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sábado, 8 de agosto de 2026


pra viajar no cosmos não precisa gasolina

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«somos um bando
um bando
um bando
e muitos outros»

bebeto alves

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legislativo

no ano de 1983, mal tinha completado 18 anos de idade e fui morar em são luís do maranhão. neste ano, nelson coelho de castro lançou seu segundo elepê, um disco homônimo, com o selo da rge. em 1979 lançou seu primeiro compacto, «faz a cabeça» e, entre 1980 e 1981, produziu e lançou o primeiro disco independente produzido no rio grande do sul, - juntos - um marco na música gaúcha e que influenciou outros compositores neste segmento alternativo.

quando cheguei em são luís, já tinha ouvido falar de nelson coelho de castro, mas daí a dizer que conhecia sua obra a distância é grande.

coisas da vida: vim a ouvir seus discos, faixa por faixa, quando já estava em são luís. tinha recém-chegado à ilha e minha irmã de alma, carla gastal, a pedido meu, me enviou, através de minha avó, algumas das «novidades» da música popular gaúcha. entre elas, nei lisboa, bebeto alves e nelson coelho de castro.

todos foram impactantes e marcantes na minha vida. mas nelson é nelson, sempre foi e sempre será.

grill

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eu não posso me esquecer
de nada do que está acontecendo agora, nesse momento...
nesta cidade, neste estado, neste país, neste planeta -
do que estamos fazendo
e o que estamos fazendo para a narrativa da história
eu quero ver se consigo trazer tudo isto
sempre acordado dentro de mim:
este êxtase, esta fotografia
esta música, este cinema
este agora, recém-parido
porque é saber isto tudo agora
e será saber isto tudo, em outro agora
a minha única e verdadeira arma
isto me excita

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conto isso, pois, naquele longínquo 1983, ninguém em são luís (que eu conhecesse) conhecia nelson coelho de castro. hoje ele é conhecido de muitos maranhenses amigos meus, que apresentaram sua música a amigos seus, até que ela chegou aos ouvidos de zeca baleiro e blá blá blá, blá blá blá blábláblá. sim, essa história vocês já estão cansados de ouvir e eu de contar.

o que eu ainda não contei
e vou contar agora
é que
em 1987
minha avó foi nos visitar
e trazia um elepê junto com ela
cujo nome é tango
de vitor ramil
que traz
entre umas & outras
loucos de cara
e joquim
não digo que ninguém
na ilha
além de mim
conhecia vitor
seria muita pretensão
de minha parte
até porque
é bom lembrar
o sobrenome ramil
já era conhecido em todo o brasil
mas
em relação aos amigos mais próximos
jovens poetas
reunidos em torno da akademia dos párias
«loucos em suma
uns por pouca coisa
outros por coisa alguma»
de que o disco os impactou
eu não tenho dúvida nenhuma
a verdade é que cruzei com nelson coelho de castro uma vez só
numa apresentação sua aqui em pelotas
já com zeca baleiro, celso borges, fernando abreu e vitor ramil
nos cruzamos muitas vezes e em vários lugares
hoje todos são amigos
--- cb já não está mas continua ---
se admiram mutuamente
e quando os vejo
em americana
cantando bob dylan
e lembrando woody guthrie
sinto que o tempo passou
e a gente continua
uns & outros
como diz o poeta
«por essas ruas inclinadas
e de cabeça erguida
quem não quiser olhar a nossa cara
que baixe a sua»

grill

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um trem me atravessa lentamente
carregado de ferrugem e neblina
seguindo as estrelas da noite americana

sobre os ombros das planícies do norte
comboios noturnos plenos de chumbo e fumaça
atravessam estradas desoladas, futuros condomínios ali
na fronteira onde os ventos não têm piedade

nuvens passam apressadas
chuvas que não param
sonhos congelados pelo inverno que não chega

alguém me colocou aqui, alguém me disse sim
escrevi algo em minha alma:
não serei jovem eternamente
quem sabe nasci tarde demais

há falta de beijos nos bailes
há brados surdos nos becos
botas batendo no bico das sarjetas
lua no céu de estrela nenhuma

dividido, desesperados
mirando o sol escuro das tempestades
aqui estamos
alvo certeiro
pasto de aluguel

a chacina abre suas cortinas

preparar, apontar, fogo!

rosa negra rosa negra rosa esquálida
buquê de cinzas bétula de guerra
e o céu vermelho aberto sobre o deserto americano

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vozes: zeca baleiro, vitor ramil, fernando abreu e celso borges.

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«lá vai o trem com o menino
lá vai a vida a rodar»

ferreira gullar

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em meados dos anos 80, quando andava pelas ruas, becos e praias de são luís, encontrei e me encontrei em uma multidão de gente, gente rica, gente pobre, gente simples, funcionários públicos, poetas, músicos, escritores, anônimos e celebridades. alguns «anônimos» viraram «celebridades» e algumas celebridades não sei... nunca mais ouvi falar...

nunca mais ouvi falar até falar com meu irmão
que me contou da morte de cunha santos
jornalista, poeta e escritor
autor de diversos livros
entre outros
«meu calendário em pedaços» (1978)
«a madrugada dos alcoólatras» (s/d)
«pesadelo» (1993)
«paquito, o anjo doido» (s/d)
«vozes do hospício» (2008)
bom
pelos títulos dos livros
já sabemos
ou pensamos saber
quem era
o que era o cara
que
óbvio
não era só isso
cunha santos era mais
muito mais
quanto a nós
eu e ele
não éramos amigos
desses de frequentar a casa
éramos amigos de bar
uma palavra fora do lugar
e o bar incendiava
mesas e cadeiras voavam
não sobrava ninguém pra contar a história
então
ao contrário de meu irmão
que tem uma memória de elefante
eu tenho a memória fraca
sim
é sabido
o álcool afeta a memória
no meu caso
de uma estranha forma
pois eu me lembro de tudo
sou um contador de histórias
mas não me lembro de nenhuma história do cara pra contar
podia me esforçar um pouco mais
puxar pela memória
mas não ia adiantar
vou então contar
que meu irmão esteve com cunha santos
poucos dias antes dele morrer
e não falaram de outra coisa
a não ser de nós
eu e ele
e as nossas histórias de bar
enfim
faz mais de trinta anos
quase 40
que voltei de são luís
desde então
nunca mais nos vimos
nos perdemos pelo mundo
não voltamos a nos encontrar
sinceramente
quando meu irmão me contou
me deu vontade de chorar
nunca imaginei que ele ia se lembrar

grill

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as lágrimas de seu nelson

seu nelson chorava todas as manhãs
não porque estivesse velho ou triste
não porque lhe deprimisse estar no mundo
seu nelson chorava todas as tardes
não porque sentisse dor ou soubesse de saudades
não porque lhe deprimisse não ter muito aonde ir
seu nelson chorava todas as noites
não porque fosse criança ou tivesse medo do escuro
não porque lhe restasse na vida um único e antigo amor
seu nelson chorava todas as manhãs
porque tinha certeza de que jamais
haveria outra manhã igual àquela
seu nelson chorava todas as tardes
porque cedo ou tarde todas as tardes acabam
seu nelson chorava todas as noites
porque sabia que as estrelas
se repetiriam em outras noites
naquela noite nunca mais
e que sua madrugada só duraria
até a hora de chorar mais uma vez

cunha santos

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joquim

«os assassinos fugiram num carro que, como eles, nunca se encontrou. joquim cambaleou ferido, alguns instantes, e acabou caído no meio-fio. ao amigo que veio ajudá-lo, falou: «me dê apenas mais um tiro, por favor. olha pra mim, não há nada mais triste que um homem morrendo de frio»

vitor ramil

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joquim

[por mauro ferreira]

intitulada joquim (assim mesmo, joquim, sem o presumível «a») e baseada na vida de joaquim fonseca, a versão de dylan por vitor ramil em «tango» flagrou o artista gaúcho mergulhado no mar de ideias do bardo, a bordo da «nau da loucura» citada poeticamente no refrão dessa saga guerrilheira ambientada por ramil nas fronteiras imaginárias de satolep.

joquim, a faixa, totalizou oito minutos e meio e se afinou, no universo do disco, com «loucos de cara», obra-prima da safra autoral apresentada pelo artista no álbum «tango». parceria de vitor com o irmão kleiton ramil, «loucos de cara» sugeriu liberdade, em sintonia com a melodia e a letra sem amarras.

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vem, anda comigo pelo planeta
vamos sumir!
vem, nada nos prende, ombro no ombro
vamos sumir!

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em 1989, dois anos depois do lançamento de tango, embarquei num ônibus, que partiu da biblioteca pública de são luís, rumo à brasília, para o ii flaac (festival latino-americano de arte e cultura). de brasília fui para satolep, de onde nunca mais voltei.

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sinto hoje em satolep
o que há muito não sentia
o limiar da verdade
roçando na face nua
as coisas não têm segredo
no corredor dessa nossa casa
onde eu fico só com minha voz

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e pra viajar no cosmos?

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apenas apanhei, na beira-mar
um táxi pra estação lunar

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táxi lunar

viajar ouvindo música
qualquer um viaja
mas viajar ouvindo geraldinho
é surreal
a estação nunca é a mesma
é sempre outra

grill

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de volta a nelson coelho de castro

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faz tempo que admiro a obra de nelson coelho de castro. na minha opinião, é um dos maiores compositores da música popular brasileira. sigo seus passos, versos e notas, desde quando surgiu na cena musical do rio grande do sul. levei-o comigo quando fui para são luís do maranhão. andava com ele, pra cima e pra baixo, pra frente e pra trás, a pé, de carro, de ônibus, onde quer que eu fosse, levava-o debaixo do braço, colado ao peito, como se fosse um amuleto. e era isso que nelson era pra mim: um amuleto. um amuleto da sorte. poderia, por exemplo, passar o resto dos meus anos falando de situações pelas quais passei e das quais vou me lembrar pro resto da vida que tiveram como trilha sonora a sua música e a sua poesia. mas não é o caso. vim aqui hoje pra dizer que o conheci de perto num show na fábrica cultural em pelotas em 2011 (acho) e naquela noite realizei um sonho, disse a ele de minhas andanças com seus discos embaixo do braço pelas ruelas e becos de são luís e da repercussão de sua música na ilha do amor e da poesia. ele olhou pra mim e sorriu. mas não era um sorriso qualquer, pelo contrário, era um sorriso aberto, como quem diz, «mesmo longe estamos perto». nelson estava certo.

grill

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não resta mais nada
que duvide
da real felicidade

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foto: vivi valente
praia da pinheira (sc)
fevereiro de 2016

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#américas