Mostrando postagens com marcador Luis Fernando Verissimo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luis Fernando Verissimo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de julho de 2026


somos um bando e muitos outros 

 ••••••••••••••

«grandes pinturas não deveriam estar em museus. museus são cemitérios. pinturas deveriam estar nas paredes das ruas, em estações de trens, em mictórios...»
bob zimmerman

••••••••••••••

recordar é viver

algum tempo atrás, numa postagem minha no facebook, na qual eu falava sobre a foto de lula abrazado a sarney, uma companheira amiga minha, contemporânea do lad (livres atuadores pela democracia), fez o seguinte comentário:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo candidato pra derrotar o bolsonaro, glauber braga se lançou pelo psol. quem sabe combateremos o nazifascismo em rodas de ciranda, néh 😉»

resposta minha:

«bobagem perder tempo com isso, já temos um ótimo argumento para nos abrazarmos a sarney e cia: o nazifascismo. aliás, o nazifascismo, para petistas e lulistas, muda de cara a cada quatro anos. em 2002, a cara era uma; em 2006, outra; em 2010, outra; e, em 2014, outra. e o final deste filme, sabemos qual é. mas que importância isso tem? nenhuma. o que importa é que a gente vença e passe mais 10, 12, 14, 16 anos no governo. depois, se nos tirarem de novo, a gente vê o que faz. mas não te preocupa, companheira, minha opinião não tem valor algum. ainda tô no jardim de infância da política, de onde, por sinal, não tenho o menor interesse de sair. 😉»

••••••••••••••

como nossos pais

que me desculpem os «velhos de espírito»
mas não são as rodas de ciranda
nem os jardins de infância
que têm que acabar
o que tem que acabar são os «museus»

grill

••••••••••••••

velha roupa colorida 

diferente do que muitos de nós, da esquerda, pensamos
não somos santos
muitas vezes nos atrapalhamos
nos enredamos
seres humanos que somos
(nem sempre nos amamos
muitas vezes nos odiamos)

nós, da esquerda
somos mais justos
mais solidários
mais fraternos
somos mais livres
mais humanos
mais inteligentes

nós, da esquerda
não somos nada disso
quando em nome disso
traímos tudo isso

(idem)

••••••••••••••

«vou tratar [os 60 anos do golpe de 1964] da forma mais tranquila possível. estou mais preocupado com o golpe de janeiro de 2023 do que com o de 64. isso já fez parte da história, já causou sofrimento, o povo já reconquistou o direito democrático. os militares, hoje no poder, eram crianças naquele tempo. alguns nem eram nascidos»

luiz inácio lula da silva

••••••••••••••

«o que eu não posso é não saber tocar a história para frente, ficar remoendo sempre, remoendo sempre, ou seja, é uma parte da história do brasil que a gente ainda não tem todas as informações, porque tem gente desaparecida ainda»

(idem)

••••••••••••••

que fim levaram todas as flores?
que o preto velho me contava
que fim levaram todas as flores?
que a rainha louca não gostava
que a lapela morta carregava
que o olhar de todos me lembrava
que fim levaram todas as flores?
que qualquer coisa não estragava
em qualquer dia que podia
com grande amor e alegria
que fim levaram todas as flores?
que a criança às vezes me pedia

(homenagem aos que tomaram posição contra a ditadura militar)

••••••••••••••

31 de março de 1964

nunca entendi esse dia
(agora entendo)

quando os tanques tomaram as ruas do rio e de brasília, jango ainda estava no país. mesmo assim, ninguém foi capaz de atirar uma pedra, nem uma pedra, uma pedra, simbólica que fosse, contra os tanques. brizola queria armar a resistência a partir de porto alegre, como havia feito em 61. jango foi contra. apesar da insistência de brizola, jango seguiu para o exílio no uruguai. na real, antes mesmo de jango deixar o país, o presidente do senado, auro de moura andrade, já havia declarado vaga a presidência da república.

