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domingo, 27 de setembro de 2026


mora na filosofia 
(para matheus valente)

♦

«a felicidade mora ao lado
e quem não é tolo pode ver»

o sal da terra

♦

ao vento

meses atrás, no café, vivi me contou sobre uma colega que lê todos os dias passagens da bíblia, numa versão moderna, com linguagem atual, na qual a autora sempre termina o trecho com a frase: «quero ser luz e sal da terra».

— não sei por que ela escreve «sal da terra» se é «sol da terra» — diz a colega para a vivi.

— tu nunca ouviste esse termo «sal da terra»? — pergunta vivi.

vivi, então, explica para ela o significado de «sal da terra».

— que lindo! — diz ela.

vivi saiu para a cidade, foi trabalhar, e eu fiquei aqui com mais uma história para contar.

♦

anda, quero te dizer nenhum segredo
falo nesse chão da nossa casa
vem que tá na hora de arrumar
tempo, quero viver mais duzentos anos
quero não ferir meu semelhante
nem por isso quero me ferir
vamos precisar de todo mundo
pra banir do mundo a opressão
para construir a vida nova
vamos precisar de muito amor
a felicidade mora ao lado
e quem não é tolo pode ver

👇

(contos da lua vaga, 1981)

♦

«caminhante, não há caminho
faz-se caminho andando»

cantares

♦

um rio que não para de cantar 

♦

lindo cerro colorado,
cerro de piedras pintadas.
alguna vez volveré
por tus senderos de cabras.

la guitarra bajo el poncho
y una tonada sencilla.
siempre juntos, como viven
la piedra y la doradilla.

👇

 alemania occidental por swf badén- badén + macondo film 
gmbh + alfredo troncoso west deutscher fresen kóln 
dirección: josé montes baquer 
música: atahualpa yupanqui 
año: 1985
(parte 1 de 4 )

♦

corre o vento, o rio, velho músico, segue andando, andando...

♦

ismaco
no fio dos cumes, caiu a tarde. as sombras vão devorando os detalhes, mas sobre a linha dos cerros distantes desenham-se ainda as claridades.
os jovens as olham e tecem desejos e quimeras; os velhos averiguam nelas o tempo que fará amanhã.
pouco a pouco o campo vai se povoando de estremecimentos. insinua-se a sinfonia do ocaso, com um adágio a cargo dos violinos invisíveis do pajonal; em seguida, a melodia se firma na flauta dos grilos que dialogam com o rumor dos matos.
os algarrobos querem fazer seu canto na viração, e as nuvens se detêm por um momento a escutar.
o rio, velho músico, segue andando, andando...

cerro bayo, novela de atahualpa yupanqui, p. 9

♦

a estrada
hoje estou no oregon, deixando portland para trás e viajando rumo ao sudoeste, atravessando verdes escuros e cinzas suaves e nevoentos no meu agradável casulo de ruídos de ônibus, na direção dos morros e vales amplos e suaves do norte da califórnia. sei exatamente onde estou, claro. neste país, são as árvores que te contam.

minha mente divaga, se detém num problema que estou tendo com a banda na performance de «rusty cage», a canção do soundgarden que gravei para o álbum «unchained»; depois volto a refletir sobre a história da minha vida. penso em pete barnhill, um amigo que fiz quando tinha uns treze anos. ele tinha um violão. também tinha o que chamávamos de paralisia infantil, conhecida depois como poliomielite, que aleijou sua perna direita e encolheu o braço direito, o qual tinha quase a metade do tamanho do esquerdo. ele se adaptou bem. escrevi sobre ele no encarte do «american recordings»:

«com sua mão esquerda, ele fazia os acordes, enquanto tocava um ritmo perfeito com sua minúscula mão direita. pensei que, se pudesse tocar violão daquele jeito, algum dia cantaria no rádio.»

pete era uma inspiração em vários aspectos. eu nunca havia sido próximo de alguém que tocasse violão, com exceção da minha mãe, quando era muito pequeno. eu achava que ele era o melhor violonista do mundo. para mim ele era maravilhoso, e o som que fazia era puramente celestial.

um dia eu lhe disse: «sabe, pete, você tem paralisia infantil mas sabe tocar violão de verdade».

sua resposta me impressionou muito: «às vezes, quando você perde um dom, ganha outro».

daquele momento em diante, não pensei mais nele como um deficiente; pensava nele como alguém que tinha um dom. eu me entristecia quando os outros garotos riam de pete. eles o viam ir mancando pelos três ou quatro quilômetros que separavam sua casa da cidade e o imitavam. eu também o imitava, mas não daquele jeito: meu jeito de tocar violão vem dele, tocando a base e solando ao mesmo tempo.

pete, como eu, era louco por música — foi a primeira pessoa que eu soube que também era assim —, e nós dois éramos loucos pelo rádio. o rádio significava o mundo para nós, literalmente.

