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terça-feira, 25 de agosto de 2026


levantado do chão

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terras raras

[por cesar benjamim] 

há pouco tempo, lula e trump encontraram-se pessoalmente durante três horas, acompanhados apenas pelo intérprete. lula disse que trataram de tarifas.

era mentira.

agora, falaram por telefone durante uma hora e meia. lula voltou a dizer que trataram de tarifas.

é mentira.

dado o volume e a composição do comércio bilateral entre brasil e estados unidos, não há tanto a tratar desse assunto por dois presidentes. é algo menor. as equipes técnicas existem para isso.

outro assunto é decisivo: o destino das terras raras brasileiras.

os estados unidos dependem da china para obter esses minerais estratégicos, sem os quais não se fabricam equipamentos eletrônicos de uso civil e militar. o brasil detém as segundas reservas do mundo, praticamente inexploradas.

lula quer nos fazer crer que os dois presidentes se encontram e se falam e não tratam disso.

está nos chamando de trouxas, parece que com razão. no século xxi, as terras raras têm a mesma importância que o petróleo teve no século xx.

* * *

flávio bolsonaro oferece aos estados unidos uma vassalagem total e explícita. se puder, transformará o brasil na 52a estrela da bandeira americana.

lula oferece uma vassalagem ambígua. tudo em lula é ambíguo, pois sempre há um abismo entre o que diz e o que faz.

o império prefere a primeira opção, mas pode se ajustar perfeitamente à segunda.

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«diga ao seu patrão que estão aqui umas pessoas que vêm saber o que é que ele faz, já caíram as primeiras águas, é tempo de semear, e tendo a criada ido saber a resposta ficamos na porta, que a nós não nos mandam entrar e nisto volta a criada, e diz, o patrão manda dizer que não têm nada com isso, a terra é dele, e se voltarem aqui ele vai chamar a polícia»

josé saramago | levantado do chão, p. 234

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chame o ladrão
chame o ladrão

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[do álbum: sinal fechado]

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falando em brasil

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antonio – o senhor mandou me chamar, doutor rocha?

dr. rocha – mandei, antonio. infelizmente, devido à crise do mercado, muito a contragosto, terei de demiti-lo.

antonio – doutor rocha, eu estou no meio de um trabalho. será que não poderíamos conversar sobre isso na hora do almoço?

dr. rocha – é claro que podemos, mas infelizmente nada do que você disser poderá modificar a situação.

(na hora do almoço, antonio estava novamente na frente do dr. rocha.)

antonio – doutor rocha, como trabalho aqui há mais de oito anos, tenho mais de 50...

dr. rocha – você não é o único, antonio, a situação está ruim para todos.

antonio – o senhor não entendeu, doutor rocha. quis dizer que pelos anos de dedicação à firma, achava que tinha direito a lhe fazer algumas perguntas.

dr. rocha – pois faça-as.

antonio – o senhor gosta de coisas singelas como flores, pássaros, o orvalho nas plantas, riso de crianças pequenas? 

(antes que o patrão pudesse responder, antonio continuou) 

gosta de fazer amor com uma bela mulher, de cavalos correndo no prado, de ver o nascer do sol, de olhar para as estrelas?

dr. rocha – claro que gosto, antonio, só não estou entendendo...

antonio – só mais uma pergunta.

dr. rocha – está bem, mas seja breve, pois tenho uma reunião de diretoria e ainda preciso examinar alguns papéis.

antonio – o senhor acredita em deus, doutor rocha?

dr. rocha – claro que acredito.

antonio – pois está na frente dele.

dr. rocha – você enlouqueceu, antonio?

antonio – não enlouqueci, não. até duas horas atrás eu não era deus. era apenas antonio pinto, contador, casado, mulher e quatro filhos, um deles autista, com dívidas para pagar e muito medo de perder o emprego, pois dificilmente encontraria outro depois dos 50 anos. aí, quando saí do seu escritório, fui até em casa, peguei este revólver e me transformei em deus. 

