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sábado, 19 de setembro de 2026


casa de poeta não tem porta 2

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«um gato tem honestidade emocional absoluta: os seres humanos, por uma razão ou outra, podem esconder os seus sentimentos, mas um gato jamais o faz.»

ernest hemingway
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«às vezes eu ansiava por alguém que, como eu, não estava ajustado perfeitamente com sua idade, e essa pessoa era difícil de encontrar, mas logo descobri gatos, em que eu poderia imaginar uma condição como a minha.»
julio cortázar

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o processo
diante da lei está um porteiro. um homem do campo chega e pede para entrar, mas o porteiro diz que agora não pode permitir. o homem pergunta se não pode entrar mais tarde. «é possível» – diz o porteiro – «mas agora não».

o homem decide aguardar. o porteiro dá-lhe um banquinho ao lado da porta. ali fica sentado dias e anos. ele faz muitas tentativas para ser admitido e emprega tudo para subornar o porteiro. este aceita tudo, mas dizendo: «eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa».

durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. esquece os outros porteiros. quando envelhece, sua vista enfraquece, mas reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei.

já não tem mais muito tempo de vida. antes de morrer, faz um aceno para que o porteiro se aproxime: «todos aspiram à lei. como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?»

o porteiro percebe que o homem já está no fim e berra: «aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. agora eu vou embora e fecho-a».

kafka. 2016, pp. 146 e 147

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siempre había oído mentar
que ante la ley era yo,
igual a todo mortal.
pero hay su dificultad
en cuanto a su ejecución.

clique no título para ouvir

(alfredo zitarrosa, 1971)

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«mais de uma vez me jogaram na rua
mas a culpa é minha
contém ironia
é bom lembrar»

autor desconhecido 

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silvio rodríguez, o incompreendido

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clique no título para entender

(aos patrulheiros de plantão)

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epaminondas: o gato explicador

por clóvis de barros filho
esses últimos, os humanos, com exceções, também adoram viajar, conhecer outros lugares, outras gentes e seus modos peculiares de viver. tomam-se por arejados, abertos e até mais cultos por conta desse hábito. talvez por isso usem – para julgar nossas vidas felinas – o critério da extensão territorial ocupada por nossos corpos. e acabam convencidos de que passar o dia todo confinado não pode valer a pena. vê-se logo que ainda não aprenderam nada de relevante. e nunca aprenderão. por mais que alguns deles – os poucos sábios da história humana na terra – tenham generosamente se sacrificado para explicar, todos os demais da espécie sempre se recusaram a aceitar o óbvio: que o mais precioso da vida já se encontra em cada um deles. e que o sucesso dessa busca requer preparo. exercício rigoroso de pensamento. e recato. fica fácil de entender por que não saem da rua. passeiam, viajam e se divertem. na verdade, permanecem em fuga. não suportam a verdade que grita em suas almas. preferem chafurdar no pântano da ignorância – entretida pelas sombras da falsidade e das mentiras – a resistir, em resiliência, aos percalços e obstáculos que todo caminho de luz costuma impor a quem sempre viveu na sombra.
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os homens e suas certezas
por que os gatos dormem tanto? quantas igrejas tem o céu? foi onde que a mim me perderam, que logrei enfim me encontrar? há quem diga que a pergunta mais difícil da filosofia seja: podemos ter certeza de alguma coisa? não sei se é. se for, não sei a resposta. quem sou eu para saber o que ninguém sabe. pra dizer a verdade, não sei se ninguém sabe. talvez você saiba e eu não saiba que você sabe. pode ser, né? quem sabe... não sei. só sei que, enquanto eu compartilho minhas dúvidas, outros compartilham suas certezas. que bom para eles que não tenham dúvidas. mas não tenho certeza, ou seja, fico em dúvida se quem os lê e escuta acredita no que eles dizem e escrevem. eu, por exemplo, não acredito. ademais, não tenho certeza se quem demonstra ter tanta certeza a respeito de tudo e de todos tem realmente certeza de alguma coisa ou do que quer que seja. se todos os rios são doces, de onde tira sal o mar? não achas que vive a morte, dentro do sol de uma cereja? como se mede a espuma, que resvala da cerveja? pra cada voz da dúvida, tem outra voz que fala e viceja; pra cada voz da certeza, tem outra voz que cala e boceja.
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ou seja:

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«sinta mais, pense menos.»

bukowski

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«que sabe a aranha a respeito de mozart? nada; entretanto, ouve com prazer uma sonata do mestre. o gato, que nunca leu kant, é talvez um animal metafísico.»

machado de assis

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os cavalos não correm
para vencer.
correm para correr,
pois para isso
foram desenhados.
também não vivo
para vencer.
vivo para viver,
pois para isso me desenhei.

fausto wolff

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ao vento

há dez mil anos atrás
quando ainda rolava de bar em bar
me caiu nas mãos
uma resenha do livro
«a arte cavalheiresca do arqueiro zen»
desde então
pensava em lê-lo
pesquisa daqui
pesquisa dali
encontrei-o
entre borges e kant
na minha pequena
mas
modéstia à parte
rica bibliotheca
folheia daqui, folheia dali
percebo um trecho sublinhado
como quem diz
lê isso aqui:
«o homem é definido como um ser pensante, mas suas grandes obras se realizam quando não pensa e não calcula. devemos reconquistar a ingenuidade infantil. nesse estágio, o homem pensa sem pensar. ele pensa como a chuva que cai do céu, como as ondas que se alteiam sobre os oceanos, como as estrelas que iluminam o céu noturno, como a verde folhagem que brota na paz do frescor primaveril. na verdade, ele é as ondas, o oceano, as estrelas, as folhas.»
bárbaro
mas fiquei com a impressão de que já o tinha lido
parece que tudo que ali está
eu já sabia
de pura intuição
mas não é verdade
terminei o livro
com mais dúvidas
do que quando comecei
daí fico pensando
se bukowski
fausto wolff
e yupanqui
o teriam lido
ou se
sem pensar
eles escreviam
sobre aquilo que pensavam que não sabiam

