só tem amor quem tem amor pra dar
(direto da sala che guevara da casa dos aedos)
••••••••••••••
«aedos eram poetas, cantores e músicos da grécia antiga que compunham e recitavam poemas épicos.
acreditavam receber inspiração direta das musas e da deusa memória para criar suas canções.
surgiram antes mesmo da escrita e do alfabeto, guardando e transmitindo o saber mitológico e histórico de cabeça.»
••••••••••••••
tarso de castro, presente
[por júlio cargnin filho]
polêmico, brigão e subversivo, tarso era daqueles «malditos» que fechava bares, alugava carros e aprontava em hotéis de luxo, ao melhor estilo «gonzo jornalismo». comprou brigas homéricas pelas redações que passou – com diretores e editores – mas nem mesmo os amigos mais próximos escapavam de seu temperamento tempestuoso.
um «enigma» sempre foi uma pulga atrás das orelhas de seus camaradas: o charme do maldito. mesmo desajeitado, feio, desleixado, descuidado consigo e sem onde ter para cair morto, teve relacionamentos com belas mulheres. de uma dessas aventuras, uma história bem ao «estilo tarso»: seu namoro com a atriz estadunidense candice bergen.
o jornalista adorava exibir à atriz uma fotografia pessoal ao lado do revolucionário argentino che guevara. já a atriz, se vangloriava de ter namorado um «guerrilheiro que participou da revolução cubana».
após 30 anos ininterruptos de consumo de álcool e sua oitava hemorragia interna, tarso foi tomar seu scotch em outro universo. o dia: 20 de maio de 1991. uma morte que não surpreendeu os mais próximos, pois ele mesmo pregava que «após os 40 anos a vida não teria mais graça». viveu nove a mais do que o limite que queria.
nas palavras de otto lara resende: «tarso tinha defeitos visíveis e qualidades nem sempre visíveis, sobretudo para quem o via de longe, ou o sofria de perto».
••••••••••••••
a casa dos aedos
nessas condições, se nos perguntassem qual o benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz. só os pensamentos e as experiências sancionam os valores humanos. ao devaneio pertencem valores que marcam o homem em sua profundidade. o devaneio tem mesmo um privilégio de autovalorização. ele usufrui diretamente de seu ser. toda pessoa deveria, portanto, falar de suas estradas e encruzilhadas, de seus sucessos e fracassos.
gaston bachelard, em a terra e os devaneios do repouso
••••••••••••••
tarso de castro
[por tom cardoso]
tarso de castro, recém-chegado a salvador, liga para o amigo de copo joão ubaldo ribeiro:
- o que manda, tarso?
- tô aqui, vem cá me ver!
- onde você está?
- no hotel meridien.
- porra, então vem você pra cá, é perto.
- não posso. estou aqui com a (falando baixinho)...candice bergen.
- com quem? não ouvi.
- estou aqui com a (sussurando).. candice bergen.
- tarso, vou abaixar o som e você me diz com quem você está.
- vai logo.
- pronto, diga.
- estou aqui com a can-di-ce ber-gen.
joão ubaldo conta: «eu resolvi ir, com a certeza de que o tarso estava aprontando alguma escrotidão. mas eu adorava ele, peguei o meu fusca e fui até o meridien. quando eu cheguei lá a candice estava sentada, com as pernas esticadas, despojada, sem maquiagem, mas bonita como sempre foi, uma mulher enorme. me lembro que ela tinha um pezão imenso, porque foi a primeira coisa que eu vi: ela relaxada, com o pé pra cima de uma cadeira e o tarso atrás, radiante, andando de um lado para o outro, com os braços abertos, em transe absoluto»
descobertos pelos colunistas sociais de salvador, tarso e candice deixaram de ir à praia e passaram o resto da «lua-de-mel» trancados no meridien.
jantaram lagosta e camarão todos os dias, acabaram com o estoque de vinho, uísque e champagne do hotel.
no dia de encerrarem a conta, candice chamou joão ubaldo, que estava lá para levá-los ao aeroporto, e fez um pedido ao escritor:
- ubaldo, eu sei que o tarso gosta muito de você e tenho certeza que ele vai te ouvir.
- me diga, candice, o que houve?
