sexta-feira, 11 de setembro de 2026


chile, 1973
(trailers)

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(a insurreição da burguesia)

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(o golpe de estado)

.

(o poder popular)

chile, 1964.

eduardo frei, candidato do partido democrata cristão, derrota salvador allende em uma eleição na qual a cia despejou quase meio milhão de dólares. naquela oportunidade 0,7% dos proprietários controlavam 61,6% das terras chilenas, o desemprego era alto e a inflação corroía os salários.

isabel parra cantava:

muito dinheiro em parques municipais
e a miséria é grande nos hospitais
no meio da alameda das delícias
chile limita al centro de la injusticia

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(isabel parra, 1968)

chile, 1970.
em uma eleição disputadíssima, salvador allende vence as eleições presidenciais. naquela oportunidade o povo tomava as ruas e festejava.
o inti illimanni cantava:

porque desta vez não se trata
de mudar um presidente
será el pueblo que costruya
um chile bem diferente

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(canto al programa, 1970)


e foi o que aconteceu

sob o governo socialista da unidade popular, o chile foi bem diferente. o presidente eleito cumpriu o programa pelo qual se elegeu: nacionalizou a mineração, estatizou o sistema financeiro e impôs normas de controle sobre os monopólios industriais e as empresas de telecomunicações — entre elas, a poderosa itt (international telephone & telegraph)
contudo, porém, todavia...
a vitória da unidade popular deitava por terra intensas e laboriosas negociações entre a itt e eduardo frei. a itt, então, deu uma guinada em seus princípios de atuação política: assumiu a liderança dos grupos estrangeiros e contatou a cia. os empresários fecharam as fábricas; os caminhoneiros paralisaram os transportes. assim, arlequins, polichinelos, monges falsos, palhaços a granel, terroristas de farda e militares degradados deram o golpe no chile e mataram o homem da paz.

mas, contudo, porém todavia...

para matar o homem da paz,
tiveram que assassiná-lo muitas vezes
porque o homem da paz era uma fortaleza

para matar o homem da paz,
tiveram que imaginar que era uma tropa
uma armada uma legião uma brigada
tiveram que acreditar que era outro exército
mas o homem da paz era tão somente um povo
e tinha em suas mãos um fuzil e um mandato

para matar o homem que era um povo,
tiveram que ficar sem o povo

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(a dos voces, 1985)

de volta ao começo

no princípio, era o chile querendo nascer

mas, pela mala diplomática chegam as notas verdes que financiam greves e sabotagens e cataratas de mentiras. os empresários paralisam o chile, e lhe negam alimentos. não há outro mercado além do mercado negro. as pessoas fazem longas filas em busca de um maço de cigarro ou de um quilo de açúcar; conseguir carne ou azeite requer um milagre da virgem maria santíssima. a democracia cristã e o jornal el mercúrio dizem pestes do governo e exigem aos gritos um golpe redentor, pois já é hora de acabar com essa tirania vermelha; outros jornais, rádios e canais de televisão fazem eco. o governo custa a se mover: juízes e parlamentares põem-lhe paus nas rodas, enquanto conspiram nos quartéis os chefes militares que allende acredita leais.

nestes tempos difíceis, os trabalhadores estão descobrindo os segredos da economia. estão aprendendo que não é impossível produzir sem patrões, nem abastecer-se sem mercadores. mas a multidão marcha sem armas, vazias as mãos, por este caminho de sua liberdade.

do horizonte vêm uns quantos barcos de guerra dos estados unidos, e se exibem frente às costas chilenas. e o golpe militar, tão anunciado, ocorre.

mentira
traição
desinformação
conciliação
sabotagem
tutela militar

qualquer semelhança com o brasil de hoje
não é mera coincidência.
paciência.
américas que segue

allende
gosta da boa vida. várias vezes disse que não tem madeira de apóstolo nem condições para mártir. mas também disse que vale a pena morrer por tudo aquilo sem o qual não vale a pena viver.

os generais alçados exigem sua renúncia. oferecem a ele um avião para que abandone o chile. advertem que o palácio presidencial será bombardeado por terra e por ar.

junto a um punhado de homens, salavador allende escuta as notícias. os militares se apoderam do país inteiro. allende põe um capacete e prepara seu fuzil. soa o estrondo das primeiras bombas. o presidente fala pelo rádio pela primeira vez:

— eu não vou renunciar...

eduardo galeano | o século do vento, p. 252 e 253.