(neste momento, antonio tirou do bolso um smith&wesson calibre 38 e apontou-o para a testa do dr. rocha)

o senhor é um dos homens mais ricos de são paulo, tem mulher, amantes, viaja várias vezes ao ano à europa, uma vida muito boa. já a minha é triste e monótona. lembra-se daquela história de estrelas, nascer do sol, flores e pássaros? 

(o dr. rocha, mudo de terror, olha para o revólver)

será que vale a pena perder a sua vida para me desempregar? pense bem, se eu morrer, não perco nada. se o senhor morrer, perde tudo. e quem vai decidir isso sou eu, pois virei deus. 

(o doutor rocha ajoelha-se diante de antonio)

dr. rocha – não faça uma loucura dessas, seu antonio. diga o que o senhor quer que terei o maior prazer em atendê-lo, o que quiser. por favor, tenha piedade. diga o que quer!

antonio – gostaria de deixar de ser deus e voltar a ser o seu escravo. que tal? posso?

fausto wolff

(publicado no livro “a milésima segunda noite”, 2005)

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como na peça de ionesco, tornamo-nos uma nação de rinocerontes exatamente porque não temos coragem de nos reconhecer como rinocerontes. no brasil encenam uma realidade para encobrir a verdade, e a verdade está na nossa bandeira. o verde representa os que vivem com menos de dez reais por mês; o amarelo, os que vivem com menos de cem; o azul, os que vivem com menos de mil. e os pontos brancos são os tiranos que, sendo tão poucos, nos esmagam com tanta facilidade. 

o país tem solução? tem e precisa ser drástica. se não quisermos que, pela dor da fome, o povo desça e o resto dance. 

(idem)

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para todos e para ninguém

não ignoro bolsonaro e o «nazifascismo» — muito pelo contrário. lembro apenas que, para fiéis seguidores de lula, o nazifascismo muda de rosto a cada quatro anos. em 2002, por exemplo, era josé serra. naquele ano, lula fez um movimento semelhante ao da escolha de alckmin como vice: convidou para ser seu companheiro de chapa o megaempresário mineiro josé alencar (pl), que chegou a ser vaiado pela militância petista. a escolha do vice não foi o único movimento rumo ao centro político — ficou famosa a «carta ao povo brasileiro». em 2006, o «nazifascismo» atendia pelo nome de neoliberalismo, e o bolsonaro da vez era geraldo alckmin. em 2010, serra; e em 2014, aécio. e do final desse filme, tenho certeza de que todos nos lembramos. 

grill 

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a certeza já me corrói
levo bronca do patrão
mas, sonhei e fiz a fé no avestruz
que vai me dar uma luz...

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[moleque gonzaguinha]

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falando em avestruz

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falam muito mal das avestruzes, injustamente. seus detratores, movidos por motivos inconfessáveis, declaram que aquelas aves são de estupidez sem paralelo. dizem que elas, ao se defrontar com um leão, enterram suas cabeças na areia. se assim elas se comportam, é porque devem ser adeptas de uma antiga filosofia que afirmava que «ser é perceber». raciocinam as avestruzes: se não percebo o perigo, o perigo não existe para mim. (traduzido popularmente: «aquilo que os olhos não veem o coração não sente».) continua o pensamento das avestruzes: «posso, assim, me comportar como se ele não existisse, desde que continue com a cabeça enterrada na areia». tudo estaria bem se o leão não fosse de verdade. e o resultado é que a avestruz acaba na barriga do leão... mas, como disse antes, eu não acredito que as avestruzes sejam assim tão estúpidas. estupidez igual somente encontrei em exemplares da espécie homo sapiens, a que pertencemos. acham que, não percebendo, a coisa não existe. o leão existe mesmo quando fechamos os olhos...

rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 54

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falando em fechar os olhos

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quem não tem colírio
usa óculos escuros
a formiga só trabalha
porque não sabe cantar

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[com letra e ilustração]

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lançada em 1974, «como vovó já dizia» foi a primeira canção de raul a incomodar a censura --- teve dois versos considerados subversivos substituídos: «quem não tem papel dá recado pelo muro» e «quem não tem presente se conforma com o futuro», trocados por «quem não tem filé come pão com osso duro» e «quem não tem visão bate a cara contra o muro».

