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sábado, 19 de setembro de 2026


casa de poeta não tem porta 2

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«um gato tem honestidade emocional absoluta: os seres humanos, por uma razão ou outra, podem esconder os seus sentimentos, mas um gato jamais o faz.»

ernest hemingway
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«às vezes eu ansiava por alguém que, como eu, não estava ajustado perfeitamente com sua idade, e essa pessoa era difícil de encontrar, mas logo descobri gatos, em que eu poderia imaginar uma condição como a minha.»
julio cortázar

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o processo
diante da lei está um porteiro. um homem do campo chega e pede para entrar, mas o porteiro diz que agora não pode permitir. o homem pergunta se não pode entrar mais tarde. «é possível» – diz o porteiro – «mas agora não».

o homem decide aguardar. o porteiro dá-lhe um banquinho ao lado da porta. ali fica sentado dias e anos. ele faz muitas tentativas para ser admitido e emprega tudo para subornar o porteiro. este aceita tudo, mas dizendo: «eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa».

durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. esquece os outros porteiros. quando envelhece, sua vista enfraquece, mas reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei.

já não tem mais muito tempo de vida. antes de morrer, faz um aceno para que o porteiro se aproxime: «todos aspiram à lei. como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?»

o porteiro percebe que o homem já está no fim e berra: «aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. agora eu vou embora e fecho-a».

kafka. 2016, pp. 146 e 147

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siempre había oído mentar
que ante la ley era yo,
igual a todo mortal.
pero hay su dificultad
en cuanto a su ejecución.

clique no título para ouvir

(alfredo zitarrosa, 1971)

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«mais de uma vez me jogaram na rua
mas a culpa é minha
contém ironia
é bom lembrar»

autor desconhecido 

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silvio rodríguez, o incompreendido

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clique no título para entender

(aos patrulheiros de plantão)

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epaminondas: o gato explicador

por clóvis de barros filho
esses últimos, os humanos, com exceções, também adoram viajar, conhecer outros lugares, outras gentes e seus modos peculiares de viver. tomam-se por arejados, abertos e até mais cultos por conta desse hábito. talvez por isso usem – para julgar nossas vidas felinas – o critério da extensão territorial ocupada por nossos corpos. e acabam convencidos de que passar o dia todo confinado não pode valer a pena. vê-se logo que ainda não aprenderam nada de relevante. e nunca aprenderão. por mais que alguns deles – os poucos sábios da história humana na terra – tenham generosamente se sacrificado para explicar, todos os demais da espécie sempre se recusaram a aceitar o óbvio: que o mais precioso da vida já se encontra em cada um deles. e que o sucesso dessa busca requer preparo. exercício rigoroso de pensamento. e recato. fica fácil de entender por que não saem da rua. passeiam, viajam e se divertem. na verdade, permanecem em fuga. não suportam a verdade que grita em suas almas. preferem chafurdar no pântano da ignorância – entretida pelas sombras da falsidade e das mentiras – a resistir, em resiliência, aos percalços e obstáculos que todo caminho de luz costuma impor a quem sempre viveu na sombra.
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os homens e suas certezas
por que os gatos dormem tanto? quantas igrejas tem o céu? foi onde que a mim me perderam, que logrei enfim me encontrar? há quem diga que a pergunta mais difícil da filosofia seja: podemos ter certeza de alguma coisa? não sei se é. se for, não sei a resposta. quem sou eu para saber o que ninguém sabe. pra dizer a verdade, não sei se ninguém sabe. talvez você saiba e eu não saiba que você sabe. pode ser, né? quem sabe... não sei. só sei que, enquanto eu compartilho minhas dúvidas, outros compartilham suas certezas. que bom para eles que não tenham dúvidas. mas não tenho certeza, ou seja, fico em dúvida se quem os lê e escuta acredita no que eles dizem e escrevem. eu, por exemplo, não acredito. ademais, não tenho certeza se quem demonstra ter tanta certeza a respeito de tudo e de todos tem realmente certeza de alguma coisa ou do que quer que seja. se todos os rios são doces, de onde tira sal o mar? não achas que vive a morte, dentro do sol de uma cereja? como se mede a espuma, que resvala da cerveja? pra cada voz da dúvida, tem outra voz que fala e viceja; pra cada voz da certeza, tem outra voz que cala e boceja.
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ou seja:

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«sinta mais, pense menos.»

bukowski

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«que sabe a aranha a respeito de mozart? nada; entretanto, ouve com prazer uma sonata do mestre. o gato, que nunca leu kant, é talvez um animal metafísico.»

machado de assis

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os cavalos não correm
para vencer.
correm para correr,
pois para isso
foram desenhados.
também não vivo
para vencer.
vivo para viver,
pois para isso me desenhei.

