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sexta-feira, 4 de setembro de 2026


balada para os de fé e alma
[clique nos títulos para ver/ouvir]

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tenho um amigo que disse que tinha um amigo que dizia que os pássaros de mesma plumagem procuram voar juntos. e que isso vale, justamente para os amigos. não conhecia a frase, mas concordei no ato. boêmios, poetas, músicos e filósofos de botequim concordam. hoje esse amigo que tinha um amigo que dizia isso, tem um amigo que sempre repete essa frase. é fato. os pássaros de mesma plumagem procuram voar juntos.

martim césar

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ao vento

o presente é como o vento quando vê já passou
o passado já era
tá tudo lá

lá onde?

grill

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quantos anos já se passaram e se foram e quantas apostas foram perdidas e ganhas quantos caminhos trilhados por tantos amigos e a cada um deles eu nunca mais vi de novo

[the freewheelin', 1963]

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o homem de preto

para muitas pessoas com mais de sessenta anos o passado parece um sonho enquanto o futuro definha e os fantasmas se proliferam disputando a atenção. o compositor warren zevon, a quem dylan admirava, morreu de um câncer agressivo nos pulmões e no fígado no dia 7 de setembro. ele tinha 56 anos.

cinco dias após a morte de zevon, johnny cash faleceu num hospital em nashville por complicações da diabetes. irmão maior de dylan na arte, cash era o cantor que – ao longo dos anos – veio representar uma unidade entre lenda e humanidade humilde. quando dylan era um garoto ouvindo rádio em 1955, cash já era uma lenda viva, o homem de preto cantando «i walk the line». apenas sete anos depois, cash escreveu para dylan uma carta, parabenizando-o por ter feito um grande disco no espírito de jimmie rodgers e vernon dalhart. johnny referia-se a the freewheelin'.

cash esteve ao seu lado e segurou sua mão em cada mudança artística e pessoal de dylan. defendeu o amigo contra executivos hostis na columbia quando o selo tentou dispensá-lo. apoiou-o em 1969 quando ele virou country com nashville skyline e depois no controverso período gospel. um irmão verdadeiro desde os bastidores do gaslight em 1963. por isso quando a imprensa pediu a dylan um tributo após a morte de cash ele não respondeu com apenas algumas frases mas com um ensaio de quatrocentas palavras publicado na rolling stone de outubro de 2003.

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cash é rei
rolling stone, outubro de 2003

fui convidado a dar uma declaração sobre o falecimento de johnny e pensei em escrever um artigo intitulado «cash é rei», porque é assim que realmente o sinto. em termos simples, johnny era e é a estrela guia; você podia se guiar por ele — o maior dos maiores, tanto naquela época quanto agora. eu o conheci em 1962 ou 1963 e o vi muito durante aqueles anos. não tanto recentemente, mas de certa forma ele esteve mais presente na minha vida do que as pessoas que vejo todos os dias.

no início dos anos 60, não havia muitos meios de comunicação dedicados à música, e a revista sing out! era a que cobria tudo relacionado ao folk. os editores publicaram uma carta me criticando pela direção que minha música estava tomando. johnny respondeu à revista com uma carta aberta dizendo aos editores para calarem a boca e me deixarem cantar, que eu sabia o que estava fazendo. isso foi antes mesmo de eu conhecê-lo, e a carta significou muito para mim. guardo a revista até hoje. é claro que eu já o conhecia antes mesmo que ele ouvisse falar de mim. em 1955 ou 1956, «i walk the line» tocou o verão inteiro no rádio, e era diferente de tudo que você já tinha ouvido. a música soava como uma voz vinda do centro da terra. era tão poderosa e comovente. era profunda, assim como seu tom, cada verso; profundo e rico, impressionante e misterioso ao mesmo tempo. «i walk the line» tinha uma presença monumental e um certo tipo de majestade que nos deixava humildes. até mesmo um verso simples como «acho muito, muito fácil ser verdadeiro» pode nos medir. podemos nos lembrar disso e ver o quanto ainda estamos longe de alcançar esse nível.
johnny escreveu milhares de versos como esse. ele é verdadeiramente a essência da terra e do país, a personificação de sua alma e do que significa estar aqui; e ele disse tudo isso em inglês simples. acho que podemos ter lembranças dele, mas não podemos defini-lo, assim como não podemos definir uma fonte de verdade, luz e beleza. se quisermos saber o que significa ser mortal, não precisamos procurar além do homem de preto. dotado de uma imaginação profunda, ele usou esse dom para expressar todas as diversas causas perdidas da alma humana. isso é algo milagroso e humilhante. ouça-o, e ele sempre o fará recobrar o juízo. ele se eleva acima de tudo, e jamais morrerá ou será esquecido, nem mesmo por aqueles que ainda não nasceram — especialmente por aqueles que ainda não nasceram — e isso é para sempre.
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enfim poderia ter resumido a carta de dylan talvez devesse se levasse em conta os tempos atuais e as coisas como são se o fizesse diria apenas dylan não via cash há algum tempo mas de certa forma ele sentia que o amigo estava mais presente em sua vida do que as pessoas que via todos os dias

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se eu pudesse recomeçar,
a um milhão de quilômetros de distância,
eu continuaria o mesmo
eu daria um jeito.

hurt
johnny cash
[american iv: the man comes around, 2002]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 25 de agosto de 2026


levantado do chão

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terras raras

[por cesar benjamim] 

há pouco tempo, lula e trump encontraram-se pessoalmente durante três horas, acompanhados apenas pelo intérprete. lula disse que trataram de tarifas.

era mentira.

agora, falaram por telefone durante uma hora e meia. lula voltou a dizer que trataram de tarifas.

é mentira.

dado o volume e a composição do comércio bilateral entre brasil e estados unidos, não há tanto a tratar desse assunto por dois presidentes. é algo menor. as equipes técnicas existem para isso.

outro assunto é decisivo: o destino das terras raras brasileiras.

os estados unidos dependem da china para obter esses minerais estratégicos, sem os quais não se fabricam equipamentos eletrônicos de uso civil e militar. o brasil detém as segundas reservas do mundo, praticamente inexploradas.

lula quer nos fazer crer que os dois presidentes se encontram e se falam e não tratam disso.

está nos chamando de trouxas, parece que com razão. no século xxi, as terras raras têm a mesma importância que o petróleo teve no século xx.

* * *

flávio bolsonaro oferece aos estados unidos uma vassalagem total e explícita. se puder, transformará o brasil na 52a estrela da bandeira americana.

lula oferece uma vassalagem ambígua. tudo em lula é ambíguo, pois sempre há um abismo entre o que diz e o que faz.

o império prefere a primeira opção, mas pode se ajustar perfeitamente à segunda.

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«diga ao seu patrão que estão aqui umas pessoas que vêm saber o que é que ele faz, já caíram as primeiras águas, é tempo de semear, e tendo a criada ido saber a resposta ficamos na porta, que a nós não nos mandam entrar e nisto volta a criada, e diz, o patrão manda dizer que não têm nada com isso, a terra é dele, e se voltarem aqui ele vai chamar a polícia»

josé saramago | levantado do chão, p. 234

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chame o ladrão
chame o ladrão

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[do álbum: sinal fechado]

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falando em brasil

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antonio – o senhor mandou me chamar, doutor rocha?

dr. rocha – mandei, antonio. infelizmente, devido à crise do mercado, muito a contragosto, terei de demiti-lo.

antonio – doutor rocha, eu estou no meio de um trabalho. será que não poderíamos conversar sobre isso na hora do almoço?

dr. rocha – é claro que podemos, mas infelizmente nada do que você disser poderá modificar a situação.

(na hora do almoço, antonio estava novamente na frente do dr. rocha.)

antonio – doutor rocha, como trabalho aqui há mais de oito anos, tenho mais de 50...

dr. rocha – você não é o único, antonio, a situação está ruim para todos.

antonio – o senhor não entendeu, doutor rocha. quis dizer que pelos anos de dedicação à firma, achava que tinha direito a lhe fazer algumas perguntas.

dr. rocha – pois faça-as.

antonio – o senhor gosta de coisas singelas como flores, pássaros, o orvalho nas plantas, riso de crianças pequenas? 

(antes que o patrão pudesse responder, antonio continuou) 

gosta de fazer amor com uma bela mulher, de cavalos correndo no prado, de ver o nascer do sol, de olhar para as estrelas?

dr. rocha – claro que gosto, antonio, só não estou entendendo...

antonio – só mais uma pergunta.

dr. rocha – está bem, mas seja breve, pois tenho uma reunião de diretoria e ainda preciso examinar alguns papéis.

antonio – o senhor acredita em deus, doutor rocha?

dr. rocha – claro que acredito.

antonio – pois está na frente dele.

dr. rocha – você enlouqueceu, antonio?

antonio – não enlouqueci, não. até duas horas atrás eu não era deus. era apenas antonio pinto, contador, casado, mulher e quatro filhos, um deles autista, com dívidas para pagar e muito medo de perder o emprego, pois dificilmente encontraria outro depois dos 50 anos. aí, quando saí do seu escritório, fui até em casa, peguei este revólver e me transformei em deus. 

(neste momento, antonio tirou do bolso um smith&wesson calibre 38 e apontou-o para a testa do dr. rocha)

o senhor é um dos homens mais ricos de são paulo, tem mulher, amantes, viaja várias vezes ao ano à europa, uma vida muito boa. já a minha é triste e monótona. lembra-se daquela história de estrelas, nascer do sol, flores e pássaros? 

(o dr. rocha, mudo de terror, olha para o revólver)

será que vale a pena perder a sua vida para me desempregar? pense bem, se eu morrer, não perco nada. se o senhor morrer, perde tudo. e quem vai decidir isso sou eu, pois virei deus. 

(o doutor rocha ajoelha-se diante de antonio)

dr. rocha – não faça uma loucura dessas, seu antonio. diga o que o senhor quer que terei o maior prazer em atendê-lo, o que quiser. por favor, tenha piedade. diga o que quer!

antonio – gostaria de deixar de ser deus e voltar a ser o seu escravo. que tal? posso?

fausto wolff

(publicado no livro “a milésima segunda noite”, 2005)

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como na peça de ionesco, tornamo-nos uma nação de rinocerontes exatamente porque não temos coragem de nos reconhecer como rinocerontes. no brasil encenam uma realidade para encobrir a verdade, e a verdade está na nossa bandeira. o verde representa os que vivem com menos de dez reais por mês; o amarelo, os que vivem com menos de cem; o azul, os que vivem com menos de mil. e os pontos brancos são os tiranos que, sendo tão poucos, nos esmagam com tanta facilidade. 

o país tem solução? tem e precisa ser drástica. se não quisermos que, pela dor da fome, o povo desça e o resto dance. 

(idem)

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para todos e para ninguém

não ignoro bolsonaro e o «nazifascismo» — muito pelo contrário. lembro apenas que, para fiéis seguidores de lula, o nazifascismo muda de rosto a cada quatro anos. em 2002, por exemplo, era josé serra. naquele ano, lula fez um movimento semelhante ao da escolha de alckmin como vice: convidou para ser seu companheiro de chapa o megaempresário mineiro josé alencar (pl), que chegou a ser vaiado pela militância petista. a escolha do vice não foi o único movimento rumo ao centro político — ficou famosa a «carta ao povo brasileiro». em 2006, o «nazifascismo» atendia pelo nome de neoliberalismo, e o bolsonaro da vez era geraldo alckmin. em 2010, serra; e em 2014, aécio. e do final desse filme, tenho certeza de que todos nos lembramos. 

grill 

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a certeza já me corrói
levo bronca do patrão
mas, sonhei e fiz a fé no avestruz
que vai me dar uma luz...

