quinta-feira, 10 de setembro de 2026


de serra. de mar e de terra
(sem medo de ser feliz) 


eu sempre quis ser contente
eu sempre quis só cantar 
trazendo pra toda gente
vontade de se abraçar

eu tinha no sol mais quente
a terra pra me alegrar
e a serra florando em frente
lavava os seus pés no mar

mas um dia tudo mudou
a vida se transformou
e a nossa canção também

geraldo vandré


«diante do avanço do bolsonarismo, lula abraça destruidores da amazônia em busca da reeleição»

«alianças do pt no norte incluem uma intervenção em rondônia, que tentou sacrificar a candidatura da ativista neidinha suruí, e o apoio a candidatos que colaboraram para arruinar o licenciamento ambiental»

rafael moro martins
córrego do urubu, cerrado, brasília
27 de agosto de 2026

a força do bolsonarismo e a debilidade do partido dos trabalhadores na amazônia levam a campanha de reeleição do presidente luiz inácio lula da silva a abraçar candidatos e alianças com uma pauta inimiga da floresta. no caso mais extremo, em rondônia, a pressão por uma aliança com o pt fez o comando nacional do partido socialista brasileiro, o psb, intervir no diretório estadual e tentar ceifar a candidatura ao senado da ativista neidinha suruí, doutora em geografia que há mais de 40 anos atua na defesa dos povos originários amazônidas.

na quinta-feira, 13 de agosto, três dias antes do prazo final para o registro de candidaturas, um email chegou à noite ao diretório de rondônia. miguel só foi abri-lo na manhã seguinte. ele trazia anexada uma resolução, assinada por joão campos, «informando a dissolução do diretório, a anulação parcial da convenção, dizendo que a gente não lançaria nenhuma candidatura [para a eleição] majoritária [que escolhe governador e senadores], e determinando que a gente coligaria com o pt”, relata o presidente afastado da legenda. «a gente foi pego de surpresa», reforça neidinha suruí. 


para ler a íntegra 
clique no título

eleições 26
[direto do centro do mundo]


ao vento

tudo passa
só o passado não passa
preparar apontar fogo
sem fogo não há fumaça

grill


o trem

em 2005, eu trabalhava no cfc. lembro-me bem...memória que vai, memória que vem... vem daí a metáfora do trem. naquela época, sem as limitações da idade, eu caminhava pelas ruas da cidade, parava um pouco aqui, outro tanto ali, e a ladainha era uma só: mensalão, mensalão, mensalão. como eu sempre fui muito identificado com o pt, as pessoas esfregavam o jornal na minha cara: «explica aí, o que tu me diz disso aqui?».

digo aqui 
o que disse lá

certa vez me perguntaram o que eu achava do governo lula.
faz tempo, foi na época do mensalão.
enquanto pensava o que responder,
lembrei de uma entrevista de eduardo galeano.

nela, o escritor uruguaio relaciona governos progressistas da américa latina
— especificamente brasil e uruguai (antes de mujica) —
com um filme de groucho marx.

no filme,
groucho marx persegue um delinquente em um trem.
o trem vai ficando sem lenha.
ele persegue o delinquente e alimenta o forno da locomotiva.

em um dado momento, a lenha acaba.
com um machado,
ele começa a quebrar os vagões de madeira,
um atrás do outro,
para alimentar o forno.

o importante era chegar.
chegar, chegar ou chegar.

no final,
a lembrança de galeano é que groucho marx consegue chegar.
mas só a locomotiva chega.
todos os vagões foram sacrificados.

quando o trem chega,
chega sem trem.


falando em trem

o trem percorria um pedaço daquela província fria desde temuco até carahue. atravessava extensões imensas e desabitadas, sem cultivo, atravessava os bosques virgens, soava como um terremoto por túneis e pontes. as estações estavam ilhadas no meio do campo, entre acácias e madeiras floridas. os índios araucanos, com seus trajes rituais e sua majestade ancestral, esperavam nas estações para vender aos passageiros carneiros, galinhas, ovos e tecidos. meu pai sempre comprava algo com interminável regateio. com sua barbicha loura, erguia uma galinha em frente a uma araucana impenetrável que não baixava nem meio centavo o preço de sua mercadoria.

cada estação tinha um nome mais bonito, quase todos herdados das antigas possessões araucanas. essa foi a região dos combates mais encarniçados entre os invasores espanhóis e os chilenos nativos, filhos profundos daquela terra.