fausto wolff

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ao vento

há dez mil anos atrás
quando ainda rolava de bar em bar
me caiu nas mãos
uma resenha do livro
«a arte cavalheiresca do arqueiro zen»
desde então
pensava em lê-lo
pesquisa daqui
pesquisa dali
encontrei-o
entre borges e kant
na minha pequena
mas
modéstia à parte
rica bibliotheca
folheia daqui, folheia dali
percebo um trecho sublinhado
como quem diz
lê isso aqui:
«o homem é definido como um ser pensante, mas suas grandes obras se realizam quando não pensa e não calcula. devemos reconquistar a ingenuidade infantil. nesse estágio, o homem pensa sem pensar. ele pensa como a chuva que cai do céu, como as ondas que se alteiam sobre os oceanos, como as estrelas que iluminam o céu noturno, como a verde folhagem que brota na paz do frescor primaveril. na verdade, ele é as ondas, o oceano, as estrelas, as folhas.»
bárbaro
mas fiquei com a impressão de que já o tinha lido
parece que tudo que ali está
eu já sabia
de pura intuição
mas não é verdade
terminei o livro
com mais dúvidas
do que quando comecei
daí fico pensando
se bukowski
fausto wolff
e yupanqui
o teriam lido
ou se
sem pensar
eles escreviam
sobre aquilo que pensavam que não sabiam

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«"pelo que vejo, o senhor já é um mestre. peço-lhe que me diga a que escola pertence, antes que entremos na relação mestre-discípulo". o guarda observou que se envergonhava de dizer, mas jamais tinha aprendido a arte da esgrima. "o senhor está zombando de mim? sou o mestre do venerável xógum e sei que meus olhos jamais se enganam." o guarda insistiu: "lamento ofender a sua honra, mas a verdade é que jamais tive qualquer conhecimento desta arte". frente a tão segura negativa, o mestre vacilou um momento, ao final do qual disse: "como o senhor afirma, não vou desmenti-lo, mas seguramente o senhor é mestre em alguma outra disciplina, embora eu não saiba qual seja". respondeu-lhe o guarda: "pois bem, como o senhor insiste, devo dizer-lhe que existe uma coisa na qual me considero mestre. quando eu era criança, ocorreu-me a ideia de que um samurai não tem o direito de temer a morte em qualquer circunstância, e desde então lutei continuamente com a ideia da morte, até que ela deixou de preocupar-me. talvez seja a isso que o senhor se refere". mal ouvira tais palavras, tajima-no-kami exclamou: "exatamente! alegro-me que não tenha me enganado, pois o último segredo da arte da espada é atingir a libertação da ideia da morte. tenho mostrado essa meta a centenas de alunos, mas até agora nenhum alcançou o grau supremo na arte da espada. o senhor não precisa de qualquer treinamento, porque já é um mestre".
eugen herrigel | a arte cavalheiresca do arqueiro zen, p. 89.

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a partícula cósmica que navega em meu sangue
é um mundo infinito de forças siderais.
veio a mim através de um longo caminho de milênios
quando, talvez, fui areia para os pés de vento.

logo, fui madeira, raiz desesperada
fundida no silêncio de um deserto sem água.
logo, fui caracol quem sabe onde.
e os mares me deram a primeira palavra.

depois, a forma humana despejou sobre o mundo
a universal bandeira do músculo e da lágrima.
e brotou a blasfêmia sobre a velha terra
e o açafrão, e o trigo. a árvore e as pradarias.

então vim à américa para nascer um homem
e a mim se juntou o pampa, a selva e a montanha.
se um velho da planície galopou até minha origem
outro me disse histórias em sua flauta de cana.

eu não estudo as coisas nem pretendo entendê-las
as reconheço, é certo, pois antes vivi nelas
converso com as rochas em meio aos montes
e me dão sua mensagem as raízes secretas.

e assim vou pelo mundo, sem idade nem destino
ao amparo de um cosmos que caminha comigo.
amo a luz e o rio e o caminho, e a estrela.
e floresço em guitarras porque fui a madeira.

clique no título para ver e ouvir

poema: atahualpa yupanqui
musica: campo abierto (atahualpa yupanqui)
voz y audio: alejo gómez davolio
edición: santiago cremerius

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de volta ao começo dia 4 de outubro diga não a bolsonaro vote lula e depois fique bem na sua sem questionar sem reclamar nem criticar até porque quando a grande mídia o agronegócio e a faria lima caírem de pau se lula não resistir e cair a culpa vai ser toda sua 
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agradezco la participación de todos
los que colaboraron con esta melodía.
se debe subrayar la importante tarea
de los perseguidores de cualquier nacimiento.

si alguien que me escucha se viera retratado,
sépase que se hace con ese destino.
cualquier reclamación, que sea sin membrete.
buenas noches, amigos y enemigos.

clique no título para ouvir

(silvio rodríguez, 1970)

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foto: 
ernestito che guevara 
(in memmoriam)
repecho, 2020

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

domingo, 13 de setembro de 2026


no jardim da política
[ou: na terra de noel]

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«se o néscio persistisse em sua nescidade, ele se tornaria sábio.»

william blake

.

não vou tirar meu chapéu
p'ra qualquer vagabundo
nasci na terra de noel
sou cidadão do mundo

josias sobrinho

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no final do post de ontem, eu disse que, mesmo sem dinheiro e perdendo a razão, ainda me restava o direito de ser consciente da situação. que situação? a situação de impasse. que impasse? o impasse da frente ampla  — impasse, aliás, apontado por andré singer:

«diante desta etapa regressiva, torna‑se obrigatório construir a frente mais ampla possível para preservar e aprofundar o regime democrático. dadas as contradições de classe envolvidas na coalizão resultante, todavia, o artefato frentista se paralisa, impedindo o salto de qualidade necessário para formar uma maioria sólida em torno do objetivo almejado.»
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dito isso, vamos ao que viemos

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há dez mil anos atrás, numa postagem minha no facebook, na qual falava sobre a foto de lula abrazado a sarney, uma companheira amiga minha, contemporânea do lad (livres atuadores pela democracia), fez o seguinte comentário:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo candidato pra derrotar o bolsonaro, glauber braga se lançou pelo psol. quem sabe combateremos o nazifascismo em rodas de ciranda, néh 😉»
ao que eu respondi:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo argumento para nos abrazarmos a sarney e cia: o nazifascismo. aliás, o nazifascismo, para petistas e lulistas, muda de cara a cada quatro anos. em 2002, a cara era uma; em 2006, outra; em 2010, outra; e, em 2014, outra. e o final deste filme, sabemos qual é. mas que importância isso tem? nenhuma. o que importa é que a gente vença e passe mais 10, 12, 14, 16 anos no governo. depois, se nos tirarem de novo, a gente vê o que faz. mas não te preocupa, companheira, minha opinião não tem valor algum. ainda tô no jardim da infância da política, de onde, por sinal, não tenho o menor interesse de sair. 😉»

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de farsa em farsa, a «nova república» morreu
a expressão «nova república» foi cunhada há 31 anos, quando josé sarney assumia a presidência do país, na qualidade de vice de um agonizante tancredo neves, eleito indiretamente pelo colégio eleitoral inventado pela ditadura. em seu discurso de posse, escrito por tancredo, o imortal autor de marimbondos de fogo anunciava: «brasileiros, começamos hoje a viver a nova república». a expressão pretendia anunciar o advento da democracia. a farsa não poderia ser mais perversa e descarada: ignorando a vontade de milhões que expressaram nas ruas a exigência por eleições diretas, o poder era entregue a um líder da arena – principal partido de sustentação dos generais –, sem que qualquer instituição do antigo regime fosse desmantelada, ou os seus responsáveis julgados e muito menos punidos.
josé arbex jr.
abril de 2016

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«há quem diga que essa história de desobediência civil e revolução, não tá com nada. isto é, já era. «não tá com nada» pode ser que sim, «já era» penso que não. por quê? porque aqui no brasil, salvo uma ou outra exceção — vide a balaiada no maranhão — isso jamais aconteceu. portanto, não se pode dizer «já era» para uma coisa que nunca foi.»

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ontem, aqui no blog, reproduzi o trecho acima. hoje, ao entrar no whats, havia a seguinte mensagem para mim: «ah, fala sério que tu ainda acredita em desobediência civil e revolução...»

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uma fábula de natal

por fausto wolff
a minha mais bela noite de natal aconteceu numa (sei do cacófato) manhã. eu não era a criança que recebia os presentes, mas sim o papai noel que os dava. não aconteceu no brasil, mas em copenhague e nevava, como nos filmes de natal que os americanos mandavam para nós em programas duplos dominicais e que nós crianças pobres assistíamos, não acreditando que pudesse existir um país onde todos eram tão bons e se amavam tanto. antes, porém, de lhes contar minha performance como papai noel, devo lhes contar minha performance como vinícius de moraes.

tudo começou alguns anos atrás, vários graus abaixo de zero, fora e dentro do copo. uma dessas noites em que a angústia encontra-se com a solidão numa esquina do inconsciente, quando sentimos os nossos demônios dançando dentro de nós, informando-nos da nossa fragilidade e ignorância. numa dessas noites em que os pais de família apressam-se em ir para casa e ao pé da lareira tomarem chocolate quente e contarem histórias de hans christian andersen para os filhos. em se tratando de um país estranho, então, a solidão aumenta consideravelmente e a angústia parece esmagar a psique como quem aperta uma borboleta na mão fechada. a solução, principalmente para quem não é uma pessoa séria e respeitável como é o meu caso, é unir-se com outros sócios do mesmo sindicato e ir armar uma zoeira até que, como diz drummond, venha a manhã trazer leite, jornal e calma.

entrei numa boatezinha de badstuestraede, se não me engano, e lá estavam outras moças e rapazes que se divertiam em torno de um piano, abraçando-se, beijando-se e tentando tirar sambas de tom e vinícius do teclado que negava-se a cooperar com dedos tão inábeis. uma jovem morena de pele muito branca chegou a cantar «felicidade» num portunhol de indisfarçável origem escandinava. terminei meu quinto uísque e dirigi-me com o sexto na mão até onde estava o grupo e mandei ver, falando em inglês para ninguém em particular:

– vocês não sabem o quanto eu estou emocionado. não sabia que gostavam tanto das minhas músicas por aqui, meu nome é vinícius de moraes.

vocês bem podem imaginar o que aconteceu: abrações, beijos, pedidos de canções, etc. auxiliado pelo pianista cantei «felicidade», «minha namorada», «eu não existo sem você», «chega de saudade», e todas as que eu sabia de cor e as que eu improvisava, pois afinal, no grupo ninguém sabia português e obviamente ninguém vira o bom vinícius nem mesmo por fotografia. a boate não estava cheia, de modo que nos adonamos do lugar mas no melhor da festa entrou um rapaz com aquele jeito de ser brasileiro no exterior que já entrou para o folclore da crônica nacional. ouvi quando o maître lhe disse que vinícius estava cantando e antes que ele pudesse responder eu já estava lhe dando um grande abraço, talvez até mesmo um pouco apertado demais, enquanto lhe sussurrava ao ouvido:

