quinta-feira, 29 de outubro de 2026

 

folhas de relva
(bom dia graminha)

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«quase todo mundo nasce gênio e é enterrado imbecil.»

bukowski

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«eu cruzei com uma menina, muito nova, devia ter uns dois anos, não mais que dois anos, que vinha brincando no sentido contrário e ela vinha cumprimentando a graminha, as plantinhas, dizia: bom dia graminha!
nessa idade somos todos pagãos, somos todos poetas, depois o mundo se ocupa de apequenar nossa alma e é isso que chamamos de crescimento, desenvolvimento.»
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eduardo galeano (sangue latino)
(legendado em português)

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livro aberto

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ato primeiro: ver
walt whitman assim descreveu suas primeiras experiências na escola: «ao começar meus estudos me agradou tanto o passo inicial, a simples conscientização dos fatos, as formas, o poder de movimento, o mais pequeno inseto ou animal, os sentidos, o dom de ver, o amor - o passo inicial, torno a dizer, me assustou tanto, e me agradou tanto, que não foi fácil para mim passar e não foi fácil seguir adiante, pois eu teria querido ficar ali flanando o tempo todo, cantando aquilo em cânticos extasiados...».
(rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 136)

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ato segundo: professores medíocres
«de repente senti uma gratidão inesperada pelos meus professores medíocres. os bons professores, eu os acompanhava encantado. surfava nas suas ideias. mas os professores medíocres me irritavam tanto que eu me vi forçado a pensar minhas próprias ideias.»
(rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 132)

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ato terceiro: desejo e inteligência
«as crianças gostam de aprender. o que não quer dizer que elas gostem das ideias. as escolas são, frequentemente, lugares onde elas são obrigadas a aprender, sob pena de punições, aquilo que elas não querem aprender. e aquilo que as escolas tentam ensinar contra a nossa vontade é rapidamente esquecido. sabedoria de um velho ditado caipira: «é fácil levar a égua até o meio do ribeirão. o difícil é obrigar a égua a beber a água...». aprendemos o que desejamos aprender. é o desejo que desperta em nós a inteligência. o filósofo aristóteles disse: «todos os homens têm, naturally, o desejo de aprender». ele estava errado. vou corrigi-lo: «todos os homens, enquanto crianças, têm naturalmente o desejo de aprender. o que dá às crianças desejo de aprender? primeiro, é a curiosidade. as crianças acham as coisas do mundo muito interessantes e querem saber por que elas são do jeito como são. pra que serve isso? pra nada. apenas pelo prazer: matar a curiosidade.»
(rubem alves | ostra feliz não faz pérola, p. 129)

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minha vida não é um filme, é um livro aberto

«rapaz, você precisa estudar para ser alguém na vida!».
quem não estuda não é alguém?
se não é alguém, é quem? ninguém?
eu não me sentia um ninguém
eu só não sabia, ainda, que trazia em mim
multidões
(de marias, josés e joões).
enfim
quando eu era mais jovem ouvi muito essa frase
e hoje ouço os antigamente jovens, hoje velhos,
dizendo-a para os mais jovens
que amanhã serão mais velhos
e a dirão para os mais jovens
e assim gira a roda
em torno de si
apontando pra lá
mas sem sair daqui

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como nossos pais
eu nunca vou saber o que é ser pai e os da minha geração e os da geração dos meus pais, via de regra, esquecem que já foram filhos. por mim, tá tudo bem. nunca quis ser pai. todavia confesso, talvez tivesse gostado de ser avô.
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a vida não é filme?
um dos filmes mais bonitos e comoventes que eu vi, em toda minha vida, foi cinema paradiso. quase todas as pessoas que conheço choraram em algumas partes do filme. eu chorei em quase todas. a cena que provocou lágrimas no maior número de espectadores é aquela na qual o velho, que é o pai espiritual e sentimental do rapaz, que lhe ensinou quase tudo o que sabia da vida até então, diz a ele que se prepare para partir do vilarejo rumo à cidade grande: «vá e não olhe para trás; não volte nem mesmo se eu te chamar». o pai manda embora o filho adorado e «ordena» a ele que vá em busca do seu caminho, do seu destino, dos seus ideais...
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no direction home

ando contra o vento
e de peito aberto
minha vida não é um filme
é um livro aberto

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o mundo é dos espertos
(e continuará sendo)
na minha estadia por alguns dias em são luís do maranhão, minha mãe (82 anos) me disse que, minha descrença (em tudo e em todos) é coisa de «velho». minha resposta foi uma pergunta: nossos filhos, hoje em dia, em sua grande maioria, são educados para serem pragmáticos, espertos e vencedores ou idealistas, sonhadores e perdedores? fez-se silêncio. então, pensando em dom quixote e nos jovens que virão, escrevi:
o novo nasce velho
o velho morre novo

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o mundo é um moinho

à primeira vista, pode parecer estranho, mas este é um texto igual aos outros: trata da dor da impossibilidade de reação ou como a sociedade capitalista espreme-nos em agoniante apatia.

