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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 

pra não dizer que não falei de luiz inácio

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«eu olho pra ver o pessoal que está me governando e ditando minhas regras -- eles não têm nenhum cabelo na cabeça.»

bob zimmerman

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«lula sempre foi um grande conciliador. mas um conciliador perde o seu maior poder quando não há conflitos. e uma das raízes da nossa pasmaceira, desta letargia, é justamente a ausência de conflitos, de contrapontos. não tem nada para conciliar. mais do que conflitiva, a sociedade está anestesiada, quase em coma induzido. o que faz um pacificador quando não há o que pacificar?»

maria da conceição tavares 

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«há quem diga que essa história de desobediência civil e revolução não tá com nada. isto é, já era. "não tá com nada", pode ser que sim; "já era", penso que não. por quê? porque aqui no brasil, salvo uma ou outra exceção — vide a balaiada no maranhão —, isso jamais aconteceu. portanto, não se pode dizer "já era" para uma coisa que nunca foi.»

autor desconhecido

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«estou no brasil desde 1954 e jamais vi tamanho estado de letargia. na ditadura, havia protesto. hoje, mal se ouve um sussurro.»

maria da conceição tavares

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a pessoa é para o que nasce
[vai, carlos, ser gauche na vida]

por enilton grill

sou um injusto com lula, gostaria que ele fosse mais corajoso, mais insolente, que tivesse deixado os banqueiros à míngua, que tivesse encarado os empresários de frente, que tivesse dito não à rede globo de televisão, que tivesse feito a reforma agrária, que tivesse implantado o método paulo freire em todas as escolas públicas do país, que, ao invés do bolsa-família, tivesse instituído o fome zero, projeto idealizado por betinho, irmão do henfil, que tivesse ouvido mais as bases e menos os puxa-sacos, enfim, que lula fosse o que eu, na adolescência, pensei que ele era, um radical. mas lula não é, nem nunca foi, um radical. lula é um conciliador. e isso não é pecado, pecado é não ser feliz. e feliz acho que lula é. razões pra isso, pelo menos, não faltam. o povo brasileiro que o diga.

guardadas todas as proporções, é o mesmo meu caso. soy feliz, soy un hombre feliz. com uma pequena grande diferença: lula é feliz sendo conciliador e eu sou feliz sendo radical.

antes, porém, que alguém diga, que é fácil ser radical atrás de um computador e escrevendo no facebook, digo que fácil não é. mas alguns são, outros não. eu sou. se você não é, não posso fazer nada. fazer o quê? ninguém tem culpa de ser o que é. aliás, pelo contrário, torna-te quem que tu és, diria um poeta e filósofo alemão.

e foi o que luiz inácio e eu fizemos: tornamo-nos quem somos. enquanto lula lutou contra todas e as maiores dificuldades, para tornar-se o que é, eu abandonei todas as facilidades, para tornar-me o que sou, enquanto lula tornou-se um gigante, eu tornei-me um zé-ninguém.

aliás, lula é mesmo um gigante, já foi presidente por três vezes e elegeu dilma rousseff outras duas.

em 2018, impedido de se candidatar, lula pegou fernando haddad pela mão, e saiu em caravana pelo brasil. resultado: fernando haddad, um homem digno e honrado, mas totalmente desconhecido para a grande maioria dos brasileiros, fez mais de 47 milhões de votos e, com dez milhões de votos a mais, teria sido eleito presidente do brasil.

enfim, eu acredito na rapazida. se eu fosse lula, em 2026 daria carona para renato freitas. mas não sou. lula é lula. eu sou um zé ninguém.

e é assim que as coisas são: a pessoa é para o que nasce.
eu, pra desafinar o coro dos contentes, e lula pra ser presidente.

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quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes

let's play that | jards macalé/torquato neto, 1983

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antes de seguir falando de luiz inácio
permitam-me que eu relembre uma autocrítica

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facebook, 2019

tem quem defenda o diálogo olho no olho para dissuadir antipetistas bolsonaristas de seu aparente estado de catatonia. eu também. por isso fui a campo — o que, aliás, já havia feito antes.

depois de 100 dias de (des)governo bolsonaro, será que algum antipetista bolsonarista mudou de ideia ou de opinião? quer dizer: será que os 100 dias de um idiota no poder foram suficientes para que chegassem à conclusão de que, se era ruim com o pt, ficou pior sem ele? não sei, mas acho que não.

aqui onde moro --- ponte cordeiro de farias, 5º distrito de pelotas --- o que mais tem é antipetista bolsonarista. eles até concordam que o brasil vai de mal a pior. mas quando pergunto o porquê, todos, sem exceção, dizem que a culpa é do pt.

então eu insisto. procuro mostrar como as coisas eram e como estão, mas não adianta: não há o que eu diga que os faça mudar de opinião.

chego à conclusão, então, de que a culpa é minha — tenho muita vontade, mas me falta poder de persuasão.

(republicação de 2019)

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a verdade é pra ser dita
já dizia a minha vó

«há muita dor, mas existe a raiva. e a raiva é energia para lutar.»

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«nós não somos da elite dominante, meus filhos. sei que alguns de vocês até tem a pretensão de ser. eu não tenho, então não ofereço chá e simpatia. isto é um curso rebelde.

nós perdemos! nós somos os derrotados. e se vocês não fossem derrotados não estariam nem nesta universidade, mas na usp, na puc ou em outra qualquer...

estamos lutando por hegemonia? imagine! estamos lutando para não enlouquecer. para não falar besteira demais, para não contribuir com uma gota de fel para o veneno alheio. tomemos nossa cicuta com tranquilidade.»

«estamos lutando para não enlouquecer...»

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me declaro culpado

em homenagem a maria da conceição tavares, de quem sou e sempre fui profundo admirador, aproveito o final de sua fala — ali onde ela diz «para não falar besteira demais, para não contribuir com uma gota de fel para o veneno alheio, tomemos nossa cicuta com tranquilidade» — para esclarecer algumas coisas a meu respeito.

para que não fiquem dúvidas, o farei no bom e velho português.

os motivos que me afastaram do pt não são os mesmos que fazem alguns odiarem o pt. os meus estão mais à esquerda; os deles, mais à direita. antipetistas sentem raiva, ódio, rancor, eu sinto tristeza, desapontamento, dissabor. há um abismo entre nós. só não vê quem não sabe, não pode ou não quer.

não nutro ódio por nada nem por ninguém. tampouco participo dessa seita chamada antipetismo, que move a direita raivosa. minhas posições são claras — e me orgulho delas. sou e sempre serei um homem de esquerda.

sonhador? com certeza. recuso-me a aceitar que a condição humana esteja condenada ao egoísmo, ao consumismo e ao individualismo, sinônimos do capitalismo. ou à arrogância e à prepotência, sinônimos do imperialismo. continuo acreditando — e cada vez mais — no socialismo como sinônimo de solidariedade e liberdade.

se não há nem nunca houve liberdade nos países que se diziam ou se dizem socialistas, problema deles, não do socialismo. o socialismo em que acredito simplesmente ainda não aconteceu. talvez seja uma utopia. se for, que seja. «se as coisas são inatingíveis... ora! não é motivo para não querê-las... que tristes os caminhos, não fora a presença longínqua das estrelas.»

eu não sou petista
eu não sou socialista
eu não sou comunista.
eu sou antes de tudo anticapitalista
e mais que nada contra a propriedade privada
eu sou anarquista

noutras palavras: 

eu sou de esquerda e a esquerda não tem nada a ver com o governo lula e me arrisco a dizer com governo algum em lugar algum até porque a esquerda não tem nada a ver com governo porque governo tem a ver com poder e poder com hierarquia e hierarquia com submissão

e assim andamos... uns a caminho do sol; outros com uma estrela no coração; outros com a foice e o martelo na mão. cada um ao seu jeito. eu, com a bandeira preta no ar e a letra A no peito.

eis a minha confissão. com ela morro abraçado e dela me declaro culpado.

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y que la pena por mí no tenga pena
por cada explicación que me castiguen
porque el pueblo en mi patria fue inocencia
algún exilio y otras consecuencias

me declaro culpable | piero (1984)

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os tempos mudaram e eu não vi 

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«"quando ele abrirá os olhos?"
"quem é ele? você não sabe? ele é um louco,
nunca abre os olhos."
"mas com certeza vai sentir falta do mundo lá fora."
"não! ele vive no próprio mundo."
"nossa, então ele deve ser mesmo um louco."
"é, ele é um louco."

e assim, em ruas cintilantes
e estradas rurais,
ouço sinos de trenó
tilintarem,
garotas virgens cantarem e rirem
ao longe, no campo, com vozes trêmulas que se apagam suavemente.eu paro, sorrio e descanso um pouco, observando as velas do pôr do sol se apagarem despercebidas , pois meus olhos estão fechados.»

dos 11 epitáfios esboçados por bob dylan

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well, estive em londres e na alegre paris
segui o rio até chegar ao mar
fui ao fim de um mundo cheio de mentiras
não procuro nada nos olhos de ninguém
às vezes meu fardo é maior do que posso suportar
não escureceu ainda, mas não vai demorar

https://www.youtube.com/watch?v=fwnS693y1HE&list=RDfwnS693y1HE&start_radio=1
not dark yet | bob dylan (1997)
vídeo oficial
(legendado em português)

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das dores do mundo

a mais eficaz consolação em toda a desgraça, em todo o sofrimento, é voltar os olhos para aqueles que são ainda mais desgraçados do que nós: este remédio encontra-se ao alcance de todos. mas que resulta daí para o conjunto? semelhantes aos carneiros que saltam no prado, não sabemos, nos nossos dias felizes, que desastre o destino nos prepara precisamente a essa hora, – doença, perseguição, ruína, mutilação, cegueira, loucura, etc. tudo o que procuramos colher resiste-nos; tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer. na vida dos povos, a história só nos aponta guerras e sedições: os anos de paz não passam de curtos intervalos de entreatos, uma vez por acaso. e da mesma maneira a vida do homem é um combate perpétuo, não só contra males abstratos, a miséria ou o aborrecimento, mas também contra os outros homens. em toda a parte se encontra um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as armas na mão.

arthur schopenhauer

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mãe, ponha minhas armas no chão
não vou mais dispará-las
aquela enorme nuvem negra está descendo
acho que estou batendo na porta do céu

https://www.youtube.com/watch?v=YrYBuhB2FkM&list=RDYrYBuhB2FkM&start_radio=1
knockin' on heaven's door | bob dylan (1973)
[vietnam's war videoclip/short film for the amazing cover conner]
gracias a airsoft bizkaia y al ayuntamiento de belorado (burgos) por hacer el videoclip posible. gracias también a luis jorge del barco, juan pedro ramos (padre e hijo) y a jose antonio tudanca.
una producción de eleria films

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#américas