terça-feira, 18 de agosto de 2026


memórias de o que já não será
[para bebeth]

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dia desses, uma pessoa especial, recebeu essa mensagem, incluída no link abaixo, e compartilhou comigo, com uma legenda que dizia mais ou menos assim: pensei logo em ti...

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«esta obra (link acima) foi escrita para as marcas que continuam a viver silenciosamente dentro de nós...
algumas memórias desvanecem-se com o tempo.
outras nunca desaparecem.
apenas se tornam mais silenciosas.
e, como uma sombra...
acompanham-nos para onde quer que vamos.
ao compor esta música, tentei captar sentimentos de saudade, fragilidade e aceitação.
cada melodia sussurra a história silenciosa de um coração que está a aprender a fazer as pazes com o seu passado.
talvez algumas sombras não existam para nos impedir de seguir em frente...
mas para nos lembrarem do caminho que já percorremos.
e talvez a verdadeira paz não esteja em mudar o nosso passado...
mas em aprender a viver com ele.
espero que esta música lhe recorde uma memória que nunca esqueceu, uma pessoa de quem sente saudades ou um sentimento que continua vivo no seu coração.
obrigado por ouvir.
dançar com uma sombra (dance with a shadow) está disponível em todas as plataformas.
os links estão disponíveis no meu perfil e nas minhas stories.
e tenho um pequeno pedido...
se esta música lhe fez sentir alguma coisa, poderia partilhá-la com uma pessoa especial?»

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as palavras andantes

entre muitas outras histórias reunidas em «as palavras andantes», há uma que conta as aventuras de um menino e sua sombra.
o relato termina dizendo:
e agora, depois de anos, quando o menino deixou a infância muito para trás, sente pena de morrer e deixar sua sombra sozinha.
uma leitora, daidie donnelle, me escreveu dizendo que não me preocupasse: a sombra não ia ficar sozinha, porque a sombra da sombra a estaria acompanhando.

eduardo galeano | o caçador de histórias, p. 229.

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falando da sombra da sombra
lembrei da frase de hemingway

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- quem estará nas trincheiras ao seu lado?
- e isso importa?
- mais do que a própria guerra.

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«passeando com cortázar
por um boulevard de paris
alejandra pizarnik percebe
que o amigo não tem
sombra»

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«ainda com cortázar
agora em outro boulevard
alejandra pizarnik descobre
apavorada
que o amigo na verdade
tem duas sombras»

celso borges pequenos | poemas viúvos, p.p. 77, 78

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o entendimento

comecemos por dizer que sombra havia morrido. sabia sombra que sombra havia morrido? indubitavelmente. sombra e ela foram sócias durante anos. sombra foi sua única testamenteira, sua única amiga e a única que vestiu luto por sombra. sombra não estava terrivelmente aflita pelo triste sucesso e o dia inteiro o solenizou com um banquete.

sombra não apagou o nome de sombra. a casa de comércio se conhecia sob a razão social «sombra e sombra». algumas vezes os novos clientes chamavam sombra a sombra; mas sombra atendia por ambos os nomes, como se ela, sombra, fosse de fato sombra, que havia morrido.

alejandra pizarnik

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elogio da sombra
a velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
o animal morreu ou quase morreu.
restam o homem e sua alma.
vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
buenos aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser la recoleta, o retiro,
as imprecisas ruas do once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o sul.
sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
demócrito de abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu demócrito.
esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
do sul, do leste, do oeste, do norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
emerson e a neve e tantas coisas.
agora posso esquecê-las. chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
breve saberei quem sou.

jorge luis borges. 1969

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os achados e perdidos

no dia em ele atravessou a ponte sozinho só por atravessar, sem ter nada que fazer aqui, sorriu ao ver a sombra da ponte como que passando, também, como o rio --- e nela a própria sombra presa à ponte, passando como a ponte e como o rio. era como se o rio se refizesse ali na sombra da ponte, como se a sombra se fosse mas já não fosse, como se ela nem passasse e ficasse, sem ter ido, porque sombra; mas indo, porque rio.

aldyr garcia schlee | memórias de o que já não será | p. 199.