lembro-me claramente do dia em que compramos o nosso, um «sears roebuck» com uma grande bateria, encomendado pelo correio e adquirido com o dinheiro do empréstimo que papai tomou do governo no ano em que ele e roy começaram a limpar nossa terra. lembro da primeira canção que escutei, «hobo bill's last ride», de jimmie rodgers, e como a imagem de um homem morrendo sozinho num vagão congelante me pareceu tão real, tão familiar. lembro de meu pai indo para a cama todas as noites às 20h05, depois do noticiário, e gritar para mi e para jack: «ok, garotos, hora de ir para a cama! apaguem a luz! desliguem o rádio!» jack diminuía a intensidade de sua lâmpada a óleo e se debruçava sobre a bíblia. eu baixava o volume e encostava minha orelha direita no rádio. a música que ouvia se tornou a melhor coisa da minha vida.

mas meu pai não gostava nada disso. dizia: «você está perdendo seu tempo ouvindo esses discos no rádio. isso não é de verdade, sabe? essas pessoas não estão lá. é só um cara sentado tocando uns discos. por que você ouve essas coisas de mentirinha?».

eu respondia: «mas é tão real quanto foi no momento em que eles cantaram e gravaram o disco. é a mesma coisa».
«mas não é de verdade, é só um disco.»
«não importa. o som é bom. eu gosto.»
«bem, você está sendo enganado por essas pessoas», ele concluía. «isso não vai te dar um sustento. você não vai fazer nada de bom enquanto tiver essa música na cabeça.»

eu odiava ouvir isso, mas talvez tenha servido a um propósito. queria muito provar que ele estava errado. e que minha mãe estava certa. ela percebia que a música estava em mim, assim como estava nela e tinha estado em seu pai, john l. rivers, que lhe ensinou a harmonia a quatro vozes e era o cantor principal do coral da igreja. dizem que era um ótimo cantor.

lembro dele como um homem amável. ele e minha avó rivers eram almas boas, o sal da terra, muito estimados e respeitados pela comunidade.
cash - a autobiografia de johnny cash, p. 53, 54 e 55

♦

exceções à parte
grande parte das coisas que a maioria dos mais velhos dizem ser boas
acredito do fundo da alma que são ruins
sendo assim
não vou por aí
só vou por aqui
por onde me levam meus próprios passos
caminante, no hay camino
se hace camino al andar
mas porém, contudo, todavia
alguns acreditam que todo o terreno da vida humana já foi trilhado
há quem diga
por exemplo
que o sábio salomão prescreveu regras até para a distância entre as árvores
que hipócrates deixou instruções sobre a maneira de cortar as unhas
mas as capacidades do homem jamais foram medidas
o que se tentou até hoje foi muito pouco
só 10% de nossa cabeça animal, cantou um louco
sendo assim
eu é que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada, cheia de dentes
esperando a morte chegar
que as pessoas sonhem, fantasiem, imaginem
a mente humana está cheia de imaginação
tente outra vez

👇

(releitura: solo fértil)

mas
como eu ia dizendo
se eu fosse contar como queria passar a minha vida alguns anos atrás eu diria apenas que
a qualquer tempo, a qualquer hora do dia e da noite, eu ansiava em penetrar na cunha do tempo; colocar-me no cruzamento de duas eternidades, o passado e o futuro, que é exatamente o momento presente
o homem não é nada mais do que faz a si próprio
és livre
escolhe
inventa
que estás aqui
que existe vida e identidade
que a potente peça prossegue
e tu podes contribuir com um verso
não digo que todos venham a entender tudo isso
mas este é o caráter daquele amanhã que o o mero decorrer do tempo jamais fará alvorecer
a luz que extingue nossos olhos é escuridão para nós
só amanhece o dia para o qual estamos despertos
o dia não cessa de amanhecer
nasce a cada amanhecer uma semente e seus frutos
o sol é apenas uma estrela da manhã

♦

abra os olhos aos poucos
não deve se preocupar
veja a grandiosa energia
sinta o momento para acordar
ouvindo a voz da natureza
ter a certeza que o sol vem
e ele vai brilhar

👇

(viver de verdade, 2021)
solo fértil [participação: enilton grill]

♦ 

e a vila do sossego?