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o espremedor de culhões
(por charles bukowski)
danforth pendurou os corpos no varal, um a um, depois de passarem pelo espremedor. bagley, sentado perto dos telefones, pergunta:

— quantos tem?
— 19. pelo jeito o dia vai ser bom.
— é, pô, tá com cara. quantos colocamos ontem?
— 14.
— legal, legal. continuando assim, vai ser bom mesmo. o meu grilo é que a coisa no vietnã é bem capaz de parar — disse bagley.
— deixa de ser bobo, tem muita gente lucrando e dependendo dessa guerra.
— mas a conferência de paz em paris...
— você hoje não está bom, bag. quem é que não sabe que eles passam o dia inteiro sentados, dando risada, recebendo grana pra não fazer nada e depois indo à noite a tudo quanto é boate? essa cambada tá com a vida ganha. a vontade que têm de terminar a conferência de paz é igual à nossa de liquidar com a guerra. tá todo mundo engordando, sem se arranhar. uma verdadeira beleza e se encontrarem uma forma de chegar por acaso a um acordo, sempre vão aparecer outras. a terra tá cheia de lugares prontos pra explodir.
— é, acho que vivo me preocupando à toa.

um dos três telefones da mesa tocou. bagley atende...
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– herman? – chama bagley.
– sim, chefe.
– o que é que está sentindo? ou melhor, como se sente?
– não sinto absolutamente nada, chefe.
– você gosta de tiras?
– tiras não, chefe – polícias. eles são vítimas da nossa maldade, embora às vezes nos protejam atirando, prendendo, espancando e multando a gente. não existe essa história de que não há tira que preste; aliás, polícia, desculpe. já imaginou se não houvesse polícia? a gente teria que impor a lei com as nossas próprias mãos.
– e aí, o que ia acontecer?
– nunca parei pra pensar, chefe.
– ótimo. acredita em deus?
– ah, claro que sim, chefe. em deus, pátria, família, tradição. e no trabalho honesto.
– puta que pariu!
– como disse, chefe?
– não. nada. agora, escuta aqui, você gosta de fazer serão?
– ah, claro que sim, chefe! gostaria de trabalhar 7 dias por semana, se possível. e de ter 2 empregos se pudesse.
– por quê?
– por causa do dinheiro, chefe. pra comprar tv a cores, carro novo, dar entrada pra casa própria, pijama de seda, 2 cachorros, barbeador elétrico, seguro de vida, assistência médica, ah, tudo quanto é tipo de seguro, educação escolar para os meus filhos, se eu tiver, porta automática na garagem, roupas finas, sapatos de 45 dólares, câmeras, relógio de pulso, anéis, lavadora automática, geladeira, poltronas e camas novas, forração de carpete em todas as peças, donativos pra igreja, aquecimento central e…
– tá legal. chega. agora, quando é que pretende usar todos esses troços?
– não estou entendendo, chefe.
– quero dizer, se você trabalhar dia e noite e ainda fizer serão, que tempo te sobra pra aproveitar todo esse luxo?
– ah, esse dia há de chegar, chefe, ele há de chegar!
– e não acha que teus filhos um dia hão de crescer e julgar que você foi um trouxa?
– depois de ter me esfolado vivo por causa deles, chefe? claro que não!
– maravilha. agora, só mais algumas perguntas.
– pois não, chefe.
– não acha que toda essa escravidão permanente é prejudicial pra saúde e pro espírito, pra alma, se quiser…?
– ah, pô, se eu não ficasse trabalhando o tempo todo, ia acabar sentado por aí, bebendo, pintando quadros a óleo, fodendo, indo ao circo ou no parque pra ver os patos. coisas desse gênero.
– não acha que ficar sentado no parque, olhando para os patos, pode ser muito agradável?
– mas desse jeito eu não ganho dinheiro, chefe.
– tá legal, vá se foder.
– o que, chefe?
– não, nada. já sei de tudo o que precisava. ok, dan, este aqui tá no ponto. parabéns. dá o contrato, pega a assinatura dele, a letra é tão miúda que nem vai conseguir ler. acha que somos gente boa. manda correndo lá no endereço. o pessoal vai ficar encantado. há meses que não arrumo melhor contador.

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– barney, quais são os teus ídolos?
– bom, deixa eu ver... cleaver, dillinger, che, malcolm x., gandhi, jersey joe walcott, “grandma” barker, fidel castro, van gogh, françois villon, hemingway.
danforth pega barney anderson, bate, torce e espreme, sem fazer caso dos gritos, 3 vezes no espremedor, e depois traz de volta.
– barney? – chama bagley.
– pronto, chefe!
– quais são os teus ídolos?
– george washington, bob hope e mae west. richard nixon, os ossos do clark gable e toda a gente que vi na disneylândia. joe louis, dinah shore, frank sinatra, babe ruth, os boinas verdes, porra, todo o exército e a marinha dos estados unidos e, principalmente, os fuzileiros navais, e até o tesouro nacional, a cia, o fbi, a united fruit, a patrulha rodoviária, o maldito departamento de polícia de los angeles em peso, e os tiras locais também. aliás, disse “tiras” por engano, quando queria dizer “polícias”. depois tem a marlene dietrich, com aquela abertura no lado do vestido até em cima na coxa, ela já deve andar perto dos 70, não é?, dançando lá em las vegas, fiquei de pau duro, que mulher maravilhosa. a boa vida que se leva aqui na américa e a estabilidade do dólar são capazes de manter eternamente a juventude da gente, entendeu?
– dan?
– que é, bag?
– este aqui tá mais que no ponto! mesmo pra um cara pouco sensível como eu, deu pra ficar com ânsia de vômito. faz ele assinar o contratinho dele e manda lá no endereço. eles vão adorar. santo deus, as coisas que a gente tem que fazer pra sobreviver! às vezes chego a odiar o próprio trabalho que faço. o que não convém, não é, dan?
(bukowski, crônica do amor louco, pp. 67-80)