«por un fuego que no des a tiempo
puede no salir el sol.»

silvio rodríguez

ao vento

tudo passa
só o passado não passa
preparar apontar fogo
sem fogo não há fumaça

grill

a ditadura pinochet ficou conhecida como uma das mais brutais na história latino-americana. apenas nos primeiros meses, mais de 80 mil pessoas foram presas por motivos políticos. a barbárie não poupou figuras renomadas internacionalmente como o cantor popular victor jara, que espancado em sessões de tortura, teve suas mão quebradas e depois foi executado no estádio nacional do chile, onde presos políticos eram mantidos encarcerados e torturados à espera de fuzilamento.
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(adaptación creativa sin fines de lucro.
fundación victor jara)

ditadura pinochet

(em 4 atos)

1. o terror da dina (polícia secreta de pinochet): a dina era comandada por manuel contreras. com mais de 9 mil agentes e espiões, ela usava o terrorismo de estado para perseguir opositores.

2. crimes internacionais: pela «operação condor», o grupo assassinou figuras importantes longe do chile, como o general carlos prats na argentina e o ex-ministro orlando letelier nos estados unidos.

3. mudança de fachada: pressionado pelos eua, pinochet afastou contreras e mudou o nome da dina para cni. na prática, a perseguição continuou igual.
4. dinheiro para os militares: para garantir o apoio dos generais, pinochet gastava fortunas com as forças armadas. em 1980, o chile liderava os gastos militares na américa latina.

pátria, luz e bandeira
dos punhos erguidos,
voltarás a florescer,
voltarás a renascer.

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(quilapayun, 1976)

o exílio
(você me pergunta o que é o exílio)

«é proibida a entrada no território nacional de pessoas nacionais ou estrangeiras que... na opinião do governo constituam um perigo para o estado... no caso dos chilenos, o ministério do interior emitirá um decreto supremo proibindo sua entrada no país e «a autoridade administrativa correspondente ordenará o cancelamento do passaporte, se for o caso».
decreto lei nº 604, de 10 de agosto de 1974.

dias e noites de amor e guerra

a mãe não estava, aquela tarde, e eu esperava na porta o ônibus que trazia florência do jardim de infância. chegou muito triste. no elevador fez beicinho. depois deixou que o leite esfriasse na xícara. olhava o chão. sentei-a em meus joelhos e pedi que me contasse. ela negou com a cabeça. acariciei-a, beijei sua testa. deixou escapar uma lágrima. com o lenço sequei sua cara e assoei seu nariz. então, pedi outra vez:

– vamos, conta.

contou-me que sua melhor amiga tinha dito: "eu não gosto mais de você”.
choramos juntos, não sei quanto tempo, abraçados os dois, ali na cadeira. eu sentia as mágoas que florência ia sofrer pelos anos afora e quisera que deus existisse e não fosse surdo, para poder rogar que me desse toda a dor que tinha reservado para ela.


eduardo galeano , p. 133, 134.

«a bagagem do desterro é minha mala de humo,
mas sabemos bem que, sem o fogo, não há fumaça.»


você me pergunta como foi o cerco que sofri.
mete a língua na minha cabeça, no meu pensar, na minha alma.
pois bem: deixo você supor que abandonei meu povo,
que fugi rompendo o duro limiar como um bicho acuado.
mas eu te garanto que não me roubaram nada,
pois dessa terra jamais poderão me afastar.

pois como vão roubar meu vulcão com sua vulcana?
desviar de minha alma a foz do rio com sua ria?
lacerar na paisagem a árvore com sua arvoredo?
matar em minha têmpora o rude piolho com sua piolha?
queimar com um fósforo comum meu livro e sua livraria?
juntar o punhal ao meu dolor com sua dolora?
naufragar no temporal meu bote com sua bota?
bater em retirada meu conjuro e sua conjura?

vibrar a corda do meu solfejo 
com seu solfejar.

você me pergunta como foi o cerco que sofri.
põe o olho a folhear a estação da minha memória.

pois bem: concedo que ao final ganharam a batalha,
mas falta conhecer o resultado da guerra.
pois confesso que não perdi um só grão de pólen,
já que dessa terra jamais poderão me afastar.

pois como vão extenuar meu caso com sua caça?
esvaziar minha sacola com seu saque?
prender meu canto universal de grilo ao seu grilhão?
esvaziar de conteúdo meu araucano e sua araucária?
cavar com fúnebre prazer meu tombo com sua tumba?
frear a turbulência da minha gesta com seu gesto?
o choque dos meus esperantes com sua espera?
a bagagem do desterro é minha mala de fumaça,
mas sabemos bem que, sem o fogo, fumaça não haverá.

