sábado, 29 de agosto de 2026


viagem interior urbana 

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mande notícias do mundo de lá, diz quem fica
me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando
coisa que gosto é poder partir sem ter planos
melhor ainda é poder voltar quando quero

fernando brant 

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o trem 

o trem não é apenas o veículo que desloca corpos entre a cidade e o interior; é o vetor da própria travessia íntima, onde «chegar e partir são dois lados da mesma viagem» — a mesma dupla dimensão geográfica e subjetiva de subtesur e subtemí.

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subte 

em «subte», vitor ramil utiliza o metrô de buenos aires como cenário para explorar temas de introspecção e isolamento. o «subte», mais do que um meio de transporte, simboliza um mergulho interior, onde a escuridão dos túneis representa momentos de reflexão e afastamento do cotidiano. o verso «yo dejo el sol detrás de mí / y bajo hondo en la ciudad» («deixo o sol para trás / e mergulho fundo na cidade») mostra esse afastamento da superfície iluminada para um espaço subterrâneo, silencioso e anônimo...

a lua, que «me viene a buscar», surge como uma metáfora para a esperança ou luz que persiste mesmo nos períodos mais escuros. o sentimento de deslocamento aparece no trecho «hay tanta gente en el vagón / todos me miran sin parar» («há tanta gente no vagão / todos ficam me olhando sem parar»), indicando solidão e estranhamento mesmo em meio à multidão. 

as expressões «subtemoon» e «subtedream», que misturam inglês e espanhol, ampliam o caráter universal e onírico da experiência. já «yo viajo en el subtesur / yo viajo en el subtemí» («eu viajo no subtesur / eu viajo no subtemí») sugere que a viagem é tanto física (ao sul, em buenos aires) quanto subjetiva (um mergulho em si mesmo). 

o tempo que «pasa y siempre queda allá» («passa e sempre fica lá») e a vida «inmóvil» («imóvel») no trem reforçam a ideia de suspensão e reflexão, transformando o «subte» em um espaço simbólico de autoconhecimento em meio à rotina urbana.

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yo dejo el sol detrás de mí
y bajo hondo en la ciudad
la lengua que hablan por aqui
es toda hierro y oscuridad
del tunel llega una luz
la luna me viene a buscar

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[do álbum: tambong]

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«vento
que vem das esquinas
e ruas vazias
de um céu interior»

vitor ramil

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ao vento

hoje em dia, milhões de brasileiros passam horas sob a terra, habitando a penumbra dos metrôs nas capitais e metrópoles. não é o meu caso. minha geografia é outra. o mais próximo que estive desse trânsito subterrâneo foi ao cruzar a superfície nos trilhos do trensurb, em porto alegre. contudo, a ideia desse subterrâneo fascinante veio ao meu encontro quando, conversando por whatsapp com um amigo radicado há anos em são paulo, ele me contava sobre sua rotina no metrô, a caminho do trabalho — e sobre o manancial vivo de histórias que brota desse contato diário com a infinidade de tipos humanos gerados pela megalópole. 

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a franja da encosta cor de laranja, capim rosa chá
o mel desses olhos luz, mel de cor ímpar
o ouro ainda não bem verde da serra, a prata do trem
a lua e a estrela, anel de turquesa

os átomos todos dançam, madruga, reluz neblina
crianças cor de romã entram no vagão
o oliva da nuvem chumbo ficando pra trás da manhã
e a seda azul do papel que envolve a maçã

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  [caetano ao vivo 2012]

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falando em maçã

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«sorridente, rapaz
pela continuidade do sonho de adão»

gil

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considere, rapaz
a possibilidade de ir pro japão
num cargueiro do lloyd lavando o porão
pela curiosidade de ver
onde o sol se esconde

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[ao vivo na usp 1973]

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a propósito da foto, diz o próprio gil: «sempre que penso em londres, me vem o «london underground». nunca quis viver fora do brasil, mas londres é uma das cidades mais interessantes do mundo, e tenho sorte de ter vivido lá.»

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downtown train

«trem do centro» é uma das sínteses mais bonitas da música sobre a melancolia noturna dos trens urbanos. a canção transforma o vagão do metrô/trem da cidade em um ambiente onírico e solitário, no qual o narrador observa o desfile anônimo dos passageiros enquanto busca um sentido para o seu próprio desejo na escuridão da metrópole.

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lá fora tem outra lua amarela
rasgando a noite, sim
eu saio pela janela e desço pra rua
brilhando como uma moeda nova

os trens do centro estão lotados de garotas do brooklyn
elas estão sempre tentando fugir de seus mundinhos

você acena com a mão e elas voam como corvos
elas não têm nada que possa capturar seu coração
elas são apenas espinhos sem rosa
tenha cuidado com elas na escuridão

ah, se eu fosse aquele
que você escolheu pra ser seu único
ah, meu bem, você consegue me ouvir?
você consegue me ouvir?

será que vou te ver hoje à noite
num trem do centro?
toda noite é a mesma coisa
você me deixa só, e agora

sei qual é a sua janela e sei que está tarde
conheço suas escadas e sua porta
ando pela sua rua e passo pelo seu portão
paro sob a luz da rua na esquina

você os observa enquanto eles caem
todos eles com o peito em colapso
eles ficam nos parques de diversões
mas nunca te ganharão de volta

será que vou te ver hoje à noite
num trem do centro?
toda noite, toda noite é a mesma coisa
ah, meu bem
oh, baby

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[clipe legendado em português]

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noutras palavras: o «trem» de tom waits e o «subte» de vitor ramil são o mesmo reservatório de almas anônimas e luzes vacilantes — convulsões de trilho e metal que cortam a cidade na penumbra.

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hay tanta gente en el vagón
todos me miran sin parar
sus ojos sueñan mi visión
¿que hago yo en este lugar?
el tunel me hace comprender
la luna me puede llevar

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[mudras: canciones de a dos]

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«"subte" é um poema de amor que vitor ramil dedica ao subterrâneo de buenos aires. ele é, como eu, um apaixonado por trens — especialmente os subterrâneos — e por toda a mística que eles carregam: essa atmosfera de lugar semioculto, meio labiríntico, profundamente borgiano. vitor vive um verdadeiro idílio com buenos aires e com a cultura rioplatense em geral. filho de pai uruguaio, cultor da milonga e do candombe, é um homem profundamente pampeano que teorizou com muita precisão sobre a irmandade cultural dos povos do rio da prata, incluindo o sul do brasil.»

pedro aznar 

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         ao vento

           aquele
        labirinto
        sem portas 
        nem fim de 
      borges guarda
     na penumbra do 
     degrau um ponto 
        minúsculo
    onde o cosmos inteiro
        se condensa 
 a marca exata da travessia 
           para 
         um mundo 
       mais sólido, 
    perene e profundo

              grill

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e as pessoas se curvaram e rezaram
ao deus de néon que criaram...
e o letreiro dizia: «as palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrô
e nos corredores dos cortiços»

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[live at central park, new york, ny - 19 september 1981] 

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#salacheguevara
#casadosaedos
#américas