mariposas
[borboletas]
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hoy viene a ser como la cuarta vez que espero
desde que sé que no vendrás más nunca.
he vuelto a ser aquel cantar del aguacero
que hizo casi legal su abrazo en tu cintura.
y tú apareces en mi ventana,
suave y pequeña, con alas blancas.
yo ni respiro para que duermas
y no te vayas.
silvio rodríguez
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as casas de neruda
por eduardo galeano
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neruda/1
fui a isla negra, à casa que foi, que é, de pablo neruda.era proibido entrar. uma cerca de madeira rodeava a casa. lá as pessoas tinham gravado seus recados para o poeta. não tinham deixado nenhum pedacinho de madeira descoberta. todos falavam com ele como se estivesse vivo. com lápis ou pontas de pregos, cada um tinha encontrado sua maneira de dizer-lhe: obrigado.eu também encontrei, sem palavras, a minha maneira. e entrei sem entrar. e em silêncio ficamos conversando vinhos, o poeta e eu, caladamente falando de mares e amares e de alguma poção infalível contra a calvície. compartilhamos camarões ao pil-pil e uma prodigiosa torta de jaibas e outras dessas maravilhas que alegram a alma e a pança, que são, como ele sabe muito bem, dois nomes para a mesma coisa.várias vezes erguemos taças de bom vinho, e um vento salgado golpeava nossas caras, e tudo foi uma cerimônia de maldição da ditadura, aquela lança negra cravada em seu torço, aquela puta dor enorme, e foi também uma cerimônia de celebração da vida, bela e efêmera como os altares de flores e os amores passageiros.
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neruda/ 2
aconteceu em la sebastiana, outra casa de neruda, debruçada sobre a montanha, sobre a baía de valparaíso. a casa estava fechada à pedra e cal, com tranca e cadeado e debaixo de sete chaves, habitada por ninguém, fazia muito tempo.os militares tinham usurpado o poder, o sangue tinha corrido pelas ruas, neruda estava morto de câncer ou de dor. e então uns ruídos estranhos, no interior da casa fechada, chamaram a atenção dos vizinhos. alguém chegou perto e viu, por um janelão alto, os olhos brilhantes e as garras de ataque de uma águia inexplicável. a águia não podia estar ali, não podia ter entrado, não tinha por onde entrar, mas estava lá dentro; e lá dentro agitava violentamente as asas.
o livro dos abrazos, pp 36 e 37
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santiago do chile, 1973
no meio da devastação, em sua casa também despedaçada a golpes de machado, jaz neruda. sua morte não era suficiente, por ser neruda homem de muito sobreviver, e os militares assassinaram também suas coisas; transformaram em lascas de madeira sua cama feliz e sua mesa feliz, estriparam seu colchão e queimaram seus livros, arrebentaram os lustres e suas garrafas coloridas, suas cerâmicas, seus quadros, seus caracóis. arrancaram os ponteiros do seu relógio de parede; e no retrato de sua mulher, cravaram uma baioneta, num olho.de sua casa arrasada, inundada de água e barro, o poeta parte para o cemitério. parte escoltado por um cortejo da amigos íntimos, encabeçados por matilde urrutia. ele tinha dito a ela: «foi tão belo viver quando você vivia.quarteirão após quarteirão, o cortejo cresce. de todas as esquinas soma-se pessoas, que se põem a caminhar apesar dos caminhões militares cheios de metralhadoras como pontas de um espinheiro, e de guardas e soldados que vão e vêm, em motocicletas e carros blindados, fazendo ruído, metendo medo. atrás de uma janela, uma mão saúda. no alto de um terraço, ondula um lenço. hoje faz doze dias do golpe, doze dias de calar e morrer, e pela primeira vez ouve-se a internacional no chile, a internacional sussurrada, gemida, soluçada mais que cantada, até que o cortejo se faz procissão e a procissão se faz manifestação, e o povo que caminha contra o medo, desanda a cantar pelas ruas de santiago a viva voz, com voz inteira, para acompanhar como se deve neruda, o poeta, seu poeta, em sua viagem final.
o século do vento (memória do fogo), p. 255
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companheiros, sepultem-me em isla negra,
frente ao mar que conheço, a cada área rugosa
de pedras e de ondas que meus olhos perdidos não voltarão a ver.
ali quero dormir entre as pálpebras do mar e da terra...
quero ser arrastado para o fundo pelas chuvas que o selvagem
vento do mar combate e desintegra, e depois, pelos leitos subterrâneos,
seguir em direção à primavera profunda que renasce.
[clique no título para ver e ouvir]
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inicial
o dia não é hora por hora,
é dor por dor,
o tempo não se dobra,
não se gasta,
mar, diz o mar,
sem trégua,
terra, diz a terra,
o homem espera.
e só
seu sino
está ali entre os outros
guardando em seu vazio
um silêncio implacável
que se repartirá
quando levante sua língua de metal
onda após onda.
de tantas coisas que tive,
andando de joelhos pelo mundo,
aqui, despido,
não tenho mais que o duro meio-dia
do mar, e um sino.
eles me dão sua voz para sofrer
e sua advertência para deter-me.
isto acontece para todo o mundo,
continua o espaço.
e vive o mar.
existem os sinos.
pablo neruda
(do livro póstumo o mar e os sinos, 1973)
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«no sino do templo repousa uma borboleta»
yosa buson
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qué maneras más curiosas
de recordar tiene uno,
qué maneras más curiosas:
hoy recuerdo mariposas
que ayer sólo fueron humo.
mariposas, mariposas
que emergieron de lo oscuro
bailarinas, silenciosas.
tu tiempo es ahora una mariposa,
navecita blanca, delgada, nerviosa.
siglos atrás inundaron un segundo
debajo del cielo, encima del mundo.
así eras tú en aquellas tardes divertidas,
así eras tú de furibunda compañera.
eras como esos días en que eres la vida
y todo lo que tocas se hace primavera.
ay, mariposa: tú eres el alma
de los guerreros que aman y cantan
y eres el nuevo ser que se asoma por mi garganta.
silvio rodríguez + rey guerra
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(mariposas, 1999)
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