♦
«vila do sossego» surgiu na casa de mesmo nome, que ficava no bairro de manaíra, em joão pessoa, próximo à praia. ela ficava em uma rua de terra batida - que hoje já está asfaltada, e mudou tanto que eu nem sequer consigo lembrar da casa, quando passo por lá. isso foi em 1974. a casa pertencia a uma tia minha, a tetê, que a liberou para que eu passasse uma temporada por lá. foi na época em que eu vim pela primeira vez ao rio, quando realizei, junto com o geraldinho azevedo, um show no teatro opinião, chamado "sopa de morcego na boca do rock". o show começava à meia-noite, e obviamente foi um fracasso total - quem viria à meia-noite ver dois caras completamente desconhecidos? de qualquer maneira, foi meu pontapé inicial aqui no rio... quando retornei a joão pessoa, já tinha um repertório montado. na época eu só tocava rock e blues. aí resolvemos montar o show por lá também. tínhamos o argumento de já tê-lo apresentado no rio... meu primeiro filho, o cristian, era recém-nascido. bem, com a casa na mão, nós nos instalamos. eu era totalmente crazy, hippie, desembestado. a vila do sossego foi muito importante para mim. logo que mudamos eu coloquei uma plaquinha de isopor na entrada, escrito «vila do sossego», que se tornou um point entre os malucos que faziam parte de minha turma. eram rapazes e moças que «puxavam» um fumo, universitários, artistas, pessoas que procuravam um papo mais inteligente, distante das conversas sobre novela e futebol. obviamente, o clima era meio «riponga»; a casa não tinha móveis, eram almofadas espalhadas pelo chão, ouvia-se música o dia inteiro, etc. ali foram realizadas muitas cantorias de violeiros. foi durante esse período que eu mergulhei na literatura. lia muito, sem parar, e dessas leituras é que surgiu a inspiração para compor a música. a letra de «vila do sossego» é quase toda ela baseada nos títulos e trechos de livros que eu estava lendo. por exemplo, havia acabado de ler papillon, e me referi a isso.
zé ramalho, o poeta dos abismos, p. 177

♦

ó, eu não sei se eram os antigos que diziam
em seus papiros, papillon já me dizia
que nas torturas toda carne se trai
e normalmente, comumente, fatalmente, felizmente
displicentemente, o nervo se contrai
com precisão

👇

(zé ramalho, 1978)

♦

falando em papillon, o livro:
«je ne regrette rien. j'ai vécu des mois de liberté absolue... j'ai connu l'amour pur et l'amizade sincère.» (tradução livre: «não me arrependo de nada. vivi meses de liberdade absoluta... conheci o amor puro e a amizade sincera.»)
♦

falando em amizade sincera...
o que é um amigo?
um amigo...
«muitas vezes "um” não sabe quem é…»
de acordo com atahualpa yupanqui, é «um mesmo com outra pele»

👇


♦

falando em amigo
escreveu sobre mim
nos meus 50
um que hoje faz 32

♦

«já tive cabelo raspado
deixei crescer depois de conhecer um cabeludo que havia chegado
já fui colorado
acoampanhei os jogos com meu pai, minha irmã e meu cunhado
.
escutava de tudo sem entender quase nada
se hoje escuto chico, caetano, gil, león, dylan e atahualpa
escuto e compreendo por causa desse cara:
enilton grill, todos os américas juntos aqu no sul do brasil
.
50 anos de um jovem latino-americano
50 anos de sonhos sonhados, realizados
e continuemos sonhando
50 anos de meu cunhado hermano
.
"todos hablan de su pago
como si fuera el mejor.
mi querencia es el caamino
bajo la luna y el sol"

atahualpa
.
caminhando por esse brasil
pra lá e prá cá, histórias mil
até que chegou por aqui, se aquerenciou
e para minha irmã deu o sobrenome grill
.
"pa versiar, yo necesito
cancha libre y atención.
corro de un solo tirón
montao en mis sentimientos
lo que mme falta de aliento
me suebra de corazón"

atahualpa
.
coração caminante
coração gigante
corazón hecho de poesia
coração de pura essência e alegria
.
"la tierra es toda cantares
como pasto van brotando
tu te pones a escucharla
y ella te los va dictando"

atahualpa
.
escutando a terra, escutando a vida
aprendeu lições que não passaram despercebias
escutou com atenção, guardou tudo no coração
dos cantares de la tierra, ouvi uma cançãao
uma música que me trouxe um irmão
à terra e à vida eus sou grato
por ter me dado um irmão, um amigo, juntos
no meu cunhado

dale cunhado!»

matheus valente

♦

somos todos irmãos da lua
moramos na mesma rua
bebemos no mesmo copo
a mesma bebida crua
o caminho já não é novo
por ele é que passa o povo
farinha do mesmo saco
galinha do mesmo ovo
mas nada é melhor que a água
a terra é a mãe de todos
o ar é que toca o homem
e o homem maneja o fogo
e o homem possui a fala
e a fala edifica o canto
no canto repousa a alma
da alma depende a calma
e a calma é irmã do simples
e o simples resolve tudo
mas tudo na vida às vezes
consiste em não se ter nada

👇

(cantigas de abraçar, 1982)

♦

fotos: vivi valente

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

domingo, 6 de setembro de 2026


paisagem da janela
[clique nos títulos para ver/ouvir]

