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quarta-feira, 30 de setembro de 2026


educação da tristeza

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«enilton, enilton, aquele que anda nu pelo mundo, nu de roupas e até de pele.. anda pelo mundo em carne viva... esse teu andar pela vida em carne viva... dói na carne de quem te segurou no colo ao nascer, pois... não é literatura, é vida mesmo... »

maria elizabeth gastal fassa
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«a literatura acontece em todos os sentidos e não se inibe perante verdades ou mentiras. usa tudo, como alarve sem limites senão os da sua própria imaginação, a vontade de se instalar como substututa absoluta da vida. por vezes, a literatura tange a vida como se até nós nos confundíssemos, baralhados entre o que é verdade e o que parece verdade, seguindo por vias paralelas, permitindo viver numa fantasia cujo aparato nos apetece ou mais conforta.»
valter hugo mãe 

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«a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»

manoel de barros

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por que cresceste, curuminha
assim depressa, e estabanada
saíste maquilada
dentro do meu vestido
se fosse permitido
eu revertia o tempo
pra reviver a tempo
de poder

te ver, as pernas bambas, curuminha
batendo com a moleira
te emporcalhando inteira
e eu te negar meu colo
recuperar as noites, curuminha
que atravessei em claro
ignorar teu choro
e só cuidar de mim

deixar-te arder em febre, curuminha
cinquenta graus, tossir, bater o queixo
vestir-te com desleixo
tratar uma ama-seca
quebrar tua boneca, curuminha
raspar os teus cabelos
e ir te exibindo pelos
botequins

tornar azeite o leite
do peito que mirraste
no chão que engatinhaste, salpicar
mil cacos de vidro
pelo cordão perdido
te recolher pra sempre
à escuridão do ventre, curuminha
de onde não deverias
nunca ter saído

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(chico buarque, 1979)
mônica salmaso e chico 
(ao vivo)

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eduacação da tristeza
novos anos e, afinal ainda não há colônias na lua, não se fala com extraterrestres, não temos casas que mudam de posição conforme o sol, não somos nada teletransportados.

tudo quanto nos prometeram para o já distante ano 2000 foi mentira. ao invés disso, arranjaram a internet para imitar a realidade e convidar a uma cidadania de fantasia. na fantasia final, podemos elaborar sobre a felicidade, o bem-estar, o amor correspondido.
estamos cada vez mais entregues a essa dimensão sucedânea que nos mente uma compensação que não procede. os anos parecem só ser novos nessa transferência cada vez mais intensa e trágica que fazemos do que é verdade em prol daquilo que é mentira.

aceitamos a mentira, preferimo-la, vamos concebendo sua dignidade e sua necessidade. Por causa da poesia, do que ainda há de arte, de uns poucos amigos e da possibilidade de chegarem a mais primaveras e verões, estarei invariavelmente do lado da esperança, mas convicto de que espero assuzinhado, porque me parece que menos pessoas esperam algo que não seja apenas pior, menos bom, mais difícil.»
valter hugo mãe

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ao vento

no meio do caminho tinha uma «cadeira»
tinha uma «cadeira» no meio do caminho
tinha uma «cadeira»
no meio do caminho tinha uma «cadeira»

grill

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en el borde del camino hay una silla,
(na beira do caminho há uma cadeira,)
la rapiña merodea aquel lugar.
as aves de rapina sobrevoam aquele lugar.
la casaca del amigo está tendida,
(o casaco do amigo está estendido,)
el amigo no se sienta a descansar.
(o amigo não se senta a descansar.)
sus zapatos, de gastados, son espejos
(seus sapatos, de tão gastos, são espelhos)
que le queman la garganta con el sol.
que lhe queimam a garganta com o sol.
y a través de su cansancio pasa un viejo
(e, em meio ao seu cansaço, passa um velho)
que le seca, con la sombra, el sudor.
(que lhe seca, com a sombra, o suor.)