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[moleque gonzaguinha]

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falando em avestruz

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falam muito mal das avestruzes, injustamente. seus detratores, movidos por motivos inconfessáveis, declaram que aquelas aves são de estupidez sem paralelo. dizem que elas, ao se defrontar com um leão, enterram suas cabeças na areia. se assim elas se comportam, é porque devem ser adeptas de uma antiga filosofia que afirmava que «ser é perceber». raciocinam as avestruzes: se não percebo o perigo, o perigo não existe para mim. (traduzido popularmente: «aquilo que os olhos não veem o coração não sente».) continua o pensamento das avestruzes: «posso, assim, me comportar como se ele não existisse, desde que continue com a cabeça enterrada na areia». tudo estaria bem se o leão não fosse de verdade. e o resultado é que a avestruz acaba na barriga do leão... mas, como disse antes, eu não acredito que as avestruzes sejam assim tão estúpidas. estupidez igual somente encontrei em exemplares da espécie homo sapiens, a que pertencemos. acham que, não percebendo, a coisa não existe. o leão existe mesmo quando fechamos os olhos...

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 54

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falando em fechar os olhos

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quem não tem colírio
usa óculos escuros
a formiga só trabalha
porque não sabe cantar

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[com letra e ilustração]

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lançada em 1974, «como vovó já dizia» foi a primeira canção de raul a incomodar a censura --- teve dois versos considerados subversivos substituídos: «quem não tem papel dá recado pelo muro» e «quem não tem presente se conforma com o futuro», trocados por «quem não tem filé come pão com osso duro» e «quem não tem visão bate a cara contra o muro».

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falando em muro...

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paulo césar pinheiro, um dos maiores letristas da música popular brasileira — infelizmente, um ilustre desconhecido dos brasileiros em geral —, propôs a maurício tapajós que compusessem uma canção sem rodeios e metáforas. foi assim que nasceu «pesadelo». 

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quando o muro separa, uma ponte une
se a vingança encara, o remorso pune
você vem me agarra, alguém vem me solta
você vai na marra, ela um dia volta

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do álbum: «o importante é que nossa emoção sobreviva nº 2»
márcia, eduardo gudim e paulo césar pinheiro
gravado ao vivo no teatro ginástico - rio de janeiro, em fevereiro de 1976

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antes do fim

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é preciso que a justiça e a igualdade
sejam mais que palavras de ocasião
é preciso um novo tempo
em que não seja só promessa repartir a terra e o pão

link

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poema: martim césar 
música: pedro munhoz
do cd 1º festival nacional da reforma agrária

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enfim, há quem passe o dia na internet e faça dos blogs pessoais e das redes sociais trincheira contra tudo e contra todos, e por causa disso seja criticado, desvalorizado e menosprezado. não é o meu caso. eu, particularmente, não critico nada nem ninguém — muito pelo contrário: as armas são muitas e cada um escolhe e utiliza aquelas com as quais pensa obter melhores resultados. já participei de reuniões presenciais e de manifestações de rua; hoje em dia escrevo só para os raros, só para os loucos, e não vejo diferença nenhuma entre uma arma e outra... com qualquer delas me sinto desarmado e derrotado. 

trocando em miúdos: nosso discurso é velho e ultrapassado; nossa forma de atuar e de lutar não diz mais nada, nem a nós nem a ninguém. na minha opinião, é preciso passar o bastão — estamos desgastados e desacreditados. o problema é passá-lo para quem... não vejo nada nem ninguém. 

não nego
posso estar enganado
meu tempo passou
estou velho e superado
mas vou assim
até o fim
quanto mais velho
mais cego

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é a ceguêra de dexá
um dia de sê pião
num dançá mais amarrado 
pru pescoço cum cordão

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canta: dércio marques
[«pinhão» é uma variante dialetal e regional para a palavra «peão»]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

 

los hermanos 

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«cantamos a obra de meu pai, atahualpa yupanqui, porque nos permite falar de assuntos que vêm desde muito longe e muito fundo nos homens. nesta obra nos reconhecemos e nosso recital constitui nossa melhor contribuição na direção de um mesmo ideal: um mundo de hermanos.»

roberto kolla chavero | theatro sete de abril
16 de novembro de 2003
pelotas - rs - brasil

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américas

por luis rubira
texto publicado no diário popular
pelotas, 2005

no ano de 2003, kolla yupanqui, filho de don atahualpa, elegeu um especialista em música que mora na cidade de pelotas para representar a fundação atahualpa no brasil.

enilton grill é, certamente, uma das pessoas que mais entende da multiplicidade musical produzida nos três continentes americanos. em sua casa, ao entrar na sala, já nos deparamos com quase dois mil CDs criteriosamente escolhidos.

conhecido por muitos músicos, recebe discos que vêm de longe e de culturas específicas, tais como os de amâncio prada — uma pedra preciosa da galícia.

para se ter uma ideia, enilton grill apresentou um dos maiores músicos do uruguai, daniel viglietti, a um dos maiores nomes da música no brasil: dorival caymmi. e, no disco ramilonga - a estética do frio, entre as pessoas a quem vitor ramil agradece, está o nome de enilton.

há quase dez anos apresenta o programa américas numa rádio da cidade de pelotas, já tendo percorrido praticamente todos os caminhos musicais destas vastas culturas de língua portuguesa, espanhola e inglesa.

seus programas são um luxo não só sonoro, mas educativo, pois partem da música, mas percorrem caminhos da história, da filosofia, da política e outros «caminhos no bosque», como diria o filósofo martin heidegger.

na sala de sua casa, além dos discos e de muitos livros especializados em música, podemos ver três quadros na parede que revelam o tripé onde sua lente musical está apoiada: ali aparecem as fotos de bob dylan, chico buarque e atahualpa yupanqui.

aproveitando esta homenagem que o fórum social mundial presta a yupanqui, esperamos que a fundação atahualpa receba incentivo para sua concretização.

afinal, já está na hora de o conhecimento de enilton não ficar reduzido a privilegiados ouvintes da cidade de pelotas, mas, tal como as coplas de yupanqui, ser repartido com outras pessoas de nosso país.