♦

tudo é circular
(e isso o sol sabe melhor do que ninguém)

facundo cabral

♦

todo dia o sol levanta 
 e a gente canta 
 ao sol de todo dia

caetano veloso

♦

sinto hoje em satolep
o que há muito não sentia
o limiar da verdade
roçando na face nua

vitor ramil

♦

a invenção de morel

passei toda a manhã expondo-me a ser descoberto por qualquer pessoa que tivesse a coragem de se levantar antes das dez. ao que parece, tão modesto requisito para a calamidade não se cumpriu. durante o trabalho de juntar as flores, vigiei o museu e não vi nenhum de seus ocupantes; isso me permite supor que tampouco me viram. 
as flores são muito pequenas. terei que plantar milhares e milhares, se não quiser um jardinzinho ínfimo (seria mais bonito e mais fácil de fazer; mas há o perigo de que ninguém o veja).

apliquei-me a preparar os canteiros, a quebrar a terra (está dura, as superficies que planejei são muito vastas), a regar com água de chuva. quando tiver acabado de preparar a terra, terei que buscar mais flores. farei o possível para que não me surpreendam, sobretudo para que não interrompam o trabalho ou o vejam antes que esteja pronto. esqueci que, para os traslados de plantas, há exigência cósmicas. não posso crer que, depois de tanto perigo, de tanto cansaço, as flores não cheguem vivas até o pôr-do-sol.
careço de estética para jardins; de qualquer maneira entre a relva e os capinzais, o trabalho parecerá comovente. será uma fraude, naturalmente; de acordo com meu plano, hoje à tarde será um jardim cuidado, amanhã talvez esteja morto ou sem flores (se houver vento).

adolfo bioy casares

♦

que fim levaram todas as flores?
que o preto velho me contava
que fim levaram todas as flores?
que a rainha louca não gostava
que a lapela morta carregava
que o olhar de todos me lembrava
que fim levaram todas as flores?
que qualquer coisa não estragava
em qualquer dia que podia
com grande amor e alegria
que fim levaram todas as flores?
que a criança às vezes me pedia

(secos & molhados, 1974)

♦

grande sertão: veredas

sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso. o que queria e o que não queria, estória sem final. o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. o que ela quer da gente é coragem. o que deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito. por coragem. será? era o que eu às vezes achava. ao clarear do dia.
joão guimarães rosa 

♦

«não posso continuar. vou continuar.»

samuel beckett

♦

amanhã há de ser outro dia?
tomara que sim
mas acho que não
(a palavra diz não
mas a obra diz sim)
esperança
pra mim
só pra depois de amanhã
lá por 2050
2060
2070
quando muitos de nós já não estaremos mais aqui
aliás
melhor assim
espero que os que venham depois de nós
temam menos a morte
e mais a vida insuficiente
na nossa passagem por aqui
tivemos alguns assim
mais corajosos e determinados que nós
mas foram muito poucos
infelizmente

♦

«criar é viver duas vezes.»

 albert camus

♦
.
a noite de 12 anos
(e nós queríamos mudar o mundo)

o filme se concentra na história de três de nove guerrilheiros tupamaros presos e postos como «reféns» pelo regime ditatorial uruguaio: pepe mujica, mauricio rosencof e eleuterio fernández huidobro.

em uma palavra, o tema central de uma noite de 12 anos pode ser definido como resiliência – a capacidade emocional do indivíduo de resistir a eventos traumáticos.

é muito difícil imaginar que uma pessoa possa resistir por 12 longos anos sem poder se comunicar, preso em uma cela em condições cruéis, isolado em um cubículo apartado dos companheiros (cada um na sua solitária), com pouquíssima comida, água e nenhuma luz do sol. 
enfim, o filme, que não é um filme de ficção, é uma história real, é mais um exemplo de como certas pessoas, quando imbuídas de ideal e determinação, mesmo massacradas sob a extrema violência de estado e ou sufocadas sob a hipocrisia da sociedade e ou extremamente sensíveis às injusitças e crueldades do mundo, como ele é, acham alternativas para manter acesa a chama da esperança e da vida, sendo o que são. 

♦

 (trailer oficial 1)

.

(trailer oficial 2)


♦

ave pepe
ave ruso
ave ñato

♦

o último poema para pepe mujica

«tu te lembras daqueles dias, pepe? vivemos onze anos isolados sob a terra, sem nos ver,
sem livros. reinventamos o código morse batendo com os dedos abrindo uma janelinha para
a vida nas paredes. se este fosse meu último poema, rebelde e triste, desgastado mas
inteiro, eu escreveria apenas uma palavra: companheiro»

maurício rosencof

♦

«mais cadê meus cumpanhero cadê
qui cantava aqui mais eu, cadê
na calçada no terrero, cadê
cadê os cumpanhero meu cadê»

elomar

♦

«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges

♦

tudo é circular
e a roda é viva

♦

outro dia eu tava assistindo um roda viva das antigas com o brizola. o seu antipetismo era tanto e tão pequeno que eu me senti reconfortado por jamais ter votado nele. meus votos para presidente foram sempre em lula. mas lula e o pt envelheceram...

♦

«nossos ídolos ainda são os mesmos
e as aparências
não enganam não
você diz que depois deles
não apareceu mais ninguém
você pode até dizer
que eu 'tô por fora
ou então que eu 'tô inventando
mas é você que ama o passado
e que não vê
é você que ama o passado
e que não vê
que o novo sempre vem»

♦

- quantos anos você tem, clint?
- 96.
- de que signo você é?
- gêmeos.
- que dia você nasceu?
- 31 de maio de 1930.
- o que você vai fazer?
- vou começar um novo filme.
- o que te faz continuar?
- eu me levanto todos os dias e não deixo o velho entrar.
- que horas você se levanta?
- antes do sol nascer.

♦

pode ser até amanhã, sendo claro feito o dia
mas nada do que me dizem
me faz sentir alegria
só queria ter do mato um gosto de framboesa
pra correr entre os canteiros
e esconder minha tristeza

e eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
e deixemos de coisa, cuidemos da vida
pois senão chega a morte ou coisa parecida
e nos arrasta, moço, sem ter visto a vida

(manera fru fru, manera, 1973)

♦

e a paisagem da janela?

♦

com a palavra, robertinho brant: 

«fernando brant escreveu a letra dessa icônica música olhando através da paisagem da janela do escritório do seu pai e meu avô, dr. moacir pimenta brant. de lá ele viu o mundo. o escritório ficava no segundo andar da casa dos brant, na rua grão pará, 1092. lugar aonde inúmeras vezes eu visitei sorrateiramente quando criança. e onde eu passava inúmeras tardes mágicas e silenciosas, observando cada objeto, sentindo de perto a doce magia daquele ambiente misterioso. da janela daquele escritório eu também sonhei.»

♦

da janela lateral do quarto de dormir
vejo uma igreja, um sinal de glória
vejo um muro branco e um voo pássaro
vejo uma grade, um velho sinal

(clube da esquina, 1972)

♦

ao vento

o lugar não importa
casa de poeta não tem porta
se uma chave tranca
outra destranca

a chave é o amor
o amor é a chave
qual amor? 
o amor fati

♦

#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

sábado, 29 de agosto de 2026


viagem interior urbana 

••••••••••••••

mande notícias do mundo de lá, diz quem fica
me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando
coisa que gosto é poder partir sem ter planos
melhor ainda é poder voltar quando quero

fernando brant 

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o trem 

o trem não é apenas o veículo que desloca corpos entre a cidade e o interior; é o vetor da própria travessia íntima, onde «chegar e partir são dois lados da mesma viagem» — a mesma dupla dimensão geográfica e subjetiva de subtesur e subtemí.

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subte 

em «subte», vitor ramil utiliza o metrô de buenos aires como cenário para explorar temas de introspecção e isolamento. o «subte», mais do que um meio de transporte, simboliza um mergulho interior, onde a escuridão dos túneis representa momentos de reflexão e afastamento do cotidiano. o verso «yo dejo el sol detrás de mí / y bajo hondo en la ciudad» («deixo o sol para trás / e mergulho fundo na cidade») mostra esse afastamento da superfície iluminada para um espaço subterrâneo, silencioso e anônimo...

a lua, que «me viene a buscar», surge como uma metáfora para a esperança ou luz que persiste mesmo nos períodos mais escuros. o sentimento de deslocamento aparece no trecho «hay tanta gente en el vagón / todos me miran sin parar» («há tanta gente no vagão / todos ficam me olhando sem parar»), indicando solidão e estranhamento mesmo em meio à multidão. 

as expressões «subtemoon» e «subtedream», que misturam inglês e espanhol, ampliam o caráter universal e onírico da experiência. já «yo viajo en el subtesur / yo viajo en el subtemí» («eu viajo no subtesur / eu viajo no subtemí») sugere que a viagem é tanto física (ao sul, em buenos aires) quanto subjetiva (um mergulho em si mesmo). 

o tempo que «pasa y siempre queda allá» («passa e sempre fica lá») e a vida «inmóvil» («imóvel») no trem reforçam a ideia de suspensão e reflexão, transformando o «subte» em um espaço simbólico de autoconhecimento em meio à rotina urbana.

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yo dejo el sol detrás de mí
y bajo hondo en la ciudad
la lengua que hablan por aqui
es toda hierro y oscuridad
del tunel llega una luz
la luna me viene a buscar

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[do álbum: tambong]

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«vento
que vem das esquinas
e ruas vazias
de um céu interior»

vitor ramil

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ao vento

hoje em dia, milhões de brasileiros passam horas sob a terra, habitando a penumbra dos metrôs nas capitais e metrópoles. não é o meu caso. minha geografia é outra. o mais próximo que estive desse trânsito subterrâneo foi ao cruzar a superfície nos trilhos do trensurb, em porto alegre. contudo, a ideia desse subterrâneo fascinante veio ao meu encontro quando, conversando por whatsapp com um amigo radicado há anos em são paulo, ele me contava sobre sua rotina no metrô, a caminho do trabalho — e sobre o manancial vivo de histórias que brota desse contato diário com a infinidade de tipos humanos gerados pela megalópole. 