– vê se não estraga a minha festa, meu chapinha. olhe quantas moças bonitas ao redor do piano. se você souber tocar eu posso até lhe apresentar como o tom jobim. quando ele se desprendeu do abraço, disse aos berros para quem quisesse ouvir em forte sotaque nordestino: «vinícius de moraes seu cabra da peste, que bom te ver por aqui.»

tratava-se de um jovem cearense que estudava algo que não me lembro mais em malmo, na suécia e viera passar o natal com os pais da noiva que era dinamarquesa. mas não topou ser tom jobim, pois sua noiva iria encontrá-lo mais tarde no night-club, o que efetivamente se deu, quando o cearense, peito inflamado de orgulho, apresentou o grande poeta e compositor vinícius de moraes à sua bem amada.

quando o ex-futuro tom jobim retirou-se com a sua namorada já eram quatro da matina e eu estava traduzindo para o inglês para a pálida jovem de cabelos pretos que me olhava como se eu fosse um deus um dos meus poemas:

«...but inside the frame of a bed no other woman has been so beautiful...» («...mas dentro da estrutura de uma cama, nenhuma outra mulher foi tão bela...»)

era a época em que as comunidades estavam em moda na escandinávia e moças e rapazes moravam juntos em grandes e velhas casas que chamavam de colectivs e dividiam as despesas. lá fui eu para a colectiv e «no quiero dicir por hombre las cosas que yo y la morena hicimos pues que la luz del intendimiento me hace ser muy comedido».

por volta das 11 horas da manhã do dia seguinte encontrei quatro moças e cinco rapazes tomando café na grande mesa da sala, todos vestidos de papais noéis com longas barbas e bigodes brancos. um deles, entregando-me uma roupa de papai noel, disse-me:

– vinícius, veste isto aí que vamos a uma festa de caridade.

e lá fomos nós vestidos de papais noéis dentro da bela e fria manhã de 24 de dezembro pelas ruas de copenhague. repentinamente, vi-me dentro de uma grande magazin, uma espécie de «sears» ou «mesbla» local que se não me engano chamava-se «magazin du nord» ou «illum». a loja com departamentos em vários andares estava apinhada de gente. a um certo momento, a morena, que chamaremos de karen, ao meu lado, apanhou um brinquedo e deu para um menino:

– tome, isto é para você. presente de papai noel.

os demais papais noéis faziam a mesma coisa. apanhavam o que lhes caísse nas mãos e entregavam ao público que – acreditem – aceitava tudo com muita satisfação, pois que de natal se tratava. apesar dos protestos dos funcionários, centenas de pessoas foram presenteadas antes que a polícia chegasse. nós papais noéis, protegidos pelo público, fugimos nas mais diversas direções. havia tantos papais noéis pela rua principal que era impossível distinguir os legítimos, ou seja nós, dos falsos, ou seja, os que anunciavam produtos comerciais. ao longe vi um papai noel que gritava para mim:

– good-bye, vinícius, see you around! (– adeus, vinícius, até mais!)

entrei no toillete de um botequim e tirei a roupa do bom velhinho e saí com a minha que mantive por baixo, sentindo-me um misto de papai noel, super-homem e dom quixote. não mais solitário, não mais angustiado. o milagre de natal que eu tanto esperava desde o meu tempo de menino pobre acontecera.

se a história que contei é verdade ou não, é um problema que deixo com os leitores. a verdade que eu gostaria que, realmente, acontecesse neste natal de 1978 é a seguinte: gostaria que todos os leitores quando reunidos com suas famílias para festejar o aniversário de jesus cristo, tivessem um pensamento para com todos os presos políticos e mesmo os não políticos, os pobres ladrões de galinha, vítimas de um sistema penitenciário cruel e desumano, para que eles saibam que estamos com eles. e um pensamento especial para uma menina chamada flávia shilling, uma brasileirinha que há seis anos padece nos cárceres uruguaios. quem sabe, assim, conseguiremos anular as palavras de são tomás de aquino: «os olhos foram feitos mais para chorar do que para ver, pois cegos choram e não vêem.» nós que vemos, não sejamos cegos neste natal.
dezembro/1978

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«vou tratar [os 60 anos do golpe de 1964] da forma mais tranquila possível. estou mais preocupado com o golpe de janeiro de 2023 do que com o de 64. isso já fez parte da história, já causou sofrimento, o povo já reconquistou o direito democrático. os militares, hoje no poder, eram crianças naquele tempo. alguns nem eram nascidos»
luiz inácio lula da silva

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«o que eu não posso é não saber tocar a história para frente, ficar remoendo sempre, remoendo sempre, ou seja, é uma parte da história do brasil que a gente ainda não tem todas as informações, porque tem gente desaparecida ainda»
(idem)

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todo poeta é um profeta
1980. vinicius já quase não saía. só recebia os amigos mais íntimos. havia, na época, uma jornalista que insistia com uma entrevista. vinicius resistia até que um dia cedeu.
a primeira pergunta foi fulminante: - poeta, o senhor tem medo da morte? vinicius olhou nos olhos da moça e respondeu: - não. eu não tenho medo da morte, o que eu tenho é saudade da vida.
começava a década de 1980 --- mais conhecida como a década perdida --- e essa foi a última entrevista que vinicius concedeu.
tom Jobim recebeu a notícia em casa e, literalmente, caiu da cama.
chico buarque ouviu a notícia, acidentalmente, no rádio do automóvel, mudou o trajeto e foi direto para o cemitério.
toquinho, de volta do cemitério, roda a maçaneta da porta de entrada da casa do poeta e é tomado pela imagem de vinicius esticado no sofá da sala. mas o sofá está vazio. não há mais o que fazer. toquinho chora sozinho:
«meu deus, vinicius morreu».
♦

ao vento

ontem
pelas cinco da tarde
o céu ficou encarnado

não era vermelho de derrotado
era vermelho de envergonhado,
como se o dia tivesse medo
e não quisesse dizer de quê

ninguém falou nada
a cidade se fez de sonsa
e ficou calada 

no banheiro,
a toalha torcida dentro do balde 

o homem olhando aquilo
examinando o mapa
de um país derrotado

lá fora,
o sinal fechou

olá, como vai?
eu vou indo, e você, tudo bem?
tudo bem, eu vou indo correndo
pegar meu lugar no futuro, e você?

