segunda-feira, 7 de setembro de 2026


pátria mãe


«o brasil não tem povo, apenas público. povo luta por seus direitos, público assiste de camarote»

lima barreto

sabe a sensação de que nunca essa porra vai dar certo?
é feita pra dar defeito
pra ficar em aberto
a coisa de dar um jeito
a edição de um decreto
a mancha do preconceito
a falta de um papo reto

(celso viáfora e pedro viáfora, 2026)

«no cemitério dos vivos
lima barreto passa dias e noites
chamando os lobos
para não dormir sozinho»

celso borges

e agora o que faremos?
oosição. a posição da poesia
é oposição. o poeta que o diga.

revestres: você ainda acredita que a posição da poesia, como expressou em performance pelo brasil, é realmente a oposição?

celso borgs: sim, cada vez mais. o sentido da oposição poética é muito mais amplo. para mim, a posição da poesia é de enfrentamento político, de luta como cidadão e criador, não apenas partidária. a estrutura não gosta da gente, às vezes finge que gosta ou nos tolera. na verdade, prefere «poetinhas civilizados», domados, acadêmicos, e eu procuro na contramão disso.

pra não dizer que não falei de flores


circula pela internet um texto de martha medeiros que me foi enviado recentemente. gostei do que li. penso ser fundamental que escritores com espaço na grande mídia se posicionem a favor de lula e contra bolsonaro. ademais, trata-se de um texto politicamente correto e extremamente bem escrito, como é a maioria da obra da escritora gaúcha.


ponto.
nova linha.


brasil, 13 de dezembro de 1968

nesse dia é decretado o ato institucional nº 5 – o famoso e temido ai 5 – medida extrema do regime militar que lança o país numa longa e escura noite. vinicius de moraes está em lisboa para uma apresentação. os repórteres portugueses, embaralhando nomes e informações, conseguem lhe dizer o essencial. vinicius fica sem reação. o olhar é distante.

à noite, mesmo abatido, cumpre seu papel no teatro. portugal ainda está sob o regime férreo de marcelo caetano. a rádio e televisão portuguesa manda uma equipe para o teatro para fazer uma gravação do show. vinicius não se intimida.

no final, antes de dizer o último poema e cantar a última música, o poeta interrompe o show: «eu hoje gostaria de dizer a vocês umas palavras de muita tristeza. no meu país foi instaurado, hoje, o ato institucional nº 5. pessoas estão sendo perseguidas, assassinadas, torturadas. por isso, quero ler um poema.»

o poeta abre um exemplar de sua antologia poética, guardado sob a garrafa de uísque e, enquanto baden powell começa a dedilhar o hino nacional brasileiro, vinicius lê: «a minha pátria é como se não fosse, é íntima/ doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo/ é minha pátria. por isso, no exílio/ assistindo dormir meu filho/ choro de saudades da minha pátria».

trata-se do magnífico «pátria minha», um dos mais belos poemas escritos por vinicius de moraes. a plateia se extasia diante de versos como esses: «não te direi o nome, pátria minha/ teu nome é pátria amada, é patriazinha/ não rima com mãe gentil/ vives em mim como uma filha que és/ uma ilha de ternura: a ilha/ brasil, talvez».

a leitura de «pátria minha» ficará na memória dos portugueses como uma das mais bem acabadas expressões que puderam conhecer do amor à liberdade.


porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
pátria, eu semente que nasci do vento
eu que não vou e não venho, eu que permaneço
em contato com a dor do tempo, eu elemento
de ligação entre a ação e o pensamento
eu fio invisível no espaço de todo adeus
eu, o sem deus!

tenho-te no entanto em mim como um gemido
de flor; tenho-te como um amor morrido
a quem se jurou; tenho-te como uma fé
sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
nesta sala estrangeira com lareira
e sem pé-direito.

(vinicius de moraes, 1968)
naquela noite, em lisboa, à saída do show, vinicius tem que enfrentar uma pequena mas barulhenta manifestação de salazaristas indignados com seus discursos contra os horrores da ditadura. os manifestantes fecham a saída dos fundos do teatro. vinicius chega à porta e os encara. alguém lhe sussurra o óbvio: «vamos voltar e sair por um outro lado». o poeta responde em tom seco: «não».

vinicius fica algum tempo em silêncio. depois, erguendo a voz e ainda encarando o pequeno grupo de direitistas, começa a recitar: «de manhã escureço/ de dia tardo/ de tarde anoiteço/ de noite ardo». são os versos de seu primoroso «poética 1», poema que escreveu no distante ano de 1950, em nova york.

o poeta vai prosseguir, quando um sotaque brasileiro, escondido por detrás dos manifestantes, toma a palavra e prossegue: «a oeste a morte/ contra quem vivo/ do sul cativo/ o este é meu norte».