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«"pelo que vejo, o senhor já é um mestre. peço-lhe que me diga a que escola pertence, antes que entremos na relação mestre-discípulo". o guarda observou que se envergonhava de dizer, mas jamais tinha aprendido a arte da esgrima. "o senhor está zombando de mim? sou o mestre do venerável xógum e sei que meus olhos jamais se enganam." o guarda insistiu: "lamento ofender a sua honra, mas a verdade é que jamais tive qualquer conhecimento desta arte". frente a tão segura negativa, o mestre vacilou um momento, ao final do qual disse: "como o senhor afirma, não vou desmenti-lo, mas seguramente o senhor é mestre em alguma outra disciplina, embora eu não saiba qual seja". respondeu-lhe o guarda: "pois bem, como o senhor insiste, devo dizer-lhe que existe uma coisa na qual me considero mestre. quando eu era criança, ocorreu-me a ideia de que um samurai não tem o direito de temer a morte em qualquer circunstância, e desde então lutei continuamente com a ideia da morte, até que ela deixou de preocupar-me. talvez seja a isso que o senhor se refere". mal ouvira tais palavras, tajima-no-kami exclamou: "exatamente! alegro-me que não tenha me enganado, pois o último segredo da arte da espada é atingir a libertação da ideia da morte. tenho mostrado essa meta a centenas de alunos, mas até agora nenhum alcançou o grau supremo na arte da espada. o senhor não precisa de qualquer treinamento, porque já é um mestre".
eugen herrigel | a arte cavalheiresca do arqueiro zen, p. 89.

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a partícula cósmica que navega em meu sangue
é um mundo infinito de forças siderais.
veio a mim através de um longo caminho de milênios
quando, talvez, fui areia para os pés de vento.

logo, fui madeira, raiz desesperada
fundida no silêncio de um deserto sem água.
logo, fui caracol quem sabe onde.
e os mares me deram a primeira palavra.

depois, a forma humana despejou sobre o mundo
a universal bandeira do músculo e da lágrima.
e brotou a blasfêmia sobre a velha terra
e o açafrão, e o trigo. a árvore e as pradarias.

então vim à américa para nascer um homem
e a mim se juntou o pampa, a selva e a montanha.
se um velho da planície galopou até minha origem
outro me disse histórias em sua flauta de cana.

eu não estudo as coisas nem pretendo entendê-las
as reconheço, é certo, pois antes vivi nelas
converso com as rochas em meio aos montes
e me dão sua mensagem as raízes secretas.

e assim vou pelo mundo, sem idade nem destino
ao amparo de um cosmos que caminha comigo.
amo a luz e o rio e o caminho, e a estrela.
e floresço em guitarras porque fui a madeira.

clique no título para ver e ouvir

poema: atahualpa yupanqui
musica: campo abierto (atahualpa yupanqui)
voz y audio: alejo gómez davolio
edición: santiago cremerius

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de volta ao começo dia 4 de outubro diga não a bolsonaro vote lula e depois fique bem na sua sem questionar sem reclamar nem criticar até porque quando a grande mídia o agronegócio e a faria lima caírem de pau se lula não resistir e cair a culpa vai ser toda sua 
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agradezco la participación de todos
los que colaboraron con esta melodía.
se debe subrayar la importante tarea
de los perseguidores de cualquier nacimiento.

si alguien que me escucha se viera retratado,
sépase que se hace con ese destino.
cualquier reclamación, que sea sin membrete.
buenas noches, amigos y enemigos.

clique no título para ouvir

(silvio rodríguez, 1970)

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foto: 
ernestito che guevara 
(in memmoriam)
repecho, 2020

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

domingo, 23 de agosto de 2026

 

casa das putas 

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stefanie

«era uma mulher muito bonita dedicada à prostituição — a profissão mais antiga do mundo, segundo dizem — porque queria voltar ao seu país para se casar. ela não tinha a menor ideia do que era a luta de classes, e era justamente ali que ganhava a vida. tampouco tinha noção da sociedade à qual pertencia — a mesma sociedade que a havia rejeitado e expulsado.

com essa mulher eu estive conversando uma noite, em uma boate de são paulo. por razões do seu ofício, ela gostaria de ter tido comigo um trato profissional. dessa conversa me ficou gravada uma afirmação sua ("não há dor mais atroz do que ser feliz"), que se tornou justamente o primeiro verso e o ponto de partida da canção.»

alfredo zitarrosa

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eu cresci na 28, em meio às putas

por elaine tavares

meu avô abrigava nossa família em um bar/armazém que também servia de abrigo para os visitantes da famosa «casa das putas» vizinha. aos três ou quatro anos, eu picotava salaminho no longo balcão de pedra onde se debruçavam os que caçavam amores fortuitos.

a «casa das putas» ficava colada à casa do vô, e circulávamos entre as mulheres que tomavam sol, penteavam os cabelos ou raspavam as pernas, sem qualquer preconceito por parte da família. havia cheiro de rosas, de lavanda, de pó de arroz e elas gostavam de brincar com a gente.

eram as mulheres do bordel as responsáveis pelo passeio mais lindo: os passeios de carruagem, cenário de sonho que nunca se descolou das minhas retinas. elas me apareciam como fadas, princesas, rainhas, e até hoje a lembrança daqueles dias me provoca ternura.

a rua 28 segue viva em mim. e vez em quando, nas noites, escuto o toque da gaita, o cheiro da pinga com salame, as risadas e o tropel dos cavalos. e aquelas mulheres, cheias de universos conversam comigo ao pé do bebedouro. ainda somos irmãs.