••••••••••••••

a franja da encosta cor de laranja, capim rosa chá
o mel desses olhos luz, mel de cor ímpar
o ouro ainda não bem verde da serra, a prata do trem
a lua e a estrela, anel de turquesa

os átomos todos dançam, madruga, reluz neblina
crianças cor de romã entram no vagão
o oliva da nuvem chumbo ficando pra trás da manhã
e a seda azul do papel que envolve a maçã

👇

  [caetano ao vivo 2012]

••••••••••••••

falando em maçã

••••••••••••••

«sorridente, rapaz
pela continuidade do sonho de adão»

gil

••••••••••••••

considere, rapaz
a possibilidade de ir pro japão
num cargueiro do lloyd lavando o porão
pela curiosidade de ver
onde o sol se esconde

👇

[ao vivo na usp 1973]

••••••••••••••

a propósito da foto, diz o próprio gil: «sempre que penso em londres, me vem o «london underground». nunca quis viver fora do brasil, mas londres é uma das cidades mais interessantes do mundo, e tenho sorte de ter vivido lá.»

••••••••••••••

downtown train

«trem do centro» é uma das sínteses mais bonitas da música sobre a melancolia noturna dos trens urbanos. a canção transforma o vagão do metrô/trem da cidade em um ambiente onírico e solitário, no qual o narrador observa o desfile anônimo dos passageiros enquanto busca um sentido para o seu próprio desejo na escuridão da metrópole.

••••••••••••••

lá fora tem outra lua amarela
rasgando a noite, sim
eu saio pela janela e desço pra rua
brilhando como uma moeda nova

os trens do centro estão lotados de garotas do brooklyn
elas estão sempre tentando fugir de seus mundinhos

você acena com a mão e elas voam como corvos
elas não têm nada que possa capturar seu coração
elas são apenas espinhos sem rosa
tenha cuidado com elas na escuridão

ah, se eu fosse aquele
que você escolheu pra ser seu único
ah, meu bem, você consegue me ouvir?
você consegue me ouvir?

será que vou te ver hoje à noite
num trem do centro?
toda noite é a mesma coisa
você me deixa só, e agora

sei qual é a sua janela e sei que está tarde
conheço suas escadas e sua porta
ando pela sua rua e passo pelo seu portão
paro sob a luz da rua na esquina

você os observa enquanto eles caem
todos eles com o peito em colapso
eles ficam nos parques de diversões
mas nunca te ganharão de volta

será que vou te ver hoje à noite
num trem do centro?
toda noite, toda noite é a mesma coisa
ah, meu bem
oh, baby

👇

[clipe legendado em português]

••••••••••••••

noutras palavras: o «trem» de tom waits e o «subte» de vitor ramil são o mesmo reservatório de almas anônimas e luzes vacilantes — convulsões de trilho e metal que cortam a cidade na penumbra.

••••••••••••••

hay tanta gente en el vagón
todos me miran sin parar
sus ojos sueñan mi visión
¿que hago yo en este lugar?
el tunel me hace comprender
la luna me puede llevar

👇

[mudras: canciones de a dos]

••••••••••••••

«"subte" é um poema de amor que vitor ramil dedica ao subterrâneo de buenos aires. ele é, como eu, um apaixonado por trens — especialmente os subterrâneos — e por toda a mística que eles carregam: essa atmosfera de lugar semioculto, meio labiríntico, profundamente borgiano. vitor vive um verdadeiro idílio com buenos aires e com a cultura rioplatense em geral. filho de pai uruguaio, cultor da milonga e do candombe, é um homem profundamente pampeano que teorizou com muita precisão sobre a irmandade cultural dos povos do rio da prata, incluindo o sul do brasil.»

pedro aznar 

••••••••••••••

         ao vento

           aquele
        labirinto
        sem portas 
        nem fim de 
      borges guarda
     na penumbra do 
     degrau um ponto 
        minúsculo
    onde o cosmos inteiro
        se condensa 
 a marca exata da travessia 
           para 
         um mundo 
       mais sólido, 
    perene e profundo

              grill

••••••••••••••

e as pessoas se curvaram e rezaram
ao deus de néon que criaram...
e o letreiro dizia: «as palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrô
e nos corredores dos cortiços»

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[live at central park, new york, ny - 19 september 1981] 

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026


PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO REI
[eu que tanto tenho compartilhado canções suas]

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recado

anos atrás, envolvi-me — isto é, deixei-me envolver — em uma discussão no facebook por causa de caetano. o cidadão com quem travei um extenso e acalorado debate, cujo nome não vou revelar (mas adianto que é um nome americanizado), pensa ser o mais revolucionário dos revolucionários da esquerda brasileira. segundo ele, caetano é um alienado, um desbundado, um entreguista. mas o pior para esse cidadão — e para grande parte da inteligente e engajada esquerda nacional — é a admiração de caetano pelo rei. para os que pensam como ele, caetano já mandou seus recados há muito tempo. ou melhor, os avisos foram dados na mesma velocidade com que a sábia e hegemônica esquerda brasileira parou no tempo.

