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terça-feira, 25 de agosto de 2026


levantado do chão

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terras raras

[por cesar benjamim] 

há pouco tempo, lula e trump encontraram-se pessoalmente durante três horas, acompanhados apenas pelo intérprete. lula disse que trataram de tarifas.

era mentira.

agora, falaram por telefone durante uma hora e meia. lula voltou a dizer que trataram de tarifas.

é mentira.

dado o volume e a composição do comércio bilateral entre brasil e estados unidos, não há tanto a tratar desse assunto por dois presidentes. é algo menor. as equipes técnicas existem para isso.

outro assunto é decisivo: o destino das terras raras brasileiras.

os estados unidos dependem da china para obter esses minerais estratégicos, sem os quais não se fabricam equipamentos eletrônicos de uso civil e militar. o brasil detém as segundas reservas do mundo, praticamente inexploradas.

lula quer nos fazer crer que os dois presidentes se encontram e se falam e não tratam disso.

está nos chamando de trouxas, parece que com razão. no século xxi, as terras raras têm a mesma importância que o petróleo teve no século xx.

* * *

flávio bolsonaro oferece aos estados unidos uma vassalagem total e explícita. se puder, transformará o brasil na 52a estrela da bandeira americana.

lula oferece uma vassalagem ambígua. tudo em lula é ambíguo, pois sempre há um abismo entre o que diz e o que faz.

o império prefere a primeira opção, mas pode se ajustar perfeitamente à segunda.

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«diga ao seu patrão que estão aqui umas pessoas que vêm saber o que é que ele faz, já caíram as primeiras águas, é tempo de semear, e tendo a criada ido saber a resposta ficamos na porta, que a nós não nos mandam entrar e nisto volta a criada, e diz, o patrão manda dizer que não têm nada com isso, a terra é dele, e se voltarem aqui ele vai chamar a polícia»

josé saramago | levantado do chão, p. 234

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chame o ladrão
chame o ladrão

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[do álbum: sinal fechado]

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falando em brasil

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antonio – o senhor mandou me chamar, doutor rocha?

dr. rocha – mandei, antonio. infelizmente, devido à crise do mercado, muito a contragosto, terei de demiti-lo.

antonio – doutor rocha, eu estou no meio de um trabalho. será que não poderíamos conversar sobre isso na hora do almoço?

dr. rocha – é claro que podemos, mas infelizmente nada do que você disser poderá modificar a situação.

(na hora do almoço, antonio estava novamente na frente do dr. rocha.)

antonio – doutor rocha, como trabalho aqui há mais de oito anos, tenho mais de 50...

dr. rocha – você não é o único, antonio, a situação está ruim para todos.

antonio – o senhor não entendeu, doutor rocha. quis dizer que pelos anos de dedicação à firma, achava que tinha direito a lhe fazer algumas perguntas.

dr. rocha – pois faça-as.

antonio – o senhor gosta de coisas singelas como flores, pássaros, o orvalho nas plantas, riso de crianças pequenas? 

(antes que o patrão pudesse responder, antonio continuou) 

gosta de fazer amor com uma bela mulher, de cavalos correndo no prado, de ver o nascer do sol, de olhar para as estrelas?

dr. rocha – claro que gosto, antonio, só não estou entendendo...

antonio – só mais uma pergunta.

dr. rocha – está bem, mas seja breve, pois tenho uma reunião de diretoria e ainda preciso examinar alguns papéis.

antonio – o senhor acredita em deus, doutor rocha?

dr. rocha – claro que acredito.

antonio – pois está na frente dele.

dr. rocha – você enlouqueceu, antonio?

antonio – não enlouqueci, não. até duas horas atrás eu não era deus. era apenas antonio pinto, contador, casado, mulher e quatro filhos, um deles autista, com dívidas para pagar e muito medo de perder o emprego, pois dificilmente encontraria outro depois dos 50 anos. aí, quando saí do seu escritório, fui até em casa, peguei este revólver e me transformei em deus. 

(neste momento, antonio tirou do bolso um smith&wesson calibre 38 e apontou-o para a testa do dr. rocha)

o senhor é um dos homens mais ricos de são paulo, tem mulher, amantes, viaja várias vezes ao ano à europa, uma vida muito boa. já a minha é triste e monótona. lembra-se daquela história de estrelas, nascer do sol, flores e pássaros? 

(o dr. rocha, mudo de terror, olha para o revólver)

será que vale a pena perder a sua vida para me desempregar? pense bem, se eu morrer, não perco nada. se o senhor morrer, perde tudo. e quem vai decidir isso sou eu, pois virei deus. 

(o doutor rocha ajoelha-se diante de antonio)

dr. rocha – não faça uma loucura dessas, seu antonio. diga o que o senhor quer que terei o maior prazer em atendê-lo, o que quiser. por favor, tenha piedade. diga o que quer!

antonio – gostaria de deixar de ser deus e voltar a ser o seu escravo. que tal? posso?

fausto wolff

(publicado no livro “a milésima segunda noite”, 2005)

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como na peça de ionesco, tornamo-nos uma nação de rinocerontes exatamente porque não temos coragem de nos reconhecer como rinocerontes. no brasil encenam uma realidade para encobrir a verdade, e a verdade está na nossa bandeira. o verde representa os que vivem com menos de dez reais por mês; o amarelo, os que vivem com menos de cem; o azul, os que vivem com menos de mil. e os pontos brancos são os tiranos que, sendo tão poucos, nos esmagam com tanta facilidade. 

o país tem solução? tem e precisa ser drástica. se não quisermos que, pela dor da fome, o povo desça e o resto dance. 

(idem)

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para todos e para ninguém

não ignoro bolsonaro e o «nazifascismo» — muito pelo contrário. lembro apenas que, para fiéis seguidores de lula, o nazifascismo muda de rosto a cada quatro anos. em 2002, por exemplo, era josé serra. naquele ano, lula fez um movimento semelhante ao da escolha de alckmin como vice: convidou para ser seu companheiro de chapa o megaempresário mineiro josé alencar (pl), que chegou a ser vaiado pela militância petista. a escolha do vice não foi o único movimento rumo ao centro político — ficou famosa a «carta ao povo brasileiro». em 2006, o «nazifascismo» atendia pelo nome de neoliberalismo, e o bolsonaro da vez era geraldo alckmin. em 2010, serra; e em 2014, aécio. e do final desse filme, tenho certeza de que todos nos lembramos. 

grill 

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a certeza já me corrói
levo bronca do patrão
mas, sonhei e fiz a fé no avestruz
que vai me dar uma luz...

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[moleque gonzaguinha]

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falando em avestruz

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falam muito mal das avestruzes, injustamente. seus detratores, movidos por motivos inconfessáveis, declaram que aquelas aves são de estupidez sem paralelo. dizem que elas, ao se defrontar com um leão, enterram suas cabeças na areia. se assim elas se comportam, é porque devem ser adeptas de uma antiga filosofia que afirmava que «ser é perceber». raciocinam as avestruzes: se não percebo o perigo, o perigo não existe para mim. (traduzido popularmente: «aquilo que os olhos não veem o coração não sente».) continua o pensamento das avestruzes: «posso, assim, me comportar como se ele não existisse, desde que continue com a cabeça enterrada na areia». tudo estaria bem se o leão não fosse de verdade. e o resultado é que a avestruz acaba na barriga do leão... mas, como disse antes, eu não acredito que as avestruzes sejam assim tão estúpidas. estupidez igual somente encontrei em exemplares da espécie homo sapiens, a que pertencemos. acham que, não percebendo, a coisa não existe. o leão existe mesmo quando fechamos os olhos...

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 54

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falando em fechar os olhos

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quem não tem colírio
usa óculos escuros
a formiga só trabalha
porque não sabe cantar

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[com letra e ilustração]

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lançada em 1974, «como vovó já dizia» foi a primeira canção de raul a incomodar a censura --- teve dois versos considerados subversivos substituídos: «quem não tem papel dá recado pelo muro» e «quem não tem presente se conforma com o futuro», trocados por «quem não tem filé come pão com osso duro» e «quem não tem visão bate a cara contra o muro».

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falando em muro...

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paulo césar pinheiro, um dos maiores letristas da música popular brasileira — infelizmente, um ilustre desconhecido dos brasileiros em geral —, propôs a maurício tapajós que compusessem uma canção sem rodeios e metáforas. foi assim que nasceu «pesadelo». 