um rapaz enxugou a testa
uma velha segurou três sacolas
com o cuidado de quem carrega
três filhos no colo

um cachorro mijou no poste,
solene,
resolvendo um problema sério
igual presidente

o céu continuava vermelho

vermelho como a raiva
que a gente guarda
e finge que esqueceu

no fundo da gaveta,
no avesso do bolso,
na dobra da língua.

agora falando sério

hoje
segundo a previsão
começa a clarear cerca de 30 minutos antes
por volta das 6 horas 
já o pôr-do-sol ocorre às 18:18
se precisar da previsão do tempo completa é só falar!

♦

de volta ao começo

♦
minhas análises políticas não contribuem em absolutamente nada na luta contra jair bolsonaro e o nazifascismo. contribuiriam se eu fosse uma grande liderança e ou uma pessoa influente dentro da esquerda. o que nunca fui, nem nunca quis ser.
nem poeta eu sou
mesmo que fosse
de nada adiantaria
lembremos o que
a revolução russa
fez com maiakovski
maiakovski morreu
de incompreensão
o poeta tentou se enquadrar, fez poemas engajados-proletários, produziu cartazes revolucionários, mas sua criatividade, tida como excessiva e contagiante, chocava os comunistas retrógrados e, segundo dizem, não era entendida pelas massas.

esse é o ponto: o texto poético exige do leitor conexão.
assim sendo
às vezes eu me pergunto
qual a validade de fazer o que faço
aqui nesse espaço?
a resposta
meu amigo
está soprando
nos textos que faço
e que vou seguir fazendo
vai vendo

grill

♦

se me levanto cedo,
limpo e curado, lúcido e feliz,
e te digo: «vou para a mata
pra me aliviar de ti»,
sabe que trago dentro um tesouro
que me chega até a raiz.

clique no título para ver e ouvir

(silvio rodríguez, 1974)

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 25 de agosto de 2026


levantado do chão

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terras raras

[por cesar benjamim] 

há pouco tempo, lula e trump encontraram-se pessoalmente durante três horas, acompanhados apenas pelo intérprete. lula disse que trataram de tarifas.

era mentira.

agora, falaram por telefone durante uma hora e meia. lula voltou a dizer que trataram de tarifas.

é mentira.

dado o volume e a composição do comércio bilateral entre brasil e estados unidos, não há tanto a tratar desse assunto por dois presidentes. é algo menor. as equipes técnicas existem para isso.

outro assunto é decisivo: o destino das terras raras brasileiras.

os estados unidos dependem da china para obter esses minerais estratégicos, sem os quais não se fabricam equipamentos eletrônicos de uso civil e militar. o brasil detém as segundas reservas do mundo, praticamente inexploradas.

lula quer nos fazer crer que os dois presidentes se encontram e se falam e não tratam disso.

está nos chamando de trouxas, parece que com razão. no século xxi, as terras raras têm a mesma importância que o petróleo teve no século xx.

* * *

flávio bolsonaro oferece aos estados unidos uma vassalagem total e explícita. se puder, transformará o brasil na 52a estrela da bandeira americana.

lula oferece uma vassalagem ambígua. tudo em lula é ambíguo, pois sempre há um abismo entre o que diz e o que faz.

o império prefere a primeira opção, mas pode se ajustar perfeitamente à segunda.

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«diga ao seu patrão que estão aqui umas pessoas que vêm saber o que é que ele faz, já caíram as primeiras águas, é tempo de semear, e tendo a criada ido saber a resposta ficamos na porta, que a nós não nos mandam entrar e nisto volta a criada, e diz, o patrão manda dizer que não têm nada com isso, a terra é dele, e se voltarem aqui ele vai chamar a polícia»

josé saramago | levantado do chão, p. 234

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chame o ladrão
chame o ladrão

👇

[do álbum: sinal fechado]

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falando em brasil

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antonio – o senhor mandou me chamar, doutor rocha?

dr. rocha – mandei, antonio. infelizmente, devido à crise do mercado, muito a contragosto, terei de demiti-lo.

antonio – doutor rocha, eu estou no meio de um trabalho. será que não poderíamos conversar sobre isso na hora do almoço?

dr. rocha – é claro que podemos, mas infelizmente nada do que você disser poderá modificar a situação.

(na hora do almoço, antonio estava novamente na frente do dr. rocha.)

antonio – doutor rocha, como trabalho aqui há mais de oito anos, tenho mais de 50...

dr. rocha – você não é o único, antonio, a situação está ruim para todos.

antonio – o senhor não entendeu, doutor rocha. quis dizer que pelos anos de dedicação à firma, achava que tinha direito a lhe fazer algumas perguntas.

dr. rocha – pois faça-as.

antonio – o senhor gosta de coisas singelas como flores, pássaros, o orvalho nas plantas, riso de crianças pequenas? 