en la punta del amor viaja el amigo,
(na ponta do amor viaja o amigo,)
en la punta más aguda que hay que ver.
(no ponto mais agudo que se pode ve.)
esa punta que lo mismo cava en tierra,
(esse ponto que tanto escava na terra
que en las ruinas, que en un rastro de mujer.
(quanto nas ruínas, quanto em um rastro de mulher.)
es por eso que es soldado y es amante,
(é por isso que é soldadado e e é amante,)
es por eso que es madera y es metal.
(é por isso que é madeira e é metal.)
es por eso que lo mismo siembra rosas,
(é por isso que tanto semeia rosas
que razones de banderas y arsenal.
quanto razões de bandeia e arsenal.)

el que tenga una canción tendrá tormenta,
(quem tiver uma canção terá tempestade,)
el que tenga compañía, soledad.
(quem tiver companhia, solidão.)
el que siga buen camino tendrá sillas
(quem seguir o caminho certo encontrará cadeiras)
peligrosas que lo inviten a parar.
(perigosas que o convidem a parar.)
pero vale la canción buena tormenta,
(mas a boa canção vale a tempestade)
y la compañía vale soledad.
(e a companhia vale a solidão.)
siempre vale la agonía de la prisa,
(sempre vale a agonia da pressa,)
aunque se llene de sillas la verdad.
(mesmo que se encha de cadeiras a verdade.)

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(silvio rodríguez, 1969)

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«a bola que lancei
quando brincava no parque
ainda não tocou o chão»

dylan thomas

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¡pero eso sí!
y en esto soy irreductible no les perdono,
bajo ningún pretexto,
que no sepan volar¡

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(sobre poemas de mario benedetti e outros)

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«penso que existo numa ideia antiga que pessoas calmíssimas terão deixado ao mundo. sou essa ideia dessas pessoas mortas e generosas. só tenho de esperar entender essa ideia. deixá-la intensa, não para saber que livro escrevo. mas para saber quem sou. e, então, escrevo.»
valter hugo mãe

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cores e valores
por josé falero

na linha pontilhada vou indo, indo, indo
na terra cujo herói matou um milhão de índios
pelas marginais os pretos agem como reis
gostar de nós, tanto faz, tanto fez
me degradar pra agradar vocês? nunca!

cores e valores, racionais mc’s

«e o recepcionista do hotel que achou que eu não era hóspede?»

recebi essa mensagem da dalva, minha namorada. não existe tom em texto. pelo escrito, eu não tinha como saber qual era o estado de espírito da dalva naquele momento. a Dalva, então, mandou mais mensagens:

«fui deixar uns livrinhos para uma leitora que vai vir buscar no hotel.»
«o recepcionista fez uma cara ruim e perguntou se a pessoa que viria pegar os livrinhos era hóspede.»
«eu disse que eu era a hóspede.»
«e ele: "ah, tu é hóspede?".»

dalva é escritora independente. e lá estava ela, num hotel em porto alegre.

recorri ao meu último lançamento em são paulo para responder à dalva. comentei que estive hospedado em um hotel tão pomposo quanto aquele e que também houve suspeitas quanto à minha condição de hóspede. três pessoas pensaram que eu estava lá para realizar algum tipo de trabalho braçal. tudo isso durante o tempo que levei para fumar um cigarro.

fui a um bar. queria ficar quieto um pouco, olhando para o nada e pensando na conversa que a gente tinha acabado de ter.

«ah, tu é hospede?»

conheço constrangimentos assim muito bem. já amarguei situações semelhantes muitas vezes desde que me tornei escritor e passei a circular por espaços que historicamente não foram reservados para pessoas como nós. em geral, porém, a verbalização involuntária do que pensam e sentem a nosso respeito não é, em si, o que mais me incomoda. tal verbalização não passa de uma pequeníssima cereja; o restante do bolo, que é tácito, me perturba muito mais. o recepcionista deixou escapulir por acidente aquilo que passou não só pela sua mente e pelo seu coração, mas pela mente e pelo coração de todos, absolutamente todos os que cruzaram com a dalva naquele hotel. todos. do funcionário ao hóspede. e esse é o problema real.

enquanto bebia a minha cerveja, lembrei de um episódio do chapolin colorado: a vendedora de flores. trata-se de uma paródia de my fair lady, que é uma adaptação da peça pigmalião, que se baseia no mito de pigmalião.

o sentido da história é a insinuação de que a expectativa que temos a respeito da realidade, antes mesmo de a realidade em si se manifestar, determina como a realidade vai se manifestar depois.

