viver é prazer
(prazer é escrever)
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«a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida»
vinicius de moraes
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«a vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. a vida serve para você se criar»
bob dylan
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o faze(dor)
ao outro, a borges, é que sucedem as coisas. pouco a pouco vou cedendo-lhe tudo, embora conheça seu perverso costume de falsear e magnificar. spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar em seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra e o tigre um tigre. eu permanecerei em borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros ou do que no laborioso rasqueado de uma guitarra. há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de borges e terei que imaginar outras coisas. assim minha vida é uma fuga e tudo eu perco e tudo é do esquecimento, ou do outro. não sei qual dos dois escreve esta página.
jorge luis borges
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autopsicografia
o poeta é um fingidor
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.
e os que lêem o que escreve,
a dor lida sentem bem,
não as duas que ele teve,
as só a que eles não têm.
e assim nas calhas de roda
gira, a entreter a razão,
esse comboio de corda
que se chama coração.
fernando pessoa
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«sinta mais, pense menos»
bukowski
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sentir, penso, logo sinto
sorrir, apesar de tudo, ir fundo
pois o mundo é o mundo
é o mundo, é o mundo
(bicho de 7 cabeças, 1993)
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a ilusão do espelho
quem lê um poema de dor acha que o poeta chora enquanto escreve. quem lê um poema de amor jura que ele está apaixonado. mas a verdade é que a poesia é emancipação: o poeta consegue cantar o sol estando na mais profunda tempestade, ou escrever sobre o abismo enquanto toma um café tranquilo em uma tarde de sol. a palavra vira poesia; a vida segue seu próprio rumo.
grill
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todo dia eu saio por aí tentando descobrir
o que ninguém já houvesse descoberto algum dia
thomas edson já descobriu a luz
beethoven a nona sinfonia
jesus cristo descobriu a cruz
os poetas descobriram a poesia, desista
pedro álvares cabral já descobriu o brasil
pelé já fez de gols pra lá de mil, desista
os blacks descobriram o blues
os palhaços descobriram a alegria
casanova descobriu como seduz
tem gente bem na frente
já faz tempo já faz dias, desista
até você meu bem foi descoberta
mas vou cobri-la para que não sintas frio
nua debaixo dessa coberta
porque quem descobriu já descobriu
(bicho de sete cabeças, 1993)
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ao vento
viver é prazer
se viver é esforço
e esforço é sofrer
eu quero morrer
grill
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sei que vou morrer, não sei o dia
levarei saudades da maria
sei que vou morrer não sei a hora
levarei saudades da aurora
quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba
quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba
quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba
(ataulfo alves por itamar assumpção - pra sempre agora, 1996)
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antes do fim
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«o dom você o tem. nunca se esqueça.»
johnny cash
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1. escrever me faz bem, me mantém sóbrio, me mantém vivo.2. o que determina meu estado de espírito não é o conteúdo do que escrevo e sim a frequência com que escrevo.3. quanto mais escrevo, melhor eu me sinto.repetindo: não importa o que escrevo, o que importa é estar escrevendo. não importa o que digo, o que importa é estar dizendo.
quando digo escrever
digo viver
o corpo envelhece,
o cabelo embranquece
mas a palavra permanece.
o que o poeta escreve é alquimia,
não biografia.
agora volto ao meu ser:
dentro de mim há um mundo nascendo, fora de mim há um mundo morrendo.
como resolvo essa contradição?
escrevendo.
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viver é prazer
prazer é escrever
e agradecer
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fui dotado com uma voz de ouro,
e os meus amigos se foram, meu cabelo já embranqueceu,
eu me dou mal no negócio em que os outros se dão bem,
mas estou entregue ao amor e pago o aluguel todo dia
na torre da canção.
(leonard cohen, 1988)
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«o eu não é senhor na sua própria morada.»
sigmund freud | uma dificuldade no caminho da psicanálise, p. 171.
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casa de poeta não tem porta
pagar aluguel significa ser inquilino do próprio dom.
o dom cobra aparição e produção;
exige exposição.
a poesia não pertence ao poeta — pertence ao dom.
o poeta é a casa por onde a poesia passa,
o vento entra,
a vida passa,
o poeta é só vidraça:
o mistério bate e racha.
grill
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há uma rachadura, uma fenda em tudo
é assim que a luz entra
(the future, 1992)
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tela: bob dylan
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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas
