casa de poeta não tem porta 2
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«um gato tem honestidade emocional absoluta: os seres humanos, por uma razão ou outra, podem esconder os seus sentimentos, mas um gato jamais o faz.»ernest hemingway
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«às vezes eu ansiava por alguém que, como eu, não estava ajustado perfeitamente com sua idade, e essa pessoa era difícil de encontrar, mas logo descobri gatos, em que eu poderia imaginar uma condição como a minha.»
julio cortázar
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o processo
diante da lei está um porteiro. um homem do campo chega e pede para entrar, mas o porteiro diz que agora não pode permitir. o homem pergunta se não pode entrar mais tarde. «é possível» – diz o porteiro – «mas agora não».o homem decide aguardar. o porteiro dá-lhe um banquinho ao lado da porta. ali fica sentado dias e anos. ele faz muitas tentativas para ser admitido e emprega tudo para subornar o porteiro. este aceita tudo, mas dizendo: «eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa».durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. esquece os outros porteiros. quando envelhece, sua vista enfraquece, mas reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei.já não tem mais muito tempo de vida. antes de morrer, faz um aceno para que o porteiro se aproxime: «todos aspiram à lei. como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?»o porteiro percebe que o homem já está no fim e berra: «aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. agora eu vou embora e fecho-a».
kafka. 2016, pp. 146 e 147
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siempre había oído mentar
que ante la ley era yo,
igual a todo mortal.
pero hay su dificultad
en cuanto a su ejecución.
que ante la ley era yo,
igual a todo mortal.
pero hay su dificultad
en cuanto a su ejecución.
clique no título para ouvir
(alfredo zitarrosa, 1971)
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«mais de uma vez me jogaram na rua
mas a culpa é minha
contém ironia
é bom lembrar»
autor desconhecido
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silvio rodríguez, o incompreendido
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(aos patrulheiros de plantão)
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epaminondas: o gato explicador
por clóvis de barros filho
esses últimos, os humanos, com exceções, também adoram viajar, conhecer outros lugares, outras gentes e seus modos peculiares de viver. tomam-se por arejados, abertos e até mais cultos por conta desse hábito. talvez por isso usem – para julgar nossas vidas felinas – o critério da extensão territorial ocupada por nossos corpos. e acabam convencidos de que passar o dia todo confinado não pode valer a pena. vê-se logo que ainda não aprenderam nada de relevante. e nunca aprenderão. por mais que alguns deles – os poucos sábios da história humana na terra – tenham generosamente se sacrificado para explicar, todos os demais da espécie sempre se recusaram a aceitar o óbvio: que o mais precioso da vida já se encontra em cada um deles. e que o sucesso dessa busca requer preparo. exercício rigoroso de pensamento. e recato. fica fácil de entender por que não saem da rua. passeiam, viajam e se divertem. na verdade, permanecem em fuga. não suportam a verdade que grita em suas almas. preferem chafurdar no pântano da ignorância – entretida pelas sombras da falsidade e das mentiras – a resistir, em resiliência, aos percalços e obstáculos que todo caminho de luz costuma impor a quem sempre viveu na sombra.
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os homens e suas certezas
por que os gatos dormem tanto? quantas igrejas tem o céu? foi onde que a mim me perderam, que logrei enfim me encontrar? há quem diga que a pergunta mais difícil da filosofia seja: podemos ter certeza de alguma coisa? não sei se é. se for, não sei a resposta. quem sou eu para saber o que ninguém sabe. pra dizer a verdade, não sei se ninguém sabe. talvez você saiba e eu não saiba que você sabe. pode ser, né? quem sabe... não sei. só sei que, enquanto eu compartilho minhas dúvidas, outros compartilham suas certezas. que bom para eles que não tenham dúvidas. mas não tenho certeza, ou seja, fico em dúvida se quem os lê e escuta acredita no que eles dizem e escrevem. eu, por exemplo, não acredito. ademais, não tenho certeza se quem demonstra ter tanta certeza a respeito de tudo e de todos tem realmente certeza de alguma coisa ou do que quer que seja. se todos os rios são doces, de onde tira sal o mar? não achas que vive a morte, dentro do sol de uma cereja? como se mede a espuma, que resvala da cerveja? pra cada voz da dúvida, tem outra voz que fala e viceja; pra cada voz da certeza, tem outra voz que cala e boceja.