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canção de amor para francisca

por enilton grill

quase todos conhecemos «sólo le pido a dios», de león gieco. poucos de nós, no entanto, fomos apresentados a «canção de amor para francisca». proibida pela ditadura argentina nos anos 70, a faixa nasceu como uma homenagem de león a uma prostituta de sua cidade natal, de quem ele se lembrava dos tempos de menino.

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«numa casa no bairro de san pedro, francisca mostra todo o seu corpo, guardando dinheiro entre os seios, bebendo vinho tinto e um pouco de gim. veste-se de verde, veste-se de rosa e despe-se muy silenciosa. francisca não trabalha às segundas; com uma cestinha de flores e sua filhinha, correm pela floresta, pelos caminhos e campos. ela diz que os beijos, pardais e flores têm mais perfume às segundas-feiras. pele de canela, olhos de relva, cabelos longos e hálito de trigal. num quarto nos fundos da casa, os homens passam, os homens passam; ninguém lhe oferece trabalho porque têm medo de perdê-la. francisca não trabalha às segundas; com uma cestinha de flores e sua filhinha, correm pela floresta, pelos caminhos e campos. ela diz que os beijos, pardais e flores têm mais perfume às segundas-feiras.»

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«canção de amor para francisca» retrata a vida de uma profissional do sexo. a letra expõe a crueza de sua rotina diária e revela seu lado mais humano, terno e maternal durante seus dias de descanso, tornando-se um ato de empatia social e resistência contra a censura da ditadura militar.

cantar francisca ao vivo custou a león gieco detenções em comodoro rivadavia e córdoba.

por causa de sua temática realista, a canção acabou censurada e banida pelo regime vigente.

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links

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léon gieco / joana gieco / alejo león
avô / filha / neto
8 out 2021



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clipe



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[león gieco ao vivo luna park 28 de julho de 1978]

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lembro de uma casa das putas, em santa vitória do palmar. ficava perto do ctg e próxima ao cemitério. entrei só uma vez. olhei para uma moça: ela queria o que eu não tinha, eu queria o que ela tinha pra me dar. entrei, mas não me dei. não sabia nada da vida. não sabia e ainda não sei. ainda me apaixono como aquela vez me apaixonei.

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ojalá por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos en todas las visiones
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones

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[ao vivo e com letra]

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recuerdos da 28

lembro de uma outra vez na casa das putas, em santa vitória do palmar. se da primeira vez, eu me apaixonei, dessa vez, eu briguei. não sabia nada da vida. não sabia e ainda não sei. brigar, não brigo mais, mas ainda me apaixono como uma vez me apaixonei.


para quem não sabe, a paixão é o motor da arte. por isso, quando falta o amor real, o poeta inventa uma paixão de mentira para que a sua arte se mantenha viva. ou seja: na falta da verdade, apaixona-se de mentira.

mas há quem pense que a paixão é de verdade.

fazer o quê?!

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era inverno sim
eu perdido em mim
rabiscava uns versos pra enganar a dor
o tédio, o pranto, o tombo
e encantava mágoas milongueando sonhos

mauro moraes y comparsa elétrica 

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o poeta é um fingidor finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. e os que lêem o que escreve, na dor lida sentem bem, não as duas que ele teve, mas só a que eles não têm. e assim nas calhas de roda gira, a entreter a razão, esse comboio de corda que se chama coração.

fernando pessoa

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de vez em quando quando boto a mão nos cobre não existe china pobre, nem garçom de cara feia eu sou de longe, onde chove e não goteia não tenho medo de potro, nem macho que compadreia boleio a perna e vou direto pro retoço quanto mais quente o alvoroço, muito mais me sinto afoito e o chinaredo, que de muito me conhece sabe que pedindo desce, meu facão na «28» remancheio num boteco ali nos trilhos

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por juarez brasil e grupo os gaudérios
10ª califórnia da canção nativa do rs

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verdade seja dita, salvo honrosas exceções, hoje não tenho quase nenhuma afinidade com a música nativista. não gosto dos temas, das letras, do ritmo, da entonação e, muito menos, da postura ideológica da maioria dos seus artistas. mas nem sempre foi assim. houve um tempo em que eu tomava mate ao fim da tarde, na calçada em frente de casa, milongueando paixões.

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esta canção
não é mais que uma canção
quem dera fosse uma declaração de amor

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iolanda | pablo milanés | 1975
canta: chico

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falando em paixões
voltemos à paixão de alfredo
por stefanie

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exílio. buenos aires. stéphanie

por carlos bouzas (uruguay)

«em fevereiro de 1976, diante da intensificação da repressão ditatorial, tive que atravessar para a argentina.

a família de alfredo pediu-me para estabelecer rapidamente uma relação com o "flaco", uma vez que o seu estado de ânimo não era dos melhores. encontrei-o trancado num minúsculo quarto de hotel, no escuro, com um leve aroma de tabaco. conversamos bastante, preparei um mate e combinamos de tentar trabalhar juntos. seu relacionamento com o seu empresário não ia nada bem.

pouco depois, surgiu a oportunidade de um contrato para alfredo e três violonistas se apresentarem em são paulo. alfredo insistiu para que lutasse por mais uma passagem, para mim, como seu representante, e assim sair da argentina, voltar e ter novamente o visto de turista. não foi possível. apenas quatro passagens, estadia em um bom hotel, e acima de tudo, pagamento antecipado na chegada ao brasil. foi um dinheiro muito bom, para quatro apresentações. e a comissão permitir-me-ia melhorar um pouco a minha triste economia.

[...]

alfredo voltou feliz. naquela segunda-feira conversamos longamente em seu apartamento. ele resumiu a situação brasileira, em contraste com a do uruguai e da argentina, como muito mais aberta e menos repressiva. você pode fazer coisas artísticas e algumas políticas.

já terminando a conversa, me interessei pelo dinheiro, pela minha comissão.

«ah, carlitos, eu não trouxe peso nem dólar.»

«mas, "flaco», não te pagaram adiantado?», perguntei.

«sim, sim», ele respondeu meio hesitante. largou o mate, serviu-se de um uísque e começou: «no sábado, antes da segunda apresentação daquela noite, me senti muito, muito deprimido. no bar do hotel pedi uma bebida, depois outra, e de repente uma mulher de excepcional beleza aparece na minha frente. pago uma bebida para ela, conversamos, subimos para o meu quarto. e eu me apaixonei perdidamente. sugeri viajar para buenos aires. viver juntos. me casar. eles bateram na porta do meu quarto para fazer minha segunda apresentação. nada mais importava para mim. havia descoberto o amor novamente. e isso me demoliu, carlitos, me demoliu. ela me disse que não ia a lugar nenhum, que estava fazendo isso por dinheiro. mas carlitos, tenha paciência, seus dólares vão aparecer. tenho uma música na cabeça que vai dar muito certo, tenho certeza, e se chamará "stefanie".»

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stefanie, no hay dolor más atroz que ser feliz.
decías anoche: ouve me por favor, bésame aquí.
stefanie, sé que tu corazón, fala de mim,
y eso es dolor, stefanie

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(legendado en español)

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quatro horas da madrugada
é hora de ir embora

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são quatro horas da madrugada os galo já está cantando eu tenho de ir-me embora morena, vou lhe dar a despedida

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alcei a perna no pingo e saí sem rumo certo olhei o pampa deserto e o céu fincado no chão troquei as rédeas de mão mudei o pala de braço e vi a lua no espaço clareando todo o rincão


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«one more cup of coffee for the road
one more cup of coffee ’fore i go
to the valley below»

[legendado em português]

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carpe diem
bom domingo

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014


Don Atahualpa


por Alfredo Zitarrosa


fevereiro 4, 1966


tradução livre: Enilton Grill


Tinha que vê-lo subir ao palco, sentar-se ali, diante de uma platéia grandiosa, atravessar a guitarra zurda e acomodar suas duas mãos cuarteadas, torcidas como as mãos de um reumático, para preludiar uma milonga em ré menor.

Na noite de estreia, um domingo, cantou as 'coplas del payador perseguido'; uma versão nova, de duração reduzida, com algumas coplas recém feitas. Sobre a praça baixou um silêncio profundo, que só se rompeu com o aplauso estrondoso do final.

O Festival de Cosquín é um evento gigante com valores consagrados que se apresentam sob contrato prévio, mas que se completa com outros inumeráveis intérpretes, que cantam ou dançam por amor à arte, e pagam os próprios gastos ou não, segundo suas próprias vontades.

Dura oito dias; e o espetáculo de cada jornada, mais de seis horas. Precisamente por causa dessa enorme quantidade de intérpretes, ninguém terá oportunidade de cantar mais de dois ou três temas.

Tirando os 'grandes' (Yupanqui, Los Fronterizos, Guaraní, los Ábalos), mais ou menos autênticos ou populares, o resto do programa se cumpre à risca, no palco, e se prolonga mais adiante, em peñas y fogones por todo o local, durante o dia e durante a noite.

Dezenas de delegações, intérpretes, autores, representantes, 'espiões' das gravadoras, se misturam nos hotéis e pensões, à beira do rio Cosquín, em barracas, em carros ou caminhões acondicionados para servir de alojamento provisório, transformando aquilo em um amontoado de seres e coisas, de máquinas e animais.

No meio desse caos, que se organiza e passa pelos caça-níqueis da Plaza Próspero Molina, don Atahualpa Yupanqui, homem de silêncios e melancolias, versado em buscar solidão, come e dorme como qualquer turista, longe do ruído, no hotel mais distante.

Quando aparece o cronista da Radio El Mundo, gravador na mão, don Atahualpa se levanta e muda de lugar ainda que tenha que abandonar a seus amigos. E então o radialista se dirige a qualquer outro cantor.

Mas depois da sesta, talvez se possa falar com ele à beira do rio. Sim, a entrevista não vai ser fácil. Mas hão de cair-lhe bem um olhar e um aperto de mão sem espalhafatos. Quem sabe então, vá em busca de seu alforje de lã, onde carrega aquecedor, cuia e bomba e possamos matear um pouco.

As perguntas políticas terão uma resposta clara e simples, ainda que depois diga que ‘está cansado de que venha qualquer um e se aproveite de sua franqueza’. Salvo raras exceções, esqueceram-se dele quando caiu preso, ou não souberam procurá-lo com caneta e papel, quando teve que exilar-se.

Fala e escreve em francês, é jornalista, foi boxeador na sua juventude e na sua casa em Cerro Colorado tem tudo que precisa: ‘piano, livros, cavalo, paisagem e silêncio’. Assim diz. A casa se chama ‘Agua escondida’, o mesmo nome de uma de suas zambas mais profundas.

—¿O que vem a ser o folclore, Don Atahualpa?
—Cantar folclore consiste em aprofundar a paisagem. Fazer folclore. Existe um jeito de ser; um jeito italiano, um jeito russo, um jeito argentino, venezuelano, ianque. Alguns dizem ‘oui’, outros ‘da’, outros ‘ya’: nós dizemos ‘Aja’... Devemos aprofundar nosso ‘Aja’.

—¿Qual foi sua primeira guitarra?
—Uma guitarra espanhola branca.

—¿Qual foi a que perdeu em Buenos Aires, segundo suas coplas del Payador?
—Uma Santos Hernández. Tive que empenhá-la.

—¿Quantas guitarras tem agora?
—Seis. Quatro argentinas, Núñez todas. Duas espanholas: uma González, que comprei em Madri, na Rua Carretas, e outra granadina, feita por um estupendo luthier, Manuel de la Chica.

—¿Quantas canções compôs; qual foi a primeira e qual a última?
—Mais de quinhentas: duzentas e pico estão gravadas. A primeira foi ‘Camino del Indio’ e a última acabo de entregá-la à Editorial Lagos; se chama ‘Vidala del Cañaveral’.

—Você é jornalista, Don Atahualpa. ¿Para quais jornais escreve e sobre quê?
—Escrevo para um jornal de Calí y para um jornal francês. Temas de sociologia.

—¿Já leu Kafka?
—Sim. É interessante, agudo, insolente para o senso comum, profundo. Mas parte do existencialismo e me faz pensar nesses filósofos modernos que buscam desorientar-se em grupo.

—¿Qual poeta de língua espanhola prefere?
—Antonio Machado em primeiro lugar. Góngora e Lorca.

—¿Sobre Vallejo e sobre Rilke...?
—Nem falar, nem falar de Vallejo. É uma coisa à parte. Sobre Rilke tenho um estudo que foi publicado em Buenos Aires em 1956. Li toda sua obra e lembro em particular a ‘Balada del portaestandarte Cristóbal Rilke’, ‘Los Cuadernos de Malte’ e ‘Las manos del buen Dios’.

—¿Por que não voltou a Montevidéu nos últimos anos?
—Porque lá vivem muitos argentinos e me deu vergonha. Saíram daqui e se foram pra lá porque aqui lhes pagavam muito mal. Parece que venceram. Francamente, me daria vergonha aparecer por lá eu também.

—¿Quais eram seus passatempos de jovem?
—Os esportes, a filosofia e a música. Há 35 anos eu era um jovem. Falava com veneração de Bach e de Beethoven. Gostava de medicina. Acabei me tornando doutor em zambas.

—¿Em que país gostaria de viver, fora da Argentina?
—Na Hungria. É uma bela terra. Em 1955 não havia tornillos nem vidros. Ali estive vivendo com os ciganos, com a tribo de Aladar Racs. Eu vi velar al violín. Conservam instrumentos de boa marca. Os grandes ciganos podem levar um, quando estão preparados para sair mundo afora. Rubén Barga, José Czigeri, levaram violinos de Tissa-Videck. O violino sempre volta, ainda que o artista envelheça, ainda que o venda. Diz-se que a cada 30 anos haverá um cigano que levará consigo um violino.

—¿Qual sua opinião sobre o festival de Cosquín?
—É uma mostra interessante. Mas não a percebo elevadamente artística. O público não tem porque escutar a qualquer medíocre, isso convém aos hoteleiros. O público tem direito de receber coisa melhor.

—¿Qual sua opinião sobre o Jazz?
—O jazz me interessa, mas não o quero em minha guitarra.

—¿Acredita que os índios peruanos têm consciência revolucionária?
—Onde o povo sofre existe um fermento revolucionário. Nem você nem eu sabemos o que acontece no Peru. É possível que nem todos tenham essa consciência. Mas também tem que pensar em quem são os que capitalizam a (consciência) que possa haver.

—¿Acredita que uma revolução socialista, no futuro, possa ser encabeçada por um líder vindo da burguesia, como Fidel?
—Devia estar muito corrompida a ditadura de Batista, quando um jovem como Fidel conseguiu fazer a revolução com um punhado de companheiros.

—¿Tem que ser marxista um líder revolucionário?
—Tem que pensar como ser humano. Eu conheci infinidade de jovens ao longo da minha vida e acredito fundamentalmente na juventude. Por outro lado não encontrei gente mais ignorante em relação ao folclore que os marxistas. Eles escutam a você como fazendo uma concessão. Falta conteúdo, na maioria dos casos.

—¿Conhece a situação política de nosso país?
—Sim. Ainda que lhe diga que não acredito nos políticos. A política é para aqueles que sabem se aproveitar dela. No seu país, por exemplo, nessa terra tão pequeninha, ¿por que não se juntam todos para fazer uma Pátria Grande? Seria tão simples.

sábado, 16 de fevereiro de 2013


CANTARES DEL ALMA



DE GUILLERMO PELLEGRINO


POR CRISTIAN VITALE


“Cada uruguayo tiene armado su propio Zitarrosa en la cabeza”, lanza Guillermo Pellegrino, uruguayo, escritor, periodista free lance, y la deja picando.

Imposible meterse en la cabeza de cada celeste, claro, pero la sentencia da un modelo para armar sobre el cantor de los cantores orientales.

Para él, que acaba de reeditar una interesante biografía para los Cuadernos de la revista Sudestada, es la voz. Es un referente de la canción, del decir y el hacer, y es un uruguayo que amó como pocos su tierra.

“Para muchos uruguayos, Zitarrosa encarna rasgos que quieren creer de sí mismos”, va a más y resuelve el hombre. Así la cosa, sería de buen tino leer su libro (una especie de síntesis renovada y remozada de Cantares del alma) como un mapa de la idiosincrasia celeste pasada por el tamiz del creador de “Adagio en mi país”.