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vidala para mi sombra

«muitos me perguntam por que acordo às quatro da manhã há mais de 20 anos. sabe por que escolho essa hora?... porque o homem ainda não começou a sofrer. nessa hora, estou puro, limpo, em silêncio, e escrevo enquanto a família dorme. então, sou como uma esponja que absorve tudo. leio idiomas, gramáticas, filosofia ou escrevo sobre meus próprios assuntos.»

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«e passo as madrugadas,
procurando um raio de luz.
por que a noite é tão longa,
guitarra, me diga você.»

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«não gosto da noite. talvez porque os fantasmas apareçam ao anoitecer. com isso, quero dizer que os fantasmas aparecem depois que o homem sofre. e o homem começa a sofrer quando sai para a rua para ganhar o pão dos filhos... e se depara com o outro homem.

então, só então, começam a surgir os lobos que cada um tem dentro de si.»

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os homens são deuses mortos,
de um templo já em ruínas.
nem mesmo seus sonhos se salvaram,
apenas uma sombra restou.

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[fragmento]

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tales de mileto

platão, em teeteto, nos conta que certa vez, observando o céu, tales de mileto tropeçou e caiu em um buraco. uma escrava da trácia ficou rindo dele, e o primeiro filósofo adquiriu fama de lunático e distraído. tales observava o céu e o tempo, pois era também astrônomo e exímio observador da natureza.

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.
oscuro lazo de niebla
te pialó junto al barranco
cómo fue que no lo viste
qué estrella andabas mirando

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grabada en 1980 para el programa
«retrato en vivo: el hombre del camino».

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tales viajou por diversas regiões e no egito teria calculado a altura de uma pirâmide. o cálculo foi feito a partir da sua própria altura e o comprimento de sua sombra e através desta proporção calculou a altura da pirâmide através da sombra desta, pois a proporção é a mesma. esse cálculo de proporções é conhecido até hoje na geometria como teorema de tales.

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a veces sigo mi sombra
a veces viene detrás,
pobrecita si me muero
con quién va a andar.

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{atahualpa yupanqui en vivo en puerto rico]

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«pensei num mundo sem memória, sem tempo; considerei a possibilidade de uma linguagem que ignorasse os substantivos, uma linguagem de verbos impessoais ou de epítetos indeclináveis. assim foram morrendo os dias e com os dias os anos, mas alguma coisa parecida à felicidade ocorreu uma manhã. choveu, com poderosa lentidão.»

jorge luís borges, em «o outro» | o aleph, p. 17

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não tenho pressa

não tenho pressa. pressa de quê?
não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
não; não sei ter pressa.
se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega nem um centímetro mais longe.
toco só onde toco, não aonde penso.
só me posso sentar aonde estou.
e isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
e vivemos vadios da nossa realidade.
e estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

alberto caeiro

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«no me dejes partir, viejo algarrobo...
levanta un cerco con tu sombra buena,
átame a la raíz de tu silencio
donde se torna pájaro la pena.»

yupanqui

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a nuvem é tão longe
o mar é tão grande.
meu mundo não é aqui
é mais além.

grill

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«rastro de flor e de estrela,
nuvem e mar.
meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar.»

clarice

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le he preguntado a mi sombra
a ver cómo ando para reírme,
mientras el llanto, con voz de templo,
rompe en la sala regando el tiempo.

mi sombra dice que reírse
es ver los llantos como mi llanto.
y me he callado, desesperado.
y escucho entonces: la tierra llora.

links

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[canta omara portuondo]

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[canta: silvio rodríguez]

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de volta a tales de mileto

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conforme o relato de aristóteles, na sua obra «a política», tales foi repreendido pelos cidadãos de mileto por ser pobre, afirmando que a filosofia de nada servia e que ele perdia tempo meditando sobre a natureza. contudo, sendo tales um estudioso dos astros, previu uma grande safra de azeitonas com um ano de antecedência. assim, arrumou algum capital e alugou por baixo custo todas as prensas de azeite da região. com a chegada da safra prevista, os produtores foram obrigados a alugar de tales as prensas a um custo bem mais alto. com esse negócio tales angariou grande fortuna e tornou-se um homem rico.

aristóteles conclui essa história da seguinte forma: «é fácil aos poetas e filósofos enriquecer, se desejarem, mas não é isso o que lhes interessa».