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links

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do documentário «un río que no cesa de cantar»
fragmento (1:06)

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canciones que nacen del camino

em janeiro de 2016, fazia dois anos que vivi e eu tínhamos nos mudado para o repecho. foi quando o poeta e amigo martim césar me enviou um e-mail com o convite para o lançamento do cd «canciones que nacen del camino». o evento foi no teatro esperança, em jaguarão, na fronteira com o uruguai. no e-mail, martim escrevia: «tomara que possam... se puderem, fazes algum pequeno texto de abertura.»

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abertura
fronteira não é lugar de divisão...
fronteira é lugar de inclusão, de integração.
disse bem aldyr garcía schlee, na fronteira é tudo uma coisa só. e é mesmo, tem razão. aqui e agora, por exemplo, com o testemunho do rio jaguarão temos diante de nós três pátrias num só palco: oscar massita (uruguai), martim césar (brasil) e roberto chavero (kolla yupanqui) argentina. tudo isso não é pouco. é muito o que se faz aqui. basta ver o que fizeram de nós fora daqui: imagem estilhaçada, pedaços sem conexão entre si. repito: é muito o que se faz aqui. pois fora daqui nos fizeram um corpo mutilado, uma cara por descobrir. mas se o mundo está dentro ¿afuera, por qué mirar? o canto do vento. a música que toca o rio. o latido humano que brota da terra. ir e vir. caminhar, caminhar. e as canções, as canções; mil símbolos, mil razões e três troncos de uma só raiz me trouxeram até aqui. fora da margem de dentro / entre o caule e o rebento / há sempre um pequeno espaço // entre movimento e passo / entre passo e movimento / a corda que faz o laço / a força que faz o braço / acordar o pensamento. pensando bem: ¡que coisas tem a vida/misteriosas por demais! estamos onde queremos estar, muitas vezes sem pensar. o pensamento então parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar -é que as léguas desaparecem, se a alma começa a-le-tear - bater asas / sem sair do lugar. do outro lado da mente / do outro lado da gente / do lado da gente do outro lado / do lado da gente que fica de frente / da gente que vive o futuro-presente / o tempo presente não repete o passado, mas traz ele consigo. há que se olhar para frente, mas com los recuerdos detrás. afinal, de que pegadas partem nossos passos para que nasçam canções pelo caminho? de minha parte, para encerrar: só estão longe as coisas que não sabemos mirar... que não sabemos ouvir...
que não sabemos escutar. nós que aqui estamos escutamos ao longe as payadas jaymecaetanas as zambas yupanquianas as milongas alfredianas porque estamos perto de oscar, de martim e de roberto. repecho, verão de 2016 enilton grill ••••••••••••••

«un quijote del sur que nos daba su tierna mirada y aunque hablaba muy poco, muchas cosas contaba de esta parte del mundo, de lo que fue nuestra historia de los años de lucha... ¡dolor, sueño y memoria!»

martim césar

•••••••••••••• à flor da pele antes disso, fui convidado por daniel viglietti para ir com ele a montevidéu. daniel foi muito amigo de atahualpa. falei para ele do convite feito pelo kolla para que eu representasse a fundação atahualpa no brasil. disse a ele que não conhecia a argentina — não conheço mesmo. lembro que ele ficou muito surpreso. como assim?! então, disse que entraria em contato com pessoas que me levariam ao cerro colorado.

cerro colorado — na província de córdoba, na argentina — é o lugar sagrado onde estão as cinzas de yupanqui e é a sede da fundação atahualpa yupanqui.

abri um sorriso amarelo e agradeci. disse a viglietti que gostaria muito, mas que não podia, pois acabara de passar 10 dias «vivendo de poesia» e tinha que voltar para pelotas e reassumir meu lugar no cfc.
na verdade, a gente sempre pode: basta querer. se eu ainda quisesse, largava tudo e ia. mas algo havia mudado, eu beirava os 40 e começavam a soprar outros ventos pelo meu costado. eu já não olhava apenas para a casa e o trabalho. minha visão havia se ampliado. eu sentia todo e qualquer sinal que passasse por mim: à frente, atrás e ao lado. meus sentidos estavam todos acionados. como diria baleiro, eu estava à flor da pele. eu supunha que queria ser poeta, mas no fundo queria ser poema. o cfc caminhava para ser passado. o «casamento» já tinha dançado.
eu estava apaixonado. ••••••••••••••

o que será que me dá que me queima por dentro, será que me dá que me perturba o sono, será que me dá que todos os tremores me vêm agitar que todos os ardores me vêm atiçar que todos os suores me vêm encharcar que todos os meus nervos estão a rogar que todos os meus órgãos estão a clamar e uma aflição medonha me faz implorar o que não tem vergonha, nem nunca terá o que não tem governo, nem nunca terá o que não tem juízo

link

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[vídeo - com milton mascimento]

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falando em poema lembrei de um do ano passado •••••••••••••• faz 40 que fiz 20 quando eu tinha 20 40 era um acinte agora que fiz 60 o poema ainda se sustenta minha alma é de 20 40 foi um acinte ••••••••••••••

el tiempo pasa nos vamos poniendo viejos el amor no lo reflejo como ayer

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[en vivo - con «la reina» mercedes sosa]

•••••••••••••• normal, é assim com todo mundo, o tempo passa. a diferença — se é que há — é que eu olho pra trás e acho graça. verdade. começaria tudo outra vez. não me arrependo de nada. vivi cada dia como se fosse o último. que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure. depois, somei noite mais noite olhando a lua, decorei cada estrela que brilhava, morri mais de uma vez em cada rua. e hoje, parece mentira, estou aqui mais vivo do que nunca. pobre do tempo que não me alcança: nunca se alcança aquilo que flutua. o personagem de robin williams, em sociedade dos poetas mortos, pergunta: — qual será o seu verso? eu respondo: — meu verso é minha loucura! e levanto-a, como um facho, a arder na noite escura. se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! se eu fosse contar como queria passar a minha vida alguns anos atrás, provavelmente surpreenderia os leitores. o mais que faço, porém, não vale nada: dar conselhos a um homem culto é supérfluo; aconselhar a quem ignora tudo é inútil. não se pode confiar às cegas em nenhuma maneira de pensar, por mais antiga que seja. grande parte das coisas que a maioria dos mais velhos dizem ser boas, acredito do fundo da alma que são ruins. não vou por aí. só vou por onde me levam meus próprios passos. caminante, no hay camino, se hace camino al andar. as capacidades do homem jamais foram medidas, e tampouco podemos julgar do que ele é capaz tomando como base qualquer precedente. eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. que as pessoas sonhem! a mente humana está cheia de imaginação: tente outra vez.