- eu sei que o tarso é duro. e sei também que ele não vai me deixar pagar a conta do hotel. é muito orgulhoso. quero que você o convença de que isso tudo é bobagem, que eu sou rica e pago tudo sem problema nenhum. faz isso por mim?
ubaldo foi falar com tarso, já caminhando em direção ao guichê do hotel.
- tarso, a moça faz questão de pagar a conta...
- nada disso. eu pago essa merda!!!
a conta era um absurdo, algo equivalente a um mês de bebedeira no antonio’s.
tarso não perdeu a pose. puxou a carteira do bolso e, quando estava preparando para assinar mais um cheque sem fundo para a sua coleção, foi interrompido pelo gerente do hotel:
- senhor. em nome do hotel meridien queria agradecer a presença do senhor e da senhorita candice bergen. ficamos gratos pela preferência. as despesas são por nossa conta.
tarso, para desespero de joão ubaldo, ainda fez charme:
- não senhor. eu faço questão de pagar tudo. fomos muito bem tratados aqui.
- meu senhor, aceite a nossa gentileza em nome da boa hospitalidade baiana.
- se o senhor faz questão...
a atriz, completamente apaixonada, bancou todas as viagens de tarso a nova york.
o jornalista, porém, se queixara aos amigos que, por mais que tentasse, não conseguia dedicar-se apenas a uma grande paixão.
candice cansou de ser esnobada e casou anos depois com o cineasta francês louis malle, baixinho, porém atencioso.
tom jobim tentou consolar tarso:
«não fique assim, meu caro, dos malles, o menor!».
.
há várias versões sobre a noite em que tarso conquistou candice na varanda do antonio's. alguns juram ter visto o jornalista entrar correndo no restaurante, ajoelhar-se aos pés da atriz e beijá-la dos pés à cabeça sem a menor cerimônia. outros dizem que a abordagem foi um pouco mais sutil: com um buquê na mão esquerda e um urso de pelúcia na direita (doado na última hora pela mãe da promoter ana maria tornagui), o jornalista disse meia dúzia de palavras em inglês e conquistou a moça.
uma terceira versão é sustentada por amigos mais próximos a tarso. candice interessou-se por ele no antonio's mas só se apaixonou de verdade depois que viu o seu retrato ao lado de che guevara, tirado durante a cobertura da conferência econômica e social da oea, em punta del este, em 1961. rápido no gatilho, o jornalista teria dito à atriz que lutara ao lado de guevara e fidel castro durante a revolução cubana --- contou (provavelmente fazendo gestos) os apuros que ele e os dois líderes comunistas passaram juntos nas montanhas de sierra maestra, semanas antes de entrarem triunfantes para tomar havana do ditador fulgêncio batista. candice teria ouvido a história com lágrimas nos olhos e se apaixonado perdidamente.
••••••••••••••
- e o teu pai?
- meu pai era um aedo. um homem sem medo.
herdei dele, além do nome, o gosto pelas viagens.
nas viagens que fazíamos - e fizemos muitas juntos - meu pai, um brizolista de quatro costados, sempre contava da vez que foi a punta del este para ver e ouvir o che. eu adorava.
às vezes ele esquecia
mas eu sempre lembrava
e pedia
••••••••••••••
papá cuéntame otra vez esa historia tan bonita
de aquel guerrillero loco que mataron en bolivia
papá cuéntame otra vez | daniel serrano / ismael serrano, 1997
••••••••••••••
acho que já contei essa história. mas vou contar de novo. não custa nada --- pelo contrário, é uma forma de recordar. do latim re-cordis: voltar a passar pelo coração.
passei a vida ouvindo meu pai contar da vez que esteve com o che em punta del este, junto com brizola e flávio tavares, durante a conferência pan-americana promovida no uruguai, em 1961.
é uma pena que eu não seja bom o suficiente com as palavras para descrever o brilho nos olhos do meu pai cada vez que me contava a mesma história. o brilho era tanto que eu pensava que aquilo era verdade, não podia ser mentira.
até que um dia resolvi comentar com minha mãe sobre o encontro do meu pai com o che. minha mãe ficou surpresa, disse que não sabia de nada. falou com os familiares e ninguém se lembrava de viagem alguma.
no dia seguinte, no café da manhã, minha mãe perguntou:
- enilton, que história é essa da tua viagem ao uruguai pra encontrar o che guevara? falei com todo mundo e ninguém sabe nada dessa tal viagem...
meu pai respondeu:
- ninguém sabe de nada porque não era pra saber mesmo. foi uma viagem clandestina...
meu pai faz falta, muita falta. e não só para mim, mas para o mundo. as pessoas, hoje em dia, ou estão agarradas às suas verdades ou entregues às suas mentiras.
passei a vida ouvindo meu pai contar da vez que esteve com o che em punta del este, junto com brizola e flávio tavares, durante a conferência pan-americana promovida no uruguai, em 1961.