grill

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👉 recado1



👉 recado 2


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«entre o que penso, o que quero dizer, o que eu digo e o que você ouve, o que você quer ouvir e o que você acha que entendeu, há um enorme abismo.»

alejandro jodorowsky

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tente outra vez

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verdade tropical

no livro verdade tropical, caetano veloso conta que em 1969, recém-exilado em londres com gilberto gil, ele entrou em depressão. um dia, a mulher de gil disse a ele que roberto carlos estava na cidade e iria visitá-los! a presença do rei (expressão usada por ele) trouxe a lembrança de um brasil que eles queriam lembrar.

em 1966, em plena guerra entre a mpb dos violões e a jovem guarda das guitarras, bethânia recomendou a caetano ver o programa de roberto que, segundo ela, tinha a vitalidade perdida na mpb engajada, pós-bossa-nova.

caetano levou com gal as guitarras para a tropicália e abriu para o rei o respeito de um grupo de ouvintes — entre eles, eu —, que simplesmente o ignoravam por preconceito.

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de volta ao encontro

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com violão à mão, caetano mostrou ao rei, a música london london.

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estou vagando sem rumo, sem ter para onde ir me sinto sozinho em london, londres é tão linda assim atravesso as ruas sem medo todo mundo abre caminho eu sei, eu sei que não há ninguém aqui para me cumprimentar eu sei que todos abrem caminho me sinto sozinho em londres, sem medo estou vagando sem rumo por aqui, sem ter para onde ir enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu ah, domingo, segunda-feira, o outono passa por mim e as pessoas correm tão tranquilamente um grupo se aproxima de um policial ele parece tão feliz em atendê-los pelo menos é bom viver, e eu concordo ele parece tão satisfeito, pelo menos e é tão bom viver em paz e domingo, segunda-feira, anos, e eu concordo enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu não escolho nenhum rosto para olhar, não escolho nenhum caminho acontece que estou aqui, e tudo bem grama verde, olhos azuis, céu cinza deus abençoe a dor silenciosa e a felicidade vim até aqui para dizer sim, e eu digo grama verde, olhos azuis, céu cinza deus abençoe a dor silenciosa e a felicidade vim até aqui para dizer sim, e eu digo

mas meus olhos procuram discos voadores no céu sim, meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu ah, meus olhos procuram discos voadores no céu sim, meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu ah, meus olhos procuram discos voadores no céu enquanto meus olhos procuram discos voadores no céu sim, meus olhos procuram discos voadores no céu

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[áudio oficial]

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impressionado, o amigo pediu para caetano escrever algo pra ele. por sua vez, o rei tocou algumas músicas que sairiam em seu disco no final do ano. caetano achou linda a música, sua estupidez. disse que ficaria bem na voz de gal costa.

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meu bem, meu bem use a inteligência uma vez só quantos idiotas vivem só sem ter amor
e você vai ficar também sozinha e eu sei porque sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo

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[gal costa e som imaginário - programa ensaio 1970]
precedida por depoimento de tom zé, uma explosiva declaração de amor

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quando o rei cantou as curvas da estrada de santos, caetano entrou em pranto. amparado por gil e todos que estavam presentes, ficava claro o desconforto e sofrimento que ele estava passando em não poder voltar pra casa.

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se você pretende saber quem eu sou eu posso lhe dizer entre no meu carro na estrada de santos e você vai me conhecer

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[áudio oficial]

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o encontro acabou algum tempo depois. a música pedida por roberto apareceu no disco do cantor que saiu em dezembro de 1971. apesar de linda, como dois e dois era uma das músicas com a letra mais pesada que ele já havia gravado.

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quando você
me ouvir cantar
venha não creia
eu não corro perigo
digo, não digo, não ligo
deixo no ar
eu sigo apenas
porque eu gosto de cantar

tudo vai mal, tudo
tudo é igual
quando eu canto
e sou mudo
mas eu não minto, não minto
estou longe e perto
sinto alegrias
tristezas e brinco

meu amor!
tudo em volta está deserto, tudo certo
tudo certo como dois e dois são cinco

quando você
me ouvir chorar
tente não cante
não conte comigo
falo, não calo, não falo
deixo sangrar
algumas lágrimas bastam pra consolar

tudo vai mal
tudo, tudo, tudo, tudo
tudo mudou
não me iludo e contudo
a mesma porta sem trinco
mesmo teto, mesmo teto
e a mesma lua a furar nosso zinco

meu amor!
tudo em volta está deserto, tudo certo
tudo certo como dois e dois são cinco

meu amor! meu amor! meu amor!
tudo em volta está deserto tudo certo
tudo certo como dois e dois são cinco
são cinco, são cinco

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[caetano & roberto]

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e os caracóis do cabelos:
o que havia debaixo deles?

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não sei se o povo brasileiro — que a inteligente e engajada esquerda nacional adora tratar como um eterno e ignorante analfabeto — entendeu o recado. o fato é que debaixo dos caracóis dos seus cabelos foi a segunda música mais executada do disco ao longo de 1972, ficando atrás apenas de «detalhes». terna e doce, a canção dizia...

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um dia a areia branca
teus pés irão tocar
e vai molhar seus cabelos
a água azul do mar
janelas e portas vão se abrir
pra ver você chegar
e ao se sentir em casa
sorrindo vai chorar

debaixo dos caracóis dos seus cabelos
uma história pra contar
de um mundo tão distante
debaixo dos caracóis dos seus cabelos
um soluço e a vontade
de ficar mais um instante

as luzes e o colorido
que você vê agora
nas ruas por onde anda
na casa onde mora
você olha tudo e nada
lhe faz ficar contente
você só deseja agora
voltar pra sua gente

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[caetano veloso ao vivo]

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alegria alegria

caetano e gil seriam autorizados a retornar em 1972. chico anysio negociou veladamente o retorno com as autoridades da época.
o resultado musical daquele encontro em londres entre gil, caetano e o rei, apesar de doído, foi musicalmente sensacional. coisas daquela época mágica em que músicas maravilhosas brotavam de sentimentos tanto de tristezas como de alegrias.

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caminhando contra o vento
sem lenço e sem documento
no sol de quase dezembro
eu vou

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[do documentário: uma noite em 67]

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ao vento

quem me acompanha
pelos meus textos
desde o facebook
sabe perfeitamente o que penso da esquerda brasileira
mas não custa repetir
a esquerda brasileira
sobretudo a hegemônica
é velha, burra e acomodada
por quê?
porque segue com o mesmo discurso
e a mesma prática do século passado
acreditando que
via institucional
isto é
através de eleições
num sistema de democracia representativa
é possível mudar o cenário caótico em que vivemos

não é de hoje que digo
que essa forma de fazer política
é velha e ultrapassada
que é preciso criar algo novo
que nos encante
que nos entusiasme
que nos apaixone
todavia
na esquerda brasileira
não são muitos os que comungam com essa forma de pensar
pelo contrário
a maioria faz pouco caso
como se eu vivesse num mundo de fantasia
e estivesse flanando
devaneando
fazer o quê?!

grill

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— e agora, o que faremos?
— poesia, esses canalhas não suportam poesia

rafael corrêa

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maiakóvski, o poeta da revolução

poeta hiperbólico, político e lírico ao mesmo tempo, foi defensor fervoroso da revolução, mas também acusado de ser incompreensível para as massas e excessivamente pessoal. maiakóvski era um escritor em guerra contra a vida cotidiana, cuja imaginação era tão larga que poderia redefinir a família como composta por um pai, «no mínimo o mundo», e uma mãe que fosse «no mínimo a terra».

larissa drigo agostinho, mestre e doutora em literatura pela universidade de paris iv-sorbonne.

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«amor é tudo o que move»

gilberto gil

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o amor

um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
vosso trigésimo século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
ressuscita-me!
quero viver até o fim o que me cabe!
para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
e que, ao primeiro apelo:
— camaradas!
atenta se volte a terra inteira.
para viver
livre dos nichos das casas.
para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o universo;
a mãe,
pelo menos a terra.

vladimir maiakóvski (1893 - 1930)

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em agosto de 1971, um ano antes de retornar definitivamente de seu exílio para o brasil, caetano veloso visitou o país para um encontro histórico. ao lado de gal costa e joão gilberto — uma de suas maiores influências musicais —, o artista participou de um especial realizado pela extinta tv tupi.

dez anos mais tarde, em 1981, essa parceria com o mestre se repetiu no álbum brasil, de joão gilberto. o disco foi lançado pela gravadora wea e contou também com as participações de gilberto gil e maria bethânia.

paralelamente ao lançamento do álbum, estreava a peça o percevejo, do poeta russo vladimir maiakóvski. o espetáculo trazia dedé veloso no elenco como atriz e contava com poemas traduzidos e adaptados pelo próprio caetano. um deles, a canção «o amor», tornou-se um grande sucesso na voz de gal costa.

[áudio oficial]

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de volta a caetano

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se podes olhar, vê; se podes ver, repara: caetano voltou ao brasil, há 54 anos, em 10 de janeiro de 1972, e até hoje a inteligente e engajada esquerda brasileira ainda não o entendeu.

lembrei de tom zé...

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veja que beleza
em diversas cores
veja que beleza
em vários sabores
a burrice está na mesa

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[com defeito de fabricação]

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📷 eu | minifúndio café | pelotas, 2007

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#américas