aquele estudante brasileiro, solitário em sua revolta, o salva. os jovens salazaristas portugueses cedem à força da poesia. os manifestantes, agora, já não podem mais gritar. um ou outro tenta ainda emitir uma palavra de ordem sem sentido, mas a maioria silencia para ouvi-lo terminar: «os outros que contem/ passo por passo:/ eu morro ontem/ nasço amanhã». e, elevando a voz ao máximo, vinicius conclui: «ando onde há espaço:/ meu tempo é quando».

um primeiro estudante, mais corajoso, tira o casaco e o estende no chão. outros fazem o mesmo. e então vinicius sai de cabeça erguida – e coração estraçalhado – sobre aquele tapete de casacos. 
a poesia acabara de colocar cada um em seu devido e merecido lugar.

sérgio sampaio
(tem que acontecer, 1976)


e agora, qual a saída?
a saída é pela esquerda
não a esquerda institucional e conformista
mas a esquerda radical e anticapitalista
a historiadora raquel varela que o diga

«há uma esquerda profundamente institucional e simultaneamente fanática», afirma a historiadora raquel varela na entrevista a seguir, concedida à «carta capital» durante uma rápida passagem por são paulo.

carta capital
(fragmento )


de volta à poesia


não posso
não é possível
digam-lhe que é totalmente impossível
agora não pode ser
é impossível
não posso.

digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.

(vinicius de moraes, 1949)


eu, um teo-poeta
quem foi estudante na época da ditadura militar dificilmente escapou de participar dos desfiles de 7 de setembro como atividade escolar. é o meu caso. não que eu gostasse daquilo, longe disso, participava porque era OBRIGADO. na verdade, eu ODIAVA ter que participar daquela pantomima. a OBRIGAÇÃO de ter que PARTICIPAR de algo que eu não gostava e não ACREDITAVA criou, dentro de mim, uma verdadeira AVERSÃO a todo e qualquer tipo de IMPOSIÇÃO. eu sou um libertário. se quiser ir pra paris, vá! faça o que tu queres pois é tudo da lei. assim sendo, conforme fui crescendo, fui perdendo o medo de ser feliz. hoje sou um teo-poeta, só me dedico àquilo que realmente ACREDITO.

«teo-poeta é aquele que escreve com paixão, posto que a paixão e o desejo são as forças que lhe movem. trata-se de paixão pelo desconhecido, com os ouvidos atentos aos sopros do vento sempre imprevisíveis e sacudidores em vez da estabilidade da rocha eterna.»

«e os meus pensamentos são todos sensações.
penso com os olhos e com os ouvidos
e com as mãos e os pés
e com o nariz e a boca.
pensar uma flor é vê-la e cheira-la
e comer um fruto é saber-lhe o sentido.»

os teólogos constroem barreiras para estabelecer quem está dentro ou fora de suas comunidades por meio de confissões de fé. os teo-poetas também confessam a fé. dessa forma, seguem o conselho de mario quintana: «eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão».

a rua dos cataventos
(soneto xvii)

da vez primeira em que me assassinaram,
perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
depois, a cada vez que me mataram,
foram levando qualquer coisa minha.

hoje, dos meu cadáveres eu sou
o mais desnudo, o que não tem mais nada.
arde um toco de vela amarelada,
como único bem que me ficou.

vinde! corvos, chacais, ladrões de estrada!
pois dessa mão avaramente adunca
não haverão de arrancar a luz sagrada!

aves da noite! asas do horror! voejai!
que a luz trêmula e triste como um ai,
a luz de um morto não se apaga nunca!

mario quintana


recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração.


«eu me visto de preto pelos pobres e oprimidos / que vivem do lado faminto e sem esperança da cidade / eu me visto assim pelo prisioneiro, que há muito tempo já pagou por seu crime / mas que de nada adiantou, pois é uma vitima dos tempos.»

johnny cash


ah, eu adoraria vestir um arco-íris todos os dias,
e dizer para o mundo que tudo está ok,
mas talvez eu possa carregar um pouco da escuridão em mim
até as coisas serem brilhantes, eu sou o homem de preto.

(johnny cash, 1971)


verdade verdadeira, de lembrança, mesmo, do 7 de setembro, eu tenho de um desfile na cidade de pelotas, acho que em 76, em que desfilávamos com um catavento verde-amarelo na mão. o meu não voltou pra casa, foi devidamente amassado, rasgado e jogado no chão.


uma a narrativa da história viva deste país
uma palavra ingênua, tal como a gema da massa ali
com outros meninos ricos, a outra história deste país
lembro de um desfile da mocidade marchando aqui
aquele amor à pátria, nas bicicletas, no coração
e a gente ficava olhando aqueles tanques, os aviões
vinham, davam rasantes, olha os infantes, oh pátria mãe

ainda sobre essa coisa, sobre essa transa, oh pátria mãe
hoje vejo quizumba, me passa uma paixão por ti,
loucos estamos todos, estamos todos a fim de ti,
por mais que outros caras, de outras línguas te neguem a nós,
está pintando um dia, daí meu nego, vâmo treme!

nelson coelho de castro
(força d'água, 1985)


#bolsonaronuncamais
#nuncamais #nuncamais