–¿Cuál sería “su” Zitarrosa, entonces?

–(Risas.) Bueno, me reflejaría en su sensibilidad, en su sentido social, en su autocrítica (en la sana, no en la autodestructiva), en su paciencia para conseguir objetivos, en su profesionalismo en cuanto a la creación y en el sitial que ponía a los trabajadores de la cultura, entre otros.

–¿Cuáles otros? ¿Se viste de negro, fue anarquista y después comunista? ¿Es atormentado?

–(Más risas.) No. No me visto ni me he vestido de negro. No fui anarquista ni comunista. Soy de izquierda, pero independiente. Y creo no ser atormentado.

Pellegrino nació en Montevideo hace 43 años y la reedición del libro cierra una elipsis perfecta con su primera producción: Cantares del alma, editada en 1999.

Se trata de dos textos con la misma impronta (con el foco puesto en vida y obra de Zitarrosa), pero con giros y modificaciones impulsadas por una necesidad editorial de economizar texto.

El autor optó por acentuar la atormentada infancia del poeta (sus confusos orígenes familiares) y agregar anécdotas de Zitarrosa que desconocía a fines de los ’90 en desmedro de detalles accesorios que contemplaba la primera edición. 

“Primero me focalicé en elaborar un texto medular, más directo. Tuve que identificar los párrafos ‘accesorios’ y modificar la organización original de los capítulos. Después me centré en fortalecer determinados contextos culturales, sociales y políticos, de los que entendí que adoleció el texto original, para luego insertar algunas vivencias de Alfredo que me parecieron interesantes, y que conocí después de la publicación de Cantares... Claro que estas tareas me supusieron tiempo y mucho cuidado, porque por ejemplo una idea o concepto que se suprime puede tener significación antes o después, y si esto se lleva a cabo sin tener en cuenta el hilo total de la narración, puede llevar a distorsionar o a crear vacíos imperdonables”, explica Pellegrino, también hacedor de Las cuerdas vivas de América (2002), Jébele, el cálido blues de los mediodías (2009), Rubén Lena, maestro de la canción (2009) y Dicen los cantores (2010).

–¿Por qué Zitarrosa?

–Ocurrió en Argentina. Con mi amigo Gustavo Stok estábamos haciendo tareas de alfabetización en Ciudad Oculta y ahí empezó mi historia con Zitarrosa. Viéndome a la distancia, creo que en esa época inconscientemente yo andaba en la búsqueda de algo movilizador. Y tuve como una llamada: en el departamento donde vivía, en Palermo, escuchaba casi a diario su inconfundible voz que provenía de un departamento vecino. Y una tarde, aprontándome para ir a Ciudad Oculta, se coló por la ventana “El violín de Becho”. Salí cantando la canción, y seguí tarareándola para mis adentros mientras viajaba en el 141. Ya en la villa, un rato después, y mientras estábamos trabajando en el galponcito, a unos 400 metros de la intersección de Eva Perón y Murguiondo, escuché “El violín de Becho” y después otras canciones provenientes de un precario pasacasete de alguna de las casillas vecinas. Me impactó. Si bien sabía que el mensaje de Zitarrosa llegaba con la misma fuerza a todos los estratos sociales, lo estaba viviendo, como nunca, en carne propia. Al día siguiente, entonces, arranqué con las primeras tareas de investigación, que al principio no tuvieron más pretensiones que alimentar mi propia curiosidad.

Pellegrino no vio tocar a su biografiado ni lo conoció en persona, pero sí a través de los más de cien entrevistados que aportaron sus vivencias: Serrat, por caso, se recuerda junto a Zitarrosa en una noche de calor en Montevideo bebiendo y discutiendo de política hasta altas horas de la madrugada; Silvio Rodríguez lo evoca llorando en el duro exilio madrileño (“Me cuesta hablar de eso porque lo único que recuerdo de él son llantos”) y Sabina traza un lúdico recuerdo, en un concierto compartido en la UGT de Madrid, ante 200 trabajadores.

“Cuando terminé lo anunciaron y apareció un tipo de traje, pelo engominado, con cara de representante de pompa fúnebre (...) Traía un tocadiscos bastante primitivo. Colocó la púa y empezó a sonar ‘Guitarra Negra’ sin voz. El empezó a recitar esos versos (...) y al tercero quedé petrificado. ‘¿De dónde salió este marciano?’, pensé, y desde entonces lo amo”, recuerda Sabina.

–¿Cómo evitar caer en una apología cuando se escribe sobre alguien que se admira, como en este caso?

–Cuando se hace un trabajo de este tipo parece difícil no partir de la admiración, pero ésta no debe cegarte. En mi caso, me gusta mucho la obra y varios de sus procederes, pero no creo ser un devoto con anteojeras. De hecho, en varios pasajes se puede percibir que no es un panegírico, ya que en algunos momentos salen a relucir sus miserias, que las tuvo como todo ser humano, aunque la investigación resalta que éstas fueron superadas claramente por sus virtudes. Me parece que a él le hubiese desagradado un texto que lo pusiera en un bronce.

–“No hay dolor más atroz que ser feliz”, parece ser la frase que guía el libro.

–Sí. Y es fuerte, muy fuerte. Puede sonar hasta contradictoria, si se quiere. Al Zitarrosa artista no se lo puede ver descontextualizado de su pensamiento, sus convicciones, sus sentimientos, porque son los que estructuran su personalidad. El vivió preocupado por la injusticia social, por los padecimientos de los menos favorecidos, por la pobreza, que tanta tristeza le daban, como lo dice en el “Adagio en mi país”. Entonces, ante tantas personas que sufren, parecía como que ser feliz le era obsceno y que le dolía.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013



 GARRINCHA


_ POR MANUEL PICÓN


Lo lleva atado al pie,
como una luna atada al flanco de un jinete,
lo juega sin saber que juega
el sentimiento de una muchedumbre,
y le pega tan suave, tan corto, tan bello,
que el balón es palomo de comba en el vuelo,
y lo toca tan justo, tan leve, tan quedo,
que lo limpia de barro y lo cuelga del cielo,
¡y se estremece la gente, y lo ovaciona la gente!