(trailer)

500 mil cidadãos investigados pelos órgãos de segurança
200 mil detidos por suspeita de subversão
50 mil presos só entre março e agosto de 1964
11 mil acusados em inquéritos das auditorias militares
dezenas de milhares de pessoas torturadas
10 mil brasileiros exilados
4.862 mandatos cassados
1.148 funcionários públicos demitidos
6.592 militares reformados ou punidos
(por defenderem a constituição e se oporem ao golpe de estado)
1.202 sindicatos sob intervenção
congresso nacional fechado por três vezes
sete assembleias estaduais postas em recesso
censura prévia à imprensa e às artes
434 mortos
243 desaparecidos

não esqueço, não perdoo

éramos muitos. mas não foram muitos os que se entrincheiraram.
foram poucos os que levantaram barricada.
viva lamarca! viva mariguela!
viva dandara! viva zumbi! viva sepé!
viva os que caíram e morreram de pé!
onde estávamos? que fazíamos? como dormíamos?
é isso que me dói. sempre me doeu.
custei muito a entender.
agora está tudo muito claro e fácil de compreender.
me dói tudo, não vejo nada.

grill

••••••••••••••

«a gente tem um país, mas ainda não tem uma nação»

paulinho da viola

••••••••••••••

desilusão, desilusão
danço eu, dança você
na dança da solidão


.


••••••••••••••

desilusões

por luis fernando verissimo

«desilusão, desilusão…» o samba dança da solidão, do grande paulinho da viola, cantado pela grande marisa monte, seria um fundo musical perfeito para estes estranhos tempos. poderíamos chamá-lo de «leitmotiv» da nossa desesperança, se quiséssemos ser bestas. a desilusão começou quando? dá para escolher. no fim da ditadura que o bolsonaro diz que nunca existiu, quando tancredo ia tomar posse como o primeiro presidente civil em 20 anos, mas os germes hospitalares de brasília tinham outros planos? depois viria o entusiasmo seguido de grande frustração com collor, o breve, tão bonito, tão moderno, tão raso, a desilusão com o pt e a desilusão com os políticos em geral, agravada com as revelações de que até grão senhores da república levavam bola.

por falar em escândalos… o samba do paulinho também tem um verso que, ligeiramente adaptado, nos diz respeito. «quando eu penso no futuro, não esqueço o passado.» se essa eleição presidencial por grande maioria provou alguma coisa é que nosso passado não tem mais nenhuma relevância política. a ditadura foi esquecida, até os generais estão voltando. bolsonaro pode ter razão, a ditadura pode nunca ter acontecido, o golpe de 64 pode ter sido apenas um movimento de tropas, como disse o toffoli.

foi tudo um delírio, vamos esquecê-lo. rubens paiva, stuart angel, vladimir herzog, manoel fiel filho e as centenas de supostos desaparecidos podem voltar. acabou a farsa. e façam suas apostas: o que vai ser esclarecido primeiro, o caso da bomba no riocentro, do qual nunca se ouviu mais nada, ou o caso da marielle, que também não?

publicado originalmente n’o estado de s. paulo.
8 de novembro de 2018.

••••••••••••••

aos patrulheiros de plantão

ser esquerdista e criticar a esquerda é algo que a esquerda, em geral, simplesmente não tolera. eu que o diga. por causa de tamanho atrevimento, já fui chamado de fariseu, infantil e golpista. militante de sofá. militante de facebook. fanfarrão, delirante, pessimista, ingênuo, inocente... até de bolsonarista já me chamaram.

em suma, vivo num mundo de fantasia alheio a tudo e não proponho nada.

diferente do que muitos pensam, não fico chateado nem perco o sono com a imagem que alguns fazem de mim. aliás, muito pelo contrário. às vezes, me dá até vontade de rir de alguns «livres-pensadores» e de suas análises rasas.

judas, fariseu, golpista, bolsonarista, quinta-coluna, militante de sofá, rebelde de apartamento, rebelde sem causa, revolucionário de facebook, utópico, distópico, homem das montanhas, ermitão, bufão, fanfarrão, falastrão, saudosista, ultrapassado, sonhador, idealista, futurólogo, delirante, inadequado, desagradável, inoportuno, inconsequente, niilista, pessimista, ingênuo, inocente, raso, inútil, azedo...

vale tudo, só não vale me chamar de insensível. insensível é a pessoa que tem dificuldade em demonstrar seus sentimentos.

sinto muito, mas não é o meu caso.