(antes que o patrão pudesse responder, antonio continuou) 

gosta de fazer amor com uma bela mulher, de cavalos correndo no prado, de ver o nascer do sol, de olhar para as estrelas?

dr. rocha – claro que gosto, antonio, só não estou entendendo...

antonio – só mais uma pergunta.

dr. rocha – está bem, mas seja breve, pois tenho uma reunião de diretoria e ainda preciso examinar alguns papéis.

antonio – o senhor acredita em deus, doutor rocha?

dr. rocha – claro que acredito.

antonio – pois está na frente dele.

dr. rocha – você enlouqueceu, antonio?

antonio – não enlouqueci, não. até duas horas atrás eu não era deus. era apenas antonio pinto, contador, casado, mulher e quatro filhos, um deles autista, com dívidas para pagar e muito medo de perder o emprego, pois dificilmente encontraria outro depois dos 50 anos. aí, quando saí do seu escritório, fui até em casa, peguei este revólver e me transformei em deus. 

(neste momento, antonio tirou do bolso um smith&wesson calibre 38 e apontou-o para a testa do dr. rocha)

o senhor é um dos homens mais ricos de são paulo, tem mulher, amantes, viaja várias vezes ao ano à europa, uma vida muito boa. já a minha é triste e monótona. lembra-se daquela história de estrelas, nascer do sol, flores e pássaros? 

(o dr. rocha, mudo de terror, olha para o revólver)

será que vale a pena perder a sua vida para me desempregar? pense bem, se eu morrer, não perco nada. se o senhor morrer, perde tudo. e quem vai decidir isso sou eu, pois virei deus. 

(o doutor rocha ajoelha-se diante de antonio)

dr. rocha – não faça uma loucura dessas, seu antonio. diga o que o senhor quer que terei o maior prazer em atendê-lo, o que quiser. por favor, tenha piedade. diga o que quer!

antonio – gostaria de deixar de ser deus e voltar a ser o seu escravo. que tal? posso?

fausto wolff

(publicado no livro “a milésima segunda noite”, 2005)

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como na peça de ionesco, tornamo-nos uma nação de rinocerontes exatamente porque não temos coragem de nos reconhecer como rinocerontes. no brasil encenam uma realidade para encobrir a verdade, e a verdade está na nossa bandeira. o verde representa os que vivem com menos de dez reais por mês; o amarelo, os que vivem com menos de cem; o azul, os que vivem com menos de mil. e os pontos brancos são os tiranos que, sendo tão poucos, nos esmagam com tanta facilidade. 

o país tem solução? tem e precisa ser drástica. se não quisermos que, pela dor da fome, o povo desça e o resto dance. 

(idem)

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para todos e para ninguém

não ignoro bolsonaro e o «nazifascismo» — muito pelo contrário. lembro apenas que, para fiéis seguidores de lula, o nazifascismo muda de rosto a cada quatro anos. em 2002, por exemplo, era josé serra. naquele ano, lula fez um movimento semelhante ao da escolha de alckmin como vice: convidou para ser seu companheiro de chapa o megaempresário mineiro josé alencar (pl), que chegou a ser vaiado pela militância petista. a escolha do vice não foi o único movimento rumo ao centro político — ficou famosa a «carta ao povo brasileiro». em 2006, o «nazifascismo» atendia pelo nome de neoliberalismo, e o bolsonaro da vez era geraldo alckmin. em 2010, serra; e em 2014, aécio. e do final desse filme, tenho certeza de que todos nos lembramos. 

grill 

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a certeza já me corrói
levo bronca do patrão
mas, sonhei e fiz a fé no avestruz
que vai me dar uma luz...

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[moleque gonzaguinha]

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falando em avestruz

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falam muito mal das avestruzes, injustamente. seus detratores, movidos por motivos inconfessáveis, declaram que aquelas aves são de estupidez sem paralelo. dizem que elas, ao se defrontar com um leão, enterram suas cabeças na areia. se assim elas se comportam, é porque devem ser adeptas de uma antiga filosofia que afirmava que «ser é perceber». raciocinam as avestruzes: se não percebo o perigo, o perigo não existe para mim. (traduzido popularmente: «aquilo que os olhos não veem o coração não sente».) continua o pensamento das avestruzes: «posso, assim, me comportar como se ele não existisse, desde que continue com a cabeça enterrada na areia». tudo estaria bem se o leão não fosse de verdade. e o resultado é que a avestruz acaba na barriga do leão... mas, como disse antes, eu não acredito que as avestruzes sejam assim tão estúpidas. estupidez igual somente encontrei em exemplares da espécie homo sapiens, a que pertencemos. acham que, não percebendo, a coisa não existe. o leão existe mesmo quando fechamos os olhos...

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 54

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falando em fechar os olhos

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quem não tem colírio
usa óculos escuros
a formiga só trabalha
porque não sabe cantar

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[com letra e ilustração]

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lançada em 1974, «como vovó já dizia» foi a primeira canção de raul a incomodar a censura --- teve dois versos considerados subversivos substituídos: «quem não tem papel dá recado pelo muro» e «quem não tem presente se conforma com o futuro», trocados por «quem não tem filé come pão com osso duro» e «quem não tem visão bate a cara contra o muro».