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antes de seguir em frente
voltemos ao começo de tudo,
sem o qual esse post seria:
nada

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então, a mesma pessoa que me enviou o link, dançar com uma sombra, que abre este post, me enviou, mp do dia seguinte a seguinte mensagem:

ainda não vi o américas (sou terrível). o américas só a leitura da página de entrada, a figura da cabeça de francisco... me encaminhou para ler a encíclica laudato sí que nunca tinha lido... e acabei lendo as notas com vontade de compartilhar contigo duas notas:

nota 1. francisco, carta enc. lumen fidei (29 de Junho de 2013), 34 [AAS 105 (2013), 577]: «enquanto unida à verdade do amor, a luz da fé não é alheia ao mundo material, porque o amor vive-se sempre com corpo e alma; a luz da fé é luz encarnada, que dimana da vida luminosa de jesus. a fé ilumina também a matéria, confia na sua ordem, sabe que nela se abre um caminho cada vez mais amplo de harmonia e compreensão. deste modo, o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, em toda a sua riqueza inesgotável. a fé desperta o sentido crítico, enquanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas fórmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa. convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes da razão para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ciência»

nota 2. um mestre espiritual, ali al-khawwas, partindo da sua própria experiência, assinalava a necessidade de não separar demasiado as criaturas do mundo e a experiência de deus na interioridade. dizia ele: «não é preciso criticar preconceituosamente aqueles que procuram o êxtase na música ou na poesia. há um “segredo” subtil em cada um dos movimentos e dos sons deste mundo. os iniciados chegam a captar o que dizem o vento que sopra, as árvores que se curvam, a água que corre, as moscas que zunem, as portas que rangem, o canto dos pássaros, o dedilhar de cordas, o silvo da flauta, o suspiro dos enfermos, o gemido dos aflitos…» [eva de vitray-meyerovitch (ed.), anthologie du soufisme (paris 1978), 200].

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falando em «captar o que diz o vento que sopra»
me lembrei de... yupanqui

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«aquele que for capaz de entender a linguagem e o rumo do vento, de compreender sua voz e seu destino, achará sempre o rumo, alcançará o verso, penetrará o canto.»

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en lo alto de la sierra me detuve a descansar
en lo alto de la sierra me detuve a descansar
pero sentí que me iba sin moverme del lugar
pero sentí que me iba sin moverme del lugar

los ojos se me perdieron en aquella inmensidad
los ojos se me perdieron en aquella inmensidad
y me olvidé de mi mismo tanto mirar y mirar
y me olvidé de mi mismo tanto mirar y mirar

de pronto me ha preguntado la voz de la soledad
de pronto me ha preguntado la voz de la soledad
si andaba buscando el cielo y yo respondí: "quizás"
si andaba buscando el cielo y yo respondí: "quizás"

el cielo está dentro de uno y está el infierno también
el cielo está dentro de uno y está el infierno también
el alma escribe su libros pero ninguno los lee
el alma escribe su libros pero ninguno los lee

aveces uno camina entre la sombra y la luz
aveces uno camina entre la sombra y la luz
en la cara la sonrisa y en el corazón la cruz
en la cara la sonrisa y en el corazón la cruz

búscalo al cielo en ti mismo que allí lo vas a encontrar
búscalo al cielo en ti mismo que allí lo vas a encontrar
pero no es fácil hallarlo pues hay mucho que luchar
pero no es fácil hallarlo pues hay mucho que luchar

por camino solitario yo me puse a caminar
por camino solitario yo me puse a caminar
por fuera nada buscaba, pero por dentro quizás
por fuera nada buscaba, pero por dentro quizás

link

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[versão: enrique bunbury]