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falando em muro...

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paulo césar pinheiro, um dos maiores letristas da música popular brasileira — infelizmente, um ilustre desconhecido dos brasileiros em geral —, propôs a maurício tapajós que compusessem uma canção sem rodeios e metáforas. foi assim que nasceu «pesadelo». 

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quando o muro separa, uma ponte une
se a vingança encara, o remorso pune
você vem me agarra, alguém vem me solta
você vai na marra, ela um dia volta

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do álbum: «o importante é que nossa emoção sobreviva nº 2»
márcia, eduardo gudim e paulo césar pinheiro
gravado ao vivo no teatro ginástico - rio de janeiro, em fevereiro de 1976

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antes do fim

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é preciso que a justiça e a igualdade
sejam mais que palavras de ocasião
é preciso um novo tempo
em que não seja só promessa repartir a terra e o pão

link

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poema: martim césar 
música: pedro munhoz
do cd 1º festival nacional da reforma agrária

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enfim, há quem passe o dia na internet e faça dos blogs pessoais e das redes sociais trincheira contra tudo e contra todos, e por causa disso seja criticado, desvalorizado e menosprezado. não é o meu caso. eu, particularmente, não critico nada nem ninguém — muito pelo contrário: as armas são muitas e cada um escolhe e utiliza aquelas com as quais pensa obter melhores resultados. já participei de reuniões presenciais e de manifestações de rua; hoje em dia escrevo só para os raros, só para os loucos, e não vejo diferença nenhuma entre uma arma e outra... com qualquer delas me sinto desarmado e derrotado. 

trocando em miúdos: nosso discurso é velho e ultrapassado; nossa forma de atuar e de lutar não diz mais nada, nem a nós nem a ninguém. na minha opinião, é preciso passar o bastão — estamos desgastados e desacreditados. o problema é passá-lo para quem... não vejo nada nem ninguém. 

não nego
posso estar enganado
meu tempo passou
estou velho e superado
mas vou assim
até o fim
quanto mais velho
mais cego

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é a ceguêra de dexá
um dia de sê pião
num dançá mais amarrado 
pru pescoço cum cordão

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canta: dércio marques
[«pinhão» é uma variante dialetal e regional para a palavra «peão»]

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas

terça-feira, 21 de julho de 2026

 


ao vento 

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«a mãe falou: meu filho você vai ser poeta!
você vai carregar água na peneira a vida toda.
você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!»

manoel de barros

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«à minha maneira, estou sempre compondo. emendo uma coisa na outra e acaba dando certo. eu pego uma canção e deixo ir rolando, devagarinho, ruminando, ruminando.»

dorival caymmi

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ruminando

com as palavras
sou como os ruminantes
rumino
rumino
e nunca termino
cadê a palavra que tava aqui
o vento levou
cadê o vento

grill

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vamos chamar o vento
vamos chamar o vento

vento que dá na vela
vela que leva o barco
barco que leva a gente


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vento que guarda a tarde
(uma tarde sem pressa)

2002.

eu trabalhava há cinco anos no cfc. ainda não estava no auge, mas já havia conquistado a confiança da direção. foi nessa condição que pedi liberação para passar dez dias na cidade maravilhosa.

mal sabia eu que estava a três anos do meu auge como instrutor de trânsito e a quatro da minha aula de despedida e queda na vida.

antes disso, em 1996, um ano antes do cfc abrir, eu havia varado a noite numa churrascaria de porto alegre convidado pela lendária mercedes sosa.

essa história, todavia, conto outro dia.

de volta a 2002.

no início daquele ano, pedro munhoz me enviou um e-mail pedindo que eu entrasse em contato com daniel viglietti para intermediar sua participação na semana nacional da cultura brasileira e da reforma agrária, no rio de janeiro.