••••••••••••••

telegrama

«eu tava triste, tristinho»... a tristeza tava me inundando. saí da frente do pc e fui lavar a louça. mesmo assim, ela continuava — a tristeza, não a louça suja. saí da frente da pia e fui limpar o fogão. botei o arroz e o feijão para cozinhar. sem ter mais o que fazer, comecei a escrever. enquanto eu escrevia, a comida ficou pronta. talvez saciar a fome aplaque a tristeza. talvez...


— mas e quem não tem o que comer, como mata a tristeza?

— cantando, compondo, escutando música.

— mas e quem não tem música? faz o quê?

— vai ler... vai escrever...

— mas e quem não sabe ler nem escrever?

— que tente enganar a morte...

— como?

— como uma pedra que rola...


grill

••••••••••••••

a princesa na torre do castelo e toda a gente elegante,
bebendo, achando que estão no topo do mundo,
trocando presentes caros e futilidades afins.
é melhor tirar o anel de diamante, é melhor penhorá-lo, querida.
você costumava se divertir tanto
com napoleão em farrapos e a poesia que ele usava.
vá até ele agora, ele te chama, não dá para recusar.
quando você não tem nada, não tem nada a perder.
você agora é invisível, não tem mais segredo a esconder.
[legendado em português]

••••••••••••••

rolling stone - antes de terminarmos a conversa, quero perguntar sobre a controvérsia a respeito das citações nas suas músicas das obras de outros escritores... alguns críticos dizem que você não citou as suas fontes com clareza. no entanto, no folk e no jazz, a citação é uma tradição rica e enriquecedora. qual é a sua resposta a esse tipo de acusação?

bob dylan - ah, sim, no folk e no jazz, a citação é uma tradição rica e enriquecedora. isso certamente é verdade. é verdade para todo mundo, menos para mim. quer dizer, todas as outras pessoas podem fazer isso, menos eu. as regras são diferentes para mim. se você acha que é tão fácil fazer citações e que isso vai ajudar no seu trabalho, faça isso e veja até onde consegue chegar. reclamões e covardes falam dessas coisas. é algo bem antigo – faz parte da tradição. remonta a um passado bem distante. essas são as mesmas pessoas que tentaram me classificar de judas. judas, o nome mais odiado da história humana! se você acha que já foi xingado de um nome feio, tente imaginar o que é isso.

••••••••••••••

[clique no link acima]

••••••••••••••

rolling stone - você considera esse tipo de crítica irrelevante, ou boba?

bob dylan - tento superar tudo isso. de todo modo, não é para essas pessoas que eu toco.

.

rolling stone - mas você certamente já ouviu falar dessa controvérsia específica?

bob dylan - pessoas tentaram me deter a cada centímetro do caminho. sempre tem coisa ruim a ser dita a meu respeito. isso acontece há tanto tempo que talvez agora eu não seja mais capaz de viver sem isso. tudo que as pessoas dizem a respeito de você ou de mim, estão dizendo a respeito de si mesmas. estão se entregando. já reparou nisso?

.

rolling stone - o lado oposto é que também há o público, que ama você de verdade.

bob dylan - claro que sim. eles acham que sim. eles amam a música e as canções que eu toco, não eu.

.

rolling stone - por que diz isso?

bob dylan - porque as pessoas são assim. elas dizem que amam um monte de coisa, mas, na verdade, não amam.

••••••••••••••

«o amor é apenas uma palavra de quatro letras»

bob dylan

••••••••••••••

agora ofélia, ela está perto da janela
por ela eu temo tanto
em seu vigésimo-segundo aniversário
ela já é uma solteirona velha
para ela, a morte é bem romântica
ela veste um colete de ferro
sua profissão é sua religião
seu pecado é sua falta de vida
 
👉 desolation row | bob dylan (1965)
[com letra em português e imagens reais]

••••••••••••••

«sentir tudo de todas as maneiras,
viver tudo de todos os lados,
ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.»


