENCIDOS
«Por la manchega llanura
se vuelve a ver la figura
de Don Quijote pasar.
Va cargado de amargura,
va, vencido, el caballero
de retorno a su lugar»
LEÓN FELIPE / SERRAT
MEDITERRANEO
1971

TE AMARÉ
«Te amaré, te amaré junto al viento
te amaré como único ser
te amaré hasta el fin de los tiempos
te amaré y después te amaré»
SILVIO RODRIGUEZ
RABO DE NUBE
1980

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O SONHO DE CERVANTES
(E OUTROS DELÍRIOS)


POEMA 
X


(Que trata da confusão existente na mente de um tal Miguel de Cervantes, malgrado sua genial criação, e de como nosso inolvidável cavaleiro D. Quixote de La Mancha voltou a ser um mero e obscuro Alonso Quijano, para dessa forma nascer como um ser humano qualquer)


A SEGUNDA MORTE DE DON QUIXOTE

Enfim termina o sonho, voltaste a ser Quijano
E a morte que te ronda é a de cada ser humano
E a sorte que te espera é a de todos os mortais

Enfim tudo se acaba... e assim também a aventura
Daquele heróico cavaleiro nem recordas a figura
Aqueles dias memoráveis não regressarão jamais

E, no entanto, o que importa a tua tardia lucidez
Se o mundo sempre vai lembrar a altiva insensatez
De um louco que sonhou ser um sonho a realidade

Teu nome - Dom Alonso - será apagado pelo vento
Mas Dom Quixote viverá muito além do nosso tempo
Além de ti, além de mim... enquanto houver humanidade!!!

                                          Martim César



VOLVERÁN LAS OSCURAS GOLONDRINAS
«Volverán las oscuras golondrinas
Pero aquellas que su vuelo refrenaban
Aquellas que aprendieron nuestros nombres
Ésas...¡no volverán!»
GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER/PACO IBÁÑEZ
POR UNA CANCIÓN
1990



PARA SER HUMANO
«Para ser humano estoy aqui
Muero cada día por vivir
Vivo de creer en lo que invento»
PIERO/JOSÉ
UN HOMBRE COMÚN
1983