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tente
e não diga que a vitória está perdida
se é de batalhas que se vive a vida
tente outra vez

link

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[vídeo oficial - com letra e animação]

•••••••••••••• agora é tarde

a minha poesia consistiu numa tentativa de inventar para mim uma identidade. depois de inventada e assumida, já não me ocorre aquele apostar-me inteiro em tornar-me poema para chegar a ítaca. ítaca já não há e eu não sou mais o que era.

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se quiser empreender viagem à ítaca ligue antes
porque parece que tudo em ítaca está lotado
os hotéis baratos, os hotéis caros
já não se pode viajar sem reservas ao mar jônico

link

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[voz: angélica freitas]
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«no volveré a ser joven. que la vida iba en serio uno lo empieza a comprender más tarde... pero ha pasado el tiempo y la verdad desagradable asoma: envejecer, morir, es el único argumento de la obra.»

... «juventud, divino tesoro, ¡ya te vas para no volver! cuando quiero llorar no lloro, y a veces, lloro sin querer.»

•••••••••••••• mas lembre-se: a mente humana é imaginação. tente outra vez.

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está sempre
essa pessoinha feliz
transformando o que está sujo em ouro.
sempre chega até o salão principal, onde fica o motor que aciona a luz.
sempre lá
faz sua melhor tarefa
o reparador de sonhos

link

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[en vivo - con silvito]

•••••••••••••• «havia um artista na cidade de kouroo que estava disposto a alcançar a perfeição. um dia ocorreu-lhe a ideia de fazer um bastão. considerando que o tempo é um ingrediente num trabalho imperfeito, mas que num trabalho perfeito o tempo não entra, disse a si mesmo: será perfeito em todos os aspectos, mesmo que eu não faça mais nada em minha vida. foi buscar madeira na floresta. enquanto procurava e rejeitava vara após vara, seus amigos o abandonaram e morreram, mas ele não envelheceu um só instante. sua perseguição de um único fim o dotou da eterna juventude. como ele não fazia nenhuma concessão ao tempo, o tempo se mantinha fora de seu caminho, suspirando à distância por não conseguir vencê-lo.»

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abra os braços, respire fundo
e corte os laços todos deste mundo com a sua imagem e semelhança nos mesmos traços de uma criança

link

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respire fundo | walter franco | 1978
[clipe]

•••••••••••••• «do outro lado das colinas, as acácias cheiram a mel. e na cidade, não muito longe daqui, o vento ergue papéis velhos em redemoinhos pelas ruas. nos mercados, anunciam morangos de salto. os cachorros cochilam ao sol junto dos mendigos. sentado na beira da calçada, um garotinho desenha o mundo com um palito.»

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numa folha qualquer,
eu desenho um sol amarelo

[con letra e imag[i]nação]

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falando em sol amarelo
lembrei de facundo cabral
lembrando de facundo
lembrei do mundo

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«giro um simples compasso
e num círculo eu faço o mundo
ponho o sol no ombro
e o mundo é amarelo.
[que descolorirá]»

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de volta ao começo

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los hermanos 

roberto kolla chavero | theatro sete de abril
16 de novembro de 2003
pelotas - rs - brasil

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uns dias antes do recital, fui colar os cartazes na porta do theatro e dei de cara com o diretor:
– e aí, cara, tudo bem?
– tudo bem...
– quem tu tá trazendo dessa vez?
quando mostrei o cartaz, o coitado quase teve um troço.
– cara, tu tá trazendo o «los hermanos»?!
levei um bom tempo até explicar que «los hermanos» não era nome de banda de rock, e sim uma milonga belíssima, composta por atahualpa yupanqui e cantada por mercedes sosa.
– bem que eu achei que tava muito barato pra ser o «los hermanos».

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«y así seguimos andando
curtidos de soledad
nos perdemos por el mundo
nos volvemos a encontrar»

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link

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un documental dirigido por federico randazzo abad
producido por bellasombra, bosque cine 
apoyo de la fundación atahualpa yupanqui.

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

segunda-feira, 17 de agosto de 2026


 fantasia leiga para um rio seco 
[sobre amores e outras utopias]

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«devemos fazer de nosso medo 
um ídolo e chamá-lo de deus?»

ingmar bergman 

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falando em deus
lembrei de elomar 
como dizia vinicius
«a mim me parece um disparate
que em seu nome exista mar»
pois elomar é feito de terra
quem quiser compreendê-lo
elomar é uma espécie rara
vinda de outras eras
uma sábia mistura de bode com rainha da inglaterra
cavaleiro andante
trovador errante
elomar é uma quimera
se victor hugo fosse vivo
diria que é como se elomar fosse assim uma espécie de dante
elomar é gigante
e a mim me parece um disparate
que alguém ainda se espante
com o que o poeta diz
elomar é um profeta
um vate
sua poesia
tem a cor vermelha viva e rutilante
pendendo para a cor laranja
que é a cor do céu escarlate

grill

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«e, por cima de sua cabeça estava o arco celeste, e o seu rosto era como o sol, e os seus pés como colunas de fogo.»

a bíblia sagrada. apocalipse, 10, 1.

