terça-feira, 1 de setembro de 2026


sol de primavera 
(para minha irmã)


«hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás»

che guevara


«guevara lê gullar
dentro da noite veloz
perto de la higuera, selva boliviana
em outubro de 1967
na quebrada do yuro são 13 e 30 horas»

celso borges | pequenos poemas viúvos, p. 61


«o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor»

che guevara


«os dois meninos
da capa do clube da esquina nº 1
nunca mais sentiram
aquele gosto de sol
das noites azuis de minas»

celso borges | pequenos poemas viúvos, p. 70


«o clube da esquina é essencialmente um trabalho coletivo. todos se davam as mãos quando o negócio era criar belezas. a letra de ronaldo bastos homenageia aqueles que lutaram e sonharam a liberdade. muitas das pessoas que eram amigas da turma do clube foram vítimas da covarde repressão que assolou o brasil. a música soa até hoje como um hino de amor, de liberdade e de esperança. uma luz que se acende. «mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer sol de primavera». o maravilhoso desenho da capa é do grande artista plástico gilberto de abreu.»

robertinho brant


já sonhamos juntos
semeando as canções no vento
quero ver crescer nossa voz
no que falta sonhar

já choramos muito
muitos se perderam no caminho
mesmo assim, não custa inventar
uma nova canção que venha nos trazer

sol de primavera
abre as janelas do meu peito
a lição sabemos de cor
só nos resta aprender

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música: beto guedes 
letra: ronaldo bastos 
álbum: sol de primavera
ano: 1979


a ternura e a bela cena
(fragmento)

por rubem alves 

a ternura 

pureza de coração é desejar uma só coisa”, definiu kierkegaard. a paixão vive disso: de uma única imagem que apaga todas as outras e faz o apaixonado enxergar beleza plena no ser amado. como no encontro do pequeno príncipe com a raposa, o amor começa quando colocamos uma metáfora poética no rosto do outro. não vemos o que vemos, vemos o que somos: esse olhar não busca a posse, mas a contemplação pura e a alegria da presença.

essa experiência estética se traduz na ternura, o exato oposto do sexo compulsivo que apenas busca o alívio imediato. quem ama sorri ao contemplar a amada dormindo sem sequer tocá-la, contendo a própria mão para não interromper a paz da cena. enquanto o sexo sem amor usa o outro como mero objeto, a ternura reside no olhar demorado que sorri diante do mistério e da beleza do ser amado.

mi camión en el camino y teresa en mi cabeza
por la ruta tres voy pensando en ella
que siempre me está esperando en avellaneda

yo que soy el jd de la ruta tres
cambié las mujeres por una mujer: teresa
yo que nunca llegue temprano a ninguna parte
voy corriendo por la ruta tres
porque la teresa me está esperando en avellaneda

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letra e música: facundo cabral
álbum: facundo secreto
ano: 1987

a bela cena

tomas não conhecia a experiência da paixão, apenas os prazeres do sexo. saciado o desejo, horrorizava-o a ideia de acordar ao lado de uma mulher; agia como um caçador que abandona a caça tão logo a fome é satisfeita. mas com tereza tudo foi diferente. sua aventura com tereza tinha começado exatamente onde terminavam suas aventuras com as outras mulheres. ela se desenrolara do outro lado do imperativo que o levava à conquista.

conhecera tereza acidentalmente num bar de cidadezinha do interior. dissera-lhe, quase como uma brincadeira, que se fosse à capital que o procurasse. e lhe dera o seu endereço. tereza foi e o procurou. chegara à capital doente e não sabia para onde ir. foi aí que a história de amor começou.

ela estava ardendo em febre, adormecera no sofá da sala, e ele não pudera levá-la de volta como fazia com as outras. para onde a levaria? ajoelhado à sua cabeceira ocorrera-lhe a ideia de que ela viera para ele numa cesta sobre as águas.

desde que tomas conhecera tereza, nenhuma outra mulher tinha o direito de deixar a marca, por efêmera que fosse, nessa zona do seu cérebro. agora, na memória poética de tomas, aquela cena permanecia imóvel, imperturbável, fora do tempo. era uma parte da sua alma. não morreria jamais.