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o espremedor de culhões era uma máquina onde uma pessoa entrava com suas convicções e saía como um alienado. um termo muito usado na contracultura para qualificar as pessoas que apoiavam a guerra do vietnã. o sujeito entra gritando justiça e sai filiado ao neoliberalismo. muitas pessoas que conhecem este conto falavam isto na década de 90 para sacanear os reaças que votaram em collor e fhc.
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talvez seja difícil de entender, mas bukowski pode nos explicar. vejamos a atividade empresarial da AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA: «executar a formatação necessária do indivíduo para sua funcionalização adequada ao sistema econômico». ou seja, cabe à AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA retirar, moer, dilacerar, destruir e corromper qualquer esperança, manifesto ou demonstração de vontade individual ou coletiva que atente contra os requisitos necessários ao mundo como ele é — isto é, ao mercado.

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falando em mercado, lembrei de um pássaro de mesma plumagem:
«a cultura dominante que os grandes meios de comunicação irradiam em escala universal nos convida a confundir o mundo com um supermercado ou uma pista de corrida, onde o próximo pode ser uma mercadoria ou um competidor, mas jamais um irmão.»
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depois de lermos o conto de bukowski na íntegra, chegaremos à conclusão de que a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA tem seus clientes já bem definidos. enquanto presos às cadeiras de madeira e o fedor de esterco lhes entope o nariz, o nobre funcionário lhe pergunta: «quais são seus heróis?». em caso de resposta como: lamarca, mariguella, che, fidel, malcolm x e quantos mais se podem citar... inicia-se o processo de «espremer os culhões». repete-se a pergunta... analisa-se os olhos, a expressão facial, a postura... enquanto se mantiver o peito estufado, martela-se mais um dedo! o brilho nos olhos é castigado com um bom afogamento em água suja! um sorriso — que deus lhe proteja — pode custar a fertilidade, quiçá a crença no amor ao próximo.
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em outras palavras, a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA preza pelos olhos esbranquiçados, postura curvada, andar trôpego, bom comportamento, obediência hierárquica e pouca ou nenhuma atitude na fala.
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não farei meias palavras, minha intenção aqui é deixar bem claro que a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA possui algumas filiais no mundo. aliás, deixe-me reformular. não se tratam de filiais, acredito que sejam as matrizes mesmo.
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aqueles que foram espremidos são os novos espremedores, as AGÊNCIAS SATISFAÇÃO GARANTIDA ganham filiais e matrizes, e continuam a espremer e espremer.
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em outras palavras, a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA preza pelos olhos esbranquiçados, postura curvada, andar trôpego, bom comportamento, obediência hierárquica e pouca ou nenhuma atitude na fala.
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não farei meias palavras. minha intenção aqui é deixar bem claro que a AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA possui algumas filiais no mundo. aliás, deixe-me reformular. não se tratam de filiais; acredito que sejam as matrizes mesmo.
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aqueles que foram espremidos são os novos espremedores. as AGÊNCIAS SATISFAÇÃO GARANTIDA ganham filiais e matrizes, e continuam a espremer e espremer.
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quanto a mim, podem me espremer à vontade, que não mudo de opinião. os tempos mudaram, mas eu continuo o mesmo. meus sonhos não envelheceram. continuo querendo com 61, o que eu queria quando tinha 21.
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enquanto escrevo estas palavras alguém grita:
— chegou mais um!

da AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA alguém ouviu:
— manda para o espremedor!

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antes do fim
voltemos ao começo
do dia
quando após republicar o post de ontem
recebi a seguinte mensagem:
«bom dia enilton! nunca pare meu amigo. sigamos em frente. grande abraço e TMJ!»
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ensacado

moinhos não movem ventos
partidas não são só lenços
saudades não são soluços
nem solução pra espera
nem salvação dos pecados
tristezas não lavam pratos
resguardam restos, desejos
flores e frutos do mar
por isso muito cuidado
queime de febre e não dobre
não quebre nunca, não morra
não corra atrás do passado
nem tente o ponto final
aguente firme a picada
da abelha, daquela velha
melada melancolia
segure a barra, requente
o caldo da sopa fria
vá cultivando a semente
até que um dia arrebente o saco cheio de sol

(cátia de frança / sérgio natureza,1979)

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