álvaro de campos 


••••••••••••••

quanto tempo você tem para incorrer na vida
que pulsa louca no peito, rebentando de vontades, de desejos,
atentando à experiência?

quanto tempo você tem para encontrar nas deformações
a posição exata, e de saber quanto de tempo você tem
pra acreditar em tanta coisa, se levar nos ventos, se livrar dos tentos
e amar como importaria?

quanto tempo você tem para esperar sem garantia
e se curvar a deuses tontos e enlouquecidos pela época?
quanto tempo você tem já bastaria para inverter,
se somar a qualquer grito, a qualquer palavra que explodisse forte no horizonte.

quanto tempo é o que se diz cansados, todos os dias que acabamos na escuridão.

e quanto mais tudo seria, sonhar com uma cantoria
de milhões de bocas por tantas milhas de terra.
e, enquanto se fizesse luta, se saberia:
somos um bando e muitos outros.

somos um bando e muitos outros.
somos um bando e muitos outros.
somos um bando e muitos outros.

[bebeto alves e os blackbagual]

••••••••••••••

antes do fim,
voltemos ao jardim de infância.
voltemos a falar de filosofia.
— filosofia?
— sim, filosofia.
— mas em 2018, o bolsonaro fechou a faculdade de filosofia. e se o lula não ganhar, ganha o flávio.
— que flávio?
— flávio bolsonaro.
— pois é, que coisa... mas já que estamos falando de filosofia — e filosofia é a arte de colocar ponto de interrogação onde o senso comum põe ponto final —, eu pergunto:

por que o que não era pra ter nascido continua vivo?

••••••••••••••

era inverno sim, eu perdido em mim
rabiscava uns versos pra enganar a dor
o tédio, o pranto, o tombo
e encantava mágoas milongueando sonhos


••••••••••••••

foto: eu
onde: praça, pelotas, rs
quando: 1990
autor: antonio soler

••••••••••••••

américas

domingo, 6 de abril de 2014


'ESCOLHI O TIME VENCEDOR!'


POR LUIS FERNANDO VERISSIMO


TEXTO ESCRITO
PARA O CENTENÁRIO DO INTER



Quando vi o Internacional jogar pela primeira vez, ele tinha 37 anos de idade e eu, dez. Portanto 63 desses cem anos eu acompanhei, às vezes de perto – naquele primeiro jogo, um Gre-Nal, sentei numa cadeira com assento de palha atrás de uma cerca de madeira branca que rodeava o campo –, às vezes de longe, quando morei fora de Porto Alegre ou, mais recentemente, quando troquei a arquibancada pela poltrona e o pay-per-view.

Por que escolhi o Inter para torcer em 1946? Eu tinha morado dos 7 aos 9 anos nos Estados Unidos e, na volta, o futebol foi uma maneira de me reintegrar no Brasil. O Inter era o time mais em evidência no momento. Era chamado de “Rolo Compressor”. Escolhi o time vencedor. Mas não foi só isto.

Os anos que passamos nos Estados Unidos tinham sido os anos da Segunda Guerra Mundial, que eu ajudei a vencer matando milhares de inimigos da democracia em batalhas imaginárias. O Grêmio, na época, era o time “dos alemão”.

Não aceitava jogadores negros. E o Internacional era o time do povo.

Eu ia chegar no Brasil e torcer pelo inimigo? Felizmente esta distinção acabou, o Grêmio democratizou-se e hoje tem uma torcida tão heterogênea quanto à do Inter. Mas em 1946 entre o vermelho e o azul só havia uma escolha possível para um excombatente.

Nos 63 anos seguintes vi jogar o legendário “Rolo”, que não perdia campeonato, e tinha Nena, Tesourinha, Adãozinho (os três convocados para a Seleção Brasileira de 50, mas que não jogaram na Copa, o que explica nossa derrota) e Ávila, o centromédio que foi jogar no Botafogo do Rio, onde já jogara outro colorado, o Pirilo, e que foi o responsável por eu também ser botafoguense.

Vi jogar o Oreco (reserva do Nilton Santos em 58), o Paulinho (Capitão Piranha, jogou no Vasco), e o Larri e o Bodinho, mestres da perdida arte da tabelinha.

Vi nascer, crescer e ser bicampeão brasileiro em 75 e 76 aquele time que tinha Manga, Figueroa, Falcão, Valdomiro, e o resto daquele time que em 79 foi o único campeão brasileiro invicto até hoje.