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(inti illimanni, 1982)

em 1º de setembro de 1988 , através do decreto 203 do ministério do interior, o exílio terminou:

[...] todos os decretos supremos isentos e os decretos que, emitidos por força das competências que lhe conferem o artigo 41.º n.º 4 da constituição política da república, prevejam a proibição de entrada no território nacional das pessoas que neles se encontrem mencionado...

com cinzas, com rasgos e fraturas,
com esta altiva impaciência,
com uma honesta consciência,
com indignação, com suspeita,
com ativa certeza
ponho o pé em meu país.

ponho o pé em meu país
e em lugar de soluçar,
de moer minha pena ao vento,
abro o olho e seu olhar
e contenho o descontento.

volto belo, volto terno,
volto com minha esperadura,
volto com minhas armaduras,
com minha espada, meu desvelo,
meu cortante desconsolo,
meu presságio, minha doçura,
volto com meu amor espesso,
volto em alma
e volto em osso
a encontrar a pátria pura
ao pé do último beijo.

volto, enfim, sem humilhar-me,
sem pedir perdão nem olvido:
o homem nunca está vencido,
sua derrota é sempre breve.
um estímulo que move
a vocação de sua guerra,
pois a pátria que o desterra
e a pátria que o recebe
lhe dirão, por fim, que ele vive
as dores de toda a terra.

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(inti illimanni, 1978)

falando em dor...
miguel não morreu.
miguel enriquez ainda está aqui


«aquí nadie muere compañero
aquí nadie deja de luchar
aquí nada termina compañero
aquí cada día es continuar»»


yo pisaré las calles nuevamente
de lo que fue santiago ensangrentada,
y en una hermosa plaza liberada
me detendré a llorar por los ausentes.

(pablo milanés, 1976)


«basta ya de conciliar,
es la hora de luchar!»

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teatro caupolicán
17 de Julho de 1973
legendado (pt - br)

«eso no está muerto,
no me lo mataron
ni con la distancia
ni con el vil soldado.»

silvio rodríguez


ali amei uma mulher terrível,
chorando pela fumaça sempre eterna
daquela cidade encurralada
por símbolos de inverno.

ali aprendi a tirar com a pele o frio
e a jogar depois meu corpo à garoa,
nas mãos da névoa dura e branca,
nas ruas do enigma.

isso não está morto,
não me o mataram,
nem com a distância,
nem com o vil soldado.

ali entre os morros eu tive amigos
que entre bombas de fumaça eram irmãos.
ali eu tive mais de quatro coisas
que sempre desejei.

ali nossa canção se fez pequena
em meio à multidão desesperada:
um poderoso canto da terra
era quem mais cantava.

até ali me seguiu como uma sombra
o rosto daquele que já não se via,
e no ouvido me sussurrou a morte
que já apareceria.

ali eu tive um ódio, uma vergonha,
meninos mendigos da madrugada,
e o desejo de trocar cada corda
por um saco de balas.

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(días y flores, 1975)

antes do fim

«precisamos de mais unidade dentro da unidade popular.
precisamos de mais unidade para que uma linguagem mais revolucionária seja compreendida.
é preciso chamar as forças revolucionárias que não estão na unidade popular para que se juntem a nós com a responsabilidade histórica rumo à revolução socialista, camaradas.
temos que fortalecer o poder popular, os comandos comunais, é preciso fortalecer os comandos industriais, e não como forças paralelas ao governo, mas como forças populares junto com todo o governo.»

salvador allende

ainda que destruam todos os caminhos,
força nenhuma deterá meu povo.
ainda que nos prendam grilhões e correntes,
não seremos de ninguém escravos.
e seguiremos renascendo nas batalhas,
e seguiremos crescendo e combatendo,
e no solo traído da pátria,
o vermelho, gota a gota, irá nascendo.

chile territorio ensangrentado
chile seguirá por siempre unido
chile luchará contra el tirano
chile no será jamás vencido.

ainda que disparem contra os operários,
bala nenhuma matará meu povo.
ainda que fuzilem os meus companheiros,
ferida nenhuma nos trará a morte.
e seguiremos levantando as bandeiras,
e seguiremos lutando e avançando,
e no solo traído da pátria,
o vermelho, gota a gota, irá nascendo.

chile territorio ensangrentado
chile seguirá por siempre unido
chile luchará contra el tirano
chile no será jamás vencido.

[clique no título para ver e ouvir]

(quilapayun, 1975)

1. nacionalização de riquezas básicas e estatização de parte dos meios de produção

2. nacionalização dos bancos

3. reforma agrária

4. organização de um sistema de participação dos trabalhadores

5. estabelecimento de uma nova ordem institucional – poder popular.

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«trabalhadores da minha pátria: tenho fé no chile e em seu destino. outros homens superarão este momento cinzento e amargo onde a traição pretende se impor. sigam vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, de novo irão se abriras grandes alamedas por onde passe o homem livre para construir uma sociedade melhor. viva o chile, viva o povo, viva os trabalhadores! estas são minhas últimas palavras. tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão.»
salvador allende

não passarão
a luta continua
venceremos


venceremos, venceremos,
mil cadenas habrá que romper,
venceremos, venceremos,
la miseria (al fascismo) sabremos vencer.

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 (czechoslovakia, 1975)


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