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são sete mil léguas
imendada de camin
prêsse mundão largo
sem portêra vem o fim
só vejo na terra a morte a rondá
peste mil infermidades
fome e guerra ai de mim
mil ventos da morte
estroncios letais
sete vacas magras
tragam as gordas nos currais
pelos sete cravos
das chagas do siô
lastimos meus êrros
de grande pecadô
geme a terra ao rebentá das covas
branca e lira
mia noiva é a lua nova
ao sol peço clemença
qui esse chão quêma meus pé
quatro cavaleiros
de olhares crueis
prontos pra peleja
já cavalgam seus corceis
de olhos para os ceus
só ispero cristo vim
eis qui chegam os maus
tempos do grande fim
treme a terra pela última veiz
ais lamentos
é vindo o rei dos reis
sol nunca seca meu pranto
qui é preu refrescá meus péis

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corban | cartas catingueiras |1983
[de «o mendigo e o cantador» – 7º canto]
.

notas:

1.c’a foice armada /do anjo da morte: a palavra foice (lat. falce) denomina instrumento curso para ceifar, segar. no sentido figurado, é símbolo do tempo. seguido da expressão anjo da morte, faz uma remissão ao apocalipse ( novo testamento ), livro das revelações divinas feitas a joão evangelista (séguier, 1964: s.v.). ali estaria traçado o destino dos homens e do mundo .

2. a fome a peste a morte e a dô: alusão aos quatro cavaleiros do apocalipse : a guerra, a fome, a peste e a morte.

3. o rei da guerra / o rei da glora: expressões que designam o senhor deus todo-poderoso.

4. muitos mili anjo in grande preparação / nos alto céus / vêm vino sobre essa terra / pra julgá os homes maus / qui ofendêro a deus: trecho que alude ao capítulo d’os anjos e os sete trovões.

5. oço o toco dos rubin trombetêro / atraiz dos véus: rubin é uma forma aferesada de querubim que, na hierarquia celeste (pseo, 206-207), pertence à ordem superior dos anjos e sentam-se imediatamente abaixo dos serafins.

seguindo a temática bíblica, o poeta alude então ao episódio da abertura do sétimo selo. os sete anjos e as sete trombetas. «vi outro anjo forte, que descia do céu, vestido de uma nuvem; e, por cima de sua cabeça estava o arco celeste, e o seu rosto era como o sol, e os seus pés como colunas de fogo.» (a bíblia sagrada. apocalipse, 10, 1)

a expressão «atraiz dos véus» evoca «vestido em uma nuvem» que aparece no versículo transcrito em diálogo com o item anterior.

*é interessante observar que o contato com a religião e suas práticas é a única forma de aquisição do padrão formal da língua, uma vez que o homem caipira dificilmente tem acesso à escola. por isso, as formas mais distanciadas da fala regional são aquelas que representam a fala da igreja, adquirida nas missas e cultos.

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corban

trata-se literalmente do apocalipse, em que sob o texto bíblico a morte penetra na vida do sertão estendendo-se a todo o resto do planeta (cartas catingueiras, 1983). em hebraico korban, o culto sacrificial o período bíblico, que envolvia oferendas. aqui esta oferenda se faz diferente: como em outros textos de elomar, a obsessão da travessia, da vida como caminho, o percurso perigoso. aqui se oferece o apocalipse, sob o texto bíblico, a morte faz o seu caminho no sertão.

(ferreira, 2001: 170)

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o sétimo selo
 
a partida de xadrez com a morte
o vício de viver no limite 
e sobreviver a si mesmo
o silêncio de deus
o ceticismo devoto
a falta de respostas 
o refúgio na paixão 
e na arte
a dança da morte
a atmosfera boêmia 
a noite escura 
o baile de máscaras 

grill

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o xadrez de bergman

a foice e a ampulheta...(da morte
que espreita atrás de cada esquina)
são punhais ceifando a vida. um corte
e o caminho – breve ato! – se termina

se um cavaleiro, rei, peão?... o porte
pouco importa! pois de todos é a sina
bergman frente a deus, a finda sorte
será humana ou, afinal, será divina?

dois contendores e, entre ambos, o xadrez
a morte joga: tem o tempo em sua mão
depois o homem. chegou, enfim, a sua vez!

movendo a peça, dissimula a emoção...
o que virá agora que a sua chama se desfez? 
existe um deus? ou tudo... tudo... foi em vão? 

martim césar 

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palavras ao léu
[de quando o bardo cruzou com o menestrel]

ó céu
ó céu
onde há fumaça
há fogaréu

ó céu
ó céu
a estrada é infinita
o horizonte é um véu

ó céu
ó céu
cego de tudo e de todos
eu vi remundo batendo nas porta do céu

grill

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naquela hora na porta do rancho
ela tamém viu a lua pur trais dos garrancho e no céu
pertô o caçulo contra o peito seu
o coração deu um pulo os peito istremeceu
soltô um gemido fundo as vista iscureceu
valei-me sinhô deus meu apois eu vi remundo
nas porta do céu, ai sôdade

[do álbum: na quadrada das águas perdidas]

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mãe, guarde minhas armas
minha camisa e meu chapéu
aquela enorme nuvem negra está descendo
acho que estou batendo na porta do céu

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knochin' on heaven's door | bob dylan | 1973
[from the hard to handle concert film.
bob dylan, backed by tom petty and the heartbreakers during their australian tour in 1986.]

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coplas do fim do mundo

ó mundo
ó mundo
quem teme o raso
jamais chegará ao fundo.

ó mundo
ó mundo
quanto mais eu cavo
mais o buraco fica fundo.

ó mundo
ó mundo
se as pessoas não compreendem o que é óbvio
o que dirá o que é profundo.

grill

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«só os míopes desprezam a utopia»

boaventura de sousa santos

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gracias, mestre
pensei que estava ficando cego.