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não sei por que
mas a transcendência, a interiorização do sagrado e a despersonalização do eu diante da natureza
em yupanqui
me levou naturalmente a alberto caeiro
e seu poema «há metafísica em não pensar em nada»

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o que penso eu do mundo?
sei lá o que penso do mundo!
se eu adoecesse pensaria nisso

link

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[mundo dos poemas]

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e a canção de gieco?

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então, através de «pensar en nada», león convida o ouvinte a refletir sobre as prioridades da vida e as consequências de uma sociedade focada no materialismo e na competição.

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«ainda ontem percebi
que é só uma questão de dinheiro
enquanto dez guichês cobram
apenas um é que paga

de como as pessoas pensam
às vezes a diferença
é tão grande que parecem
seres de outra terra

no escritório do trabalho,
com a chegada do ano novo,
todos brigam por
aquela maldita promoção

com a dose de frustração,
alguns veem a vida cor-de-rosa;
a cidade fica cada vez maior
e cada vez mais perigosa.»

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em resumo
o simples está em não ter a urgência dos tolos, mas a necessária sabedoria do fluir natural em que pensar em nada basta e é bastante coisa.

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e o que me dizem daquela casa solitária
que se vê de um avião
talvez na solidão não haja dor
de pensar, de pensar em nada

link

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ao vento

anos atrás
em uma pizzaria da cidade
numa charla que foi até quase a madrugada
como resumo da minha fala
eu disse
«tá tudo em shakespeare»
ou seja
nossa história já foi contada
já vimos tudo e não aprendemos nada

grill

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crônica familiar
(fragmento)

se o homem não existisse quem poderia criar algo mais maravilhoso capaz de enunciar mais pensamentos num momento que todos os computadores do mundo, capaz de escrever peças como shakespeare, filosofias humanistas como marx, romances como cervantes, esculturas como rodin, quadros como van gogh, poesias como mário quintana, sinfonias como mozart, filmes como john cassavetes. esses homens que não citei ao acaso aproveitaram a vida que lhes foi concedida e a louvaram através da sua arte. se existe algum deus além do homem, esses que citei, certamente quando chegaram diante dele puderam dizer com orgulho: eu fiz a minha parte. e entretanto shakespeare morreu pobre e quase nada se sabe além disso da sua vida, cervantes quase morreu na prisão, aliás no mesmo dia em que shakespeare embora jamais houvessem sabido da existência do outro, marx morreu na mais extrema penúria num quartinho de um bairro pobre de londres, rodin morreu de frio esmolando ao governo um lugar para morar, mozart morreu numa vala comum, van gogh enlouqueceu e se suicidou, mário quintana morreu pobre num quarto de hotel, despesas pagas por amigos. por duas vezes essa feira senil de vaidades burguesas que é a academia brasileira de letras (onde estão sarney, maciel e paulo coelho) lhe negou o ingresso. e quintana que pouco se importava com as glórias do mundo, queria mesmo era o jeton que os acadêmicos recebem para viver um pouco melhor. finalmente, cassavetes, morreu jovem e estigmatizado por hollywood por querer fazer filmes que falavam da vida, do homem e de como é ser homem e estar no mundo. são seres como esses que dão um sentido à vida e não os reis, os generais, os presidentes, os tiranos de um modo geral. os verdadeiros heróis -como jesus cristo cujo mais belo milagre foi acreditar-se filho de deus- só são louvados depois que estão definitivamente mortos; depois que os canalhas têm certeza de que não retornarão.

fausto wolff | la insignia. brasil, junho de 2004.