Vi o Inter ganhar a Libertadores em 2006 e, de bem longe, ganhar do Barcelona e ser campeão mundial interclubes (nenhuma surpresa, claro. Que o Inter era o maior do mundo eu já sabia desde 1946. Só faltava provar) .

MEUS DOIS PEDIDOS


POR LUIS FERNANDO VERISSIMO



Agora posso contar. Fui eu que consegui a vitória do Internacional no Campeonato Mundial Interclubes, no Japão, em 2006.

Foi assim. Recebi uma oferta do Diabo pela minha alma. Veio por e-mail, de sorte que nem vi a sua cara. Ele procurava na internet pessoas dispostas a trocar sua alma pelo que quisessem. Respostas para 666belzebu.com. A pessoa empenhava sua alma ao Diabo, para entregar na saída, e em troca poderia pedir duas coisas. Mas só duas coisas.

Perguntei como eu poderia ter certeza que ele cumpriria a sua parte no trato. Depois da minha alma empenhada, contrato assinado com sangue etc., ele poderia simplesmente não atender aos meus pedidos. Ele propôs que fizéssemos um teste. Que eu pedisse alguma coisa impossível. Que o meu pedido fosse um delírio, algo totalmente fora da realidade. Se ele cumprisse o prometido, eu saberia que sua oferta era para valer. E só então lhe entregaria a minha alma. Concordei.

Qual seria o meu primeiro pedido? Pensei imediatamente no Internacional. Está certo, antes pensei na Luana Piovani, mas aí achei que poderia dar confusão. Em seguida pensei no Internacional. Um Campeonato do Mundo para o Internacional! Decisão contra o Barcelona. Sua resposta veio num e-mail conciso:

"Feito."

E foi o que se viu. Vitória sobre o Barcelona contra todas as probabilidades. Inter campeão do mundo. O trato com o Diabo era, por assim dizer, quente. E eu podia fazer meu segundo pedido. Um bicampeonato do mundo para o Inter? Concluí que estava sendo egoísta demais. Estava pensando só na alegria dos colorados e passageira, pois não poderia pedir vitórias do Internacional em todos os campeonatos, para sempre e esquecendo o meu país. Deveria pedir, pela minha alma, algo que desse alegria a todos, inclusive gremistas. O quê? Quero que o Brasil se transforme num país escandinavo. Agora! Um país organizado, sem crime, sem fome, sem injustiça, sem conflitos, magnificamente chato. Era isso: minha alma por um país aborrecido!

Foi o que botei no meu e-mail para o Diabo. Ele respondeu perguntando se eu tinha pensado bem no que estava pedindo. Eu deveria saber que a adaptação seria difícil. A conversão da moeda, a língua, o frio, os hábitos diferentes... E que seria impossível preservar tudo o que nos faz simpáticos, e criativos, e divertidos, enfim, brasileiros no bom sentido, sem a bagunça e o mau caráter. Ou ser escandinavo só durante o expediente e brasileiro depois das seis. Era mesmo o que eu queria?

"É", respondi. "Chega desta irresponsabilidade tropical, desta indecência social disfarçada de bonomia, desta irresolução criminosa que passa por afabilidade, deste eterno adiamento de tudo. Faça-nos escandinavos, já!" O Diabo: "Tem certeza? Já?"

Eu: "Bom... Depois do carnaval."


NÃO ME ACORDEM!


POR LUIS FERNANDO VERISSIMO



O passado é prólogo. Certos acontecimentos dão força a esta frase, transformam tudo que veio antes em preliminar, em mero antecedente. Ou, para usar outro termo literário, em prefácio. Você se dá conta de que tudo que houve até ali - toda uma vida, toda uma história - foi simplesmente preparação para aquele certo momento, depois do qual nada será como era. E o passado ganha uma lógica que não tinha. Você passa a entender tudo em retrospecto. Tudo tinha um sentido que você apenas não percebera, na falta do momento máximo. A vitória do Grêmio em Tóquio em 83, os anos medíocres, o quase rebaixamento, as finais desperdiçadas, os vexames, as desilusões - tudo era prólogo para ontem.