lembrei de finado neguin, do álbum cores e valores:
quem, quem permitiu?
deus dirigiu esse filme
dizem: crime é o rap
dizem: rap é o crime
dizem: rap é o crime
você diz, você decide
o resto só coincide
e aí temos tudo: como causa, a expectativa e, como efeito, a realidade. o classicismo e o racismo fazem com que o rap seja percebido antecipadamente como sinônimo de criminalidade; a mentalidade espera que a realidade coincida com a sua visão de mundo; e a realidade de fato costuma coincidir.

robert rrosenthal e lenore jacobson conduziram um estudo sobre como as expectativas afetam o desempenho e deram o nome de efeito pigmalião; já robert k. merton preferiu batizar o fenômeno de profecia auto-realizável, porque quem faz a profecia é, na verdade, quem a faz acontecer.

e no caso da dalva, também coincidiu. ciente de que não era avaliada como hóspede por ninguém naquele maldito hotel, ela não conseguiu comportar-se como tal. passou todos os dias da hospedagem encerrada no quarto. não queria ser vista por ninguém, não queria interagir com ninguém. não queria ser submetida ao constrangimento infalível que um lugar como aquele provoca em uma pessoa como ela.

mas pensar sobre essas coisas todas só me fez perceber o quanto dalva é mesmo uma figura incrível. ao longo de sua trajetória, nunca, em nenhum momento, dalva deixou de ter sobre si o peso do machismo, do racismo, do classicismo, tudo isso a esmagá-la. do que essa mulher não seria capaz em uma sociedade mais justa?

a grande sacada do episódio do chapolin colorado foi trabalhar a ideia da troca horizontal entre os participantes de um processo de transformação. no final, o homem que transformou a vendedora de flores agora fala gírias e veste-se de maneira desalinhada. por que prontamente imaginamos que, nessa troca, o homem foi prejudicado e ela beneficiada? essa é a lente do classicismo.

certa vez, dalva me disse que a minha camisa polo não tem o poder de me transformar no joão dória. a camisa depõe menos a favor da minha figura do que a minha figura contra a camisa. eu e a camisa estamos em relação, e nessa relação eu desfalco muito mais o valor simbólico da camisa do que a camisa consegue acrescentar valor simbólico a mim.

a marca da minha camisa polo depõe menos a meu favor do que eu contra ela; o hotel de luxo depõe menos a favor da dalva do que a dalva contra ele. na verdade, esse fenômeno ocorre até mesmo aqui, neste texto.

um texto escrito por mim jamais vai depor a meu favor tanto quanto eu deponho contra ele. um texto escrito por mim sempre parecerá menos bom do que realmente é, porque fui eu que o escrevi, porque o escrevi com a minha mão parda, porque o pensei com a minha cabeça mestiça, porque o construí com as minhas referências populares, porque o concebi com o ódio perpétuo dos oprimidos. sim, eu deponho contra o meu próprio texto. toda a literatura contemporânea parece menos valorosa porque uma pessoa como eu escreve e publica, porque uma pessoa como dalva escreve e publica. não acreditam que somos hóspedes? no fundo, também não podem acreditar que somos escritores.

embora, é claro, alguns saibam disfarçar melhor do que outros.
(texto escrito para a bienal do mercosul 2025)

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eu venho de um recanto escuro
o sol, luz perpendicular
do outro lado azul do muro
não vou saltar

eu chego às portas da cidade
e nada procuro fazer
espero, nem feliz nem gaia
acontecer

não salto, mas sou carregada
por asas que a gente não tem
a luz não me fulmina os olhos
nem vejo bem

em breve, só saio de noite
a lua não me rasga o peito
cool jazz me faz feliz e só
não tenho jeito

o álcool só me faz chorar
convidam-me a mudar o mundo
é fácil, nem tem que pensar
nem ver o fundo

o chão da prisão militar
meu coração, um fogareiro
foi só fazer pose e cantar
presa ao dinheiro

mas é sempre o recanto escuro
só deus sabe o duro que eu dei
mulher aos prazeres, futuro
eu me guardei

coisas sagradas permanecem
nem o demo as pode abalar
espírito é o que, enfim, resulta
de corpo, alma, feitos, cantar