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falando em muro...

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paulo césar pinheiro, um dos maiores letristas da música popular brasileira — infelizmente, um ilustre desconhecido dos brasileiros em geral —, propôs a maurício tapajós que compusessem uma canção sem rodeios e metáforas. foi assim que nasceu «pesadelo». 

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quando o muro separa, uma ponte une
se a vingança encara, o remorso pune
você vem me agarra, alguém vem me solta
você vai na marra, ela um dia volta

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do álbum: «o importante é que nossa emoção sobreviva nº 2»
márcia, eduardo gudim e paulo césar pinheiro
gravado ao vivo no teatro ginástico - rio de janeiro, em fevereiro de 1976

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antes do fim

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é preciso que a justiça e a igualdade
sejam mais que palavras de ocasião
é preciso um novo tempo
em que não seja só promessa repartir a terra e o pão

link

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poema: martim césar 
música: pedro munhoz
do cd 1º festival nacional da reforma agrária

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enfim, há quem passe o dia na internet e faça dos blogs pessoais e das redes sociais trincheira contra tudo e contra todos, e por causa disso seja criticado, desvalorizado e menosprezado. não é o meu caso. eu, particularmente, não critico nada nem ninguém — muito pelo contrário: as armas são muitas e cada um escolhe e utiliza aquelas com as quais pensa obter melhores resultados. já participei de reuniões presenciais e de manifestações de rua; hoje em dia escrevo só para os raros, só para os loucos, e não vejo diferença nenhuma entre uma arma e outra... com qualquer delas me sinto desarmado e derrotado. 

trocando em miúdos: nosso discurso é velho e ultrapassado; nossa forma de atuar e de lutar não diz mais nada, nem a nós nem a ninguém. na minha opinião, é preciso passar o bastão — estamos desgastados e desacreditados. o problema é passá-lo para quem... não vejo nada nem ninguém. 

não nego
posso estar enganado
meu tempo passou
estou velho e superado
mas vou assim
até o fim
quanto mais velho
mais cego

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é a ceguêra de dexá
um dia de sê pião
num dançá mais amarrado 
pru pescoço cum cordão

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canta: dércio marques
[«pinhão» é uma variante dialetal e regional para a palavra «peão»]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quarta-feira, 8 de julho de 2026


no rastro da lua cheia

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meus super-heróis

por fausto wolff

1. edgar allan poe

o homem era alto, magro, cabeça enorme. pobre, órfão de pai e mãe, criado por um tutor militarista. escreveu, entre outras obras-primas, o primeiro romance de detetive. ignorado no seu país, foi traduzido por baudelaire. em 1839, já havia publicado dez livros que lhe rendiam menos do que me rendem os meus. num cubículo da filadélfia editou o graham's magazine. ganhava US$ 800 por ano e conseguiu aumentar a tiragem da revista de cinco mil para 45 mil exemplares. em 1842 sua mulher morreu de tuberculose. ele desmoronou. foi despedido. ninguém lhe dava um emprego decente. foi largado nu em uma sarjeta pedindo que lhe dessem um tiro nos miolos. morreu dois dias depois, aos 38 anos. no seu túmulo, apenas o número 80. trinta anos depois, já reconhecido como o melhor escritor nascido em solo americano, os cidadãos de boston recolheram dinheiro para lhe dar uma sepultura digna onde inscreveram a frase «and the raven said never more« (e o corvo disse: nunca mais).

2. vincent van gogh

o homem era alto, magro, cabeça enorme, mas não era feio, como se diz hoje em dia. usava uma barba ruiva porque quando menino uma garota lhe dissera que tinha o queixo pequeno. todo emoção e timidez, a vida lhe doía. aos 20 anos, todos os domingos caminhava 40km só para ver de longe uma jovem que amava. um dia, ela lhe disse da janela que era noiva. trabalhou numa galeria, foi professor elementar, pastor, lavrador e levou seu cristianismo ao extremo, trabalhando de sol a sol e dormindo no chão. embora só começasse a pintar em 1881, fez 900 telas e 1.100 desenhos sem que tenha conseguido vender um em vida. tinha crises de loucura e numa delas, em arles, atacou gauguin com uma navalha. depois cortou o lóbulo da própria orelha e deu-o a uma prostituta. foi internado na clínica do dr. gachet, mais louco do que ele. o retrato que fez do dr. gachet, uma obra menor, foi vendido há alguns anos por US$ 84 milhões.

3. lima barreto

o homem era baixo, magro, doente, mulato claro. certa vez o gerente de uma livraria no centro do rio pediu firme, mas delicadamente, que se retirasse, pois seu cheiro de cachaça perturbava os clientes. era odiado pelos esnobes por ser anarquista e pelos militares porque, quando membro do júri, acusou um deles da morte de um estudante. expulso da livraria, voltou para casa o grande escritor brasileiro. lá morreu de enfarte em 1922, aos 41 anos.

4. auguste rodin

o homem era alto, magro, barbudo. passou de 1914 a 1917 perambulando pelas repartições públicas de paris, pedindo ao governo uma quantia que julgava lhe ser devida para poder se manter. havia sido o artista mais prestigiado, premiado e querido da frança e uma unanimidade mundial. no verão de 1917, aos 77 anos, pediu ao governo que lhe cedesse um quartinho, o que foi recusado. morreu de frio num parque alguns dias depois. todas as esculturas e estátuas que doara ao governo estavam abrigadas no calor dos museus.

