sexta-feira, 4 de setembro de 2026


balada para os de fé e alma
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tenho um amigo que disse que tinha um amigo que dizia que os pássaros de mesma plumagem procuram voar juntos. e que isso vale, justamente para os amigos. não conhecia a frase, mas concordei no ato. boêmios, poetas, músicos e filósofos de botequim concordam. hoje esse amigo que tinha um amigo que dizia isso, tem um amigo que sempre repete essa frase. é fato. os pássaros de mesma plumagem procuram voar juntos.

martim césar

ao vento

o presente é como o vento quando vê já passou
o passado já era
tá tudo lá

lá onde?

grill

quantos anos já se passaram e se foram e quantas apostas foram perdidas e ganhas quantos caminhos trilhados por tantos amigos e a cada um deles eu nunca mais vi de novo

[the freewheelin', 1963]

o homem de preto

para muitas pessoas com mais de sessenta anos o passado parece um sonho enquanto o futuro definha e os fantasmas se proliferam disputando a atenção. o compositor warren zevon, a quem dylan admirava, morreu de um câncer agressivo nos pulmões e no fígado no dia 7 de setembro. ele tinha 56 anos.

cinco dias após a morte de zevon, johnny cash faleceu num hospital em nashville por complicações da diabetes. irmão maior de dylan na arte, cash era o cantor que – ao longo dos anos – veio representar uma unidade entre lenda e humanidade humilde. quando dylan era um garoto ouvindo rádio em 1955, cash já era uma lenda viva, o homem de preto cantando «i walk the line». apenas sete anos depois, cash escreveu para dylan uma carta, parabenizando-o por ter feito um grande disco no espírito de jimmie rodgers e vernon dalhart. johnny referia-se a the freewheelin'.

cash esteve ao seu lado e segurou sua mão em cada mudança artística e pessoal de dylan. defendeu o amigo contra executivos hostis na columbia quando o selo tentou dispensá-lo. apoiou-o em 1969 quando ele virou country com nashville skyline e depois no controverso período gospel. um irmão verdadeiro desde os bastidores do gaslight em 1963. por isso quando a imprensa pediu a dylan um tributo após a morte de cash ele não respondeu com apenas algumas frases mas com um ensaio de quatrocentas palavras publicado na rolling stone de outubro de 2003.


cash é rei
rolling stone, outubro de 2003

fui convidado a dar uma declaração sobre o falecimento de johnny e pensei em escrever um artigo intitulado «cash é rei», porque é assim que realmente o sinto. em termos simples, johnny era e é a estrela guia; você podia se guiar por ele — o maior dos maiores, tanto naquela época quanto agora. eu o conheci em 1962 ou 1963 e o vi muito durante aqueles anos. não tanto recentemente, mas de certa forma ele esteve mais presente na minha vida do que as pessoas que vejo todos os dias.

no início dos anos 60, não havia muitos meios de comunicação dedicados à música, e a revista sing out! era a que cobria tudo relacionado ao folk. os editores publicaram uma carta me criticando pela direção que minha música estava tomando. johnny respondeu à revista com uma carta aberta dizendo aos editores para calarem a boca e me deixarem cantar, que eu sabia o que estava fazendo. isso foi antes mesmo de eu conhecê-lo, e a carta significou muito para mim. guardo a revista até hoje. é claro que eu já o conhecia antes mesmo que ele ouvisse falar de mim. em 1955 ou 1956, «i walk the line» tocou o verão inteiro no rádio, e era diferente de tudo que você já tinha ouvido. a música soava como uma voz vinda do centro da terra. era tão poderosa e comovente. era profunda, assim como seu tom, cada verso; profundo e rico, impressionante e misterioso ao mesmo tempo. «i walk the line» tinha uma presença monumental e um certo tipo de majestade que nos deixava humildes. até mesmo um verso simples como «acho muito, muito fácil ser verdadeiro» pode nos medir. podemos nos lembrar disso e ver o quanto ainda estamos longe de alcançar esse nível.
johnny escreveu milhares de versos como esse. ele é verdadeiramente a essência da terra e do país, a personificação de sua alma e do que significa estar aqui; e ele disse tudo isso em inglês simples. acho que podemos ter lembranças dele, mas não podemos defini-lo, assim como não podemos definir uma fonte de verdade, luz e beleza. se quisermos saber o que significa ser mortal, não precisamos procurar além do homem de preto. dotado de uma imaginação profunda, ele usou esse dom para expressar todas as diversas causas perdidas da alma humana. isso é algo milagroso e humilhante. ouça-o, e ele sempre o fará recobrar o juízo. ele se eleva acima de tudo, e jamais morrerá ou será esquecido, nem mesmo por aqueles que ainda não nasceram — especialmente por aqueles que ainda não nasceram — e isso é para sempre.

enfim poderia ter resumido a carta de dylan talvez devesse se levasse em conta os tempos atuais e as coisas como são se o fizesse diria apenas dylan não via cash há algum tempo mas de certa forma ele sentia que o amigo estava mais presente em sua vida do que as pessoas que via todos os dias


se eu pudesse recomeçar,
a um milhão de quilômetros de distância,
eu continuaria o mesmo
eu daria um jeito.

hurt
johnny cash
[american iv: the man comes around, 2002]


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