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«sinta mais, pense menos»

bukowski

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amou daquela vez como se fosse a última
beijou sua mulher como se fosse a última
e cada filho seu como se fosse o único
e atravessou a rua com seu passo tímido
subiu a construção como se fosse máquina
ergueu no patamar quatro paredes sólidas
tijolo com tijolo num desenho mágico
seus olhos embotados de cimento e lágrima
sentou pra descansar como se fosse sábado
comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
dançou e gargalhou como se ouvisse música
e tropeçou no céu como se fosse um bêbado
e flutuou no ar como se fosse um pássaro
e se acabou no chão feito um pacote flácido
agonizou no meio do passeio público
morreu na contramão atrapalhando o tráfego

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[vídeo oficial]

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xadrez 

o vento 
no ar
o fio
esticado 
o lance
no vazio
a queda
do céu
o chão 
de giz
o beijo 
no asfalto 

grill

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eu desço dessa solidão
espalho coisas
sobre um chão de giz

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[clipe oficial]

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cinema 

a cortina 
que abre
a carta
que não veio
o chão
que abriu
o beijo
que não dei 

grill

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fue en ese cine, ¿te acuerdas?
en una mañana al este del edén
james dean tiraba piedras
a una casablanca, entonces, te besé

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[do álbum: auterretratos] 

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the end

o beijo 
no chão
a alma 
no ar 
o giz 
que não veio 
o amor 
que não dei 
e não vai ter 
happy  
no fim 

grill

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você fala que sim
que me compreende
você fala que não

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#salacheguevara 
#casadosaedos
#américas 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 

casa de poeta não tem porta 

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«deem-me um poema! um só!
e eu já moverei o mundo!»

martim césar

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o contador de histórias

a história que comecei a contar outro dia e não terminei, tem a ver com a história que conto hoje aqui. 

senão vejamos: o que espinosa e os hippies tinham em comum? ambos sabiam — cada um a seu modo e no seu tempo — que a vida acontece na mesma substância: a natureza, o afeto, a alegria de estar junto. ambos recusaram o dogma para abraçar o livre existir.

foi esse mesmo espírito que levou bob dylan, em 1975, a passar uma temporada na frança, encontrar um festival itinerante que cruzava por les saintes-maries-de-la-mer e comemorar seu aniversário de 34 anos em uma tenda cigana. hoje não sei por onde ele anda, tanto pode estar numa choupana quanto numa mesquita muçulmana, em meio a uma caravana ou participando de uma cerimônia palaciana. o lugar não importa. casa de poeta não tem porta. é isso que uma tarde com amigos oferta — para homens com estrela a porta está sempre aberta.

grill

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«lendo os textos extremamente poéticos do amigo grill, profundos, provocadores, sensíveis, sem represas, sem amarras, vi a frase que inspirou este poema (habitantes de passárgada). não consegui me libertar dela, creio que ela não quis que eu me libertasse até que se fizesse poesia... é como se a casa se materializasse só pelo tempo necessário para engendrar o poema. gracias, hermano»

martim césar

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habitantes de passárgada

casa de poeta não tem portas
pois palavras não são paredes!...
são rios que sempre têm sede
e extravasam as comportas

não detêm sua correnteza
nem as muralhas mais fortes
nem mesmo quando as represas
dividem a vida e a morte

casa de poeta não tem portas
senão para que serviria?
só para abrigar em linhas tortas
a passagem reta dos dias?

nessa construção sem janelas
sem trancas, sem fechaduras
mora o sol das noites belas
o luar das noites escuras

mas só o amor cruza os limites
dessas estranhas moradas
sem licença e sem convite
sem deixar hora marcada

e não importa qual amor
se a um alguém ou à natureza
se é de esperança ou de dor
se é de alegria ou tristeza

então as frases certeiras
com asas de sentimento
bordam o colar das estrelas
colhem a rosa dos ventos
é quando o coração verte vinho
preso de uma estranha magia...
e as palavras encontram seu ninho
para transformar-se em poesia...

martim césar

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«minha vida é uma vida feita de todas as vidas: as vidas do poeta.»

pablo neruda

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minha vida, minha vida, o mundo e a cor.
minha vida, minha vida, silêncios e canção.