eu já sabia que daniel diria sim.

um ano antes eu o tinha entrevistado e uma das perguntas que fiz foi o que faltava a ele fazer que ainda não tinha feito. ele respondeu que queria muito fazer alguma coisa (qualquer coisa) com os sem-terra.

o autor de a desalambrar só fez uma exigência: a de que eu fosse junto.

mesmo indo de ônibus, cheguei antes do uruguaio, que foi de avião. fui recebê-lo no aeroporto do galeão e lá mesmo tentamos um contato com chico. chico buarque. daniel deu a ideia de convidá-lo para participar da semana. teríamos conseguido não estivesse chico na itália. não faz mal...

não tinha chico, mas tinha dorival.

no dia seguinte, daniel e eu nos encontramos nos corredores da uerj e assistimos juntos aos debates e palestras. depois, à noite, na concha acústica, eu apontei para juliana caymmi, neta de dorival. eu não a conhecia, e daniel queria conhecê-la. alguém teria que fazer as honras. foi o que fiz.

depois do show, numa pequeníssima sala improvisada de camarim (e cheia de gente), eu me aproximei da neta de dorival, apontei para daniel e disse quem ele era. desnecessário. ela já o conhecia. seu avô alguma vez já tinha falado no nome dele, e o marido dela sabia mais sobre daniel do que provavelmente eu mesmo.

ao nos despedirmos, daniel deu um cd seu autografado para que ela entregasse a seu avô.

no dia seguinte, quando nos cruzamos com juliana, ela vinha com um cd de dorival autografado para daniel. nos olhamos surpresos. quando penso em dorival, penso na bahia. ele estava no rio, em copacabana.

daniel agradeceu o cd, conversamos um pouco e nos despedimos. juliana ainda estava por perto quando daniel me puxou para um canto e pediu que eu tentasse, com ela, um encontro dele com o avô dela. foi o que fiz.

ela argumentou que teria que falar com a sua avó, pois o seu avô estava passando por alguns problemas de saúde...

o encontro foi marcado com duas condições:

uma, a de que fosse um encontro rápido, bastante rápido, não mais que meia hora. nada mais, nem nada de mais; afinal, dorival convalescia. a outra condição não foi uma condição, foi uma pergunta. daniel perguntou se eu poderia ir junto. sim, claro que sim.

dessas coisas que não dá para explicar. passou uma hora. mais meia hora. e mais outra hora. perdemos a hora. já era quase noite quando fomos embora.

hoje é tudo muito rápido. parece que foi ontem. mas não. olhando as fotos, eu não sou mais o que era e não há mais dorival. nem daniel. que pena. todo mundo tem pressa. eu tenho saudade. aquela tarde passou depressa. e eu nunca mais tive outra igual.

ave, daniel! saravá, dorival!

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«eu guardo em mim
dois corações»


dorival caymmi

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«a verdade é o todo»

hegel

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«os amores que guardo são tantos, tantos, tantos, por eles eu canto.»

daniel viglietti

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o fim não tem fim
nem teve início o começo
eu vivo sempre a caminho
assim luto, desejo e penso
 
[do cd: trabajo de hormiga]

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foto: dorival caymmi e eu local: copacabana, rj (2002) autor: daniel viglietti

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foto: daniel viglietti e eu
local: pelotas, rs (2009)
autor: vilmar tavares

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#américas

sábado, 11 de julho de 2026

 


te mando notícia de mim

(ainda estou aqui)

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morrer

tenho morrido muitas vezes.
depois, respiro fundo,
lavo o rosto, sigo em frente.
não é fácil morrer,
difícil é renascer,
fingir-se de sol,
cegar a lua,
beber o mar.
detestável seria ter a covardia
dos que me mataram.
eu sigo renascendo,
eles seguem covardes.

pedro munhoz

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filme de mim mesmo

depois de um período de desintoxicação em são luís, aos cuidados da família, onde fui tratado com todo amor e carinho, retornei a pelotas. voltei com a cara e a coragem. não sabia onde ia ficar e nem o que ia fazer. tinha tudo pra dar errado. mas sabia que ia dar certo.