é uma pena que eu não seja bom o suficiente com as palavras para descrever o brilho nos olhos do meu pai cada vez que me contava a mesma história. o brilho era tanto que eu pensava que aquilo era verdade, não podia ser mentira.
até que um dia resolvi comentar com minha mãe sobre o encontro do meu pai com o che. minha mãe ficou surpresa, disse que não sabia de nada. falou com os familiares e ninguém se lembrava de viagem alguma.
no dia seguinte, no café da manhã, minha mãe perguntou:
- enilton, que história é essa da tua viagem ao uruguai pra encontrar o che guevara? falei com todo mundo e ninguém sabe nada dessa tal viagem...
meu pai respondeu:
- ninguém sabe de nada porque não era pra saber mesmo. foi uma viagem clandestina...
meu pai faz falta, muita falta. e não só para mim, mas para o mundo. as pessoas, hoje em dia, ou estão agarradas às suas verdades ou entregues às suas mentiras.
••••••••••••••
aquí se queda la clara
la entrañable transparencia
de tu querida presencia
comandante che guevara
hasta siempre | carlos puebla (1965)
canta: nathalie cardone
[con letra e imagens]
••••••••••••••
poema-carta de ernesto che guevara a sua esposa aleida march
amor: chegou o momento de te enviar um adeus com aroma a campo santo (a hojarasca, a algo distante e não utilizado). queria fazê-lo com estas folhas que caem e são frequentemente chamadas de poesia, mas fracassei; eu tenho tantas coisas íntimas para teu ouvido mas a palavra torna-se carcereira e a poesia não é o meu forte. eu não sou poeta. eu não sirvo para o nobre ofício de escrever poemas. não que eu não tenha coisas doces. se você soubesse das que se agitam dentro de mim. mas é tão longo, cheio de voltas e estreito o caracol que as contêm, que saem cansadas da viagem, mal humoradas, esquivas, e as mais doces são tão frágeis! saem despedaçadas no caminho, vibrações dispersas, nada mais. careço de condução, teria de desintegrar-me para te dizer de uma só vez. usemos as palavras com um sentido cotidiano e fotografemos o momento.
acabaram-se os cantos das sereias e os embates interiores; se ergue a fita para minha última corrida. a velocidade será tanta que escapará todo grito. o passado acabou; eu sou um futuro a caminho. não me chame, não te escutaria; só posso ruminar-te (no sentido de pensar profundamente em alguém) em dias de sol sob a renovada carícia de balas […] lançarei um olhar em espiral, como a volta que o cão dá para descansar, e lhes tocarei com meu olhar, um a um e todos juntos. se um dia você sentir a imposição de um forte olhar, não se vire, não quebres o encanto, continue coando meu café e deixe-me viver para sempre no momento perene.
não obstante,
no labirinto mais fundo do caracol taciturno
se unem e repelem os pólos do meu espírito:
tu e todos.
os todos me exigem a entrega total,
que a minha solitária sombra escureça o caminho!
mas, sem burlar as normas do amor sublimado,
te guardo escondida no meu alforge de viagem.
(te levo no meu alforge de viajante insaciável
como o pão nosso de todos os dias.)
saio para edificar as primaveras de sangue e argamassa
e deixo, no vão da minha ausência,
este beijo sem domicílio conhecido.
mas não me anunciaram o lugar reservado
no desfile triunfal da vitória
e a vereda que conduz ao meu caminho
está cercada de sombras agourentas.
se me destinam ao escuro lugar dos cimentos,
guarda-o no arquivo nebuloso da lembrança;
usa-o em noites de lágrimas e sonhos...
adeus , minha única,
não temas ante a fome dos lobos
nem no frio estepario da ausência;
do lado do coração te levo
e juntos seguiremos até que o caminho se desvaneça.