Agora ficou claro, agora ficou lógico. O próprio destaque como melhores do mundo conquistado pelo Barcelona e pelo Ronaldinho fazia parte da preparação para o nosso 17 de dezembro, que não teria o mesmo gosto épico se o adversário fosse outro. Tudo era armação para aumentar o brilho e o drama do nosso momento máximo. Tudo se encaixava. Ou você pensa que a saída do Pato e do Fernandão, ontem, foi obra do acaso, esse autor sem imaginação? O resultado de ontem veio sendo construído aos poucos, desde antes da fundação do Internacional, antes de Pedro Álvares Cabral, antes de Homero e das Pirâmides.

E eu sabia que havia uma justificativa histórica para o topete do Gabiru.

Há dias a leitora Poliana Lopes me lembrou de um texto que eu tinha escrito, e esquecido. Ela teve a gentileza de me mandar o texto, e eu peço licença para repeti-lo agora. Era assim:

"Meu caro colorado. Desculpe esta carta a céu aberto, é que não sei nem seu nome nem seu endereço. Na verdade, só vi você na rua, de mãos dadas com seu pai e cercado pelos seus irmãos, que vestiam a camiseta do Grêmio (suponho que fossem seu pai e seus irmãos). Você estava com a camiseta do Internacional. Quase parei o carro para olhar melhor, mas não era miragem. Você tinha uns quatro ou cinco anos e estava de camiseta vermelha! Seu pai vestia uma camisa branca exemplarmente neutra, mas posso imaginar como tem sido a sua vida em casa. As provocações, os petelecos, a flauta, o martírio. E lá estava você de camiseta vermelha, o antigo escudo orgulhosamente no peito, desafiando todas as provações. Não sei se você sabe que vários colorados da sua geração não agüentaram e trocaram de time. Levaram pais e avós ao desespero, mas não suportaram a pressão do sucesso gremista. Você agüentou. Você não sabe, mas é um herói. E fiquei pensando que, quando for a nossa vez de novo, teremos certamente a torcida mais dedicada, fiel, convicta e feliz do Brasil. Porque será a torcida dos que resistiram. Agüente só mais um pouco. Meus respeitos."

Mas isto tudo também pode ser um sonho.

Se for, por favor: não me acordem.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012



EXEMPLOS INÚTEIS


 POR LUIS FERNANDO VERISSIMO


O sucesso do Wellington Nem no Fluminense traz de volta um velho debate: que tamanho deve ter um jogador de futebol? Não haveria mais lugar para jogadores pequenos num esporte que cada vez mais se decide pela imposição física. Errado, dizem outros. É justamente para se impor aos grandalhões que servem os baixinhos.

A discussão já deveria ter acabado há muito tempo, com as carreiras de Maradona, Romario e Messi, para citar só três exemplos de mirrados que brilharam nos últimos anos, quando o futebol supostamente se transformou em coisa para gente grande. Mas as exceções não convencem, e a discussão continua.

Um pouco como o debate sobre de que tamanho deve ser a participação do estado na economia. A atual crise na Europa e as próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos não são sobre outro assunto. Estado regulador ou mercado livre? Como no debate sobre as dimensões ideais de um jogador de futebol, os argumentos de um lado e do outro não parecem fazer muita diferença.

Os exemplos são inúteis. Você esperaria que os descalabros do capital financeiro, responsável direto pela crise, diminuiriam o entusiasmo dos defensores do mercado, já que o que faltou para enfrentar a voracidade destruidora do capital foram intervenções do Estado quando ainda dava para evitar o pior. Mas não, prega-se menos e não mais controle.

O argumento é que, historicamente, em todas as suas crises o capitalismo se autorregenerou sozinho. Errado. Não é preciso ter lido Eric Hobsbawm para saber que em todas as suas crises o capitalismo foi salvo dele mesmo por alguma forma de intervencionismo corretivo — o que não significou que abandonasse seus maus hábitos.

As multidões que se manifestam na Europa em crise não são de mal acostumados inconformados com o fim de estados irrealistas de bem-estar social, como dizem os mercadófilos, são de inconformados com a injustiça de a maioria estar pagando pelos desmandos de uns poucos, que continuam desmandando.

O capital financeiro tantas fez que, além de perverter a atividade econômica e a função bancária, perverteu a semântica: transformou “austeridade” em palavrão. Hoje tem gente morrendo de austeridade na Europa. Não que este argumento vá fazer qualquer diferença.