domingo, 18 de outubro de 2026


vai trabalhar vagabundo 

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a mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

manoel de barros

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a besta-fera

por enilton grill

(texto escrito em 26 de março de 2020)
que me desculpem os que pensam que bolsonaro ultrapassou os limites da loucura com o pronunciamento de anteontem.

ele não é louco, só tem a cara do mercado financeiro, da elite e dos latifundiários. ele é uma besta-fera.

bolsonaro ultrapassou os limites no dia em que homenageou um torturador na nossa cara: «pela família, contra o comunismo, pela nossa liberdade e pela memória do coronel carlos alberto brilhante ustra, o pavor de dilma rousseff, o meu voto é sim».

ele disse o que disse e não aconteceu nada. foi ali que a besta-fera se sentiu liberada para tudo.

depois, ele pôs os interesses econômicos acima da vida, e nós seguimos sem fazer nada, esperando que alguém faça tudo — quem sabe a rede globo, como fez com collor.

é urgente conter e calar bolsonaro, mas a forma como ele vai sair importa muito: sinaliza se outro bolsonaro poderá surgir.

enfim, tudo tem limite, sobretudo bolsonaro. 
o problema não é ele, somos nós.
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a escala ramagem

por julio benchimol pinto

(texto escrito em 6 de julho de 2026)
a notícia veio com cheiro de brasil paralelo e folha de ponto em branco: a esposa de alexandre ramagem, procuradora em roraima, depois de meses longe do trabalho — entre férias, recesso, atestado não homologado, licença-prêmio e outras delicadezas do serviço público premium —, pediu nova licença para entrar na política pelo pl.

até aí, nada surpreende. no bolsonarismo, a mamata só é crime quando não está na família.

o mesmo campo político que torce o nariz para o fim da escala 6x1 — aquela engenharia medieval em que o trabalhador vive seis dias para descansar um — assiste calado à escala 0x7 dos seus: zero expediente, sete justificativas, salário de elite, discurso de mérito.

para o caixa de supermercado, “vai trabalhar, vagabundo”; para a turma do cercadinho, férias, licença, recesso, atestado, prêmio e candidatura.

é a moral bolsonarista em estado puro: chicote no lombo dos outros, almofada ergonômica no próprio gabinete. no púlpito, gritam contra privilégios; no protocolo, pedem mais um.

e ainda posam de defensores do trabalhador. defensores, sim. do trabalhador imaginário: aquele que trabalha muito, reclama pouco, descansa quase nada e vota em quem acha folga coisa de comunista.

no fundo, o bolsonarismo inventou a meritocracia reversa: quem rala merece sermão; quem encosta merece legenda.

a escala 6x1 é para o povo; para os escolhidos do pl, vale a escala ramagem: licença sobre licença, moral sobre moralismo, e ponto eletrônico tocando berrante no vazio.

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pai nosso que não estais aqui
sacrificado é o vosso povo
humilhados e ofendidos são os nossos homens
deserdados e famintos são os nossos filhos
feridos e estéreis são nossos ventres
aqui na terra

o pão nosso de cada dia
a alegria nossa de cada dia
o amor nosso de cada dia
o trabalho nosso de cada dia
venham a nós
voltem a nós
de trem, de carro ou navio

não nos deixeis cair em lamentações
mas livrai-nos desse vazio

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(último trem, 1980)

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no meio do meu caminho sempre haverá uma pedra
plantarei a minha casa, numa cidade de pedra
itamarandiba, pedra corrida, pedra miúda rolando sem vida
como é miúda e quase sem brilho a vida do povo que mora no vale

no caminho dessa cidade passarás por turmalina
sonharás com pedra azul, viverás em diamantina
no caminho dessa cidade as mulheres são morenas
os homens serão felizes como se fossem meninos

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itamarandiba
(último trem, 1980)

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ao vento

vai trabalhar vagabundo
tô trabalhando
onde
no américas

grill 

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américas

para o povo o que é do povo

em breve: no blog, na rádiocom e nas plataformas digitais.

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#lula13
#salacheguevara
#casadosaedos