os araucanos, na guerra pela sua pátria, inventaram a tática da terra arrasada. não deixaram pedra sobre pedra de imperial, cidade descrita pelo poeta dom alonso de ercilla como bela e soberba.

pablo neruda | confesso que vivi, p. 14

já ressoam as votações,
são ouvidas sem parar,
mas o gemido do índio,
por que não se escutará?»

legendas + ilustração

[clique no título para ver e ouvir]

(violeta parra, 1961)

da contracapa de canto geral
(disco de geraldo vandré)

«desses tempos em que falar de árvores é quase um crime, pois implica em silenciar sobre tantos erros — aos que virão depois de mim.»

bertolt brecht

.

construindo casas ou pontes, igrejas ou hospitais, pintando, curando doentes, voando ou varrendo as ruas, fazendo política ou amor, morrendo e, porque não, matando, a vida importa somente pela doação que se faz dela, pelo sentido e pela direção. às vezes penso que cantando mereço um pouco a vida. saldo em parte os meus compromissos e tenho então, cada vez mais forte, a impressão da liberdade. por isso aprendo a cantar e canto.

neste disco a palavra geral tem de mim somente uma vontade muito grande de colocar-me sem pudores com o instrumento da comunicação de tudo que aprendi a ver, ouvir, pensar e sentir a respeito do meu tempo, do meu lugar e da gente que vive neles.

o sentido da palavra geral depende, afinal, do acerto no trabalho. das notícias e das emoções que ele possa trazer a cada um de nós e principalmente do uso que faremos delas.

é possível que este disco tenha custado a mim mesmo e a outras pessoas mais do que esperávamos, do que gostaríamos ou do que seria justo que custasse. mas eu tenho uma boa explicação: os critérios de justiça do mundo em que vivemos ainda estão muito longe de poder dar-nos uma certeza e uma garantia mínima do que seja verdadeiramente justo ou injusto.
geraldo vandré – março de 1968.

.

ps: «– vós que vireis na crista da onda em que nos afogamos, quando falardes de nossas fraquezas pensai também no tempo sombrio a que haveis escapado.»

bertolt brecht


meio e mensagem

quem me acompanha aqui pelo américas, deve ter percebido que, em cem por cento dos casos, meus posts vêm acompanhados de texto, imagem e música. obviamente que os três elementos estão intrinsecamente ligados, ou seja, um explica e complementa o outro.

é o caso deste post

na capa original do disco «canto geral», gravado pela emi-odeon em 1968 há duas imagens divididas por uma faixa onde consta o título do lp, em vermelho, e o nome de vandré, em preto. na parte superior, verde, há uma boiada sendo conduzida por um boiadeiro, o gado de cabeça baixa, segue a mesma direção. na parte inferior, amarelo, há um grupo de pessoas reunidas, de cabeça erguida, que olham para alguém ou para alguma coisa, o que é, não sei, mas é algo ou alguém que parece estar longe....

outro significado por trás deste lp, é o seu próprio nome. «canto geral» é o nome de um livro de poemas de pablo neruda lançado em 1950. comparado em importância à «divina comédia», de dante alighieri, ao «popol vuh» e à «folhas de relva», de walt whitman, «canto geral é «a grande canção da américa» — testemunha um grande amor ao chile e ao seu povo, e por extensão, a todos os povos latino-americanos, frequentes vítimas do despotismo.
«canto geral» conta uma história marginal da américa. é um livro de combate e de ternura. foi elaborado em circunstâncias adversas, quando neruda, perseguido, foi obrigado a transpor os andes e refugiar-se no estrangeiro.

é do próprio autor esta declaração: «naquele ano de perigo e clandestinidade terminei meu livro mais importante, o "canto geral"».

e assim nasceu essa magnífica obra: com a indelével marca do sofrimento.

falando em sofrimento


após a promulgação do ato institucional nº5, geraldo vandré teve que deixar o país, dando início ao seu exílio. ele permaneceu um tempo hospedado na casa de dona aracy, esposa de guimarães rosa e depois deu início a sua fuga para o chile, saindo pelo sul do brasil e passando depois pelo uruguai.

sua saída do país lhe causou enorme sofrimento...

e no vai e vem dos ventos
é assim que as coisas são
no mundo como ele é
nosso maior inimigo
somos nós mesmos


quem vai me escutar?
quem vai me entender?
ninguém pode mais sofrer

(geraldo vandré, 1964)


#salacheguevara
#casadosaedos
#américas


grill