Lo lleva unido al pie,
como un equilibrista unido va a la muerte,
lo esconde –no se ve–,
le infunde magia y vida y luego lo devuelve,
y se escapa, lo engaña, lo deja, lo quiere,
y el balón le persigue, le cela, le hiere,
y se juntan y danzan y grita la gente,
y se abrazan y ruedan por entre las redes,
¡y se estremece la gente, y lo ovaciona la gente!


¿Quién se llevó de pronto la multitud?
¿Quién le robó de pronto la juventud?
¿Quién le quitó de un golpe el hechizo mágico del balón?
¿Quién le enredó en la sombra la pierna, el flanco y el corazón?
¿Quién le llenó su copa en la soledad?
¿Quién lo empujó de golpe a la realidad?
¿Quién lo volvió al suburbio penoso y turbio de la niñez?
¿Quién le gritó en la cara: –Usted no es nada, ya no es usted?
Ya no es usted, señor, ya no es usted.


El último balón lo para con el pecho y junto al pie lo duerme,
lo mira y sólo ve cenizas del amor que estremeció a la gente,
y lo pierde en la hierba, lo deja, lo olvida,
no lo quiere, le teme, no puede, no atina,
y se siente de nuevo enterrado en la vida,
y el balón se le escapa entre insultos y risas,
¡y se enfurece la gente, y le abuchea la gente!


¿Quién se llevó de pronto la multitud?
¿Quién le robó de pronto la juventud?
¿Quién le quitó de un golpe el hechizo mágico del balón?
¿Quién le enredó en la sombra la pierna, el flanco y el corazón?
¿Quién le llenó su copa en la soledad?
¿Quién lo empujó de golpe a la realidad?
¿Quién lo volvió al suburbio penoso y turbio de la niñez?
¿Quién le gritó en la cara:
–Usted no es nada, ya no es usted?

¡Ya no es usted señor, ya no es usted!
¡Ya no es usted señor, ya no es usted!
¡Ya no es usted señor, ya no es usted!
                                        Canción: Manuel Picón
                                      Canta: Alfredo Zitarrosa

 GARRINCHA
(Candombe)
Grabado entre enero/marzo de 1986
Estudios Sondor
Montevideo

domingo, 30 de setembro de 2012



LAS PALABRAS

Por que será que o Che
tem esse perigoso costume
de seguir sempre
renascendo?
Quanto mais o insultam,
o manipulam
o tradicionam, mais renasce.
Ele é o mais renascedor de todos!
Não será porque o Che
dizia o que pensava,
e fazia o que dizia?
Não será por isso, que segue
sendo tão extraordinário,
num mundo em que
as palavras e os fatos
raramente se encontram?
E quando se encontram,
raramente se saúdam,
porque não se
reconhecem?
EDUARDO GALEANO



AL COMANDANTE 
ERNESTO CHE GUEVARA

Las palabras no entienden lo que pasa:
Las vocingleras, las oscuras, las dóciles,
las que llaman las cosas por su nombre,
las que inventan el nombre de las cosas;
las palabras que dije o me dijeron,
las que aprendí en los libros,
las que escribo,
las que pensé mirando una ventana,
las que acercándose al silencio, gritan;
las que al tocar el fuego, se desfogan,
las que truecan los trinos y los truenos,
las que sirven la mesa de mi casa,
las de la nítida caligrafía 
que cae por las paredes de la escuela,
las que dicen a dúo el pez y el pájaro;
las palabras que tuve o que no tuve
para llamar al mundo y que viniera,
las que tienden un hilo minucioso
que va de los balcones a las bocas,
y de las bocas a la historia, y pasan,
las que pasan la noche entre papeles,
o suben la escalera del insomne,
y se introducen en su sueño a ciegas;
las que ordenan el ruido en los rincones,
las que barren el vómito de rabia,
las que saltan del fémur a la luna,
las que cortan la sombra calcinante,
las que labran un nombre en una piedra
para mejor perpetuar el olvido,
las que bajan al árbol por el aire
y se trepan al cielo por el tronco,
las que mastican un cangrejo lento,
las que anuncian el fin de la Cuaresma,
las que le quitan sueño al asesino
y lo dejan dormir y le montan guardia,
las que no sangran, aunque se las hiera,
las que no mueren, aunque se las mate;
las que roban futuro en un embudo,
las que administran mitos y virtudes,
las que mantienen trato con el viento,
las que advierten el agua incinerada,
las que abren los labios de la tierra
buscando el astrolabio de tu grito,
las que te dicen, sin creer que oyes:
–Vuelve a pelear Ramón, aunque te mueras...
Las palabras no entienden lo que pasa.
                          SALVADOR PUIG / ALFREDO ZITARROSA
                                                              1968,  CHE VIVE



AL COMANDANTE ERNESTO CHE GUEVARA
FAIXA 04
CHE VIVE
ALFREDO ZITARROSA
1968

quinta-feira, 22 de setembro de 2011




ALFREDO ZITARROSA


Baseado na Biografia Definitiva de Alfredo Zitarrosa
Cantares del Alma
escrita por Guillermo Pellegrino



Se inició en las lides artísticas en 1954, como locutor de radio, incursionando como presentador y animador, libretista e informativista, e incluso, como actor de teatro. Fue también escritor, poeta y periodista, destacándose, en esta última actividad, su labor en el semanario Marcha.