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o rei chorou

um rei — disfarçado, é claro — costumava dar uma volta em sua cidade todas as noites. ele estava muito intrigado com um homem, com aparência de mendigo, que estava sempre sentado, todas as noites, sob uma mesma árvore à margem de uma rua. finalmente, a curiosidade venceu, e o rei parou seu cavalo diante do homem:
— por que você não vai dormir?
— as pessoas vão dormir porque não têm nada para guardar, e eu tenho tantos tesouros que não posso dormir. tenho de guardá-los.
— estranho, não vejo nenhum tesouro aqui.
— os tesouros estão dentro de mim. o senhor não pode vê-los.
o rei partiu, mas voltava todas as noites, porque o homem o intrigava e aquilo que havia dito fizera o rei pensar durante horas. o rei tornou-se tão ligado e interessado no homem que começou a achar que ele era realmente um santo, porque a consciência, o amor, a paz, o silêncio e a iluminação eram os tesouros que ele estava guardando. ele não conseguia dormir, não podia se dar esse luxo. apenas os mendigos podem.
pouco a pouco, o rei começou a respeitar e honrar o homem quase como um guia espiritual. um dia, disse-lhe:
— sei que você não irá comigo ao palácio, mas penso em você todos os dias. você me vem à mente muitas vezes. gostaria que pudesse ir ao meu palácio.
o rei achava que o homem não iria concordar, conforme a velha ideia de que os santos renunciam ao mundo, mas o homem disse:
— se o senhor sente tanto a minha falta, por que não me chamou antes? traga outro cavalo e eu irei com o senhor.
o rei ficou desconfiado: «que tipo de santo é esse, que se mostraria tão acessível?». mas agora era tarde demais, ele já tinha convidado. deu-lhe seu melhor quarto no palácio, reservado apenas para convidados especiais e outros reis, pensando que o homem iria recusar, dizendo: «sou um santo e não posso viver nesse luxo». mas o homem não disse nada desse tipo. ele disse: «muito bom.»
o rei não conseguiu dormir, achando que fora enganado e que o homem não era um santo. duas ou três vezes, ele foi olhá-lo pela janela, e o santo estava dormindo. mas, antes, ele nunca dormia! ficava sempre sentado debaixo da árvore guardando seu tesouro. o rei pensou: «fui enganado. este homem é um charlatão.»
no segundo dia, comeu com o rei todos os alimentos deliciosos, sem comedimento, e adorou a comida. o rei ofereceu-lhe novas roupas, dignas de um imperador, e ele amou as roupas. o rei já pensava em como se livrar do charlatão que o enganara. no sétimo dia, o rei disse àquele estranho homem:
— quero lhe fazer uma pergunta.
— sei qual será a sua pergunta. o senhor quis formulá-la há sete dias, mas, por cortesia e boas maneiras, manteve-a reprimida. eu o estava observando. mas não vou respondê-la aqui. o senhor pode me fazer a pergunta e então sairemos para uma longa caminhada. escolherei o lugar certo para respondê-la.
— muito bem. minha pergunta é: qual é a diferença entre você e eu? você está vivendo como um rei, mas costumava ser um santo. agora não é mais um santo.
— mande preparar os cavalos!
eles saíram. e o rei lembrou-o muitas vezes da pergunta que fizera. finalmente, chegaram ao rio que marcava o limite do seu reino.
— chegamos ao fim dos meus domínios. o outro lado do rio pertence a outro reino. este é um bom lugar para me responder.
— sim, eu já vou embora. o senhor pode levar os dois cavalos de volta ou, se quiser, pode vir comigo.
— aonde você vai?
— meu tesouro está comigo. aonde eu for, meu tesouro ainda estará comigo. o senhor virá comigo ou não?
— como posso ir com você? meu reino, meu palácio, o trabalho da minha vida toda estão atrás de mim.
o estranho riu e disse:
— agora o senhor vê a diferença? eu posso ficar nu debaixo de uma árvore ou posso viver em um palácio como um rei porque meu tesouro está dentro de mim. se estou sob uma árvore ou no interior de um palácio não faz diferença. então, o senhor pode voltar, mas eu vou para o outro reino. não vale mais a pena permanecer em seu reino.
o rei se sentiu arrependido.
— perdoe-me. pensei coisas erradas sobre você. você é realmente um grande santo. não vá, não me deixe assim; do contrário, esta ferida vai doer durante toda a vida.
— isso não é difícil para mim. posso voltar com o senhor. mas no momento em que chegarmos ao palácio essa pergunta vai surgir de novo em sua mente. então é melhor me deixar ir. eu posso lhe dar um tempo para pensar. eu posso voltar. para mim, isso não faz diferença. mas para o senhor é melhor que eu saia do reino. pelo menos o senhor vai pensar em mim como um santo. se eu voltar ao palácio, o senhor vai voltar a suspeitar que sou um charlatão. mas, se insiste, estou pronto. posso partir daqui a sete dias, quando a pergunta novamente se tornar pesada demais para o senhor.

osho (bhagwan shree rajneesh)

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lembro-me de uma vez,
em um país antigo,
um rei falou com um camponês.
ele disse: «ofereço-te luxos e prazeres
se você me ensinar a viver feliz».
o humilde homem
respondeu: «não posso,
não posso te ensinar a viver feliz.
você, com seu dinheiro, luxos e prazeres,
jamais poderá viver feliz».
o rei chorou
e contou-lhe sua dor.

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canta: león gieco

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falando em dor
lembrei de frida

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«pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade.»

«agora, vivo num planeta dolorido, transparente como o gelo. é como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.»

«no fim das contas, podemos aguentar muito mais do que imaginamos.»

frida kahlo

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balada de abraçar

abraço você, meu irmão
meu irmão de vida
meu irmão de frida

grill

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falando em frida
lembrei de quixote

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«nisto, descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento e disse dom quixote: — não vês ali, amigo sancho, desaforados gigantes? — não são gigantes, mas moinhos de vento — respondeu sancho. — são gigantes, e se tens medo fica de lado — disse quixote, que investiu contra o primeiro, partiu a lança e foi rolando pelo chão. — não lhe disse eu que eram moinhos? — disse sancho. — cala-te, que as coisas da guerra mudam, e o mágico tornou os gigantes em moinhos, para me roubar a glória de vencê-los — respondeu quixote.»

cervantes

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balada de abraçar

abraço você, meu irmão
meu irmão de morte
meu irmão quixote

grill

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enfim, termina o sonho, voltaste a ser quijano
e a morte que te ronda é a de todo ser humano
e a sorte que te espera é a de todos os mortais

enfim, tudo se acaba e assim também a aventura
daquele heroico cavaleiro nem recordas a figura
aqueles dias memoráveis não regressarão jamais

e, no entanto, o que importa tua tardia lucidez
se o mundo sempre vai lembrar a altiva insensatez
de um louco que sonhou ser um sonho a realidade

teu nome dom alonso será apagado pelo vento
mas dom quixote viverá muito além do esquecimento
além de ti, além de mim, enquanto houver humanidade

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DON QUIJOTE DE LA MANCHA | CAMINHOS DE SI
jaguarão, 27 de maio de 2011
adaptação da obra de cervantes para o teatro feita por jorge passos e martim césar com a montagem do grupo alas de cervantes em 2001.

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e assim andamos...

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gente de minha rua
como eu andei distante
quando eu desapareci
ela arranjou um amante
minha normalista linda
ainda sou estudante
da vida que eu quero dar


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se podes olhar, vê; se podes ver, repara:
«ela», [a utopia]

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«o verbo dar é o melhor verbo do mundo.»

atahualpa yupanqui

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em cali, colômbia (1964) um jornalista finaliza a entrevista com esta pergunta: - se estivesse ameaçado por um ataque de amnésia, afonia e paralisia; e além do mais um incêndio ameaçasse destruir toda sua obra escrita e gravada e só lhe fosse concedido salvar uma canção para a posteridade, qual de suas obras salvaria? — responde atahualpa:
— nesse terrível caso não salvaria nada meu. só um verso que sendo de todos, é meu também:

moeda que está na mão,
quiçá se deva guardar.
moeda que está na alma,
se perde se não se dá.


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e pelo(s)
e para o(s)
habitantes de passárgadas

uma só palavra gasta,
porém reluzente como uma velha moeda:
obrigado!

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#casadosaedos
#américas