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quando o muro separa, uma ponte une
se a vingança encara, o remorso pune
você vem me agarra, alguém vem me solta
você vai na marra, ela um dia volta

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do álbum: «o importante é que nossa emoção sobreviva nº 2»
márcia, eduardo gudim e paulo césar pinheiro
gravado ao vivo no teatro ginástico - rio de janeiro, em fevereiro de 1976

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antes do fim

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é preciso que a justiça e a igualdade
sejam mais que palavras de ocasião
é preciso um novo tempo
em que não seja só promessa repartir a terra e o pão

link

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poema: martim césar 
música: pedro munhoz
do cd 1º festival nacional da reforma agrária

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enfim, há quem passe o dia na internet e faça dos blogs pessoais e das redes sociais trincheira contra tudo e contra todos, e por causa disso seja criticado, desvalorizado e menosprezado. não é o meu caso. eu, particularmente, não critico nada nem ninguém — muito pelo contrário: as armas são muitas e cada um escolhe e utiliza aquelas com as quais pensa obter melhores resultados. já participei de reuniões presenciais e de manifestações de rua; hoje em dia escrevo só para os raros, só para os loucos, e não vejo diferença nenhuma entre uma arma e outra... com qualquer delas me sinto desarmado e derrotado. 

trocando em miúdos: nosso discurso é velho e ultrapassado; nossa forma de atuar e de lutar não diz mais nada, nem a nós nem a ninguém. na minha opinião, é preciso passar o bastão — estamos desgastados e desacreditados. o problema é passá-lo para quem... não vejo nada nem ninguém. 

não nego
posso estar enganado
meu tempo passou
estou velho e superado
mas vou assim
até o fim
quanto mais velho
mais cego

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é a ceguêra de dexá
um dia de sê pião
num dançá mais amarrado 
pru pescoço cum cordão

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canta: dércio marques
[«pinhão» é uma variante dialetal e regional para a palavra «peão»]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

sábado, 4 de maio de 2013



BADEN POWELL, A TELEVISÃO,
O CORDÃO DE OURO 
E A MÚSICA DO BESOURO


_POR ENILTON GRILL



A televisão brasileira durante o período de 1965 até 1972 viveu seu grande momento de integração com a música popular brasileira.

Programas como O Fino da Bossa, que Elis Regina apresentava semanalmente na TV Record, e Jovem Guarda, apresentado por Roberto Carlos tinham uma grande audiência.

Baden participou inúmeras vezes do Fino da Bossa. Era também a época dos festivais.

Em 1968, um grupo de prestigiados jornalistas, entre os quais Sérgio Porto, Sérgio Cabral e Lúcio Rangel, propôs para a TV Record a realização de uma Bienal do Samba.

O argumento era o seguinte: o samba, principal gênero da música popular brasileira ficava meio marginalizado nos festivais porque não seguia o padrão das canções que costumavam se apresentar neles.

A I Bienal do Samba foi então realizada.

Ela era restrita a convidados escolhidos por uma comissão que tinha o intuito de garantir a presença das grandes figuras da velha guarda do samba.

Da I Bienal participaram os veteranos Pixinguinha, Ismael Silva, Ataulfo Alves, Herivelto Martins, João de Barro, Cartola.

A vencedora foi Lapinha, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, então com 19 anos e estreando como letrista e foi interpretada por Elis Regina.


Lapinha é um afro-samba que conta a história de uma figura lendária da Bahia, o capoeira Valdemar de Tal, o “ Besouro”, o “ Cordão de Ouro”.

Capoeirista valente, famoso em toda a Bahia, Valdemar de Tal, o Besouro Mangangá, também conhecido como Cordão de Ouro, virou lenda depois de sua morte violenta, daí surgindo um refrão popular, a 'música do Besouro'.

Muito antes, no entanto, de virar lenda, sua história já corria. O povo da Bahia  dizia que o Besouro vivia de lutar contra o rei e andar fora da lei. Dizia também que havia enfrentado, e derrotado sozinho, o regimento da cavalaria de Salvador. Seja como for, corpo fechado para tudo, o Besouro Cordão de Ouro distraiu-se. Não teve o cuidado que todo e qualquer amor requer. Morreu traído por uma mulher.

O capoeira dormiu e sucumbiu. Sumiu. Antes de partir, um pedido só: 'Quando eu morrer / me enterre na Lapinha...'. O refrão, Baden ouviu do baiano Canjiquinha. Foi o mote para compor Lapinha.


LAPINHA
BADEN POWELL / PAULO CÉSAR PINHEIRO
FAIXA 01
BADEN POWELL
LE MONDE MUSICAL DE BADEN POWELL
1968

LAPINHA
BADEN POWELL / PAULO CÉSAR PINHEIRP
FAIXA 05
AS MÚSICAS DE BADEN E PAULO CÉSAR PINHEIRO
BADEN POWELL & OS CANTORES DA LAPINHA
1970

LAPINHA
ELIS REGINA, BADEN POWELL E OS ORIGINAIS DO SAMBA
I BIENAL DO SAMBA
TV RECORD
1968