pouca gente sabe, mas quando voltei, tinha gente que esfregava os olhos quando me via na rua.

só mais tarde vim a saber o porquê: espalharam um boato aqui onde moro que eu havia morrido.

quando fiquei sabendo, primeiro levei um susto, depois, sabendo dos detalhes de como o boato se espalhou, fiquei incrédulo. não podia acreditar. eu havia morrido de várias formas.

uns, disseram que eu morri numa briga de bar, outros, que me viram embaixo das rodas de um carro, outros, que me viram cair de bêbado e bater com a cabeça no chão, outros, que me viram sumir dentro de um camburão, outros, que me viram pedindo esmola com uma lata vazia na mão, outros, que me viram dormindo na rua, morrendo de frio, abraçado a um cão.

e todos tinham razão.

morrer é fácil. morre-se de várias formas e todos os dias. viver sem se deixar morrer é que é difícil. por quê? porque a única forma de viver sem se deixar morrer é viver em paz --- em paz consigo mesmo. paz interior. paz que eu sabia que existia, mas que não encontrava.

por quê? porque eu procurava fora o que está dentro.

grill


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«diógenes, toda vez que passava pelo mercado, ria porque achava muito engraçado e, ao mesmo tempo, ficava muito feliz em ver quantas coisas tinha no mercado que ele não necessitava.»

facundo cabral

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«toda vez que passo pelo corredor de bebidas do supermercado, sorrio por dentro. fico muito feliz em ver a quantidade de coisas que existe ali que eu simplesmente não preciso mais.»

(inspirado na reflexão de facundo cabral sobre diógenes de sinope)

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o tempo tá feio na fronteira
tem vento e polvadeira, vai chover
ouvi na rádio uruguaia, o boletim não falha
vem água no anoitecer

nesta longa avenida
eu transito minhas mágoas
entre dois mundos
nestas calçadas vazias
eu divido os meus dias
numa fronteira absurda

assim mesmo, procuro os teus olhos
na visão de quem olha, apenas por ver
meu desespero é às avessas
depois das promessas que prometemos
por prometer

e o outro lado do mundo
é o mesmo lado da rua
pelo menos por aqui
mouros, morenos, mulatos, ciganos
gente de fato, querendo ser feliz

prometo: te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
eu prometo

pra semana, arrumo minha mochila
dou de mão na viola, é hora de partir
compro passagem pra trienta y três
jaguarão fica mais perto da gente ir

faço planos pra volta
vontade não falta de acertar
aos olhos de minha filha
sou o mesmo herói, que eu queria
que fosse meu pai

no mais eu vou indo, quem sabe, qualquer dia desses
a gente se encontra
como diria o amigo plínio
lá por franças, bahias e europas

e o outro lado do mundo
é o mesmo lado da rua
pelo menos por aqui
mouros, morenos, mulatos, ciganos
gente de fato, querendo ser feliz

prometo: te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
te mando notícia de mim
eu prometo

te mando notícia de mim | pedro munhoz (1997)

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raul vive
(por enilton grill)

um dia a terra parou. raul fingiu que não viu e seguiu. o tempo passou e raul ficou. em 1989, ele deu adeus, embarcou num disco voador e voou.

raul sempre leu muito. começou explorando os livros da biblioteca de seu pai, onde ficava horas viajando por galáxias e estrelas distantes nos livros de astronomia.

depois de sair de salvador e passar fome na cidade maravilhosa, raul resolveu fazer terapia e cursar filosofia. só mais tarde é que foi viver de cantoria.

raul se recusou, terminantemente, a aceitar o determinismo enquanto viveu: «eu que não me sento / no trono de um apartamento / com a boca escancarada / cheia de dentes / esperando a morte chegar».

para ele o hoje era apenas um furo no futuro, por onde o passado começava a jorrar. viveu como quis. morreu quando cansou deste lugar, onde jamais conseguiu se encontrar.

há dez mil anos atrás raul havia começado a sonhar em ser cantor e compositor. mas para ele a passagem do tempo parecia não importar tanto assim. se tempo presente ou futuro tanto faz quanto fez. e assim ele se fez.

tempos depois ele declarava: «eu sou tão bom ator que me finjo de poeta e profeta e todo mundo acredita».