«o que é que amo quando te amo?» tomas amava tereza porque amava nela uma outra coisa: aquela cena que repentinamente brilhara em sua imaginação. na cena, tereza não era tereza; era uma criança abandonada, levada pelas águas de um rio. e, de repente, ele deixou de ser tomas, o caçador – tornou-se um homem forte, que tomava aquela criança nos braços. tereza poderia deteriorar-se ou morrer. mas a cena permaneceria inalterada, suspensa na memória poética, como objeto de amor.


ojalá se te acabe la mirada constante
la palabra precisa la sonrisa perfecta
ojalá pase algo que te borre de pronto
una luz cegadora un disparo de nieve
ojalá por lo menos que me lleve la muerte
para no verte tanto para no verte siempre
en todos los segundos en todas las visiones
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones.

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letra e música: silvio rodríguez
álbum: al final de este viaje...
ano: 1969/1978


a insustentável leveza do ser

«quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes. o que escolher, então? o peso ou a leveza?»

milan kundera


«a verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza e com toda a liberdade em relação àqueles que não representam nenhuma força. o verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, situado num nível tão profundo que escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais.»

(idem)


«o acaso tem seus sortilégios, a necessidade não. para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se encontrem nele desde o primeiro instante como os pássaros nos ombros de são francisco de assis.»
(idem)


por mim mesmo


no último capítulo intitulado «o sorriso de karenin», tereza e tomas vendem quase tudo que possuem em praga e se mudam para o interior. o campo é a fuga deles. tereza está feliz. mas ela e tomas tiveram que romper com velhos costumes e velhos amigos em praga para viver uma nova vida. uma pequena aldeia, sem igrejas, bares, e o teatro mais próximo fica a quilômetros de distância.


tereza encontra trabalho cuidando das novilhas da fazenda coletiva. karenin (a cachorrinha) está mancando e, ao levá-la ao veterinário, descobre que ela sofre de um câncer. semanas depois, fica claro que o câncer de karenin está se espalhando. aqui o narrador diz que a bondade humana, se for realmente pura, só pode existir se o destinatário dessa bondade não tiver nenhum tipo de poder. assim, o verdadeiro teste moral da humanidade é a misericórdia que se mostra para com os animais.


vivendo na natureza, cercada de animais e árvores, tereza e tomas encontram a felicidade.


e, baltazar, o que diz?


dice baltazar que tiene que cuidar
100 gallinas 10 caballos 30 vacas y sembrar 
dice baltazar porque trabajo tanto 
si al final me estoy muriendo de tanto trabajar 
pero un dia baltazar escribio sobre un galpon 
unas frases muy cortitas que decian lo siguiente: 
"las tierras deben ser del que las siembra 
porque yo estoy dando todo y hay quien se lo lleva 
esto es para usted señor patron y como va a conocer su campo 
si esta sentado en un sillon con su esposa mirando television" 
pero un dia baltazar se fue sin avisar 
y cuando estaba ya muy lejos se dio vuelta por mirar 
porque escuchaba un ruido extraño y no sabia que podia ser 
...y eran todos los caballos todas las gallinas 
mariposas blancas y los gorriones y las vacas 
que seguian por detras a baltazar...

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música e letra: león gieco
álbum: la banda de los caballos cansados
ano: 1974


e minha irmã? 


quando voltei para a cidade
os primeiros dias foram de muito medo
e insegurança
muita luta interna contra os fantasmas
que estavam adormecidos
mas não mortos
um dia
na hora certa
quando tudo
dentro de mim
escurecia
minha irmã
de sangue e alma
envia-me uma mensagem
com as palavras certas
certas porque mágicas
certas porque proféticas


e a borra do café?


«só o acaso pode nos parecer uma mensagem. aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e se repete cotidianamente é coisa muda apenas. somente o acaso tem voz. tenta-se ler no acaso como as ciganas leem no fundo de uma xícara os desenhos deixados pela borra do café.»  


mas a mensagem da minha irmã
não foi mero acaso
a casualidade não existe
o que chamamos de acaso
surge das fontes mais profundas


mais uma xícara de café para seguir caminho
mais uma xícara de café antes de ir
para o vale profundo

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letra e música: bob dylan
álbum: desire
1975/1976


arte

girl with balloon (em português: garota com balão) 
autor: banksy
ano: 2002


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#casadosaedos
#américas