••••••••••••••
já ia embora, mas me lembrei de mais uma
••••••••••••••
quando eu ainda era jovem, meu pai me imaginava hermano henning --- hermano henning, o correspondente internacional da globo ---, sim, estamos nos anos 80. naquela época, eu não me imaginava escritor, eu me imaginava jornalista. ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são: gosto de escrever mas não sou jornalista --- comecei a faculdade mas não terminei.
em cada esquina tinha um bar,
tinha um bar em cada esquina
mas nem tudo se perde, alguma coisa sempre fica. livros, por exemplo. quem tem um livro é como se tivesse sempre um mestre ao alcance de sua mão. o mestre em questão chama-se «comunicação, memória & resistência», de pedro g. gomes / linda bulik / c. piva (orgs.). foi com ele que aprendi, por exemplo, o significado da sigla «aida»:
a (atenção),
i (interesse),
d (desejo),
a (adquirir).
a sigla por si só já diz tudo,
mas amor é tudo o que move
e o que me move é ir além...
••••••••••••••
hoje existe tanta gente que quer nos modificar
não quer ver nosso cabelo assanhado com jeito
nem quer ver a nossa calça desbotada, o que é que há?
se o amigo está nessa ouça bem, não tá com nada!
só tem amor quem tem amor pra dar | sá, rodrix & guarabyra (1973)
••••••••••••••
o processo da publicidade, sintetizado pela sigla «aida», implica em:
captar a atenção (a)
despertar o interesse (i)
provocar o desejo (d)
vontade de adquirir (a)
no brasil há um aparelho de tv por habitante.
mais de 90% das redes de tv no brasil são controladas por consórcios de publicidade.
a publicidade não busca apenas convencer, ela busca - e invariavelmente consegue - distorcer a realidade do mundo em que se vive.
ou seja, ela cria pseudopersonalidades, e o homem as assume usando as máscaras simbólicas que são os produtos:
a casa, o automóvel, a roupa, o alimento, a bebida, o shampoo
tudo o que lhe é imposto e que dá ao indivíduo uma imagem de si mesmo de acordo com o que ele desejaria ser
ou o que os outros gostariam que ele fosse
ou o que a sociedade exige que ele seja
mas que ele não é e nem pode ser
e é por essas e outras
que tem muita poeira que vira ouro
e muito ouro que vira pó
••••••••••••••
o pó da estrada gruda no meu rosto,
como a distância, matando as palavras,
na minha boca sempre o mesmo assunto,
o pó da estrada.
https://www.youtube.com/watch?v=mggILxtBBzQ&list=RDmggILxtBBzQ&start_radio=1
o pó da estrada | sá, rodrix e guarabyra 1973
como a distância, matando as palavras,
na minha boca sempre o mesmo assunto,
o pó da estrada.
https://www.youtube.com/watch?v=mggILxtBBzQ&list=RDmggILxtBBzQ&start_radio=1
o pó da estrada | sá, rodrix e guarabyra 1973
••••••••••••••
enfim, a verdade é que o tempo não para. as coisas acontecem muito rápido na vida da gente. mas as pegadas para estarmos onde estamos e sermos o que somos estão por aí... desenterrá-las e decifrá-las depende de muita coisa... uma delas é saber onde procurá-las.
pra quem tem mais de 60, como eu, talvez seja mais fácil
pois antigamente tudo marcava e deixava marca
que o digam as calças desbotadas
que usei e ainda uso
e os mortos e desaparecidos
que chorei e ainda choro
••••••••••••••
olá, como vai?
eu vou indo, e você, tudo bem?
tudo bem, eu vou indo correndo
pegar meu lugar no futuro, e você?
tudo bem, eu vou indo em busca
de um sono tranquilo, quem sabe?
quanto tempo, pois é, quanto tempo
me perdoe a pressa
é a alma dos nossos negócios
pô, não tem de quê
eu também só ando a cem
quando é que você telefona?
precisamos nos ver por aí
pra semana, prometo
talvez nos vejamos, quem sabe?
