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quinta-feira, 17 de setembro de 2026


utopia e barbárie
(o orgasmo da história)
[em memória de soledad barret]


(trailer)


(memorial da democracia)
trecho: 1968
1:42


ontem
na fisioterapia
mauricio e eu falávamos
sobre a situação pela qual o país passa
que há uma normalização da tragédia e da desgraça
que nada mais nos surpreende e que tudo mais perdeu a graça


olha que coisa mais linda, mais cheia de graça.
é ela, menina, que vem e que passa.
num doce balanço a caminho do mar.

moça do corpo dourado, do sol de ipanema
o seu balançado é mais que um poema
é a coisa mais linda que eu já vi passar

(canal 100)


regressarei os meus sapatos por copacabana
na mão direita o sangue de uma história italiana
escorregar um tango numa casca de banana
quando cair só vou lembrar da tua risada sacana

(vitor ramil, 1987)


todos são iguais perante a lei
sem distinção de qualquer natureza
garantindo-se ao brasileiros e estrangeiros residentes no país
a inviolabilidade do direito
à vida
à liberdade
à igualdade
à segurança e à propriedade

mas, você se quiser
pode cagar nesse artigo
e, se tiver poder
pode cagar nessa constituição
que dá nada

leo aprato/ian ramil, 2015
[a partir do "caput" do artigo 5º da constituição federal do brasil de 1988]


os filhos dos dias
soledad, a neta de rafael barrett, costumava recordar uma frase do avô:
– se o bem não existe, é preciso inventá-lo.
rafael, paraguaio por escolha própria, revolucionário por vocação, passou mais tempo na cadeia que em casa, e morreu no exílio.
a neta foi crivada a balas no brasil, no dia de hoje de 1973.
o cabo anselmo, marinheiro insurgente, chefe revolucionário, foi quem a entregou.
cansado de ser perdedor, arrependido de tudo o que acreditava e gostava, ele delatou um por um de seus companheiros de luta contra a ditadura militar brasileira, e os despachou para o suplício ou o matadouro.
soledad, que era sua mulher, ele deixou para o fim.
o cabo anselmo apontou o lugar onde ela se escondia e foi-se embora.
já estava no aeroporto quando ouviram-se os primeiros tiros.
eduardo galeano, pg 21


con un grafo (picho)
ela escreve nas paredes «resistir»,
cachecol rubro-negro pelas costas,
minifalda (minissaia),
anaclara.

(daniel viglietti, 1978)


la muchacha de mirada clara,
cabello corto,
la que salió en los diarios;
no sé su nombre, no sé su nombre.
pero la nombro: primavera.
pero la veo: compañera.
pero yo digo: mujer entera.
pero yo grito: guerrillera.

(daniel viglietti, 1971)

.

noção de pátria

quando resido neste país que não sonha
quando vivo nesta cidade sem pálpebras
onde no entanto minha mulher me entende
e onde ficou minha infância e envelhecem meus pais
e reconheço meus amigos de calçada em calçada
e posso ver as árvores da minha janela
esquecidas e torpes às três da tarde
sinto que algo me cerca e me oprime
como se uma sombra espessa e decisiva
descesse sobre mim e sobre nós.

quando retorno a esta cidade sem lágrimas,
que se tornou egoísta depois de ter sido tão generosa,
que perdeu o ânimo sem tê-lo esgotado,
penso que finalmente chegou o momento
de dizer adeus a algumas presunções,
de me afastar, talvez, e falar outras línguas,
onde a indiferença seja uma palavra obscena.

mario benedetti

.

ao vento

esposa não há
meu pai já não está
miha mãe envelhece
mas em outro lugar
a juventude vi escorrer
na corrente de um açude
caminho hoje pelas ruas de satolep 
como um ilustre desconhecido
escrevo, escrevo, escrevo
quanto mais escrevo, 
menos sou lido 
em meio a todos
sou ninguém
o que não é nada mal
só me faz bem

grill 

.

– seu pai falava muito de você.
– é?
– dizia que você não tinha ambição.
– tinha razão.
– é mesmo?
– minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
– você é estranho.

bukowski

.

autoepitáfio

alguns dizem que morri de pena
na verdade não me lembro
sei que havia uma nuvem branquíssima no céu
e uma ave errante que deixava pegadas
e me parece que eram de alegria

outros sustentam que morri de gozo
eu também não me lembro
sei que havia um pintassilgo encantado com seu canto
e un salgueiro que avaliava com a chuva
seu confronto de lágrimas prolixas

sim lembro-me que havia conhecidos
gente expansiva orgulhosa como poucas
falavam do mercado de ações
de arte culinária / de informática
de futebol / de tabernas / de anistias

de repente chegou um sopro de silêncio
tudo ficou em um coro de calados
olharam-se perplexos porque no meio
daquela vanglória do nada
una muchacha pronunciou meu nome.

mario benedetti

.

uma coisa aprendi junto a soledad: que o choro há que empunhá-lo, transformá-lo em canto.

janeiro quente, recife, silêncio cego
as cordas até esqueceram o guarani
aquele que pronunciavas em teus caminhos
de muchacha andante
semeando justiça
onde não há
onde não há

outra coisa aprendi com soledad: que a pátria não é um único lugar. como o libertário avô do paraguai, cresceu buscando a trilha, e o uruguai guarda a doce pegada dos seus passos quando busca o norte, o norte do brasil, para lutar, para lutar. uma terceira coisa nos ensinou: o que um não consegue, dois conseguirão. em algum lugar do vento ou da verdade está a solidão com todo o seu sonho. ela não quer palavras longas nem aniversários; seu dia é aquele em que todos digam, armas na mão: «pátria, rojaijú». rojaijú: eu te amo (em guarani)

(daniel viglietti, 1972)


eu só peço a deus
que a injustiça não me seja indiferente
pois não posso dar a outra face
se já fui machucado brutalmente

(león gieco, 1978)



antes do fim

em 8 de janeiro de 1973, anselmo — que entrou para a história brasileira como uma das figuras mais execráveis do período — delatou vários companheiros à ditadura. entre eles estava a sua própria companheira, soledad, grávida de quatro meses de um filho dele.

em depoimento à comissão especial sobre mortos e desaparecidos políticos, a advogada mércia de albuquerque relatou que o corpo de soledad foi encontrado em um barril, com quatro tiros na cabeça e o feto de seu filho no fundo. apesar de identificada, a militante foi sepultada como indigente em recife, deixando seu último poema à mãe.

mãe, me entristece te ver assim o olhar quebrado dos teus olhos azul céu
em silêncio implorando que eu não parta. mãe, não sofras se não volto. me encontrarás em cada moça do povo deste povo, daquele, daquele outro do mais próximo, do mais longínquo talvez cruze os mares, as montanhas os cárceres, os céus mas, mãe, eu te asseguro, que, sim, me encontrarás! no olhar de uma criança feliz de um jovem que estuda de um camponês em sua terra de um operário em sua fábrica do traidor, na força do guerrilheiro em seu posto, sempre, sempre me encontrarás! mãe, não fiques triste, tua filha te ama.


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