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(gal, 2011)

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de volta a valter hugo mãe
(ao seu comovente livro)

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em 27 textos de não ficção, a maioria bem curtos, o autor traz reflexões íntimas e profundas sobre morte, luto, a passagem do tempo, como lidar com a presença e ausência das pessoas queridas que partem, além de filosofar sobre o sentido do amor e da vida. numa edição muito bem cuidada, em que os textos são ilustrados pelo próprio autor, na orelha do livro, os editores afirmam que «com rara autoconsciência, educação da tristeza é o cantinho escuro do quarto onde valter se sente livre para rir de si mesmo, brincar, chorar, sentir saudades e, acima de tudo, se abrir para mostrar seu lado mais humano, falível e belo justamente por ser assim».
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impossível não se comover com a profundidade das reflexões do escritor português. a morte motivou a criação deste livro, mas valter hugo procura refletir sobre como continuar a viver apesar da dor. e vê na perda da amiga e do sobrinho este ensinamento.

«estás na morte. digo que estás na morte porque sinto que é um lugar onde ainda vou chegar, quando descobrir o caminho, entender o mapa.
eu penso que a morte é um lugar por dentro de nós, um território mapeado no caminho interior que todos temos e tememos.»

«o eduardo passou mais de dois anos a ensinar a mais limpa e generosa arte de morrer. os gênios, como ele se tornou, educam até a morte, educam até deus.
o eduardo alcançou a sapiência. viu a grandeza da vida, entendeu o sentido. no tabuleiro da vida, onde se busca o sentido, ele não perdeu. ele entendeu.».
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apesar da radicalidade da perda que é a morte, as duas lições são extensíveis a tantos outros motivos de tristeza passíveis de serem erradamente interpretados com os filtros das distorções cognitivas: uma amiga que nos desilude; uma relação que termina; o retorno que (não) temos com as coisas que fazemos o qual nem sempre coincide com o tempo e o esforço que lhes dedicamos… podemos ter feito tudo o que está ao nosso alcance para evitar que estas coisas nos aconteçam, e elas nos acontecerem da mesma forma. isso não significa necessariamente, nem que tenhamos culpa, nem que só nos aconteça a nós, nem que nunca mais conseguiremos ser felizes. aceitar e reconfigurar não se trata de criar ficções a propósito das perdas e das desilusões, trata-se de não acrescentar um problema ao problema. mas o problema é que o problema insiste, persiste.
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o problema senhor
segue sendo semear amor

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(silvio rodríguez, 1991)

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vida que segue

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«não importa o que fizeram com você. o que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você»
jean-paul sartre

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cartas a théo
é verdade que ora ganhei meu pedaço de pão, ora ele me foi dado por bondade de um amigo; vivi como pude, nem bem nem mal, como dava; é verdade que perdi a confiança de muitos, é verdade que meus assuntos financeiros estão em um estado lastimável, é verdade que o futuro parece bastante sombrio, é verdade que eu poderia ter feito melhor, é verdade que eu perdi tempo quando se tratava de ganhar a vida, é verdade que meus estudos estão em um estado lamentável e desesperador, e que minhas necessidades são maiores, infinitamente maiores do que meus recursos. mas vocês chamam isso de cair, de não fazer nada?

eis como eu vejo a coisa: continuar, continuar, isso é que é necessário.
van gogh, julho de 1880

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ao vento 

a cor preferida de van gogh era o amarelo.
o que começou com pontinhos foi se tornando um grande sol.

«ponho o sol no ombro
e o mundo é amarelo».

grill

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y el señor dijo a abraham:
abandona tu tierra natal
y la casa de tu padre,
y ve al país que yo te indicaré.
haré de ti una gran nación,
te bendeciré
y por ti se bendecirán todos los pueblos de la tierra.
el señor dijo a abraham.
esa bella y sabia orden,
fue la que convenció a mi corazón
a decidir que el mundo fuese mi casa.
el mismo mundo que puso
al alcance de mi espíritu
la canción que me refleja
como ningún espejo.

no soy de aquí, ni soy de allá
no tengo edad, ni porvenir
y ser feliz es mi color de identidad.

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(facundo cabral, 1970)
introducción: poema «el caminante»

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