quanto tempo, pois é, quanto tempo
tanta coisa que eu tinha a dizer
mas eu sumi na poeira das ruas
eu também tenho algo a dizer
mas me foge à lembrança
por favor, telefone, eu preciso beber
alguma coisa rapidamente
pra semana, o sinal
eu procuro você, vai abrir, vai abrir
prometo, não esqueço
por favor não esqueça, não esqueça
não esqueço, adeus
sinal fechado | paulinho da viola (1969)
canta: chico buarque
••••••••••••••
por falar em sinal fechado, é preciso que os doutores e mestres, formados em sociologia nas universidades brasileiras, saibam que há coisas que a universidade não ensina.
uma delas, por exemplo, é a sequência de luzes e cores do semáforo. você sabia que antes do verde vem o vermelho e que o amarelo vem antes do vermelho e o vermelho depois do amarelo?
outra é o tempo em que as luzes ficam acesas, definido por um técnico de tráfego de acordo com o movimento de cada rua. a luz verde, por exemplo, fica mais tempo acesa na rua de maior movimento e menos tempo na rua de menor movimento...
- entendeu?
- não.
- eu também não.
meu negócio é outro
preciso de campo aberto
pra dar certo
sim, era assim que eu pensava quando tinha uns 17, 18 anos de idade. naquela época, eu tinha desistido de estudar e meu pai me deu uma lavoura de arroz pra cuidar. tinha tudo pra dar errado... e deu mesmo. meu pai me deu um calhamaço de notas pra organizar e eu passava o dia na lavoura, atrás de uma pá pra cavar.
••••••••••••••
canoa foi rio acima
canoa não volta mais
foi só um sonho bonito
e a vida não volta atrás
canoa não volta mais
foi só um sonho bonito
e a vida não volta atrás
canoa | almir sater - renato teixeira (1989)
••••••••••••••
- fala sério...
- tô falando.
- então conta mais da faculdade
- da faculdade ficaram os livros
- só os livros? e o resto?
o resto foi passageiro
se perdeu pelo caminho
sumiu no pó da estrada
quando peguei carona com jesus numa moto
••••••••••••••
sob a luz da lua
mesmo com sol claro
não importa o preço que eu pague
o meu negócio é viver
mesmo com sol claro
não importa o preço que eu pague
o meu negócio é viver
jesus numa moto | sá rodrix guarabyra (2000)
(legendado)
••••••••••••••
ah, conta outra...
tá bem, vou contar
conta galeano que, quando era criança
sua avó lhe contou a fábula dos cegos e o elefante.
três cegos estavam diante do elefante.
um deles apalpou a cauda do animal e disse:
- é uma corda.
outro acariciou uma pata do elefante e opinou:
- é uma coluna.
o terceiro cego apoiou a mão no corpo do elefante e adivinhou:
- é uma parede.
assim estamos: cegos de nós, cegos do mundo.
desde que nascemos somos treinados para ver o mundo como dizem que ele é, não como queremos ou imaginamos que ele possa ser.
••••••••••••••
- não entendi.
- tá bem, vou explicar
••••••••••••••
quando eu era guri,
vivia pedindo para o meu pai contar história.
história de criança.
mas ele não contava.
acho que não gostava.
ou não queria.
ou não sabia.
hoje eu até entendo:
acho que ele não achava graça.
graça ele achava contando história do che e do brizola.
dizia que o brizola não teria perdido para o collor
do jeito que o lula perdeu.
hoje, lembrando uma e outra discussão,
me dói o coração.
digo agora o que não disse antes:
que talvez meu pai tivesse razão.
agora é tarde.
tá vendo essa foto em que estou tocando gaita de boca?
o sopro sai,
mas a cena é muda.
meu pai já não pode escutar.
o che está morto e a mim não me resta mais que o silêncio.
calo-me então.
••••••••••••••
de volta ao título
[só tem amor quem tem amor pra dar]
••••••••••••••
fiz um relato da foto
e enviei as quatro linhas finais para o gemini (ia)
a resposta da ia (inteligência artificial) para o significado da falta de esperança é a seguinte:
«não ter esperança pode ser uma resposta natural a situações pessoais e mundiais, mas não precisa ser permanente. a falta de esperança pode levar a sentimentos de desânimo, apatia, medo e ansiedade, que podem culminar em depressão.
esperança é um sentimento importante que contribui para a saúde mental.
pessoas esperançosas têm um humor mais positivo e uma atitude otimista, o que melhora a qualidade de vida.»