Encontrándose en Perú, forzado por las circunstancias y un poco fortuitamente, debutó profesionalmente como cantor en 1964, exactamente el día 20 de febrero, en un programa que se emitía por el Canal 13, Panamericana de Televisión, comenzando así una carrera que nunca se interrumpiría.

Zitarrosa relata así su experiencia: "No tenía ni un peso, pero sí muchos amigos. Uno de ellos, César Durand, regenteaba una agencia de publicidad y por sorpresa me incluyó en un programa de TV, y me obligó a cantar. Canté dos temas y cobré 50 dólares. Fue una sorpresa para mí, que me permitió reunir algunos pesos…"

Dos Césares, Durand y Calvo (ambos peruanos), fueron quizá, las dos personas con que Zitarrosa tuvo más afinidad en esos tiempos de Lima. Calvo, inclusive, lo visitó años más tarde en Montevideo. A Durand, en cambio, nunca más lo volvió a ver.

"Cesar Durand era un hombre magnífico. Tenía una enfermedad congénita, y sabía que le quedaba muy poco tiempo de vida. Sin embargo, él había asumido su muerte próxima como sólo un ser excepcional la puede asumir. Recuerdo que su esposa se llamaba Luz y que tenían cuatro hijos. El más pequeño, Christian, tenía algo más de un año y era una hermosa criatura de pelo muy rubio.

Poco supe de los Durand hasta que, en noviembre del año 1975, volví a tener notícias mientras estaba en Córdoba adonde había llegado a dar un recital en el Estádio Centro. Yo estaba en el hotel y, en un momento, me anunciaron que había un grupo de jóvenes que me había venido a visitar. Eran seis o siete muchachos entre los que se destacaba uno de pelo muy rubio, ojos azules y tez bien morena. Tendría 14 o 15 años y recuerdo claramente que tenía unos zapatos muy grandes sin cordones. '¿Tú no te acuerdas de mí?', me preguntó él muy sonriente. Sin esperar mi respuesta, que por supuesto era negativa, él se encargó de contestar: 'Yo soy Christian Durand, el hijo de César.' Era imposible que yo lo reconociese, la última vez que lo había visto tenía poco más de un año.

Fue una situación muy emotiva, lo miré fijo y nos imos un gran abrazo...Conversamos un rato y me enteré de que Luz, su madre, al poco tiempo de morir César, enloqueció por completo y se dedicó a viajar por el mundo...Christian era prácticamente un huérfano que estaba estudiando en Córdoba. Después de ese recital de Córdoba, volví a Montevideo y a los dos meses recebí una carta con un remitente que decía: 'Los amigos de Christian'. En la carta me comentaban, escuetamente, que Christian había muerto...Nunca supe cómo, cuándo, ni de qué murió. Probablemente de la misma enfermedad que su padre. Supe sí, con el tiempo, que lo enterraron junto a su padre en Lima...Ellos, sus amigos, querían que yo le hiciera una canción."


NINO CHRISTIAN

Hoy por primera vez te escribo
y sé que no escribirás
un niño como tú no escribe
si no está en el Perú.

Un niño como tú
pequeño y raro niño Christián
tu madre loca luz
tu padre ardiente y frágil varón.

Cabían en un cajón de pino
en tu cuarto de pensión
pero no eran así las cosas
cuando te conocí.

Tu pelo de aserrín
tus ojos donde el tiempo se hundió
no están en mi canción ni tú
volverás nunca al Perú.

Zapatos sin cordón tan solos
como estuvo tu amor
la vida te ayudó a morir
mimando tu soledad.

En Córdoba no están
tus párpados no pueden estar
un niño como tú no duerme
si no está en el Perú.

Tu madre loca luz
tu padre ardiente y frágil varón,
allá en su hondo temor
de ser menos que un niño te amó.

Y fue fuego mayor
ardiendo como un hijo del Sol
y no sólo te amaba,
amaba su color en tu piel.

Y hoy que te recogió
yo sé bien a donde te llevó
tu cuerpo lo sabía
un día volverías con él.

Y dile a tu papá que yo
soy poco y nada también
que quisiera el amor vivir
en aquel mundo mejor.

Dile que esta canción los ama
más que nunca a los dos.
                       Alfredo Zitarrosa 


Niño Christian y Dulce Juanita, son dos de los tema más conocidos de Alfredo Zitarrosa que, por la tremenda emoción que le provocaban, jamás pudo interpretar frente al público.

"Son esas canciones que están ahí y que no las canto...No las podría cantar porque lloraría si lo hiciera. Y no se puede cantar llorando."

La canción Niño Christian fue editada por primera vez en 1979, en México. Fue el cuarto tema del lado B de un álbun que se llamó Milonga de ojos dorados.

Carlota Durand, hija de César, hace un recuerdo de quien fue Christian, la fuente inspiradora de esta canción:

"Christian era un chico raro con un coeficiente intelectual altísimo. Le costaba encontrar gente que estuviese a tono con su sintonía. Se aburría mucho en el colegio y con los chico de su edad. Era muy especial. Recuerdo que mi padre siempre decía: 'Este chico no tiene término medio, o va a ser un Einstein o va a ser un gángster.' Era muy inquieto. Parece que esa vez en Córdoba se identificó mucho con Alfredo, todos los días iba a verlo al hotel. Al poco tiempo murió, fue una muerte muy oscura. Nunca supimos bien qué fue lo qué pasó..."


No AMERICAS
NINO CHRISTIAN
por ALFREDO ZITARROSA