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- e agora o que faremos?
- poesia, esses canalhas não suportam poesia

rafael corrêa

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segue o teu destino

segue o teu destino,
rega as tuas plantas,
ama as tuas rosas.
o resto é a sombra
de árvores alheias.

a realidade
sempre é mais ou menos
do que nós queremos.
só nós somos sempre
iguais a nós-próprios.

suave é viver só.
grande e nobre é sempre
viver simplesmente.
deixa a dor nas aras
como ex-voto aos deuses.
vê de longe a vida.
nunca a interrogues.
ela nada pode
dizer-te. a resposta
está além dos deuses.
mas serenamente
imita o olimpo
no teu coração.
os deuses são deuses
porque não se pensam.

ricardo reis

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voltemos a yupanqui e a caeiro

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em caeiro: pensar sobre o mundo é «adoecer». o pensamento intelectual gera angústia desnecessária.

em yupanqui: a busca externa gera solidão, e a sociedade exige máscaras («no rosto o sorriso e no coração a cruz»). a escrita da alma é incompreendida pelos outros («a alma escreve seus livros, mas ninguém os lê»).

caeiro olha para fora (para a natureza) e descobre que não precisa pensar; yupanqui olha para dentro (para a própria alma) e descobre que não precisa procurar.

o desfecho de ambos é um retorno à simplicidade, uma espécie de "minimalismo existencial".

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e chico e caeiro?

caeiro em «há bastante metafísica em não pensar em nada» tira deus do centro para colocar a natureza; chico em «sobre todas as coisas» questiona deus para colocar o amor humano no centro. ambos recusam a ideia de um universo que existe apenas para adoração cega.

trocando em miúdos:

ambos concordam que a criação (seja ela fruto de deus ou da natureza) não existe para servir ao ego de um «senhor».

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falando em servir ao ego de um «senhor»
lembrei de vitor e dylan

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você pode ser rei no país do futebol
pode ser viciado em bingo e nunca ver a luz do sol
você pode ser um mago e vender livros de montão
pode ser uma socialite, enriquecer vendendo pão

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

pode ser incendiário e fazer um índio arder
você pode ser o índio vendo a chama acender
pode ser um bom ladrão, pode ser um mau juiz
pode ter um passado limpo, pode ter uma cicatriz

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode estar na mídia sem saber porque
você pode ser dono de uma rede de tv
você pode dar o fora tendo tudo pra ficar
adotar um nome diferente, você pode mesmo se isolar

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode trabalhar na construção civil
pode estar desempregado, com a vida por um fio
você pode ter poder, fazer coisas que ninguém fizer
pode ter mulheres numa jaula, pode ter as drogas que quiser

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode desejar a cura com lacan
você pode procurar os serviços de um xamã
você pode ser um pregador, chutar os santos do altar
você pode ter um bom discurso, você pode nem saber falar

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode ser demente, pode ser doutor
você pode ser sincero, pode ter rancor
você pode ser um crente, você pode ser ateu
pode ser um leitor vaidoso ou uma miss que nunca leu

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

você pode ser turco, pode ser nissei
pode estar ali na esquina, estar onde jamais pensei
você pode me adular, você pode me esquecer
você pode estar me ouvindo agora, você pode mesmo nem saber

mas um dia vai servir a alguém, é
um dia vai servir a alguém
seja ao diabo
ou seja a deus
um dia você vai servir a alguém

links

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«os assentos estão vazios. o teatro está escuro. por que segues atuando?»

bukowski

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« - esse homem vai carregado de sofrimento.
- como sabe?
- não vê que só o pé esquerdo é que pisa com vontade? aquilo é peso de coração.
explica-me que sabe ler a vida de um homem pelo modo como ele pisa o chão. tudo está escrito em seus passos, os caminhos por onde ele andou.
– a terra tem suas páginas: os caminhos.»

mia couto | em: um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.

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você que deseja conquistar a dor
deve aprender o que me torna amável
as migalhas de amor que você me oferece
são as migalhas que eu deixei para trás
sua dor não é credencial aqui
é só uma sombra, sombra da minha ferida

link

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[legendado em português]
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#salacheguevara
#casadosaedis
#américas