••••••••••••••
só tem esperança quem tem esperança pra dar
a resposta da ia acabou com o fio de esperança que eu tinha. aliás, ao contrário do que diz a «ia» e do que pensa a maioria das pessoas, não creio que ter esperança seja algo saudável, pelo contrário, quanto menos esperança eu tenho, mais eu escrevo, e quanto mais eu escrevo, menos eu durmo, e quanto menos eu durmo, mais coisas eu faço, e quanto mais coisas eu faço, menos eu morro, e quanto menos eu morro, mais eu vivo, e quanto mais eu vivo, menos esperança eu tenho.
só tem esperança quem tem esperança pra dar
a resposta da ia acabou com o fio de esperança que eu tinha. aliás, ao contrário do que diz a «ia» e do que pensa a maioria das pessoas, não creio que ter esperança seja algo saudável, pelo contrário, quanto menos esperança eu tenho, mais eu escrevo, e quanto mais eu escrevo, menos eu durmo, e quanto menos eu durmo, mais coisas eu faço, e quanto mais coisas eu faço, menos eu morro, e quanto menos eu morro, mais eu vivo, e quanto mais eu vivo, menos esperança eu tenho.
••••••••••••••
tenho
tenho, vamos ver,
que já aprendi a ler,
a contar,
tenho que já aprendi a escrever
e a pensar
e a rir.
tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
tenho, vamos ver,
tenho o que tinha que ter.
nicolás guillén, 1964
tenho, vamos ver,
que já aprendi a ler,
a contar,
tenho que já aprendi a escrever
e a pensar
e a rir.
tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
tenho, vamos ver,
tenho o que tinha que ter.
nicolás guillén, 1964
••••••••••••••
vivemos a ditadura da esperança. somos escravos da esperança. o sistema se alimenta de esperança. só tem esperança quem tem esperança pra dar. não devemos dar esperança. se algum dia vencermos terá sido porque acordamos e levantamos, não porque dormimos e esperamos.
grill
••••••••••••••
agora escrevo pássaros
agora escrevo pássaros.
não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe, o amor.
cortázar
agora escrevo pássaros.
não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe, o amor.
cortázar
••••••••••••••
cortázar comenta a morte do che, em 1967
••••••••••••••
paris, 29 de outubro de 1967,
roberto, adelaida, meus muito queridos:
roberto, adelaida, meus muito queridos:
quero dizer-te isto: não sei escrever quando algo me dói tanto, não sou, não serei nunca o escritor profissional pronto a produzir o que se espera dele, o que lhe pedem ou o que ele pede a si mesmo desesperadamente. a verdade é que a escrita, hoje e diante disto, parece-me a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de dissimulação quase, a substituição do insubstituível.
o che está morto e a mim não me resta mais que silêncio.
o che está morto e a mim não me resta mais que silêncio.
calo-me então.
recebeste, espero, a mensagem que te enviei. era minha única maneira de abraçar-te, a ti e a adelaida, a todos os amigos da casa. e para ti também é isto, o único que fui capaz de fazer nestas primeiras horas, isto que nasceu como um poema e que quero que tenhas e que guardes para que estejamos mais juntos.
che
eu tive um irmão.
não nos vimos nunca
porém não importava.
eu tive um irmão
que ia pelos montes
enquanto eu dormia.
quis-lhe a meu modo,
tomei-lhe sua voz
livre como a água,
caminhei às vezes
próximo de sua sombra.
não nos vimos nunca
porém não importava,
meu irmão acordado
enquanto eu dormia,
meu irmão mostrando-me
por trás da noite
sua estrela eleita.
logo nos escreveremos.
eu tive um irmão.
não nos vimos nunca
porém não importava.
eu tive um irmão
que ia pelos montes
enquanto eu dormia.
quis-lhe a meu modo,
tomei-lhe sua voz
livre como a água,
caminhei às vezes
próximo de sua sombra.
não nos vimos nunca
porém não importava,
meu irmão acordado
enquanto eu dormia,
meu irmão mostrando-me
por trás da noite
sua estrela eleita.
logo nos escreveremos.
abraça forte a adelaida.
até sempre, julio
••••••••••••••
de volta ao começo
••••••••••••••
«que tenho eu que hablarte comandante
se o poeta és tu»
••••••••••••••
historia de un hermano
por julio cortázar
••••••••••••••
#américas