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como nossos pais

leio teses e mais teses a respeito das redes sociais e sua influência sobre nós.

a principal delas, ou uma das mais citadas, é a de umberto eco.
nela, o escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano diz, textualmente:

«as mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do prêmio nobel.»

não discordo. quem sou eu pra discordar do grandioso umberto eco.

mas me pergunto: quem serão os imbecis a que ele se refere (já que não sou ganhador de prêmio nobel, e passei mais da metade da minha vida falando só em bar, depois de muitos copos de plástico de vinho barato, sem nunca ter causado dano a ninguém, a não ser a mim mesmo).

pergunta imbecil, feita por um imbecil.
os imbecis nunca somos «nós», são sempre «eles»

e assim caminha a imbecilidade...

gasta-se muito latim para tentar entender por que a tecnologia tem nos deixado mais tristes e solitários. é verdade. não discordo. mas o pensamento simplista pode nos levar a crer que a culpa - por não sermos mais sensíveis, mais humanos, mais solidários e mais felizes - é da internet. pode ser... talvez antigamente as coisas fossem diferentes... vai ver dostoiévski --- sua vida foi marcada por pobreza, prisão, epilepsia e um vício severo em jogos --- era feliz e não sabia. pode ser... quem sou eu pra dizer que não?

quando fui - com meu pai, com minha mãe e com meus irmãos - morar em santa vitória, a cidade nos foi acolhedora, não tinha tv, nem telefone residencial, o carro ficava aberto com a chave dentro, as pessoas tomavam mate na frente de casa, os vizinhos se visitavam e conversavam sobre tudo e sobre todos. tudo era lindo e maravilhoso... menos o bullyng que eu sofria por usar óculos e ter nascido em pelotas.

moral da história:

nosso problema não é o facebook
nosso problema não é a televisão
nosso problema não é o rádio
nosso problema somos nós mesmos

não estou com isso querendo dizer que é melhor ficar na internet e/ou vendo televisão do que jogar bola e/ou visitar alguém e/ou tomar mate na praça enquanto seu lobo não vem. sou imbecil mas não é pra tanto, também.

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el problema no es
si te buscas o no más problemas.
el problema no es
ser capaz de volver a empezar.
el problema no es
vivir demostrando
a uno que te exige
y anda mendigando.
el problema no es
repetir el ayer
como fórmula para salvarse.
el problema no es jugar a darse.
el problema no es de ocasión.
el problema, señor,
sigue siendo sembrar amor.

el problema | silvio rodríguez (1991)
(com letra)

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o vazio existencial

a canção «el problema» foi composta pelo cubano silvio rodríguez no ano de 1991.

o ano de 1991 foi um dos períodos mais transformadores da história moderna, marcado pelo fim de uma era geopolítica, o nascimento da internet pública e grandes marcos culturais.

em 26 de dezembro, a união sovética chegou oficialmente ao fim.

em janeiro, uma coalizão liderada pelos estados unidos iniciou os bombardeios contra o iraque (operação tempestade no deserto).

em agosto, o cientista tim berners-lee lançou o primeiro website da história, permitindo que a internet começasse a se espalhar pelo mundo.

em 24 de novembro, o mundo perdeu freddie mercury, o icônico vocalista da banda queen, em decorrência de complicações da aids.

o filme «o silêncio dos inocentes» estreou nos cinemas, tornando-se um clássico absoluto do suspense.

de volta ao começo

em 1976, em um mundo analógico regido por cartas e discos de vinil, belchior já cantava em «como nossos pais» o peso esmagador do isolamento e da estagnação, provando que a frustração geracional e a melancolia independem de conexões de internet.

vida que segue...

quase cinco décadas depois, em 2022, almir sater atualiza esse mesmo cenário em «verdade absoluta», ao pedir perdão aos novos tempos e seus «reinos virtuais».


antes do fim

a verdade é que a velocidade e o alcance das redes sociais mudaram apenas a escala, e não a essência, desse vazio. trata-se de uma evolução proporcional à mudança dos tempos: assim como o telefone silenciou o hábito das cartas e a televisão esvaziou as conversas de calçada, as telas de cristal de hoje apenas mudaram o endereço das velhas angústias humanas.

enfim

«desde que a roda girou
e o mundo acelerou
nesse bom e velho império
tem um só problema sério
que é salvar o que restou»

ao vento

ainda cego
do pó da estrada
na cidade vim parar
de volta à civilidade
tive que tatear
pisando em areia movediça
entre postes de luz
feito folha solta no ar
ainda não clareou
mas vai

grill

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ah, o tempo faz
tempo desfaz
e vai além sempre

a vida vem lá de longe
é como se fosse um rio
pra rio pequeno, canoa
pros grandes rios, navios

e bem lá no fim de tudo
começo de outro lugar
será como deus quiser
como o destino mandar

no rastro da lua cheia
se chega em qualquer lugar

no rastro da lua cheia | almir sater - renato teixeira (2007)
(com imagens)

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e a verdade absoluta?

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a verdade absoluta
nem jesus nos revelou
mesmo crenças ou ciências
nem a arte nos salvou
as pessoas se contentam
com migalhas que sustentam
tão estranhos rituais

se houver seres humanos
nesse estranho amanhã
para eles deixaremos
já mordida essa maçã

verdade absoluta | almir sater - paulo simões (2022)

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#américas