«se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou / se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor». era chato chegar a um objetivo num instante. ele se transmutava a todo instante. e o ritmo que isso acontecia era tão alucinante era tão estonteante que raul tornou-se «metamorfose ambulante».

mas com o passar do tempo ficou difícil ordenar o pensamento. seu tempo era ao mesmo tempo perto e distante. nesse instante o álcool entra em sua vida. uma anestesia para a monotonia do dia-a-dia.

no final, já estava cansado de viver drogado. tarde demais. quando quis dizer não, o álcool e a droga já o haviam jogado ao chão. então raul disse: «eu não morri de overdose; eu morri foi de tédio».

o diretor do documentário, raul: o início, o fim e o meio, walter carvalho, disse que raul morreu de amor.

«do passado me esqueci / no presente me perdi / se chamarem diga que eu saí, para o futuro não estou nem aí».

o maluco vivia a esmo. fugia de si mesmo. não que fosse um frustrado ou fracassado, apenas tinha um universo inteiro a rodar em seu costado. outro dia, disse: «o universo me espanta e não posso imaginar que esse relógio exista e não tenha relojoeiro».

raul nunca conseguiu ficar sozinho. ao mesmo tempo, nunca conseguiu ficar com ninguém por muito tempo: «como poeta e cantor, sou o homem ideal; como marido, sou uma merda total».

um turbilhão de ideias e um copo sempre à mão. uma profusão de imagens e possivelmente uma confusão na mente. mas antes do álcool lhe derrubar de vez, deixou a semente. «eu não sou louco, é o mundo que não entende minha lucidez».

lúcido o bastante para não entrar em toda e qualquer luta. com onze anos de idade já desconfiava da verdade absoluta: «tem gente que passa a vida inteira / travando a inútil luta com os galhos / sem saber que é lá no tronco / que está o coringa do baralho».

tal qual um fora da lei, raul viveu de lutar contra o rei. mas o mundo é um moinho, e raul morreu sozinho.

e assim é a vida: o caminho do acaso é o azar ou a sorte. e o caminho da vida, seja no início no fim ou no meio, é a morte.

mas, antes da morte, raul nos deixa um mote: «jogue as cartas, leia a minha sorte / tanto faz a vida como a morte / o pior de tudo eu já passei».

morte? que morte?

raul não morreu, isso sabe ele e sei eu.

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veja quanto livro na estante
dom quixote, o cavaleiro andante
luta a vida inteira contra o rei


as minas do rei salomão | raul seixas / paulo coelho (1973)

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ao vento

ontem
depois de um bom tempo
cabelo ao vento
saí e não me perdi
(ainda estou aqui)

grill

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quem vai chorar, quem vai sorrir?
quem vai ficar, quem vai partir?
pois o trem está chegando
tá chegando na estação
é o trem das sete horas
é o último do sertão

o trem das sete | raul seixas, 1974
(clipe oficial)

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foto: minifúndio café
satolep, 2007

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#raulpresente
#choveemsatolep
#américas


terça-feira, 1 de março de 2016



saravá, dorival!

para caiuá, que deu o nome e o incentivo que faltava.

2002. pedro munhoz me enviou um e-mail pedindo que eu entrasse em contato com daniel viglietti, para intermediar sua participação na semana nacional da cultura brasileira e da reforma agrária, no rio de janeiro.
 
então, foi o que fiz.

eu já sabia que daniel diria sim.

um ano antes eu o tinha entrevistado e uma das perguntas que fiz foi o que faltava a ele fazer que ainda não tinha feito. e ele respondeu que queria muito fazer alguma coisa (qualquer coisa) com os sem terra.

o autor de "a desalambrar" só fez uma exigência: a de que eu fosse junto. e foi o que fiz.

mesmo indo de ônibus cheguei antes do uruguaio que foi de avião. fui recebê-lo no aeroporto do galeão e lá mesmo tentamos um contato com chico. chico buarque. daniel deu a ideia de convidá-lo para participar da semana. teríamos conseguido não estivesse chico na itália.

não faz mal. não tinha chico mas tinha dorival.

no dia seguinte daniel e eu nos encontramos nos corredores da uerj e assistimos juntos aos debates e palestras. depois, à noite, na concha acústica, eu apontei para juliana caymmi, neta de dorival. eu não a conhecia e daniel queria conhecê-la. alguém teria que se apresentar e apresentá-la. e foi o que fiz.

depois do show, numa pequeníssima sala improvisada de camarim (e cheia de gente), eu me apresentei à neta do dorival, apontei para o daniel e disse a ela quem ele era. desnecessário. ela já o conhecia. seu avô alguma vez já tinha falado no nome dele para ela e o marido dela conhecia mais dele do que provavelmente eu mesmo.

ao nos despedirmos daniel deu um cd seu autografado para que ela entregasse a seu avô. e foi o que ela fez.

no dia seguinte, quando nos cruzamos com juliana, ela vinha com um cd do dorival autografado para o daniel. nos olhamos surpresos. quando penso em dorival, penso na bahia. ele estava no rio. em copacabana.

daniel agradeceu o cd, conversamos um pouco e nos despedimos.  juliana ainda estava por perto quando daniel me puxou para um canto e pediu que eu tentasse com ela um encontro dele com o avô dela. e foi que fiz.

ela argumentou que teria que falar com a sua avó pois o seu avô estava passando por alguns problemas de saúde...

o encontro foi marcado com duas condições:

uma a de que fosse um encontro rápido, bastante rápido, não mais que meia hora. nada mais nem nada de mais.  afinal, dorival convalescia.

a outra condição não foi uma condição foi uma pergunta. daniel perguntou se eu poderia ir junto. sim, claro que sim.

dessas coisas que não dá para explicar. passou uma hora. mais meia hora. e mais outra hora. perdemos a hora. já era quase noite quando fomos embora.

hoje é tudo muito rápido. parece que foi ontem. mas não. olhando a foto eu não sou mais o que era e não há mais dorival.

que pena. todo mundo tem pressa. eu tenho saudade. aquela tarde passou depressa. e eu nunca mais tive outra igual.

saravá, dorival!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011



 O SENTIDO DA CAMINHADA


'Caminante
no hay camino
se hace camino
al andar'
Antonio Machado
Poeta Espanhol
Sevilla, 1875 - Collioure. 1939


POR ENILTON GRILL

Perguntado por um jornalista espanhol, como se definia artisticamente, Pedro Munhoz não teve dúvidas: - ‘Sou um caminhador’.

Dia desses, ouvi sem querer uma troca de ideias entre dois senhores. Eles falavam mal, muito mal, de uma marcha dos Sem Terra. Trocando em miúdos, eles diziam que isso era coisa de gente que não tem mais nada o que fazer. Foi daí que resolvi dar uma pesquisada sobre qual seria na história da humanidade o sentido e a razão das marchas ou caminhadas.  

Nas lutas mais generosas da humanidade sempre houve caminhadas massivas e longas. É um gesto coletivo já histórico. Por exemplo, a caminhada de Moisés. Segundo a história, teria demorado 40 anos. Moisés morreu antes de chegar à terra prometida. Mas ele liderou o povo hebreu. Tanto na fuga da escravidão quanto no retorno às terras da Palestina. E fez isso caminhando. Está escrito; na Bíblia.

Em 1917, o cenário russo era desolador. Centenas de milhares de soldados mortos na guerra. Filas imensas se formavam nas ruas das cidades pra comprar o pão. A insatisfação era geral. Até que uma passeata ou marcha ou caminhada, como quiserem, de operárias de São Petersburgo juntou mais de dois milhões de pessoas. Chegou a repressão. Mas os soldados recusaram-se a atirar. Eles juntaram-se à multidão. E isso levou o Tzar (o imperador russo) a renunciar.

Aqui no Brasil,  a Coluna Prestes percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil. Foram 2 anos e meio de peregrinação. Em sua marcha pelos cafundós do país, os tenentes denunciavam a miséria da população e constataram de perto a exploração das camadas populares e firmaram a convicção de que era preciso mudar aquela situação. E assim foi gestada a revolução de 30: numa - ou em várias marchas.

Tem a caminhada de Ghandi, rumo ao mar para salvar o sal dos hindus. Em certa época os ingleses monopolizaram o comércio do sal. Ghandi então convocou o povo para fazer uma caminhada rumo ao mar, para simbolizar que o sal era de todo povo hindu. Foi vitorioso. Milhares de pessoas participaram da caminhada.

Há caminhadas em todos os períodos da história. O povo judeu também caminhou muito durante a Segunda Guerra Mundial, nas migrações que fez para fugir do nazismo. A luta de resistência dos povos indígenas, nos Estados Unidos, é também uma espécie de caminhada.

O povo guatemalteco tem marchas famosas. A revolução mexicana foi feita praticamente a pé. Pancho Villa no sul e Emiliano Zapata no norte ocuparam todo o território caminhando e lutando com seu exército camponês. Foram vitoriosos ao realizarem uma reforma agrária na marra, distribuindo as terras para quem nelas trabalhasse. Mas, atenção!, a reforma agrária mexicana deixou uma lição: não basta distribuir as terras; é preciso oferecer condições para manter os camponeses nela.

A marcha (caminhada) está presente em todas as matrizes e todos os matizes ideológicos e em todas as épocas. Sempre foi assim e sempre será. Mas talvez seja mesmo muito difícil de entender. E na sua ignorância algumas (muitas) pessoas acabem achando que a marcha dos Sem Terra é coisa de quem não tem nada o que fazer. Ah, tenha a santa paciência! Coisa de quem não tem nada o que fazer pra mim é outra coisa... 

Mas voltando ao Pedro Munhoz, mais que um caminhador o Pedro é um cantador. E, cá entre nós, já cantou em muito funeral de lavrador. Isto sim é difícil de entender: que nesta imensa nação ainda seja matar ou morrer por um pedaço de chão. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011



 PROCISSAO DOS RETIRANTES


Terra Brasilis, continente
Pátria-Mãe da minha gente,
Hoje eu quero perguntar:
- Se tão grandes são teus braços,
Por que negas um espaço
Aos que querem ter um lar?

Eu não consigo entender
Que nesta imensa nação
Ainda é matar ou morrer
Por um pedaço de chão!

Lavradores nas estradas
Vendo a terra abandonada
Sem ninguém para plantar
Entre cercas e alambrados
Vão milhões de condenados
A morrer ou mendigar

Eu não consigo entender
Achar a clara razão
De quem só vive pra ter
E ainda se diz bom cristão!

No Eldorado do Pará
Nome indio: Carajás
Um massacre aconteceu.

Nesta terra de chacinas,
Essas balas assassinas
Todos sabem de onde vêm

É preciso que a justiça
E a igualdade sejam mais
Que as Palavras de ocasião.

É preciso um novo tempo
Em que não seja só promessa
Repartir a terra e o pão
(a hora é essa de fazer a divisão!)

Eu não consigo entender
Que, em vez de herdar um quinhão,
Teu povo mereça ter
Só sete palmos de chão!

Pátria amada do Brasil,
De quem és, ó mãe gentil?
Eu insisto em perguntar
Dos famintos das favelas
Ou dos que desviam verbas,
Pra champagne e caviar?

Eu não consigo entender
Achar a clara razão
De quem só vive pra ter
E ainda se diz bom cristão!

Letra: Martim César
Música: Pedro Munhoz


PROCISSAO DOS RETIRANTES