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ou seja:
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«sinta mais, pense menos.»
bukowski
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«que sabe a aranha a respeito de mozart? nada; entretanto, ouve com prazer uma sonata do mestre. o gato, que nunca leu kant, é talvez um animal metafísico.»
machado de assis
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os cavalos não correm
para vencer.
correm para correr,
pois para isso
foram desenhados.
também não vivo
para vencer.
vivo para viver,
pois para isso me desenhei.
fausto wolff
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ao vento
há dez mil anos atrás
quando ainda rolava de bar em bar
me caiu nas mãos
uma resenha do livro
«a arte cavalheiresca do arqueiro zen»
desde então
pensava em lê-lo
pesquisa daqui
pesquisa dali
encontrei-o
entre borges e kant
na minha pequena
mas
modéstia à parte
rica bibliotheca
folheia daqui, folheia dali
percebo um trecho sublinhado
como quem diz
lê isso aqui:
«o homem é definido como um ser pensante, mas suas grandes obras se realizam quando não pensa e não calcula. devemos reconquistar a ingenuidade infantil. nesse estágio, o homem pensa sem pensar. ele pensa como a chuva que cai do céu, como as ondas que se alteiam sobre os oceanos, como as estrelas que iluminam o céu noturno, como a verde folhagem que brota na paz do frescor primaveril. na verdade, ele é as ondas, o oceano, as estrelas, as folhas.»
bárbaro
mas fiquei com a impressão de que já o tinha lido
parece que tudo que ali está
eu já sabia
de pura intuição
mas não é verdade
terminei o livro
com mais dúvidas
do que quando comecei
daí fico pensando
se bukowski
fausto wolff
e yupanqui
o teriam lido
ou se
sem pensar
eles escreviam
sobre aquilo que pensavam que não sabiam
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«"pelo que vejo, o senhor já é um mestre. peço-lhe que me diga a que escola pertence, antes que entremos na relação mestre-discípulo". o guarda observou que se envergonhava de dizer, mas jamais tinha aprendido a arte da esgrima. "o senhor está zombando de mim? sou o mestre do venerável xógum e sei que meus olhos jamais se enganam." o guarda insistiu: "lamento ofender a sua honra, mas a verdade é que jamais tive qualquer conhecimento desta arte". frente a tão segura negativa, o mestre vacilou um momento, ao final do qual disse: "como o senhor afirma, não vou desmenti-lo, mas seguramente o senhor é mestre em alguma outra disciplina, embora eu não saiba qual seja". respondeu-lhe o guarda: "pois bem, como o senhor insiste, devo dizer-lhe que existe uma coisa na qual me considero mestre. quando eu era criança, ocorreu-me a ideia de que um samurai não tem o direito de temer a morte em qualquer circunstância, e desde então lutei continuamente com a ideia da morte, até que ela deixou de preocupar-me. talvez seja a isso que o senhor se refere". mal ouvira tais palavras, tajima-no-kami exclamou: "exatamente! alegro-me que não tenha me enganado, pois o último segredo da arte da espada é atingir a libertação da ideia da morte. tenho mostrado essa meta a centenas de alunos, mas até agora nenhum alcançou o grau supremo na arte da espada. o senhor não precisa de qualquer treinamento, porque já é um mestre".
eugen herrigel | a arte cavalheiresca do arqueiro zen, p. 89.
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a partícula cósmica que navega em meu sangue
é um mundo infinito de forças siderais.
veio a mim através de um longo caminho de milênios
quando, talvez, fui areia para os pés de vento.
logo, fui madeira, raiz desesperada
fundida no silêncio de um deserto sem água.
logo, fui caracol quem sabe onde.
e os mares me deram a primeira palavra.
depois, a forma humana despejou sobre o mundo
a universal bandeira do músculo e da lágrima.
e brotou a blasfêmia sobre a velha terra
e o açafrão, e o trigo. a árvore e as pradarias.
então vim à américa para nascer um homem
e a mim se juntou o pampa, a selva e a montanha.
se um velho da planície galopou até minha origem
outro me disse histórias em sua flauta de cana.
eu não estudo as coisas nem pretendo entendê-las
as reconheço, é certo, pois antes vivi nelas
converso com as rochas em meio aos montes
e me dão sua mensagem as raízes secretas.
e assim vou pelo mundo, sem idade nem destino
ao amparo de um cosmos que caminha comigo.
amo a luz e o rio e o caminho, e a estrela.
e floresço em guitarras porque fui a madeira.
clique no título para ver e ouvir
poema: atahualpa yupanqui
musica: campo abierto (atahualpa yupanqui)
voz y audio: alejo gómez davolio
edición: santiago cremerius
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de volta ao começo dia 4 de outubro diga não a bolsonaro vote lula e depois fique bem na sua sem questionar sem reclamar nem criticar até porque quando a grande mídia o agronegócio e a faria lima caírem de pau se lula não resistir e cair a culpa vai ser toda sua
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agradezco la participación de todos
los que colaboraron con esta melodía.
se debe subrayar la importante tarea
de los perseguidores de cualquier nacimiento.
si alguien que me escucha se viera retratado,
sépase que se hace con ese destino.
cualquier reclamación, que sea sin membrete.
buenas noches, amigos y enemigos.
clique no título para ouvir
(silvio rodríguez, 1970)
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foto:
ernestito che guevara
(in memmoriam)
repecho, 2020
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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas
