domingo, 6 de setembro de 2026


paisagem da janela
[clique nos títulos para ver/ouvir]


tudo é circular
(e isso o sol sabe melhor do que ninguém)

facundo cabral


todo dia o sol levanta 
 e a gente canta 
 ao sol de todo dia

caetano veloso


sinto hoje em satolep
o que há muito não sentia
o limiar da verdade
roçando na face nua

vitor ramil


a invenção de morel

passei toda a manhã expondo-me a ser descoberto por qualquer pessoa que tivesse a coragem de se levantar antes das dez. ao que parece, tão modesto requisito para a calamidade não se cumpriu. durante o trabalho de juntar as flores, vigiei o museu e não vi nenhum de seus ocupantes; isso me permite supor que tampouco me viram. 
as flores são muito pequenas. terei que plantar milhares e milhares, se não quiser um jardinzinho ínfimo (seria mais bonito e mais fácil de fazer; mas há o perigo de que ninguém o veja).

apliquei-me a preparar os canteiros, a quebrar a terra (está dura, as superficies que planejei são muito vastas), a regar com água de chuva. quando tiver acabado de preparar a terra, terei que buscar mais flores. farei o possível para que não me surpreendam, sobretudo para que não interrompam o trabalho ou o vejam antes que esteja pronto. esqueci que, para os traslados de plantas, há exigência cósmicas. não posso crer que, depois de tanto perigo, de tanto cansaço, as flores não cheguem vivas até o pôr-do-sol.
careço de estética para jardins; de qualquer maneira entre a relva e os capinzais, o trabalho parecerá comovente. será uma fraude, naturalmente; de acordo com meu plano, hoje à tarde será um jardim cuidado, amanhã talvez esteja morto ou sem flores (se houver vento).

adolfo bioy casares


que fim levaram todas as flores?
que o preto velho me contava
que fim levaram todas as flores?
que a rainha louca não gostava
que a lapela morta carregava
que o olhar de todos me lembrava
que fim levaram todas as flores?
que qualquer coisa não estragava
em qualquer dia que podia
com grande amor e alegria
que fim levaram todas as flores?
que a criança às vezes me pedia

(secos & molhados, 1974)


grande sertão: veredas

sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso. o que queria e o que não queria, estória sem final. o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. o que ela quer da gente é coragem. o que deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito. por coragem. será? era o que eu às vezes achava. ao clarear do dia.
joão guimarães rosa 


«não posso continuar. vou continuar.»

samuel beckett


amanhã há de ser outro dia?
tomara que sim
mas acho que não
(a palavra diz não
mas a obra diz sim)
esperança
pra mim
só pra depois de amanhã
lá por 2050
2060
2070
quando muitos de nós já não estaremos mais aqui
aliás
melhor assim
espero que os que venham depois de nós
temam menos a morte
e mais a vida insuficiente
na nossa passagem por aqui
tivemos alguns assim
mais corajosos e determinados que nós
mas foram muito poucos
infelizmente


«criar é viver duas vezes.»

 albert camus

.
a noite de 12 anos
(e nós queríamos mudar o mundo)

o filme se concentra na história de três de nove guerrilheiros tupamaros presos e postos como «reféns» pelo regime ditatorial uruguaio: pepe mujica, mauricio rosencof e eleuterio fernández huidobro.

em uma palavra, o tema central de uma noite de 12 anos pode ser definido como resiliência – a capacidade emocional do indivíduo de resistir a eventos traumáticos.

é muito difícil imaginar que uma pessoa possa resistir por 12 longos anos sem poder se comunicar, preso em uma cela em condições cruéis, isolado em um cubículo apartado dos companheiros (cada um na sua solitária), com pouquíssima comida, água e nenhuma luz do sol. 
enfim, o filme, que não é um filme de ficção, é uma história real, é mais um exemplo de como certas pessoas, quando imbuídas de ideal e determinação, mesmo massacradas sob a extrema violência de estado e ou sufocadas sob a hipocrisia da sociedade e ou extremamente sensíveis às injusitças e crueldades do mundo, como ele é, acham alternativas para manter acesa a chama da esperança e da vida, sendo o que são. 


 (trailer oficial 1)

.

(trailer oficial 2)



ave pepe
ave ruso
ave ñato


o último poema para pepe mujica

«tu te lembras daqueles dias, pepe? vivemos onze anos isolados sob a terra, sem nos ver,
sem livros. reinventamos o código morse batendo com os dedos abrindo uma janelinha para
a vida nas paredes. se este fosse meu último poema, rebelde e triste, desgastado mas
inteiro, eu escreveria apenas uma palavra: companheiro»

maurício rosencof


«mais cadê meus cumpanhero cadê
qui cantava aqui mais eu, cadê
na calçada no terrero, cadê
cadê os cumpanhero meu cadê»

elomar


«são muito poucos os que ainda querem ser rebeldes»

celso borges


tudo é circular
e a roda é viva


outro dia eu tava assistindo um roda viva das antigas com o brizola. o seu antipetismo era tanto e tão pequeno que eu me senti reconfortado por jamais ter votado nele. meus votos para presidente foram sempre em lula. mas lula e o pt envelheceram...


«nossos ídolos ainda são os mesmos
e as aparências
não enganam não
você diz que depois deles
não apareceu mais ninguém
você pode até dizer
que eu 'tô por fora
ou então que eu 'tô inventando
mas é você que ama o passado
e que não vê
é você que ama o passado
e que não vê
que o novo sempre vem»


- quantos anos você tem, clint?
- 96.
- de que signo você é?
- gêmeos.
- que dia você nasceu?
- 31 de maio de 1930.
- o que você vai fazer?
- vou começar um novo filme.
- o que te faz continuar?
- eu me levanto todos os dias e não deixo o velho entrar.
- que horas você se levanta?
- antes do sol nascer.


pode ser até amanhã, sendo claro feito o dia
mas nada do que me dizem
me faz sentir alegria
só queria ter do mato um gosto de framboesa
pra correr entre os canteiros
e esconder minha tristeza

e eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
e deixemos de coisa, cuidemos da vida
pois senão chega a morte ou coisa parecida
e nos arrasta, moço, sem ter visto a vida

(manera fru fru, manera, 1973)


e a paisagem da janela?


com a palavra, robertinho brant: 

«fernando brant escreveu a letra dessa icônica música olhando através da paisagem da janela do escritório do seu pai e meu avô, dr. moacir pimenta brant. de lá ele viu o mundo. o escritório ficava no segundo andar da casa dos brant, na rua grão pará, 1092. lugar aonde inúmeras vezes eu visitei sorrateiramente quando criança. e onde eu passava inúmeras tardes mágicas e silenciosas, observando cada objeto, sentindo de perto a doce magia daquele ambiente misterioso. da janela daquele escritório eu também sonhei.»


da janela lateral do quarto de dormir
vejo uma igreja, um sinal de glória
vejo um muro branco e um voo pássaro
vejo uma grade, um velho sinal

(clube da esquina, 1972)


ao vento

o lugar não importa
casa de poeta não tem porta
se uma chave tranca
outra destranca

a chave é o amor
o amor é a chave
qual amor? 
o amor fati


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas